República de Tigres
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Colin estava surpreso com o que tinha ouvido, embora não estivesse entendendo nada do que estavam dizendo.
Sean é genuinamente italiano — Suzana, sua mãe e Joe, seu verdadeiro pai, carregam sangue italiano em suas veias, além de terem nascido em Milão, mesmo lugar onde o filho nasceu. Diferente de seus dois primos, Sean é o único nascido na Itália enquanto os demais nasceram em algumas cidades nos Estados Unidos.
— Se achou que eu havia esquecido o lema, se enganou. — Sean falou, tomando a mão de Colin e o levantando do chão. Depois olhou para o namorado que estava em silêncio, passando sua mão na testa dele, querendo que Colin, por um segundo, compreendesse toda a situação em silêncio.
— Ainda que diga ter matado suas raízes, jamais apagará seu sobrenome. Esquecer-se do nosso lema é o mesmo que morrer. — Charles falou.
— Então diga a todos que eu morri. — Sean olhou para Charles.
— Pobre Sean, quem um dia foi o preferido do vovô, hoje é a maior decepção dele. — sorriu de lado.
— Ele já teve decepções maiores, acredite. — o moreno disse. — Não quero perder tempo dialogando com você. Não tenho paciência, Charles.
— Certo, vamos parar por aqui. — Brandon interveio tocando no ombro do Charles. — Vamos entrar e resolver toda essa bagunça lá dentro. Que coisa feia vocês dando chilique aqui na porta da república!
Foi quando Sean percebeu que Hugh e Calvin estavam lá. Charles, novato no lugar, por um minuto havia se esquecido dos dois estranhos. Primeiro resolveu avaliar Hugh que se encontrava ao lado de Colin, tão perdido quanto o seu líder.
Mas quando levou seus olhos verdes ao olhos azuis de Calvin, percebeu que o homem o encarava, Charles, ousado, sorriu em provocação, não se intimidando com sua altura. Calvin apenas balançou a cabeça negativamente enquanto o novo morador da Quadra o olhou da cabeça aos pés em desprezo e depois voltou sua atenção ao Brandon.
— O ambiente não está ficando agradável. — Charles falou. — É melhor que eu entre.
Charles sequer esperou resposta de alguém. Deu alguns passos a frente, empurrando Hugh e Calvin para pegar suas malas, tendo dificuldade com Calvin, que não saiu do lugar que estava. Depois entrou na república de cabeça erguida e sorriso no rosto, novamente, provocador.
Brandon olhou para Sean por alguns segundos, contraiu os lábios e passou a mão na testa.
—E eu achando que minha convivência já era chata o suficiente... — Brandon disse para o primo. — Com Charles aqui isso vai se tornar um inferno. Onde pega férias pro céu? — questionou o loiro e em seguida entrou em sua república.
Sean finalmente pode respirar fundo, visto que estava tenso demais. Olhou para Colin e o viu tão confuso e irritado que já estava preparando-se para o pior. Mas o moreno não esperaria mais algum segundo ali, deu alguns passos a frente e passou pela porta, prestes a fechá-la. Colin iria segui-lo se ele não intervisse.
— Você precisa voltar pra sua república. Deixe que eu vou me resolver com meus primos.
— Você vai mesmo fechar essa porta na minha cara? — questionou, irritado.
— Se eu não fizer isso, você não vai sair daqui. — falou e depois olhou para Hugh e Calvin.
— Me deixa passar, Sean, eu vou dar uma lição naquele garoto atrevido! — tocou a porta, tentando empurrá-la.
— Depois conversamos.
— Eu não vou... — Sean fechou a porta. — Conversar. — gritou a última palavra, socando a madeira a sua frente.
O pequeno, enfurecido, saiu daquela república e foi diretamente para a sua. Estava com tanto ódio que qualquer pessoa a sua frente se tornaria vítima de assassinato e sairia nos noticiários na manhã seguinte.
— Bem que o Connor disse... As coisas aqui não param um segundo sequer, é confusão atrás de confusão. — Hugh comentou andando em passos lentos.
— É o que torna isso interessante. — Calvin falou e em seguida olhou para trás, curioso com o que acontecia lá dentro, lembrando-se de Charles. — E mais interessante irá ficar.
— Está dizendo que quer ver o circo pegar fogo?! — indagou assustado. — Que horror, Calvin!
— Não necessariamente. Não gosto dos tigres e você sabe bem disso. Só estou dizendo que aquele garoto novato vai causar tantos problemas, algo nele me chama atenção, como se eu já o conhecesse.
Hugh também resolveu olhar para a república dos tigres enquanto caminhava em direção a sua.
— O conhece?
— Algo me diz que sim. — murmurou.
Hugh abriu a porta da sua república e encontrou Patrick de pé olhando para a porta do primeiro andar enquanto Danion, Billy, Marcus e Julius estavam sentados no sofá.
— O que deu no Colin? —Julius. — Ele pareceu um foguete ao subir a escadas.
— Brigou com o Sean. — Danion falou sem retirar os olhos do celular.
— Chegou um garoto novato nos Tigres e acabou derrubando o Colin no chão, mas Sean soube resolver o problema. Pelo que entendi, é primo do Sean. Rolou um clima tenso lá na porta deles. — Hugh explicou ao fechar a porta depois que Calvin passou.
— Gente nova na Quadra, ou melhor, nos tigres? — Danion, interessado, largou o celular. — Meus planos malignos estão novamente de pé.
— Mais um pra se juntar ao time de idiotas daquela república. — Calvin juntou-se aos companheiros no sofá.
— Aquela ideia de colocar fogo na república deles tá de pé? — Julius perguntou e olhou para Patrick. — Eu jogo a gasolina e você acende o fósforo.
— Eu posso ajudar? — Marcus interagiu. — Queria jogar gasolina no quarto do Sean. Sei que ele é o namorado do Colin, mas convenhamos...
— Por acaso vocês são idiotas? — Billy perguntou, interrompendo a brincadeira dos colegas.
— Enfim, o que realmente aconteceu pra o Colin entrar na república daquele jeito.
— Sean não o deixou entrar na república, isolando-o da conversa com seus primos. — Hugh respondeu.
— Pra ser mais exato: Sean fechou a porta na cara do Colin. — Calvin disse, tomando as palavras de Hugh.
Hugh o olhou e Calvin não se importou de ter dito a versão mais grosseira da situação de minutos atrás.
