Notas iniciais
Mudar é preciso. (Sem revisão até o momento, desculpem os erros grosseiros)

Geralmente, nem todo mundo dorme durante toda a madrugada na República de Leões, mas como sempre havia dias em que coisas raras aconteciam, naquela madrugada, todos, por incrível que pareça, estavam apagados em suas camas, com exceção do Marcus que acabou pegando no sono no sofá e por lá acabou ficando. Até mesmo o Patrick, que andava tendo problemas com a insônia, acabou capotando com facilidade.

Vou dar-lhes um resumo do que ocorreu nesse dia: Os Tigres pediram para que cancelassem o jogo da noite contra os Leões e Colin acabou concordando com a ideia, o que reforçou a opinião da organização e aceitou isso, caso contrário os Tigres seriam eliminados, pois é necessário ter jogadores reservas para casos como esse e eles eram o único time que não tinha, mesmo com Sean dizendo que jogaria de qualquer jeito. Quem pensou que os Águias iam ficar conformados, acabou se enganando. Samuel foi o primeiro a reclamar dizendo que seu time não iria jogar o jogo da tarde, já que estava todo mundo abalado com o ocorrido e o Edgar também se encontrava machucado, alegando que ele poderia querer jogar também. Clara reforçou a opinião do colega dando mais argumentos e não perdendo a chance de escrachar com a cara do Sean. Isso gerou uma baita confusão entre os demais times, fazendo com que a organização pedisse um tempo para decidirem o que fazer. O resultado saiu rapidamente e todos os jogos de basquete foram adiados para três dias; também foi decretado que a presença de Joshua nos jogos estava proibida. Todos concordaram, não houve nenhuma objeção.

Isso foi mais um dia comum na Quadra, confusão atrás de confusão. Quem acreditou que os Jogos da Quadra seriam tranquilos?

E nessa noite merecida de descanso, depois de tantos gritos e bate boca entre os times, os Leões finalmente dormiam em seu ninho de paz, inclusive com Sean por lá com o namorado.

No último quarto da casa, Hugh dormia tranquilamente coberto até a cabeça quando seu aparelho celular tocou. Ele, a princípio, não acordou, pois estava em um sono tão profundo que qualquer barulho dentro daquela república seria insuficiente para acordá-lo.

— Hugh, Hugh... — Connor o balançou na cama finalmente o acordando.

Retirando o cobertor do rosto, ele deu de cara com a luz do abajur acesa. Protegendo seus olhos o garoto perguntou:

— O que houve?

— Seu celular estava tocando.

— Deixava tocando... — resmungou.

— Acha que não é estranho alguém te ligar de madrugada? Seu amigo não está na rua?

Foram somente essas duas perguntas suficientes para deixá-lo preocupado. Rapidamente desceu o cobertor até a cintura, sentou-se na cama e apanhou seu celular na mesa de cabeceira, mas apenas tinha uma chamada perdida de um número que ele não tinha conhecimento.

Por sorte, o celular tornou a tocar em sua mão e em menos de cinco segundos ele atendeu.

— Sr. Hugh Robert Farley?

— Sim?

Até então Hugh não conhecia aquela voz, por isso respondeu temeroso.

— Aqui é da delegacia central, estamos ligando porque Pietro Timothy Baldocchi encontra-se detido e nos informou que esse é o único número que deveríamos ligar para informá-lo de sua prisão. Ele também pede para que o senhor compareça aqui.

Hugh perdeu a voz, assustado ele encarou Connor no escuro, fazendo com que seu primo não conseguisse compreender o que estava acontecendo, mas que imaginava ser algo sério.

— Alô? Você ainda está aí?

— Sim, sim... — recuperando-se, Hugh falou.

— Você conhece o detento?

— C-conheço. — mentiu, dando-se segundos depois que estava lidando com uma autoridade e que essa mentira poderia o prejudicar. — Já estou indo. O que ele fez de errado?

— Infelizmente não estou ciente das informações, apenas foi me encarregado de fazer essa ligação.

— Tudo bem, tudo bem. Logo estou aí.

— Até mais, senhor.

Quando ouviu o típico som de uma ligação finalizada, Hugh ficou alguns segundos parado olhando pra frente. A ficha ainda não havia caído até que uma súbita onda de raiva começou a lhe consumir.

“Eu tinha avisado...” — pensou no que havia ocorrido entre os dois horas antes.

— O que aconteceu? — Connor perguntou quando o primo se levantou e precisou acender as luzes.

— Pietro foi preso, preciso comparecer a delegacia.

— Mas por quê? O que ele fez?

— Não me foi informado, mas já imagino o que tenha sido.

— Vou com você. — Ian se levantou da cama, ele estava acordado apenas ouvindo tudo.

— Não precisa, é melhor que eu vá sozinho. — disse Hugh procurando alguns documentos.

— Vamos nós três. — Connor acabou decidindo.

Sem contestar, Hugh aceitou. Ele acabou derrubando o próprio abajur no chão, por sorte não o quebrando.

— Se acalma, Hugh. Vai ficar tudo bem, eu posso defender o Pietro. — Ian disse enquanto vestia uma roupa mais aceitável.

— Eu estou tentando ficar calmo, mas na verdade estou com raiva.

Connor suspirou.

— Você dizendo que é amigo do Pietro provavelmente não vai conseguir falar com ele, precisa ser algo mais próximo.

— Irmão? — Hugh questionou encarando o Ian.

— A essa hora já pegaram a ficha dele, não vai ser fácil sustentar essa mentira. Lembre-se de que você está dando com pessoas que podem nos prender.

— Então o que eu digo que sou?

— Namorado. — sugeriu o Connor.

— Até que pode colar. Eu darei um jeito, vamos. — Ian falou e abriu a porta do quarto.

“Namorado?” Pensou Hugh, mas se era o melhor, ele teria que concordar com essa ideia. Confiava em Ian.

— Acabei de pedir o táxi pelo aplicativo. Tem um nas proximidades, diz aqui que estimativa é de cinco minutos. Vamos lá fora esperar. — Connor falou após passar também pela porta.

Sendo o último a sair do quarto, Hugh fechou a porta. Os três seguiram para fora da república sem fazer barulho, era melhor não comunicar a ninguém por enquanto o que havia acontecido.

[...]

Ao chegarem à delegacia, Ian, familiarizado com o que ocorria, sabia bem como se portar. Após darem as informações sobre o motivo de estarem ali, Ian e Hugh foram encaminhados a uma sala enquanto Connor aguardou na sala de espera.

— Nome completo, por favor. — uma mulher, sentada em frente ao computador e trajando o fardamento típico dos policiais da região, indagou.

Hugh tardou a responder e só o fez quando Ian tocou-lhe com o cotovelo.

— Hugh Robert Farley.

Verificando os dados de Hugh, deu apenas um minuto e olha olhou o garoto com curiosidade. Hugh engoliu em seco e não desviou os olhos da mulher.

— Aqui consta que você já deu entrada uma vez por...

— Senhora, o processo aqui não é interrogá-lo. — Ian acabou cortando-a antes mesmo dela concluir a frase. — Viemos aqui com o objetivo de conversar com o garoto que está preso, Pietro...

— Pietro Baldocchi. — Hugh completou ao ver que Ian não sabia o sobrenome dele.

— E quem é você?

— Apenas Ian Dazzer. Creio que só exista um com esse sobrenome.

Ian tinha adotado uma postura nunca vista por Hugh, tão sério quanto à mulher que os interrogava.

Depois de pesquisar o nome do Ian e puxar todo seu histórico, ela acabou constatando que ele já estava formado e podia advogar, o que acabou deixando-a surpresa pela aparência; Ian parecia muito jovem. Se ela não puxasse suas informações, certamente desconfiaria do garoto até que ele provasse com algo em mãos.

— Tudo bem. — disse ela satisfeita.

— O que você é dele? — ela perguntou ao Hugh.

— Namorado. — Ian quem respondeu.

— Nos foi informado que o detento não tinha advogado.

— Sim, mas eu consegui. — Hugh precisou se mostrar seguro. — Se tenho um namorado e ele está preso, alguma coisa preciso fazer. Sou a única pessoa mais próxima dele em Seattle, ele não tem família aqui, além de mim, é claro. — precisou acrescentar esse detalhe pra ser o mais real possível, como foi ensaiado no caminho.

Depois de alguns minutos de diálogo, com Ian bravamente lutando com palavras contra a mulher, após ela revelar o motivo da prisão de Pietro, Hugh finalmente conseguiu a liberdade para ter alguns minutos de conversa com o garoto que estava preso.

Acompanhado de um policial até os fundos da delegacia, onde ficavam três celas, uma ao lado da outra, estando Pietro na do meio, sozinho. Outro homem estava na cela ao lado, sendo que este estava deitado e com o braço no rosto.

Quando o viu, Pietro logo se levantou e caminhou até as grades, segurando-as firmemente e olhando para o Hugh.

— Você precisa me tirar daqui. — pediu ele com medo.

— Por que você não me ouviu? — Hugh questionou, forçando-o a lembrar da conversa horas antes.

Provavelmente qualquer outro perguntaria como Pietro estava e como aquilo havia acontecido, mas Hugh estava estranhamente frio, ele ainda aparentava ser o mesmo garoto simples e doce de antes, mas Pietro percebia que havia frieza em suas palavras e, pior ainda, seu olhar já não tinha o mesmo brilho.

— Não importa, Hugh, você vai me tirar daqui, você precisa me tirar daqui. — disse apressadamente.

— Eu? E onde está o Andrew pra te livrar?

— Hugh, esquece o Andrew, eu só preciso que você me tire daqui.

Pietro estava com tanto medo de ficar preso por mais tempo que mesmo com o Hugh o tratando daquela forma, diferente do normal, ele só pedia pro Hugh tirá-lo dali, não questionando-se sobre sua mudança de comportamento.

— Por que você nunca me escuta? Viu no que deu nisso? Você foi preso vandalizando.

— Desde quando a arte é vandalismo?

— Não disse que ela é vandalismo, mas no mundo existem leis e elas não podem ser quebradas, o resultado é isso que acabou de acontecer com você.

— Eu não fiz nada de errado, eu não roubei, eu não matei. Eu apenas estava pichando um muro.

— O muro da casa de um policial?

— Eu não sabia que ele era policial. Você acha que se eu soubesse estaria lá? Apenas fui pego na hora errada e no lugar errado.

— Eu vou perguntar mais uma vez: Onde está o Andrew pra te livrar?

— Por que você tá se importando tanto com ele agora? Eu quem acabei sendo pego.

— Responda, Pietro. — ele somente precisava dessa resposta para alimentar sua raiva ou se livrar dela.

— Eu não vou responder, só preciso que você me tire daqui.

— Responda, Pietro! — disse grosseiramente, com o tom de voz que acabou fazendo eco.

Assustado, Pietro engoliu em seco quando se deparou com aquele Hugh.

— Você sabe muito bem que eu poderia ir lá fora e entregá-lo, não sabe? — murmurou o dono de cabelos encaracolados.

— Eu vou te bater muito se você fizer isso.

— Então onde ele está? — questionou novamente o Hugh.

— Ele fugiu, tá bom? Fugiu. Foi mais esperto do que eu e fugiu. — havia remorso e raiva em sua voz.

