Notas iniciais
Paz e Guerra

Marcus não era o típico garoto que você via por aí pegando tudo e todos. Isso também não significava que ele era uma pessoa caseira que só pensa em estudos. Não, longe disso! Marcus frequentava festas e baladas, mas também tinha seu momento de estudos. Ou seja, ele era uma pessoa equilibrada. Sabia dividir seus momentos, divertindo-se e cuidando dos seus compromissos.

No entanto, Marcus era amigo do Julius. Não dizem que “quem se mistura com porco, farelo come”? Assim acontecia com Marcus. Ele tinha um melhor amigo que era completamente voltado para festas e bebidas. Alguém que só pensava na diversão, muitas das vezes esquecendo-se de que ainda estudava.

Julius era responsável por muita das vezes levar Marcus para as festas e apresentar garotas. Ou seja, assim acabavam pensando que Julius e Marcus eram irmãos e que só pensavam em curtir a vida. Por causa de Julius, Marcus também levava a fama do amigo.

A bebida pode destruir lares, acabar com vidas. No caso desses dois, a bebida pregou uma peça que pode uni-los ou separá-los de uma vez por todas.

Como? Eu te digo agora.

Marcus acordou.

Acordou sentindo-se estranho, muito estranho. Ele esfregou o rosto e bocejou. Estava sentindo uma forte dor de cabeça, a ponto de fazê-lo gemer baixinho quando a sentiu. Logo depois ele esfregou o pescoço, mas uma cena rápida passou em sua cabeça. Uma cena estranha, uma boca cravava os dentes naquela região.

Confuso, Marcus olhou para o lado e descobriu que Julius estava lá, dormindo no chão, ao lado da cama. Sem cobertor, sem travesseiro e nu. Nu?!

Foi assim que então Marcus olhou para baixo e descobriu que também estava nu. Quer dizer, sem as peças de roupa de baixo, trajando apenas uma camisa.

Novamente outro flash passou em sua mente: alguém arrancava suas roupas com muita voracidade.

O coração de Marcus acelerou quando ele forçou-se a pensar no que tinha acontecido, juntando os dois últimos flashbacks que teve.

Marcus ousou se levantar, mesmo com a forte dor de cabeça. Mas outra dor o incomodou assim que se sentou. Não era exatamente uma dor, mas algo ardia. Ardia muito! Lá embaixo, entre as nádegas.

Outro flash veio em sua mente. Alguém estava em cima dele... Fazendo alguns movimentos. Ele conseguia ver a bunda dessa pessoa.

Marcus balançou a cabeça negativamente e precisou respirar fundo para manter a calma, mas então logo a sua frente estava um espelho e ele pode ver, nitidamente, no seu pescoço, uma marca grande e roxa.

Mais um flash: ele pôde sentir novamente os dentes no seu pescoço, mas agora acompanhado de gemidos. Os seus gemidos.

— Não, não, não... — sussurrou, tentando manter o controle.

Ele novamente sentiu aquele ardor entre as nádegas, qualquer movimento que fizesse lá ardia um pouco mais. E assim, ele ficou fora de controle:

— JULIUS! — gritou.

Com o susto, Julius saltou do chão, tonto e também com dor de cabeça. Nem percebera que estava pelado, fazendo até continência pensando que estava no exercito... Antes de ser acordado ele estava realmente sonhando com guerras.

— O que você fez comigo? — Marcus se levantou, seus dentes rangiam.

— O que eu fiz?

Marcus olhou para o chão e viu as peças de roupas espalhadas no quarto.

— Não me diga que... — sequer conseguiu concluir a frase.

Julius fazia algumas caretas quando sentia a dor de cabeça atacar. Ele estava tão confuso quanto o Marcus.

— Merda! O que você fez comigo? — Marcus gritava.

— E-eu não fiz nada. — respondeu.

— Claro que você fez. Por que eu... Por que eu... Ah, filho da puta! — Queria muito falar que sentia sua bunda arder. — O que é isso no meu pescoço?

Quando se deu conta, Julius engoliu em seco. Diferente de Marcus, ele conseguiu lembrar algo que aconteceu. Algumas pessoas esquecem, outras lembram de algumas coisas, mas outras esquecem totalmente o que fizeram.

— Nós transamos, Julius. Nós dois, eu e você! — Marcus disparou. — Você fez isso comigo!

— Olha, Marcus... E-eu não sei o que aconteceu. — tentou se explicar, mas a dor de cabeça era tão forte que ficava difícil até de falar.

— Claro que sabe! Olha ao redor, está vendo as roupas espalhadas? Está vendo meu pescoço?

— Estávamos bêbados, certamente cometemos uma loucura.

E Marcus pôde confirmar que realmente havia garrafas espalhadas no quarto.

— Isso não significa nada!

— Você acha que eu te estuprei? Você tá maluco?

Marcus esfregou o rosto e se virou, ele apoiou os braços no armário em que tinha o espalho e ficou avaliando seu pescoço novamente.

— Como você foi capaz de fazer isso comigo? — questionou.

— Eu não sei, eu não sei... Mas uma coisa eu tenho certeza de que não te forcei a fazer nada. Estávamos bêbados, caralho. Foi você quem começou.

— Eu? — ele se virou.

— Você me beijou. — disse baixinho. — Eu lembro de você ter me beijado.

— Então você lembra de tudo? Você estava consciente!

— Não! — ele quase gritou. — Eu nem sequer consigo lembrar de tudo o que fizemos. Caralho, você me beijou, você me puxou para a cama. Eu consigo lembrar disso e só até aí. — revelou. — Depois disso eu não lembro de mais nada.

Ou seja, era um quebra cabeça. Enquanto Marcus tinha algumas peças, Julius tinha as outras que completavam o jogo.

— Droga, Julius!

— Aconteceu, Marcus, aconteceu. Que culpa temos se estávamos bêbados?

— Eu sou hétero.

— E eu não sou? — virou-se para olhá-lo.

Sem explicação, Marcus caçou sua roupa no chão e começou a vesti-la. Ele nem sequer conseguia olhar para Julius sem sentir vergonha quando novos flashes tomavam conta de sua mente.

Mas ele não conseguia lembrar de ter beijado e o puxar para a cama.

— Eu vou matar você se alguém descobrir.

Julius nem respondia, sua cabeça o impedia.

Depois de se vestir, Marcus parou e ficou se olhando no espelho.

Julius foi obrigado a se levantar e ir até o amigo, mas quando o tocou no ombro, quase recebeu um soco, mas Marcus acabou empurrando-o.

— Não encosta em mim. — disse ainda sem olhá-lo no rosto.

— Você está com raiva?

— Eu não deveria ficar?

— Estávamos bêbados! Não planejamos isso. E pra começo de conversa foi você que me beijou.

A raiva de Marcus multiplicava quando ele lembrava e pensava no fato de ter sido o passivo. Como ele poderia ter dado a bunda? Chegava a incomodar só por pensar nisso. Se alguém soubesse ele seria capaz até de se matar de tanta vergonha que iria sentir.

— Olha pra mim, você acha que eu fiz algo de propósito?

Marcus continuava a sentir vergonha, por isso caminhou até a porta do quarto e descobriu que ela estava destrancada. Cogitou a ideia de alguém ter visto algo e isso fez seu corpo tremer de medo.

— Marcus, eu...

Mas Marcus tomou coragem e saiu do quarto do Julius.

Era realmente difícil para ele aceitar a ideia de que transou com um homem. Ainda mais com o Julius, o seu melhor amigo. Isso o deixava tão nervoso e ao mesmo tempo com medo. Como iria olhar para a cara dele agora? Como iria conseguir conversar com ele? Estava com raiva, muita raiva, mas também com muita vergonha. Vergonha pelo que vez, vergonha de si mesmo.

Na cozinha, Marcus encontrou Ian e Connor comendo.

— Finalmente alguém nessa casa acordou. — Ian disse enquanto saboreava panquecas.

Marcus nem respondeu, acabou sentando-se à mesa, mas se arrependeu quando sentiu tudo lá embaixo arder, ele fez careta.

— O que é isso no seu pescoço?

Foi quando se deu conta das marcas que Julius fizera. Com vergonha, ele tentou cobrir com a gola de sua camisa.

— Uma garota fez isso. — mentiu, torcendo para não ser mais questionado.

— Deve ter sido. Você e Julius saíram ontem a noite para comprar mais bebida.

— Saímos ontem à noite? — questionou confuso.

— Sim, você não se lembra?

Numa pausa quase dramática, ele teve novos flashes, um em que ele voltava alegre e cantando uma música com o amigo, outra ele viu as sacolas balançando em sua mão. Marcus engoliu em seco, mas logo tratou de responder:

— Claro que eu lembro.

Ian suspeitou. Era difícil enganá-lo.

— Do jeito que vocês são, aposto que pegaram algumas garotas na rua. — Connor falou enquanto estava de boca cheia.

— Ah, é mesmo. — mentiu. — Foi quando estávamos voltando.

Marcus não se lembrava de nada disso. Era horrível não saber o que aconteceu e ter apenas alguns flashbacks rápidos que surgiam na sua mente.

Julius resolveu aparecer na cozinha, mas não disse nada. Marcus o olhou, mas rapidamente desviou o rosto e ficou de cara fechada.

— Senta aqui com a gente, primo.

Julius sorriu para o primo e se sentou bem ao lado de Marcus.

— Perdi a fome. — Marcus disse na mesma hora em que o amigo se sentou.

Sem sequer se despedir, ele se retirou da cozinha e dirigiu-se para fora de sua república. Precisava ficar longe dali, longe de Julius, longe de qualquer pessoa que poderia surgir e falar: eu sei o que você fez.

— O que deu nele? Vocês brigaram? — Ian perguntou.

— Sei lá... — Julius disse desconfortável. — Acho que acordou de mal humor. Vocês tem remédio para dor de cabeça? — perguntou tentando contornar o assunto.

— Que estranho, ele nunca agiu assim desde que chegamos.

— Ah, o Marcus tem dessas. Relaxa que depois ele volta ao normal. E aí, alguém tem remédio pra dor de cabeça?

Julius comprimiu os lábios, parecia uma criança que aprontou e tentou esconder sua traquinagem. Ele era um péssimo mentiroso. No entanto, isso o deixou extremamente aflito.

[...]

Carter estava abraçado ao travesseiro. Ele apertava-se mais e mais e no seu rosto um sorriso se formou. Para ele, na sua imaginação, ele jurava abraçar o Patrick, mas infelizmente o leonino já tinha acordado há trinta minutos, escapando da cama sem acordá-lo.