— Nem queria dormir no meu quarto hoje... — Danion falou baixinho, como se usasse daquilo uma desculpa para não desafiar Colin extremamente irritado. — Vou lá nos águias dormir com o Caine. — o branquelo se levantou saindo rapidamente da sala.
— Patrick, você não ia sair? — Julius perguntou. — Fez todo aquele reboliço pra nada!
— Desisti. — respondeu tranquilamente.
— Eu merecia dar na sua cara! Eu abri mão daquele momento precioso pra dar lugar a você! — Julius o fuzilou.
Hugh, sabendo que a gritaria começaria, retirou seu celular do bolso e se sentou numa poltrona, isolado dos demais. Calvin foi para o seu quarto e os outros quatro prosseguiram com a discussão.
[...]
Brandon estava de pé na passagem da sala pra cozinha. Sean relutou em se afastar da porta em que há pouco havia fechado na cara do Colin, enquanto Charles, pacientemente, sentou-se no sofá e passou a avaliar o cômodo.
— Eu achava que aqui fosse maior. — Charles disse.
— O que faz aqui, Charles? Seus planos de estudar na Itália foram afogados? — Brandon não perdeu tempo questionando.
— A ideia de estudar onde meu irmão e meu pai se formaram me agrada, acabei decidindo seguir os passos deles.
— Não ache aqui terá privilégios nesse lugar. — Sean, sem olhar para eles falou. Sua atenção estava voltando no quarto de Colin, observando-o através da janela. — Isso aqui não é colônia de férias, muito menos o que você vê na TV.
— Hoje mesmo descobri que há alguns babacas... Seu namorado, por exemplo, é um. — Charles o olhou. Sean então retribuiu o olhar. — Como consegue?
— Acha mesmo que eu não posso te dar uma surra, Charles?
— Se não quer criar maiores conflitos entre nossos pais, é melhor não fazer isso. — Charles respondeu.
— Seu problema está em acreditar que me importo com isso. Quando eu tiver que te quebrar a cara, eu quebro.
Charles apenas sorriu. Sean o olhou estranhamente, suspeitando de algo.
— Onde fica o meu quarto? — Charles perguntou olhando para a escada. — Preciso descansar, amanhã parece que vai ser um dia bem agitando. — comentou maliciosamente.
— Estão todos ocupados, mas você pode dormir comigo. Basta apenas por mais uma cama, claro que hoje não vai dar pra fazer isso, mas podemos dar um jeito. — Brandon respondeu, embora receoso ao perceber o olhar de Sean para ele.
— Você está dividindo quarto com alguém? — Charles indagou surpreso ao olhar pra Brandon.
— Estou.
— Brandon, você é um Ferazza, membro da família, tem direito a um quarto apenas para você. — Charles falou firme, considerando errado o que seu primo estava fazendo.
— Foi uma escolha minha. — Brandon olhou agora para o Sean. — Ainda que meu parceiro de quarto seja um problema e tanto, mas não gosto de ficar sozinho lá em cima.
— Ás vezes até esqueço de que você é um de nós. — Charles falou com uma expressão cômica.
— Sean diz a mesma coisa. — falou, despreocupado.
— Sendo assim, hoje durmo com o Sean. — Charles ficou de pé, colocando as mãos nos bolsos.
— Só se for pra ouvir meus gemidos enquanto estou fodendo com o meu namorado. — disse propositalmente a ponto de impressionar seu primo.
Charles semicerrou os olhos por dez segundos.
— O quão baixo você consegue ser? — Sean não o respondeu. — Quero que me mostre seu quarto, Brandon. Por hoje dormirei lá, mas amanhã quero um quarto só pra mim. Aliás, é amanhã que minhas coisas chegam.
— Deixa que eu te mostro. — Brandon ficou de pé.
— Brandon, você fica. — Sean falou. — Preciso falar contigo. Charles vai achar o quarto sozinho, afinal, ele saber ler e há placas.
Temeroso, embora soubesse do que iria se tratar o assunto, Brandon olhou para Sean. Charles por um segundo encarou os dois, curioso, mas respeitou a privacidade de ambos, sendo assim, arrastou, sozinho, as duas malas para o primeiro andar.
Brandon ficou no lugar que estava enquanto Sean esperou, de fato, Charles ter saído dali. Quando de fato o moreno percebeu que estava sozinho com o loiro, iniciou:
— Você conhece as regras.
Brandon respirou fundo, olhou mais uma vez para a escada e murmurou quando levou seus olhos ao moreno:
— Você pode quebrá-las. Já fez isso uma vez.
Brandon já não estava mais parecendo gentil. Talvez porque ainda que o nome do Kai não fosse pronunciado, era dele que estavam falando.
Sean o olhou suspeitando de algo, surpreso com a certeza que seu primo demonstrava ter ao falar aquilo.
— Conheço a história de alguns moradores da Quadra. Santiago... — fez uma rápida pausa e prosseguiu. — Lembra?
Brandon agora agia como um Ferazza. Frio.
Sean realmente quebrou uma das regras de sua república. Regras essas que são passadas de geração a geração. Não se sabe, ao certo, se ele foi o único a quebrá-la, tendo em vista que a quadra ter mais de cinquenta anos de existência e foi ela a responsável pela criação do lugar.
Rígidos e organizados, os Ferazzas não abriam mão de regras. Líderes que agiam de forma contrária poderiam perder a liderança se reportassem isso ao dono da república. Mas como Sean foi líder, por alguns anos, sem nenhum outro Ferazza — ou ainda que não use o sobrenome Ferazza, mas venha da linhagem de seus familiares — morando ali, ele conseguiu realizar o ato sem que ninguém soubesse que era proibido. Mas agora, estando na presença de dois familiares próximos, pertencentes a base principal daquela família tradicional, as coisas apertariam um pouco.
De acordo com as regras, na chegada de um familiar, o último ingressante da república seria expulso, deixando sua vaga livre para o novo Ferazza. Kai foi a última pessoa a entrar nos Tigres, junto ao Brandon, mas sendo o loiro membro da família enquanto o outro não.
— Você o tomou dos leoninos apenas para provocar o antigo líder daquela república, mas quando viu que não tinha mais valia, o expulsou do seu quarto e o deixou dividir com mais outros dois garotos, quando na verdade você deveria expulsá-lo. Então sei que você dará um jeito em relação ao Kai.
Regras que para outros era considerada inválida ou idiota, mas quando se tratava de organização, os Ferazzas eram rígidos e não voltavam atrás na palavra. Foi assim por anos, por não agora?