Hugh viu nos olhos de Pietro a tristeza naquele instante, tanto é que marejados ficaram. O dono de cabelos encaracolados estava com mais raiva ainda, tanto é que suas mãos pressionaram com tanta força as grades que os nós de seus dedos ficaram brancos.

— Ele fugiu e te deixou pra trás, ou seja, é você quem sofre as consequências, sozinho, enquanto ele está lá fora usufruindo da liberdade

— Já passou, Hugh, já passou... Eu só não quero passar a madrugada aqui.

— Infelizmente você vai ter que passar, talvez quem sabe um dia. — disse sem piedade. — E eu sei exatamente como você está se sentindo.

— Você tem um amigo que estudou direito, não tem? Ele já pode advogar? — dizia preocupado, sempre com medo, o olhar beirando a loucura.

— Mas os Leões são um lixo, esqueceu? Você faz questão de me dizer isso todos os dias e agora, hipocritamente, necessita da ajuda de um deles, da mesma forma que deu meu número porque sabe que seus amigos não teriam coragem de por os pés aqui.

Pietro não conseguiu sequer pronunciar uma palavra, agora ele estava começando a ter medo da postura que o Hugh havia tomado.

— Eu poderia continuar em casa, alegando que não te conhecia e permanecer dormindo. Eu poderia...

— Você gosta de mim! — Pietro logo soltou não aguentando a humilhação que Hugh estava começando a fazê-lo passar.

Pego de surpresa pela revelação, Hugh por um segundo arregalou os olhos.

— Eu sei que você gosta de mim! Isso nunca foi segredo pra ninguém, até mesmo seus colegas de república sabem disso. — dizia Pietro com desespero na voz, numa súplica. — Então é por isso que você precisa me tirar daqui, e-eu p-prometo te dar uma chance se você me tirar daqui. — era possível perceber a inverdade nessa última parte, suborno era o nome daquilo que Pietro fazia.

Hugh sorriu.

— Não creio que você está brincando com isso. Brincando com os sentimentos de uma pessoa. É, Pietro, eu gosto de você desde quando o vi pela primeira vez, mas o Hugh bonzinho e idiota que deixava você fazer tudo morre exatamente agora nesse lugar. Você não sabe um terço da minha vida, não sabe porra nenhuma — era a primeira vez que Hugh falava palavrão depois de tanto tempo, sendo capaz até de impactar Pietro com apenas uma palavra. — Você só vai aprender quando a vida te der muita porrada, porque pelo que parece você apanhou pouco. E se você não sabe, eu conheço o Andrew muito antes de você conhecê-lo, você escolheu o pior tipo de pessoa pra se relacionar.

— Hugh, não me leve a mal, você é único capaz de me tirar daqui. — disse, tendo nos pensamentos todo o discurso que Hugh acabara de fazer, mas tendo que se segurar para não dizer palavras de ofensa e assim desfazer a provável chance que ele tinha de sair dali.

— A minha bondade sempre o incomodou, se lembra? Eu te pedia desculpa por tudo. Mas hoje veja como ela faz falta. — disse se afastando.

— Hugh! Hugh!— disse insistentemente.

— Liga pro seu namorado.

— Hugh, eu não gosto de ficar sozinho. Hugh, não me deixa aqui! — elevava o tom de voz cada vez que o garoto se afastava.

Pietro agora estava lidando com seu maior medo: ficar sozinho.

Hugh saiu da área das celas antes mesmo do tempo de conversa chegar ao limite. Quando ele retornou a sala onde Ian estava, o amigo parecia ter encerrado tudo e apenas o aguardava. Juntos eles caminharam em silêncio até a sala de espera, onde lá Connor já dormia todo esparramado num sofá.

— No que deu? — Hugh perguntou para Ian antes que ele pudesse acordar o namorado.

— Ele vai precisar passar algumas horas na cela, talvez um dia ou mais até o promotor aparecer aqui. Certamente o promotor já foi notificado, no entanto não sabemos se ele vem amanhã ou depois.

— E o que pode acontecer com ele?

— Como não foi nenhum crime grandioso ou muito horrendo e é a primeira entrada dele, pra ele sair daqui vai precisar pagar uma fiança ou pagar com serviço comunitário, mas não tenho tanta certeza disso, são apenas opções e essas são as mais recorrentes.

— Se não fosse você eu certamente não iria saber resolver isso, agradeço muito pela sua ajuda.

— É meu dever. E sabe de uma coisa? É raramente que eu uso desse meu superpoder — brincou com o fato de poder advogar. — Meu sonho mesmo é bater aquele martelinho e é pra isso que estou estudando.

Ian então acordou Connor que, a princípio, achava que estava no quarto e tentou abraçá-lo pedindo pra ficar mais alguns minutos na cama antes de ter que ir estudar, mas quando se deu conta do lugar que estava, coçou a cabeça constrangido.

— Chama o táxi, Connor. — Ian pediu.

— Ok. — respondeu o garoto, sonolento.

— Eu vou ficar. — Hugh disse.

— Oi? — Ian questionou impressionado.

— É isso mesmo, eu vou ficar e aguardar até ele sair. Há chances de ele sair mais tarde, não há? Então eu vou ficar pra caso ele precise de ajuda.

— Não é uma boa ideia, Hugh. — Ian advertiu. — É melhor você ir pra casa e descansar.

— Não, eu prefiro ficar aqui, além disso, há esse sofá enorme que dar pra dormir. Qualquer coisa eu compro algo pra comer nas redondezas.

— Pode ser que o promotor nem venha hoje.

— Tenho esperanças de que ele venha. — sorriu sem sinceridade. — Se eu realmente ficar muito cansado irei pra república. Mas prefiro esperá-lo sair.

— Tem medo de que ele faça alguma merda, não é? — Ian perguntou e compreendeu.

— Mais ou menos isso...

— Seja sincero e admita que você gosta dele, primo. — Connor tocou-lhe o ombro.

— Vai logo pra república. — Hugh, constrangido, se sentou.

Sorridente, Ian se afastou e se aproximou do namorado.

— Me dê seu celular pra eu salvar meu número. — Ian pediu e logo foi correspondido, assim discou seu número e o salvou no aparelho. — Qualquer coisa é só ligar que eu venho com urgência.

— Tudo bem, obrigado mais uma vez. Vamos torcer pra que ele realmente saia mais tarde.

— O táxi está chegando, Ian. Vamos. — Connor alertou ao namorado. — Até depois, primo.

— Até.

Ian apenas deu um sorriso para o Hugh e saiu junto ao namorado, rapidamente o garoto ficou sozinho, da mesma forma que Pietro estava na cela, no entanto, Hugh ainda tinha o som da TV para acompanhá-lo e um policial sentado e adormecido.

[...]

Edgar acordou na manhã seguinte com um braço forte sobre seu peito. Quando se virou para ver quem era, encontrou o namorado em um sono profundo com o rosto amassado a ponto de formar bico com seus lábios.

O loiro não fazia ideia de como havia parado ali, mas deduziu que Joshua o retirou do sofá e o carregou pra cama, o que na verdade ele não deveria ter feito, pois Edgar e ele tiveram uma longa discussão durante todo o dia anterior.

E pelo que recorda a discussão não terminou em reconciliação, eles estavam ainda brigados. Pra ser mais exato, o Edgar era quem estava mais chateado enquanto o seu namorado não dava à mínima, não demostrando remorso por ter causado toda aquela confusão nos Jogos da Quadra.

Edgar só acabou dormindo no sofá porque se deitou nele em busca de esfriar a cabeça conversando com os demais colegas que partilhavam do mesmo bloco, já não tendo mais o que argumentar contra seu namorado que dizia que bateria em qualquer um que o machucasse. O loiro tentou de todas as formas explicar que sabe que Sean não tinha feito aquilo de propósito, mas sabia que seria difícil a considerar todo o histórico do moreno e sua rivalidade antiga com o ruivo.

Devagar, Edgar retirou a mão de Joshua de cima do seu peito e foi se afastando até finalmente conseguir sair da cama, no entanto acordou seu namorado mesmo fazendo movimentos não tão bruscos.

— Pra onde vai? — Joshua perguntou sonolento e esfregou os olhos logo em seguida.

Ele sequer tinha ido ao hospital pra ver se precisava dar pontos no supercílio, apenas cuidou aquilo sozinho, colocando várias gazes e esparadrapo. A região se encontrava inchada e com sangramento seco ao redor das gazes, mesmo após ter lavado.

— Pra minha república. — respondeu tentando vestir uma camisa, mas sentindo dificuldade pela dor em seu corpo após o tombo.

— Você vai voltar pra lá?

— É a minha casa. — respondeu sem olhar pra trás até conseguir finalmente se vestir.

— É melhor você ficar comigo, loirinho. — Joshua agia como se nada tivesse acontecido.

— Não está sendo bem minha vontade ficar aqui. Não depois do que você fez.

— Por que você nunca diz que eu estou com razão?

— Onde há razão machucando as pessoas?

Joshua queria responder e até tinha o que responder, mas preferiu não falar, apenas se sentou na cama e olhou seu namorado arrumando o cabelo.

— Você faz isso durante toda sua vida e nunca vai parar, isso está me cansando, Josh.

Joshua sentiu-se imediatamente angustiado, tomou um susto com o que seu namorado havia dito.

— Você nunca vai ficar do meu lado.

— Nunca? — virou-se indignado. — Josh, pega todo o nosso passado e tente lembrar tudo o que nós passamos. Eu posso não ter concordado com suas atitudes, mas sempre te dei apoio e fiquei contigo. Mas acha que isso tem que ser assim pra sempre?

— Você está querendo terminar comigo?

— Não, é claro que não! Mas isso não significa que devo ter que levar uma vida contigo assim. Não sei se vou conseguir aguentar você voltando a ser o mesmo de antes. Foi muito difícil te reconstruir.

Joshua não disse nada e Edgar se aproximou da porta.

— Até depois.

— Quer que eu vá te buscar? — questionou o ruivo.

— Não. Não volto pra cá hoje.— falou o loiro e fechou a porta.

Joshua apenas ficou olhando pra o vazio deixado pelo seu namorado.

[...]

Foi no final da tarde que o promotor acabou comparecendo na delegacia. Hugh, a princípio, nem sequer fazia ideia de quem era ele, apenas o assistiu passar em frente a sala de espera e desaparecer. Só depois de mais de uma hora, Hugh, como sendo a única pessoa citada como a mais próxima de Pietro em Seattle, foi chamado para a sala onde Pietro estava junto ao promotor, mas precisaram aguardar alguns minutos até que Ian chegasse.

Hugh não estava surpreso, mas Pietro sim. Ele que esperou sair dali sozinho, sem ninguém para acompanhá-lo, estava agora na presença de quem achou que jamais o aguardaria depois da conversa que tiveram.

Como Ian havia dito, Pietro teve realmente duas opções: a de pagar a fiança e sair dali ou pagar com serviço comunitário. Já não bastava a enrascada em que se meteu, pedir dinheiro aos familiares só resultaria em um problema ainda maior e certamente a notícia de que ele foi preso chegou ao seu pai e não tardaria muito para o homem aparecer em Seattle, por isso ele resolveu ser punido com serviço comunitário, dessa forma sendo obrigado a limpar muros da cidade.

Depois de finalizada a conversa, o promotor se retirou da sala após dar uma papelada para Pietro assinar. Com isso ele estava livre, embora com a punição a pagar que seria realizada já na semana seguinte.