— Carter, acorda.

Quando ouviu essa voz, o loiro abriu os olhos e se frustrou. Confuso, ele olhou para todos os lados na tentativa de encontrar Patrick, mas só Edgar estava lá.

— Cadê a cabrita?

— O quê?!

Carter esfregou o rosto e o afogou no travesseiro, deixando escapar um grito leve de decepção.

— Fomos convidados para ir tomar banho de piscina. Levanta daí!

— Não quero. — respondeu ainda com a cara no travesseiro.

— Vamos, eu não quero ir sozinho. O Ian nos convidou, isso significa que o Connor vai estar lá.

— Mas eu não quero ir, égua. Tô triste, sai daqui. — falou fazendo o maior drama possível.

— Tem certeza?

— Tenho.

Edgar então teve que desfazer a surpresa.

— Soube que o Patrick também foi convidado.

Cobertor para o lado, travesseiro para o outro. Num salto, lá estava Carter de pé, com os olhos cheios de remela.

— Vou só tomar um banho.

— Mas agora você vai?

— Sim, acho que um banho de piscina é bom. Tô precisando pegar sol.

— Ok, vou te esperar lá fora. Não demora. — falou sorrindo.

Carter correu para o banheiro e tomou um rápido banho, trocou-se, preparou uma mochila com roupa para caso de emergência e saiu da sua república com um sorrisão no rosto só por saber que Patrick estaria no mesmo lugar que ele.

Ian, Connor e Edgar estavam no gramado dos leões. Preocupado, Carter se aproximou já querendo puxar seu primo pelo braço ao achar que ele tinha mentido.

— E então, vamos? — Ian perguntou.

— Cadê a cabrita? Ele não ia?

Ian somente olhou para o automóvel estacionado.

Carter sequer se deu conta do Jeep vermelho, modelo novo, estacionado. Sentado no banco traseiro, de braços cruzados e de cabeça baixa, como se estivesse chateado e constrangido ao mesmo tempo, Patrick se encontrava.

Quieto, Carter nem pronunciou uma palavra, mas o sorriso foi impossível de esconder.

— De quem é o carro? — Carter questionou para tentar disfarçar a felicidade.

— Aluguei para hoje. Tirei a carteira recentemente, mas nem tenho dirigido. Meu pai quer me dar um carro, porém estou decidindo se quero ou não. — Ian respondeu.

— Alguém mais vai?

— Não. Danion sumiu, Julius disse que vai ficar dormindo e Marcus sumiu. Calvin quer estudar, Hugh tá com aquele ferimento na cabeça e preferiu ficar também por causa do Pietro. — falou com ar suspeito.

— E o Colin?

— Disse que não queria ir. Ficou com o Calvin.

— Vamos agora? — Patrick, sem olhar para Carter, questionou.

— Sim, vamos. — Ian rapidamente respondeu e se dirigiu ao banco de motorista.

Connor foi no banco ao lado, consequentemente Edgar e Carter foram no banco traseiro. Carter fez questão de sentar no meio, bem coladinho ao leonino.

— Não encosta, sai. Da para os três perfeitamente. — Patrick resmungou.

— Égua do mal humor.

— O que você espera? Eu ainda tô com sono.

— Mas ‘cê dormiu bem?

— Não. — mentiu. Nunca havia dormido tão bem.

— Égua! Mas ‘cê dormiu comigo. Foi tão ruim assim?

— Cala a boca! Ian, podemos ir? Por favor.

Carter, triste, ficou quieto. Ele até fez um barulho com a boca, suspirou e olhou para frente.

— Caso algum acidente aconteça, saibam que eu tirei a carteira recentemente.

— Já podemos descer do carro? — Edgar brincou.

Todos riram, menos Patrick.

— Não quer que eu dirija? — Connor questionou.

— Não. Só vou melhorar na pratica.

— Tudo bem, só não ficar nervoso. Eu vou auxiliando.

— Se a gente morrer, vamos morrer juntinhos. — Carter disse para o leonino irritado.

Patrick apenas bufou e deu de ombros.

Ian ligou o carro e deu partido com o carro cantando pneu, mas logo regulou depois que todo mundo tomou um susto.

[...]

Foi assim, de repente. Um barulho forte tomou conta da república dos águias. Clara até saltou do sofá pelo susto que tomou, enquanto Gale agarrou-se a irmã com medo achando que tinha sido algum ladrão querendo roubá-los. Mas tinha sido o Samuel que abriu a porta tão forte e passou como um raio pela sala até se trancar no quarto

— Samuel, pera aí! Samuel, caralho! — Luke veio logo atrás.

Ainda assustados, Gale e Clara não entendiam nada.

— O que aconteceu? — Gale perguntou.

Luke, segurando várias sacolas, estava encostado a porta, batendo e chamando pelo namorado repetidas vezes.

— Caralho, por que você não acredita em mim? Samuel, abre essa porta!

— Vocês brigaram? — Gale perguntou.

Luke sentou encostado à porta e suspirou.

— Esse idiota só está sentindo ciúmes.

Para Clara, mais assustador que o ocorrido, era o fato de Luke está praticamente um visual novo que estranhamente combinava com ele.

— Como você passou de vagabundo para blogueirinho de internet? — questionou a garota.

Ele estava com um corte degrade e com topete, a barba preenchida junto ao bigode mustache ainda mais perfeito que no dia anterior. Além disso, trajava um macacão jeans preto, sapato cano alto e uma camisa branca por dentro.

— Eu fiz isso por ele e olha só como acabei. — em seguida ele bateu com o cotovelo na porta — Abre isso aqui, Samuel!

— Vocês mal começaram a namorar e já estão brigando assim? O que foi dessa vez? — Clara ficou de frente para o Luke.

— Ciúmes. O que mais seria?

— Ah, Luke, mas até eu ficaria com ciúmes de você. Lembra de como você era?

— Mas se ele resolveu namorar, ele mudou, não? — Gale questionou a irmã.

— Claro que eu mudei. — Luke respondeu por ela. — Vocês acham mesmo que eu seria capaz de trair? Porra, eu evitei me relacionar por muito tempo por medo de ser traído, eu não sou louco de fazer isso se é aquilo que mais temo. O Samuel que é um idiota.

— Mas o que você fez pra ele ficar tão chateado assim?

— A atendente deu em cima de mim. Eu só ri. Somente ri! Eu não disse uma palavra, não falei nada. Eu ri e evitei constrangê-la na frente das amigas. Eu passei metade do tempo na loja cantando o Samuel na frente dela, inclusive cheguei na loja falando: Tem roupa pra casal? Algo que eu e ele pudéssemos usar juntos?

Clara estava impressionada com essa tamanha mudança do moreno, enquanto Gale ria achando engraçado o fato dele pedir por roupa pra casal.

— E o que a mulher disse quando te cantou?

— “Você não é de se jogar fora”. Daí eu fui rir e o Samuel acha até agora que eu estava retribuindo a cantada.

— E pra quê merda você foi rir? — ela questionou.

— Porque eu tenho dentes?

— Ah, clara, ele não está errado. Ele só sorriu.

— Sei que não está, mas ele conhece o namorado que tem.

— Todo mundo aqui conhece. Eles vivem brigando.

— Abre isso aqui, Samuel! — Luke continuou insistindo.

Lá dentro, Samuel estava sentado na cama, também segurando sacolas. Ele tinha também um corte de cabelo diferente, dessa fez adotando franja e menos volumoso nas laterais. Vestia um moletom rosa e uma bermudinha branca, além de sapatos azuis bebê.

Enquanto ouvia Luke insistir para entrar, ele não conseguia tirar da mente o sorriso que ele fez para a garota. Esse sorriso, o mesmo sorriso que ele usava para se aproximar dos garotos em baladas. Como não sentir ciúmes? Como não ficar inseguro?

Assim, ele deitou na cama e sentiu algo duro em suas costas. Era o celular do namorado, ao qual ele tinha liberdade de mexer. Por isso acabou pegando o aparelho, mas a luz acendeu sem ele querer, logo revelando algumas conversas não lidas do dia.

Sem remorso e ainda com raiva, ele resolveu verificar e constatou várias respostas que ele usou para as diversas cantadas recebidas: “desculpa, tô comprometido”, “foi mal, tenho alguém”, “sim, agora eu namoro um homem”, “não tenho interesse, tô namorando”... E os olhos de Samuel iam passando por várias conversas e em todas, sem exceção, Luke dava a resposta de que estava namorando, mas a que mais encantou os olhos do loiro tinha escrito “eu amo um cara bom pra caralho, não vou foder com meu destino por causa de uma noite de prazer”.

A resposta nas ações de Samuel foi automática. Ele largou o celular, caminhou até à porta e a abriu. Luke ainda estava no chão e ficou impressionado com a violência do loiro ao puxá-lo dali e colocá-lo dentro do quarto, lançá-lo sobre a cama, trancar o cômodo, montar sobre ele já beijando enquanto desfazia-se de sua roupa.

— Quê?! — Luke perguntou enquanto buscava entender o que acontecia.

— Cala a boca e continua.

— Não, não, não. — disse ele empurrando o loiro e ficando de pé logo em seguida. — Depois do show que você fez? Acha que tudo se resolve em sexo?

Samuel queria dar uma boa resposta sobre a indagação, relembrar do passado do moreno.

— Você nunca negou.

— Mas agora eu estou chateado. — disse e deu de ombros.

— Para, vai. — disse o loiro segurando na mão dele enquanto estava sentado. — Me desculpa, eu agi por impulso.

— Agora percebeu isso? Porra, Samuel, eu passei toda aquela vergonha correndo atrás de você até aqui.

— Ok, eu confesso que exagerei. Mas eu fiquei puto, na minha cabeça foi mais medo do que ciúme.

— Mas eu já te disse que eu nunca vou te trair. Que estupidez minha fazer isso.

— Mas aquela mulher estava te cantando na cara dura.

— Eu posso fazer o quê se sou irresistível? — disse com um sorriso sedutor no rosto enquanto exibia o corpo.

Samuel largou a mão dele.

— Ok, pode sair se quiser. — o loiro disse e se deitou.

Luke dessa vez pulou sobre ele, prendendo as mãos do namorado.

— Pensando bem, acho que não vou rejeitar aquela propostas...

Samuel não se opôs.

— Mas me diz... Por que essa mudança tão repentina?

— Não importa. Faça o que quer fazer antes que eu mude de ideia.