— Isso já passou. Deve ser esquecido. Kai deve ser expulso por ser o último a entrar aqui, além disso, ele vem causando problemas para nossa república e minha justificativa é mais do que válida.
— Expulse-o e eu ajudarei Charles a retirar sua liderança.
Ferazza contra Ferazza.
Brandon, por mais que não parecesse ser um, tinha em suas veias o sangue daquela família. Nem sempre conseguia ser bonzinho. Ameaças faziam parte do seu currículo.
— Estou falando baixo pra que o Charles não descubra esse detalhe, pois sei que o menor erro em que ele encontrar em sua liderança irá reportar ao nosso avô a ponto de te substituir. Não sou um cara como vocês dois, só não quero que o Kai saia prejudicado com tudo isso.
— Quero ver se vai continuar assim com ele pra sempre. Quando será a segunda vez que cometerá o mesmo erro? — o moreno o encarou. Dessa vez Brandon não soube o que responder. — Por enquanto faz de tanto pra se redimir com ele, mas sei que vai errar novamente... E vai errar mais de uma vez.
— Você não deve interferir na minha vida, Sean.
— Está na hora de saber quem é você de verdade, Brandon. — mostrou a seriedade do seu olhar profundo. — Não venha bancar o garoto gentil que demonstra ser, pois sabemos que você não é. Principalmente agora ao começar a agir como um Ferazza: frio e chantagista.
Brandon não conseguiu dizer nada mais. Sean caminhou até sua porta e segurou a maçaneta, antes de abri-la, olhou para o primo que voltou a se sentar no degrau da escada.
— Espero que dê um jeito de convencer o Kai de dormir hoje na sala. Quero apenas ver o que fará quando Charles chegar a conhecê-lo. Se eu não posso expulsar o Kai, é capaz de você mesmo fazer isso. Você é tão ruim quanto o Charles e eu.
Sean abriu a porta de sua república e saiu. Ao fechar a porta, respirou fundo e olhou para a janela do primeiro andar da república do seu namorado. Tinha acabado de sair de um problema e iria enfrentar outro. Pobre Sean.
O moreno atravessou a rua e parou em frente a porta dos leoninos para novamente pensar sobre o fato de estar ali. Sean só recordava de ter entrado naquela república três vezes: a primeira quando invadiu pra assustar os leoninos; a segunda foi no aniversário do William, onde inclusive acabou transando com o Colin sob o teto dos rivais; e a terceira foi quando o namorado adoeceu há cerca de cinco meses.
De qualquer forma, seria melhor resolver o problema agora a ter que deixar pra o dia seguinte. O moreno girou a maçaneta sem sequer pedir permissão e qualquer outro que o impedisse de entrar ali, segundo seus cálculos baseados em sua paciência, iria tomar um belo soco.
Naquele momento apenas Hugh, Patrick e Julius estavam reunidos na sala enquanto Calvin estava tomando banho, Billy já dormia e Marcus estudava.
— Onde ele tá? — Sean perguntou ao notar que havia assustado os três ali presente.
Hugh olhou para a porta do primeiro andar. O moreno então seguiu caminhando até alcançar as escadas e subi-las. Patrick iria falar algo, mas Hugh o interrompeu ao pressionar seu braço. Era Colin e Sean, e pelo que Hugh já sabia, nenhum dos dois estavam em seus melhores momentos.
Sean teve a sorte de abrir a porta do quarto do Colin e encontrá-la aberta. Seu namorado estava, recém tinha tomado um banho e estava sentado na cama mexendo em seu celular. Para Colin tinha sido uma surpresa encontrar Sean ali, mas logo lembrou-se do ocorrido minutos atrás e mudou seu semblante imediatamente.
— Vou dormir aqui. — Sean falou, tentando iniciar o assunto de maneira mais leve. Foi estranho não ter Colin o atacando com paus e pedras. — Dormir com você. — e fechou a porta.
—Vá embora... — Colin falou baixinho sem retirar os olhos do celular.
— Tem certeza?
— Absoluta. — assumiu, frio.
Sean, ainda assim, permaneceu no seu lugar. Retirou sua camisa e a colocou sobre os ombros, depois foi até o banheiro do quarto do namorado e lavou seu rosto. Lembrando-se naquele momento de que não tinha comido nada desde o almoço, seu estômago implorava por alimento.
Quando saiu do banheiro, o moreno perguntou:
— Quer sair pra comer em algum lugar?
Colin permaneceu mexendo em seu celular, sequer dando atenção ao namorado. Seu silêncio, a partir daquele momento, passou a incomodar Sean.
— Então eu vou pedir comida, uma pizza, talvez. Você quer qual sabor? — insistiu perguntando.
Percebendo que seu namorado não iria respondê-lo, Sean passou a mão na testa e respirou fundo, mas tão fundo, que seus pulmões quase explodiram. Ele se sentou na cama onde Colin estava, ao lado do namorado que estava deitado.
— Como pode agir como se nada tivesse acontecido? — Colin perguntou ao finalmente largar o celular. — Sean, eu tô explodindo aqui por dentro e você sabe disso. — o moreno afirmou. — Minha vontade é jogar você daquela janela pra baixo.
— Não estou agindo como se nada tivesse acontecido, aliás, estou esperando seus surtos acontecerem. Acho até estranho eu não ser agredido até agora. — disse o moreno ainda sentando.
— Você fechou a porta na minha cara, Sean. Na minha cara... na cara do seu namorado. — enfatizou.
— Porra, Colin, o que eu faria então? Eu te conheço e você jamais me deixaria resolver aquilo sozinho.
— Claro! Aquele seu primo babaca merecia ouvir poucas e boas!
— Seu problema está em achar que deve se meter em problemas da minha família. — o moreno se levantou.
— Como não?! — Colin agora se exaltou e elevou o tom de voz. — Eu sou seu namorado, eu devo ajudá-lo!
— Ai, ai... — o moreno levou suas duas mãos a cabeça e andou de um lado para o outro, irritando-se também.
— De repente um garoto chega e começa a te tratar como um lixo na minha frente e eu simplesmente tenho que engolir isso?
— Acha que eu não cresci sendo tratado daquela forma por alguns primos meus? — Sean perguntou enquanto encarava-o.
— Sua família é toda errada! Talvez seja por isso que você seja assim...
— Se pelo menos você tivesse Ferazza no sobrenome saberia como é viver naquela família. — falou.
— Eu tenho nojo da sua família.
