República de Tigres
36 Capítulo 36
Notas iniciais
Você se lembra, Sean?
Você era bem pequeno, talvez tenha vagas lembranças e apenas isso. Mas se seu carro está estacionado em frente ao hospital, ainda que não tivesse mais nada pendente para resolver lá, certamente algo tomou conta de suas lembranças.
Por que só agora você sente isso? Por que não antes quando esteve aí para dar apoio ao grande amor da sua vida? É, seus pensamentos estavam tão focados no leonino que você sequer teve espaço para lembrar disso agora.
E olha que você ia embora, mas essas luzes fortes do hospital te deram uma descarga de lembranças que nem mesmo você se reconhece. Foi seduzido, hipnotizado, forçado a parar e tentar lembrar.
Não é muito difícil, é? Se esforce um pouco mais e você terá a resposta.
Devagar, o moreno saiu do seu carro e observou todo o estacionamento, dando uma volta no próprio lugar que estava. Ele tinha certeza de que já esteve ali, mas as coisas tinham avançado, porém, mesmo assim, ele sentia já ter estado ali. E não foi recentemente... Faz muito tempo. Muito tempo!
Sean então caminhou para a entrada do hospital, como um lunático, desligado de tudo ao seu redor, seguindo sua intuição. Seus pés estavam guiando-o e ele apenas se deixava levar, mesmo não sabendo para onde estava indo, mas sabia que queria ir a esse lugar.
— Senhor?
Uma voz foi necessária para pará-lo. Sean se virou e, diferente daquele olhar frio e penetrante, ele tinha no rosto uma expressão calma, mas ao mesmo tempo confusa, ingênua.
— Pois não? — questionou ele.
— Para onde está indo?
— A maternidade.
— Poderia me passar seu nome?
— Suzana Ferazza, pesquise por esse nome.
A mulher, mesmo achando estranho, obedeceu e em minutos, surpresa, disse:
— Uma de nossas sócias.
— Minha mãe.
Sem pestanejar, a mulher falou:
— A maternidade fica à direita ao final do corredor, à esquerda fica o berçário maternal.
— Obrigado.
Sean seguiu sem se despedir da mulher. Caminhava muito lentamente, chegou ao final do corredor e seu coração pediu para que ele virasse à esquerda, lugar onde ficava o berçário.
Antes de decidir prosseguir, Sean fechou os olhos e se forçou a lembrar do seu passado. Por que aquele lugar o chamava tanto? Ele já estivera ali antes, não sabia quando e por qual motivo, mas sabia que já estivera naquele mesmo lugar, naquele mesmo berçário. Não entendia como tinha certeza disso, era uma loucura.
Quando abriu os olhos, Sean se deparou com um pequeno espaço e logo depois um novo corredor. Nesse pequeno espaço havia uma parede de vidro transparente, exatamente para separar os bebês do berçário dos que estavam ali para vê-los, mas não podiam tocá-los.
Sean caminhou em passos lentos e parou em frente a parede de vidro, alguns bebês estavam lá, alinhados em fileiras. Uns dormindo, outros chorando, uns inquietos.
Você se lembra, Sean?
Há 20 anos você esteve aí, perto de completar seus cinco anos de idade, estava na ponta dos pés, esforçando-se para ver um rosto de um bebê, próximo ao vidro, de belos olhos brilhantes e castanhos que estava parado, quieto, encarando-o.
Você não sabia o que sentia, tocou o vidro com a palma da mão aberta e encarou o bebê. Sorriu para ele, sentiu algo, não soube explicar, mas não conseguiu prestar atenção em outros bebês, apenas naquele. Parecia que só existia ele ali dentro, olhando para você, mexendo as mãozinhas.
O bebê te olhava como se estivesse descobrindo o mundo, como se estivesse lendo a sua alma. É certo que sua visão não está 100% formada, ele nem sequer consegue te ver direito, afinal, era a primeira vez que ele abriu os olhos desde que saíra do ventre de sua mãe.
Você queria falar algo, mas pensou: “Qual a língua dos bebês”? Você sorriu mais uma vez e acenou. Seus pés doendo pelo tempo que estava se forçando a ficar na ponta deles, mas ainda assim você se negava a se afastar do vidro.
Você se lembra, Sean?
Você sabe qual o nome dele?
— Colin Manson. — disse uma voz atrás de você.
Você não sabia quem era aquele homem careca acompanhado de uma mulher loira, nem se aquele nome era do bebê que tanto te olhava.
Retornando sua visão ao bebê, você o assistiu fechar os olhos lentamente, sendo ele levado ao sono. Enquanto isso, você ficou lá por mais alguns minutos mesmo com a voz da sua mãe surgindo:
— Vamos, Sean, já resolvi minhas pendências.
Sean nem prestou atenção na sua mãe, persistia olhando para o bebê.
— Sean, está me ouvindo? Vamos.
Quando então sua mãe o pegou pela mão, ele foi praticamente arrastado e nem sequer se despediu.
Sean, você esteve lá quando o Colin nasceu.
Colin, a primeira pessoa que você viu quando abriu os olhos, ainda que não nitidamente, foi o Sean.
Isso explica a tamanha ligação que eles têm, como quando um sente que o outro não está bem, ainda que distantes. Quando Colin teve a sensação ruim no dia do acidente do moreno, da mesma forma quando Colin foi sequestrado e Sean pôde também sentir.
Há uma conexão.
Diferente de Danion e Caine que não sabem de que um dia já se viram quando garotinhos, o seu caso é diferente. E sabe por que? Porque você se lembra, Sean.
[...]
— Nunca vi você tão nervoso. — Danion disse para Caine que estava andando de um lado para o outro em seu quarto.
— É claro que eu tenho que ficar nervoso.
— Minto. Eu já vi você assim.
— Viu? — Caine até parou.
— Sim. Refeitório. Tem alguns anos. Lembra?
Caine suspirou.
— Você mereceu.
Danion o lembrou do dia em que Caine se revoltou completamente, atingindo-o, inclusive, lhe deu um tapa na cara, atingi-lo com uma bandeja e até mesmo soca-lo.
— Você falou até palavrão.
— Eu tô estressado, Danion, não me provoca!
— Tá bom, tá bom. Vou ficar quieto senão eu apanho.
Mas Caine já estava próximo da porta quando ele disse isso, em seguida a abriu e passou. Danion se levantou as pressas para correr atrás dele, já o encontrou abrindo a porta de saída da sala.
— Tem certeza de que vai fazer isso?
