República de Tigres
31 Capítulo 31
Notas iniciais
— Dan? Pode vim me buscar? Por favor.
Danion levantou da cama sentindo sua cabeça latejar. A ressaca chega para alguns.
Ele imediatamente reconheceu a voz e sabia que esse tom melancólico só significava que o resultado havia dado positivo. Ele, Caine e Edgar eram os únicos da Quadra que sabiam da atual situação da relação entre Colin, Sean e Larah.
— Onde você está? — disse tirando remela dos olhos.
— Não sei. Eu estou perdido.
Sem conseguir enxergar muito bem pelo simples fato de lutar para abrir os olhos, ele queria verificar que horas eram. Nem mesmo sabia se era dia ou noite, a janela estava fechada, apagou de madrugada e depois disso só acordou agora porque seu celular tocou várias vezes.
— Olhe ao redor e me descreva o lugar que está.
— É perto de uma praça cheia de bancos de concreto. Tem uma galeria com coisas de igreja, eu acho. Hm... Tem uma bela igreja também, ela é muito grande e chamativa, muito grande mesmo. Tem também... Hm, deixa eu ver. Tem um pos-
— Como você foi parar aí? — questionou interrompendo-o. — Você está bem longe da quadra.
— Poderia só vim me buscar? — não quis falar por telefone o que aconteceu.
— Eu vou, é claro. Já estou indo. Fique em frente a igreja.
— Tudo bem, não demore. — e desligou.
Danion sabia que Colin estava na catedral mais famosa de Seattle, por isso não custou muito a tentar a adivinhar quando ele falou sobre uma igreja grande.
O branquelo só lavou o rosto e saiu do quarto, encontrando seu namorado assistindo no sofá da sala.
— Finalmente acordou. — Caine falou, sentando-se no sofá, já que antes estava deitado.
— Preciso ir atrás do Colin.
— O que houve? Aconteceu alguma coisa? — falou e rapidamente ficou de pé.
— Aconteceu. — falou olhando-o com um olhar preocupado.
Nem foi preciso falar o que tinha acontecido, o sinal foi captado.
— É bom você se preparar, Colin vai precisar da gente. — disse o branquelo. — Agora deixa eu ir porque ele foi parar na catedral e ela não fica tão perto daqui.
— Na catedral? Por que tão longe?
— Não sei, mas só sei que ele está lá.
O branquelo então abriu a porta da república e percebeu que estava anoitecendo.
— O quê?! Já tá anoitecendo?
— Sim?
— Quanto tempo eu dormi?
— Muito tempo... Eu não quis te acordar, Dan.
— Meu Deus, Caine. Eu jurava que era de manhã. Caralho! Eu praticamente perdi o dia.
— E dormiu como pedra, eu tentei te acordar uma vez, mas você parecia até estar morto.
— Me jogava um balde d’água.
— Farei isso na próxima vez.
— Eu tô brincando, caralho. Enfim, me deixa ir...
Caine correu para conseguir beijá-lo a tempo e conseguiu. Danion buscou por sua moto escondida entre as repúblicas e saiu em disparada.
[...]
O som da moto do Danion era conhecido para Colin, fora os detalhes do veículo, por isso ele se levantou e aguardou o motoqueiro se aproximar.
O branquelo retirou o capacete assim que parou, os olhos do seu amigo estavam inchados, chegando a doer em seu coração só por imaginar o tempo em que ele estava chorando. Conhecendo Colin, ele era muito intenso em tudo, sem exceção.
— Eu não vou te fazer perguntas, pode subir. — disse entregando-lhe o outro capacete.
Colin pôs o capacete e subiu na moto. Eles saíram de lá numa velocidade absurda, o que não é novidade para mais ninguém. Danion nunca respeitou as regras de trânsito, mas era um sortudo nato porque dificilmente era multado.
Demorou um pouco até que finalmente avistarem a Quadra Nove. Danion reduziu a velocidade ao entrar nela até que finalmente chegaram à república.