— Ótimo, então use disso motivo para não se meter em meus problemas quando relacionados à minha família. Eu sempre evitei te envolver neles. — também se exaltou.
O pequeno saltou da cama, furioso e foi em direção ao namorado, parando em frente a ele.
— Desde que eu te conheci eu fiz de tudo pra te ajudar, mesmo você sendo esse babaca orgulhoso que sempre foi, recusando ajuda de qualquer um. Lembra-se de quando o William te bateu? Lembra?! — tocou fortemente com o indicador no peito do namorado. — Ainda assim eu insisti em cuidar dos seus ferimentos. Eu odeio isso, Sean. Odeio quando me isola de seus problemas tentando bancar o durão. Eu sou seu namorado, caralho!
— Você pode ser bom com palavras para silenciar qualquer pessoa com elas, Colin... Mas a minha família não brinca com palavras, então não tente se envolver em meus problemas.
— Vai tomar no cu! — disse o pequeno finalmente dando-lhe o primeiro tapa no braço e logo depois deu as costas. — Sai daqui e me deixa em paz. — finalizou ao se deitar em sua cama.
— E se eu realmente for embora? — o moreno questionou. — Não estou no meu melhor dia pra ficar tentando te convencer a me querer aqui ou pelo menos jantar comigo. — Sean estava sério. A fome e o cansaço cooperavam para deixá-lo assim.
— Então vá embora. Eu tô começando a ficar com nojo da sua cara. — disse voltando a pegar no celular que encontrou na cama.
— Vou pra minha casa. — Sean não estava se referendo a república, mas sim na casa que ganhou da mãe.
— Ótimo, aproveite e leve seus primos pra discutirem lá.
— Tá certo. — a frieza em pessoa.
O moreno girou a maçaneta e até já conseguia ver, naquele instante, apenas Calvin e Hugh sentados no sofá. Só não desceu as escadas porque Colin, embora com pouca força se comparada a do moreno, conseguiu puxá-lo pra dentro do quarto novamente e trancou a porta logo em seguida.
— Eu te odeio. Te odeio muito odeio, Sean! — o pequeno esbravejou. — Eu volto de viagem hoje, realmente querendo ter um momento com você e olha o que está acontecendo... Estamos discutindo — Colin ficou parado em frente ao namorado.
— Eu não estou com cabeça pra discutir. Você quem não para de me ofender. Tudo o que eu apenas quero é que você pare de se envolver em meus problemas. São meus problemas, Colin. — disse mantendo a seriedade, sem que precisasse se exaltar.
Era nítida a diferença de personalidades dos dois: Colin parecia estar pegando fogo, sempre visto como um garoto esquentado e explosivo enquanto Sean, seu namorado, era como frio, coração de gelo.
Colin é um vulcão. Sean é um iceberg.
O choque de personalidades acabava resultando nos vários momentos de conflitos que existiram na vida dos dois até chegarem ali.
Dessa vez Colin não reagiu ao que ouviu de maneira agressiva. Apenas largou a mão de Sean e caminhou, devagar, até sua cama, deitando-se em silêncio. Sean, assistindo aquilo, refletiu por alguns segundos até tomar a mesma atitude do namorado e se deitar ao lado dele.
Sean fez questão de por seu braço abaixo da cabeça de Colin, depois o abraçou por trás, de modo com que todo o seu corpo servisse de coberto para o pequeno. Depois beijou-lhe a ponta da orelha.
— É o ódio que me alimenta, e quanto mais você me diz isso, mais apaixonado por você eu fico. — sussurrou. Colin não o respondeu, ainda estava chateado demais, embora estivesse amando ser coberto pelo corpo do maior. Sean prosseguiu. — É a única coisa que peço: Deixe que eu cuido dos meus problemas com meus primos.
Colin dessa vez se virou, olhando-o nos olhos enquanto ainda deitados numa troca mútua de raiva, paixão, amor e ódio.
— Não vou me calar se algum deles me ofender ou te ofender. — avisou, dessa vez com serenidade em seu tom de voz.
— Eu sei que não. Essa é uma das maiores certezas que tenho na vida.
Sean sorriu. A sua arma secreta contra Colin, que o deixava com as pernas bambas e corpo extremamente vulnerável por causa daquele sorriso cativante, apaixonante e sexy devido à pinta na bochecha que o moreno tinha que entrava em sincronia com as covinhas. Os cabelos estavam bagunçados e seus olhos negros e profundos, carregado de malícia e maldade, perdiam todo o efeito diante aquele sorriso.
— Para de rir! — Colin tocou-lhe a testa. — Isso não é divertido.
O moreno então olhou pro teto, tentando desfazer o sorriso. Colin continuou observando-o, tocando a pinta que ele tinha na bochecha esquerda.
— Que dia complicado. — falou o moreno.
— Sean, você deveria me ensinar a lutar, caso contrário vou acabar me matriculando em qualquer escola que ofereça isso.
— Você acha que eu aprendi em alguma escola? — sorrindo de leve, questionou.
— Não sei. Mas acho que já está na hora de eu aprender a estapear a cara de algumas pessoas de maneira que eu não possa sair tão prejudicado. — lembrou-se do Colton.
— Depois conversamos sobre isso. — o moreno fechou os olhos, relaxando seu corpo. Estava exausto.
Em silêncio eles ficaram por poucos segundos, até o pequeno tocar com seus lábios a orelha do moreno, depois beijou sua bochecha e ao final tomou-lhe os lábios. Sean demorou a corresponder o beijo, mas assim que correspondeu, fez com que o namorado subisse em seu corpo ainda aos beijos.
— As vezes você me surpreende... — Sean falou, interrompendo um beijo e olhando-o nos olhos. Suas mãos deslizaram na cintura do pequeno, invadindo a bermuda do namorado e tocando-lhe as nádegas. — Esses beijos intensos só significam uma coisa.
Colin corou.
— É melhor calar a boca antes que eu desista.
— Estou muito cansado, mas não vou negar o que você quer, Colin. Trancou a porta?
Colin assentiu. Depois simplesmente desceu seu rosto ao encontro dos lábios do namorado. Dali em diante o quarto pegou fogo. Ambos tendo que manter controle em gemidos baixos enquanto se deliciavam naquele prazer carnal.
[...]
Hugh cochilava no sofá da sala. Um livro aberto cobria o seu rosto enquanto ele roncava baixinho até ser acordado por Calvin, que tocou-lhe o braço e retirou o objeto da sua face. O leonino parente do Connor coçou os olhos e se sentou, dessa vez tocando os cabelos.