— Agora é só não se meter mais em nenhuma dessa. — Ian alertou enquanto eles saiam da delegacia.

Pietro não disse nada, continuou caminhando. Hugh também não disse nada, permanecia em sua seriedade pela segunda vez desde que esteve na frente do Pietro preso numa das celas.

— Aquele ali deve ser o táxi que eu pedi. — Ian apontou para o automóvel estacionado em frente a delegacia.

Os três seguiram para o automóvel e entraram. Ian se sentia péssimo pelo clima que pairava dentro do carro, era nítido o quão desconfortável ele estava para o motorista, que mesmo sem nem fazer ideia do que acontecia, sabia que os dois garotos no banco traseiro estavam com algum problema.

Hugh era quem estava mais estranho, pois comparar a imagem daquilo que eram acostumados a ver com a atual imagem fria que ele passava agora era realmente assustadora. Como se algo dentro dele morresse, dando espaço para algo ruim.

Quando finalmente chegaram à Quadra, Pietro foi o primeiro a descer do carro e entrar diretamente na república, deixando ambas as portas do carro e da república abertas. Ian pagou ao taxista e desceu do automóvel, fechando a porta que o garoto havia deixado aberta.

— Você está bem? — Ian perguntou para Hugh.

— Sinto que cheguei ao limite. — respondeu num tom de voz baixo.

— Você precisa apenas descansar, deve estar precisando de um banho e de uma boa comida. Talvez deva ter alguma comida pronta, seus colegas costumam guardar pra você, certo?

— Pode ser isso mesmo. — disse desanimado.

Ambos entraram na república, mas Hugh acabou ficando na sala e precisou explicar pra todos a situação. Há quem perguntou se Pietro deveria ser expulso, já que uma das regras principais era o não envolvimento com a polícia, no entanto Ian acabou intervindo e defendendo o garoto mais uma vez, alegando que o ocorrido foi fora da Quadra e a imagem do lugar não foi prejudicada.

— Esse garoto vai chamar mais problema pra nós. — Patrick falou.

— Tenho que concordar. — Marcus falou. — E até agora tô impressionado com você ter esperado todo esse tempo na delegacia.

— Não tem nada pronto, mas vou preparar algo pra você comer. — Calvin falou, levantando-se e se dirigindo à cozinha.

Vinte minutos se passaram enquanto todos ainda conversavam, Hugh brevemente esquecendo toda sua raiva, contando aos amigos como era engraçado ver Ian atuando como advogado enquanto Connor, todo pomposo, sorria sem parar só de imaginar a cena.

No passar desses vinte minutos, Pietro sai do quarto e passa pela sala, fazendo com que automaticamente todos se silenciassem, abre a porta e caminha um pouco até parar e impedir a visão dos leoninos que tentavam adivinhar com quem ele conversava. Hugh, num ângulo diferente, decide olhar através da janela o que ele estava fazendo, no entanto se depara com Andrew na calçada com os braços cruzados.

— Você não deve aparecer aqui. — Pietro, entredentes, rosnou.

— Nós precisávamos conversar. — falou.

— Nós não temos nada pra conversar, Andrew, vá embora.

— Cara, foi mal, eu...

— Vá embora, aqui não é lugar pra conversar. Agora saia daqui! — pediu numa súplica sabendo que estava sendo observado.

— Eu não vou sair daqui até conversar com você. Eu também deveria ter sido preso.

— Andrew, vá embora. — Pietro repetiu, sabia que ele ali seria sinônimo de problema. Por algum motivo sentia que Hugh iria explodir vendo-o ali.

— Não até conversamos.

— Tchau. — Pietro virou as costas.

Andrew o segurou pela mão, impedindo-o de ir.

— Me larga! — insistiu e tentou se soltar dele.

— Conversa comigo, Pietro.

— Me larga, eu não tenho nada pra conversar com você.

— Tire os pés da Quadra, agora. — Hugh apareceu na porta da república com um tom forte de voz. — Se ele quiser ir com você, ele vai, agora se ele não quer, deixei-o e saia daqui.

Julius e Connor se entreolharam, eles estranharam o tom de voz do seu primo.

Andrew soltou uma breve gargalhada e continuou segurando Pietro pela mão.

— Olha só quem é que está tentando mandar em mim. Não basta ser tratado como um lixo na universidade, quer apanhar aqui na frente dos coleguinhas?

— Pietro, você quer ir com ele? — Hugh perguntou, encarando o garoto e não dando a mínima para as palavras de Andrew.

Pietro continuou a tentar sair das mãos de Andrew.

— Está vendo, ele não vai com você, solte-o, Andrew.

— Fala assim porque está rodeado desse bando de inútil. — ele soltou um riso abafado. — Se estivesse na universidade estaria cagando de medo, um idiota como sempre foi.

— Solte-o, por favor. — ainda agiu sendo educado e se afastou dos amigos, devagar foi se aproximando de Andrew e de Pietro.

— Vai bancar o corajoso agora? — Andrew finalmente largou Pietro, o leonino esfregou a região que antes Andrew apertava sem perceber.

— Acho que já chega. Vou fazer você se lembrar de mim. — Hugh somente estralou os dedos.

Andrew sorriu e olhou pra trás pra ver se estava sendo observado por mais pessoas, no entanto, no momento em que se virou para olhar mais uma vez o Hugh, acabou recebendo um soco no queixo, deixando-o tonto imediatamente.

Hugh, na oportunidade, deu um novo soco no estômago de Andrew e o fez descer o rosto, assim o acertando na face com o joelho. Ele depois segurou Andrew pelo cabelo e deu um novo soco na face do garoto, mas Andrew acabou se safando e o acertou com o punho fechado no nariz do leonino fazendo com que seus óculos caíssem no chão.

Esfregando apenas o nariz, com os olhos sem vida, Hugh lentamente aproximou-se de Andrew que naquela altura já estava bastante machucado e tonto. O leonino deu um chute no peito dele com os dois pés, derrubando-o no chão. Caído, Andrew tentou se levantar, mas o pé de Hugh fez pressão em seu tórax, o impedindo de se levantar. Ajoelhando-se, o leonino o pegou pelo colarinho e começou: um soco.

— Lembre-se de mim! — Hugh gritou.

Outro soco. Hugh, sem os óculos na cara, levantou a franja grande e encaracolada e gritou mais uma vez.

— Lembre-se de mim! Lembre-se de mim!

O terceiro soco. O quarto soco. Seus punhos já tomados de sangue.

— Lembre-se de mim, porra! — continuou berrando e dando-lhe o quinto soco.

Mas Andrew desde o terceiro soco já estava desacordado.

Ele não teria parado de bater até descarregar toda a sua raiva se Pietro não interrompesse.

Gritando, Pietro acabou pulando em suas costas e o derrubando no chão, puxando-o para longe do Andrew com o rosto bem estragado.

Com mais raiva ainda por Pietro ainda o Andrew, Hugh conseguiu ficar de pé, mas foi recebido com um soco no rosto e outro no estômago, Pietro visivelmente estava com medo, e por isso, após bater nele, deu alguns passos pra trás. Toda a sua marra foi por água abaixo quando ele viu o Hugh com os olhos famintos em cima dele.

Tentando se defender, Pietro pôs o braço sobre o rosto pra se proteger do do soco que tinha recebido, mas isso fez com que um segundo soco rapidamente o pegasse desprevenido e ele caísse de joelhos no chão, vendo tudo girar.

Hugh deu-lhe um chute que o fez rolar no gramado, da mesma forma que fez com Andrew, o leonino montou em Pietro e o segurou pelo colarinho.

— Para, Hugh! — pediu Pietro com a voz vibrante e de choro. — Para, para, para! Por favor, para!

Mas ele estava com raiva, com muita raiva mesmo. Estava tão cego de raiva que se esqueceu de que aquele na sua frente era o Pietro, a pessoa que ele tanto protegeu naquele lugar e que agora iria apanhar como Andrew apanhou. O seu punho já estava erguido quando ele finalmente se deu conta do que estava fazendo, mesmo ainda com muita raiva e a respiração cortada pelo esforço feito.

Mas nesse momento, rápidos e achando que ele iria encher o Pietro de soco, Connor e Julius o seguraram um em cada braço, afastando-o do corpo do Pietro caído.

— Já chega, Hugh, foi o suficiente. — Julius falou.

Hugh aceitou ser arrastado e olhou pra porta de sua república, vendo todos os seus companheiros ali, surpresos, assustados e boquiabertos com o que viram. Hugh também olhou pra república dos águias e boa parte dos moradores daquela casa assistiram a briga. Na janela dos tigres estava Sean vendo tudo aquilo, inclusive o próprio Colin também estava lá, mas não se meteu porque seu namorado o trancou no quarto.

— Desculpem por isso. — Hugh falou ao chegar perto dos colegas após ter apanhado os óculos do chão.

Pietro estava no chão, aproximando-se do corpo desacordado de Andrew, que logo acabou recebendo socorros de quem nem mesmo deveria ajudar, mas Caine não iria conseguir ficar ali vendo aquele corpo caído.

— Pelo menos finalmente pude ver você enchendo aquele garoto de porrada.— Julius, como nunca tinha muita noção do que falava, comentou.

— Eu preciso ficar sozinho. — Hugh falou e entrou em sua república e se dirigiu para o banheiro, trancou a porta e despencou em lágrimas.

Calvin, sendo um dos mais próximos a ele, nem se arriscou de segui-lo para de alguma forma conversar com ele, considerou realmente que aquele era seu momento ele precisava pensar.

— Ele deu conta de dois mesmo estando sozinho. — Marcus falou, surpreso.

— Vocês estão mesmo surpresos? — Julius perguntou, mas ele estava com um sorriso de ponta a ponta por ter assistido aquilo.

— Estou, é claro. É o Hugh! — Patrick falou. — Eu nunca ia pensar que ele era tão violento assim.

— Estou com pena daquele garoto. — Ian falou. — Ele apanhou bastante.

— Caine já está cuidando dele, ele nem merece. — Calvin falou.

— De qualquer forma, acha que não seria melhor cuidado médico? — Ian tornou a fala sobre Andrew.

— Está com pena dele porque não o conhece. — Calvin mais uma vez condenou.

— Não é isso, eu tenho pena, geralmente, de todo mundo que apanha. E convenhamos que o Hugh não pegou leve, ele deixou o garoto desacordado.

— E isso finalmente me deixa satisfeito. Hugh sempre abaixou a cabeça pra o Andrew, mas agora provou que tudo o que sentia antes era pena só pra não acabar com a raça dele na universidade.

— Estou orgulhoso! — Julius ainda não tinha desfeito o sorriso no rosto, ele apenas assistia o socorro que Andrew recebia. — Finalmente ele acordou pra vida.

— Se eu disser que não estou satisfeito, provavelmente mentiria. Já estava mais que na hora de alguém colocar esse garoto no lugar, mas também estou assustado com tudo o que eu vi aqui. — Patrick falou também assistindo a assistência dada ao Andrew.

— Hugh é um garoto bom, mas pelo visto também tem seus limites. Isso me lembrou do William. — Ian comentou.

— Por quê? — Marcus questionou.

— Você entenderia do que eu estou falando se convivesse com ele. — ele sorriu e entrou, mas antes puxou Connor.