Luke perdeu tempo? Não. Seu rosto já estava afogado na curva do pescoço do loiro.

Seria assim, tapas e beijos até o fim de suas vidas. Tenho certeza que quando velhinho Samuel iria ser ainda mais chato do que mais é, enquanto Luke nunca ia perder o seu vigor sexual.

[...]

Já estavam eles na casa do Ian. A mesma casa onde Connor transou com o namorado pela primeira vez. Era um lugar grande, com vários cômodos. Carter a achou com um aspecto de mal assombrada por ser enorme e não morar ninguém, já Edgar ficou encantado com o quão chique era o lugar.

Connor já estava na piscina enquanto Carter ficou de pé na beirada. Patrick, ainda emburrado, ficou sentado numa cadeira enquanto Edgar se preparava para pular do trampolim.

— Cabrita, ‘cê não vai tomar banho? — Carter gritou.

Ele só negou com a cabeça e começou a mexer no celular. Carter então decidiu sair do seu lugar e ir até ele.

— O que ‘cê tem?

— Nada que te interessa.

— Mas égua, só fiz uma pergunta, uai.

Patrick não disse nada.

— Tudo bem, eu vou tomar banho, ‘cê segura minha bermuda?

Nem terminou de falar a bermuda de Carter já estava na mão.

Patrick ficou desnorteado vendo-o daquele jeito, tanto é que seus olhos vidraram na cintura do loiro, não satisfeito os olhos também miravam em outro ponto.

— Você vai tomar banho de sunga?

— Sim, uai, algum problema?

— Cês que tomam banho com esse shortinho. Eu prefiro sunga.

— Sai logo daqui.

— Tá, tá, tá... — disse o outro afastando-se e indo para a piscina.

Já Connor queria o namorado dentro da água, por isso saiu da piscina e foi até Ian que arrumava algumas coisas para que pudessem comer depois.

— Não, não, não... — disse o leonino afastando-se, mas não vendo saída tinha só a parede.

— Por favor, vamos ficar um pouco lá comigo.

— Connor, eu pre-

— Ian! Por favorzinho, vai! Só um pouco. Você quase nunca toma banho de piscina.

— Ok, mas você sabe por que viemos aqui.

— Eu sei, logo todo mundo chega e aí você vai ficar preocupado em atender todo mundo e esquecer de se divertir.

Vencido pelo cansaço, Ian se rendeu e não precisou falar nada. Ele nem tirou a camisa, Connor logo o pegou pelo braço, parou na borda da piscina para dar tempo do menor firmar os dedos no nariz e saltou.

Quando emergiram, Ian sorriu para o namorado e envolveu os braços nos ombros dele, dando-lhe um beijo molhado logo em seguida.

— Égua, eu tô carente pra ver ‘cês fazendo isso. — reclamou o loiro.

Edgar somente riu do que ouviu e pulou nos ombros do primo.

— Carter, você tá sabendo que hoje é aniversário do Patrick, não está? — Connor perguntou.

— ÉGUA! COMO ASSIM? — gritou.

— Shhh! — Ian o repreendeu. — Ele não pode saber, estamos fazendo uma surpresa. Tá todo mundo chegando aí.

— Por isso ele tá tão assim? — Edgar perguntou. — Nem eu estava sabendo disso.

— Evitamos contar ao Carter por motivos que todos nós sabemos... — Connor brincou.

— Égua, ‘cês acham mesmo que eu ia contar que ‘cês tão fazendo uma surpresa?

A resposta foi unanime: sim.

— Égua! ‘Cês me odeiam.

— Ele acha que todo mundo esqueceu. Connor, por ser mais próximo dele, foi o único que fingiu lembrar e convidou ele para sair. Ele veio, mas já percebemos que ele não está nada feliz.

— Tadinho da cabrita. Eu não trouxe nem presente, égua. Que vou fazer?

— Não fique cismado com isso. O importante é que vamos comemorar. O pessoal da república já tá chegando, inclusive já deveriam ter chegado com o bolo.

— Égua, a cabrita vai beber de novo. ‘Cês acham que é fácil cuidar dele bêbado?

— Onde tem festa, tem bebida... — Edgar comentou.

Não tardou, e uma estrondosa campainha ecoou pela casa. Connor saiu da piscina as pressas, consequentemente Edgar, Carter e Ian também, pois sabiam que era os garotos.

Não demorou dois minutos e todos os membros dos leões e Caine apareceram na área de lazer gritando e cantando parabéns para Patrick. O bolo estava nas mãos do Julius, o mais animado dentre todos eles. Somente Marcus não compareceu à festa.

Patrick não conseguiu fechar a boca, seu queixo quase alcançou o chão por tão surpreso que ele ficou. Gritos vinham de todos os lados, inclusive Carter fez questão de se aproximar do leonino, envolver o braço no ombro dele e ficar apertando-o contra seu corpo.

Naquela bagunça, o parabéns foi cantado três vezes, seguido de outras músicas zombeteiras até que finalmente começassem a gritar:

— Discurso! Discurso! Discurso!

Constrangido, Patrick ficou fazendo gestos com a mão de que não ia falar, mas os amigos não paravam de gritar até ele resolver se pronunciar.

— Ok, ok, ok... — disse ele um tanto eufórico. — Eu odeio todos vocês, seus desgraçados! Como vocês têm coragem de fazer isso comigo? Eu achava que ninguém tinha lembrado!

— Eu não ia esquecer o aniversário do meu bebê monstro! — Julius gritou e automaticamente todos riram.

— Cala a boca, idiota! — disse ele ainda sorrindo.

Carter sentiu ciúmes, mas se esforçou para disfarçar.

— Fala de mim. — sussurrou o loiro no ouvido do leonino para não se sentir por baixo na presença de Julius.

Patrick o olhou rapidamente e voltou aos amigos:

— Eu juro que ia pedir para sair da república se nenhum de vocês lembrasse. Sério! Como eu odeio vocês! Mas agradeço o que fizeram, de coração.

— Fala de mim. — sussurrou o loiro novamente.

Patrick seguiu falando:

— De quem foi a ideia de fazer isso? — Julius levantou a mão. — Tinha que partir de você, seu idiota! Eu juro que estava a ponto de chorar. Ai, Julius, eu te amo, seu filho da puta.

— Não vai chorar, hein? — Julius brincou.

Carter suspirou.

— Fala de mim, cabrita. — permaneceu sussurrando até Patrick se irritar e tirar a mão dele de seu ombro.

— Não tenho mais nada pra falar, apenas agradeço.

Todo mundo começou a gritar mais uma vez.

— Sei presente está lá na sala. — Julius falou.

Sem dizer nada, Patrick deixou todo mundo para trás e foi saber o que tinha ganhado. Colin deu um quadro com uma arte abstrata, Calvin deu uma camisa rosa por lembrar que um dia o amigo falou que não tinha camisa dessa cor, Hugh deu uma caneca com a marca de uma bebida, o que de fato era a cara do amigo. Pietro não levou presente e Julius deu um carregador portátil, o que há tempos Patrick vinha pedindo.

O leonino logo mirou no carregador portável já sabendo que tinha sido Julius a ter dado, afinal ele mesmo pediu ao amigo um dia.

— Meu Deus, hoje de manhã eu estava reclamando por causa da bateria do meu celular. Finalmente vou poder sair de casa sem me preocupar!

— Isso foi caro, depois você me paga. — Julius disse.

Patrick mostrou-lhe o dedo do meio, mas não resistiu e foi até o amigo, saltando e o abraçado.

Aquilo ali foi o fim para Carter, que se sentiu péssimo não exatamente pela cena que estava vendo, é óbvio que ele estava com ciúmes, mas o fato de não ter levado um presente o deixou para baixo. Queria proporcionar o mesmo sorriso que Julius proporcionou quando o leonino viu o presente.

Sem dizer uma palavra, Carter saiu da sala e voltou para a piscina, mergulhando sozinho enquanto estavam todos na sala comemorando com o Patrick.

[...]

Já tinha anoitecido, metade dos leoninos estava com a pele vermelha por causa do sol.

Carter, vermelho como um pimentão, estava jogando conversa a fora com seu primo, Colin e Caine. Aproveitou até para conhecer mais do líder dos leões, percebendo suas semelhanças com o Patrick quando ouvia suas histórias.

Mas Carter não parava de olhar de relance para Patrick, deixando de prestar a atenção na fala do Edgar quando viu o leonino que gostava aproximar-se de Julius.

Patrick se aproximou de Julius quando notou que seu ânimo só durou até o início da festa, mas logo ele se isolou dos amigos, preferindo ficar bebendo sozinho no sofá. Estava bastante reflexivo e quieto, diferente de todas as outras vezes que Patrick o viu, geralmente sendo o mais animado da festa.

— Percebi que você está estranho, o que aconteceu?

Julius odiava o fato de não saber disfarçar muito o que sentia. E mentir perto de Patrick era quase que cometer suicídio, embora ele já estivesse um pouco elevado pela bebida.

— Uma coisa aí.

— Marcus não veio... Aconteceu alguma coisa entre vocês dois?

Julius somente permaneceu com os olhos fixos em Patrick.

— Se algo te incomoda e quiser conversar, estou a disposição, mas sinto que você não está pronto para falar, portanto não vou insistir. Prefere ficar sozinho, não é?

Julius só confirmou com a cabeça.

— Tudo bem, não queria que ficasse triste no dia do meu aniversário. — Patrick se levantou.

— Ei, volta aqui. — Julius segurou em sua mão e o puxou, fazendo então com que o amigo caísse sentado em sua perna. — Porra, eu só faço merda nessa vida.

Julius acabou abraçando Patrick e afogando o rosto nas costas dele.

Carter não pôde fazer nada, assistiu aquela cena sentindo algo ruim dentro dele. Um sentimento que ele nunca queria passar para alguém. Uma angústia, um aperto no coração.

Foi por não resistir mais vê a cena que ele tornou à conversa dos três garotos.

— Sério mesmo que ele tá melhor? — Edgar perguntou ao Caine.

— Bem, é o que parece... — Caine falou enquanto olhava o namorado dançar em círculos no centro da sala.

— Ele só vai sair daqui arrastado. — Colin disse. — Você vai precisar pegar um táxi para ir pra casa.

— Eu já imaginava isso. Melhor ele enchendo a cara dessa forma do que ficar na república com raiva da mãe e do pai. Ele quase não vinha, tive que insistir muito para conseguir.

— Você contou para ele sobre as ameaças que vem recebendo? — Colin perguntou.