O líder dos leões foi o primeiro a descer, retirou o capacete e aguardou Danion retirar também.
— Preciso que me leve em um lugar, mas você não pode falar a ninguém.
Danion não disse uma palavra, ficou olhando o amigo. Colin parecia emanar uma tipo de energia muito ruim. Era possível dizer que ele estava todo quebrado, fragmentado. Sua tristeza era tão visível. Aquele olhar determinado se foi.
— Vai conversar com ele?
— Não consigo nem olhar na cara dele.
— Colin, ele não tem culpa. Ele foi estuprado.
— Será mesmo? Estou tão confuso, Dan. Nós dois brigamos aquele dia, tudo pode ter acontecido no momento de raiva. Por raiva, eu cheguei a beijar o Luke. Por raiva você acaba descontando tudo que encontra pela frente. Cada um reage de uma forma.
Fazia sentido, Danion nem conseguiu ter resposta. Colin sempre tinha bons argumentos.
— Ele mentiu para mim, ele também não me contou da gravidez. Agora me diz, como acreditar nele depois do resultado ser positivo? Eu quero chorar, Dan, eu quero chorar... — a voz foi ficando fraca, tomada pelo choro.
Como uma criança que vai ao colo da mãe, Colin deu dois passos pra frente e foi abraçado por Danion, que ainda estava sentado na moto, afogando o rosto no peito dele, chorando mais uma vez naquele dia.
Ele, sem sombra de dúvida, era o atual pilar do pequeno. Em outras palavras, Colin é seu protegido. É, branquelo, você tem crescido bastante.
Danion acariciava a nuca do amigo e as costas, ouvia o choro dele bem baixinho. Assistiu a porta de sua república ser aberta, mas com um olhar fez com que Julius e Hugh retornassem para dentro. Aquele não era o momento para nenhum outro aparecer e fazer perguntas.
O conforto daquele abraço durou por longos minutos.
A luz do farol de um chiquérrimo carro iluminou os dois. O automóvel acabou estacionando em frente a república dos tigres.
Colin afastou seu rosto do peito de Danion e olhou sobre os ombros dele, reconhecendo o carro de imediato. Por isso se desfez do abraço do branquelo e ficou apenas observando o automóvel para saber quem sairia de lá.
Lá estava o homem, de cabelos brancos e brilhantes, com a bengala cuja extremidade em que segurava era uma cabeça de cavalo esculpida. Mas ele não foi o único a descer, a corja parecia estar formada quando Suzana e Larah também desceram do automóvel.
E quando Colin achou que por ali acabou, outro carro estacionou logo atrás, surgindo de lá uma mulher de cabelos pretos e curtos, um homem alto de cabelos pretos e alguns fios brancos e Steven.
Todos eles entraram na república dos tigres.
Inquieto, Colin suspirou, tentou manter o controle, mas ele era o que era e assim afastou-se do branquelo.
— Colin, você não deveria ir.
Mas o pequeno sequer deu ouvido, parou em frente à porta fechada e bateu. Quem a abriu assustou-se. Charles nem acreditava que o leonino seria capaz de aparecer exatamente naquele momento em que todos estavam ali, isso inclui o seu pai, Lorenzo.
O pai de Charles era um homem de traços brutos, cabelos pretos, mas com fios brancos. Muito parecido com Suzana, carregando os mesmos traços de um Ferazza, com os mesmos olhos verdes que seu filho tem.
Sean estava sentado na escada quando o avistou, deu um salto e foi aproximou-se do pequeno, parando bem em frente a ele.
— Você não é bem vindo aqui. — Suzana disse, impendido o filho de falar.
— Calada! — vociferou o moreno líder, encarando-a como um cachorro raivoso.
— Se você quer que ele fique, então assim seja. Vai ser melhor que ele ouve diretamente da fonte.
— Esse é o garoto que desvirtuou o Sean? — Lorenzo, pai do Charles, perguntou.
Ele tinha uma voz muito forte e grave.