— É claro! Mexeram com meu melhor amigo. E depois dele ter perdido o pai, eu tenho mais certeza ainda de que tenho que fazer o melhor para manter o Colin bem aqui.
— Mas você tá de cabeça quente.
— Sim. Tenho que ficar.
— Quer saber? Faz o que você quer mesmo. Taca fogo nessa desgraça.
Era Danion, por que duvidar? Ele sempre gostou da bagunça.
Caine não falou nada.
Os dois foram juntos até a república atrás de um membro. Um membro em específico.
Ao chegarem à porta, Caine bateu e aguardou. Estavam demorando, ele bateu novamente até que um garoto negro surgiu.
— Quero falar com a garota que mora aí.
— A Larah?
— Exatamente.
— Algum problema, Caine? — ele perguntou preocupado.
— É melhor chamar a garota. — Danion tomou a voz e disse.
Para o garoto negro era uma surpresa ver Caine em sua república, mas não por ele estar ali, mas porque era claro que ele estava irritado. Quem já viu o Caine irritado desse jeito? É raro.
Rapidamente a garota apareceu com o garoto, ela, com a barriga crescida, encarou Caine sem muita vontade, parecia ter sido interrompida em algo muito importante, por isso não estava satisfeita por atrapalharem.
— O que é?
— Arrume suas coisas e vá embora daqui. — Caine, sem muita enrolação, falou a olhando nos olhos.
Danion ficou surpreso com o quão direto ele foi.
— O quê? — questionou ela debochando com um sorriso no rosto.
— Não preciso repetir.
— Quem é você e o que pensa que é?
— A única pessoa que atualmente tem o direito de expulsar todo aquele que prejudica a imagem da Quadra.
— Prejudica a imagem da Quadra?
— Estupro! — ele elevou o tom de voz.
— Você só pode ser amigo daquele ex-namorado dele.
— Sou mesmo. E ninguém faz mal ao meu amigo na minha frente. Eu vou te dar até amanhã para sair daqui.
— Lins, você ouviu isso? — ela questionou ao garoto negro.
Ele engoliu em seco.
— Infelizmente não posso fazer nada. Ele tem o direito.
— Como?
— Não me force a chamar meus amigos para arrastá-la daqui.
—Prove que eu o estuprei. — ela o desafiou.
— Eu não preciso provar nada. Apenas obedeça e saia daqui. Você tem até amanhã.
Caine se virou e foi embora. Danion ficou parado por alguns segundos e disse.
— Escutou, né? Até amanhã. Ou você vai passar vergonha sendo arrastada. — ele riu e se afastou.
Danion correu para alcançar o namorado e pôs a mão no ombro dele. O branquelo não podia negar que estava surpreso, mas alegre pela atitude do namorado.
— Não o quero ver assim comigo.
— Então é melhor tomar cuidado. — disse o pequeno sem olhá-lo.
— Credo, hoje você tá que tá.
[...]
Sean tinha acabado de estacionar o carro na garagem da sua casa.
Desde sua separação com o Colin e sua saída da república dos tigres, seu pai tinha alugado aquela casa para ele. Deveria ter sido uma casa simples, mas Joe, mergulhado na grana, não mediu esforços na escolha, incluindo até piscina nos fundos. Geralmente, as casas de Queen Anne, o bairro, são antigas e charmosas, local bem desejado e próximo ao centro da cidade, por isso o preço do terreno é bem alto.
Entrando em casa, Sean retirou logo sua camisa e foi para a cozinha beber água. Depois de beber praticamente metade da garrafa, ele buscou por uma toalha, tomou um demorado banho de água morna na banheira, relaxando ao máximo depois daquela viagem tão cansativa.
E fazia tudo isso pensando no seu ex-namorado.
Após o banho, ele se secou ainda no banheiro e saiu pelado com a toalha no ombro, mas quando a campainha da sua casa tocou, Sean até cogitou em atender, mas verificou a hora no relógio na parede e viu que já se aproximava das 22 horas, por isso ignorou.
Dentro do quarto, o leonino vestiu sua cueca e um calção confortável enquanto a campainha, freneticamente, tocava. Impaciente, ainda secando o cabelo na toalha, ele se dirigiu à sala, abriu a porta e, sem surpresa alguma, deu de cara com a sua mãe.
Suzana, com a típica expressão de quem comeu e não gostou, estava segurando uma bolsa preta e vestida elegantemente acompanhada de Larah já com a barriga visível da gravidez. Reclusa, a garota nem teve coragem de olhar para ele, mas a mulher mais velha fuzilava o filho com os olhos.
— Por que demorou tanto para atender?
— Já viu que horas são? Como diabos você sabe onde eu moro?
Com toda autoridade que tinha, Suzana entrou na casa e começou a avaliá-la, querendo saber se a casa era realmente digna de ter seu filho ali. Se agradando do que via, ela não teve do que reclamar, achou a altura do Sean e por isso engoliu as ofensas.
— Hein? — Sean questionou.
— Sou sua mãe, tenho o direito de saber onde você está morando. Seu pai me contou.
Sean fechou o punho e já cogitava ligar para Joe reclamando.
— Onde você esteve por esses dias que não atendeu o meu celular? Eu vim aqui algumas vezes e não o encontrei.
— Deveria ter desistido de me procurar, então.
— Vi seu carro, então sabia que estava aqui. Não brinca, Sean. Onde você estava?
— Isso importa?
Larah, ouvindo a discussão, tomou a liberdade para se sentar no sofá, quieta, sem querer incomodar.
— Claro que importa! Você foi se encontrar com aquele garoto, não foi?
— E se eu fosse?
— Você não deve! Você vai ser pai! Quer que seu filho cresça sabendo que o pai dele trocou a mãe por um homem?
Sean só queria mandá-la ir para aquele lugar, mas ainda tendo respeito pela mãe e engoliu a ofensa.
— O pai dele morreu.
— O pai dele está bem vivo e aqui na minha frente.
— O pai do Colin morreu.
Suzana se calou, ela engoliu em seco. Mas não deu o braço a torcer.
— Não me importo com isso, você não deve ficar de encontro com aquele garoto. Ele mesmo terminou com você na nossa frente.
— Não está feliz? — Sean a encarou. — Vai mesmo fingir que está tudo bem após saber da morte do pai do Colin? Do homem que colocou você no lugar?
— Posso ser o que você quiser que eu seja, mas eu não brinco com a morte de ninguém.