— O que houve? — o namorado perguntou enquanto era arrastado.

— Eu preciso conversar com você, preciso que você me conte tudo o que sabe sobre o Hugh. — comentou enquanto passava pelo corredor.

Quando chegaram à cozinha, Ian permaneceu de pé ao lado da mesa enquanto Connor o olhava sem compreender bem o que acontecia.

— Ontem, quando fui à delegacia, descobri que Hugh já havia dado entrada uma vez. Você sabe o motivo?

— Sério?! — ele realmente perguntou com surpresa.

— Você não sabia? — Ian franziu o cenho.

— Não mesmo! Meu Deus! O que ele fez?

— Bem, isso eu também não sei, é por isso que estou te perguntando. Julius sabe? Ele também é primo do Hugh, não é?

— Não sei se sabe, mas se você quiser perguntar eu posso chamá-lo.

— Não precisa. — Hugh abriu a porta do banheiro no corredor já falando. Ele havia ouvido a conversa.

— Desculpe, eu não sabia que você estava aí ouvindo. Não quero parecer invasivo, por isso estava perguntando ao Connor, mas não ia espalhar.

— Não tem problema, você merece saber depois de tudo o que fez. — comentou enquanto olhava os óculos com a lente quebrada em sua mão.

— Então você é bandidão, primo? — Connor brincou.

Hugh sorriu, mas acabou puxando uma cadeira para se sentar e explicar tudo.

— O Connor só sabe até a parte em que eu passei por uma reabilitação.

Ian, interessado no que ele disse, também puxou uma cadeira. Era possível que os três na cozinha ouvissem os comentários ainda a respeito da luta que os colegas leoninos faziam ainda do lado de fora da república enquanto assistiam Andrew recebendo ajuda.

— Eu estudei na mesma escola que o Andrew, mas nunca fomos amigos. Tínhamos apenas colegas em comum. Andrew sempre foi esse mesmo garoto, sempre querendo mostrar que podia tudo com sua valentia, intimidando os mais fracos. Naquela época eu era a pessoa mais reservada da escola e tinha somente um amigo, um melhor amigo. Eu era um menino inteligente, costumava me dar bem nas disciplinas e entendia as coisas muito rapidamente, só que eu costumava matar algumas aulas.

— Pelo visto eu não sou a única pessoa que não gosta de estudar na família.

— Mas isso era no passado. — reforçou.

— Continue. — Ian, atento, pediu.

— O motivo real de me fazer matar a aula era porque eu fui um usuário de drogas. Todo o tipo de droga que você perguntar eu provavelmente já usei, dessa forma consigo identificar quando uma pessoa é usuária ou não, já que conheço bem os efeitos as mudanças físicas que podem ocorrer. Eu e o Nik, meu melhor amigo, sempre estávamos na mesma sala, nos fundos da escola, usando o que conseguíamos. Era uma rotina diária, geralmente matando a última aula do dia pra fazer isso. Aquela sala era o nosso melhor lugar, lá ficávamos em paz. Um dia Nik disse que tinha algumas pessoas querendo participar das nossas “reuniões”, foi quando mais algumas pessoas então descobriram o nosso lugar secreto e entraram nesse mundo, com isso sempre que chegávamos à sala já tinha alguém usando algo e quase toda semana alguém novo aparecia pra nos comprar.

— Você traficava? — Ian questionou.

Hugh somente respirou fundo e confirmou.

— Nik e eu tínhamos esse negócio na escola. Os alunos que usavam drogas sempre nos procuravam pra comprar algo, de drogas leves às consideradas mais pesadas, ou seja, eu era um garoto muito irresponsável que não tinha noção nenhuma do perigo. A maconha nunca deixou de ficar em alta e era mais solicitada, por isso nosso acervo era bom, Nik sempre dava um jeito de conseguir mais.

— Então num rápido resumo: você era usuário e traficava na escola?

— Sim.

— E qual a sua relação com o garoto que você bateu?

— Como disse, nunca fomos amigos, mas eu estava lá no primeiro contato dele com a droga. Ele queria mostrar que era realmente o garoto descolado, tanto é que tentou mostrar sua valentia dentro da sala forçando a darem algo de graça, o que foi um tremendo erro, pois quase apanhou de todo mundo. Ele não se lembra de mim, quase ninguém, na verdade. Eu sempre estava com meu moletom azul marinho, sempre, sem exceção de lugares, ou seja, eu vivia usando o capuz porque na época minha mãe raspou minha cabeça e eu odiei. Também não gostava de usar óculos na escola, sempre o retirava e só usava em casos de extrema necessidade. Meu contato com ele era apenas o de compra e venda, não havia diálogo, era tudo muito rápido, sem afinidade, apenas Nik era a pessoa mais próxima mesmo a mim, o único que conseguia se aproximar e conversar, enquanto os demais pareciam sentir medo por eu ser reservado, mais medo ainda sentiam os garotos que sabiam sobre o meu segredo e o do Nik, como se fossemos donos de alguma facção criminosa.

— Eu conhecia esse Nik? Já conheci alguns colegas seus, mas não me lembro desse Nik. — Connor também estava curioso na história e interrompeu por tanto ouvir o nome desse Nik, mas não recordar de quem era.

— Não, apenas o Julius conhecia. Diferente de mim, Julius era popular na escola, acho até que o maior pegador que aquele lugar já teve, Andrew deve se lembrar dele. Ele sabia do meu segredo, mas nunca abriu a boca pra contar a ninguém, pelo contrário, seguíamos nossas vidas cada um do seu lado.

— E onde está esse Nik? Vocês ainda se falam? — Ian perguntou.

Hugh abaixou sua cabeça, fez uma longa pausa antes de continuar contando sua história.

— Se você não se sentir a vontade, podemos parar por aqui. — Ian falou.

— Nik morreu.

Tanto Ian, quanto Connor, não falaram nada e respeitaram o momento de Hugh.

— Era uma sexta feira quando tudo revirou na minha vida. Eu estava sozinho com o Nik, ele já estava bem drogado por ter usado cocaína e queria usar mais, mas o adverti dizendo que ele já estava no limite e que era bom parar por ali, acabou que discutimos porque ele falou que já não bastava ouvir sermão do pai e da mãe, agora tinha que ouvir do melhor amigo, nisso ele foi pra casa e eu continuei na escola. O meu erro foi em permanecer naquela sala aguardando alguém aparecer pra comprar, no entanto quem acabou aparecendo foi a diretora e alguns policiais. Tudo foi descoberto, alguém nos entregou e sequer não tive chances de me defender, afinal, fui pego no flagra com 300g de maconha. Nunca passei tanta vergonha na minha vida como naquele dia quando saí da escola algemado, causando decepção a minha família que nunca esperava aquilo de mim, embora desconfiassem do uso de drogas, mas apenas isso.

— A verdade sempre aparece, Hugh. Pode até demorar, mas nada se esconde por muito tempo, seja pra uma multidão, seja para somente uma pessoa, ela sempre vai aparecer.

— Concordo, Ian. — Hugh balançou a cabeça positivamente. — Mas eu era um garoto novo e irresponsável, como já disse, eu não ligava muito pra nada. Depois que fui pego, óbvio que muita coisa acabou sendo descoberta naquela escola, ela perdeu credibilidade e muitos alunos tiveram que sair de lá, não sei te dizer como anda a situação atualmente, coloquei na mente que nunca mais ia voltar ao passado, assim evito notícias sobre aquele lugar.

— E o que aconteceu após você ser pego?

— Primeiro que fui expulso da escola, isso é claro, mas também não teria coragem de voltar pra aquele lugar, até hoje tenho pesadelos com todos aqueles olhos me encarando enquanto eu saia algemado. Fui preso por posse e venda de drogas dentro da escola — Ian se lembrou da mulher revelando que Hugh tinha o nome na lista dos que já deram entrada por alguma ilegalidade —, condenado a dois anos de reformatório, mas somente isso porque foi comprovado que eu não tinha relação nenhuma com gangues e facções criminosas.

— Seu amigo também foi pego? — Ian fez a pergunta com muita curiosidade.

— Não. — respondeu ele com os olhos marejados. — Nik foi encontrado morto dentro do próprio quarto. Ele teve uma overdose naquele mesmo dia em que discutimos, no entanto só fui saber da sua morte uma semana depois quando meus pais resolveram me contar, eles disseram que eu já estava com coisas demais pra lidar e preferirem esconder a notícia. E eu juro que nunca disse seu nome em todos os interrogatórios que passei, nem mesmo dei sinais de que alguém ficava comigo, mesmo com muita gente da escola o entregando e cada vez mais ficando difícil de mentir. Foi duro saber de sua morte, ele era um garoto tão sonhador, embora cheio de problemas, ele me lembra do Pietro, eram muito diferentes fisicamente, Nik era um garoto negro, olhos escuros, cabelo trançado e alto, sempre me arrancando risadas e com histórias tão mirabolantes sobre como ele se imaginava no futuro. Ele queria ser jogador de futebol e ser pai de cinco filhos, sim... Cinco! — Hugh sorriu recordando-se disso. — Ele era realmente incrível.

— É uma pena que isso tenha acontecido. — Ian se compadeceu e tocou a mão de Hugh.

— Foi por ele que eu decidi mudar. — Hugh, não querendo se levar tanto pela emoção, manteve-se firme e prosseguiu com a história. — Precisava de dois anos no reformatório, passar pela reabilitação é uma tarefa muito difícil quando você tem seus vícios, mas em um ano eu consegui vencer. Minha pena foi diminuída por bom comportamento, eu tive que me adaptar a nova vida, eu precisei me esforçar pra conseguir sair.

— Faz sentido... — Ian murmurou, deixando escapar a frase.

— O que faz sentido?

— Nada, continue. — disse ele com vergonha.

— Sobre eu ser assim, não é? Abaixar a cabeça pra todo mundo, sempre buscar a paz entre todos e querer ajudar o Pietro? É, faz sentido. Mas não foi fácil, realmente não foi fácil. Até no reformatório tinha gente que tentava me derrubar, tentava me fazer com que ficasse lá mais tempo, mas eu resisti, engoli muita pedra de gelo. Adotei um novo método de vida e prometi a mim mesmo que nunca mais ia me envolver com drogas e se possível ajudaria a alguém que estivesse precisando. Quando saí do reformatório tive a melhor sensação de liberdade, fui ao cemitério onde Nik estava enterrado e lá descarreguei todas as mágoas adquiridas naquele lugar que vivi por um ano. Não foi fácil continuar seguindo a vida, entrar em Seattle foi um problema, basta imaginar meu currículo depois do que fiz. Foi preciso muita luta, um advogado e recomendações pesadas que fizessem valer minha entrada, mas dei a volta por cima e aqui estou eu vivo e contando essa história pra vocês.

— Eu amo histórias de superação.

— Tô tendo algumas inspirações pra vídeos, quer gravar comigo depois, primo?

Hugh sorriu.

— Não, não gosto muito de aparecer nas câmeras, mas adoraria editar vídeos seus, ando tendo uns projetos incríveis.

— Sério?! — Connor se aproximou dele.

— Depois vocês falam sobre isso, Connor. — Ian, incomodado com o namorado e seus vídeos, interrompeu. — Eu só queria parabenizar o Hugh pela história e dizer que é bonito vê-lo tão mudado, eu sei que apenas ouvi parte do seu passado e de como você era, mas é tão belo saber que aquilo que poderia te destruir acabou te fortalecendo e transformando você no que é hoje.

