República de Tigres
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Os olhares permaneceram. Um ameaçador e o outro provocador.
Sean olhou ao redor e, percebendo que havia curiosos de plantão, abriu a porta de sua república enquanto ainda segurava a mão de Colin. Com agilidade e rapidez, acabou puxando o pequeno para dentro, fechou a porta e lançou o namorado sobre ela.
Primeiro tomou o pescoço do menor, como se aquela fosse suas boas vindas a ele, depois levou seus lábios pelo queixo de Colin, enquanto ouvia os gemidos baixinhos, até que finalmente devorou seus lábios em um beijo ardente, carregado de saudade, vontade. Fogo.
Colin apenas se deixou levar pelo beijo, tendo que admitir que sentia falta daquilo. Afinal, Sean era dono da melhor pegada, melhor beijo e melhor cheiro. Como lidar com a presença do moreno sem não sentir desejos íntimos? Era algo realmente tentador.
O pequeno tinha esquecido até de que estava irritado com Sean. No momento em que se lembrou, espalmou as duas mãos no tórax do moreno e tentou afastá-lo, mas estava com certa dificuldade visto que Sean recusou-se a largar seus lábios, sendo necessário virar o rosto para parar, porém, ainda assim, Sean o tomou novamente pelo pescoço.
Colin não soube lidar com aquilo, um de seus pontos fracos. Quando se viu novamente domado pelo líder dos tigres, despertou pela segunda vez e foi necessário usar de um golpe baixo para interromper a ação. O pequeno usou do joelho para atingir, em cheio, as partes íntimas — latejantes, do moreno. Colin havia sentindo aquela ereção.
Em um grito, semelhante a um gemido, alto, Sean se afastou. Rapidamente curvou seus joelhos e levou suas duas mãos ao próprio membro na tentativa de amenizar a dor. Ele fechou seus olhos e imediatamente uma lágrima desceu, sequer tinha forças para agredir Colin depois daquilo.
Colin levou seus olhos ao rosto do moreno, já afastados, e notou os lábios vermelhos, imaginando também os seus.
— Filho da puta! Anão desgraçado! — exclamava ainda sentindo dor, buscando apoio no sofá.
— Isso é por você não ter ido me buscar na rodoviária.
Colin secou os próprios lábios com a mão, depois olhou pela janela para verificar se suas malas ainda continuavam na calçada.
— Disse que iria me ver nesse último final de semana e sequer foi me buscar na rodoviária. — continuou o pequeno. — Que espécie de namorado é você? Deveria ter aceitado tomar um tapa na cara.
— Eu estava com Joe, seu infeliz! Eu mandei mensagem! — seus gemidos eram chorosos e Colin até sentiu um aperto no coração.
— Fico feliz que esteja se dando bem com seu pai, mas custava ter ido me buscar na rodoviária? Até desligou o celular!
Sean não respondeu. Sentou-se no sofá ainda com as duas mãos no saco e sua expressão de dor foi de partir, mais uma vez, o coração de Colin. O pequeno resolveu se aproximar dele, temendo receber de volta a joelhada nas partes baixas, mas Sean não fez isso.
— Me desculpe. — falou o pequeno, levando sua mão aos ombros do namorado.
— Sai daqui, desgraçado. Tem sorte de que não vou quebrar sua cara.
— Só queria que tivesse me buscado na rodoviária. Estou há três semanas sem o ver, fora as vezes em que você não me atendia, inclusive hoje que desligou o celular propositalmente.
— Custava pegar um táxi? — questionou o moreno. — Aliás, doeu ter pegado um táxi?
Colin desceu sua mão ao braço do namorado, sua outra mão tocou a coxa do moreno.
— Teria recompensa se fosse mais cavalheiro. — maliciosamente, Colin disse.
— Deveria me fazer uma massagem no pênis só pra pagar pelo que fez. — o moreno falou ainda olhando-o.
O pequeno relaxou sua cabeça nos ombros de Sean e a deixou lá por alguns segundos enquanto ainda ouvia Sean resmungar pelo ocorrido.
— Já perdi as contas de quantas vezes fui seu saco de pancada. Que porra de relacionamento é esse? Lembro-me do dia em que você quase me assassinou com um relógio.
— Ai, também não é pra tanto...
— Não?! — Sean se mexeu, consequentemente Colin afastou sua cabeça do ombro dele. — Como assim não é pra tanto? Eu tenho até medo de você quando está com uma faca.
— Até parece que eu iria fazer algo.
— Colin...
— O que foi? Você também não é uma boa peça. Tô achando um milagre você ainda tá dialogando comigo aqui. É tão difícil quanto eu. Aposto que tá assim só pra conseguir me levar pra o quarto.
— Não deixa de ser uma verdade. — o moreno sorriu de lado, revelando parte das covinhas.
O pequeno então ficou de pé, largando Sean no sofá.
— Onde está todo mundo? — Colin indagou.
— No inferno, eu espero. — respondeu secamente.
— Sempre carinhoso... — ironizou o pequeno.
— Brandon vai ser um péssimo líder, sequer consegue por ordem nesse lugar. — irritado, Sean falou.
— Nem todo mundo almeja ser líder disso aqui. — Colin olhou ao redor, como se a residência não fosse nada demais.
— Se ele não for líder, a república fecha.
— Nunca vou conseguir compreender as regras da sua família, deve ser um saco ser Ferazza. — disse com desdém.