— Sim. — Steven, que estava ao lado do pai, com um sorriso de escárnio, respondeu.
Colin viu o punho de Sean fechar e sua mandibular destacar-se mais por ranger os dentes.
— Charles, afaste-se dele. — ordenou o pai do garoto.
Quieto, Charles aproximou-se do irmão e em silêncio ficou.
Em um canto da sala, próximo a entrada da cozinha, Brandon estava quieto, ao lado de sua mãe que envolvia a mão em sua cintura, sem entender nada do que estava acontecendo. Ele só torcia para Kai não descer, mas sabia que provavelmente os dois discutiriam por causa disso.
— In piedi muoio, in piedi io resto. — iniciou o mais velho entre eles, finalmente falando algo desde que chegou ali.
— In onore del sangue della mia famiglia non voglio cadere. — disse todos os Ferazzas numa perfeita sincronia, visto o tempo em que esse lema era dito em quase todos os momentos em que estavam juntos.
Mas Sean não disse nada.
— Sean ficou calado. — Lorenzo não perdeu a chance. — Tão imprudente quanto à mãe.
Suzana olhou para o irmão desejando a sua morte naquele instante.
— Você vai mesmo me desafiar na frente de todos? — o avô questionou.
— Eu não vou falar. — o moreno, decidido, respondeu.
— Ok, definitivamente eu não te darei mais chances. Achei que pudesse mudar, mas infelizmente isso não acontece.
— Eu só quero saber por que todos estão aqui. — o moreno disse.
— Como não sabe? Estamos aqui por você. — Lorenzo tomou a palavra. — Não fin-
A bengala bateu no chão, o silêncio tomou conta, Enrico somente olhou para o homem. Estava claro que ele não queria ninguém se metendo em seu diálogo.
— Eu cuido dele, não você.
Lorenzo rangeu os dentes, fechou os olhos devagar e os abriu logo em seguida. Não podia se irritar, não podia falar mais nada.
— Se deseja falar comigo, é melhor subirmos para o meu quarto e assim ficamos a sós. — sugeriu o tigre líder.
— Não, até porque o que vai ser tratado aqui é um direito de todos saber.
Enrico começou a caminhar pela sala até se aproximar de Colin. A bengala levantou e com a ponta dela ele tocou o queixo de Colin, mas Sean vendo, aquilo, segurou a bengala e a abaixou.
— Cassandra, andei ouvindo por aí que seu filho está entrando no mesmo caminho que o Sean.
Assustada, a mulher se preocupou.
A verdade é que por mais que fossem independentes, Suzana, Cassandra e Lorenzo trabalhavam no hospital. Eram médicos e cirurgiões, sair dali significaria fracassar na carreira. Enrico tinha grande influência nessa área, queimar o nome de seus filhos era algo tão fácil.
Isso, de alguma forma, não iria decidir o destino de nenhum deles, mas e quando o medo toma conta? E quando o conforto é maior? Os privilégios... A fama. O nome reconhecido na área médica... É, há alguns benefícios. Por que será que Lorenzo tenta tanto derrubar Suzana e tirar ela da presidência do hospital para tomar o lugar? Há guerra dentro da família.
— Não acho que seja verdade, pai. Brandon tem sido um exemplo, todos nós sabemos disso.
— É verdade? — Enrico perguntou ao Sean.
Brandon estava tremendo, sua mãe precisou segurar em sua mão, entrelaçando os dedos para acalmá-lo. Ela sabia que algo estava acontecendo com seu filho, mas não queria mandá-lo ao abate como estavam fazendo com Sean.
O loiro olhou para mãe e ela, sincera, pôs um sorriso no rosto como se estivesse dizendo: “está tudo bem, fique calmo”.
Logo em seguida o olhar do loiro foi ao do Sean, o primo negou com a cabeça. Brandon sentiu o corpo desfalecer, ele teria que agradecer ao moreno depois disso.