— Fala isso então quando lembrar do irmão do Colton. — disse ele afastando-se dela, puxando uma cadeira e se sentando.
— Sean!
Suzana realmente ficou ofendida com aquilo, apesar de fria, ela não assassinou ou zombou da morte de ninguém, apenas agia como médica.
— O que é? Eu estou cansado, eu quero dormir.
Buscando se controlar, Suzana abaixou a cabeça, arrumou o cabelo atrás da orelha, refletiu por uns segundos e finalmente decidiu encarar o filho.
— A garota vai morar com você.
— Nem a pau. — disse ele imediatamente.
— Vai sim! Ela é a mãe do seu filho. Se quer ser visto como um bom pai, você deve acompanhar a gravidez dela. Aquele seu amigo a expulsou do lugar que ela estava morando.
— Você tá louca? — ele perguntou ao se levantar. — Eu não consigo nem olhar na cara dessa garota nojenta e você quer que eu more com ela?
Larah finalmente o olhou, pensou em se defender, mas não fez.
— Vai deixá-la sozinha?
— Claro! Cuido do bebê à distância.
— Admitindo que é seu? — Larah, então, se revelou.
— Vai se foder. — sentiu até alívio ao falar. — Eu disse que cuido do “bebê”, não do “meu filho”. Você que diz que é meu filho, estou apenas te fazendo caridade para deixar de pegarem no meu pé.
— O exame de DNA confirma. — Suzana se meteu na conversa.
— E eu não acredito.
— São provas, você não se lembra nem do que aconteceu. Sean, se você me ouvisse, não estaria passando por isso. Quem manda encher a cara? Todo homem é babaca assim, engravida uma garota e depois resolve abandoná-la. Não foi assim que te criei.
— Se eu pudesse provar o que aconteceu, eu denunciaria essa garota por ter me estuprado.
— Ah, como se eu fosse brincar com isso. — Larah falou. — Você quis, Sean. Você quis!
— Chega! — Suzana veio logo em seguida. — Não é assim que um casal se vive.
— Tá pensando mesmo que somos um casal? — ele até suspirou com um sorriso de lado. — Pra mim já chega, leve a garota daqui. — disse ele se dirigindo a porta e a abrindo.
— Sean, o exame de DNA comprova que você é o pai, a garota está sozinha, vai mesmo precisar que eu use das autoridades?
— Faça o que você quiser.
— Mas é o que aquele garoto queria.
Suzana era tão baixa que precisou relembrar ao Sean o motivo que gerou seu término. Colin ficaria feliz sabendo disso? Sua mente entrou em colapso mais uma vez e, agora, Colin dominava seus pensamentos só de imaginar o que era certo ou não.
— Não fui eu que pedi isso. Aquele garoto quis que você tomasse a decisão correta e a decisão correta era cuidar da sua geração.
Sean largou a porta e esfregou o rosto.
— Então estamos decididos. A garota fica aqui aos seus cuidados.
Encarando Larah, Sean balançava a cabeça negativamente para a garota. Por que estava começando a sentir pena? Pena dela ou do bebê que ainda nem nasceu? Por que não se lembrava de nada? Se tivesse uma única lembrança, tudo mudaria. Mas ele realmente estava tão incerto que não podia fazer nada a não ser ter que aceitar seu destino.
— Ela vai se arrepender de morar aqui.
— Não vai. — Suzana tomou a resposta da garota.
Larah, com sinceridade, não queria estar morando ali com ele.
— Sabe o que é mais engraçado? É que você nesse momento acaba de mostrar que concorda com o Colin, tanto é que o usou para me convencer. — disse o moreno.
— Como?
— Ah, se ele não tivesse o coração grande, eu estava nesse momento chamando a polícia para vocês duas. É por ele que eu vou ter que aceitar essa garota aqui.
Suzana, levemente ofendida, não teve resposta. De fato, estava concordando com o Colin. Sean precisava cuidar do bebê. Mas isso não foi a única coisa que o fez tomar a decisão, mas essa coisa ele não queria admitir.
— Não tenho o porquê de perder mais tempo aqui. Trouxe a garota, fiz o meu trabalho. Espero que você cuide dela.
Suzana, aproveitando a porta aberta, saiu da casa, deixando Sean e Larah sozinhos.
Sean ficou alguns minutos encarando a garota, mas fechou a porta e saiu da sala, largando-a sozinha no cômodo. Ele foi para o seu quarto e fechou a porta com tanta força que o barulho estremeceu a casa.
Sean se jogou na sua cama e ficou encarando o teto, como as coisas tinham tomado um rumo tão diferente do planejado? Seu sonho número 1 é o de ser pai, mas olha como isso aconteceu. A sua felicidade se resumia em construir uma família com Colin justamente porque teve uma base família completamente desestruturada.
A medida em que seus pensamentos iam preenchendo sua mente ele ouviu Larah bater à porta. Sean nem ousou se levantar da cama, ficou quieto enquanto ela insistia batendo devagar.
— Sean. — chamou a garota.
O moreno não respondeu.
— Onde irei dormir? Posso comer alguma coisa?
Sean não respondeu, mas Larah insistia até que ele perdeu a paciência, se levantou brutamente e abriu a porta.
Com o susto, Larah recuou e tocou a barriga.
— Porra, procura qualquer lugar. Dorme no inferno, come o que quiser, mas só me deixa em paz e finge que não existo.
Depois de dito isso, Sean bateu a porta novamente e se lançou na cama.
[...]
Charles já não mancava mais, no entanto ainda tinha algumas marcas pelo corpo. Aquele é o primeiro dia, após ser espancado pelo pai, que ele retorna para a universidade. Como era antipático, nenhum colega de classe se atrevia a perguntar sobre seu sumiço, por isso ele caminhava tranquilamente, de cabeça erguida e sem olhar para ninguém.
Mas quase caiu esparramado no chão quando seu primo, Brandon, segurando dois livros e uma mochila nas costas, trajando roupas brancas e o sapato da mesma cor, se colocou a sua frente.
— Merda, que susto! — reclamou o moreno.
— Que susto digo eu. Onde você se meteu? Todos os dias eu vim na sua classe saber sobre você. Por que não me atendia? — Charles suspirou. — Que marcas são essas no seu corpo? — perguntou o loiro.
— Você ainda não sabe?
— O que eu deveria saber?
Charles achava que a essa altura todos da família já sabiam que ele tinha sido expulso de casa, mas pelo visto ainda não. Mas ele cogitou a ideia do fato de Brandon ser muito atrasado e o último a saber das coisas, talvez a notícia não chegou ao ouvido do primo.