Contente com os elogios, Hugh corou.

— Quem mais sabe disso?

— Só o Julius e vocês. Nem mesmo meus melhores amigos sabem disso. Não é fácil contar sua história quando se tem um passado como o meu. Já foi difícil a aceitação no passado...

— É claro, a história é sua e é um direito seu contar ou não. De qualquer forma seu segredo estará guardado comigo e com o Connor, não é Connor? — ele encarou o namorado.

— Claro, claro! — bem alerta, Connor respondeu e fez sinal de que estava fechando um zíper nos lábios. — Algumas pessoas mudam depois que perdem tudo e vão ao fundo do poço, como aconteceu com você. Talvez esse Pietro precise perder tudo pra começar a entender o que é viver.

Impressionado com o que o namorado disse, Ian e Hugh trocaram olhares suspeitos e risonhos.

— O que foi?

— Nada! — Ian respondeu e ficou de pé. — Absolutamente nada!

— Diz logo, eu disse alguma coisa errada?

— Não, Connor, você disse uma coisa tão correta que isso nos deixou assustados. — Hugh, também se levantando, comentou.

— Eu sei, eu sou o cara. — ele piscou e fez pose com os braços cruzados.

Balançando a cabeça negativamente, Ian sorriu.

— Bem, vou arrumar a bagunça que tá o quarto e deixar vocês aqui. Sempre que quiser conversar, Hugh, estou a disposição.

— Obrigado. — agradeceu o dono dos cabelos encaracolados.

— Aliás, não vou deixar o Connor com você, lembrei de que ele também é responsável pela bagunça.

— Eu?! — perguntou o garoto desfazendo a pose e encarando o namorado.

— Sim, você. — Ian o encarou e o puxou pelo braço. — Você é tão responsável quanto eu pela bagunça.

— Mas ontem nós fizemos... — Ian deu-lhe um puxão mais forte, silenciando-o. O garoto olhou para o Hugh e desapareceu no segundo corredor. — Fizemos sexo... — disse Connor baixinho.

Ian nada disse, ele abriu a porta e se surpreendeu com a limpeza.

— O quê?!

— Eu arrumei quando você saiu hoje.

— Oi? — ele perguntou e inclinou o corpo para o namorado.

— Arrumei quando você saiu pra resolver os problemas com o Hugh e não estava tão bagunçado, apenas a cama desarrumada e algumas roupas no chão.

— Parece que você aprendeu mesmo...

Connor passou a mão nos cabelos e sorriu, em seguida piscou para o namorado.

— Sou o melhor namorado do mundo.

— Certamente é... — Ian respondeu. — Merece até um beijo por isso.

Sem recusa, Connor logo fechou os olhos e fez bico. Ian sorriu, mas não perdeu tempo e o beijou.

[...]

Carter acabara de por uma camisa preta com uma estampa amarela cujo desenho era um pássaro sem muitos detalhes em seus traços. Após arrumar-se em frente ao espelho, o loiro foi para o quarto do primo, encontrando-o deitado na cama.

— ‘Cê vai ficar aqui o dia todo? ‘Cê nem tá tão estragado assim.

— Prefiro ficar aqui.

— ‘Cê brigou com o Josh, né?

Edgar não respondeu, seu silêncio foi o suficiente para dizer que sim.

— ‘Cê não pode ficar triste por causa dele.

— Não estou só triste, estou sentindo raiva também e faz tanto tempo que não me sinto assim.

— Então bora sair daí e ir comigo nos vizinhos. Sem tempo pra tristeza, ficar sozinho só piora as coisas, uai.

Carter aproximou-se da cama de Edgar e tomou-lhe o cobertor. Em resmungos, Edgar acabou se levantando, mesmo com dores e preferindo, do fundo do seu coração, permanecer ali dentro para sempre.

— ‘Cê acha que essa camisa ficou legal? Primeira vez que ‘tô usando. — falou ele olhando mais uma vez pra o espelho.

— Desde quando você se importa com isso?

— É camisa nova, uai. Minha mãe que me deu, nunca a usei.

— Pode até ser camisa nova, mas você com certeza tá me perguntando isso só pra saber se vai impressionar o Patrick.

— Égua! Isso é uma calúnia! — virou-se de supetão, afastando os olhos do espelho e encarando o primo. — Eu vou só gravar o vídeo com aquele menino lá que eu já me esqueci do nome.

Seu rosto corou, ele estava definitivamente constrangido por seu primo ter lido seus pensamentos.

— É impossível não ver seus olhos brilharem quando você olha pra ele.

— Diacho, miserável, me deixa em paz e vamos logo. — falou e apressou seus passos até a saída.

Edgar sorriu e o seguiu. Ambos chegaram aos leões em menos de um minuto e quem bateu na porta foi o Carter, aguardando ser atendido e um pouco nervoso apenas pra ver o Patrick, ansiando até que fosse ele quem abrisse a porta, mas quem acabou abrindo foi o próprio Connor que já o aguardava.

— Estava somente te esperando. — disse o leonino.

— ‘Cê parece bem animado, hein.

— Claro que estou animado. Gravar vídeos me deixa animado, apesar de que há dias que nem tanto, mas vamos guardar o papo pra gravação. Vem, entrem!

Carter entrou e aguardou no centro da sala, Edgar entrou logo em seguida e sorriu para Connor torcendo para que Ian pelo menos estivesse aí para que eles pudessem conversar.

— Vem, vamos gravar no quarto do Patrick.

Carter na mesma hora arregalou os olhos, Edgar soltou um sorriso as escondidas e Connor, não compreendendo as expressões dos dois, questionou:

— Algum problema?

— Nenhuma. — Carter respondeu.

— Então vamos.

O quarto de Patrick era o primeiro do corredor, quarto este em que ele o dividia com o Julius. Por justiça, o quarto foi praticamente dividido ao meio, mas isso não significava que a parte do Julius era bagunçada, surpreendentemente organizado.

O motivo do Connor ter escolhido aquele quarto era justamente pela parte do quarto do Patrick, ele usava um papel de parede de tijolinhos com três quadros minimalistas desalinhados e de diferentes tamanhos, a parte da cabeceira da cama ficava encostava à parede enquanto ao lado direito dela estava uma mesa de cabeceira — naquele momento sendo afastada para a gravação do vídeo — e do outro lado ficava uma mesa de estudo preta com um notebook aberto, porta retrato e alguns livros.

O lado de tinha a parede branco, assim como as outras paredes, com exceção da parte do Patrick, com um relógio enorme e cinza. Sua cama era encostada à parede pela lateral, era de ferro e com cobertor verde e travesseiros brancos. Ele dividia a mesa de estudo com o Patrick, por isso o seu espaço era mais vazio e continua apenas uma mesa de cabeceira e um armário para as roupas de ambos. Sua vontade mesmo era por uma bateria ali dentro, mas espaço não tinha e com certeza seria motivo de ódio dos seus companheiros.

Quando Carter entrou no quarto ele estava com muita esperança de encontrar o Patrick lá e felizmente isso aconteceu. O garoto terminava de por as duas cadeiras que seriam usadas quando vira o loiro entrar no cômodo.

— Chegaram! — Connor falou animado.

— Eu vou querer parte do seu salário como youtuber. — Patrick resmungou. — Oi Carter, oi Edgar. — ele sorriu rapidamente.

— Oi. — Carter e Edgar disseram ao mesmo tempo, sendo Carter um “oi” mais prolongado.

— Eu juro que é só hoje. Até agora não tive criatividade pra arrumar aquele quarto, acho que vou com o Ian em alguma loja ver alguns papeis de paredes legais pra usar ou alguma tinta pra pintar. — explicou o Connor.

— Eu estou brincando, não tem problema gravar aqui, contanto que não quebre minhas coisas.

— Posso me sentar nessa cama? — Edgar pediu ao ver a cama de Julius.

— Claro! O Julius tá já chegando, mas não tem problema. — Patrick respondeu. — Vão começar a gravar agora?

— Eu estou pronto. — Connor sentou-se na cadeira próximo à parede de tijolinhos.

— Porque ‘cê não grava também? — Carter perguntou ao Patrick.

— Você tá louco?

— ‘Cê não vai ser jornalista? Vai aparecer nas câmeras, uai. Imagina ‘cê fazendo uma entrevista todo bonitão lá, com os cabelos penteados e lambidos por uma vaca falando aquelas palavras todas estranhas.

Patrick revirou os olhos enquanto Edgar e Connor sorriram.

— Eu não quero trabalhar em frente às câmeras, você mal chegou e já tá me estressando.

— Égua, cabrita braba demais. — falou o loiro e se sentou logo em seguida.

— Para de me chamar de cabrita!

— Mas ‘cê é uma, uai. Por que ‘cê tá tão estressado? Nem parece aquele garoto que dormiu comigo.

Patrick engoliu em seco na hora, olhou para Connor e Edgar que estavam assustados com o que ouviram, obviamente imaginando coisas mais sérias.

— Não é o que vocês estão pensando. — Patrick respondeu vermelho de vergonha. — Dormimos no sofá, apenas, um do lado do outro, nada mais que isso.

— E na manhã seguinte me colocou pra fora da república na base de insultos só porque eu o abracei.

— Você me encoxou! — falou e só depois percebeu que era melhor ter ficado calado.

Patrick sentiu toda a ereção de Carter naquele dia, o loiro certamente fez aquilo na inocência, proveniente de algum sonho, mas Patrick quando acordou sendo encoxado, enquanto dormia com Carter atrás dele, não sabendo como terminaram naquela posição, não soube fazer outra coisa senão insultá-lo e chamá-lo de safado.

— Vamos gravar? — Connor sorriu sem graça.

Sem dizer uma palavra, Carter sentou-se ao lado do Connor. O próprio Patrick se encarregou de posicionar a câmera e o Connor logo em seguida fez os últimos ajustes para que pudessem, finalmente, iniciar a gravação do vídeo.

— Já sabe como vai funcionar? — Connor perguntou.

— Mais ou menos. — Carter respondeu.

— Meus leitores fizeram várias perguntas, eu selecionei algumas, cerca de umas 15 e você só vai respondê-las com sinceridade, ok?

— Ok. Mas ‘cê não vai me fazer motivo de piada, né? Eu não falo lá muito bem e nem falo tão chique como vocês. — falou e olhou para Patrick que acabara de se sentar ao lado do Edgar.

— Relaxa, não tem problema, é até melhor, foi por isso que eu te convidei.

Depois de finalizada a conversa, Connor aproximou-se mais uma vez da câmera, olhou para o Carter e disse que iria dar início.

— E AÍ, GENTE DO MUNDO INTEIRO, PRONTOS PRA MAIS UM VÍDEO?

Nesse mesmo momento Carter deu um pequeno salto da cadeira porque Connor falou gritando e ele não esperava por aquilo. Quando Connor percebeu que ele se assustou, começou a rir.

— Égua do grito! — resmungou o Carter.

— Vocês viram? — Connor perguntou pra câmera. — Vocês viram isso? E melhor ainda, vocês ouviram isso? Égua! Eu me acabo com essa palavra.

Depois de segundos pra ele se recompor, Connor prosseguiu.