— Então os boatos eram mentiras... — Enrico olhou para Lorenzo, logo todos perceberam que foi ele que tinha dito algo a respeito do loiro.
Cassandra olhou para o irmão, ela não parecia estar zangada, mas demonstrou ficar muito magoada.
Depois de algum tempo de silêncio, Enrico voltou a falar:
— Eu gosto quando essa base da família está reunida. A base principal de toda a história que eu criei. Filhos, netos. Todos encaminhados, destinados ao sucesso. Claro, um neto desviou-se do caminho. Meu neto favorito. — isso irritou profundamente Lorenzo, Steven e Charles. Enrico não tinha medo de falar a verdade. — Tentei de todas as formas fazê-lo entender o que era o certo. Dei a liberdade que ele precisava, dei o tempo necessário. Infelizmente, nada adiantou.
Ele voltou a andar pela sala, batendo a bengala devagar no chão.
— Não há nada de errado em amar um garoto.
— Eu estou falando, não o autorizei a me interromper.
— Nada me impede de falar, nem mesmo você. — Sean o desafiou ainda mais.
— Nem mesmo sabendo que seria você, Sean, o neto a herdar as minhas coisas?
O choque veio para todos os presentes. Sean engoliu em seco, ficou tão surpreso que prendeu a respiração após o susto.
— Eu sei que vocês, meus filhos, sonham com aquele hospital, sonham com tudo o que eu construí. Mas como poderia eu passar nas mãos de uma mulher fraca e emotiva como Cassandra? A um homem mentiroso como Lorenzo? E a uma mulher de família desestruturada como a Suzana? Administrar o hospital não te faz dona dele. Eu só a deixo lá porque por enquanto você demonstra ser a melhor para o cargo, mas na minha morte quem garante um bom desempenho?
Todos os três filhos ficaram quietos, tendo que aguentar calados tudo o que ouviam.
— Sean, desde pequeno, era minha opção. — continuou. — Eu o ensinei tantas coisas e acreditei que ele seria um ótimo líder. Era frio, não se deixava levar pelas emoções, decidido, dava ordem. Eu o via colocando medo em seus colegas. Era perfeito para o que eu queria. Ambicioso e sempre verdadeiro. Mas cá estamos... Por um garoto ele pôs abaixo tudo!
— Nada disso importa. Eu ainda o prefiro.
— Isso já está claro, mas você sabe por que estamos aqui, não sabe?
— Não.
— Como não sabe, Sean? Quando a família se reúne assim é porque geralmente comemoramos algo. — ele fingiu felicidade ao por um sorriso no rosto.
Sem demonstrar emoção alguma, Sean só o encarava.
— Quer tentar acertar?
— Não.
— Estamos aqui para comemorar o seu casamento.
Sean entreabriu os lábios e encarou seu avô, não acreditando no que ouviu. Charles, impressionado, arregalou os olhos e com Brandon não foi tão diferente. O loiro olhou para sua mãe querendo saber se aquilo era realmente verdade, mas ela nada dizia, permanecia tentando acalmá-lo. Todos os outros sabiam, exceto os mais jovens.
Colin fechou os olhos, apertou a maçaneta da porta e sentiu a bala rasgar seu peito. Ele, inclusive, deu um passo para trás quando jurou cair pelo choque que acabou de receber.
— A idade avançou e o deixou maluco. — Sean o provocou.
— Pode brincar, pode brincar, eu deixo. Mas da minha parte não é brincadeira.
— Claro que é. Um velho que está caducando.
— É lógico que não! — alterou o tom de voz e bateu a bengala. — Você vai casar e está decidido.
— Quem escolhe isso sou eu! — desafiou o moreno, elevando seu tom de voz aos poucos.
— Quem paga tudo isso aqui sou eu!
— Foda-se! — rebelou-se de uma vez. — Eu não vou casar porra nenhuma com essa garota.
E disso em diante seguiu numa disputa entre Sean e seu avô para ver quem falava mais alto e quem tinha mais poder decisivo.
— Vai sim! E é uma ordem!