— Essas marcas no meu corpo são do que o seu tio fez.
— Ele te bateu?
— Ele me espancou e ainda me expulsou de casa. — disse ao passar por ele, caminhando.
— O quê?! — assustado, Brandon o seguiu.
— Isso mesmo. Agora estou na rua.
— Você dormiu na rua durante todos esses dias?
— Não, mas provavelmente teria dormido.
— Muita coisa aconteceu desde que o Sean causou toda aquela confusão.
Charles engoliu uma pedra de gelo quando escutou o nome do seu primo.
— Minha mãe brigou com o vovô. Também fomos expulsos da família, agora tá uma confusão, não sei quando isso vai se consertar. Mas acho que foi melhor assim. Sean me expôs no casamento e agora meus pais sabem que eu namoro o Kai.
— Namora, é?
— É... — disse constrangido. — Desculpa se isso incomoda você.
Charles ficou quieto.
— Não me incomoda, não mais. Você é dono da sua vida.
— Sean também te expôs. Na verdade, ele expôs praticamente todo mundo.
— Então foi por isso que meu pai descobriu onde eu estava. — disse ele pensativo, esquecendo-se, por um segundo, que Brandon estava ali.
— Que você estava se pegando com alguém? O Sean falou isso, mas até agora eu não sei quem. — disse sem pestanejar, para ele era um assunto simples... assim ele achava.
— Eu não estava com ninguém. — falou.
— Não importa, um dia você vai me falar a verdade. Mas Charles, onde você está morando?
“Que intimidade é essa que ele pegou comigo repentinamente?” pensou o moreno. “Falar que verdade?” continuava pensativo. “Eu não devo contar detalhes da minha vida para ninguém”.
— Não posso contar.
— Por que não?
— Porque não quero que nenhum Ferazza saiba onde eu estou.
— Mas eu sou seu primo, poxa, não vou contar para ninguém. Ia até te oferecer um quarto lá no apartamento que estou morando com o Kai.
Interessado, Charles já se arrependeu de ter sido grosso.
— Tem vaga lá?
— São dois quartos, mas eu durmo com o Kai. Então tem um sobrando.
— Eu aceito.
Os dois pararam em frente a porta da sala do mais novo.
— Está falando sério? Pensei que não queria que ninguém soubesse onde você estava.
— E você não vai contar. — disse firme, encarando-o com os belos olhos verdes. — Ninguém deve saber, nem seus pais. Quero que pensem que eu morri, que eu sumi do mapa.
— E quando eles forem me visitar?
— Eu me escondo e você inventa qualquer desculpa.
— Então você pode ir hoje.
— Não. Hoje eu não posso, mas amanhã irei. Me mande o endereço mais tarde.
Agradeça, Charles, agradeça ao Brandon por ter um coração tão generoso a ponto de suportar sua grosseria.
— Está bem, vê se dessa vez atende minha ligação. Eu vou indo.
— Você é o melhor primo. — ironizou com um sorriso no rosto e logo em seguida entrou na sua sala.
Charles entrou na sala e se sentou bem no fundo, na última cadeira do canto, próximo à janela. Por lá ele ficou a fim de evitar olhares. Mas a aula, que era o motivo que o levou a estar ali, ele não prestou a atenção. Passou a maior parte do tempo arquitetando seu plano, se perdendo em pensamentos e observando o céu nublado.
Estava também pensando no que faria mais tarde, se a ideia daria certou ou não. Não é que a ficha tenha demorado a cair, mas agora ele sabia que precisava se sustentar, afinal, não tinha mais os pais para bancar sua faculdade.
Faltando um mês para o fim do período, alguma coisa ele precisava fazer para resistir até lá e, depois disso, ingressar por bolsa.
Como faria para alcançar seus objetivos? Ser bonzinho não estava na sua lista. De uma coisa ele tinha certeza: não era o mocinho das histórias que existem no mundo. Seu papel era o de antagonista, isso o destacava.
Enquanto a aula prosseguia, ele por um momento desviou seus olhos para a porta e lá estava quem ele não queria ver por um momento, embora estivesse precisando dele para algo: Calvin.
O leonino, insistentemente, o chamava para fora da sala, mas Charles negava com a cabeça, não se sentindo pronto para encará-lo e responder suas perguntas. Afinal, havia sumido do mapa e Calvin foi a última pessoa que o viu antes do espancamento.
Calvin estava o chamando com acenos, Charles rejeitava. Até o momento em que o professor também olhou para a porta e aí, Charles, com muita raiva, olhou para a janela.
— Algum problema? — questionou o professor para o Calvin.
— Preciso urgentemente conversar com o seu aluno.
— Qual aluno?
— O Charles.
Quando ouviu seu nome, Charles fez de desentendido, olhando para a porta e se levantando como se não soubesse de nada. Ele passou pelo professor com um sorriso falso e depois passou por Calvin sem cumprimentá-lo.
— Precisava disso? — Charles questionou assim que se viu longe da sua sala.
— Você tem ideia de quanto tempo eu procuro por você?
— Esperava minha aula acabar.
— Você iria fugir.
— Você deixaria?
Calvin não respondeu, Charles foi muito inteligente na pergunta.
— O que você quer? — perguntou o tigre, membro da falecida república.
— O que eu quero? O. Que. Eu. Quero? — disse pausadamente. — Eu quero saber de você. Seu pai te bateu, não foi? Essas marcas...
— Eu estou bem. Isso é o que importa.
— Por que não me procurou?
— Iria bater no meu pai por minha causa?
— Só não iria deixar ele bater em você.
Charles riu como se a ideia fosse estúpida.
— Por que está tão preocupado comigo?
— Não deveria? Eu estava com você quando seu pai o chamou àquele dia.
— Se estiver criando sentimentos por mim, pare por aí. — muito direto, Charles disse.
Calvin até engasgou, mas sem nenhum gesto ou ação. Engoliu as palavras de Charles sem um gole d’água para ingerir com facilidade a dureza daquela frase. Estava mesmo criando sentimentos mais fortes pelo Charles? Nem ele sabia a resposta.
— Estou preocupado com você, isso não significa que estou amando você. — disse o dono dos olhos azuis.
Os dois ficaram em silêncio.
— Onde você está dormindo?
— Não posso contar.
— Por quê?
— Porque não quero ninguém atrás de mim.
— Que merda você tem hoje?