Sean o olhou raivoso a ponto de estapeá-lo só pela ofensa proferida, mas Colin, atrevido, apenas elevou o queixo e encarou o namorado até que o moreno decidisse olhar pra janela.
— Tem alguém mexendo nas suas coisas. — falou e logo em seguida mexeu em seu próprio celular. — Espero que levem tudo.
Colin imediatamente correu até a porta sem sequer se preocupar em olhar através da janela. Foi quando encontrou Danion realmente vasculhando em suas coisas. O branquelo estava pouco se importando com a presença do Colin, continuava a revirar as coisas do pequeno.
— Posso chamar a polícia e dizer que isso é um assalto, sabia? — Colin gritou para Danion.
— Roubaria coisas mais preciosas se eu acabasse encontrando. — Danion retrucou. — Vai ficar aí mesmo, desgraçado? Eu o vi quando você chegou e a primeira coisa que faz é ir ver o namorado? Tudo por um pau?
Danion, abertamente, gritou na rua para causar constrangimento em Colin. Não seria o branquelo caso não fizesse coisa do tipo.
Colin antes olhou para Sean que permanecia sentado no sofá. O moreno ouviu o que o branquelo disse, por isso acabou deixando escapar um sorriso por considerar aquilo engraçado.
Colin, com raiva, saiu da república dos tigres e caminhou até a calçada onde Danion estava com suas coisas.
— Eu estava ótimo longe de você. — o pequeno falou, tomando uma de suas camisas das mãos de Danion.
— Eu quem digo isso. Já estou até ouvindo seus gritos pela manhã e seus sermões chatos. — bocejou enquanto falava. Danion tomou uma mala de Colin na mão e foi até a sombra que a república fazia no gramado. — Eu estava torcendo pra que você tivesse morrido nessa viagem, até comprei rosas. Vermelhas, você gosta?
Colin o olhou de relance, depois alcançou a segunda mala e levou até Danion para também se proteger do sol.
— Ah, eu deveria mesmo ter comprado as brancas, poxa, bem que o Caine disse... — continuou o branquelo.
— É bom saber que você tem enorme consideração por mim. — ironizou o pequeno. — Isso é recíproco, no seu velório irei lançar tijolos em seu caixão, desgraçado! — soou agressivo.
— Nossa, que amor, Colin! — o branquelo pausou e olhou para o pequeno. — Como foi lá? Não senti sua falta. — enfatizou.
O pequeno fez uma longa pausa antes de responder.
— Foi ótimo, sem você tudo se torna maravilhosamente bem.
— Sério que conseguiu viver sem malhar essa bunda com o Sean? — descarado, o branquelo indagou como se realmente estivesse interessado em sua resposta.
— Você tá maluco?
— O que foi? Caine me falou que você viajou sem o Sean, além disso, ele também me disse que você é passivo. Que mal tem em eu saber disso? Porque sinceramente... Imaginar Sean te dando a bunda é surreal.
— Obrigado pela parte que me toca. — Colin, revirando os olhos, falou.
Nesse mesmo momento o pequeno Caine surge pelo mesmo lugar que Danion havia saído — da república dos leões, sendo que o atual líder dos águias sequer conseguia abrir os olhos.
— O que fazem aqui fora da república? — perguntou coçando os olhos.
— Ótimo amigo você é! — Colin estendeu as duas mãos. — Merece até palmas! — e fez a ação.
— O que eu fiz? — o pequeno indagou sem entender.
— Nada não, Colin só está enchendo o saco mesmo. — Danion respondeu.
Deixando de lado o assunto, Caine deu continuidade ao diálogo:
— Tem quanto tempo que você chegou? — perguntou para o amigo.
— Dez minutos, acredito. — respondeu. — E o que você fazia aí? Não deveria estar cuidando da sua república? Luke deve estar colocando fogo em tudo.
— O que você acha que estávamos fazendo nós dois em um quarto enquanto você estava fora? — o branquelo perguntou na maior cara dura.
— Por que me faz ter que imaginar isso? — questionou desacreditado. — Só espero que não tenham feito isso no chão.
— Já mandei você dividir o quarto com outra pessoa e me deixar sozinho naquele. Vai que aconteça como da última vez em que você...
— Dan! — Caine o interrompeu.
— Obrigado, Caine. — Colin agradeceu. O pequeno já flagrou Danion e Caine transando quando abriu de repente a porta do quarto, chegando a ver o pequeno sobre o branquelo. — Você deveria ir morar nos águias e me deixar sozinho nessa república. — falou referindo-se ao branquelo.
— Pena que fui eu quem a comprou. — Danion retrucou, sarcástico.
— William me deixou como líder! — esclareceu com destaque.
— Mas eu não disse que você não é o líder, entretanto eu tenho os mesmo direitos que você nessa república. Acha mesmo que eu vou ficar tomando os seus gritos atoa? Agora eu posso comer o chocolate em pó sem que ninguém brigue comigo!
— Saudades do Rickson... — Colin relembrou.
— Temos o Calvin, tão chato quanto. — o branquelo disse.
Caine foi obrigado a rir do que ouviu. Colin revirou os olhos.
— Aliás, falando no diabo... — Danion murmurou enquanto olhava sobre os ombros de Colin.
Colin olhou pra trás na mesma direção do olhar do branquelo, assim avistou Calvin e Hugh.
— E os demais? — Colin prosseguiu perguntando.
— Patrick certamente foi ao supermercado. Julius disse que iria sair com alguns amigos. Billy e Marcus estão lá dentro, os dois não saem do quarto. — respondeu o branquelo.