— Vai sair? — perguntou para Calvin.
Calvin recém tinha saído do banho e tomou a sala com o cheiro do seu perfume, além disso estava bem vestido, por isso Hugh fez tal indagação.
— Aqueles velhos bicos que surgem. Pra sobreviver aqui, preciso de grana. — respondeu colocando o livro sobre as pernas do amigo.
— Ah, sim... Hoje vai ser bem tarde, não é? Que horas que são?— questionou muxoxo.
— Quase uma da manhã.
— E vai servi de quebra galho pra o quê?
— Garçom de um barzinho.
— Desde que eu o conheci, você já foi de tudo: pintor, motorista, garçom... Toda noite uma profissão diferente. Danion vive reclamando porque você às vezes desaparece, até eu me preocupo às vezes.
— Danion é rico. Não precisa ralar pra conseguir alguns trocados. Pode ficar tranquilo que nada de ruim vai me acontecer. Apenas necessito desses bicos que aparecem todos os dias. — Calvin respondeu olhando para o seu relógio de pulso.
— Um emprego fixo seria a solução. Mas enfim, pode ir, não quero que chegue atrasado. — Hugh falou ao notar que ele observava o relógio.
— Quer ajuda pra ir pra o quarto? — Calvin o olhou.
— Não é porque você me carregou uma vez enquanto eu fingia dormir que deve me tratar como um garotinho.
— Na ausência da minha filha, tenho que tomar algumas atitudes de pai. — sorriu. — Enfim, vou indo.
— Espera, vou fingir que tô dormindo pra você me carregar. — brincou. — Sem problema, amigo. Vai lá... Bom trabalho.
— Te vejo amanhã pela manhã. — bagunçou os cabelos de Hugh.
Hugh apenas resmungou por Calvin bagunçar seu cabelo e depois o assistiu sair da república. Após isso ligou a TV em um volume baixo para que pudesse assistir as programações daquele horário. Já era tarde o suficiente para não ter pessoas na rua, perto de uma hora da manhã.
Passaram-se quase quinze minutos desde a saída do seu amigo. Hugh ainda foi na cozinha e buscou por alguma bebida e optou por leite. Voltou pra sala e ficou passeando pelos canais de TV em busca de uma programação interessante, nada o chamava atenção até encontrar um desenho animado.
Ouviu sons estranhos — de objetos sendo derrubados — vindos do quarto do seu líder, mas jamais desconfiou de que eles estavam transando. Por um momento iria acabar cochilando mais uma vez senão ouvisse insultos que vinham da rua.
Curioso, Hugh foi até a janela e tentou não ser visto. Mas de onde estava não tinha visão total do que estava acontecendo, por isso foi até a porta e a abriu, pondo parte da cabeça pra fora discretamente.
Uma garota proferia insultos pesados a alguém que estava sentado a beira da calçada, de cabeça baixa. Além de insultar a garota tinha jogado roupas e malas no chão, além de alguns pertences. Não precisava pensar bastante para se descobrir que aquilo se tratava de uma expulsão.
Sua curiosidade tentava descobrir quem era o garoto sentado na calçada, aceitando as ofensas em silêncio, porém quando o viu levantar a cabeça parar responder a alguma ofensa, seguido de um gesto obsceno com a mão, o leonino descobriu que era Pietro. Obtendo a certeza no momento em que se lembrou que ele pertencia aquela república menor.
Hugh também descobriu que a garota não estava sozinha, havia mais dois garotos parados na soleira da porta. Talvez fosse por isso que Pietro que não estivesse reagindo como costumava fazer ao brigar com Kai.
Depois de jogar tudo para fora da república — assim Hugh deduziu, a garota entrou junto dos seus companheiros, deixando Pietro largado na beirada da calçada baixa que logo depois se deitou sobre o gramado atrás dele.
Hugh rapidamente pôs a cabeça pra dentro da república, fechou a porta e encostou-se à ela, fitando o teto. Estava pensativo. Muito pensativo. “Onde Pietro iria passar a noite?” Perguntou-se. A resposta parecia tanto óbvia para Hugh, que lembrou-se dos amigos do garoto.
Contudo, sentia vontade de ir lá perguntar se estava tudo bem, oferecer a menor ajuda possível, porém se recordava de que Pietro não o via com bons olhos, tornando-o rival, reforçando a ideia após o incidente na lanchonete.
Hugh se sentou no sofá e desistiu da ideia de ir ajudar. Pietro era grande demais e certamente conseguiria se cuidar. O leonino tinha um coração gigante, de ouro e cheio de bondade, mas tratando-se de Pietro era sempre bom pensar duas vezes antes de tomar alguma ação.
O leonino abriu a porta mais uma vez e pôs a cabeça pra fora. Pietro permanecia deitado enquanto o frio, provavelmente, estava castigando-o. Suas camisas jogadas voavam para mais distante de seu corpo. Hugh voltou a fechar a porta e decidiu permanecer em sua república.
Mas foi apenas pensar nisso que ouviu um som típico, reconhecido por qualquer pessoa no mundo: chuva.
O seu lado humanitário falou mais alto e, com isso, não pensando muito, abriu a porta da sua república e saiu na chuva que por enquanto estava fraca, notando naquele momento o céu escuro e nublado, sem qualquer noção de onde estava a lua. Como não o havia visto aquilo? Não ouviu durante o dia previsões de chuva.
Hugh sentiu insegurança ao se aproximar de Pietro, que dessa vez estava de joelhos tentando recolher suas coisas. O leonino sequer pediu permissão para ajudá-lo, simplesmente recolheu uma das malas e pôs as roupas que estavam sendo molhadas ali dentro. Pietro cuidava da segunda mala, mas não estava sendo tão ágil quanto o outro.
Hugh, percebendo isso, o ajudou. Pietro, até o momento, não pareceu se incomodar com a ajuda, talvez nem tivesse percebido de que era Hugh o ajudando. Em cinco minutos recolherem tudo, apesar de boa parte daquelas roupas estarem completamente molhadas, ainda assim jogaram dentro da mala.
Pietro olhou para Hugh. O leonino estava parado em sua frente, encarando-o. Hugh estava a menos de um metro de Pietro. Os dois se encararam por curtos segundos esquecendo-se da chuva que molhava seus corpos, levantando a seguinte questão: Do que valeu toda a pressa para recolher as roupas e objetos?