— Nada, Calvin. Eu realmente só não quero contar onde eu estou. Prefiro ficar sozinho.
— Eu só quero ajudar.
— Ajuda me deixando sozinho.
— Tá bom. Não vou insistir.
— Mais alguma coisa?
— Posso pelo menos me aproximar de você quando o encontrar por aí?
Charles, propositalmente, demorou a responder.
— Pode.
— Então podemos ir ao refeitório juntos quando você estiver livre?
— Seja sincero: você tá criando sentimento por mim?
— Não! Claro que não! Eu só estou preocupado com você. — disse ele apressadamente.
Charles o encarou duvidando.
— Eu vou indo. — Calvin, sem graça era até fofo, Charles não quis admitir, mas sentiu algo em si tão rápido que até se assustou.
— Eu tenho seu número.
— Você tem o número do Reece.
— Coloque então o seu número aqui. — disse entregando o celular.
Após digitar e salvar o contato, Calvin devolveu o celular.
— Eu te ligo.
— Não acredito muito, mas aguardarei.
Charles não disse nada.
Ambos ficaram parados, se encarando. Sim, aquele momento era o que dizia que eles deveriam se beijar. A química estava clara. Ambos engoliram em seco, mas não desviram os olhos.
— Ok, eu vou entrar. — disse o menor já dando as costas.
Calvin apenas o assistiu partir.
[...]
Mais um dia no estúdio Green Leaf. Desde que Connor foi contratado por Michael Supitt, proposta essa recebida recentemente, ele ia ao local quase todos os dias, sempre acompanhado do namorado, Ian, que não o deixava sozinho, embora quisesse, mas Connor dizia que sua presença o deixava mais confortável, mais seguro.
Ian estava feliz pela conquista do namorado, sendo chamado para apresentar os vídeos mais visualizados do momento no programa do Michael. Era um quadro curto, sem muita exclusividade, mas que já tinha alavancado um pouco mais o número de visualizações em seus vídeos do youtube, transformando-o em um dos youtubers mais influentes da sua geração em Seattle e levantado a audiência do programa. Por outro lado, Ian estava tendo que engolir seco as cantadas descaradas que o Mr. Suppit dava em seu namorado, que não percebia e achava engraçado, enquanto o leonino de cabelos pretos sabia perfeitamente o que aquele homem com pouco mais de cinquenta anos queria com o Connor.
— E então, hoje vai aceitar mudar o cabelo e fazer maquiagem? — Michael perguntou antes das gravações.
— Ah, não. Tá bom assim.
— Felizmente você é muito bonito, as garotas e... Os garotos... — ele sorriu maliciosamente e olhou para Ian — Não param de elogiar sua beleza na página do nosso programa. Eu sou tão sortudo por ter encontrado você.
Constrangido, Connor mostrou o belo sorriso.
— Vem, vamos, eu acompanho você na troca de roupas. — Michael tocou-lhe o ombro e o puxou para o provador.
Ian não precisou falar nada, seu olhar significou tudo para Connor que, engasgando-se, disse:
— N-não precisa, e-eu vou sozinho.
Significava dizer que Connor não era tão bobo assim.
— Ah, corta essa, eu não vou fazer nada demais. Sou seu patrão, lembra?
— Eu só não vou me sentir a vontade... — confessou o garoto em toda sua ingenuidade.
Michael olhou para Ian e o leonino correspondeu com um sorriso cínico.
— Tudo bem, eu vou aguardar aqui com o seu namoradinho.
— Volto logo. — Connor, às pressas, saiu.
Depois que ele saiu, Ian, ainda muito calmo, disse:
— Sei suas reais intenções.
Ian podia não ser o garoto mais violento, briguento ou que busca confusão fácil. Ele era calmo, muito calmo, sempre buscando a paz por argumentos, mas ele também não tinha sangue de barata e não podia aceitar ver seu namorado sendo cantado descaradamente.
— Uma pena que ele seja tão burro e desatento. Você não é nada, como ele pode sentir tesão em você?
— Talvez ele goste dos mais novos. — foi logo na ferida do homem.
— Posso proibir sua entrada no estúdio se começar com piadinhas.
— Você acha que eu gosto de vim para cá? Venho porque estar aqui o deixa feliz. Ele alcançou uma das suas metas de vida, uma pena que tenha sido logo com você.
— Eu faço seu namorado mais famoso do que já é e é assim que você me trata? Deveria existir uma troca, uma simples troca.
— Tentar levar meu namorado para a sua cama é essa a troca? Desculpe, mas não.
— Você acha mesmo que vocês vão ter um “felizes para sempre”? Olha só para ele. Vem se consagrando mais e mais, logo você será esquecido e o universo dele vai ser apenas com famosos.
Ian foi atingido.
— Eu vou conseguir e você vai ter que aceitar quando ver meu nome estampado com o dele por aí. Um simples estudante não pode fazer nada contra poderosos como eu. Eu posso simplesmente torná-lo vilão se eu usar seu nome na mídia. Mas não quero dar fama a um ninguém como você.
Ian ficou calado, pois seu namorado retornou ao cômodo.
— Sobre o que estão conversando?
Sem graça, achando que Connor tinha o ouvido, Michael encarou Ian. O leonino, muito sério, agora com olhar frio, sorriu forçadamente para o namorado.
— Estávamos conversando sobre as futuras gravações. Vem cá, deixa eu arrumar esse colarinho.
Connor se aproximou e Ian começou a arrumá-lo ainda mais, inclusive levantando a calça dele que estava caindo. Finalizado, Connor deu-lhe um selinho rápido e virou para Michael.
— Estou pronto. Estudei todo o roteiro de hoje durante a madrugada.
— Ótimo! — alegre, embora forçado, Michael falou, enroscando seu braço ao dele.
Ian precisou engolir aquilo, não podia estragar a felicidade e nem a carreira do namorado que estava decolando na velocidade da luz.
Michael retirou Connor da sala e o levou para a área de gravações. Ian foi atrás, andando mais lentamente e pensando realmente no seu futuro com o namorado e a sua vida de famoso. E ele já via os primeiros indícios, todos os dias tem alguém para parar o seu namorado, pedir autógrafo ou tirar alguma foto.
Isso não significava dizer que ele estava triste por isso, mas o que lhe incomodava era o que Michael disse sobre o mundo da fama e a mídia.
Será que Connor ia se ludibriar com os holofotes e esquecê-lo?
[...]