Colin mais nada perguntou, voltou a olhar para Hugh e Calvin que estavam mais próximos naquele momento. Hugh, como sempre foi educado, tomou no ombro do seu líder, envolvendo seu braço no mesmo lugar que tocava.
— Senti sua falta. — Hugh falou. — Como foi a viagem? Tranquila?
— Sério? Sério mesmo que você sentiu falta? — Danion duvidou.
— Dan, deixa o Colin! — Caine pediu.
Paciente, Colin ignorou o amigo que implicava.
— Foi legal, conheci parentes que sequer fazia ideia da existência, inclusive alguns primos. Percebi que tenho uma família maravilhosa e com tabus quebrados, apesar de que algumas coisas ainda precisarem de mudança... — Colin parou pra refletir.
— Esse diálogo entre vocês me deixa com sono... — O branquelo insistia em soltar suas provocações, embora não estivesse mentindo no que falava. — Alguém manda o Calvin falar alguma coisa ou ele vai ficar sempre parecendo um segurança particular do Hugh?
— Fiz algo de errado? — Calvin perguntou.
— Não liga, Calvin. Danion tem um parafuso a menos. — Caine tocou a cintura do namorado, querendo tirá-lo dali.
— Sempre desconfiei disso... — falou o estudante de direito.
— Olha que se continuar bancando o engraçadinho, eu posso te expulsar. Não é porque você é alto e forte que acha que deve me provocar!
— Meu líder é o Colin. — Calvin mantinha a calma respondendo sem sequer esboçar reação.
— É mesmo? Então você está expulso! — O branquelo o encarou.
Calvin bocejou e coçou a barba, depois olhou para seu líder que sorria. Colin simplesmente amava Calvin pelo seu poder de irritar o Danion sem que sequer precisasse se esforçar para isso. Como Danion tinha implicância com Rickson no passado, pelo simples fato do Rick não o deixar comer tudo, Calvin também costuma ficar responsável pela cozinha quando de bom humor, e ele faz questão de se esquecer do branquelo na hora das refeições.
— Acha que eu tô brincando?! Olha minha cara de quem está brincado! — Danion tentou realmente parecer sério. Até Caine sorriu.
Calvin o olhou e continuou normal, sem esboçar reação alguma a ameaça do branquelo.
— Calvin, eu já te considero muito. — Colin disse, realmente animado em Danion quebrando a cara.
— Tô fraco demais pra ninguém me obedecer... Só pode! — frustrado, o branquelo falou. — Tinha que ser parente do Rickson, é uma porra mesmo... — xingou.
— Estou faminto e precisando de um banho, mas antes preciso falar como Sean. — aleatoriamente, Colin cortou o assunto.
— Vai lá avisar que precisa transar? — o branquelo insistiu em constranger Colin.
Danion sorridente entrou na república, os demais fizeram a mesma coisa, rindo agora do que o outro havia dito.
Revirando os olhos, Colin deu as costas. Apenas precisou atravessar a rua e estando, depois olhou através da janela seu namorado ainda sentado no sofá com as duas mãos no membro, ainda sentindo-o dolorido.
Mesmo estando com saudades, Sean não estava com saco para ouvir as reclamações do namorado, visto que Colin vivia reclamando de tudo e com certeza falaria de sua ausência na viagem. Ao encontrar os olhos do namorado, Sean mostrou-lhe o dedo do meio, como se estivesse incomodado com sua presença, apenas para irritá-lo.
Colin caminhou até a porta e a abriu, fechando-a logo em seguida.
— Achei que me deixaria em paz. — disse o moreno. — Já estava pensando em tirar um cochilo aqui mesmo.
—Só quero perguntar se podemos sair hoje a noite. — ignorando a provocação do namorado, Colin falou.
— Então pergunte... — disse com desânimo.
— Vamos sair hoje a noite?
— Não. — respondeu, seco.
— Ai, Sean! Que saco, hein. — cruzou os braços, irritadiço.
— Você realmente deixaria eu dizer não assim tão facilmente? Até a noite você vai ficar enchendo meu saco... Então mesmo que eu diga não, você vai conseguir me tirar daqui.
— Dependendo da maneira que você se comportar, cogito até em...
A paz de Sean paz foi momentânea, o diálogo foi interrompido. A porta de sua república quase foi derrubada da maneira que foi aberta por Kai, que entrou furioso bradando xingamentos ao vento enquanto subia em passos pesados as escadas, indo diretamente para seu quarto. Brandon veio logo atrás, em passos celerados tentando pará-lo:
— Kai, para de ser criança! — gritou o loiro, pondo um pé no primeiro degrau, preparado pra subir.
— Deixe-o. — Sean, assistindo aquilo, ordenou.
Brandon só então notou que o seu líder e primo estava ali na presença de Colin. Por um momento sentiu constrangimento por Colin ter presenciado uma cena como aquela, e logo sentiu mais raiva de Kai por dar motivos grandes para Sean exigir sua expulsão.
— Não o expulse. — Brandon pediu sem antes explicar o que aconteceu.
— Ele está por um fio, não sei até quando vou tolerar. — o moreno, ainda no sofá olhando para Brandon, falou.
Brandon se sentou no degrau e levou suas duas mãos ao rosto, deslizando-as para os fios loiros em sua cabeça.
— Sinto que devo ir embora, isso é um problema dos Tigres. — Colin falou, descruzando os braços e caminhando até à porta.
— Volte aqui mais tarde. — Sean disse.
— Não sei se quero. — o pequeno sibilou ao passar pela porta.