— Vocês lembram que eu avisei que ia trazer gente nova pro canal? Então, estou aqui cumprindo o que eu disse. Pedi para que vocês fizessem perguntas para uma pessoa que cresceu longe da cidade grande, coisas relacionadas a sua vida, sua rotina. Bem, eu vou deixar que ele se apresente e logo começaremos.

Connor olhou para Carter esperando com que ele falasse.

— É pra olhar pra você ou pra câmera? — perguntou o loiro.

— Pra câmera. — Connor respondeu abafando o riso.

— Oi! — Carter acenou pra câmera e sorriu amarelo. — Oi! — repetiu mais uma vez. — Eu sou o Carter.

Quando esperaram que Carter ia falar mais acabaram se enganando, o loiro apenas disse seu nome e retornou a olhar para o Connor. Patrick levou a mão na testa e Edgar apenas começou a sorrir.

— É, o nome dele é Carter. — Connor deu um reforço e riu. — Só isso. — gargalhou.

— Que foi, uai?

— Era pra você falar mais. — continuou rindo.

— Mas ‘cê não vai me fazer pergunta? Eu economizei resposta, diacho.

— É, faz sentido. — Connor continuou rindo. — Então já que você está ansioso pra começar, vamos lá. — abrindo as perguntas no próprio aparelho celular, Connor selecionou a primeira pergunta — A pergunta mais básica e uma das perguntas mais feitas pelos inscritos: quantos anos você tem?

— Eu tenho 20 anos, mas dizem que aparento ser mais velho. ‘Cê já viu o Ed? Ele é mais velho que eu, só que nem parece. Égua da inveja que eu tenho.

— Edgar tá aqui atrás das câmeras. — Connor acrescentou. — Ele é primo do Carter e realmente parece muito mais novo que ele. Próxima pergunta: O que você mais gostava de fazer enquanto estava morando longe da cidade grande?

Carter parou pra pensar.

— Eita, agora ‘cê me pegou. Acho que não tinha uma só coisa, eu gostava de várias. Eu sempre gostei muito de animais, se eu pudesse trazer tudinho pra cá, eu trazia. Gosto de andar de cavalo, gostava de tomar banho de mangueira e esse negócio de água quente é muito ruim, uai. Gostava da tarde porque lá é fresquinho e dava pra dormir um bocado, ah... Têm muita coisa.

— Bem diferente da vida que você tá levando atualmente, sei como é. Viver na Quadra é uma agitação sem fim. Você tem irmãos?

— Sim, dois. Esses dias eu falei pro Patrick. — ouvir seu nome deixou Patrick estranhamente nervoso. — Uma irmã e um pestinha, um demoniozinho. Égua, sozinho ele iria derrubar a república.

Connor sorriu.

As perguntas foram seguindo com Carter sempre sendo cômico, não que ele estivesse forçando isso, mas realmente não conseguia responder os questionamentos sem que acrescentasse alguma outra coisa que acabasse gerando gargalhada.

Carter respondeu tudo, absolutamente tudo o que tinha a ser perguntado, de perguntas simples as mais constrangedoras.

— Agora tem uma pergunta aqui que até eu estou com vergonha de fazer.

— Manda, uai. Agora que já ‘tamos aqui, vamos. Que que vem aí?

— Tem certeza? — Connor perguntou tentando não sorrir.

Carter só balançou a cabeça.

— Você transava com as galinhas?

— ÉGUA! — Carter falou gritando. — Diacho de pergunta é essa?

Connor já estava vermelho de tanto rir, até o Patrick estava sorrindo e o Edgar ficou com vergonha pelo primo, mas não deixando de rir também de toda a situação constrangedora em que seu primo acabou de se colocar.

Carter ficou vermelho, mas de vergonha.

— Você vai responder?

— ‘Cês da cidade grande pensam isso sobre a gente que cresce nas fazendas? Os garotos lá da escola também perguntaram isso, égua. Eu não sou assim não. Como que é o nome? Zoofilai, zoo, zoolifia...

— Zoofilia.

— Isso! Égua, eu nunca fiz isso não. Credo! Mas tinha uns garotos lá que a gente ouvia dizer que eles faziam isso com as vacas e as éguas, mas ‘cê acha que eu faria? Não, uai. É, sei lá, nojento.

— Então você é virgem?

A pergunta, para a surpresa de Carter, não veio de Connor, mas sim do Patrick. Patrick quis se enfiar num buraco e não mais sair, ele pensou alto demais e acabou deixando a pergunta escapar, não querendo ter feito aquilo, jamais, no entanto tamanha curiosidade pareceu ativar a pergunta automática.

— Desculpa, desculpa, desculpa, e-eu não deveria ter atrapalhado. — falou ele super constrangido. — Você corta essa parte.

— O quê? — Connor, rindo, questionou euforicamente. — É claro que não! Agora ele vai responder. Gente, esse é o Patrick. — Connor se levantou, apanhou a câmera e passou a enquadrar Patrick e Edgar, sendo que o loirinho pôs a mão no rosto quando percebeu que estava sendo filmado. — Edgar, não se esconda, o mundo também precisa te conhecer.

Patrick não disse nada, ficou inerte para a câmera, xingando-se em pensamentos por ainda ter feito aquela pergunta.

— Patrick anda bem interessado, não é mesmo? — sorriu maliciosamente o Connor.

— Vai à merda, só perguntei o que provavelmente já perguntaram. — teve que usar uma desculpa.

— Sei, sei... O que você acha, Edgar?

O loiro dessa vez pegou o travesseiro de Julius e pôs no rosto e ficou fazendo aceno com a mão para Connor parar de gravar. Rindo — sempre —, Connor devolveu a câmera no lugar, observou se Carter e ele estavam novamente no enquadramento e se sentou.

Carter estava em silêncio durante esse pequeno momento, apenas pensando na pergunta feita por Patrick, com o coração pegando fogo, nervoso.

— Você vai responder a pergunta do Patrick? — Connor questionou.

— Ele quer mesmo saber? — Carter olhou pro Patrick.

— Não! — Patrick gritou da cama. — Égua, para com isso!

— O quê?! — Connor caiu na gargalhada imediatamente.

Carter e Edgar também começaram a rir, no entanto Connor já estava vermelho e sem ar de tanto que já vinha rindo, sua barriga doía e ouvir Patrick falar “égua” foi o ápice.

Edgar não pôde deixar de olhar para Patrick e ver suas bochechas tão vermelhas como pimentão, o leonino definitivamente queria morrer depois daquilo. Carter estava tão feliz por ouvir aquela palavra sair de sua boca que seu sorriso foi o mais lindo já visto, até mesmo ele corou, definitivamente apaixonado.

— Ah, vai se foder. Odeio vocês! — Patrick se levantou e saiu do quarto.

— Ei, volta aqui! — Carter pediu, mas Patrick já havia passado pela porta. — Eu sou virgem sim! — respondeu muito rápido.

Quando Patrick saiu do quarto, respirou aliviado. Encostou-se na parede do corredor, olhou pra o teto. Que encrenca havia se metido? Agora todos certamente iam zoar ele caso assistissem ao vídeo do Connor, não pela parte em que pergunta se Carter é virgem, mas sim porque o loiro já é zoado por falar diferente e Patrick acabou adotando a palavra mais usada por ele, lógico que ele não falou porque quis, parece que a palavra brotou de seus lábios e agora iria se policiar pra nunca mais falar.

“Espera... Ele disse que era virgem?” pensou e só agora se deu conta disso, no entanto acabou sorrindo sem nem mesmo saber por quê, de certa forma saber dessa informação o deixou com uma sensação estranha que ele não sabia explicar.

— Que cara é essa?

Assustado, Patrick deu um salto e olhou em direção à cozinha. Era apenas Julius preparando um lanche que havia perguntado.

— Aposto que pensava em besteira. — provocou.

— Cala a boca! — resmungou e se dirigiu pra cozinha.

— Ouvi conversa no nosso quarto, quem tá lá?

— Connor tá gravando um vídeo com aquele garoto dos águias e o primo dele também tá lá.

— Que garoto?

— O que fala diferente.

— O égua?

— Ele mesmo. — respondeu e desviou o olhar.

— Com certeza vou ver esse vídeo, provavelmente deve ficar hilário.

— Você não vai! — disse imediatamente.

— Por que não?

— Por que não vai!

— Claro que eu vou, o vídeo vai tá lá pra todo mundo ver, Patrick.

— Sim, mas eu não quero que você veja.

— E o que tem demais nesse vídeo que eu não possa ver? — perguntou curioso.

— Nada! — disse muito mais rápido. — Ah, quer saber? Veja se quiser. — desistiu ao perceber que assim só despertaria mais a curiosidade do garoto.

— Ótimo, sabia que você não ia me proibir, Patrickzinho. — Julius o abraçou forte.

— Me larga! — disse, não sendo realmente aquilo que queria.

— Eu sei que você ama meu abraço. — brincou.

— Eu odeio você, isso sim.

— Como você odeia seu futuro marido? Nós dormimos até no mesmo quarto.

— Ai, Julius, você me estressa também.

— Também? Então tem outro?

Patrick o fuzilou. Julius logo começou a gargalhar e se afastou do Patrick.

— Hoje eu vou pra uma festinha maneira com o Marcus, vamos?

— É claro que não, primeiro porque estamos tendo aula ainda, segundo porque festa hétero só serve pra comer, sentar e conversar.

— E pegar várias garotas.

Patrick revirou os olhos.

— Fiz o convite, se quiser ir eu te levo, vou conseguir um carro emprestado hoje. Hoje eu vou encher a cara e pegar muita mulher.

— Você não presta, é o pior tipo de pessoa. Pena do Marcus que tem que te aguentar nesses lugares.

— Marcus também é pegador, só é mais quieto. Enfim, vou lá ver essa gravação no meu quarto.

Patrick não disse nada, apenas se afastou e foi pra geladeira, talvez um copo d’água pudesse acalmá-lo. Quando olhou pra trás, Julius já tinha desaparecido e ele mais uma vez pôde respirar aliviado, sentou-se no banco do balcão e esfregou o rosto.

Julius é a pessoa com quem Patrick nutriu um forte sentimento. É o Julius o motivo de Patrick sempre dizer ao Carter que está interessado em outra pessoa, de ficar aborrecido em certos momentos quando descobre que ele transou com alguém, de arrancar lágrimas em algumas madrugadas, tudo pelo simples fato de Julius ser hétero e jamais enxergar Patrick com outros olhos senão de um grande amigo.

O leonino sempre esteve implicando com Julius, culpando-o por tudo e em toda a conversa pondo o seu nome alegando que o garoto o irritou. Dizem que quando implicam demais sem grandes motivos é porque há algo escondido. Exatamente o que acontece na relação dos dois, no entanto, Patrick não havia percebido que esse sentimento não é mais tão forte como antes, de certa forma Julius mexe com ele ainda, mas a intensidade diminuiu e aos poucos ele agradecia por se libertar dessa maldição, pois se apaixonar por hétero é, certamente, atirar no pé todos os dias.

Repito: dizem que quando implicam demais sem grandes motivos é porque há algo escondido ali, por que será que Patrick implica tanto com o pobre Carter?

Após beber água, Patrick retornou ao quarto em silêncio e temeu atrapalhar o vídeo e isso aconteceu porque Carter perdeu o foco na resposta que estava dando e olhou para Patrick.