— Claro que não! Eu não sou maluco. — Caine então olhou para Carter.

— Ele não vai falar nada. — Edgar precisou falar rapidamente.

— Égua, ‘cês pensam que sou fofoqueiro?

— Eu corto seu saco se você falar alguma coisa do que ouviu aqui. — Colin ameaçou em tom de brincadeira.

Só de imaginar, Carter fez careta.

— E se ela decidir tomar a república? Essa é minha maior preocupação. Danion vai perder a cabeça de vez. — Caine falou e mais uma vez olhou para o namorado. Era confortável vê-lo sorrindo enquanto dançava.

Quando ia abrir a boca pra falar novamente, os olhos do seu namorado foram de encontro ao seu. Assim, Danion resolveu se aproximar.

— Não falem mais nada. — Caine pediu.

Danion estendeu a mão para o namorado e Caine a segurou, ficando de pé logo em seguida. A música tinha mudado para uma mais lenta, o que fez Danion segurar Caine pela cintura com uma mão enquanto a outra segurava a garrafa de bebida.

Danion o beijou, Caine sentiu o gosto forte do álcool, mas não reclamou.

— Eu te amo pra caralho. Mas pra caralho mesmo!

Caine não disse nada, somente sorriu com os lábios e encostou a cabeça no peito dele.

— Nunca vou deixar nenhum mal te acontecer. Você me perdoa por tudo o que eu te fiz no passado?

— De novo?

Danion estava bêbado, por isso falava essas coisas.

— Sim, de novo. Vou te pedi perdão todos os dias. Eu te amo, porra.

Danion o beijou mais uma vez.

— Seu irmão é um babaca, mas até que gosto dele. Eu tô com saudades do Arthur, meu filho. Como ele pode roubar meu filho de mim? O Arthur prefere que eu fique com ele.

— Posso pegar ele essa semana.

— Então vamos amanhã pegar meu filho. Eu não pari, mas é meu filho.

Caine nem conseguiu falar nada, só sorriu.

— Que tal fazermos um filho?

— Dan...

— Adotar, caralho! Vamos adotar um, não... Um não! Dois! Eu quero dois.

— Mas era você que não queria ser pai.

— Agora eu quero. Vamos adotar três filhos.

— De dois passou pra três? — Caine perguntou confuso.

— Quatro! É, quatro. Dois meninos e duas meninas. Precisamos comprar uma casa muito grande. Quem é Brad Pitt e Angelina Jolie perto da gente?

— Quatro filhos... Vai ter que ter muita paciência, Dan.

— Não importa, eu só quero quatro filhos. Vamos sentar ali e decidir os nomes. — Danion puxou o namorado para o sofá.

Assim ficou apenas Carter, Edgar e Colin conversando.

Carter, que tanto focou na dança de Caine e Danion, esqueceu de olhar para Patrick, e quando pensou em fazer isso, já não viu mais o leonino na sala, o que o deixou com uma pulga atrás da orelha porque Julius também não estava presente.

— Já volto.

Carter se levantou e foi até Hugh que estava jogando sinuca com o Pietro e o Connor.

— Vocês viram a cabrita?

— Não, acho que subiu. — Connor respondeu, mas estava atento a jogada e não olhou para o loiro.

Carter não perdeu tempo e foi direto para a escada, subiu degrau por degrau e ficou assustado com o quão assombrado parecia o lugar. Um corredor vazio o esperava, mas ele não se mostrou covarde e seguiu pela casa até ouvir:

— O Carter. Ele não faz meu tipo.

Era a voz do Patrick, ele conhecia muito bem aquela voz. Por isso parou de repente.

A frase rasgou seu coração ao meio.

— Eu amo o Julius.

Um balde de água fria caiu sobre a cabeça do loiro, que não resistiu ouvir mais nada e saiu dali com os olhos cheios de lágrimas.

Ian, que estava conversando com Patrick, jurou ter ouvido alguma coisa, mas como o silêncio voltou a predominar, eles permaneceram na conversa.

— Não minta para si mesmo. — disse o leonino veterano.

Patrick pareceu pensar.

— Tá, eu não amo o Julius. Eu achava que amava, mas descobri que era apenas carência pelo fato de estar sozinho há tanto tempo. No máximo eu cheguei a gostar dele, admito. Porque da república ele é o mais próximo de mim. Hoje eu percebi que deixei de gostar dele.

— Porque você gosta do Carter! Patrick, porque só você não percebe isso? Você sabia que todos da república já acreditam nisso? Ou percebe e não quer admitir?

— Ele não faz meu tipo, Ian. Como pode alguém tão diferente de mim me atrair tanto? Não faz sentido.

— Me pergunto isso até hoje...

— Quando eu o vi pela primeira vez logo tive certeza de que ele seria um daqueles idiotas que temos que tolerar.

— Quando eu vi o Connor pela primeira vez eu tive a mesma impressão. Connor já foi da república, sequer tínhamos contato quando ele decidiu ir para os Tigres. Até aquele momento eu o achava um idiota, mas foi preciso conhecê-lo de verdade para tomar a decisão que tomei.

— Mas como é possível? Ele é chato, ele é irritante, todo mundo rir do sotaque dele.

— Isso te incomoda?

— Não. — admitiu ruborizando. — É a persistência dele que me encanta, especialmente o sotaque tão único e tão dele. Aquela voz que não é grossa, mas também não é fina... Parece até voz de um personagem de desenho animado. — ao perceber que Ian ria do seu constrangimento, logo retomou a consciência — Mas ele é chato sim! Acredita que hoje mesmo ele não parava de sussurrar no meu ouvido que eu deveria citar ele no meu discurso? Percebe então como ele é idiota?

— Ele é tão apaixonado por você, Patrick. Mas tão apaixonado que acho que não vai existir outro tão apaixonado por você como ele é. Não há nada que ele faça sem pensar em ti. Ele sempre vai pensar no seu bem estar, mesmo que isso doa nele. Basta lembrar no dia em que você o tratou mal na frente de todo mundo.

— Eu sei, eu fui babaca. Mas eu estava com ciúmes. Poxa, eu vi uma garota beijando ele. Como ele diz gostar de mim, mas beija outra pessoa?

— Algum mal entendido, tenho certeza. Patrick, posso ser muito sincero com você?

Patrick confirmou com a cabeça.

— É melhor tomar o tiro agora do que depois, pode mandar...

— Sinceramente... Mas muito sinceramente, você ganhou um grande prêmio. Mas se você perder esse prêmio pode ser que você não encontre nenhum outro. Ele pode ser muito apaixonado por você, mas quem garante que essa paixão vai durar depois de tantos “nãos” que ele toma?

Pensativo, Patrick engoliu em seco. Foi por isso que Ian não quis deixar o clima ficar naquela situação e deu continuidade a conversa.

— Como mencionei, você sabe que ali todo mundo percebeu que você gosta dele, não é?

— O Colin foi falar comigo... Mas só de lembrar eu sinto raiva novamente.

— Deveria ter ido conversar com ele, perguntar o que aconteceu. Tenho certeza que ele não beijou essa garota com o propósito de ter algo a mais.

— Mas ele é virgem, e se ele queria perder a virgindade com ela? — questionou quase arregalando os olhos, preocupado.

— Viu como você fala? Tá mais do que claro que você gosta dele, Patrick. Você deveria aceitar esse sentimento.

— Que droga! É tudo tão confuso, Ian.

— A vida sempre é confusa, talvez seja essa a graça de viver.

Patrick suspirou, abaixou a cabeça:

— Sabe o que é pior? É que eu fiz de tudo. O trato tão mal...

— E ele nunca desistiu. Ele te ama, tenho certeza. Vocês se conhecem antes mesmo de eu voltar pra quadra. Já faz um tempo...

— Sim. Por que eu sou tão burro?

— Qualquer outro no lugar dele teria desistido de você na primeira grosseria. Você pode não amá-lo ainda, até porque é mais fácil ele amar primeiro do que você, e acho que ele já ama, da mesma forma que foi comigo e Connor. Mas o fato da gente gostar, já é um grande passo pra entrar de vez no amor. Afinal, é assim que praticamente todos os relacionamentos iniciam: gostando até se tornar amor.

— Eu sei que eu sou uma pessoa difícil. — disse se jogando no sofá, cansado de ficar em pé. — Reconheço isso. Mas nem sempre eu tô errado. As vezes ele faz umas perguntas e toma algumas atitudes que olha...

— Irritando ou não, ele gosta de você e você gosta dele. Por que não tenta?

— Ele tá todo famosinho agora, aposto que logo vai encontrar uma pessoa nova e eu vou quebrar a cara.

— Duvido! Se fosse pra isso acontecer, ele já teria encontrado alguém. Você viu quantas pessoas estão curtindo ele? Posso pegar o celular e te atualizar.

— Não precisa... Eu vivo no perfil dele, mas não adiciono. — falou constrangido.

— Não consegue ficar sem stalkear ele, não é? — Ian falou sorrindo.

— Ele só posta besteira. Imagina se eu adicionar? Tenho certeza que não vou ter paz no chat e nem nas redes sociais. E agora que ele tá famosinho, toda foto que ele posta tem trilhões de curtidas e vários elogios. Da vontade de xingar todo mundo. — falou fechando os punhos.

— Eu precisei me acostumar com isso. Se tem uma coisa que você vai aprender, essa coisa é: separar a vida amorosa e social do namorado. Pode lá entrar no perfil do Connor, sempre vai ter gente pedindo pra casar com ele.

— Namorado? Égua! — Patrick esfregou o rosto nas próprias mãos. — Esse garoto mexe tanto comigo!

— Mexe mesmo, fez com que você falasse a palavra que ele mais usa. — novamente sorrindo, Ian falou.

— Viu aí? Ele tá fodendo com a minha cabeça. E ontem eu dormi com ele, foi a coisa mais aconchegante da minha noite, e olha que eu sou espaçoso na cama, mas estava tão bom que eu não quis largá-lo. Acordei no meio da noite e quando me dei conta, lá estava eu abraçado. Ele ronca bem baixinho, nem incomoda, chega a ser até fofo, parece um assovio. Até nisso esse idiota é bonito.

— Reparou até no ronco dele?

Ian sorria mais ainda por saber que Patrick estava bêbado e revelando tudo aquilo sabendo que mais tarde poderia se arrepender.

— Para! Que saco. Quer saber? Eu vou atrás dele e por logo um fim nisso. Se ele me quiser, tudo bem, se ele não me quiser, ótimo, eu sigo a vida.

— Ainda tem dúvidas de que ele não te quer?