Sean iria gritar algo irônico, mas se absteve. Colin se encarregou de fechar a porta, deixando os primos sozinhos dentro daquela sala. No primeiro instante tudo era silêncio, até eles ouvirem um barulho de som alto vindo do quarto de Kai, piorando ainda mais sua situação. Azar tinha o Brandon que dividia o quarto com ele.
— Se eu subir naquele quarto vai ser para expulsá-lo. — ameaçou o moreno ao olhar para o alto da escada.
— Todos os seus problemas se resolvem em expulsão. Vai ser sempre assim? — Brandon questionou sendo grosseiro.
Sean simplesmente levou-se do seu lugar e caminhou em passos lentos até parar em frente ao loiro. Inclinou seu corpo para frente e deixou seu rosto próximo ao do primo, depois levou sua mão ao queixo dele e murmurou:
— Eu mando aqui. Você obedece. Ainda que tenha o meu sangue correndo por entre suas veias, eu sou o mais velho e estou no topo da hierarquia enquanto nessa república. Nós dois sabemos como as coisas funcionam segundo o nosso avô.
Sean foi tão sério ao pronunciar tais palavras que Brandon tremeu diante a voz do seu líder, apesar de permanecer desafiando com os olhos, sem temê-lo.
O moreno prosseguiu:
— A sua sorte é que eu não posso te expulsar também, senão já teria feito isso. — afastou seu rosto.
— Eu não tenho medo de você, Sean. Você só tem autoridade como líder.
— Brandon, não somos bons para ninguém, então não tente ser bom com o Kai.
— Isso não me torna alguém igual a você. — retrucou.
Sean deu as costas e disse:
— Só por que sou a vergonha da família? Se não aguenta carregar esse título, é melhor não ser igual a mim.
— Enquanto nosso avô não mover um dedo, você permanecerá bem, com essa autoridade que julga ter enquanto longe da família está.
Brandon acertou em cheio na resposta, calando imediatamente Sean. O loiro ficou de pé e assistiu o moreno sentar no sofá.
— O Kai é meu amigo, ainda que...
— Então por que fez aquilo com ele? — Sean o interrompeu no mesmo instante em que ouviu a palavra ‘amigo’. O loiro até tentou dizer algo, mas não conseguiu. O moreno deu continuidade. — Não venha bancar o gentil quando se tem o mesmo sobrenome que o meu. A culpa de ele estar assim é inteiramente sua. E como isso não é um problema meu, eu posso muito bem tirá-lo daqui. Se no tempo em que eu estive fora você não soube resolver, eu posso facilmente encerrá-lo.
— Você não sabe de nada do que aconteceu. Então você não deve...
— Eu já estive no seu lugar. — Sean o interrompeu mais uma vez, de modo com que Brandon fosse atingido por isso.
— Cala a boca! — o loiro não tinha bons argumentos, e foi só o que conseguiu dizer após o sermão de Sean.
— Suba e peça pra que ele desligue o som. — encerrou o assunto dando uma ordem.
O moreno não disse mais nada. Levantou-se e foi diretamente até a cozinha.
Brandon não iria obedecer a ordem de Sean se não estivesse com raiva o suficiente. Até demorou pensando se realmente deveria fazer isso. Estava querendo entrar naquela cozinhar e socar Sean, ainda que saiba que possa perder a luta, visto que Sean é mais velho e tem mais corpo. Também estava com raiva por Sean o tratar daquela forma, sendo que este era seu primo e deveria entendê-lo, pois ainda que vivam a discordar de muita coisa, na ausência de Kai, Sean era seu único amigo.
Sem mais delongas, Brandon subiu em disparada até o seu quarto, abrindo a porta com força. O loiro foi direto ao aparelho de som e o desligou sem antes pedir permissão. Kai, que estava na cama lendo uma revista de quadrinhos, tomou um susto quando Brandon surgiu abrindo a porta com raiva.
— Não me force a ser ruim com você. — Brandon, encarando-o, falou.
— Eu só quero ouvir música e também quero que você me deixe em paz. — pediu sem olhá-lo nos olhos.
— Você não vai ouvir música, não nessa altura.
— Brandon, não me enche o saco. — largando a revista de lado, falou e se colocou de pé.
Kai deu alguns passos até o aparelho de som, pronto para liga-lo novamente. No mesmo instante Brandon o puxou pelo braço e o jogou com força sobre a cama.
— Com quem você acha que está falando? — apontou. Kai, assustado, permaneceu na cama. — Quantas vezes eu vou ter que dizer que estou cansado do seu showzinho? Quantas vezes eu vou ter que convencer Sean de não te expulsar?
— Com quem eu estou falando? — Kai, incrédulo, questionou a primeira indagação de Brandon. Ele se sentou na cama. — Eu estou falando com o cara mais babaca que eu já vi nesse mundo, que tenta parecer bonzinho quando na verdade é o cara mais falso que eu já conheço.
— Se o seu problema é comigo, não tente descontar em tudo o que encontra pela frente. Você não sabe o número de reclamações que Sean vem recebendo por sua causa. Kai, se o pessoal se reunir, você é expulso até da Quadra. Sean tem esse poder se ele resolver tratar dos problemas gerais que esse lugar tem.
Na saída de Sebastian, a Quadra Nove ficou sem um líder para representá-la. Sendo antigamente esse o poder do líder dos águias, que tinha o controle de tudo o que acontecia quando se tratando de algo que ameaçasse o risco do fim daquele lugar, as coisas ainda só se mantinham no controle porque Sean era a pessoa mais influente desde a saída de William e Octavio.