Connor olhou aquilo e não era difícil de perceber o que aconteceu com Carter sempre que ele via Patrick, era algo tão estampado em sua cara que qualquer um poderia descobrir com facilidade.

— E-eu... Onde é que eu parei?

— Na cicatriz do seu queixo. — Connor respondeu.

— Ah, sim. Eu a consegui quando caí do cavalo, foi uma dor do inferno, eu achei que ia morrer, mas minha tia e minha mãe estavam rindo. Égua, minha própria mãe rindo da minha desgraça!

— Sei bem como é, inclusive, no final desse vídeo vou mostrar um negócio pra vocês. — disse Connor olhando pra câmera. — Eu também achei que ia morrer, mas todo mundo rir. Agora vamos para a última pergunta, já foram quantas?

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— Já perdi as contas.

Connor olhou para o Edgar que mostrava na mão esquerda um dedo levantado e na mão direita quatro.

— Cinco. — Carter respondeu.

Connor gargalhou novamente.

— Nesse caso foram 14. Então, nós já sabemos muita coisa a respeito do Carter sobre sua vida, principalmente suas histórias mais engraçadas com os animais. Mas tem uma pergunta aqui que eu perdi a conta de tantas repetidas que tinham feito.

— Pode mandar, depois da pergunta do sexo com as galinhas, tô preparado.

— É mesmo, agora o mundo sabe que você é virgem.

— Égua, não precisa repetir isso. — disse ele constrangido. — Já é humilhação demais ser virgem com 20 anos.

— Aposto que vai ter muita gente querendo tirar sua virgindade, Carter. — Connor brincou.

Patrick não conseguia olhar para o loiro, pelo contrário, fingia que mexia no celular, mesmo com Julius atrás dele, deitado, implicando ao puxar seu cabelo.

— Mas ok, vamos lá pra última pergunta, já descobrimos que você não namora, mas querem saber: Você gosta de alguém?

Foi automático, sem controle, sem ninguém pra segurar sua cabeça, Carter logo olhou para o Patrick que acabara de retribuir o olhar. Patrick ficara tão atento que não se importou mais com os puxões de cabelo que recebia de Julius tentando irritá-lo para atrapalhar o vídeo.

Aqueles olhares entre Patrick e Carter chamou a atenção de Edgar, sabendo que Carter era bobo e apaixonado por Patrick, mas pela primeira vez via no Patrick um olhar diferente.

— Gosto. — Carter respondeu olhando para Patrick e sem dar a mínima pra câmera. — Gosto muito. — ele sorriu sem graça.

— Gosta? — Connor perguntou surpreso e em seguida seguiu o olhar do garoto fixado no Patrick.

— Sim, uai. — Carter finalmente desviou o olhar e olhou pra Connor. — Mas essa pessoa não gosta de mim, ela está gostando de outra pessoa, mas isso a deixa triste e irritado, mas eu sempre torci pela sua felicidade, espero que ela finalmente consiga se resolver. — Carter sorriu e baixou a cabeça.

Connor por quase um minuto ficou em silêncio, havia tanta sinceridade nas palavras do Carter que ele sentiu algo puro invadir o quarto.

— Que pena, não é, Carter? Você definitivamente está na friendzone. — tentou brincar.

— Não sei o que é isso, mas devo ‘tá mesmo. Égua, por que ‘cês tantas palavras difíceis.

— É quando você quer a pessoa e ela não, mas é a vida, você vai sair dessa e vai perder até a virgindade. Bom, é isso pessoal, chegamos ao fim do vídeo, você quer falar alguma coisa, Carter?

— Tô com fome. — respondeu sorrindo e olhando pra câmera.

— Eu também. — Connor falou. — E assim finalizamos o vídeo com a frase do momento: “tô com fome”. Aliás, tô pensando em trazer um vídeo de receitas, mas eu não sei cozinhar, mas deixa aí nos comentários se vocês queriam ver isso também ou preferem o canal do jeito que está. Ah, gente do mundo todo, o Carter não tem rede social, mas eu vou criar uma pra ele agora mesmo e por aqui na descrição do vídeo o link pra vocês começarem a segui-lo, ok?

— Eu não sei mexer nessas coisas.

— Aprende. — Connor falou.

— Se é assim, sim. Só não vão falar mal de mim, hein

— É isso, gente do mundo todo, até mais, abraços, fui!

Connor foi até a câmera, a retirou do lugar e a desligou logo em seguida. Com a sensação de tarefa cumprida, passou a rir enquanto olhava para o Carter que recém acabara de levantar esfregando as pernas.

— O Hugh disse que quer fazer as edições, mas só quando ele chegar, então acho que o vídeo sai em dois dias ou amanhã. Saiu um vídeo muito longo, mas com as edições com certeza ele vai diminuir pra um tempo legal.

— Espero que você corte aquela parte. — Patrick disse enquanto ainda estava sentado.

— Uma das melhores partes? É lógico que não.

— Que parte? — Julius perguntou.

— Cala a boca, não se mete! — Patrick se virou batendo nele.

— Nossa, sempre carinhoso. — Julius sorriu e o puxou para um abraço.

— Me larga, desgraça. — Patrick se batia tentando se livrar dele.

Carter sentiu ciúmes.

— Vamos embora, primo. — disse o loiro para Edgar.

Edgar se levantou.

— Vamos comer alguma coisa, Carter, eu pago! — Connor se ofereceu.

— Opa! — Julius largou o Patrick. — Comida de graça? Eu quero, primo. — Julius se manifestou.

— Mas eu ofereci pro Carter.

— Eu sou seu primo do coração. — manifestou-se frustrado.

— Tá, tá, tá... Eu posso pagar também, mas você vai pagar o meu da próxima vez.

— Quando eu cheguei na cozinha você já estava comendo, Julius. Meu Deus, você é morto de fome! — Patrick resmungou. — Não paga, Connor, ele não merece, só tem olho grande!

— Ai, para com isso, você tá com inveja porque não foi convidado.

— Eu pago. — Carter imediatamente disse sobre a voz de Julius. — Eu pago pra ‘cê. — ele olhou para o Patrick.

Sem jeito, Patrick engoliu em seco.

— Não estou com fome, obrigado. — respondeu a contragosto.

— Mentira! — Julius gritou. — Ele é um péssimo mentiroso!

— Cala a boca! — Patrick o estapeou. — Eu realmente não estou com fome, já esgotei meu limite essa semana, só posso comer na lanchonete daqui a duas semanas.

— Mi, mi, mi... — Julius fez careta. — Se ele não quer então pode pagar pra mim, garoto da roça.

— Não! — Patrick quem respondeu. — Ele não vai pagar pra você, que coisa feia, você já vai comer. E para de dar apelidos a ele! Carter, você está proibido de pagar alguma coisa pra ele!

— Como posso ainda viver com você? — Julius reclamou brincando.

— Cala a boca.

— Não vai adiantar, o da roça vai pagar pra mim.

— Claro que não vai! — Patrick olhou para Carter.

Connor guardava suas coisas e nem dava a mínima pra discussão enquanto Edgar mantinha-se em silêncio apenas observando o primo todo perdido com aqueles dois discutindo.

— Carter, você promete pra mim que não vai pagar pra ele?

— Prometo. — a resposta nem demorou a chegar.

— Quer saber? Eu vou com vocês só pra infernizar o idiota do Julius. — Patrick se levantou, rumou pra onde estavam suas roupas e começou a caçar algo agradável para se vestir.

Aproveitando a oportunidade, Carter aproximou-se do primo Edgar e sussurrou:

— ‘Cê vai me emprestar dinheiro.

Olhando-o com os olhos arregalados, Edgar tentou dizer algo, mas não arriscou.

— Te amo, primo. — Carter sorriu e piscou, logo envolveu seu braço no ombro dele.

Edgar não pôde fazer nada a não ser aceitar pela felicidade do primo em querer a todo custo conquistar o Patrick, emprestaria o dinheiro, mesmo tendo já organizado suas despesas que o deixariam apertado.

— Vamos. — Patrick quem tomou a iniciativa.

— Vamos, já terminei de arrumar, quando voltar guardo o que falta. — Connor falou.

— Ótimo, quero um duplo! — Julius saltou da cama animado.

— Eu não irei, então Carter você esqueceu algo no meu quarto. — Edgar falou.

— Como assim você não vai? — Patrick perguntou. — Por quê?

— Há tanta coisa da faculdade que devo fazer, já comi antes de sair da república e ainda estou cheio. — uma mentira, ele apenas não queria ir.

— Que pena, entendo.

— Com ele você é todo amiguinho. — Julius, enciumado, falou. — Comigo é na base da grosseria.

— E se não calar a boca vai ser na base da porrada.

— ‘Cês podem ir indo, eu vou com meu primo e alcanço vocês no caminho. — Carter falou.

Todos concordaram, assim Edgar e Carter foram na frente e rumaram para os águias. Carter recebeu o dinheiro suficiente que seu primo havia emprestado, o que por sinal não foi muito, apenas completou a grana que ele já tinha.

Carter saiu da república dos Águias correndo e conseguiu alcançar os garotos já na metade do caminho, ele logo se posicionou ao lado do Patrick, ofegante.

— Égua, só esse tanto me fez cansar. — disse o loiro sorrindo para ele.

Patrick olhou pra ele e nada disse, mas em seguida olhou pra o lado esquerdo e encontrou Julius também sorrindo e fazendo caretas. Entre os dois, Patrick coçou a testa e parou de supetão.

— O que foi? — Julius e Carter disseram ao mesmo tempo parando um passo a frente dele.

Connor, distraído, nem havia percebido e parou muito a frente.

Patrick olhou pra esquerda e viu o Julius, logo em seguida olhou pra direita e viu o Carter. Sua mente revirou deixando-o extremamente confuso. Algo nele não estava certo, ele simplesmente sentia-se como se estivesse gostando de duas pessoas ao mesmo tempo.

Seria possível?

— Nada. — ele disse e olhou pro chão, logo tornou a caminhar entre os dois que estavam o acompanhando.

É, Patrick, logo você que é tão organizado, acabou se esquecendo de organizar seus sentimentos. Como pode começar a gostar de duas pessoas ao mesmo tempo?

Pelo menos uma te corresponde, mas o ser humano é burro, sempre escolhe os caminhos mais difíceis quando se trata do amor.

[...]

Os dias se passaram.

Eles só ouviam seus gemidos ali dentro daquela cabine. Colin já estava com a bermuda nos joelhos enquanto Sean apertava sua nádega e tomava seu pescoço em mordida e lambidas. O leonino cravou as unhas nos ombros do moreno e tudo o que fazia era apenas gemer baixinho enquanto era consumido pela boca do outro até se dar conta do que estava fazendo.

— N-não... — disse o pequeno, afastando-o, mas ao mesmo tempo desejando que ele continuasse.

— Tarde demais. — disse o tigre, agora tomando os lábios dele.

— N-não, Sean, não... — continuava ele sem interromper o beijo.

Sean nada disse, o beijou e apertou ainda mais forte a bunda dele a ponto de fazer o Colin quase saltar. O leonino gemeu, mas esse aperto foi o suficiente para ele ganhar mais força e empurrar o Sean.

— Não! — ofegante, Colin falou enquanto levantava a bermuda. — Aqui não é lugar e nem hora pra isso.