— Eu não a obedeço. Nenhum de vocês me obrigará a casar. Ninguém!
— Por que você quer piorar ainda mais sua situação?
— Porque eu prefiro amá-lo! Prefiro ele a qualquer um de vocês.
— Um garoto! — bradou o senhor.
— Sim, um garoto! Um garoto! Quer detalhes do que eu faço com ele? Eu já fiz coisas ótimas dentro daquele quarto lá em cima.
— Sean! — gritou o homem ainda mais alto.
— É isso mesmo que você ouviu! Eu transo com ele. Transo, beijo, pego no p-
— Ou você casa ou tudo o que tem é tirado de você! — interrompeu o homem.
O velho abaixou a cabeça, parecia tonto, Steven e Loreno correram para segurá-lo. Ele se sentou no sofá e puxou alguns remédios de um frasco que retirou do bolso. Rapidamente Cassandra correu para a cozinha e buscou por água, entregou ao pai e todos os assistiram tomar o comprimido.
Sean parou de responder quando viu seu avô quase cair. Mas então lembrou que nada importava quando se tinha um pai que estava preparado para cuidar dele quando perdesse tudo. Pois um dia ele chegou a pensar que seu avô poderia expulsá-lo da república e não bancar mais nada que esteja ligado ao seu nome.
— Ainda assim eu o prefiro. — respondeu Sean, mais calmo.
— Não me faça fazê-lo escolher.
— Nada do que peça vai adiantar.
Lorenzo queria muito surrar o sobrinho, se segurava ao máximo por conta de seu pai. Suzana sentia cada vez mais vergonha do filho, a decepção tomando-lhe conta por completo.
— Não teria que ser assim se você me deixasse em paz. — falou o moreno, engolindo em seco após o susto dado por seu avô.
— Sean, você pediu.
O velho ficou quieto, se levantou mais uma vez e caminhou devagar até se aproximar de Sean, levantar a bengala e apontar bem para o rosto dele.
— Se você não casar, eu tiro não somente tudo o que você tem e eu te dei, mas também tiro sua mãe da presidência do hospital, sujo o nome dela em qualquer lugar que ela for e retiro todos os bens dado a ela.
— Pai! — Suzana interrompeu na mesma hora, ela foi posta no meio do tiroteio.
— E não acaba por aí: Essa garota, essa mesma que gera um filho seu, não vai receber nenhum auxílio nosso. Nada! Terá que cuidar da gestação sozinha. Que dinheiro ela teria se nem os pais dela aceitam essa gravidez? Você sabe que ela está sozinha nessa, não sabe?
Nem mesmo Colin sabia.
— E aí, o que você escolhe?
Sean foi posto à prova. A insegurança foi visível para o único que o conhecia tão bem: seu namorado. Colin podia sentir que o namorado não estava bem com o jogo do avô, a ameaça foi tão forte que ele sequer conseguiu rebatê-la no mesmo instante como estava fazendo anteriormente. Sim, ele parecia confuso. Sean olhou para o namorado, parecendo pedir socorro.
Não era uma decisão fácil, não era. Colin, colocando-se no lugar dele, sentiu um enorme impacto. Como podiam fazer isso com ele? Como podiam judiar tanto de um garoto que só quer viver em paz com seu namorado? Como podem fazer isso por tanto tempo? Quais sentimentos essa família tem? Sean era, ainda, aos olhos de Colin, um garotinho que sofria represália por parte dos familiares, crescendo num lar sem o verdadeiro amor.
Como podiam por na reta uma mãe. Uma péssima mãe, mas que ainda assim foi responsável por cuidar de Sean. O leonino apenas pensou na sua mãe, jamais queria tê-la sem nada, perdendo tudo que alcançou. Pois apesar de qualquer coisa, Suzana era mulher, a sociedade já a discrimina demais. Se aquele homem sujar o nome dela, certamente sua situação finalmente se destinaria ao fracasso. Mesmo que seja ela a responsável por separá-lo de Sean, ela deu tudo o que o filho teve na infância, cuidando praticamente dele sozinho, já que por anos Sean não teve a presença de um pai na sua vida. Querendo ou não, ela ainda assim foi “mãe”.