Ainda era a regra de número um não envolver a polícia, pois consequentemente a universidade teria que prestar contas com o que acontecia na Quadra, visto que é um lugar formado por universitários devido à superlotação no Ninho.
— Do grupo de Andrew, Pietro é o único morador da Quadra e certamente vai ser expulso daqui se uma reunião for feita. — prosseguiu o loiro. — Se não quer virar tema dessa reunião, é melhor parar de arrumar problemas por aí.
— Não tente agir como se fosse meu amigo. — Kai, ainda na cama, falou sem se preocupar com tudo o que Brandon havia dito.
— Eu não sou seu inimigo! — Brandon precisou gritar. Com a porta do quarto aberta, Sean, lá debaixo, escutou.
— Teria pensado nisso antes de ter feito aquilo! — os olhos ficaram úmidos.
— Kai, e-eu... — levou sua mão a testa e fechou os olhos devagar, respirou fundo e se sentou na cama ao lado da de Kai. — É complicado...
Brandon já não estava mais parecendo o garoto com raiva de antes.
— Se seu sobrenome tem tanto prestígio assim como você mesmo diz, você é meu inimigo sim. Se isso incluir Sean, ele também é meu inimigo. O que é irônico, se considerando o lugar que moro.
— Você foi meu primeiro amigo aqui, eu não quero que isso mude. — calmo, Brandon admitiu.
— Eu odeio você desde o dia da festa.
Brandon ficou em silêncio.
— Se quer ser expulso, é uma escolha sua. — falou baixinho enquanto se levantava. — Já fiz demais por você.
No mesmo instante o celular de Brandon tocou. O loiro retirou seu celular do bolso e verificou na tela quem era, depois olhou para Kai que mantinha os olhos fixos nele.
— É melhor sair e atender a sua namorada. — Kai disse e puxou sua revista em quadrinhos para ler.
Brandon abaixou a cabeça entristecido e rumou até a saída do cômodo.
Kai chorou, mas se negava a fazer Brandon ver isso, por isso aproximou o máximo a revista de seu rosto.
Brandon resolveu não olhar para trás. Fechou a porta e finalmente atendeu ao celular, pronto para falar com Melissa, sua namorada, tendo que atuar e modificar o tom de voz, de modo que ela não percebesse que algo estava errado.
[...]
O dia não passou tão rápido para os universitários, embora tranquilo e divertido. A tarde já estava tendo o seu fim, com céu alaranjado, beleza oferecida pela própria natureza.
Do lado de fora da república de leões, qualquer um conseguiria ouvir os gritos proferidos por seus membros. Era, de fato, a república com mais confusões internas e barulhentas daquele lugar. Quando na liderança de William por pouco a república não ficava de cabeça pra baixo, e estando, atualmente na direção de Colin, a geração atual não é tão diferente da anterior:
— Vai logo, Julius! — Patrick gritava e batia na porta do banheiro. — Estou atrasado!
— Porra, tô com dor de barriga! — respondeu em um grito.
— Eu vou derrubar essa porta! Eu preciso tomar banho. — continuava insistindo.
— Se o Colin acordar tenho certeza de que ele vai te expulsar. — Billy surgiu no mesmo corredor, passando por Patrick e indo em direção à sala.
— Quem comeu toda a comida? Que merda, é a segunda vez que fico sem comer por conta disso. — Marcus, com raiva, também passou pelo mesmo corredor.
— Não fui eu. — Patrick, desistindo de gritar com Julius, foi para a sala. — Aposto que foi o Julius.
— Julius, seu babaca! — Marcus gritou. — Eu vou quebrar sua cara quando você sair desse banheiro.
Julius é um garoto alto com 1,88m, com olhos azuis e cabelos castanhos. Suas feições são fortes e chamativas, ao contrário do seu primo Hugh.
Embora parentes distantes, eles estudaram juntos desde a infância e na universidade não foi tão diferente, apenas seguem sonhos diferentes pra vida. Embora Julius já tenha feito dois outros cursos e abandonado eles, tentava agora a engenharia mecânica na universidade de Seattle.
Marcus tem cabelos curtos e castanhos escurecidos, seus olhos são verdes. Entrou com Billy recentemente pelas vagas que sobraram. Billy, do contrário de Marcus, tem cabelos loiros e grande na altura ombro, geralmente preso em um coque.
Patrick sofria as mesmas piadas que Colin e Caine por ter 1,70m de altura. Engana-se quem o considera um garoto fraco só pela altura. Patrick tem o corpo detalhado em músculos, cabelos lisos e castanhos da mesma cor de seus olhos, penteados de modo em que deixe uma franja do lado esquerdo da testa.
— O que eu fiz, caralho?! — Julius gritou em resposta.
— Alguém viu meu celular? — Hugh surgiu perguntando e procurando o aparelho entre as almofadas do sofá.
— Esse celular? — Danion o segurava na mão. — Li todas as mensagens. — sorriu o branquelo.
Hugh imediatamente correu para alcançar o aparelho da mão do branquelo. Danion simplesmente deu a volta em Patrick, impedindo Hugh de alcançá-lo.
— Por que eu tenho que servir de escudo?! — Patrick revirou os olhos.
— Me devolve, Danion! — Hugh dava voltas e voltas no corpo de Patrick.
— Eu só quero saber o que eu vou comer! — Marcus se perguntava.