Patrick se levantou, bateu o pé e saiu do cômodo.

Ian sentou na poltrona que Patrick havia sentado antes e começou a sorrir, lembrou-se do seu início com Connor, que não foi marcado por brigas, mas por essas incertezas.

Patrick desceu as escadas, mas parou no meio dela só para procurar o Carter. Nenhum sinal daqueles fios loiros que ele tanto adorava, que pareciam brilhar sob a luz do sol em seu mais esplendor dourado. Insistente, ele foi até o Edgar que ainda conversava com Colin.

— Cadê seu primo?

— Não sei. Ele tinha subido, pensei que estivesse com você.

— Droga, aquele idiota tinha que sumir logo agora?

— O que aconteceu? — Colin perguntou.

— Nada, tá tudo bem. Eu só preciso falar com ele.

— Eu vou procurar com você. — Edgar falou preocupado já se levantando.

— Não, por favor, eu procuro sozinho. É algo entre eu e ele.

Edgar franziu o cenho e recuou.

Patrick nem deu mais bola aos garotos e saiu para os fundos da casa, respirando tranquilamente quando viu, sentado na beira da piscina, mexendo os pés dentro da água, o loiro de cabeça baixa.

Aquela área era apenas iluminada por poucas luzes, por isso na penumbra Carter parecia tão mais atraente.

— Carter. — Patrick, sem o tom de voz rude, chamou pelo loiro.

Carter, assustado, esfregou o braço nos olhos, limpou o nariz e ficou de pé, escondendo a mão direita nas costas.

— E aí. — sorriu ele se aproximando. — Algum problema?

Patrick pôde perceber pelos olhos dele, úmidos e vermelhos, que ele chorava. E o que mais lhe doeu à alma foi o fato de mesmo assim, ele por um sorriso no rosto e perguntar se havia algum problema, certamente para ele resolver.

— Estava chorando?

— Quê?! — com o mesmo sorriso ele questionou. — É claro que não, uai. Eu molhei meu rosto com a água da piscina. — mentiu. Péssimo mentiroso, a propósito. Uma criança faria encenação melhor que ele.

— Carter, não min-

— Cabrita, ‘cê não fica chateado? — ele então revelou o que tinha escondido nas costas, interrompendo a fala do leonino. — É pra ‘cê... Eu queria ter dado algo melhor como o Julius, mas juro que não sabia que era seu aniversário. Me desculpa, cabrita.

E na sua mão estava uma rosa belíssima, colhida ali mesmo, mas que foi selecionada com tanto carinho, mesmo no escuro, apenas usando a luz do seu celular, furando a mão por causa dos espinhos não vistos, mas não desistindo apenas pensando no leonino.

Patrick pegou a rosa e viu a marca de espinhos na mão dele. Por isso se sentiu extremamente culpado por todo o tratamento péssimo dado ao loiro. De fato, Carter o amava até demais. Há quem não acredite em amor a primeira vista, mas o de Carter era genuíno.

— Obrigado, Carter, eu amei. — disse ele admirando a rosa.

— ‘Cê amou mesmo? — perguntou ele muito feliz.

Patrick balançou a cabeça admirando a rosa.

— Lá na fazenda tinha melhores, mas se ‘cê gostou, tá ótimo. Parou de beber? Vai dormir? Quer leite morno?

O leonino, ainda olhando os detalhes da rosa, respondeu:

— Não, não quero nada disso. — então tornou a olhá-lo — Me conte por que estava chorando.

— Eu não estava chorando, uai. Homens como eu não choram.

— Então me explique esses olhos vermelhos e úmidos.

— Égua!

Carter, de supetão, acabou dando as costas para o leonino, não resistindo mais uma vez e tornando a chorar enquanto seguia caminhando até o poste de dois globos que iluminava uma parte do jardim.

Patrick o seguiu em silêncio, apenas ouvindo o murmúrio dele, mas quando viu o loiro se virar e mais uma vez enxugar a face, seu coração partiu.

— ‘Cê não deveria me ver assim, cabrita. ‘Cê devia voltar pra dentro.

— O que tá acontecendo?

Carter mais uma vez abaixou a cabeça e esfregou os olhos, as lágrimas não paravam de vir só de pensar no que tinha ouvido lá em cima.

— Eu não sei mais o que fazer, cabrita. E-eu só queria ser especial pra ‘cê. Mas nada do que eu faço serve pra alguma coisa. ‘Cê só me trata mal, tudo o que eu digo, tudo o que eu faço, nada está bom pra ‘cê.

Frase por frase foi sendo um tiro no peito de Patrick, que ouvia aquilo calado, mas uma vez sentindo-se arrependido por tudo o que fez.

E Carter falava tudo com voz de choro, não conseguindo conter as lágrimas.

— Eu não deveria tá chorando por isso. Eu sei que não sou igual o Julius. ‘Cê ama ele, é seu coração. Eu nem pude fazer você sorrir com a rosa que ‘cê tá segurando. — Patrick automaticamente olhou para a rosa, querendo se explicar, mas sem oportunidade. — E-eu juro que me esforço, eu tento me encaixar no seu mundo, mas quer saber? Eu sou da roça mesmo, eu sou diferente, ‘cê nunca gostaria de gente que fala como eu, que se veste como eu, que gosta das mesmas coisas que eu. É verdade, eu não faço seu tipo.

Patrick desconfiou que ele tivesse ouvido sua conversa lá em cima.

— Mas é chato porque e-eu não consigo gostar de nenhum garoto, só ‘cê que mexe comigo. Queria te fazer feliz, eu ia cuidar sempre de ‘cê. Eu tenho certeza que daria a vida por ‘cê. Mas a gente não manda no coração. ‘Cê tem razão, eu sou muito chato, eu sou idiota. Mas que eu posso fazer se eu amo tanto ‘cê?

E a última frase foi dita olhando nos olhos do leonino.

— Égua. — Carter virou as costas e mais uma vez passou o braço nos olhos. — Por que eu disse isso? ‘Cê não precisa ter pena de mim, cabrita. Me deixa aqui sozinho. Que vergonha, eu passei, vozinha. — a saudade apertou o peito, ela era sua conselheira e melhor amiga enquanto estava na fazenda.

Carter não disse mais nada. Eles podiam ouvir as risadas vindas do interior da casa, mas além disso o som do loiro assuando o nariz era alto.

— Posso falar agora? — Patrick pediu permissão.

Enquanto esfregava o nariz, Carter só balançou a cabeça.

— Vamos ao presente que você me deu. Esse é o melhor presente que eu ganhei hoje, o mais singelo e o mais bonito. O fato de eu não ter sorrido não significa nada, Carter. O que importa é o que eu senti aqui dentro do meu peito... Se você soubesse como essa simples rosa me deixou, jamais diria o que disse.

Patrick então se aproximou do loiro, fez questão de dar a volta no corpo dele e ficar de frente, assim tocando-lhe o queixo e forçando-o a olhá-lo. Aqueles olhos vermelhos eram tão tristes que ele sentia o peito apertar. Carter sempre teve olhos tão bonitos, que mesmo chorando, o azul de seus olhos parecia reluzir.

— Se eu te tratei mal foi porque tentei esconder meus sentimentos por você. Se eu disse tudo aquilo, foi porque eu queria, mais do que tudo, não gostar de você. E eu admito aqui na sua frente. Por quê?! Porque naquele período eu pensava em outro alguém, mas aí você veio e transformou tudo tão de repente. Eu não podia admitir que estava começando a gostar de você assim tão facilmente, tudo isso porque nada em você se parece com aquilo que eu pedi aos céus.

Patrick segurou na mão dele, entrelaçando os dedos, apenas para sentir e dar mais confiança.

— Você ouviu minha conversa lá em cima, não foi?

Carter virou o rosto constrangido.

— Eu não queria, juro. — disse esfregando o nariz.

— Você ouviu tudo?

Ele negou com a cabeça.

— O que você ouviu?

— Deixa pra lá, cabrita.

— Não, agora nós vamos resolver isso. Você certamente não ouviu tudo, mas eu só quero que saiba que eu perguntei ao Ian como pode um ser tão diferente de mim me atrair tanto? Mas então é só se lembrar do próprio Connor e o Ian, duas pessoas tão diferentes e que se amam tanto. E você é muito diferente de mim, Carter, mas fode pra caralho com meu cérebro. E eu sinto ciúmes de você, mas pra que merda eu tô admitindo isso? Eu devo admitir, é claro. No dia que eu te insultei na frente de todo mundo foi porque eu vi uma garota te beijando.

— E-ela me beijou sem minha permissão, eu não esperava, até falei que tinha alguém. Quando eu virei o rosto eu já estava sendo beijado, foi desagradável.

— Agora não importa mais. Já passou. Você é idiota, persistente, chato, fala pelos cotovelos, mas tudo isso me encanta em você. Me irrita? Sim, mas eu acho que não gostaria de você se não fosse assim. Eu gosto do jeito que você anda, do jeito que você fala, do jeito que sorri para mim e até de como mastiga. Eu gosto desses pelos dourados no seu braço, dos seus olhos azuis, das suas mãos ásperas... — e enquanto tagarelava, o leonino chorão, segurava as lágrimas nos olhos, consequência da bebida, apenas por lembrar de tudo o que já fez ao loiro — E gosto ainda mais da forma que você cuida de mim, de como se preocupa e do fato de sempre me perdoar. Ian estava certo, eu ganhei um grande prêmio. Eu sou irritado, sou ciumento, sou até mesmo violento se me irritarem demais... Mas ainda assim você esteve ao meu lado. Ah, quer saber? — Patrick deixou a lágrima cair e não perdeu mais tempo.

Bêbados são sinceros e corajosos.

Quando menos esperava, Patrick, na ponta dos pés, roubou um beijo do loiro. Um beijo onde Patrick conseguiu distinguir o gosto da lágrima dele e Carter sentir o gosto da bebida. Beijo este que era calmo, embora quente da parte do leonino.

Carter, educadamente, pôs as duas mãos no quadril do leonino enquanto Patrick envolveu os dois braços no pescoço dele.

Pelo menos aquela era, sem sobra de dúvidas, o beijo mais marcante de suas vidas, especialmente da parte do Carter que tanto insistiu por algo que até conseguiu. E lembrar que seu primeiro beijo com Patrick foi apenas um selinho.

Patrick obviamente era o mais experiente, no entanto Carter tinha controle de suas mãos no corpo do leonino, da mesma que seu beijo parecia se tornar melhor, para o leonino, a cada segundo que passava, como se magicamente ele fosse ganhando experiência por cada segundo.