Hugh, segurando uma das malas de Pietro, correu até sua república, parando embaixo da cobertura. Pietro o seguiu sem questionamentos.
Quando chegou ali, Pietro viu Hugh abrir a porta de sua república e entrar, ousado do jeito que era, acabou fazendo o mesmo, logo em seguida fechou a porta. Estava, definitivamente sob o teto dos leoninos. O grupo de Andrew não era visto com bons olhos pelos leoninos. Pietro pertencia a esse grupo. O velho carma dos leões que consta em atrair rivais.
Hugh tinha desaparecido, deixando apenas a mala do garoto na sala, mas segundos depois acabou surgindo com duas toalhas, entregando uma delas para Pietro.
O leonino enxugava primeiro os cabelos volumosos e encaracolados que, molhados, caiam sobre sua testa, ultrapassando a altura dos olhos.
— É loucura sua me acolher aqui. — Pietro disse, começando a se enxugar. — Sou o inimigo.
— Se souberem que você está aqui, sou capaz de ser expulso. — Hugh disse. — Além disso, você me detesta. É realmente uma loucura. — tentou parecer simpático, embora temeroso.
— Não é agindo dessa forma que você vai se tornar meu amigo. Não esqueci o que fez na lanchonete.
— Por que precisa ter que me bater?
— Porque só assim aprendem a me respeitar e a não se meterem em meu caminho.
— Certo, certo! — Hugh ergueu as duas mãos. — Eu me rendo.
Pietro o olhou, estranhando a ação. Mas Hugh era realmente aquilo: bondade em pessoa.
— Quê? — questionou o italiano. — Como pode ser tão idiota se comparado aos outros leoninos?
— Pelo simples fato de evitar confusão quando a minha república tem fama de se meter na maioria das confusões que acontecem aqui na Quadra?
Pietro jogou a toalha contra Hugh, que conseguiu segurá-la a tempo antes que ela fosse de encontro ao seu rosto.
— Para onde vai depois daqui? — Hugh perguntou.
Pietro não o respondeu, apenas olhou para a porta do primeiro andar com olhar travesso.
Mas havia algo em Pietro que Hugh estava estranhando. Ele continuava sendo grosso, mas se comparado a suas ações anteriores, Pietro certamente deveria está batendo no leonino ou simplesmente quebrando alguma coisa ali dentro, como prova de que detestava tudo e todos daquele lugar.
Foi após Pietro esfregar o nariz que Hugh constatou uma coisa: drogado. Pietro estava sob efeito de alguma droga. Ainda que fosse apenas coisa de sua cabeça, pois qualquer um esfrega o nariz, ainda mais após tomar um banho de chuva, mas as ações de Pietro contradiziam quem ele era de verdade. Foi por isso que ele não reagiu quando a garota o expulsou.
— Estou faminto. — Pietro falou, bocejando. Passou a andar pela sala e a tocar nos objetos enquanto encarava Hugh. — O que tem pra comer aí?
— Tem de tudo, mas de acordo com as regras, não posso mexer no que é dos outros. Bem, no meu armário só tem... — Hugh realmente parou para pensar, tentando lembrar-se do que havia comprado, porém, tinha esquecido de algo: Não tinha comprado nada. — Leite e biscoito.
— Qualquer coisa é o suficiente. Parece que estou sem comer a três dias.
Talvez se mexesse nas coisas de Calvin o amigo não fosse ver problema. Cada vez mais Hugh tinha certeza de que Pietro estava drogado, provavelmente com o efeito da droga terminando, por isso a fome avassaladora.
Pietro simplesmente passou pela sala e seguiu o corredor, descobrindo onde ficava a cozinha. Vendo a geladeira, foi até ela e imediatamente a abriu. Constatou mais do que apenas leite, encontrando uma caixa de suco ele a colocou pra fora, encontrou um pote com geleia e fatias de queijo, também pôs pra fora. Abrindo as portas dos armários, encontrou além de biscoitos, mas se Hugh não interferisse, ele certamente colocaria tudo abaixo. O leonino o impediu de mexer no que tinha no armário, mas Pietro conseguiu roubar um saco de pão de forma.
— Você não está na sua república! — Hugh o alertou. — Eu ainda posso o colocar pra fora daqui.
Pietro, sentando-se à mesa, sorrindo, falou:
— Vai mesmo deixar um pobre garoto como passar a noite na chuva? O frio pode matar!
— Você deveria ir ao ninho. Seus amigos são de lá.
— Meu namorado é de lá. — Pietro falou sem se preocupar com a revelação, estava drogado, então isso facilitou. — Andrew não gosta de transar comigo, já percebi. Que tipo de namorado não me deixa dormir com ele no Ninho?
Pietro retirou duas fatias dos pães e pôs sobre a mesa, em seguida colocou sem delicadeza a geleia de amora — ele sequer fazia ideia do sabor — e em seguida jogou duas fatias de queijo sobre o pão. Fez o que podia ser chamado de sanduíche, do seu jeito, mas fez. Hugh, incrédulo, ficou assistindo-o dar uma baita mordida no alimento.
Ainda mastigando, Pietro puxou um copo e o encheu de suco a ponto de transbordar, descobrindo naquele momento que era suco de uva.
Para Hugh a combinação chegou a ser um tanto nojenta, mas ele não interferiu. Na manhã seguida todos iriam querer sua cabeça, mas tamanha gentileza não conseguia dizer não para as ações de Pietro.
— Andrew é seu namorado? — Hugh perguntou, sentando-se ao lado dele.
— Há um ano. — respondeu de boca cheia.
— Quer dizer que você é gay? — pareceu curioso.
— Porra, eu namoro um garoto e você me faz esse tipo de pergunta? — ingeriu mais da bebida. — Você é realmente idiota, hein, garoto? Por isso é visto como um alvo frágil. Deveria usar desses músculos, olha só sua altura.
— Isso significa que se você tentar bater em mim depois daqui, corre o risco de apanhar. — Hugh falou inocentemente, sem quaisquer indícios de provocação.
Pietro o olhou de relance, mordendo o sanduíche.
— Só não estou te partindo a cara por estar me oferecendo ajuda. Mas se me ver com Andrew e meus amigos e você estiver em nosso caminho, com certeza vou te bater até tirar sangue do seu nariz.
— Pra quê tanta violência?
— Imagine-se numa selva. Ou você caça ou é caçado.
Hugh não falou mais nada após o que ouviu. Apenas assistiu Pietro se alimentar feito um animal faminto, até mesmo comeu parte da geleia com uma colher. Finalizando a refeição, Pietro ficou encarando-o.