— Colin é realmente o nosso líder? Alguém o manda descer e arrumar essa bagunça? — Billy, sentado e assistindo toda a confusão, perguntou.
Foi quando finalmente Julius abriu a porta. Patrick imediatamente se desfez de Danion e Hugh e foi ao banheiro, Hugh conseguiu seu celular e Danion, em gargalhadas, sentou-se no sofá.
— Que merda você comeu? Isso aqui tá fedendo! — Patrick, com a mão no nariz, perguntou ainda parado em frente a porta do banheiro.
— Por acaso você anda cagando rosas? Qual essência de perfume você bebe pra fazer isso sem feder? — Julius até parou pra questioná-lo.
Em um coro de gargalhadas, a sala explodiu. Até mesmo Marcus, que chateado por não restar comida, achou aquilo engraçado.
— Você tá podre, Julius! — Patrick tinha dito ainda com a mão no nariz. — Puta que o pariu, hein.
A porta do primeiro andar foi aberta, Colin acabou surgindo sem a melhor das expressões.
— Foi o Julius! — Marcus, Patrick, Danion e Billy disseram ao mesmo tempo, em um coro.
Julius, sem entender do que se tratava, olhou confuso para seu líder.
— O que eu fiz dessa vez? — perguntou o leonino. — Quem se meteu em confusão foi o Hugh com o Pietro e seu grupinho.
— Julius! — Hugh repreendeu o primo.
— Estou mentindo? Foi o próprio Calvin que nos contou. Falando nisso... — Julius olhou através da janela e viu Pietro passar do outro lado da rua. — Ele tá passando nesse exato momento, que tal irmos lá bater nele? Aproveita que ele tá sozinho...
— Isso é covardia! E não! Eu não vou bater em ninguém. — Hugh guardou seu celular e cruzou os braços.
— Ai, eu tô brincando... — falou e envolveu o braço no ombro do seu primo. — Mas você precisa parar de abaixar a cabeça, Hugh. Conheço sua força... Nem sempre o Calvin vai estar presente, muito menos eu.
— Eu não gosto de machucar ninguém. Além disso, odeio acordar dolorido! Não sou o garoto mais forte do mundo.
— Desse jeito você até parece o Caine falando. Por favor, olha teu tamanho, até mais músculo que eu você tem. — Danion revirou os olhos. — Larga de ser fraco.
— Ah, cara, me deixa em paz. — Hugh se afastou do primo, odiando ser o motivo da conversa.
Colin sempre ia descobrindo aos poucos o que William tinha passado enquanto líder. Era realmente difícil controlar uma república, mas não queria ser um líder chato como o Sean, muito pelo contrário, queria ser divertido e atencioso como o seu melhor amigo. Não era atoa que sempre que não sabia o que fazer, ligava para ele em busca de conselhos.
— Não se preocupem, não vou brigar com ninguém. — disse o pequeno do lugar que estava.
— Colin, o Julius comeu tudo mais uma vez! — Marcus falou, retirando o foco do Hugh.
— Não foi ele. — Calvin apareceu da cozinha. — Achei que todos já tinham comido.
— Está vendo aí?! — Julius encarou o Marcus. — Mas comeria de qualquer forma se ainda encontrasse comida na cozinha.
— Você deveria pensar em quem ainda não comeu! — Marcus gritou de um lado. — Agora vou ter que me virar com qualquer coisa que encontrar na cozinha.
— Ai, Marcus, para de drama. Eu faço algo pra você comer. — Billy falou.
— E faz pra mim também? — Julius perguntou.
— Porra! O que você tem no estômago? — Patrick perguntou.
Colin pressentindo uma nova discussão, apenas desceu as escadas e foi até a porta de saída. Depois de ter dormido algumas horas, preferia estar com Sean e esperava passar um bom tempo com ele visto em conta o tempo separados pela viagem.
— Colin! — Hugh o alcançou antes que ele fosse para a república do namorado. O pequeno se virou e não o viu sozinho, Calvin estava com ele. — Queria conversar com você.
— Aconteceu alguma coisa, Hugh? — Colin perguntou.
Calvin olhou para o Hugh, até ele estava preocupado.
— Não é nada sério, talvez seja apenas coisa da minha cabeça, mas...
Hugh não conseguiu dar continuidade. Surgiu, sem que esperassem, um belo carro luxuoso e preto, pra ser mais exato, era uma Mercedes Benz E63 AMG, que atraiu os olhares dos três por não ser comum naquele ambiente. Veio a chamar mais atenção para os leoninos, quando o automóvel estacionou em frente à república dos Tigres, logo atrás do carro do Sean.
Curioso, Colin fixou seus olhos no automóvel, consequentemente os demais fizeram o mesmo, logo depois levou seus olhos na república de Sean. Não deu dez segundos e o moreno líder surgiu e parou na porta. Seu semblante, assim como o de Colin, era de curiosidade, embora misturado à confusão.
Sean permaneceu na porta de sua república, também notou Colin do outro lado da rua, mas não demorou muito tempo olhando-o, imediatamente voltou sua atenção ao automóvel.
Uma das portas do carro foi aberta.
Característica de um Ferazza: Cabelos tão pretos que brilham sobre a luz da lua — embora Brandon seja uma das mais raras exceções, pois seus fios são loiros e chamativos como o sol. Quem havia descido do carro tinha belos cabelos pretos e volumosos que cobria as orelhas, tinha a pele branca e um olhar desafiador, embora naquele momento estivesse sorrindo no exato momento em que olhou para Sean.