Já estava tudo programado. Charles não ia perder aquela chance, principalmente depois de conseguir o notebook do Joshua emprestado e sugerir que ele saísse com o Edgar para um momento a sós, já que fazia dias em que eles não dormiam juntos enquanto o moreno tomava conta do quarto do ruivo.
Sim, Charles era folgado. Mas como Joshua estava apenas obedecendo ao loiro, seu namorado, ele não reclamava. E a ideia sugerida pelo moreno não era ruim, ele realmente achou que precisava de um momento a sós com o Edgar, afinal eles voltaram e precisavam esquentar um pouco as coisas.
Tendo o quarto inteiramente para si, sabendo que não teria perigo de ninguém aparecer, Charles estava apenas de cueca sentado em cima da cama com o notebook em suas coxas, acessando um site para maiores.
Após seu cadastro e todas as pendências possíveis, ele finalmente estava dentro como um membro de um dos maiores sites pornográficos.
Arrumou seu jaleco que estava jogando em cima da cama, arrastando-o para mais ao canto e suspirou.
A câmera ligou, ele posicionou o notebook numa cadeira, de modo com que todo seu corpo aparecesse. Charles sequer se preocupou em exibir o rosto, mas ele exibir sua face traria mais garantia em lucro.
— Ao vivo. — sussurrou ao voltar pra cama.
Quieto, sentado à cama, Charles apenas estava se visualizando, mas também observando no topo do canto esquerdo da tela o número de telespectadores que teria. Até o momento, ninguém apareceu.
De repente, 1, 2, 3, 10... Os números foram crescendo e aí ele apenas sorriu de maneira sexy sabendo que alguém estava o visualizando.
As mensagens começaram a surgir: “tira a cueca”, “morde o lábio”, “mostra o pau”. Todas sem nenhum pudor, aliás, isso nem existia naquele momento.
Mas Charles, não sendo burro, estrategicamente sabia que o melhor era sempre provocar.
Por isso ele se levantou e digitou: “Grana $$$$$”
Charles voltou a cama e abriu as pernas, esfregou as partes íntimas e subiu com a mão até o rosto, logo levou seu dedo polegar à boca e o mordeu.
O filho da puta era realmente sexy, tinha um poder de persuasão tão forte que as outras lives concorrentes estavam começando a perder para ele em questão de poucos minutos de exibição.
Logo, os primeiros dólares foram sendo depositados. A cada quantia depositava, ele fazia algo sexy.
Charles ficou de pé e virou as costas, ele deu um tapa na própria bunda e agachou até tocar com a mão no pé, deixando louco aqueles que estavam do outro lado da tela.
Novas quantias iam sendo depositadas, valores variados.
O sistema era o seguinte: o cliente compra créditos no site, isso garante a ele visualizar a câmera que queira por um minuto grátis, depois do tempo que passa, a cada dois minutos, 2 dólares é descontado dos seus créditos e ele permanece assistindo até seus créditos expirarem e assim ele renovar. Ele valor não vai todo para o stripper, que é o caso do Charles, ele ganha uma porcentagem disso, mas a depende da quantidade de pessoas que o assiste, ele pode render mais 500 dólares. Fora isso, o cliente também pode depositar a quantia que quiser de uma vez equivalente a minutos fixos. Por exemplo, 6 dólares equivale a 10 minutos, ganhando um desconto de dois dólares. Ou seja, em uma hora Charles ganha 36 dólares, ou seja, em uma semana ele estava com pouco mais de 252 dólares. Se ele dobrar para duas horas de exibição, esse valor sobe. Resumindo: por mês Charles pode lucrar mais de 1.000 dólares.
E para um novinho como ele, de traço bonitos e jeito safado, Charles parecia levar jeito para a coisa. O número de visualizadores ia subindo, da mesma forma que o dinheiro também.
A diferença era que Charles, além de ganhar por tempo de exibição, alguns clientes davam espécies de gorjetas fazendo pedidos: morder o lábio, sorrir, esfregar o mamilo ou o pênis, ficar de joelhos, abrir as pernas...
Nisso, ele já tinha acumulado mais de 100 dólares em apenas 15 minutos de exibição. Seria você uma estrela desse universo, Charles? Sabe quantos não ganham nem a metade desse valor? Vários.
As mensagens sobre ele tirar a cueca ainda persistiam, mas ele maltratava um pouco mais aqueles que tanto desejavam isso.
Sentado na cama, Charles, duro, esfregava seu membro na cueca enquanto vias as mensagens subindo, às vezes nem conseguindo acompanhá-las. Quando se tem carne nova no pedaço, as feras vão preferi-las.
“Você é gato demais, qual o seu nome?”
Ele leu essa mensagem, mas lembrou que o áudio estava desligado. Por isso voltou ao notebook e ativou o áudio.
— Meu nome é Richard.
Depois disso, uma sequencia de mensagens subiu na tela, todas elogiando a voz dele. E realmente Charles tinha uma voz sexy, firme, navegando entre o grave e o agudo.
— Se eu alcançar 250 dólares, eu começo a falar sacanagens... — disse mais uma vez abrindo as pernas e seduzindo.
Não tardou para que rapidamente o objetivo fosse alcançado. Ele apenas deu um sorrisinho e começou falando. Frases fortes, pornográficas, baixas, mas todas de matar aqueles do outro lado da tela, que não largavam a live dele e assim contribuíam mais e mais com o valor que ele iria receber.
— Se eu alcançar 500 dólares eu tiro a cueca.
Charles ousou, já estava entregue e, acredite ou não, verdadeiramente excitado. Ele era puro exibicionista, gostava disso. Gostava de ser assistido, filmado. Gostava de se ver em ação. Charles era fogo, brasa, chama.
Enquanto se exibia, apareceu no canto da tela uma mensagem: “show particular por 250 dólares”.
Charles não imaginou que alguém fosse capaz de pagar aquela quantia de uma vez, não que duvidasse de sua beleza, mas porque ele imaginava que o site não tinha aquela opção, sendo então a exibição creditada por minutos de visualização. No entanto, o site tinha essa opção de valor fixo caso o stripper aceitasse.
O valor era alto para uma primeira vez, já que o site tinha strippers mais consagrados, com clientes fixos e tudo mais. Mas Charles, sendo novato, arrebatou de vez a clientela, talvez por ser novinho.
E sem pensar duas vezes, ele clicou na opção. Logo sua transmissão foi desligada para os outros clientes, mas o valor acumulado até agora, 400 dólares estava em suas mãos.
No canto inferior esquerdo da tela, o cliente que pediu por um show particular aparecia sem mostrar o rosto.
