República de Tigres
19 Capítulo 19
Notas iniciais
Colin olhava tão fixamente para os olhos do moreno que parecia estar lendo seus pensamentos. Seu olhar causava medo em Sean, homem de poucos medos, mas que por conhecer bem o pequeno era impossível não temer perdê-lo.
— Eu vou me chatear, não vou? — Colin questionou ainda olhando-o fixamente.
Sean não conseguiu responder. Ele abaixou sua cabeça por alguns segundos, coçou seu queixo e olhou diretamente para a janela. Colin fechou seus olhos, respirou fundo mais uma vez como se estivesse retirando todo o ar dos pulmões, encostou-se na cabeceira da cama e cruzou os braços aguardando.
— Fala, Sean. — Colin não foi grosseiro, mas sua voz pesada já deixava explícito que ele não estava nada feliz.
O líder dos tigres voltou a olhar para o namorado e o viu tão sério, a boca fechada, lábios rígidos, os dedos da mão mexendo impacientemente.
— Depois que nós brigamos... — iniciou o moreno, mas parou. E parou para ver se tinha algo perigoso ao lado do pequeno, sabendo que se ele ficasse enfurecido, tudo em sua mão se tornaria arma.
— Por favor... — Colin balançou a cabeça negativamente. — Por favor... — repetiu como se estivesse ofegante, levando suas duas mãos unidas ao centro da testa. — Não me diga que você me traiu...
— Não! Nunca! — Sean o olhou arregalando os olhos.
O moreno subiu na cama, aproximando-se do namorado, colocando-se de frente para ele.
— Então por que está com medo?
— Por que é você.
— Você mentiu pra mim.
— Não!
— Não? No dia do meu aniversário eu perguntei o que você tinha feito após brigarmos, você apenas contou que bebeu e dormiu. Tem algo nisso que você não me contou!
— Olha, eu bebi demais porque estava extremamente furioso com você. Bebi além do meu limite, você me conhece muito bem pra saber que não sou de encher a cara.
— Está dizendo isso pra amenizar a bomba que você vai me lançar?
— Me deixa falar!
Colin se calou.
Sean afastou-se dele ao se sentar novamente na beirada da cama. O moreno levou seus cotovelos às coxas e apoiou as mãos na nuca, abaixando a cabeça e fixando o chão. Respirando fundo, Sean começou a falar:
— Eu bebi e dormi, não menti ao dizer isso. Mas na manhã seguinte acordei ao lado de uma garota. — Colin pareceu ter tomado um banho de água gelada, seu coração bateu tão forte que ele jurou ter ouvido. — Mas eu sei que não aconteceu nada.
— Está me dizendo que você dormiu com ela?
— Não! — ele virou-se para olhar para o namorado.
— E como uma garota acorda do seu lado, nesta cama que eu estou agora? — o pequeno fez questão de sair dali.
— Deve ser uma louca que tentou alguma coisa pra me fazer acreditar que dormiu comigo. E-eu provavelmente esqueci de trancar a porta da república, estava muito bêbado.
— Eu preciso entender isso, Sean.
— É isso que eu te contei.
— Só isso?
— É só isso! Uma garota, louca, alegou ter dormido comigo. — ele o olhou, sendo obrigado a se levantar da cama para encarar o namorado.
— Esse “dormido” significa ter transado? Sean!
— Ela disse isso, mas é óbvio que isso não aconteceu, Colin. Porra, olha pra mim, eu não consigo levantar meu pau pra uma garota.
— Como você tem certeza disso? Você pelo menos se lembra?
— N-não! — admitiu. — Eu apaguei completamente. — Sean estava contando tudo aos poucos, isso provava o medo dele. Sem contar que Colin vivia interrompendo suas falas. — Colin, eu já tentei fazer isso com o Octavio, você se lembra disso. É só uma garota, de alguma forma, tentando destruir meu relacionamento com você.
O pequeno esfregou o rosto com a mão direita.
Ele começou a andar pelo quarto.
— Por que você tá me contando isso agora?
— Porque era seu aniversário, você não iria reagir bem.
— É claro que eu não iria reagir bem! — gritou a ponto de fazer toda a república ouvir. — Você está dizendo que acordou ao lado de uma garota que disse ter transado com você, mas você nem mesmo se lembra disso!
O moreno tocou entre os próprios olhos.
— Eu tenho certeza de que nada aconteceu. — falou.
— Você não se lembra! — gritou mais uma vez.
— Eu me conheço! — falou. — Colin, eu conheço seu corpo como conheço a palma da minha mão, eu jamais iria conseguir transar com outra pessoa. — aproximando-se do namorado, Sean continuou se explicando. — Tenho certeza absoluta que é só mais uma garota tentando acabar com nosso relacionamento, usando a mesma estratégia que eu usei pra separar o Octavio do William. É você quem eu amo. — tocou-lhe a cintura.
— Não me toca! — bradou e se afastou.
Sean até recuou assustado. Colin deu as costas, ainda andando de um lado para o outro, nervoso.
— Colin, puta que pariu, você sabe que eu seria incapaz de trair você. E além disso eu estava muito bêbado, a probabilidade de eu ter transado é zero, eu apaguei completamente. Nem mesmo você seria capaz de me fazer levantar.
— Quem é a garota? — Colin se virou furioso.
— Eu não sei, a coloquei pra fora da república assim que ela veio com essas conversas.
— Você não deveria ter mentindo pra mim. Você não deveria!
Sean nada falou. O pequeno olhou ao redor, precisava descontar sua raiva em algo ou até mesmo alguém.
— Colin, tá na cara que eu não transei com essa garota, porra! — se explicou o moreno. — Você sempre foi ciente da minha sexualidade, dos meus desejos, sabe bem da quantidade de pessoas que te detestam, me detestam, nos detestam. Essa garota é só mais um projeto de Colton.
— Não me fala esse nome! — gritou nervoso.
Colin até acredita que Sean poderia não ter transado com a garota, mas na sua cabeça mil coisas passavam ao mesmo tempo. O que mais o deixava assim era o fato do namorado ter mentido quando ele perguntou o que havia feito.
— Quem é a garota? — insistiu saber.
— Eu já disse, Colin, não faço ideia de quem é.
— Como você não sabe?! — parou e o fuzilou com o olhar.
— Porra! Sua festa era aberta pra quem quisesse entrar! Se você ficasse comigo no quarto nada disso teria acontecido.
— Me poupe, Sean! Vai culpar a festa por um deslize seu? Vai tomar no cu!
O moreno não obteve argumento plausível para ir contra o questionamento do namorado. Ele sabia que tinha usado a defesa da boca para fora, tentando acabar com aquele momento.
— Pois agora mesmo nós vamos de república em república atrás dessa garota. — falou o pequeno já se dirigindo para a porta. — E se ela não for daqui, vamos ao Ninho. Essa garota não vai sair daqui viva.
— Colin... — o moreno disse.
— O quê?! — ele parou de supetão e gritou ao encarar o namorado.
— Está exagerando.
— Você acha que eu estou exagerando? Você acha mesmo? Acha que eu estou errado?
O moreno abaixou a cabeça e coçou a testa. Seu reflexo foi tanto que ele precisou se abaixar no instante em que viu Colin arremessar algo. O impacto foi tão forte que pedaços do objeto de vidro pararam em seus cabelos negros, mas sem machucá-lo.
— Você mentiu, Sean! Mentiu! — disparou, Sean sabia que dali para frente o pequeno só iria parar quando faltasse o fôlego. — Fora o fato de brigar comigo na minha festa de aniversário por bobeira. Porra! Seria melhor ter me contado a verdade, por mais que eu ficasse puto contigo...
Sean não aguentou e interrompeu.
— Era seu aniversário! Você acha que eu iria por abaixo todo aquele momento que eu fiz pra você? Não, Colin! Eu te conheço! Eu trouxe seus pais e com a ajuda do meu pai escolhemos um restaurante, e ainda consegui uma suíte pra nós dois. Acha que tudo isso teria acontecido se você estivesse como está agindo agora?
— Depois do que fiz ao William, mentira é uma das coisas que mais abomino. Você sabe perfeitamente disso.
— Colin, eu não menti, quer dizer, não exatamente. Eu de fato bebi e dormi. Apenas acordei com uma garota do lado que ficou criando histórias.
— Foda-se, Sean! De qualquer modo deveria ter me contado.
Os poucos moradores dos tigres ouviam a discussão. Sean estava ciente disso.
Colin já falava alto por natureza, furioso o volume de sua voz multiplicava.
— Você sabe que eu não seria capaz de te trair, não sabe? — o moreno, já cansado pela discussão, falou olhando-o nos olhos.
Colin não respondeu. Passou a língua nos lábios secos e não conseguiu encará-lo por muito tempo, girou a maçaneta da porta e a abriu, logo saindo do quarto.
— Colin, pra onde você vai? — perguntou ao segui-lo.
— Pra minha república. — respondeu descendo as escadas.
— Vamos conversar com mais calma.
— Não! Se eu ficar olhando pra você vou querer te socar, então é melhor evitar.
— Então me soca. — conseguiu segurá-lo pelo braço e o parar no último degrau.
Pego daquela forma, Colin o encarou. Seus olhos estavam marejados, mas ele se negava a chorar por tamanha raiva que estava sentindo. Conseguiu se desvencilhar da mão forte do namorado, abriu a porta da república e saiu andando até a sua.
O moreno não insistiu, o melhor era deixá-lo quieto e assim evitar que uma bomba nuclear — que no caso seria o próprio Colin — explodisse.
Frustrado, Sean voltou a subir as escadas e chutou a porta do seu quarto ao abri-la. Levou suas mãos aos fios negros e começou a bagunçá-los, em seguida caminhou até sua janela e tentou, de alguma forma, ver o que seu namorado fazia no andar de cima, mas as janelas do primeiro andar dos leões estavam fechadas.
[...]
Há diferentes formas de lidar com problemas — isto também significa esquecer um grande amor; algumas pessoas, por exemplo, optam pelo afastamento e se isolam, outros se acabam comendo chocolate, sorvete e tudo que é guloseima. E tem também os que viajam. Isso, é claro, são apenas algumas opções, mas em meio a tantas oportunidades, há quem simplesmente aceita a situação e vai pra uma balada encher a cara e ser feliz.
Samuel sabia que não poderia ficar para sempre na situação em que se encontrava, por mais que em toda vez que pensava em Luke, sentia raiva e também vergonha das palavras ditas ao moreno. Chegava a se questionar se era melhor ter ficado quieto, no entanto, esse questionamento ia embora na mesma velocidade em que aparecia, pois, de fato, o loiro sentiu como se estivesse retirando um peso das costas. Não queria sofrer, apesar de recente e por isso, ficar triste, faria o possível para se divertir, erguer a cabeça e ser feliz. Personalidade.