Como podia uma família como aquela ameaçar uma criança que nem nasceu? Por em jogo um bebê! Um bebê! Destinando a garota numa gestação sem o apoio de ninguém, abandonando-a ao relento. Dando um futuro de carência ao bebê. Era uma crueldade sem fim. Por mais que Colin odiasse Larah, ele sabia que o bebê não tinha nada a ver com isso. Ela é a única inocente nisso tudo.
Colin engoliu em seco, a pressão ali dentro era tanta, mas tanta, que ele nunca esteve em um lugar como aquilo. Ele simplesmente assistiu ao massacre de seu namorado, colocado ao centro daquela família com todos o julgando, sem nem mesmo precisar dizer nada. Imagina então como foi crescer naquele lar?
Fazia ainda mais sentido o Sean ser daquele jeito; ele definitivamente cresceu num lar sem amor.
O moreno olhou para o Colin, viu a lágrima descer na face dele, o coração apertou. Sua mente e seu coração praticamente diziam a mesma coisa, mas uma parte ainda lutava para ir contra sua decisão.
— Difícil escolher? — Enrico questionou.
Pela provocação, Sean encarou o avô.
— E imaginar que um dia me inspirei tanto em você.
— Eu posso ser bom, Sean, basta você querer.
— Eu escolho meu namorado! — disse convicto.
— Sean! — Suzana levou a mão à boca para abafar o grito que ia soltar.
Ela olhou desesperada para o filho, sua carreira acabou ali. Ela balançava negativamente várias vezes a cabeça, como se implorasse ao filho que não fizesse aquilo.
— Eu cuidei de você. Pai, eu preciso fa-
— Não, ele não me escolhe.
Finalmente aquela voz que Sean tanto amava, foi ouvida. Colin largou a maçaneta.
— Sean não vai levar sua mãe ao fracasso, muito menos vai abandonar uma garota grávida.
Sean olhou o namorado mais assustado que qualquer um. Colin sabia muito bem como chamar a atenção quando isso significa causar bastante impacto.
— Colin e-eu... — Sean abriu a boca para falar, mas foi interrompido.
— Estou terminando com o Sean.
A bala de canhão.
Colin virou-se rapidamente, ele já estava chorando novamente.
— Colin! Colin! — Sean falava atrás dele, seguindo-o.
Na metade do gramado, o pequeno virou. Sean estava com os olhos lacrimosos. Aquele olhar de súplica, as mãos grandes tremiam enquanto aproximavam-se dos ombros do leonino.
— Você não pode fazer isso comigo. Colin, não pode ser verdade o que você acabou de dizer. É brincadeira, não é? — e ainda assim ele sorria, molhando os lábios com as próprias lágrimas.
— É o correto.
— Não, não é! Eu e você sempre estaremos juntos, não importa quantas pessoas tentem nos derrubar. Lembra? Somos mais fortes do que todos.
Colin chorava enquanto o olhava, era de partir o coração ver todo aquele desespero do seu namorado, implorando para não ter um fim.
— Passamos por tantas coisas juntos. Lembra? Diz que lembra, por favor, por favor... O nosso primeiro beijo, a nossa primeira vez, os nossos passeios, das vezes em que cuidei de você e você cuidou de mim. Até nossas brigas, tudo isso serviu para que nosso amor só crescesse.
Colin enxugava um olho, mas a lágrima persistia em cair. Ele parecia estar apanhando, tanto é que fungava. A voz chorosa do moreno, carregada pelo peso da dor, partia-lhe o coração e despedaçava a alma.
— Eu não posso ficar bem vendo você perder tudo por minha causa.
— Eu não me importo com nada. Podem me tirar tudo, mas só não me tirem você e eu tenho certeza que só contigo posso ser o homem mais feliz do mundo.