“Pode dançar para mim?” pediu o cliente.
Charles, nada besta, logo questionou em áudio:
— Quanto paga?
O homem digitou: “50 dólares”.
Não tendo muito conhecimento sobre valores, Charles aceitou. Ele começou a dançar sensualmente ao som de uma música aleatória que escolheu, mas ainda assim ele tinha desenvoltura, aliás, muita desenvoltura. Certamente, Charles sabia como deixar qualquer um louco de tesão. O seu cliente virtual e particular estava completamente louco e excitado, exibindo o pênis na cueca e o esfregando, mas o garoto sequer sentia prazer vendo aquele membro, mas fazia seu papel muito bem fingindo estar adorando. De fato, ele só estava adorando se exibir.
“Tira a cueca?” o cliente fez um novo pedido. “Pago 150 dólares”.
Charles parou de dançar sensualmente e se sentou, ele então pensou: deveria fazer isso? Já estava ali mesmo, então, sem demorar muito, ele disse:
— Deposite.
O valor foi instantâneo.
Charles sorriu de lado e, provocativo, tocou a cintura e desceu dois dedos para dentro da cueca, em seguida, devagar, foi deslizando a peça de roupa pelas coxas até ela repousar em seus pés, ele retirar e girar em sua mão.
Charles estava nu e duro sem o menor pingo de vergonha.
“Quero que toque suas partes íntimas”.
— Por mais alguns dólares... — disse baixinho mordendo a cueca.
Trinta dólares foram depositados. Charles ficou surpreso. Como um desconhecido estava realmente disposto a gastar aquela quantia com ele.
Charles começou a se tocar, deitando-se na cama, esticando-se, contorcendo-se, mas fazendo tudo ao bel prazer. Ele sem querer quase derrubou o jaleco, mas foi rápido ao apanhá-lo, arrumá-lo e repousá-lo na cabeceira da cama.
O moreno retornou a sua exibição por algum tempo, sendo novato ele ainda estava perdido, não sabia exatamente por quanto minuto poderia se exibir por determinada quantia, mesmo sendo um show particular. Mas continuou se exibindo por mais de dez minutos, inclusive virando-se de costas para concluir sua ação e garantir que fez um bom trabalho.
“Agora goza.”
— Isso é mais caro.
“Eu pago o quanto você quiser, mas por favor, goza e deixa eu ver seu rosto enquanto faz isso.”
— Quero o mesmo valor do show particular.
Charles não poupou valores, disse o que queria e aguardou. Quando pensou que o cliente ia rejeitar a oferta, lá estava o valor subindo na sua tela.
O moreno sorriu, piscou e disse:
— Obrigado.
Sentado na cama e de pernas abertas, Charles iniciou a masturbação. Primeiro com movimentos lentos que servia apenas para seduzir, uma de suas armas fundamentais no jogo de sedução. Aos poucos seus movimentos iam ganhando velocidade, os dedos dos seus pés se contorciam e seu rosto demonstrava puro prazer.
Charles não teve nenhuma dificuldade em chegar ao orgasmo, ele poderia simplesmente controlar por quanto tempo quisesse, mas resolveu não demorar na ação. Logo sua mão estava tomada pelo que produziu e seu abdômen com pingos espalhados do próprio sêmen.
Ele sorriu para a câmera ofegante, piscou e agradeceu mais uma vez. O moreno não perdeu tempo com conversas e desligou a live muito satisfeito com o que tinha feito, ele verificou o valor recebido e, admirado, permaneceu com aquela tela ainda aberta apenas desejando em ter o dinheiro que receberia na mão.
Pelado e, falando de maneira chula, todo gozado, ele ficou de pé, respirou fundo e refletiu sobre tudo o que tinha feito. Sorrindo e sem arrependimentos, Charles mordeu o dedo indicador e já começou a pensar em como faria o próximo show.
[...]
— Vai ser bom para nós dois, filho.
A mãe do garoto disse enquanto ele arrumava suas coisas dentro de uma mala. Ele concordou com ela, mas não disse nada. Enquanto guardava o que encontrava, lembranças tomavam conta de sua mente.
O seu primeiro dia, a amizade construída ali dentro, as conversas e os segredos que só aquelas paredes sabiam, suas alegrias e tristezas e, inclusive, da vez em que transou com ele.
Não foi uma decisão fácil de ser tomada, precisou refletir durante toda sua viagem de volta à Quadra até se estar disposto a essa decisão. Talvez fosse mais fácil ir embora quando estivesse formado, mas na atual situação era bem difícil interromper seus planos apenas porque precisava respirar longe de tanto sofrimento. Estar ali iria sempre deixá-lo pensando nele, pensando em tudo o que viveu com ele, mas agora por trapaça do destino eles tiveram que se separar.
Colin Manson estava indo embora da Quadra Nove.
Ele se sentou na cama após finalmente guardar a última peça de roupa, olhou para sua mãe e sorriu bem fraquinho. Em uma hora o ônibus da rodoviária iria sair, mas ele demonstrava não ter pressa nenhuma.
Mesmo decidido a ir, sua alma ainda tinha recaídas e a vontade de gritar e pedir para ficar era grande.
Sua mãe se juntou a ele na cama e o abraçou. Colin estava tendo uma tempestade de lembranças, coisas esquecidas iam sendo lembradas a todo instante. Quanta discussão já teve com o William dentro daquele quarto? Quantas vezes ouviu e deu conselhos para ele? E quantas milhares de vezes esteve de pé naquela janela apenas para espionar quem tanto amava?
Era difícil, realmente difícil estar ali dentro sabendo que iria embora sem saber quando iria voltar.
— Vamos? Seus amigos estão aguardando lá embaixo. William vai nos levar à rodoviária.
Colin balançou a cabeça e ficou de pé, mas sua mãe segurou em sua mão e o levou para fora.
Assim que o leonino pôs a cabeça para fora do quarto as outras várias cabeças estavam viradas para ele. Devagar, Colin foi descendo as escadas, ninguém ousou dizer nada já que estavam sentidos com a decisão do garoto que só foi dita para o Danion e o branquelo rapidamente espalhou a notícia a próprio pedido do líder.
— Bem... — ele iniciou, mas foi interrompido.
— Nos diz que tudo isso é uma pegadinha. — Connor falou.
Na expectativa, todos esperavam a confirmação, mas Colin negou.
— Não, Connor, infelizmente.
— Mas por que, Colin? — Patrick perguntou.
— Eu preciso.