De repente, só se ouviu gritos vindos da porta de passagem do jardim. Lá estavam todos assistindo aquela cena.

Patrick, assustado e constrangido, afogou o rosto do tórax do loiro, enquanto isso, Patrick só sabia rir, feliz e com o coração pegando fogo. Queria congelar esse momento, queria tatuar as palavras do leonino em seu corpo.

— Manda eles saírem daqui. — Patrick pediu.

Mas Carter estava explodindo e alegria por dentro que nada saia de seus lábios, ele também estava constrangido por ter sido flagrado aos beijos.

— Ei, ei, vamos entrar e deixar os pombinhos aí. — Colin gritou, ordenando que todos saíssem dali.

Carter assistiu todo mundo entrar e por isso disse:

— Eles já foram.

Quando Patrick planejou falar algo, sequer conseguiu, Carter tocou o rosto dele e logo tacou-lhe um beijo. Pra quê perder tempo, não é mesmo?

E o dia seguiu com eles juntinhos, Carter não se separou dele um segundo até que o dia terminasse.

E o "dia" terminou.

Patrick se despedia dos colegas depois de um longo dia. Com exceção de Colin, o único a não pegar sol e tomar banho de piscina, os demais estavam bronzeados. Carter, por exemplo, sentado na escada enquanto assistia o leonino despedindo-se, parecia um pimentão.

— Você vai ficar bem? — Patrick perguntou para Julius, o último a sair da casa.

— Vou. Por que você vai dormir aqui? Sério que você gamou mesmo no caipira? — brincou.

— Cala a boca! Eu vou dormir só para ajudar o Ian a arrumar a bagunça amanhã.

— O Ian tem grana pra contratar empregados para isso. Vai, não mente pra mim.

— Cala a boca, Julius! Vai logo embora!

— Você tá bêbado, sabe disso, não é? Sorte que o da roça sabe cuidar bem de você, se fosse qualquer outro eu não deixaria.

— Tchau, tchau, tchau... — falou empurrando-o para fora.

Julius somente sorria, Patrick realmente estava o expulsando. Ele só deixou o amigo em paz porque Colin gritava do táxi dizendo que já iam partir.

Patrick encostou-se a porta e sorriu, estava muito feliz pelo seu dia. Seu sorriso acabou gerando um pouco de ciúmes em Carter e isso foi visível quando o loiro cruzou os braços e olhou pra cima.

— Vocês já vão dormir? — Patrick perguntou para Ian.

— Vou comer antes de ir para o quarto.

— Tem certeza de que podemos dormir aqui?

— É claro! — quem respondeu foi Connor todo empolgado — Uma casa enorme dessa? Eu tenho medo de acordar tarde da noite e descer pra beber água.

— Égua! Para! — Carter se manifestou.

Patrick e Ian riram ao mesmo tempo. Acompanhando o dono da casa, o leonino seguiu para a cozinha ao lado de Connor. Carter correu para alcançá-los com medo de ficar sozinho, por isso quase tropeçou e acabou tombando em Patrick que resmungou.

Já na cozinha, Ian viu a bagunça que estava o lugar, mas não se importou tanto. Abriu a geladeira e tirou uma garrafa branca com leite, o que chamou a atenção de Patrick, este institivamente olhou para o Carter, mas não disse uma palavra com vergonha de pedir seu leite morno que somente o loiro sabia fazer.

Connor já estava no fogão preparando linguiça defumada e ovos fritos enquanto duas torradas estavam na torradeira.

— O que você vai comer, Carter? — Ian perguntou.

— Tô esperando a cabrita decidir.

— Você vai comer o que eu comer? — Patrick perguntou.

— Sim, uai.

— Eu só vou tomar meu leite.

— ‘Cê quer que eu faça?

— Eu posso fazer. — Connor se ofereceu.

— Não, égua! Eu faço! — rapidamente se dirigiu para a garrafa de leite e a tomou do outro leonino.

Patrick olhou constrangido para Ian que estava somente o olhando, provavelmente querendo-o lembrar de todos os conselhos que trocaram no primeiro andar da casa.

— Eu tive que abastecer a geladeira quando soube que todos vinham para cá. Se não fosse por isso, estaríamos nesse momento procurando algum fast-food.

Patrick foi até a geladeira e olhou o que tinha de bom por ali. Ainda restava bastante comida. Por isso ele pegou um prato, pôs duas coxas de frango, bastante ervilha, milho cozido e cenoura, purê de batata, linguiça e feijão enlatado. Ele logo em seguida levou o prato ao micro-ondas, esquentou por alguns segundos e o pôs na mesa.

Carter ainda terminava de derreter o açúcar, mas o leite estava numa panela ao lado. Ele estava bem atento, não querendo ferver o leite, mas sim só deixá-lo morno.

Ian e Connor já estavam comendo quando o loiro terminou de preparar o leite do Patrick.

— Aqui, cabrita, beba tudinho. — disse ele entregando a xícara ao leonino.

— Coma. — disse o garoto pegando seu leite, arrastando o prato para o lado e encostando os cotovelos na mesa.

— É meu? — perguntou surpreso.

— Claro, de quem mais seria?

— Pensei que era seu.

— Eu só quero o leite.

— Eu vou comer tudo isso sozinho? Come comigo, uai.

— Você não come pouco...

Carter coçou a cabeça e não reclamou, pegou o garfo e a faca e logo foi devorando o que tinha no seu prato.

— Vocês perceberam que o Colin estava estranho? — Patrick perguntou aos amigos.

— Estranho? — Carter, com a boca cheia, perguntou.

— Eu não percebi nada. — Connor também falou.

— Eu percebi. — Ian finalmente concordava com Patrick. — Ele parecia muito aflito, mas tentava participar de tudo sem deixar desanimar.

— O que será que aconteceu? — Patrick questionou.

A partir dali o diálogo ficou entre os dois enquanto Connor e Carter somente comiam e escutavam a conversa.

— Provavelmente tem o Sean no meio. Eles vivem assim, não é?

— Eu também pensei no Sean. Mas eles parecem estar bem, inclusive o Colin foi dormir ontem com o namorado, não foi? Pelo menos ouvi isso quando cheguei à república hoje de manhã.

— Sim. Pode ter sido outra coisa então, mas para ele ficar daquele jeito, tem algo muito sério acontecendo com ele. Colin é muito transparente, ele não consegue esconder quando está triste ou feliz.

— Espero que fique tudo bem. É o melhor líder que eu já conheci. Estressado, mas uma boa pessoa.

Carter engasgou, Patrick o fuzilou.

— William o ensinou direitinho. Felizmente fiz parte da geração do Will. Ele tem uma alma linda, não havia ninguém que tocasse nos nossos fios de cabelo que pudesse sair impune. Fora que ele era muito respeitado, acho que só o Colin chegava a testar ele. O Danion testava, mas sabia onde parar.

— O maior rival que os tigres já tiveram, não é?

— Nem me fale... Não tinha um dia de paz naquele lugar. Era leão atacando tigre, tigre atacando leão. Você sabe de toda a história do William, Colin e Sean?

— Sei um pouco. Imagino a loucura que foi para vocês quando a verdade sobre o relacionamento do Colin veio à tona.

— William ficou uma fera, mas seu coração era grande demais para não perdoar o Colin. Ele sim é meu exemplo de homem.

— Tirando o fato de que ele me bateu e quase me afogou na privada, ele era legal. — Connor acabou entrando na conversa.

Patrick ficou surpreso, ele não sabia desse detalhe.

— É... longa história.

Ian prosseguiu comendo rapidinho até ficar de pé.

— Já vou indo para o quarto, vão precisar de ajuda?

— Não sabemos onde vamos dormir.

— Em qualquer lugar. Quer que mostre algum quarto?

Percebendo o cansaço de Ian, mesmo com toda sua gentileza, Patrick negou.

— Podem ir dormir, vou ficar mais um pouco esperando o Carter e depois procuro um.

— Lá no primeiro andar, a terceira porta do corredor, é um quarto. Vocês podem dormir lá.

Patrick assentiu.

Ian se afastou.

— Espera, espera, já terminei. — Connor falou alto enquanto corria ao encontro do namorado. — Boa noite pra vocês. — disse ele.

Depois da saída deles, só se ouvia o som do contato dos talheres com o prato de Carter. Ele comia sem pensar no amanhã, depois de praticamente não ter comido durante o dia todo.

— Cabrita. — disse ele de boca cheia.

— Diga. — Patrick respondeu com um suspiro.

— Vamos dormir juntinhos?

— Não. Quartos separados.

Se não fosse a fome, Carter teria cuspido toda a comida. Mas ele engoliu contra a sua vontade e acabou se entalando, o que resultou no desespero da parte de Patrick que correu em busca de água para ajudá-lo.

— Égua! — disse ele tossindo. — Por que?

— Eu falei brincando, seu idiota.

— Porque ‘cê faz essas coisas comigo, uai?

— Precisava disso tudo? Nós sempre dormimos separados.

—Eu sei, eu sei... Mas hoje é especial, né?

— Especial por quê? — suspeitando, Patrick levantou uma sobrancelha e o encarou enquanto se preparava para tomar o leite.

Não tinha como ruborizar, Carter já estava vermelho demais para isso. Mas os lábios trêmulos declararam seu nervosismo.

— Vamos fazer aquilo?

Dessa vez foi Patrick que engasgou.

— Égua, égua, égua! — dizia o loiro dando leves tapas nas costas dele.

— Você tá louco? — o leonino disse enquanto esfregava a boca nas costas da mão.

— Que eu fiz?

— Ai, Carter, termina logo isso aí. — disse ele se levantando, seu rosto queimava de constrangimento.

— Já terminei, uai. Estava só esperando ‘cê.

— Então vamos logo.

— ‘Cê ainda não me respondeu.

Patrick saiu da cozinha.

— Hein, cabrita? A gente vai fazer aquilo?

— Não! É claro que não!

— Mas por que, uai?! Casais não fazem isso?

Patrick subia apressadamente as escadas.

— Pensei que casais fizessem isso... Mas um dia faremos?

— Carter, chega!

— Égua. Tá bom, tá bom. — disse cabisbaixo.

Ele olhou para entre as pernas e sussurrou: “não é hoje, garoto, fica pra próxima”.

— Com quem está falando? — Patrick perguntou assim que chegaram à porta do quarto.

— Com ninguém.

— Eu ouvi, Carter.