Acompanhado de Natalie, o loiro estava numa balada qualquer em uma noite que ele sequer havia feito planos, mas após as aulas decidiu que queria beber e dançar. Natalie, festeira como era, adorou a ideia e até se animou com a decisão do amigo.
— Não imaginava que aqui fosse tão bom assim. — disse a garota segurando um copo de bebida na mão e dançando no ritmo da música agitada.
Samuel, já um pouco animado pelo álcool, sorriu e concordou.
— Vou beijar o primeiro que der mole pra mim. — disse ele olhando ao redor. — Mas parece que não tem ninguém querendo.
— Tudo isso por raiva?
— Ele que vá tomar no cú.
Natalie não quis falar que Samuel, pensando dessa forma, não estava agindo tão diferente de Luke ao se tratar de bocas alheias.
— Vão pensar que sou sua namorada. — brincou a garota.
— Você sabe que tem pessoas que acham isso lá na faculdade, não sabe?
— Sim! É engraçado. Três pessoas já me perguntaram isso.
— Credo, prefiro a morte. — disse o loiro.
— E eu um pau que levante quando eu tocar. — ela falou e começou a dançar ainda mais ao flertar com um garoto que estava atrás do loiro encarando-a.
O loiro apenas conseguiu sorrir e dançar.
Samuel fechou os olhos e se entregou a dança. Mas se entregar a dança o fez pensar em Luke, o que não era nenhuma novidade, já que por estar de coração partido, tudo em volta, por menor que seja, nos faz lembra de quem amamos. E Luke era bom no ritmo, bom no gingado, sexy rebolando, gostoso dançando. Samuel odiava ter que admitir isso.
— Samuel... — Natalie chamou o amigo, tocando-lhe a veste.
O loiro abriu os olhos.
— O que é? — perguntou.
— Acho que você vai querer ir embora daqui. — disse ela olhando sobre os ombros do loiro.
— Por quê? Aqui está bom demais. Eu não vou... — calou-se quando olhou na mesma direção da amiga. — Puta que pariu! O que ele faz aqui e por que ele tá de cabelo... Rosa?!
— Se quiser ir embora, eu vou entender.
Samuel a fuzilou com o olhar.
— Não vou estragar minha noite por conta desse babaca.
Samuel era, de fato, decidido quanto as suas vontades.
— Ele nos viu. — ela alertou. — Meu Deus! Ele está vindo em nossa direção.
— Então vamos pra outra área da balada. — disse imediatamente sem olhar para trás.
O loiro saiu trilhando caminhos aleatórios em meio as pessoas naquela balada. Ele não iria embora daquele lugar, no entanto, preferia se manter afastado de Luke, longe de qualquer olhar.
Natalie não sabia onde enfiar a cara, porque obviamente Luke sabia que Samuel tinha saído dali por conta dele. Sendo amiga também do moreno, Natalie não queria se meter em confusão, por mais que esteja ao lado do loiro ao compreender o que ele estava sentindo, pois afinal, ela também tinha passado por situação parecida em um momento de sua vida.
Luke ainda olhou ao redor para ver se conseguia acompanhar Samuel, mas rapidamente o perdeu de vista.
— E aí, gatinha. — brincou o moreno, abraçando-a.
— O que você fez no seu cabelo? — perguntou ela não querendo olhar para os lados, temendo que Samuel estivesse a odiando.
— É tinta de spray, se eu molhar sai. Já tá até saindo por conta do suor.
— Você é louco.
— Ah, sou... — disse desanimado, ele olhou mais uma vez ao redor. — Samuel está na sua casa?
Ela temeu. Não sabia se deveria ou não contar.
— Te coloquei numa enrascada né? Está tentando evitar que Samuel fique com raiva. Ele é idiota e infantil.
— Ah, Luke... — ela respondeu preocupada. — Eu prefiro não me meter nisso.
— Parece até que eu me tornei vilão. Por conta do que aconteceu, é até estranho conversar com você. Imagina os outros colegas de vocês...
— Samuel não saiu espalhando o que aconteceu. Só eu sei disso.
— Eu sei que você está se esforçando pra não parecer indiferente comigo.
— Não é que eu esteja indiferente, eu só... Eu fico preocupada. Não queria estar no meio desse tiroteio criado por vocês.
— Por causa dele! — acusou.
— Não o culpe. — defendeu o loiro. — Ninguém vai sorrir para os quatro cantos depois de ser rejeitado.
— M-mas ele não entende!
— Luke, é uma noite boa pra diversão. Sinceramente? Vamos deixar pra conversar isso outra hora. Eu o admiro por sua sinceridade, de fato, foi melhor ter dito que não sentia o mesmo a ter que o iludir, mas nesse momento não considero o momento propício pra discutir isso.
O moreno, aborrecido, compreendeu o que Natalie estava dizendo. Natalie se sentiu culpada, ela não agiu grosseiramente, estava ciente disso.
— Não fique chateado.
— Não estou. — disse o moreno. — Eu vou curtir a noite. Tô com uns colegas meus aí. Preciso encher a cara e transar.
Natalie olhou para o chão, nesse momento queria ter dito algo, mas optou pelo silêncio e um falso sorriso.
— Bem, eu vou atrás do Sam.
— Pode ir lá. Foi bom te encontrar por aqui.
Luke a beijou na bochecha e a assistiu se afastar.
O moreno foi ao encontro dos colegas onde lá, pensando em Samuel, disfarçou bem ao conversar com todos e encher a cara como estava preparado para fazer.
O tempo seguiu em seu ritmo, sem confusões.
Pouco mais de uma hora depois, longe de Luke, Samuel sequer fazia ideia de onde ele se encontrava na festa e já havia esquecido de que ele estava por ali. O loiro se divertia realmente com Natalie, dançando ao som da maior parte das músicas, bebendo e flertando com um garoto alto de cabelos raspados.
— Ele tá dando mole pra você. — Natalie disse para o loiro ao olhar para trás e encontrar o garoto sorridente.
— Vou esperar que ele venha até a mim.
— Sério mesmo? — Natalie revirou os olhos. — Me poupe, Samuel... — e deu as costas.
— Natalie, espera, o que você vai fazer?
Mas a garota já estava na metade do caminho quando ele questionou. Samuel, morrendo de vergonha, virou as costas quando viu Natalie puxar conversa com o garoto. Três minutos se passaram e ele sentiu alguém tocar em seu ombro. O loiro se virou e encontrou a amiga acompanhada do cara alto.
— Esse é meu amigo Samuel. — Natalie sorriu para o loiro. — E esse é meu novo colega de balada, Francis.
Tanto Francis, quanto Samuel sorriram constrangidos um para o outro e trocaram um aperto de mão.
— Agora eu vou pro meu gatinho que me espera ali nesse exato momento. — piscou a garota para o loiro e sorriu para Francis.
Quando Natalie se afastou, Samuel, a princípio, parecia ter desaprendido a conversar, mas Francis imediatamente conversou sobre a música e assunto se estendeu a perguntas para que um conhecesse melhor o outro.
E não foi atoa que nos primeiro trinta minutos um beijo já havia rolado. Samuel, que sempre foi tão birrento para essas coisas, não se importou quando sentiu a mão de Francis em seu queixo, apenas aceitou o beijo ao corresponder com volúpia.
Natalie, que estava um pouco afastada, soltou gritinhos de felicidade que chegou a assustar seu companheiro. Não que ela estivesse vendo um romance naquilo, mas o simples fato de Samuel ter beijado o garoto era motivo de festejar, já que ele estava tão para baixo.
— Tá calor aqui, não acha? — Samuel questionou com os lábios queimando após o beijo duradouro.
— Também estou achando. — disse Francis. — Meu carro está lá fora, não quer dar uma volta? — a pergunta foi um tanto sugestiva.
Samuel riu a ponto de olhar para o chão constrangido, mas sorriu ao encontrar os penetrantes olhos de Francis o encarando também sorridente.
— Nós não iremos transar, não é da minha índole fazer isso num primeiro encontro.
— Mas quem falou isso? Eu ia te levar pra passear, somente.
— O quarto do seu apartamento?
— Como sabe que tenho um apartamento?
— Apenas chutei. — piscou.
Francis sorriu.
— Irei me despedir de alguns colegas e logo volto aqui pra te buscar. Não saia daqui.
— Estarei exatamente ali atrás, conversando com minha amiga e esperando o príncipe de cavalo branco me encontrar.
Samuel estava bêbado.
E Francis, arrancando-lhe mais um beijo, fez exatamente o que disse que faria.
Samuel o viu se afastar e ficou parado por alguns minutos, decidindo se realmente deveria ou não sair com Francis, pois apesar de bêbado, ainda restava-lhe um pouco de consciência. Não tinha nada demais em sair com Francis, realmente, apenas iriam se conhecer melhor, se fosse para transar, tudo bem, aconteceria, mas não estava em seus planos fazer isso, apenas precisava de bons beijos, pois há tempos não fazia isso, precisava de conforto, a carência, de fato, estava influenciando em seus desejos para sair com o garoto que encontrou na balada.
Permitiu-se dar uma chance, sorriu, deu as costas e caminhou até Natalie, mas antes de alcançá-la, aquele que tinha olhos azuis, cabelos escuros e que foi capaz de arrancar gemidos seus entre quatro paredes, colocou-se a sua frente.
— Você não tem vergonha na cara não? — Luke falou. A palavra “vergonha” proferida por ele não fazia sentido algum.
Logo o sorriso de Samuel foi desfeito, Natalie se encarregou de sair do seu lugar para ir ao encontro dos dois temendo o pior.
— Você está no meu caminho. Saia da minha frente.
— Que feio, Samuel, traindo o seu namorado que nessas horas está lá na república achando que você está dormindo na casa de algum colega.
— Até parece que você se importa com isso. Agora sai da minha frente. — Samuel o afastou. Luke o segurou pelo braço e o impediu de prosseguir.
— Depois você reclama de mim, não é? É a coisa mais estupida do mundo trair alguém! Você é um babaca.
Bêbado, disse o moreno, no entanto, Samuel também estava bêbado.
— Vai tomar no cu! — bradou o loiro.
— Nunca pensei que você fosse trair alguém! Pobre garoto da roça. Eu vou ser o primeiro a contar pra ele o que o namoradinho fica fazendo nas baladas.
— Aqui quem cheira a infidelidade é você, Luke.
— Garotos, vamos com calma... — Natalie pediu, retirando a mão de Luke do loiro e tentando se colocar entre eles.
— Posso sair beijando qualquer um, mas nunca assumi um relacionamento pra trair alguém. Eu prefiro estar sozinho a ter que trair!
— Algum problema? — Francis perguntou quando encontrou o loiro que parecia furioso.