— E a faculdade? — Calvin perguntou.
— Antes de passar aqui, fui lá resolver tudo isso. Acabei trancando.
— Isso para mim é loucura. Você vai fazer muita falta, Colin. — Hugh disse. — Quem vai nos liderar na sua ausência?
Danion tossiu.
— Você volta? — um pouco tímido, Pietro perguntou.
Surpreso, Colin o olhou por alguns segundos e respondeu:
— Sim. A faculdade de arquitetura ainda é meu sonho, mas no momento não tenho cabeça para estudar.
— E por quanto tempo vai ficar fora? — Patrick perguntou.
— Não sei... Um ano, dois anos... Eu realmente não sei. Eu só sei que vou tomar esse tempo para mim. Eu e minha mãe passamos por um momento difícil, então decidimos viajar.
— Para onde você vai? — Marcus perguntou.
— Essa parte fica em segredo. — William rapidamente tomou a resposta.
— Como assim? — Julius questionou.
— Qual parte de que ele quer um tempo só para ele e para a mãe dele você não entendeu? — Danion falou.
— Credo, que grosseria.
— Danion, não precisa responder assim. — Colin falou. — Mas Julius, me desculpe, prefiro não contar para onde eu vou por motivos de realmente querer me isolar um pouco. Não se preocupe, eu mandarei notícias.
A verdade é que Colin não queria contar para todos porque temia que Sean soubesse onde ele estava e fosse atrás, porque tudo o que o leonino queria, mais do que tudo, era ficar longe dele para ver se consegue arrancar a dor do peito.
Apenas Danion, Caine, Edgar, William e Octavio sabiam para onde ele iria.
— Colin, é melhor irmos para. — William falou. — Estarei no carro com o Octavio aguardando-o.
Depois que William se retirou da sala, os amigos do leonino ficaram de pé e, com muita tristeza começaram a abraçar o garoto. Um por um ia abraçando Colin, desejando-lhe tudo de bom e pedindo para que ele voltasse logo.
No final, sobrou Edgar e Caine, ambos os garotos parados na frente de Colin.
— É... — Colin nem conseguiu olhá-lo nos olhos.
— Saiba que estamos te dando todo o apoio. Temos que sempre manter contato. — Edgar disse.
— É isso mesmo. Nosso trio tem que permanecer vivo. — Caine falou com lágrimas nos olhos.
— Eu tô segurando para não chorar até agora e são logo vocês que vão fazer isso? — com um sorriso no rosto, Colin comentou.
Edgar e Caine riram, mas Caine já estava chorando.
— Que droga! Odeio despedidas. — disse o líder dos águias.
— Espero que dê tudo certo lá onde você vai, mas volte, demore o tempo que quiser, mas volte, não desista do seu sonho de ser arquiteto. — Edgar falou.
— Eu voltarei e farei surpresa. — piscou.
— Não seria o Colin se não fizesse isso. — quando Edgar falou isso, os três caíram no riso.
Depois de algum tempo, Anita interrompeu a conversa dos três e Colin entendeu o recado. Depois de mais alguns abraços, Colin saiu da república. Suas malas já estavam no carro depois de Octavio tinha voltado para pegá-las.
Quando ia entrando no carro, Colin levantou seus olhos automaticamente quando viu um farol de automóvel cortar seus olhos. Até mesmo a luminosidade ele reconhecia, por isso foi tão automático o seu olhar naquela direção.
Sean não estava ali por acaso, alguém avisou a ele. Quem? Não se sabe.
O moreno desceu do carro apressadamente, mas logo desacelerou os passos quando os olhos castanhos bateram em seus olhos negros.
William, Anita e Octavio entraram no carro, as demais pessoas não entraram na república, resolveram assistir a cena do Colin e do Sean.
— Iria embora sem antes se despedir de mim? — Sean questionou.
Colin não conseguiu respondê-lo.
— Não está sendo uma decisão fácil para mim, então...
— Eu iria pensar que fugiu.
Não é uma mentira.
— Não faço isso por mim, mas pela minha mãe. — Colin mentiu.
— Eu posso convencê-la de ficar.
— Não, não quero que faça isso. Não se meta, Sean.
— Por que, Colin?
— Ok, já que você quer saber, eu também quero ir. Não é só por ela, mas por mim também.
Sean engoliu em seco.
— Para onde está indo? — questionou olhando para o carro do William.
— Não posso te contar.
— Não pode ou não quer? — dessa vez encarou o pequeno.
— Não quero. — Colin respondeu retribuindo o olhar.
— Por quê?
— Porque você iria atrás de mim.
— Você sabe que eu não vou desistir de nós dois.
— É por isso mesmo que não digo para onde vou. Sean, em que momento da sua vida você vai entender que agora tem uma família? Você vai ser pai. Melhor será você vivendo essa vida do que sofrendo ao meu lado.
O moreno bagunçou os próprios cabelos.
— Ai, Colin...
— Eu tenho que ir, não vamos nos despedir brigando, por favor.
— Como vou sobreviver sem te ver? Sem saber como você está? Sem ouvir sua voz, mesmo que seja para me xingar? Que merda, Colin. Não posso aceitar que você está indo embora sem esperança de que um dia você volte.
— Me desculpe, mas é necessário. E-eu tenho que ir, Sean. — disse ao olhar para o carro do loiro.
Colin não contou que um dia retornaria.
— Eu irei te encontrar, nem que para isso eu revire o mundo.
— Não deixe seu filho sozinho, me prometa isso.
— Não tenho filho, Colin.
— Mesmo que não me diga, está prometido. — sem coragem pra continuar encarando-o, desejando mais do que tudo correr dali por medo de mudar de ideia só por ver aquele semblante entristecido do Sean, Colin deu as costas.
Sean o segurou pelo braço e o virou.
— Eu amo você.
Colin apenas contraiu os lábios, ficou na ponta dos pés e deu um beijo na bochecha dele.
— Nos vemos por aí. — disse o pequeno largando-o e dando as costas.
Sean ficou parado, tocou a bochecha com os dedos e ficou encarando o automóvel do loiro.
William buzinou antes de sair dali.
Algumas pessoas fogem de problemas, o que não seria o caso do Colin, mas na sua atual situação, ele se via tão fraco que não conseguiria encarar mais nenhuma dor. Mais do que tudo, ele estava fugindo do grande amor da sua vida na esperança de que um dia fosse esquecê-lo.
Sean está sozinho.
Colin está sozinho.
Seria esse o fim?
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