— Eu falei sozinho, uai. Égua, me deixa! — resmungou.

Patrick abriu a porta sem optar por discutir. O quarto era razoavelmente grande, com duas camas de solteiro. Provavelmente era um quarto de hospedes, para mais de um nesse caso.

O leonino virou para olhar a cara de decepção de Carter e sorriu.

— Vou tomar um banho. — Patrick saiu satisfeito para o banheiro.

Frustrado, Carter sentou-se numa cama e ficou resmungando. Ele nunca sentiu tanto azar na sua vida como naquele momento. Tanto lutou para ter o Patrick e, quando finalmente alcançou seus objetivos, iriam dormir em camas separadas.

Patrick tomou um rápido banho e retornou ao quarto lançando a toalha nos ombros do loiro que se levantou tristemente até se dirigir ao banheiro.

O leonino não fez outra coisa senão se deitar numa das camas, se cobrir até os ombros e fechar os olhos. O banho de Carter foi mais demorado, por isso ele nem pregou os olhos de tanto que esperava o loiro retornar. Foi só quando ouviu o som da água parar que ele deduziu que o garoto havia terminado, por isso ficou imóvel na cama para dar a impressão de que estava dormindo.

Carter apagou a luz do quarto e se deitou. Somente uma mesinha de gavetas e com um abajur separava as duas camas.

— Cabrita, você já tá dormindo? — o loiro perguntou.

Patrick não respondeu.

— Cabrita, responde.

— Que é, Carter? — falou e se mexeu na cama.

— Nós estamos namorando?

— Não.

— Ah, tudo bem... — disse muxoxo.

Patrick ouviu o barulho da cama do loiro, por isso ligou o abajur e descobriu que ele estava coberto até a cintura, mas com as costas viradas para ele.

— O que foi? — Patrick perguntou.

— Pensei que estivéssemos namorando. Eu ia contar pra todo mundo amanhã.

Patrick engoliu em seco.

— Mas tudo bem, né? ‘Cê me beijou, isso é bom.

— Você não oficializou. — soltou o leonino, baixinho.

— O que? Como assim? — ele se virou.

Patrick fez questão de deitar de barriga para cima e não olhar nos olhos dele.

— Você não oficializou.

— O que é isso?

— Fazer um pedido, Carter. É você que tem que me fazer o pedido.

— Mas égua, então, cê quer namorar comigo?

— Assim, Carter? Égua!

— Que eu fiz de errado agora, uai?

— Eu esperava algo diferente.

— Mas ‘cê mandou fazer o pedido. Eu pedi.

— Sim, mas não de maneira tão fria assim. Quer saber? Boa noite.

Patrick desligou o abajur e ficou de costas para o loiro. Não esperou ele, que depois de dez segundos, alguém reacendeu o abajur, adentrou o seu cobertor e o abraçou por trás, aproximando o corpo de modo com que ficassem bem juntinhos.

— Cabrita braba, cabrita muito braba. ‘Cê sabe que eu gosto muito de ‘cê.

Patrick não disse nada, somente suspirou.

— Eu prometo cuidar de ‘cê com toda minha vida.

— É mais fácil eu te proteger do que você me proteger de alguém na porrada.

— Égua, deixa eu ser romântico, uai.

— Tá, tá, tá...

— Agora já perdi todo o clima. Égua, ‘cê é muito malvado, cabrita.

Como nunca teve muita paciência, Patrick soltou:

— Você quer namorar comigo ou não?

— Sim, uai.

— Mesmo sabendo que sou ciumento, irritado e que facilmente me estresso? Ah, Carter, eu não sei demonstrar carinho, sou péssimo. Mas eu prometo que vou me esforçar.

— Eu não sentiria o que sinto se fosse diferente, uai.

— E o que você gosta em mim?

— A bunda.

— Quê?!

— Égua! Não, não, não! Não era isso. ÉGUAAA! ‘Cê me deixou nervoso. Desculpa, cabrita, desculpa, desculpa, desculpa...

É que o fato de estar tão próximo a ele, colado ao corpo dele, estando tão necessitado de sexo, deixou o loiro pensando em coisas obscenas.

— Sabe de uma coisa, faça logo o pedido e vamos acabar com isso de vez.

— Tá bom, tá bom. Cabrita, ‘cê, aceita o amor desse boi aqui? Um cara tão bonito quanto eu, que promete te guardar dentro do coração, proteger de todo mal, te dar o mundo... E uma fazendo também pra gente cuidar dos nossos cabritinhos. ‘Cê sabe que eu gosto muito de ‘cê, tanto que nem cabe no meu peito. E aí, ‘cê aceita casar, égua... É namorar. ‘Cê aceita namorar comigo?

— Não.

Depois de todo discurso, essa foi a resposta, acompanhada de um sorriso travesso do leonino.

— ÉGUA!

— Sim, sim, sim... — brincou ele, virando-se com um sorriso no rosto.

— Por que ‘cê faz essas coisas comigo? Eu falei tudo isso nervoso, calculando até as palavras pra ficar mais bonita.

Patrick apertou a bochecha dele enquanto o loiro fazia bico.

— Pronto, agora você pode dizer por aí que me namora. Mas eu quero que diga pra todo mundo mesmo, todo mundo... Você entendeu, Carter Emmanuel Turner?

— Égua, eu entendi uai. Como ‘cê sabe meu nome todo?

Patrick ficou em silêncio, assustado e constrangido.

— Não importa, só sei que quero que conte pra aquela garota nojenta que te beijou. E pra todas que tentam você.

— Égua da cabrita ciumenta.

— Você escolheu ficar comigo, então vai ter que se acostumar.

— Tá. Mas ‘cê não vai se arrepender. Eu juro que vou ficar com ‘cê até ficar bem velhinho de cabelo branco. Vamos morar numa fazenda, eu vou cuidar de tudo. Vamos ter vários cabritinhos, uns quatro espalhado por lá.

— Calma, Carter, está sonhando demais.

— Tá, tá, mas ‘cê quer ter quantos cabritinhos comigo?

— Ainda é cedo pra pensar nisso. Vamos apenas deixar acontecer.

— Ok, é verdade. Já que ‘cê tá aqui comigo, vamos tirar uma foto. Agora eu sei mexer nesse troço aqui. — disse referindo-se ao aparelho celular.

Carter o pegou e, deitados na cama, ele ergueu o celular enquanto Patrick arrumou o cabelo, deitou sua cabeça no tórax do loiro e sorriu. Carter, bobalhão, tinha o sorriso mais sincero do mundo.

— Guarde bem essa foto, porque só vou tirar outra sabe-se lá quando.

— Não tem problema, eu tiro sem que você perceba.

— Carter!

O loiro sorriu e o agarrou pela cintura, não perdendo tempo e arrancando-lhe um beijo daqueles de tirar o fôlego. O problema é que Carter não tem controle nenhum sobre o que carrega entre as pernas, logo quando Patrick correspondeu com um suspiro quente ao ter a cintura pressionada, rapidamente o pênis do caipira ganhou vida.

— Eu tô sentindo, Carter. — Patrick interrompeu o beijo para falar.

Carter coçou a sobrancelha sem saber o que falar, era tão cara de pau que um sorriso brotou do seu rosto.

— O que você quer, você vai ter... Mas não agora, não hoje. Só tenha calma.

— Amanhã?

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Patrick revirou os olhos.

— Tá, tá, tá... Tô brincando. Mas égua, ‘cê sempre me deixa assim. Eu tinha que fazer alguma coisa quando ia dormir.

— Espera... Está dizendo que se masturbava pensando em mim quando ia dormir?

Depois de perceber a merda que disse, Carter levantou as duas mãos, protegendo o rosto, temendo apanhar.

— Égua, Carter, Égua! Eu não precisava saber disso.

— Mas que é que tem, uai?

— Nada, mas eu não precisava saber disso.

— Desculpa, cabrita. Escapou.

— Tudo bem, eu nem deveria me surpreender com isso.

— Mas é que... Poxa, eu nunca fiz aquilo.

— E só por que começamos a namorar agora já devemos transar?

— Eu pensava, uai.

Não tinha como não rir daquela ingenuidade do garoto. Patrick não resistiu e o beijou rapidamente.

— Você terá em breve.

— Mas por que não hoje?

— Por que eu prefiro te castigar um pouco mais...

— ÉG-

Com o dedo na boca do loiro, Patrick só sussurrou:

— Enquanto isso, aproveita e continua me beijando... — em surpresa, a mão do leonino deslizou e cobriu a base do pênis do loiro em sua mão, por fora da camisa.

A sensação foi tão maravilhosa, que seu corpo todo tremeu da ponta dos pés à cabeça. Quando ele ia falar novamente, Patrick o beijou enquanto acariciava o membro dele.

Numa investida, Patrick montou sobre ele, de maneira que arqueasse as costas e sua bunda ficasse em perfeita posição sobre o membro do loiro. Patrick realmente não resistiu. Culpa do loiro que tocou tanto no assunto que seu corpo entrou em modo excitação. E como ele tinha esse lado provocativo, acabou assustando Carter, que ainda assim adorou a investida.

Mas eles não transaram, apenas trocaram alguns beijos quentes, bem quentes mesmo. Patrick só quis recompensá-lo, por isso no meio daqueles beijos tão quentes, o leonino interrompeu o beijo.

— Carter, você me perdoa?

— Pelo quê, uai?

— Por tudo.

— Tudo o quê?

Patrick sorriu.

— Ok, deixa para lá. Sinto que já estou perdoado por tudo de mal que te fiz.

Ele sequer deixou Carter respondeu e voltou a beijá-lo.

Assim seguiu a noite de carícias e beijos quentes, mas Patrick era realmente decidido e por isso não transaram. Ele realmente queria que a primeira vez dele fosse em um momento mais especial... E ele já planejava isso, sabia perfeitamente o que ia fazer na primeira vez em que transassem.

[...]

Colin e Sean estavam no banco traseiro do carro.

Quem dirigia era Joe, tentando de alguma forma manter um diálogo com o filho, mas Sean estava tão monótono que tudo o que fazia era segurar na mão do seu namorado, apertando-a em alguns momentos.

Ele, definitivamente, sentia medo, mas não queria deixar transparecer.

Enquanto isso, Colin estava em completo silêncio, apenas olhava através da janela, desejando chegar à clínica onde o teste de gravidez foi realizado. Ele não podia negar o nervosismo, por isso estava batendo o pé repetidas vezes.

Joe teve que se contentar com Veronica, sua namorada que também os acompanhava.