— Se continuar a tratar todos assim, vai acabar se ferrando. — falou.
— Não consigo ser egoísta, ruim ou malvado. Mocinhos existem. — apesar de parecer estar ironizando, Hugh estava sendo sincero. — Para onde vai agora? — repetiu a pergunta feita minutos antes.
— Não tenho pra onde ir. — Pietro ficou de pé respondendo-o. — Ainda mais com essa maldita chuva que não me deu sequer oportunidade de pensar para onde eu iria. Não tem vaga pra mim no Ninho.
— Mas o Andrew é seu namorado, não é?
— Vamos falar de outra coisa, porra! — mudou rapidamente o assunto. — Tô com sono.
— Posso deixar você passar uma noite aqui, contato que amanhã você deve fazer de tudo pra não sair do meu quarto até que a república esteja completamente vazia. Se souberem que eu deixei você dormir aqui, corro o risco de ser expulso.
— Pra que se esforçar tanto por mim se eu ainda quero te bater?
— Resolvemos isso depois. — pareceu realmente ignorar. — Meu quarto é o último — apontou para o segundo corredor. — Vou buscar suas coisas. Por favor, não faça barulho, não acorde ninguém!
— Você está confiando demais em mim. — disse, afastando-se.
Hugh seguiu um caminho e Pietro foi até o quarto indicado. Ao abrir a porta encontrou tudo arrumado em seu devido lugar, as camas, por exemplos, estavam impecáveis em sua arrumação. A cama de Hugh ficava na parede direita bem a frente da porta enquanto a de Calvin ficava na parede paralela. Quadros, prateleiras, revistas em quadrinho, livros e violão faziam parte da decoração do quarto, comum como todos os outros.
Herdando os talentos musicais do primo Connor, Hugh tocava violão enquanto Julius tocava bateria, infelizmente não tendo a oportunidade de trazê-la pra república, tendo em vista que incomodaria as demais repúblicas.
O violão ficava encostado a parede ao lado da cama de Hugh, a prateleira ficava ao lado da TV na parede que separava as duas camas, as revistas ficavam numa caixa ao lado da cama do Calvin. Não tinha guarda roupas, apenas um armário com várias gavetas contendo as roupas dos parceiros de quarto.
Pietro logo tirou sua camisa e se sentou no chão em frente ao armário, buscando algo pra vestir. Acabou por encontrar uma camisa preta e a usou, notando a estampa de uma clave de sol na cor prateada. Ele não fazia ideia de quem era, mas pouco se importou. Depois retirou a calça e sapatos molhados, lançando-os no canto do cômodo.
Hugh entrou no quarto no momento em que Pietro tocava a própria cueca para averiguar se ela estava realmente molhada. Foi uma cena constrangedora para Hugh, contudo, Pietro apenas o olhou e agiu normalmente.
— Você acha correto sair mexendo nas minhas coisas? Tem sorte de essa camisa ser minha e não do Calvin.
— Sua camisa? Ótimo. Agora é minha, gostei.
—Ei! — Hugh falou largando as duas malas dentro do quarto e em seguida trancou a porta. — Essa camisa é uma das minhas preferidas, ganhei do Julius no meu aniversário.
— É, ela realmente ficou um pouco grande em mim, mas ainda assim gostei. — falava com tom de provocação. — Aquela cama ali é minha? — apontou para a cama do Calvin.
— Não. Dessa vez não posso deixar você fazer o que quer. Calvin te mataria se o encontrasse dormindo na cama dele.
— Mataria, é? — sorriu.
— Por favor... — suplicou. — Não piore as coisas.
Pietro sorriu largo e, respeitando, de fato, o pedido de Hugh, acabou se jogando na outra cama, certamente a de quem lhe oferecia ajuda. Hugh recolheu as roupas do Pietro e a colocou acima das suas malas.
— Eu também vou dormir aí. — Hugh soou como se estivesse pedindo autorização.
— Por que não dorme no chão? Pega uns cobertores e faz de cama. — cara de pau, falou. — Por um acaso está com sono?
— Você já viu que horas são? — Hugh indagou. — Além disso o quarto é meu e a cama a é minha, eu estou te fazendo um favor.
Pietro, internamente, dava gargalhadas. Como podia aquele garoto ser assim? Mesmo diante um “inimigo”, doava a sua cama para o seu conforto.
— Porra, hein. — falou dando espaço. — Eu não gosto de dormir próximo da parede.
— Não tem problema, eu gosto.
Hugh terminou de falar e logo passou por cima do corpo de Pietro, deitando-se ao lado dele, realmente encostado à parede. Depois retirou seus óculos e o colocou acima da mesa de cabeceira. Era a primeira vez que Pietro o via sem óculos.
— Você não apagou a luz. — Pietro lembrou ao garoto.
— Ah, deixa assim, não vou mais sair daqui. — fechou os olhos.
— Eu não gosto de dormir com a luz acesa. Quem dorme de luz acesa costuma ter medo do escuro. Apaga essa luz, garoto!
— Poxa!
Hugh, chateado, levantou-se da sua cama e foi apagar a luz, voltou resmungando em murmúrios, retomando ao lugar que estava antes. O quarto realmente escureceu e, na ausência de janelas, a luz da lua não tinha espaço ali dentro.
Cinco minutos se passaram e quando tudo parecia tranquilo para que eles dormissem, Hugh começa a falar:
— Pietro?
O garoto não respondeu.
— Pietro, você tá dormindo? — insistiu perguntando.
— Que é, porra? — respondeu grosseiramente. — Eu deveria estar dormindo.
— Nada não, só queria saber se você realmente dormia.
A simpatia de Hugh era tão grande que ele conseguia domar as feras mais perigosas daquele lugar. Seu jeito bondoso acabava contagiando. Pietro, por um momento, acabou esquecendo-se de quem era Hugh diante o que aconteceu na lanchonete.
Se contassem essa história pra alguém, certamente ninguém acreditaria. Como pode um animal violento ser domesticado por um animal dócil? Era tipo um urso tornando-se amigo de um coelho.
Pietro, embora drogado, sentiu um impacto diante toda a ajuda que recebeu do leonino.
— Porra, hein? Então cala a boca e me deixa dormir em paz antes que eu me levante e te dou uma surra pelo ocorrido da lanchonete. Eu ainda não esqueci.