— Da licença, estamos conversando. — Luke disse sem olhar para Francis, pois encarava Samuel.
— Eu posso participar dessa conversa?
— Não! Aproveita e anda por aí, volta depois.
— Garoto, você por acaso tem problema? — Francis, ficando com raiva, levantou uma manga de sua camisa.
— Esse garoto quer mesmo brigar comigo? — Luke então encarou Francis, furioso.
— Luke, aqui não é lugar pra brigar! — Natalie repreendeu o colega, sendo obrigada e se colocar a frente dele e o segurar pelos ombros.
— Não vale a pena brigar, Francis. — Samuel tocou no branco do garoto e se posicionou ao lado dele. — Vamos embora daqui antes que eu vomite na cara dele, já estou ficando enjoado só por vê-lo e ouvi-lo.
Foi então que Luke, mais uma vez, sentiu o desprezo de Samuel. Suas palavras doíam, ainda mais ao ser rejeitado na frente de quem acabara de chegar na vida do loiro.
— É melhor assim. — disse Francis. — Toda balada tem um babaca que enche a cara e fala asneiras. — Francis retirou as chaves do carro do bolso. — Vamos.
Samuel olhou para Natalie e não precisou dizer muita coisa, ela já compreendia. Samuel olhou uma última vez para Luke e o ouviu dizer:
— Vai lá trair seu namorado. Você é podre, Samuel.
Samuel preferiu não responder. Ele simplesmente deu as costas quando Francis começou a caminhar. Melhor seria estar longe daquele lugar. Melhor seria realmente aproveitar a noite e colocar na cabeça que Luke é um babaca.
Poderia ter contado a verdade para Luke e dizer que não namorava Carter, mas Luke nunca foi merecedor dessa verdade. Luke precisa de seu ódio, seu desprezo total.
[...]
Quando Charles havia chegado ao quarto, ele simplesmente lançou suas coisas sobre o chão e se lançou na cama. Agora, sentado sobre ela depois de chorar e acabar dormindo, ficou olhando atentamente para o chão pensando no que tinha acontecido.
Ele, que no passado tinha enfrentado sua família, agora temia. Como seu pai reagiria vendo aquele vídeo? Ainda que a gravação tenha sido da época em que ele se rebelou contra a família, isso não amenizava seu constrangimento, afinal, estava tendo sua intimidade exposta.
Lembrava-se perfeitamente daquela noite e como foi feliz naquele momento, mas agora, diante tudo o que aconteceu arrependia-se amargamente por ter se entregado pela primeira vez.
Talvez Brandon não soubesse do seu passado, mas Sean sabia. Toda vez em que sentia os olhos negros e profundos do líder dos tigres o encarando, conseguia imaginá-lo pensando: “eu sei o que você é”. E era por isso que ele o odiava tanto, pelo simples fato de Sean estar sempre a um passo a frente dele e, mesmo após tudo, ser o queridinho do avô.
Charles não podia ser pior que ele, deveria ser melhor. A coroa dos tigres pertencia a ele. Tendo o vídeo exposto, toda sua família iria trata-lo como um lixo. Ele sabia perfeitamente como é ser tratado assim, sabia como Sean é exposto nas conversas de família. Coisa que ele ainda não tinha sido, pois seu pai conseguiu esconder isso muito bem, suportando o conflito sem que escapasse para os demais familiares. Mas Suzana sabia. Sean sabia. Por sorte, eles não se manifestaram, afinal, seria até um trunfo.
Charles, não aguentando mais ficar naquele quarto, se levantou e apanhou suas coisas, no entanto, um pequeno cartão havia caído de suas coisas. Curioso, Charles pôs os livros sobre o armário e voltou ao chão para pegar o cartão.
Reece.
No cartão havia esse nome e, no fundo, um abdômen marcado em músculos. Um número para contanto também continha naquele pedaço de papel resistente. Estava óbvio que se tratava de um garoto de programa.
Charles quis saber como aquilo havia parado nas suas coisas. Seria alguma pegadinha do Dimitri?
Charles assustou-se quando a porta do quarto foi aberta pelo primo e rapidamente abriu a gaveta do armário e pôs o cartão lá dentro.
— Posso dormir aqui? — Brandon estava arrastando um cobertor e segurando um travesseiro na mão.
Em nenhum momento o loiro tocou no assunto da exposição do Charles, até porque não tinha sequer cara ou animação para isso. Esse era o Brandon, em suas tristezas não gostava de ficar sozinho. Na verdade, ele nunca gostou de ficar sozinho e ultimamente se sentia assim.
— É-é claro. — disse, assustado.
Brandon nem o olhou. Apenas caminhou até a cama e se lançou nela.
Charles foi até a porta.
— Para onde vai? Está tarde.
— Beber água.
O loiro o olhou por uns segundos, ainda pensando no vídeo que tinha visto, balançou a cabeça e deu as costas.
Charles, por sua vez, também ficou observando o primo, mas preferiu não iniciar algum assunto, assim fechando a porta e rumando à cozinha. Como realmente havia dito, Charles bebeu água, mas ele necessitava de ar fresco — ainda que fosse naquele horário, bem tarde por sinal, próximo das três da manhã.
Segurando o copo de água na mão, Charles caminhou até a porta de entrada e saída da sua república. Sentou-se no degrau em frente a porta, fechou os olhos e respirou fundo, sentindo o vento chicotear a sua face e balançar seus fios negros.
Ao abrir os olhos, Charles juntou os pés e as pernas, de modo que pudesse posicionar o copo entre os joelhos e assim ficar observando a água. Perdeu-se em pensamentos ao, novamente, relembrar o que aconteceu mais cedo, os pensamentos retrocederam tanto que logo ele estava lembrando do dia em que decidiu ir morar na Quadra.
E se não decidisse isso? Era tudo tão problemático naquele lugar. Achava, de fato, que poderia por tudo aos seus pés, mas era mais difícil do que parecia. Tinha um vídeo seu nas mãos do seu maior inimigo que poderia por abaixo tudo que havia conquistado até ali.
O moreno só despertou dos pensamentos quando uma luz forte dos faróis de um carro quase o deixou cego. O automóvel estacionou em frente a república dos leoninos e de lá, para sua surpresa e azar, Calvin havia saído.
Foi mais uma de suas noites de trabalho: a prostituição. Mentir para seus colegas não era fácil, mas aquela era uma maneira da qual ele estava conseguindo se sustentar e sustentar sua família, além de estudar. Para se manter onde estava, seria necessário. Tinha mais opções? Tinha. Mas ele conseguia arrecadar em uma noite muito mais do que alguém ganha na lanchonete se fosse adquirido semanalmente, sendo capaz de cuidar da saúde de sua filha e ajudar sua mãe que estava longe dali. Fora isso, Calvin também tinha alguns clientes fieis, que pagavam mais pela exclusividade. Ou quando ele realmente decidia cobrar um valor mais alto sabendo que aquela pessoa tinha dinheiro de sobra, os ricos.
Quando Calvin viu que era ele quem estava ali sentado, preferiu prosseguir andando pelo gramado de sua república, mas rapidamente mudou de ideia, virou e caminhou em direção ao tigre.
Charles se levantou, iria entrar. Não estava com cabeça alguma para ouvi-lo falar do vídeo, pois certamente seria provocado.
— Não precisa se assustar. — disse o leonino.
Calvin vestia uma regata verde, muito parecida com uma camisa de jogadores de basquete e bermuda folgada, deixando a mostra os braços grandes e fortes. Bem diferente de como Charles costumava vê-lo na universidade, com camisas que cobriam todo o seu braço e calça.
Não era a primeira vez que Charles o via daquela forma, quer dizer... Ele já o viu sem camisa, jogando basquete e, aliás, com a mesma bermuda que estava usando agora, mas fazia algum tempo.
— O que você quer? — agressivo, questionou.
— O que você vai fazer a respeito do vídeo?
— Que vídeo? — preferiu ignorar a existência da gravação. — Aquilo não existe e você nunca viu.
— Você sabe que pode processar o autor disso, não sabe? Se quiser minha ajuda...
— Não preciso. — o interrompeu. — Você é somente um estudante de direito.
— Tenho contatos.
— Mas eu não preciso da sua ajuda. — respondia com rapidez.
— Qual é a sua, garoto? — Calvin questionou, paciente.
Vale ressaltar que Calvin é paciente até demais para alguém que mora na república mais barulhenta da Quadra. Hugh e Kai até diziam isso para ele.
— Eu já disse que você nunca viu esse vídeo e ele não existe. Eu te proíbo de falar sobre ele pra quem quer que seja ou eu juro que vou...
— Me bater? — interrompeu risonho.
— Você se acha, não é?
— Eu só estou tentando ajudar.
— E quantas vezes terei ter que falar que não preciso? Você acha que só porque nos... — Charles calou-se imediatamente. Se negou a lembrar do beijo.
Calvin ficou olhando-o, desejando que ele concluísse.
— Você gostou. — disse o leonino.
Charles precisou forçar um sorriso debochado. Em seguida cuspiu no gramado.
— Eu senti nojo! — rebateu. — Muito nojo.
— Não foi o que pareceu. Consegui até sentir seu...
— Não se atreva a continuar! — ameaçou. — O que aconteceu é algo que prefiro não recordar. É uma vergonha para mim. Eu sou um dos Ferazzas, não devo nunca me misturar com alguém como você.
— Acha mesmo que essa máscara hétero me engana? Ainda mais depois desse vídeo...
E Charles lhe lançou a água do copo no rosto, assim, silenciando-o imediatamente, antes que ele pudesse mencionar o que havia no vídeo.
— Eu poderia ter jogado esse copo na sua cara.
Calvin nada disse. Com as grandes mãos enxugou seu rosto, mas sua camisa, ensopada, colou em seu corpo. Já fazia um pouco de frio, depois do banho de água gelada, a sensação triplicou.
— Sabe, garoto, você vai precisar aceitar o que você é. — não se calou o leonino. — Se não agora, mais tarde. Você é gay. Você é fraco! Eu salvei sua vida e você nunca vai me agradecer por isso. Aliás, eu salvei sua vida mais de uma vez. Vocês, Ferazzas, são poço de ingratidão.
— Eu não sou nada disso do que você está dizendo. Eu não sou a vergonha e nem a queda da minha família. Já não basta o Sean se relacionando com um de vocês. Ele sim é uma decepção para todos nós.
— Nos beijamos! Queira ou não queira, você vai ter que aceitar isso.
Charles voltou a cuspir.
— Lembrar do ocorrido me deixa com nojo.
— É mesmo? E por que eu consigo sentir sua insegurança daqui?
Charles o fuzilou com o olhar, mas antes que pudesse esperar, Calvin estava a sua frente. O leonino o segurou pela cintura, mas as mãos fortes rapidamente desceram para seu quadril, pressionando a região com vontade.