Cadê aquela seriedade toda que tanto se destaca no moreno? Ninguém mais a via ali.
— Mas e eu? Será que posso estar contigo sabendo que uma mãe perdeu tudo e um bebê vai crescer sem a figura paterna e, pior ainda, sem nenhum apoio? Meu coração diz sim para você, mas a razão é tão superior quando vidas estão em jogo.
— Colin, eles só querem nos separar.
— Eu o amo demais, e por amar demais prefiro te deixar a ter que carregar o peso da culpa.
O moreno finalmente levou a mão aos olhos, esfregou o nariz e balançou a cabeça negativamente ao pequeno. Ele implorava. Um homem, cujo coração é o mais duro, estava ali completamente vulnerável.
— Eu não posso viver sem você... Eu não posso.
A voz chorosa de Sean jamais foi ouvida por Colin. Ela sim era um tiro em seu peito.
Colin precisava deixá-lo. O sentimento de culpa o sufocaria sabendo que duas pessoas foram prejudicadas em seu nome.
— Como consegue se preocupar com quem só quis o nosso mal?
Colin não tinha respostas em forma de palavra, mas ele sentia que aquilo era o certo a se fazer. Depois disso, estava decretado que Colin tinha mais humanidade que Sean. Embora bem parecidos, ainda assim existia uma diferença gritante quando se trata da compaixão.
— Sabe por que estou chorando? Não é somente por tudo que tem acontecido. Mas eu vi, eu vi dentro dos seus olhos, que sua compaixão foi restaurada. Você hesitou antes de tomar sua decisão, mesmo tomando-a por raiva do seu avô. E sabe por que eu acho isso lindo? Porque você não pensou somente em mim, você pensou na sua mãe, você pensou na criança. Essa criança não tem culpa de nada. E se você bem se lembra, “não quero dar ao meu filho o que recebi dos meus pais”. Se lembra?
— Mas é um filho com você!
E foi nesse momento que Colin desmoronou de uma vez, já não conseguiu mais chorar calmamente. Ele gritou olhando para o céu, o seu rugido alcançou a todos.
“Ouça-me rugir”.
Assim todos os leoninos saíram da república.
— Você é o meu primeiro amor. — Colin disse enquanto desceu seus olhos ao do namorado. — Meu primeiro e único amor. — ele quase atropelava as palavras por conta do choro e as lágrimas que desciam sem cessar. — O homem a qual eu me entreguei, o homem mais lindo de todo esse mundo. Sim, Sean, ninguém pode ver, mas só sei o quão linda é sua alma.
— Por favor... — isso saiu como um gemido de dor.
— Um homem cheio de mistérios. E que de tantos olhos coloridos, eu escolhi mergulhar no abismo de seus olhos negros, que me deixa perdido, buscando uma saída que nunca encontrei.
— Por favor... — Sean, enxugando os olhos, de cabeça baixa, implorava.
— Tome a decisão correta. Faça isso por mim.
O leão aproximou-se do tigre, tocou-lhe a mandíbula com as duas mãos, ficou na ponta dos pés e deu-lhe um último beijo quando selou os dois lábios levemente por três segundos.
Alguns beijos de despedida são na bochecha, mas nesse caso, Colin despediu-se dando um selinho em seu namorado.
Beijo esse assistido por todos os seus familiares.
— Meu amor, eu faço isso por sua mãe, faço isso pela criança, mas acima de todos esses, eu faço isso por você.
Colin virou as costas, mas não andou. Ele enxugou o nariz, olhou para todos os colegas que estavam em frente a república e disse, antes de caminhar:
— É porque eu não aguentaria ver o homem da minha vida ser destruído por quem deveria apenas amá-lo.
E soluçando, Colin correu aos braços de Danion, que o acolheu para dentro da república.
— Colin. Colin! COLIIIIIN! — bradou o tigre.
Foi decretado o fim.
O fim da mais linda e bela história de amor que todos na Quadra já viram.
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