— Você vai mesmo bater em mim? De verdade? — questionou não por duvidar, mas por acreditar que o que tinha feito até ali serviu pra mudar aquela ideia.
— Se você merecer, sim. Se me deixar dormir, posso pensar no seu caso...
— Ninguém da Quadra gosta de você. Como consegue viver assim? Não acha que deveria mudar?
— Só estou na Quadra porque não tinha vaga no Ninho, então não me importo com nada do que acham de mim aqui. — remexeu-se na cama.
— Isso é bom. — Hugh falou.
— O que é bom? — Pietro perguntou imediatamente. — Ser odiado por todo mundo? Sou eu quem causo o terror nesse lugar.
— Não, não é sobre isso... Estou falando em relação a não se importar com o que dizem ao seu respeito. Eu também sou assim... Mas há certas opiniões que devemos analisá-las.
— Preguiça de analisar. — foi curto em sua resposta.
— Todos dizem que eu devo parar de ser assim, quer dizer... Não todos, mas a maioria. Até o Julius, meu primo e o Calvin, meu melhor amigo aqui dentro. Eles dizem que eu não posso ser gentil com todo mundo. — sorriu na escuridão. — Há também quem diga que eu deva cortar meu cabelo. Julius já me viu brigando uma vez, mas foi uma só vez e foi no meu último ano do colegial. Eles falam que tenho tamanho e força o suficiente para bater em você e seus amigos.
— Ter tamanho não significa nada. Agora cala a boca que eu quero dormir, porra.
Hugh realmente não disse nada. Pietro se acomodou mais na cama e agradeceu o silêncio. Silêncio esse que não durou mais que dez minutos...
— Pietro? — Hugh o chamou.
— Porra, garoto, você não dorme não?
— Ia perguntar o motivo de você ter sido expulso.
— Matei um cara.
— Quê?! — seu tom de voz elevou.
— É lógico não, mas isso não significa que não sou capaz. Fico possesso quando não me deixam dormir, então se não quer ser o primeiro cara a morrer da minha lista, é melhor me deixar dormir.
— Poxa! Eu só queria conhecer mais de você.
— Não somos amigos, muito menos colegas. Você só me ofereceu um lugar pra dormir e certamente vai se prejudicar por isso, contudo, eu não me importo. Agora cala a boca.
— Você me lembra o Danion.
— Aquele garoto nojento que mora aqui?
— Sim. Ele diz também ser líder desse lugar, mas o Colin certamente tem mais autoridade aqui dentro.
— Não é o carinha que namora o líder dos águias? Aquele cara é um babaca! Aliás, vocês todos são uns babacas. Usam do fato de terem a maior influência da Quadra para se sentirem os maiorais. Tanto leões, tigres e águias... Todos uns lixos.
— É engraçado você falando esse tipo de coisa quando está dormindo na mesma cama que eu.
— Espera que eu agradeça?
— Ah, deixa quieto. Vamos dormir mesmo. Você é muito chato. Queria ser seu amigo.
— Você não é desse mundo. — murmurou.
Hugh finalmente se calou. Passaram dez, quinze, vinte minutos e ele não disse nada. Quando pensou em falar algo, recuou e preferiu permanecer em silêncio. Reconhecia que estava começando a se tornar inconveniente, apesar de Pietro, recebendo ajuda, foi mais inconveniente ainda.
Pietro acabou percebendo em Hugh um novo alguém. Ele aparentemente parecia alguém tímido e silencioso, mas foi totalmente o oposto disso. Não conhecia esse lado simpático do garoto. Por outro lado, detestou o fato de ele achar que já eram amigos por simplesmente oferecer ajuda.
Pietro vivia em um mundo completamente diferente do Hugh. Duas índoles moldadas de maneira diferentes: a de Pietro carregada em maldade, e a do Hugh em bondade.
— Pietro? — Hugh não resistiu por muito tempo e o chamou. O sono não havia chegado, de fato e isso prejudicaria seu rendimento no dia seguinte.
Pietro não o respondeu, sinal de que já havia dormido de tão cansado que estava. O dia de Pietro se resumiu a confusão na lanchonete e expulsão de sua república. Como não querer dormir depois de um dia desses? Estava exausto e há séculos não tinha um conforto de uma boa cama, visto que dormia no sofá da sala da sua já antiga república.
Hugh se remexeu na cama e tentou não acordar o garoto, contudo, mesmo não vendo o que acontecia, o leonino sentiu Pietro também se remexer. No segundo seguinte, Pietro encolheu-se por completo, de modo com que suas duas mãos fossem pra debaixo do seu rosto enquanto deitado de lado e, após isso, aproximou seu corpo do de Hugh.
A aproximação foi além de um simples toque de corpo. Pietro simplesmente afogou seu rosto no peito de Hugh e seu joelho foi parar entre as duas coxas de Hugh. Na ausência do cobertor, Hugh, com seu corpo quente, tornou-se um meio de amenizar o frio que Pietro sentia.
Pietro tinha feito aquilo inconsciente, vítima do seu próprio sono. Se por ventura acordasse mais tarde ainda naquela posição, ele constrangido ficaria. Pobre Hugh que não soube o que fazer, apenas teve uma certeza: Pietro era carente.
Como pode alguém dormindo se encolher no corpo de alguém daquela maneira?
Hugh, convidativo, não fez nada além de descer seu braço, que antes estava em sua própria cabeça e o envolveu, sem segundas intenções, apenas para também buscar conforto na posição em que Pietro havia ficado.
Hugh não via maldade naquilo, jamais. Era apenas carinhoso e atencioso e mesmo Pietro dormindo, não conseguiria ficar estático diante um gesto como aquele.
— Pietro? — Hugh chamou uma última vez para ter certeza de que ele dormia.
Pietro não se moveu e sequer o respondeu, estava, de fato, dormindo. Se acordado com certeza ele estaria estapeando Hugh por abraçá-lo.
Nem mesmo parecia Pietro ali. Dormindo era um anjo, acordado era um demônio.
Nenhum outro ser acreditaria naquilo se fosse contado, mas talvez Calvin, que chegaria horas depois, daria de cara com aquela cena, com ambos dormindo abraçados em uma cama de solteiro.
Como adora brincar o destino. Pela manhã inimigos... mas quando a noite chega, sobre a mesma cama dormem juntos.
E lá fora chovia forte com direito a chuvas e relâmpagos. Melodias para Hugh. Aconchegado em alguém que simplesmente é visto com maus olhos pelos moradores da Quadra. Azar?
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