“Huh” foi o som que escapou dos lábios do tigre, que pego de surpresa pelo leonino, parecia ter perdido toda a mobilidade do seu corpo, sentindo uma enorme onda de calor começar das pontas dos seus pés até a sua cabeça.
O copo caiu no chão, quebrou-se.
Seus olhos verdes estavam próximos aos olhos azuis do leonino. O olhar do leonino era de puro desejo, o que acabou fazendo as bochechas do menor queimarem. Ambos os lábios entreabertos, mas Charles sentia a respiração de Calvin tocar o seu nariz.
Charles era branquinho e facilmente marcado, suas bochechas avermelhavam em situações como aquela. No sexo, então, suas bochechas recebiam a mesma coloração, ou até mesmo mais intensa.
Por sorte estava escuro e Calvin não percebeu isso.
Quando o leonino ameaçou encostar seus lábios aos deles, Charles imediatamente o empurrou, afastando-o. Resistiu. E resistir era tudo o que ele precisava. Iria se odiar se deixasse aquilo acontecer novamente. Não podia, não devia, mas queria. Sim, queria. No entanto, suas vontades vão contra tudo aquilo que aprendeu com seu pai, com os Ferazzas.
Charles, para finalizar, cuspiu novamente no chão para reforçar que havia sentido nojo, mesmo sendo explícito que ele mentia.
O tigre entrou em sua república, girou a chave e encostou-se a porta, ofegante e assustado.
Do lado de fora, Calvin olhava pra porta, encarando-a e desejando que ele abrisse, voltasse e o beijasse.
Isso não aconteceu.
Da janela do primeiro andar dos leões, Colin assistiu tudo o que aconteceu.
[...]
Sete horas da manhã.
Com fome e se sentindo estranho fisicamente, Luke estava sentado na cadeira da cozinha segurando um copo de água na mão e muito pensativo. O resto da sua noite havia sido uma porcaria, por mais que insistisse em se divertir, não conseguia após a discussão com Samuel. Não deixou com que percebessem sua raiva e falta de vontade de permanecer na balada, aliás, foi pelos colegas que ele havia ficado na festa até o amanhecer, fingindo sorrisos aos quatro cantos.
Tinha desejado que Samuel retornasse a festa, pois estava com um discurso pronto para dizer a ele, no entanto, o loiro não retornou. Ele viu Natalie ir embora, mas não viu Samuel retornar sequer para buscá-la.
Sua vontade era arremessar o copo em que bebia água no chão só pela raiva sentida ao pensar. Bastou apenas chegar à sua república para estar sentido, de fato, todo aquele sentimento ruim, já que na festa foi obrigado a disfarçar.
Assustou-se quando Samuel pareceu se materializar na cozinha. O loiro, que havia também chegado em casa naquele horário da manhã, sendo deixado por Francis na porta da república, tinha ido para a cozinha apenas para beber água o que, ironicamente, era a mesma coisa que Luke fazia.
Samuel também se assustou quando encontrou Luke sentado, com os cabelos numa mistura de preto com rosa que ia desaparecendo aos poucos. Não pensou duas vezes e logo deu as costas, preferindo-se manter longe da cozinha.
— Foi divertida a noite transando com o primeiro cara que encontrou na festa?
Ouviu o moreno questionar acompanhado de uma risadinha.
Não querendo perder a cabeça nas primeiras horas da manhã, Samuel seguiu andando.
— Quem gemeu mais alto? Você? Ele? — perguntou o moreno, seguindo-o.
— Deixa de ser ridículo, Luke. — rebateu o loiro ao parar.
— Qual era mesmo o nome dele? Fran... Frank? Ah, é mesmo, Francis.
— Ficou interessado nele também? Bem, isso não é novidade...
— Ah, não... Eu não pego carinhas que se relacionam com amigos meus.
— Tá procurando se defender com palavras e passando vergonha por conta disso. Se me der licença, eu preciso de banho e cama.
— A noite foi longa, não foi? Você ainda não me respondeu quem gemeu mais alto.
— Você está começando a se tornar ridículo.
Samuel deu as costas, mas após o segundo passo, Luke colocou-se de frente dele com um sorriso provocador no rosto. Samuel, sério, contraiu os lábios e fechou o punho.
— Foi o nome do caipira que você chamou enquanto transava com ele? Coitado, está lá dormindo acreditando que o namorado está bem.
— Isso é problema meu.
— Então por que você me julga? — questionou esboçando um sorriso no rosto.
— Não me compare a você! — a raiva tomava-lhe conta. Luke estava realmente começando a o irritar.
— Claro que não! Apesar de tudo, eu não trairia se namorasse.
— Você não sabe de nada, Luke. Tudo o que você sabe é abaixar a cueca pra qualquer um.
— E aquele carinha da balada quem era?
— Isso não é problema seu. Agora saia da minha frente.
— Sabe, Samuel, se você pode transar com ele, poderíamos fazer isso aqui agora, sem ressentimentos... — Luke estava começando a ir longe demais.
O moreno, com raiva, mas disfarçando isso com o seu melhor sorriso provocador que significava o mais puro sarcasmo.
Luke tocou cós da calça do loiro. Samuel fechou os olhos, mas não porque estava se deixando levar por aquilo, mas simplesmente porque se segurava para não explodir.
— Se você traiu seu namorado uma vez, poderia traí-lo de novo, agora comigo... Vamos, você tem coragem, não tem?
Luke também não estava fazendo aquilo para transar com Samuel, pelo contrário, ele queria mostrar para o loiro que ele era tão sujo quanto, caindo na hipocrisia do seu discurso em que tanto julgou o moreno.
Luke provocava à sua forma, é assim que os corações feridos — além do orgulho ferido — agem no momento da raiva, ou do ciúme.
— Vamos Samuel, tira a roupa... — sussurrou no ouvido dele. — Hipócrita...
— É melhor você se afastar.
— Por quê? — os olhos azuis foram fundo nos orbes do loiro. — É que você gosta, não é? Trair...
— Desgraçado! — bradou o loiro, afastando-o com um empurrão. — Qual o seu problema?
— Meu problema é você! Meu problema é ter todas as palavras que me disse no dia da festa martelando na minha cabeça. Você me humilhou, Samuel. E sabe o mais engraçado? É que no final você fugiu. Fugiu sem esperar resposta alguma minha depois de me dizer tudo aquilo, especialmente depois de me contar a verdade.
— Você está bêbado. Saia da minha frente.
— O que foi? Não aguentou ouvir a verdade?
— Que verdade, Luke? A única verdade aqui é que nós sabemos que você é poço de infidelidade.
— Não! — gritou. — Você quem é! Não fui eu que traí aqui.
— Você não sabe de nada, Luke McGraein! — bradou a ponto de sentir sua garganta doer.
Seria melhor correr. Nome e sobrenome, Samuel chegou ao seu limite.
— Diga-me! Diga-me! — pediu insistente o moreno, não temendo o grito. — Diga-me se você transou com aquele cara! Diga-me, Samuel! Vamos!
O primeiro soco.
Luke sentiu a força do loiro.
Ele cuspiu no chão, o sangue desceu. Luke levantou seus olhos e encontrou um loiro em fúria, respirando fundo.
A águia deu seu voo.
Samuel descontrolou-se.
Luke não conseguiu pensar assim que recebeu o segundo soco no rosto, recuando e defendendo seu rosto a medida que mais socos eram proferidos com rapidez em seus braços.
Com gritos de raiva, Samuel conseguiu acordar toda a sua república.
Sem ver, Luke acabou derrubando um objeto de vidro em cima da mesinha ao lado do sofá.
— Samuel, para! — Luke pediu, não querendo machucá-lo.
— Samuel! — Caine, que dormia no primeiro quarto, quando abriu a porta assustou-se com o que via. Logo, um por um ia aparecendo na sala.
— Você é estúpido, Luke! — com a voz chorosa, ele ia gritando e socando-o cegamente. — Estúpido! Estúpido!
Foi então que o moreno caiu de bunda no chão, ainda defendendo o seu rosto. Antes que pudesse se levantar, ele deu as costas e recebeu um chute. De joelhos, Luke arrastou-se até o sofá e assim conseguiu ficar de pé.
Caine não foi capaz de conter o loiro, nem mesmo os outros moradores da república que gritaram pedindo para ele se acalmar e tentaram segurá-lo.
— Samuel! — gritou o moreno ao defender o rosto novamente.
Luke precisou agir.
O moreno conseguiu segurar o braço do loiro, em seguida o girou de modo com que os joelhos de Samuel se dobrassem pela dor sentida. Tão rápido foi, que quando Samuel deu-se conta, estava sendo pego pelo pescoço, sufocando-se pelos braços fortes do moreno.
— Luke, solte-o! — Clara gritou. — Solte-o! — gritou a garota.
Luke temeu. Machucado, ele precisou ter muita força para conseguir conter o loiro que se debatia ainda tentando se desvencilhar de seus braços.
Ainda que sendo sufocado, Samuel começou a falar:
Luke não respondeu.
— Eu. Não. Sou. Igual. A. Você! — gritou cada palavra pausadamente, ainda que sendo sufocado. — Eu não transei com aquele garoto. E sabe por que eu não transei? Não foi por sua causa, mas sim porque eu realmente não queria, por mais que tudo cooperasse para que isso acontecesse. Eu nunca serei como você.
Luke então relaxou seus braços, Samuel pôde respirar melhor, mas dessa vez sem agredi-lo.
— Eu disse que te amava e você não me correspondeu Luke, mas agora parece se importar com que eu transo e com quem eu não transo? — ele enxugou a lágrima que descia. — É assim? Eu não posso simplesmente seguir minha vida que você vai ter que de alguma forma me atormentar? Me julgar? Eu simplesmente não posso ser feliz me relacionando com ninguém que isso de alguma forma vai me igualar a você?
Luke somente olhou ao redor. Como antes, o moreno agora estava sendo mais uma vez pisoteado por palavras e, desta vez, na frente de todos os moradores de sua república que agora sabiam da verdade dos sentimentos do loiro para o moreno.
Samuel, corajoso, não mais aguentava.
— Nunca brinque com os sentimentos de alguém. Nunca brinque com os meus sentimentos! — falou o loiro, quase se engasgando com as próprias lágrimas que caiam como cascatas de sua face.
Para Luke, tudo escureceu.
Desmaiou.
[...]
Hugh acordou sem sentir Pietro ao seu lado. O leonino sentou-se na cama, coçou os olhos e olhou por todo o cômodo. Mesmo com preguiça e querendo continuar dormindo, o dono de cabelos encaracolados saiu do quarto, passou pela cozinha e foi ao banheiro fazer sua higiene matinal. Chegando à sala, Hugh encontrou Patrick, Danion, Julius e Marcus conversando.