Sean não sorriu. Como Colin já o conhecia, percebeu o desagrado na queda de seus lábios.
— Fiquem aqui. — Colin falou para os companheiros e imediatamente se afastou.
O pequeno atravessou a rua e se aproximou de Sean, colocando-se a sua frente, mas preferiu não questionar ou sequer irritá-lo naquele momento. Qualquer um saberia que Sean não estava pra momentos como esse.
— Preferia que continuasse no lugar que estava. — Sean murmurou para Colin. — Volte pra lá, agora, Colin! — pediu.
O pequeno, sem entender, apenas o olhou confuso e desconfiado. Sequer teve a oportunidade de se irritar, visto que Sean demonstrava estar mais frio que o comum. Mas por teimosia, insistiu em continuar aqui. E se seu namorado precisasse de ajuda?
— Quem é ele? — Colin perguntou desafiando o namorado.
Não deu tempo de Sean responder. Caminhando em passos lentos o garoto estranho passou as mãos pelos fios negros e continuou com o sorriso no rosto até que finalmente parasse em frente ao Sean.
— É sempre bom vê-lo, Sean. — disse em saudação. — Mesmo que sempre demonstre odiar minha presença.
— O que faz aqui, Steven? — sequer perdeu tempo em saudações. Colin sentiu a frieza nas palavras do namorado.
— Quem é esse? — Steven olhou para Colin. — Mais um da sua geração?
— O que faz aqui, Steven? — insistiu em perguntar.
Steven, despreocupado em dar-lhe a resposta, prosseguiu com calma:
— Será que sobrou alguém do tempo em que eu era líder? E os idiotas da república do Mark? Quer dizer... Pouco antes de me formar, mudaram o nome da república pra um nome de algum animal... Coisa do novo líder. — Steven olhou em direção a república dos leões. — Continuam chamativos e baderneiros?
Colin rapidamente deduziu que se tratava de sua república, quando ia abrir a boca para rebater, Sean o interrompeu falando:
— Não enrola, Steven. O que você quer aqui? Não deveria estar no hospital?
— A ovelha negra da família. Deveria ser mais educado comigo. — Steven voltou a sorrir.
Steven Ferazza, líder que antecedeu a liderança do Sean. Pode-se dizer que ele era o líder mais respeitado naquela época, conseguindo ter a autoridade sobre a Quadra, embora entrasse em vários conflitos com Mark (quem passou a liderança para William) por este discordar da forma como ele regia o local. Steven era rígido e autoritário, conseguindo expulsar alguns membros da Quadra sem sequer fazer reunião. Atualmente, com vinte e oito anos de idade, Steven vive bem trabalhando no hospital de sua família.
— Não estou aqui pra ficar. Tanto é que desde que saí daqui sequer procurei notícia sobre esse lugar, mas pelo visto, nada mudou. — Steven prosseguiu. — Tenho minha vida e estou bem sucedido como médico, inclusive, irei casar, está sabendo? Uma mulher. — a última parte foi provocativa.
— Que bom pra você. — respondeu seco.
Steven balançou a cabeça negativamente.
— O que aconteceu pra você não comparecer mais as reuniões de família? É por que todos já sabem sobre você? Medo de nos encarar? Eu quero te ver em meu casamento, Sean.
— Me ver ao lado de um garoto? Desculpe, não quero estregar sua festa. — ironizou o moreno.
Colin sentiu orgulho ao ouvir isso. Steven pareceu se animar.
— Devo admitir que você é corajoso a ponto de desafiar nosso avô. Até o momento ele permanece em silêncio, talvez seja sua mãe a responsável pelo silêncio dele... Coitada da tia Suzana. — Steven pausou e olhou a república do piso ao teto. — Não o faça pisar aqui depois de tantos anos...
—Isso é problema meu.
— Ainda bem que é um problema seu, pois se fosse meu já o teria resolvido.
— Por medo dele? — questionou de imediato. — Não serei o único a me rebelar... Os anos passam, Steven.
— Não Sean, você se engana. Não existirão outras vergonhas como você em nosso meio. Aposto que Brandon, o próximo líder, vai conseguir trazer de volta o orgulho e a moral dessa república nesse lugar. Onde ele está?
— Não está aqui. — Sean respondeu, novamente, seco.
— Que pena, ele é um dos primos mais legais que tenho.
Colin explodia por dentro. Mas o que poderia falar? Sean certamente o odiaria se por um momento ele abrisse a boca.
— Acho que já vi e ouvi o suficiente. — Steven novamente passou a mão pelos fios negros que pairavam em seus dedos a medida que ia descendo até o pescoço. — Sei que quer saber o motivo de eu estar aqui. — Steven olhou para seu carro e voltou seus olhos para o Sean. — Meu irmão resolveu morar nesse lugar, seguir meus passos...
— Charles jamais conseguirá viver em um lugar como esse. Você sabe disso. — disse o moreno.
“Quem é Charles?” Colin se perguntou.
— É o que ele quer. — falou de imediato. — Espero que eu não vá ter problemas com isso, não é mesmo? — Steven encarou Sean, não mantendo mais o sorriso no rosto.
— Nunca tive medo de você. — retribuindo o olhar de ameaça, Sean o disse.
— Mas sempre perdeu na briga, desde a infância. — voltou sorrir. — Foi bom te ver depois de tantos anos, só espero que largue com essa paranoia de ser gay envergonhando a família Ferazza.