Ambos estavam no banheiro da sala de concentração que naquele momento se encontrava vazia por conta do jogo que ocorria lá fora.

— Olha como eu tô, Colin. — Sean falou olhando entre as pernas, embora ainda estivesse com suas roupas de baixo, porém elevadas.

— Eu sou um péssimo amigo, Caine está lá fora jogando e eu aqui me pegando com você. — ele falava agora arrumando os cabelos.

— Você ganha mais transando comigo do que ir assistir a derrota dos seus amigos. — falou o moreno também arrumando os fios negros.

— Cala a boca. — disse o pequeno abrindo a porta da cabine e saindo. — Eu voltarei pra lá.

— Ah, Colin, não tem ninguém aqui vamos continuar, é rápido. — disse o moreno o segurando pela mão.

— Não! Eu não tô com vontade. — falou com insegurança.

— Tem certeza? O que eu vi dentro daquela cabine nega o que você acabou de dizer.

— Me erra, Sean. — ele revirou os olhos e começou a andar. — Nós iremos nos enfrentar daqui a pouco, então eu preciso pegar nojo da sua cara e não fica aos beijos com você.

— Eu iria te foder aqui e te foder no jogo.

— Imbecil.

Sean sorriu entre lábios.

— Não vou pegar leve com você.

— Eu não pedi pra que pegasse. Só espero que consiga dar 100% de você, caso contrário você demonstre pena porque eu sou namorado, eu paro o jogo só pra bater na sua cara. — disse e parou pra beber água.

— Com o Edgar eu ainda peguei leve.

Seria melhor o moreno ter ficado calado. Colin se virou de supetão e ergueu a mão, no entanto ela foi parada no ar pelo moreno.

— Joshua pode não ter te dado uma boa surra, mas eu com certeza vou te deixar aleijado se você usar o nome do meu amigo nessas suas piadas desgraçadas. — Colin o encarou por alguns segundos e puxou sua mão.

Colin e Edgar conversaram por horas após a situação de seus namorados, nada entre eles ficou em atrito, pelo contrário, ambos não se deixaram se levar pela confusão entre Joshua e Sean. Eles foram muito sensatos ao reconhecerem que o ocorrido não influenciaria em suas amizades, cada um pediu desculpas por seus respectivos parceiros e ainda conversaram sobre muitas outras coisas, inclusive marcaram de sair com o Caine.

— E se você não for pedir desculpas ao Ed logo, nós teremos grandes problemas. — ameaçou o pequeno.

Colin acabou se afastando do namorado e Sean tratou de não mais segui-lo.

Quando retornou as arquibancadas, Colin olhou não pôde deixar de olhar para o placar, o que explicava a cara fechada de Danion e o fato dele se encontrar sentado e com os braços cruzados.

— O Caine não merece um time lixo desses. — disse o branquelo assim que Colin se juntou a ele.

— Calma, Dan, eles ainda estão no terceiro tempo.

— Mas não é a derrota do time que me deixa assim, porra. Você não consegue ver a cara do Caine daqui? Ele não está nada bem. Se ele perder os dois jogos pode acabar sendo eliminado.

— Os Monstros perderam o jogo contra nós, isso significa que se os águias perderem ainda tem o jogo de eliminação. E se os águias vencerem os Monstros estão automaticamente eliminados já que não teriam vencido nenhum jogo.

— Não sei, não paro pra pensar nisso, minha cabeça não funciona tentando organizar as coisas. Eu só quero que o Caine vença essa merda de jogo. — Danion estava claramente aborrecido.

Mais aborrecido que o Danion, em jogo, estava o Luke. Ele já havia perdido o interesse no jogo por causa do Samuel, culpando-o pelo péssimo desempenho do jogo já que seu egoísmo em querer não passar a bola era nítido e prejudicava os outros jogadores do time.

O moreno de olhos azuis a cada passo insultava Samuel, não se importando do time adversário ouvi-lo, e claro, o próprio Samuel ouvindo-o, mas não dando a mínima.

— Passa a bola, caralho, precisamos virar isso! — Luke gritou com Samuel enquanto retornavam para sua área da quadra.

O placar estava 58 para os Monstros enquanto os águias estavam com apenas 41, número esse que parecia está cada vez mais se distanciando. E olha que os adversários não eram tão fortes como os Tigres, mas a relação de Luke e Samuel desestabilizou o time.

Samuel estava novamente com a posse da bola, quicando-a e correndo. Luke, estando livre e próximo à cesta, acenou para o loiro mostrando que marcaria uma cesta de dois ou um ponto. O loiro o viu, mas deu de ombros, saltou e tentou acertar a cesta pra marcar três pontos, mas acabou errando e o time adversário ficou com a posse da bola.

Em insultos, Luke correu para tentar impedir que uma nova cesta do time adversário fosse marcada, Carter até tentou impedir e estapeou a bola a retirando da mão do garoto do outro time, mas a bola foi pega pelo inimigo que saltou do lugar que estava e marcou a cesta de três pontos que Samuel havia desejado marcar.

Nisso, foi decretado o fim do terceiro tempo com 61 pontos para os Monstros enquanto os Águias permaneceram com 41.

— Quer saber, eu não quero mais jogar. Cansei! Cheguei no meu limite. — disse o Luke assim que ouviu gritos do time adversário antecipando a vitória.

Ele estava no centro da quadra quando falou isso, não se importando com quem estava escutando. Um garoto dos Monstros parou e com um sorriso no rosto chamou a atenção do seu time para ouvirem aquela reclamação.

— Sabe por que vocês estão vencendo? Por causa daquele garoto ali. — apontou para o Samuel. — Ele é o culpado de tudo isso. E se querem saber mais, ele só tá assim mesmo porque faz tempo que não toma uma surra de pau nessa bunda branca.

— O que você disse? — Samuel dessa vez se irritou ao não admitir que ele falasse daquela forma.

— Ei, ei... — Carter logo se posicionou na frente do loiro. — Égua, mas outra confusão?

Quando perceberam a agitação no centro da quadra de basquete, toda a atenção foi tomada pra direção de Luke e Samuel. O time adversário também parou pra assistir a discussão entre eles. Gritos da arquibancada tomaram conta do lugar com piadas maldosas a respeito dos águias que mais uma vez acabava de se meter em uma confusão, só que dessa vez entre eles.

— Fala de novo se você tem coragem. — Samuel pediu.

— O que você tá precisando é de uma socada de pau na sua bunda, filho da puta. Acha que todo mundo aqui merece perder por sua causa? Por causa desse seu orgulho de merda? Se você não me suporta, ótimo, mas se estamos aqui é pra jogar como um time.

— Você não sabe o que diz, Luke. Eu tô jogando, eu tô marcando pontos, você que não consegue dar conta e quer fazer piada, mas acaba se ferrando por causa disso. Não consegue se concentrar no jogo.

— Agora a culpa é minha? Minha? Pergunte a qualquer um se seu jogo egoísta não está nos prejudicando! — Luke olhou para seus colegas, todos estavam em silêncio. — Você só tá assim porque não consegue me engolir aqui, então eu simplesmente vou abandonar o jogo pra ver se você consegue levar isso sozinho.

— Abandonar agora que estamos perdendo é muito fácil, não é? Assim você sai sem se sentir culpado pela derrota. — Samuel, ainda sendo impedido por Carter de avançar, bradava.

Nem sequer haviam percebido que estavam sendo o centro das atenções, nem todo mundo, é claro, conseguiam escutar o que acontecia, mas uma boa parte compreendia.

— O que é que você quer, Samuel? Você quer que eu te coma aqui na frente de todo mundo pra acalmar sua raiva?

— Desgraçado! — mais uma vez tentou avançar, dessa vez Carter foi mais firme e o segurou pela cintura. — Viu só? Qualquer coisa você começa a falar um monte de pornografia, é tudo o que sai da sua boca. Você é podre, Luke, você não presta.

— Você não merece ouvir coisas boas saindo de mim. Você não merece mais nada, aliás. Não sei o que eu tive na cabeça de tentar me reaproximar de você esses dias. Agora percebo que você é apenas um garoto mimado que sempre vai se achar o dono da razão. Nada pra você está certo, é cheio de frescura.

— Você fala isso porque felizmente não sou igual a você que só pensa com a cabeça de baixo.

— E uso bastante, aliás. Inclusive usei em você algumas vezes, lembra?

— Seu desgraçado! — tentou novamente passar por Carter.

— Luke, é melhor você esfriar a cabeça. — Caine se aproximou do colega. — Desse modo tudo pode piorar.

— Eu já desisti desse jogo, Caine. — falou o moreno ainda olhando para o Samuel. — Já perdi a vontade. Do que vai adiantar jogar sabendo que a derrota já está garantida? E tudo por culpa do Samuel. Sim, porque até você reconhece que a culpa é dele.

— Você só quer me culpar pra se sentir livre do sentimento de culpa. — e o diálogo retornou para o ponto de origem onde um culpava o outro pelo fracasso do time.

— A culpa é sua sim e pronto. Espero que você vá pra puta que te pariu. — Luke elevou ainda mais o seu tom de voz, mas ela saiu trêmula.

— Deixa só me soltarem, deixa pra você ver... Eu vou quebrar a sua cara, eu juro que vou.

— Quer saber? — Luke deu dois passos e se virou pra arquibancada. — Eu quero que todos vocês saibam que esse garoto aqui, esse que vocês estão vendo, esse loiro da cara emburrada, de quem parece que não foi bem comido, esse mesmo filho da puta que tem o nome de Samuel...

— Me larga, Carter, me larga! — com mais raiva ao ver que Luke dizia seu nome aos quatro cantos com bastante ofensa, conseguiu escapar do loiro.

Samuel empurrou Luke e este imediatamente caiu no chão, tendo sua fala interrompida. Luke de maneira alguma ameaçou revidar, ele somente se levantou, encarou o Samuel com os belos olhos azuis que tinha, no entanto cheios de raiva.

Quando o loiro esperou que aquele seria o momento em que Luke provavelmente avançaria, o moreno simplesmente deu as costas mais uma vez e retornou pra a falar com a arquibancada.

— Esse é o exemplo de pessoa que... — Luke recebeu outro empurrão e dessa vez caiu de bunda no chão.

Sentado, ele encarou Samuel novamente. Dez segundos se passaram e ele tratou de ficar novamente de pé, retornar sua atenção pra arquibancada e prosseguir:

— Esse é o exemplo de pessoa que vocês... — Samuel novamente o empurrar, mas dessa vez Carter novamente o segurou.

Luke, parado, somente balançou a cabeça negativamente.

— Como eu dizendo, mas não consegui, porque vocês viram o que aconteceu: Esse é o exemplo de pessoa que vocês jamais devem se apaixonar. E logo eu, que prometi nunca mais gostar de alguém, acabei gostando desse mimado.

Finalizado o que havia dito, Luke se retirou da quadra.

Queixos e mais queixos foram ao chão.

Notas finais
É isso, espero que tenham gostado do capítulo! ♥ Postei o capítulo sem nem antes dar nenhum aviso, apenas não quis esperar mais e postei. Por isso não respondi todos os comentários, mas farei isso agora no carro e também enquanto estiver no hospital. Ps: Estou indo ao hospital porque faço hemodialise três vezes na semana, mas não irei ficar interno, volto hoje mesmo pra casa.