Anita e Joseph não sabiam disso, Colin evitou contar aos seus pais o que estava acontecendo recentemente. Melhor abstê-los desse momento a tê-los tão preocupados quanto o filho. Com certeza Anita sairia de Aroma e estaria junto ao filho nessa clínica, muito mais nervosa do que ele.

O dia anterior tinha sido já de tenso, mas sem brigas. Ambos, Colin e Sean, estiveram juntos durante a noite, mas não tocaram no assunto do resultado. Eles agiam como se fossem robôs, automaticamente. Conversaram pouco, isso porque Colin passou a maior parte do tempo com os amigos.

Como podia um simples testa mudar tanto as pessoas?

Era certo que eles não queriam estar naquela situação, tanto é que se esforçaram bastante. Mas quando o dia finalmente estava para chegar, era impossível agir de maneira feliz e sorridente quando a preocupação é muito maior que isso.

Eles finalmente chegaram.

Joe foi o primeiro a descer do carro e Veronica desceu logo em seguida.

Sean e Colin permaneceram ainda dentro, um olhando para o outro, ambos com as mãos unidas, sabendo que se soltassem aquela poderá ter sido a última vez que estiveram juntas a depender do resultado.

— Eu te amo acima de qualquer coisa. — Sean disse.

Colin somente fez um aceno de cabeça.

— Você vai saber que eu nunca menti para você.

O leonino ainda permanecia em silêncio e Sean respeitava isso, mas queria dar-lhe o conforto que ele merecia. Queria mostrar que tudo estava bem. Que tudo ficaria bem.

Colin soltou a mão do namorado, deslizando seus dedos até finalmente não mais tocar os do namorado. Ele desceu do carro e Sean veio pela mesma porta.

— Acho que ele está me aguardando. — Joe disse assim que viu os garotos.

O responsável pelo teste era amigo do Joe, em quem ele confiava. Inclusive a clínica ficava longe da Quadra. Ter alguém de confiança fazendo esse teste era melhor e com chances mínimas de adulteração.

O teste realizado é chamado de teste de DNA não invasivo, isso porque ele coleta uma amostra do sangue intravenoso da mãe e dos supostos pais — nesse caso o do Sean. Nesse teste será analisado milhares de fragmentos do DNA do feto encontrados no sangue da gestante.

Por utilizar uma tecnologia moderna e muito elaborada, o preço dele não era algo barato de se ver. No entanto, para essa família isso não significava nada.

Eles entraram na clínica e logo no corredor encontraram Suzana, a mãe de Sean, totalmente séria e encarando Joe, mas alternando seu olhar para o Colin. Larah estava com ela, quieta, sem nenhuma expressão provocativa.

— Acha que tenho todo o tempo do mundo para esperar?

— Vai começar, Suzana? — Joe perguntou.

— Você é um péssimo exemplo para o meu filho. Maldito o dia em que resolvi te apresentar a ele.

— Você que é um péssimo exemplo. Veja com quem ele está agora. Você nunca deu a atenção necessária que o garoto precisava.

— Ah, é? Eu o eduquei e dei tudo o que ele adquiriu até hoje. Ele pode até me odiar, mas esquece que só vestiu as melhores roupas, estudou nas melhores escolas, comeu das melhores comidas e teve tudo de bom e do melhor por minha causa. Ele é um filho ingrato! — ela deu ênfase na última frase enquanto apontou o dedo para a cara do filho.

— E tudo isso significa amar? Amar vai além de dar essas coisas materiais. Seu filho precisava de carinho e tudo o que você fazia eram cobranças, exigindo dele nunca errar. E agora, depois de velho, ele errou bastante e aprendeu com seus erros, por sorte enxergou quem você é de verdade e decidiu mudar.

Sean somente suspirou.

— Calado! Você nunca vai saber como é passar anos cuidando de um filho sozinha. E qual a necessidade de trazer essa mulher? Já está de relacionamento novo? Quantos você teve mesmo? É assim que você quer dar exemplo ao meu filho?

— Ah, cala a boca, Suzana.

Veronica iria rebater, mas vendo que a situação iria levar para um momento ainda pior, ela se absteve.

— Não viemos aqui por causa do resultado? — disse a mulher loira.

Os três jovens eram os únicos em silêncio.

— Tem razão, é melhor irmos a ter que perder discutindo com essa aí.

— Viemos a esse lugar péssimo para fazer um simples teste. Precisava ser tão longe? Se eu soubesse antes que era aqui, jamais teria concordado com a ideia. É por isso que não me deixaram vim aqui no dia que fizeram a coleta de sangue?

— Melhor você longe de tudo. Tem sorte de termos deixado você vim junto para saber do resultado.

Joe começou a caminhar segurando na mão de Veronica. Suzana ainda ficou um tempo, ela encarou o filho, decepcionada. Sean não abaixava a cabeça, permanecia quieto, olhando-a sem temor até que ela cansou e deu as costas. Larah a acompanhou quando se deu conta de que estava apenas com Colin e Sean.

Sean olhou para o namorado, Colin mantinha os olhos fixos no corredor, estava com medo de prosseguir.

Talvez para qualquer um isso era ridículo. Se quisesse saber do resultado, ia logo, pronto e acabou. Mas Colin tinha muito medo do que poderia acontecer com o seu futuro e o do seu namorado. Era amor demais envolvido para simplesmente ter sido atrapalhado dessa forma.

— Colin? — Sean disse baixinho.

Foi assim que Colin despertou, olhou para o namorado, balançou a cabeça e seguiu caminhando.

Entraram todos numa mesma sala, onde o ginecologista já estava os aguardando. Era um homem com lá seus 50 e poucos anos de idade, cabelos pretos com fios grisalhos. Homem simpático que cumprimentou a todos os presentes, prologando esse cumprimento com Suzana, talvez porque ela fosse a mulher mais velha ali dentro.

— A sala ficou cheia. — Jeremias, o ginecologista, falou.

— Infelizmente. — Joe deixou claro o seu desprezo por Suzana.

— Então, a quem devo entregar o resultado?

— A mim. — Suzana se manifestou.

— Claro que não! — Joe interferiu. — Quem deve abrir é o Sean.

— Mas eu sou a mãe dele, então devo ler primeiro.

— Mas ele quem tá enrolado nessa situação toda, não fosse por isso não estaríamos aqui.

Jeremias só observava quieto, assim como Veronica, descobrindo esse lado mais estressado do Joe.

— Não posso entregar à mãe?

— Eu quero ver primeiro. — finalmente Sean falou algo, interrompendo a discussão do seu pai e da sua mãe.

Ninguém foi contra a decisão do moreno, que pegou o exame ainda fechado.

Ele olhou para o envelope por segundos intermináveis para os demais que estavam ansiosos. As mãos do moreno até tremiam e isso era visível. Sean abriu o envelope, mas não retirou o resultado de dentro.

Ele fez tudo devagar, parecia até em câmera lenta.

Quando o resultado já estava em suas mãos, ele finalmente decidiu olhar. Os olhos correram da primeira letra até chegar na tão esperada palavra, desejada e indesejada, escrito assim: positivo.

Sean fechou os olhos, desejou abri-los e não ler aquilo novamente. Necessitou ter lido errado, ter confundido. Queria não saber ler. Ao abrir os olhos novamente, lá estava a palavra mais uma vez confirmando sua paternidade.

A primeira pessoa para quem ele olhou foi o namorado, mas as lágrimas já estavam em seus olhos, beirando prestes a cair.

Ver aquelas lágrimas do moreno foi a fatalidade para Colin. Ele engoliu em seco, o coração bateu tão forte que ele jurou que todos estavam ouvindo. Num gesto rápido, ele arrancou o papel da mão do namorado e viu a mesma palavra: positivo.

Os olhos de Colin foram ao chão, tudo ao seu redor parecia girar, borrões. Mas a única pessoa em destaque era Suzana, ela ria. Ria da situação. Um sorriso vitorioso, audacioso.

Naquela altura do campeonato, todos já sabiam do resultado sem nem mesmo verificar o papel.

Sean passou a mão nos olhos, tentou tocar em Colin, mas o pequeno simplesmente passou por baixo do seu braço, abriu a porta e saiu.

— Colin. — disse o Sean numa voz de partir o coração.

Ele nem deu a mínima para quem estava na sala, apenas olhou para Larah com muita fúria e saiu para tentar alcançar seu namorado.

— Colin. — o chamou.

Colin estava a sua frente, caminhando sem parar.

— Colin, não vá. — pedia o moreno.

As pessoas no corredor paravam o que estavam fazendo para ver a cena.

— Colin, por favor, vamos conversar. — continuou falando o moreno, já mais próximo dele.

Colin saiu da clínica e seguiu pela calçada até a faixa de pedestre, sequer se importou com o sinal vermelho, lançando-se na pista, mas felizmente não sendo atropelado.

Sean teve que fazer o mesmo.

Ele só conseguia mover a cabeça negativamente, ainda pensando no resultado, querendo tirar a palavra positivo da sua cabeça.

— Colin. — disse quando já estava atrás dele.

— Me deixe, Sean. — respondeu o pequeno.

— Não posso fazer isso. Nós precisamos conversar.

— Não agora. Eu quero ficar sozinho.

— Você vai ficar sozinho, mas não nesse lugar que nem conhecemos. Vamos voltar juntos.

Todo o diálogo era feito enquanto eles caminhavam ainda sem rumo, com Colin na frente e Sean atrás.

— Eu só quero ficar sozinho.

— Colin, aquele resultado não significa nada.

— Você vai ser pai, Sean. Quando isso não significa nada?

— Colin, por favor, não vá.

— Preciso de um tempo para aceitar tudo isso.

— Podemos refazer o teste. Não podemos acreditar nele. Acredita em mim, e-eu...

— Sean! — Colin se virou de supetão, assim quase fazendo seu namorado tropeçar. Seu rosto estava molhado por suas lágrimas, isso destruiu o moreno. Destruiu tão profundamente que recolher os pedaços dentro dele seria uma tarefa difícil. — Me deixe sozinho, por favor. — suplicou.

Sean então não disse mais nada, desistiu de insistir em respeito a dor do namorado. Colin virou as costas já esfregando o rosto e correu, sem rumo, sem direção, sem destino, num lugar desconhecido.

— Não me deixe sozinho nisso. — murmurou o moreno com a voz de choro, nunca ouvida por alguém.

Lá estava o moreno parado numa calçada, com pessoas indo e voltando a sua volta, completamente abandonado.

Pai.

Notas finais
É... E agora?