Steven deu as costas e Sean não o respondeu, embora estivesse se segurando ao máximo para não avançar no pescoço de seu primo e derrubá-lo no chão para enchê-lo de socos.
Parecia que tudo foi preparado. No momento em que Steven voltou para o carro e abriu a parte traseira para retirar algumas malas, a outra porta foi aberta: Charles Ferazza surgiu retirando os óculos escuros da face.
Charles tem cabelos pretos e lisos, se comparados aos do irmão, eram curtos e costumava cair em sua testa, seus lábios são assimétricos e seu nariz pequeno. Seus olhos eram verdes escuros, ora confundidos com o preto; como uma floresta mal assombrada, bela, mas que esconde grandes mistérios. Talvez fosse esse o ponto mais forte que fazia reconhecer um Ferazza dentro da Quadra Nove.
O modo de olhar e o ar superior eram tão característicos dos Ferazzas, que Colin conseguiu ver Sean em Charles, por tamanha semelhança que eles tinham, sendo apenas diferenciados pela altura e idade. Sean era mais parecido com o Charles do que o próprio Steven, irmão do mais novo morador da Quadra.
Charles trocou rápidas palavras com o irmão mais velho, depois o assistiu entrar no carro e ir embora, deixando antes suas malas na calçada.
Arrastando as duas malas prateadas, Charles caminhou sem esboçar sorriso no rosto até parar em frente ao primo. Olhou para Colin uma única vez antes de voltar sua atenção ao Sean, dizendo:
— In piedi, muoio! In piedi, io resto!* — falou olhando fixamente para o primo. Sean não respondeu. Eles se encararam por quase um minuto até Charles suspirar, cansado.
Colin não compreendeu nada do que ouviu, sequer conseguiu saber do que se tratavam os olhares trocados pelos dois.
— Quem de nós já ouviu você falando em italiano? — referiu-se aos primos. — Apenas o nosso avô, certamente.
— Eu matei as raízes do meu sobrenome.
Charles o olhou por alguns segundos até prosseguir:
— O neto queridinho do nosso avô decepcionando toda a família.
— Vai ficar dando ouvidos a esse garoto, Sean? — Colin finalmente abriu a boca.
Charles o olhou em silêncio. Sean encontrou os olhos do seu namorado. Pequeno e furioso, Colin já havia perdido a paciência em estar ali ouvindo os parentes do seu namorado tratando-o mal.
— Me deixe sozinho, Charles. — pediu o líder da república, dando-lhe passagem. — Entre.
— É impressão minha ou...
— Sim, eu sou o namorado dele. Sou o responsável por causar todo esse alvoroço em sua família. — Colin sequer deixou Charles completar.
— Algumas pessoas desafiam a morte. — Charles falou voltando sua atenção para Sean.
— Até ela eu superei. — lembrou-se do que ocorreu com Colton.
— Poderia se retirar? — Charles o questionou soando educado.
— Não. — Colin respondeu cruzando os braços. — E se eu quiser ainda entro aí e deito naquele sofá, melhor ainda, durmo no mesmo quarto que seu líder.
Charles levantou uma sobrancelha para Sean, questionando em pensamentos como ele era capaz de se relacionar com alguém assim.
— É por isso que você nos envergonha. Deveria procurar conserto, Sean. Há como corrigir essa falha sua. — Charles falou para o primo. — Não tem ânsia de vômito?
— Escuta aqui... — Colin bradou, mas teve azar em continuar.
Charles o segurou pelo ombro e chutou-lhe os pés, fazendo o pequeno cair de bunda no chão que não teve reação, levando sua mão ao rosto sabendo que iria receber um soco, por isso fechou os olhos.
Sean perdeu a paciência, finalmente deixou seu instinto tomar-lhe conta: O moreno segurou Charles pelo braço, o girou e o lançou contra a parede, em seguida sua mão pressionou o pescoço do primo e o levantou alguns centímetros do chão, sufocando-o.
Colin apenas ouviu o seu namorado falar:
— Non toccare o ti ammazzo.*— Sean falou entre dentes enquanto sufocava Charles fixando seus olhos ao dele.
Quando abriu os olhos, Colin viu toda a cena: Um Charles segurando nas mãos do seu namorado, tentando afastá-las, ignorando a ameaça feita por Steven. Colin sabia que Sean jamais obedeceria as ordens de alguém e, enquanto líder, nenhum outro tomaria sua coroa. Era sedutor ouvi-lo falar em italiano.
— Sean! — Brandon gritou, aproximando-se da confusão enquanto guardava seu celular no bolso.
O moreno então largou o primo. Para sua surpresa, Charles apenas passou a mão em seu pescoço e sorriu de lado, olhando fixamente para Sean que se sentiu desafiado.
Brandon, que a pouco tinha surgido após uma caminhada, olhou para Charles não acreditando em sua presença ali, achando estranho o modo como ele estava agindo.
— In piedi muoio, in piedi io resto...* — Charles disse mais uma vez para que seus primos ouvissem.
Brandon olhou, dessa vez, para Sean, achando que ele falaria algo.
— In onore del sangue della mia famiglia...* — Brandon, sabendo que Sean ficou calado, disse.
A surpresa veio quando Sean entreabriu os lábios, olhou para o seu namorado caído e em seguida para os seus primos:
— Non voglio cadere.*
O lema dos Ferazzas sendo pronunciado.
[...]
Em pé morro, em pé permaneço (In piedi muoio, in piedi io resto)
Em honra do sangue da minha família (In onore del sangue della mia famiglia)
Eu não vou cair (Non voglio cadere).
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