— Viram o Pietro? — questionou.
Julius o olhou com a cara mais desagradável possível, chegando a fazer careta e em seguida, deitou-se no sofá, levando uma almofada ao rosto e assim tentar dormir.
— Saiu bem cedinho. — Patrick respondeu, mas sem dar tanta importância.
— Aconteceu alguma coisa? — Danion questionou.
Hugh demorou pra responder ao relembrar do que ocorreu na madrugada.
— Não. — respondeu ao perceber que todos o encaravam. — Só estou preocupado mesmo.
— Espero que seja somente isso. — Patrick falou. — Se aquele garoto te fizer algo...
— Não exagera, Patrick. — Hugh o interrompeu.
— Meu primo vive defendendo esse moleque. — ainda com o rosto na almofada, Julius falou. — Nem adianta falar nada contra.
— É melhor eu ir voltar a dormir. — respondeu sério, com os olhos expressando frieza. — Não vou ouvir bobeira de babacas logo pela manhã. — respondeu e deu as costas.
Patrick, surpreso, olhou para Danion, mas o branquelo deu de ombros e sorriu adorando a atitude de Hugh.
— Só eu percebi isso? — Marcus questionou.
— Isso o quê? — Julius retirou a almofada do rosto.
— Vocês também enchem o saco dele todo dia. — Danion falou. — Bom seria se ele metesse a mão na cara de vocês.
— O que foi, porra? — Julius voltou a questionar.
— Hugh tá de mal humor.
— E o que é que tem?! — continuou questionando.
— É o Hugh! — Patrick abriu as duas mãos e aproximou do rosto. — Desde que eu entrei aqui eu nunca o vi de mal humor.
— Ah, pensei que era algo mais interessante. — Julius mais uma vez pôs a almofada na cara.
— Será que aconteceu alguma coisa? — Marcus perguntou.
— O garoto mal acordou e vocês já encheram o saco dele. — Danion disse. — Basta olhar pro Colin e tomar ele como exemplo... Ali é o capeta quando acorda de mal humor. Quero ver vocês com coragem pra encher o saco dele quando ele estiver assim.
Julius sorriu quase como se estivesse tossindo. Marcus deu de ombros, encostou-se no sofá e começou a mexer no seu celular. Patrick estava tentando imaginar motivos para Hugh ter acordado de mal humor, pois ainda estava surpreso com o amigo.
— Aliás, falando em Colin... Ele dormiu na república? — perguntou o branquelo.
— Sim. — Patrick respondeu. — Chegou ontem a noite, parecia estar com raiva de alguma coisa.
— Então ele deve ter brigado com o Sean ou talvez esteja apenas castigando ele. — os demais não entendiam o que era esse “castigo” que se tratava de sexo. — Esse anão é o diabo. — Danion se levantou. — Vou lá encher a paciência dele.
— Não era você que estava falando pra não enchermos o Colin quando ele estivesse com o péssimo humor? — Marcus perguntou.
— Eu sou vacinado. O conheço a mais tempo que vocês, no entanto, digam ao Caine que eu o amo se algo de ruim acontecer comigo. — o branquelo piscou e subiu as escadas.
Danion subiu degrau por degrau devagar e sem nem mesmo bater na porta, ele a abriu e entrou. Como ele realmente não tinha medo do Colin, acabou tomando a atitude, mas entrou no quarto protegendo o rosto e de cabeça abaixada, não porque acreditasse que Colin fosse agredi-lo com algum objeto, mas apenas por provocação mesmo. No entanto, o pequeno nem deu a mínima. Já acordado, Colin estava sentado próximo a sua janela observando a janela da república à frente.
— Bom dia, flor do dia. — disse o branquelo e se sentou ao lado dele. — Vim ver como está o meu amigo mais lindo do universo.
— Não enche Danion. — falou ríspido. — É melhor ir embora.
— Adoro seu humor matinal. O que foi? O sexo com o namorado não foi bom?
— Cala a boca! — o encarou. — Ou eu juro que o derrubo daquela escada.
— Caine nem chega aos pés com tanto carinho que você tem por mim.
— Porra! O que você quer? Eu dormi tarde, por sinal dormi muito mal e você ainda vem me perturbar. — questionou.
— Nada. — respondeu e olhou para onde Colin estava olhando. — Mas se fosse o Caine aqui, tenho certeza de que você o trataria diferente.
— Preciso mesmo dizer os motivos?
Danion sorriu.
— Meu namorado ainda dorme. — falou o branquelo e observou o céu. Estava começando a ficar nublado. — Se chover, aposto que ele vai ser capaz de ficar por lá a manhã inteira. Aliás, vocês tem aula daqui a pouco, não?
Colin não respondeu. Danion também ficou em silêncio, mas não por muito tempo.
— Vocês brigaram? — questionou o branquelo.
— Não sei.
— Como não sabe? — sempre insistente e inconveniente, Danion não ia sair dali até ter uma resposta.
— Não sabendo.
— Você o matou e deixou o corpo dele no quarto? Por isso está aqui aguardando alguém descobrir?
— Vai se foder, Danion. Que saco.
— Então me fala o que aconteceu.
Colin o olhou, mas em seguida desviou seus olhos para o chão. Confiava no Danion, porém falar sobre o ocorrido deixava-o inseguro de uma maneira que ele não conseguia compreender. E se a opinião do branquelo influenciasse em seus pensamentos de maneira negativa? Afinal, Danion não tinha uma boa relação com o líder dos tigres.
— Ah, mas se fosse o Caine aqui...
— Meu Deus... — interrompeu o pequeno. — Você é insuportável.
— Obrigado. Eu também te amo. Agora me diz o que aconteceu. Se for pra contratar caras pra bater no Sean eu farei isso com o maior prazer.
Colin olhou para sua cama, levantou-se e foi até ela. Lançou-se sobre o travesseiro e disse com muita rapidez:
— Seandisquecordouladumagarota.
— O quê?!
— Isso que você ouviu.
— Você falou muito rápido, repete.
— Eu não vou repetir.
— Como vou te ajudar, desgraçado?
— Não ajudando.
— Porra, o que custa conversar comigo? Eu que sou seu amigo há mais tempo aqui nessa república, aliás, te conheci primeiro que o Caine, mas pra ele você conta tudo.
— Ah, Danion... Eu tô com a cabeça cheia.
— Então esvazia conversando comigo.
Danion era tão chato que o pequeno estava começando a se render, talvez por considerar o branquelo sabendo que, apesar de sua chatice, ele estava preocupado. Colin respirou fundo, coçou sua testa e então disse:
— O Sean disse que acordou ao lado de uma garota.
— E o que é que tem?
— Acordou ao lado de uma garota! Você não entendeu?
— Entendi... Mas e daí? Sean não gosta de garotas.
— E daí que essa garota disse que eles transaram, mas o Sean afirma que não fez nada, porém nem mesmo se lembra disso.
Danion começou a gargalhar. Sem compreender, Colin o olhou.
— Porra, nós já sabemos que ele tentou fazer isso com o Octavio e William, Colin. Essa história é repetida, sério mesmo que você vai cair nisso?
— Não... — falou inseguro.
— Colin, é o Sean, seu namorado. — deu ênfase na palavra “seu”. — Acho muito impossível de ele ter transado com uma garota. Aliás, quem é essa garota?
— Não faço ideia e nem ele. Mas é ruim imaginar sabe?
— Claro que é, ainda mais por você ser ciumento. A quadra estava em festa, Sean, infelizmente, é paquerado por gente até do inferno... E de verdade, nem entendo como ele é paquerado, ele tem olho de peixe morto, mas então, continuando... Essa garota deve ser mais um projeto de Colton tentando destruir seu namoro.
— Não sei...
— Claro que sabe! Se você realmente desconfiasse já teria derrubado aquela república e eu adoraria ver isso. Estou mentindo? — Colin o olhou. Danion às vezes parecia o William fazendo-o refletir, o que, por sinal, o fez sentir saudades do antigo líder dos leões naquele momento. — Mas no fundo sabe que o Sean não faria coisa do tipo, por isso está aqui aborrecido procurando motivos pra não acreditar nele.
— Mas ele ainda mentiu pra mim. Eu perguntei o que ele tinha feito após brigarmos e ele falou que apenas bebeu e dormiu.
— Quando perguntou isso?
— Quando ele veio na manhã seguinte me procurar.
— Se bem me lembro, vocês saíram não foi? Ele falou isso no mesmo dia do seu aniversário?
— Sim... — respondeu os dois questionamentos.
— É tão óbvio ele não tenha falado. Porra, anão, todo mundo sabe que você tem o pavio curto. Se Sean tinha planos de sair com você, era certo de que ele não iria te falar o que aconteceu logo no dia do seu aniversário.
Colin chegou a pensar que Danion tinha conversando com o Sean antes de aparecer em seu quarto.
— Mas eu não gosto de mentiras desde o que aconteceu com o William.
— Ai, Colin, ele só não contou pra poupar o dia do seu aniversário de uma briga grande. Admite logo que você é exagerado. Está se estressando a toa. O mínimo que você pode fazer é procurar essa garota e agir da mesma maneira que você age com todo aquele que te provoca. Pede pra Clara dar uns tapas nela, tenho certeza que ela ajudaria.
Sem conseguir ter argumento mais forte que o do branquelo, o que por sinal estava sendo uma raridade, depois de anos, Colin disse:
— Não sei. Eu só sei que não tô com cabeça pra pensar mais nisso e adoraria se você saísse do quarto e me deixasse sozinho.
— Sou melhor que o William, não sou? — sorriu o branquelo. — Vamos, admite!
— Cala a boca, Danion! Agora sai daqui, já falou tudo o que tinha pra falar.
— Estou esperando meus agradecimentos.
— Vai se foder.
— Isso mesmo, de nada. — e o branquelo dirigiu-se à porta.
— Dan! — Colin o chamou.
O branquelo parou e o olhou.
— Não vou pra aula hoje, poderia sair comigo?
— Está fugindo do Sean? Sério? Achei que depois de tudo o que eu falei você iria ir atrás dele agora mesmo.
— Preciso pensar.
— Pra onde você quer ir?
— Pra qualquer lugar longe daqui.
— E o Caine?
— Ele pode ir, não sei...
— Ótimo, então vou à república conversar com ele, já volto pra te buscar. Vai querer mesmo sair pra qualquer lugar comigo?
— Sim.
O branquelo sorriu.
— O que significa esse sorriso?
— Vamos desafiar a morte. Caine sabe bem como é essa experiência.
Danion saiu do quarto. Colin se arrependeu.
[...]
Carter bateu na porta dos leões e esperou ser atendido. Quem abriu foi Marcus.
— A cabrita ‘tá aí? — perguntou o loiro.
— Oi? — confuso, Marcus franziu as sobrancelhas.
— O Patrick.
— Aconteceu algum problema?
— Nada, uai. Só queria entregar as roupas dele. — disse e mostrou as vestes dobradas em sua mão.
— Eu posso fazer isso?
Coçando a cabeça, Carter respondeu.
— Eu queria entregar pessoalmente nas mãos dele, sabe?
Sem insistências e sabendo quem era, Marcus deu passagem e fechou a porta assim que o loiro entrou.
— Patrick, tem gente querendo falar com você. — Marcus gritou da sala.
Patrick, que estava na cozinha, surgiu na sala sem demoras, mas já sabia que era Carter, pois foi capaz de ouvir seu sotaque forte e característico da região que morava.
Sem delongas, Marcus largou os dois sozinhos na sala e se mandou para o seu quarto.
Carter ficou encarando Patrick por um tempo, sem falar nada, mais uma vez admirando a beleza do garoto. Dessa vez ele estava com os cabelos bagunçados e sem camisa, trajando um calção de náilon que exibia parte de suas coxas.
— Então... — Patrick precisou falar e assim despertá-lo das impurezas de pensamento.
— A-ah, sim, suas roupas... — disse o loiro, engolindo em seco e tentando se concentrar, mas estava sendo difícil vê-lo daquela maneira, já que tinha lembranças do dia em que o viu despido.
Dirigindo-se até ele, Patrick pegou suas roupas.
— Obrigado.
— O que ‘cê está fazendo? — perguntou, fazendo o possível para manter um diálogo e permanecer ali dentro.
— Comendo.
— Égua, deu fome. — falou no mesmo instante ao alisar a barriga. Fingia tão descaradamente que Patrick precisou segurar o sorriso e manter a seriedade.
— Você finge.
Facilmente descoberto, Carter apelou pela sinceridade.
— Eu queria conversar um pouco com ‘cê.
— Se bem andei sabendo, você ainda está no colegial. Por que não foi hoje?
— Faltei. Aconteceram alguns problemas na república e eu preferi ficar com o Samuel.
— Ah, sim... O lance lá com o Luke. Nós soubemos... — disse pensativo. — De qualquer modo, você não pode ficar faltando assim, poderá se prejudicar.
— Mas ‘cê devia também tá na faculdade.
— No dia de hoje não estudo no horário da tarde. Eu faço meu próprio horário, aliás. Optei por não pagar disciplina hoje.
— ‘Cê não vai mesmo me convidar pra comer? — insistiu.
Dando de ombros e suspirando, Patrick dirigiu-se para à cozinha, assim Carter entendeu o recado e o seguiu. Estava agora conhecendo a república dos leões, reconhecendo que se comparasse com a república dos águias, ela era menor.
— Onde que ‘tá todo mundo?
— Na faculdade. Marcus e eu somos os únicos a ficar na república nesse horário. — respondeu ao lhe entregar um copo.
Patrick abriu a embalagem que tinha na mesa e retirou de lá um hambúrguer comprado na lanchonete e entregou ao loiro. Em seguida retirou outro hambúrguer da mesma embalagem, sentou-se à mesa e pôs refrigerante nos dois copos.
— Dois hambúrgueres? — questionou o loiro. — ‘Cê aguenta comer?
— Algum problema?
— M-mas s-seu corpo é tão...
— Não como isso todo dia, pelo menos uma vez no mês, mantenho alimentação saudável e faço exercícios, mas tem dias em que resolvo comer aquilo que gosto e assim vou seguindo. Perderei tudo depois, apesar de nesse momento estar com a consciência pesada.
— Mas dois? Égua!
— Agora um. — falou e mostrou o hambúrguer que segurava. — Eu já fui gordo. — revelou. — Motivo de piada de toda a turma, aliás. — concluiu e mordeu.
— ‘Cê tá brincando.
— Me nego a mostrar fotos pra você. — repousou os cotovelos na mesa, relaxou os ombros e apreciou o sabor do seu alimento.
Carter primeiro bebeu metade do copo de refrigerante antes de dar a primeira mordida no seu hambúrguer. Patrick estava quieto enquanto comia, com o mesmo semblante de gente mal encarada que ele costumava ter, de qualquer modo, o loiro estava feliz pelo simples fato de ele parecer um pouco mais gentil.
Não tardou muito para Patrick ser o primeiro a terminar de comer.
— É difícil de acreditar que ‘cê foi gordo. — Carter falou, ainda na metade do seu.
Carter poderia ter comido rápido, mas ele fazia de tudo pra permanecer ali por mais tempo. O loiro também comia bastante, não era atoa que sua mãe e tia viviam a reclamar com ele porque se possível, ele comia até as panelas. Apesar de viver naquele trabalho braçal, Carter tinha uma boa genética e dificilmente engordaria.
— Eu fiz algo de errado no dia em que dormi no seu quarto? — direto ao ponto, Patrick perguntou.
— ‘Cê só dormiu.
— E você? Fez algo de errado enquanto eu dormia?
— Não! — falou alto, assustado, quase se engasgando com o pedaço de hambúrguer na boca. — Eu não sou assim! — se defendeu.
— Estive tão bêbado...
— Foi divertido. — sorriu o loiro, lembrando-se.
Patrick não conseguiu encará-lo mais, queria sorrir, mas se negava a fazer isso. Às vezes era bom ser rígido com Carter, mas ele não compreendia o porquê disso.
— Eu não deveria ter bebido tanto.
— Da próxima vez vou ficar com você.
— Odeio seguranças.
— Égua! Eu sou tão legal, por que ‘cê não gosta de ficar comigo?
— Estamos aqui, não estamos?
— Mas ‘cê vive mudando. Uma hora ‘tá legal, uma hora ‘tá chato. Isso tudo num mesmo dia.
— Tá ok, desculpa! — rendeu, levantou as mãos, mas parecia não dar importância.
— Hoje ‘cê tá pior. — falou dando a última mordida em seu hambúrguer.
Patrick se levantou, foi até a pia e lavou as mãos. Sem querer, acabou derrubando um talher da pia no chão, o que o fez se abaixar e, consequentemente, a mente de Carter trabalhar cenas obscenas no momento em que viu aquela bunda em sua direção.
Patrick se levantou resmungando e lançou a colher na pia.
— Diabo de mal humor é esse?
— Descobri algumas coisas nessa festa, mas isso não cabe a você.
— Eu poderia ajudar.
— Não, você não poderia.
— Alguém te machucou, né?
Patrick pareceu pensar. De pé, ele cruzou os braços e se encostou no balcão. Não respondeu, deixando em aberto sua resposta, se sim ou não.
— Não é nada. Só estou aborrecido. — falou e voltou para mesa. Ele observou Carter ainda bebendo o refrigerante.
Não tinha reparado em como ele era realmente bonito, pelo menos em silêncio. Tinha cílios chamativos e os olhos azuis brilhavam como o mar em um dia ensolarado, no entanto tinha um olhar dócil, quase como o de um garotinho que almeja o doce na vitrine de uma loja. Seus lábios eram preenchidos e ele tinha uma pequena cicatriz no queixo. Por tanto encará-lo admirando os detalhes de sua face, Carter sorriu, e Patrick notou uma única covinha do lado esquerdo de sua bochecha se formando.
— Algum problema? — Carter perguntou ao finalmente terminar de beber o refrigerante.
— Eu percebo a maneira como você olha pra mim.
— Q-quê?!
Patrick sorriu e relaxou os ombros ao repousar os braços na mesa.
— Você deveria ser mais discreto. Não que eu não adore as pessoas me paquerando...
— Égua!
— Às vezes fica bem óbvio.
Patrick não queria contar que quando acordou no meio da noite, encontrou Carter sentado no chão, dormindo em cima do próprio ombro, porém, sentiu a mão dele em seus cabelos escuros, o que denunciou que ele tinha feito cafuné e acabou pegando no sono.
— ‘Cê é bonito, uai. Posso fazer o quê?
Patrick mordeu o próprio dedo enquanto o olhava, logo o chamou para mais perto com o sinal que fez com o dedo mordido. Na aproximação de Carter, Patrick limpou com o polegar a ponta dos lábios do loiro e levou à boca, sentindo o gosto do molho. Tão clichê, mas um tiro certeiro para o pobre e apaixonado Carter.
— Bem, passou a fome?
— Não. — respondeu, sincero.
— Na minha parte da dispensa não tem muita coisa... Se eu mexer na parte do pessoal, sou capaz de ser expulso. Com comida nessa república não se brinca.
— ‘Cês fazem muito barulho. Tem dias que escutamos de lá da nossa república. Eu mais ouço a sua voz.
— A culpa é do Julius! Ele adora me irritar. E ontem eu gritei porque disse que queria vencer os jogos da Quadra e se nossa república perdesse por causa dele, eu iria ser o primeiro a matá-lo.
— Queria saber como que vai acontecer esses jogos da Quadra. Que diacho é isso? Ouvi alguém comentar lá na república, mas nem dei muita atenção.
— Nunca participei de um. O antigo líder da Quadra cancelou os jogos há quase três anos. É uma competição entre as repúblicas organizada por uma equipe selecionada que elabora os jogos. Costumava funcionar sem a participação dos líderes, mas agora todos eles podem participar. O objetivo é apenas vencer os jogos e alcançar o primeiro lugar. Com a vitória você tem o direito de escolher uma república pra lhe servir. Eles devem fazer tudo o que pedirmos, mas isso deve ser decidido em conjunto.
— Eles querem que eu jogue, me acham forte.
— Vocês já estão organizando um time?
— Eu não sei, uai. Eu disse que nem dei muita atenção ao que eles conversavam. Tudo que lembro é de falarem que eu seria bom pra um time ao lado do Luke.
Patrick pareceu ter adorado a informação.
— Não terei pena de você caso eu participe do time.
— Mas ‘cê é mesmo uma cabrita muito brava.
— Para de me chamar assim! — o repreendeu.
— Por que, uai? Lá onde eu morava era normal chamar gente brava assim.
— Só não me chame assim, tá bom? — pediu.
— Viu como ‘cê muda a todo instante? Égua!
— Você me chama de cabrita.
— Mas não tem nada demais, uai.
Patrick revirou os olhos, se levantou.
— Acho que você deve ir. Tenho algumas coisas pra estudar.
— ‘Cê tá me expulsando?
— Não. Eu só disse que preciso estudar.
— Eu posso ver ‘cê estudar.
— Ai, ai, Carter. Você realmente não entende...
— Certo, eu vou deixar ‘cê estudar. Mas ‘cê promete que eu posso voltar aqui amanhã pra lanchar com ‘cê?
— Amanhã estarei na faculdade e você em aula. Não vai faltar. Caso contrário irei contar ao seu primo sobre isso.
— Égua! Eu tinha esquecido. Então a noite eu posso te ver?
— Está tentando me conquistar, Carter?
— Tentando ser seu amigo, uai.
— Você não faz meu tipo.
— Como assim? Que tipo?
— Deixa pra lá, vem, eu te acompanho até a porta.
O loiro, ainda tentando compreender o que ele tinha falado, levantou-se e o acompanhou. Carter olhava todas as curvas no corpo de Patrick, mas precisou olhar pra ele no momento em que o leonino virou-se.
— Pensando bem, acho que podemos sair amanhã à noite.
— Sério?! — perguntou animado. — Pra onde vamos?
— Surpresa.
— Égua!
— Vai ter que aguardar até amanhã.
— E se eu morrer?
— Não vai.
— E se eu adoecer?
— Não vai.
— E se eu ficar com caganeira?
— Não vai.
— E se você desistir?
— Não irei.
— E se você...
— Chega! — o interrompeu.
Carter não falou mais nada. Ele apenas viu Patrick abrir a porta, o vento gélido logo invadiu a república, levantando os cabelos do leonino.
— Amanhã, não é mesmo? ‘Cê promete?
— Prometo. — disse.
— Certo, então vou indo, tchau.
Quando Carter deu um passo para sair da república, Patrick o segurou pela mão, fazendo-o imediatamente parar.
— O que houve? — Carter questionou.
Mas Patrick somente aproximou sua face à do garoto e selou seus lábios ao dele, num rápido selinho.
— Obrigado por ter cuidado de mim na festa. Isso é um presente pra você como forma de agradecimento.
Mas Carter não respondeu. Ele precisou tocar os próprios lábios entreabertos para saber se aquilo tinha sido real. Patrick sorria parado, mas também não conseguiu ficar ali por muito tempo, acabou fechando a porta, o deixando lá, ainda congelado pelo selinho recebido.
Patrick voltou para seu quarto sorridente.
[...]
Sean comia sozinho na cozinha após voltar da aula. Colin rejeitava todas as suas ligações, não estava na república e não conseguiu encontrá-lo na universidade, o que acabou deixando-o aborrecido. Colin era um pequeno orgulhoso... Não que Sean fosse diferente, ambos eram cabeça dura, no entanto, Colin mais cedia ao orgulho do moreno, só que dessa vez isso não acontecia, pois o líder dos tigres quem batalhava para conseguir conversar com o namorado.
Os olhos negros viram Brandon entrar na cozinha, passar por ele, ir até à geladeira, abrir e retirar de lá um prato com frango. Ele apenas pôs no micro-ondas, aguardou e sentou-se ao lado do primo.
Sean, como de costume, quieto estava sem pronunciar alguma palavra. O silêncio durou por cinco minutos, depois disso o loiro iniciou:
— Você viu o vídeo?
O moreno confirmou com um movimento de cabeça.
— Todo mundo viu?
— Esperava que sim, mas não é o que parece. Nenhum telefonema do pai dele me ligando pra me culpar por isso.
— Por que iriam te culpar?
— Por que é a regra dos Ferazzas. Me culpar por tudo que acontece aqui.
Brandon sentiu o coração apertar. Se a verdade sobre ele e Kai chegasse aos ouvidos dos familiares, certamente culpariam o Sean por isso, como influenciador.
— Eu não fazia ideia de que ele...
— Você nunca sabe de nada, Brandon. — o interrompeu. — O mais ingênuo de nós é você.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Mais silêncio. Brandon largou o garfo no prato, levou as mãos ao rosto, o coração batendo forte, o medo, a angustia a tristeza o maltratava.
— Queria conversar com você. — disse o loiro, olhando-o.
Sean parou seu olhar nele. Brandon sempre reconheceu que o olhar do Sean causava arrepios, por tão negro que era, olhos expressivos, profundos e misteriosos. Na situação em que se encontrava, aquele olhar parecia já saber do que se tratava a conversa.
— Como você consegue? — perguntou o loiro.
Sean cruzou os braços, relaxou seu corpo na cadeira e levantou uma sobrancelha.
— Como você consegue aguentar todos os ataques da nossa família? — perguntou o loiro mais uma vez.
— Fere, mas não mata. A gente suporta.
Brandon se calou. Sean ficou analisando-o, mas estava fácil descobrir pelo que o primo passava. O moreno aguardava aquela conversa em algum momento enquanto estivesse ainda na Quadra. O dia chegou.
— Eu sinto falta dele. — disse o loiro com a voz trêmula. — Eu sinto mais falta dele do que sinto da minha namorada.
— O Kai sempre te amou. — sem perca de tempo, soltou o moreno. — E você sabia disso mais do que ninguém.
— E-eu...
— Você anda se afogando nas suas mentiras, Brandon. — interrompeu o moreno.
O loiro abaixou a cabeça.
— É confuso, Sean. — ele apertou o próprio rosto com a mão.
— E até quando você vai ficar aguentando isso?
— Por que é só com ele?! — questionou e fixou seus olhos no primo. — T-tem tantos garotos por aí, mas por que somente ele mexe comigo dessa forma?
— Porque seu desejo vai além do carnal.
— Eu não queria...
— Você acha mesmo que eu queria ter toda uma família contra mim? Não é querer, Brandon. É ser e aceitar o que você é.
— E o que eu sou? — foi então que sua pergunta veio muxoxa e acompanhada de lágrimas. Os belos olhos azuis brilharam ainda mais quando encarou seu primo.
Sean, nesse instante, se compadeceu e engoliu em seco, ainda que não demonstrasse tão bem como o loiro esperava.
A campainha tocou. Charles desceu para atender a porta, mas da cozinha Sean viu quem estava ali parada, com um sorriso no rosto saudando quem a atendeu: Melissa.
O líder dos tigres se levantou.
— Faça o que é certo.
Brandon não entendeu o que ele tinha dito até olhar para trás.
— Não há ninguém em nossa família que não tenha cometido erros. — relembrou ao loiro. — Com você não seria diferente. Eu posso ajudar a lidar com eles.
Sean foi realmente sincero nas palavras. Por mais egoísta que fosse, nesse caso ele sabia que sozinho Brandon não conseguiria enfrentar os Ferazzas, pois diferente dos demais primos como Steven, Charles e até mesmo o próprio Sean, o loiro era fraco demais para lidar com a família. Facilmente seria atingido, pois sua sensibilidade era maior do que as dos demais. Não era atoa que sua mãe sempre dizia: Brandon é um menino bom.
Não havia maldade no loiro, infelizmente ele só foi mais uma vítima do orgulho Ferazza.
[...]
— Eu tô bem triste. — disse o moreno de pé olhando pra Colin que estava no corredor de frente pare ele.
— Deixa de drama. — disse o pequeno. — Não pude passar aqui mais cedo, tive que fugir de alguém.
— Eu tô triste sim! Olha pra mim, eu quero morrer.
— Tem várias formas para isso acontecer. Qual a sua preferência?
— Porra! Achei que você iria me consolar.
— Eu ouvi a versão do Samuel.
— Você estava com o Samuel?
— É claro! Agora vai me deixar entrar no quarto ou impedir minha passagem?
Luke deu passagem e se lançou na cama, Colin entrou no quarto e fechou a porta.
— Como ele está? — questionou o moreno, curioso.
— Nada bem e você sabe disso. Vai me odiar pelo que vou dizer, mas você foi babaca, Luke.
— Ele me bateu tanto que eu desmaiei e você vem aqui me insultar? Porra, eu sempre sou o errado quando o assunto se trata do Samuel.
— Eu amei sua sinceridade quando você recusou o Samuel, porque sinceramente é melhor falar a verdade do que iludir, mas depois do que eu soube, sinceramente? — Colin aproximou-se dele e se sentou ao seu lado. — Qual é a sua?
— Eu desmaiei, Colin. Cadê o cuidado? Os remédios? Mas se fosse o Sean ou o Caine, você já estaria aí...
— Porra! Tá dando uma de Danion agora?
Emburrado, Luke abraçou o travesseiro e se sentou encostando-se na cabeceira da cama.
— Você realmente não gosta do Samuel?
Luke não respondeu. Ele olhou pra o travesseiro, ainda chateado por tanta agressividade por parte do pequeno, mas aquele era o Colin tomando as dores do Samuel. Aliás, todos da casa disseram que o moreno estava errado quando Samuel contou-lhes o que aconteceu.
— Por que se importa tanto com quem Samuel fica ou deixa de ficar se você não tem nada com ele? Luke, pra alguém que te ama, isso fere muito, especialmente porque ele acha que você brinca com os sentimentos dele.
— Mas eu não brinco.
— Então o quê?
— Eu não sei, tá bom? Eu achei que ele estava traindo o garoto da roça.
— E descobriu então que era tudo mentira, não é? Como você é idiota, Luke. E lerdo! Samuel fez tudo isso pra você não pegar no pé dele. O Carter não é nada do Samuel, mas ainda que fosse você não tem direito algum de se meter naquele relacionamento.
— Eu desconfiava que era mentira, mas...
— É claro que você desconfiava. Ninguém nessa república conhece o Samuel tão bem quanto você, inclusive até mais do que eu que cresci com ele. Seu problema, Luke, é achar que o Samuel é alguém fácil, alguém que cederia as suas vontades sexuais só porque você tem isso a qualquer momento.
— Está dizendo que sou atraente até pra você?
— Cala a boca e me escuta! — ordenou.
Colin estava ali fazendo seu papel de amigo, mas naquela situação ele não iria tratar Luke como coitadinho, pelo contrário, era preciso dizer as verdades.
— Estou dizendo que Samuel te ama, babaca. E te amar vai além do que você carrega entre as pernas. Samuel odeia amar você. Samuel se encontra na mesma situação em que me encontrei quando me descobri apaixonado pelo Sean. — pausou, admitir aquilo pra qualquer um era estranhamente constrangedor. O olhar de Luke o irritou, pois o moreno parecia querer sorrir do seu constrangimento. — Tudo o que o Samuel quer é viver em paz, sem que você interfira. Entenda, Luke, nem todo mundo consegue levar um não e reagir bem como se nada tivesse acontecido.
— O Samuel deveria ter me dito que ele não namorava, seria mais fácil.
— Pra quê?
Luke o olhou, quando achou que saberia responder, recuou. Seus ombros se encolheram, desceu os olhos ao colchão e uniu os lábios fortemente.
— Você gosta dele. — Colin o olhou. — E o pior... Assim como ele, odeia isso.
— Eu não odeio ele.
— Mas odeia o que sente por ele.
— Você é bom com palavras, Colin, mas dessa vez devo dizer que está enganado.
Colin sentiu o peso daquelas palavras quando Luke dessa vez o olhou. O moreno não estava sendo grosseiro, muito menos estava sério, mas seu olhar que expressava nada mais, nada menos, que melancolia.
— Eu tenho medo. — Luke admitiu.
— Isso já é um grande passo: admitir.
— Colin, alguma vez você já achou que o Sean traiu você?
Luke tocou num ponto interessante. Traição. Situação essa que Colin se encontrava naquele momento.
— Continue... — falou o pequeno engolindo em seco.
— Sempre disse pra o Samuel que minha família é problemática, a única parte que presta são os pais do Joshua e Noah, mas ainda assim, os filhos deles são problemáticos também. Engraçado, não? — falou reflexivo. — Você sabe que Joshua e eu não nos damos tão bem, não sabe?
— Não sabia.
— A gente não vive se insultando por aí ou se matando aos quatro cantos, isso já aconteceu uma vez... Resultou em um dedo quebrado meu.
— Não quero imaginar isso... — falou ao lembrar que Joshua era sádico e Luke tanto quanto o primo. — Não é uma cena agradável.
— Hoje em dia temos uma relação normal, sem muita intimidade, até o ajudei quando o loirinho lá foi pego pelo Noah, mas sempre fui contra as ideias dele antes, inclusive, sobre o que aconteceu com o Danion... Eu não tenho relação alguma com aquilo. Só duas vezes fiquei ao lado do Joshua: Na briga contra os grandes da Quadra... Você deve saber da grande confusão que tive com o Sean, Octavio, William... E na vez em que o vi em desvantagem contra os caras que o Noah contratou.
— Sobre ser contra as ideias do Joshua, isso você já me contou.
— Mas então, minha raiva com o Joshua aconteceu ainda na adolescência, pouco depois dele sumir e aparecer. Ele voltou diferente, muito diferente. Uma vez estávamos brincando e ele disse que minha mãe traia meu pai. Eu disse que era mentira, fiquei com raiva, muita mesmo, e brigamos. No dia seguinte meus pais declararam término. Joshua simplesmente tinha dito aos meus tios isso, a fofoca se espalhou e foi uma grande confusão.
— E como ele descobriu?
— Eu nunca soube.
— E se foi mentira?
— Não era. — Luke largou o travesseiro. — Porque mesmo após meus pais reatarem, eu vi com meus próprios olhos minha mãe traindo meu pai, na cozinha da minha casa. Foi horrível porque eu não vi um beijo... Vi a boca em outro lugar. — Luke não sendo nada indiscreto. — Não é atoa que odeio jardineiros e secretárias.
— Secretárias?
— Quando minha mãe viajava eu via meu pai com ela. Ele a levava pra casa dizendo que precisava resolver algumas coisas no escritório de casa. No primeiro dia eu achei que ele estava batendo nessa secretária, mas eram apenas gemidos. Ou seja, durante o dia eu via minha mãe com um jardineiro. A tarde meu pai e a secretária. Agora imagina crescer fingindo que não sabia de nada? Eu nem sei se eu sou filho do meu pai... Apesar de que lembro bem que na época meu pai pediu DNA e deu que eu era realmente filho dele, mas isso não vem ao caso... Ou vem, vai saber...
— Meu Deus, Luke.
— Uma vez Joshua estava lá em casa e descobriu que meu pai traia minha mãe, ou seja, descobriu o inverso. Eu o odiava pelo simples fato dele saber o que acontecia na minha família. Joshua não contou pra mais ninguém, mas novamente a relação dos meus pais estava nas mãos dele, sendo capaz de novamente decidir ou não contar pra alguém. Apesar de tudo, aquela era minha família, mesmo que eu tenha crescido num berço de infidelidade. Eu não queria chegar um dia a ter que escolher com quem crescer.
— Eu entendo... E como entendo. É uma pena que isso tenha acontecido, devo imaginar como foi horrível crescer sabendo o que acontecia quando seus pais estavam distantes um do outro...
— Eu já namorei, Colin. — Luke o interrompeu. — Estupidez minha. Desculpe-me, mas namorar é horrível. A pessoa te priva de muita coisa e no final ainda acaba te traindo.
— O quê?
— Eu vivi o pior relacionamento da minha vida com um garoto. Era todo dia uma briga aqui e ali. O primeiro mês de namoro foi ótimo, tudo maravilhas, mas depois dali começou a vim as privações, eu não podia fazer isso, eu não podia fazer aquilo, ciúmes aqui, ciúmes ali... No final acabei ouvindo da boca dele que ele me traia porque não estava mais aguentando.
— Você está falando a verdade? — Colin perguntou surpreso.
— É claro! — falou abismado, não queria parecer mentiroso. Ele se deslocou na cama e se encostou à parede. — É por isso que eu não quero viver isso de novo. É um sentimento horrível o de traição. Primeiro cresci vendo meus pais nesse meio, depois fui traído. Via colegas traindo e sendo traídos, no final, ninguém é fiel a ninguém.
— Mas Luke...
— É verdade, Colin. Até o Sean foi traído pelo Colton. Eu sei que o Edgar foi traído. Sabe aquele primo do Sean? Brandon, não é? Eu sei que ele transou com um garoto aqui no quarto, mas se lembro bem, ele tem namorada. Olha, eu não estou querendo generalizar, até acredito que alguns relacionamento podem dar certo, mas essa coisa comigo não da certo. Eu prefiro apenas curtir, ficar de boa.
Colin poderia fazer perguntas a respeito do Brandon, ficou bem curioso com o que tinha ouvido, mas aquele não era o momento.
— Então você tem medo de que o Samuel possa te trair.
— Sim. Fiquei extremamente puto com ele quando achei que ele tinha traído o garoto da roça, por isso agi daquela forma.
— É até plausível aceitar seu posicionamento que evita se relacionar com alguém, especialmente depois de toda a história que acabei ouvindo de você. Você cresceu vendo traições de todos os lados e aprendeu a não confiar nas pessoas, o que o fez então apenas sair transando feito um louco por aí sem compromisso algum.
— Você teria sido mais um da minha lista.
— Ainda bem que não fui.
— É uma pena.
Colin sorriu.
— Brincadeiras a parte, Luke, é uma pena que isso tudo tenha acontecido com você. Eu reconheço, do fundo do meu coração, que provavelmente pensaria da mesma forma que você se estivesse no seu lugar, mas do ponto de vista diferente, eu queria te dizer que ainda existem pessoas que acreditam no amor. Eu sei, e como sei, ultimamente há tantas polêmicas envolvendo pessoas famosas em casos de traição, aliás, traição se tornou algo tão banal que nem impacta tanto as pessoas. Uma vez, um professor meu me disse que na literatura, naquela época, diversos autores escreviam sobre a infidelidade porque era algo que chocava alguém, hoje em dia quando lemos isso achamos tão comum...
— Você parece uma metralhadora falando.
— Ok, ok. — se recompôs o pequeno. — Em fim, quero dizer que não acho que você deva julgar o Samuel pelo que te aconteceu. Primeiro porque só de olhar pro Samuel sabendo que ele seria incapaz de trair alguém, ele é tão organizado com suas coisas que não cairia nessa ideia estupida. Outra coisa, ele te amou mesmo sabendo que em quase todos os dias você dormia com um ou outro diferente e, ainda assim, ele estava contigo. Você sabe que desde que ele passou a se relacionar com você, Samuel não se envolveu com mais ninguém?
— Na balada isso não aconteceu. — falou ao relembrar, ele até semicerrou os olhos, chateado.
— É claro! Ele foi recusado, estava no direito de tentar seguir. Mas ainda assim ele te via como alguém especial. Me poupe, Luke, todo mundo da república sabia que Samuel gostava de você. E agora ele ainda tá lá no quarto, chorando justamente por ainda gostar. É horrível o que ele está passando.
— Eu sou tão mal assim?
Colin finalmente se levantou. Estava cansado de tanto fiar sentado.
— Não, por incrível que pareça, não. Só é idiota. Tem alguém que te ama aos teus pés e mesmo assim se recusa a aceitar isso. Você gosta dele, Luke, gosta mesmo e isso se torna visível pra mim. Olha só... Você está preocupado com ele.
Luke abaixou a cabeça.
— Eu não vou te forçar a fazer nada. Sinto que já fiz a minha parte. Eu ouvi as duas histórias e conheci mais do seu passado. Torço, mas torço muito pra ver vocês dois juntos. E ah, Luke, relacionamento não é cadeia... Há sim conflitos, é isso que vai fortalecer o casal, mas assim um aprende com o outro. Se Sean souber que estou aqui, por exemplo, vai ser um dos motivos da discussão de hoje.
— Viu aí? Privações.
— Ele só fala, reclama e tem ciúmes, mas sabe que você é meu amigo. Sean só não gosta nada da ideia de saber que você tentou durante muito tempo me pegar. — sorriu.
— Você já vai embora?
— Preciso resolver algumas coisas com ele. Eu quero que você tome um tempo pra refletir. Quer almoçar amanhã comigo?
— Vai ser uma boa.
— Ótimo, então está marcado. E mais uma vez repito: ainda há pessoas que acreditam no amor.
— Eu tô triste, preciso de cuidados. Vai embora não, vem aqui dormir comigo. E se eu morrer?
— Luke...
— Tá, tá, tá... Vai lá pro seu namorado. Manda um beijo pro Sean, diz que eu o adoro. — ironizou.
Colin sorriu, mas não resistiu e voltou pra cama. Ele acabou se lançando aos braços de Luke e o abraçou. O moreno sorriu, de alguma forma confortável pela presença do pequeno.
Segundos depois, Colin já estava de pé saindo do quarto. Resolveu passar no quarto do Caine, mas o colega já não estava mais na república. Sendo assim, o pequeno líder dos tigres saiu daquela casa e uma cena estranha chamou-lhe a atenção.
Uma garota alta de costas para ele, estava parada em frente a porta da república dos tigres. Curioso, Colin ficou no seu lugar aguardando o que aconteceria até que seu namorado abriu a porta.
Sean, a princípio, não tinha visto Colin, mas o pequeno, em toda sua ousadia, atravessou a rua com uma expressão desagradável no rosto.
— Oi. — Colin disse para a garota.
Larah, surpresa, mas nada abalada, esboçou um sorriso no canto da boca e imediatamente encarou Sean.
— Quem é a garota, Sean? — perguntou o pequeno.
— Ele é o meu namorado. — Sean disse para Larah, sério.
— Todos sabem quem ele é. — desafiadora, Larah olhou pra o Colin.
— Sou o assunto da conversa de vocês?
Colin não era burro, muito menos alguém desprovido de coragem. Audacioso, o pequeno cruzou os braços, aproximou-se do namorado, segurou na mão dele e olhou para Larah.
— É você a vadia que alega ter transado com meu namorado?
Sean não pôde deixar de sorrir ao vê-lo daquela forma, tão afrontoso, tão Colin. Larah desfez o sorriso. Colin a encarou estralando o pescoço.
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