Notas iniciais
Chuva, raios e gemidos. (Sugiro lerem o capítulo ouvindo música: http://rdtmusicas.tumblr.com/)

Desfeito o beijo, Carter tocou o próprio lábio e ficou olhando fixamente para Samuel, desacreditado no que tinha acontecido. Seu primeiro beijo com um homem aconteceu ali, naquele instante, sem que sequer esperasse por isso.

Edgar estava tão assustado quanto o primo, duvidando da veracidade do acontecimento. Ele olhou para Carter que estava estático, nem mesmo seus dedos se moviam.

— Vem, vamos embora daqui. Esse lugar tá começando a feder. — Samuel segurou a mão de Carter e o puxou. O garoto se deixou ser levado com facilidade, esbarrando em Luke ao passar.

Luke ouviu quando uma porta se fechou logo atrás dele.

— Isso é sério? — Luke perguntou, abismado.

— Q-quê?! — Edgar o olhou surpreso. — Desculpa, Luke, mas eu preciso conversar com meu primo.

— Ele é seu primo?! — Luke sequer deu-se conta do quão alto falou.

— S-sim. — gaguejou novamente ao passar por ele.

— Diz ao Samuel que eu o mandei tomar no cu! — berrou. — E ele ainda reclama que eu trago um garoto pra transar aqui, e beija outro dentro da república. Esse filho da puta tá achando que é o quê?

— Do que você tá falando?

— Quer saber, vou eu mesmo lá! — Luke bateu o pé e adentrou o corredor. — Abre aqui, caralho! — falou agressivo, batendo na porta.

Samuel abriu sem contestar, mas estava tão furioso quanto o moreno. Aliás, no meio de três loiros, Luke se destacava com seus cabelos negros.

— Como você reclama de mim transando com um garoto dentro do nosso quarto, e beija outro dentro da república?

— Deixa eu entrar e falar com meu primo. — Edgar conseguiu uma brecha pra entrar no quarto e puxou Carter para o canto.

— Quê? Você tem noção da coisa que está falando? Ele é meu namorado! Não são os estranhos que você sai ficando por aí a todo o momento.

E então, para a surpresa do loiro e de todos, Luke sorriu. Um sorriso grande, largo.

— Eu tenho um encontro agora. — e deu um passo pra trás. — Já que você não divide mais o quarto comigo, significa dizer que estou livre pra trazer outras pessoas pra cá. Se você pode, por que eu não?

— Vai se foder, Luke! — bradou o loiro, fechando a porta na cara dele.

— Os gemidos vão ecoar pelo corredor. — gritou Luke, divertido. Em seguida ele saiu da república.

No quarto, restou apenas os três loiros. Samuel estava próximo a porta. Carter estava olhando-o, ainda confuso e Edgar, perdido no meio da confusão, não parava de olhar para os dois.

Samuel voltou a abrir a porta para saber se Luke ainda estava ali e então a fechou em seguida. Aproximando-se de Carter, ele falou:

— Me desculpe por isso.

— Égua! — era muito provável que isso fosse sair dos seus lábios.

A palavra égua tinha vários significados dependendo de sua entonação. Nesse caso, era semelhante a um palavrão, algo do tipo: “Porra, que caralho foi isso?”.

— Você precisa se explicar, Samuel. — Edgar o olhou, cruzando os braços. — O que foi aquilo na sala? Que história é essa de que meu primo é seu namorado?

— Eu estava furioso! Luke me provocou, acabei me descontrolando. — tentou se explicar, mas agora estava frustrado, seus olhos fitando o chão. Em seguida o loiro sentou-se na cama.

— Espera, você fez isso pra fazer ciúmes no Luke? — pegando a situação no ar, Edgar concluiu.

— Não. — ele ergueu a cabeça. — Mas pra provar que eu estou muito bem sem ele.

— Mas vocês não namoravam. Quer dizer, era apenas uma amizade colorida, certo?

— É ele o Luke? Aquele garoto? — Carter questionou, aproximando-se.

— Sim. É esse babaca aí. — Samuel falou, sua voz mudou drasticamente na entonação. Estava realmente triste.

— Samuel, desabafa. Você vai precisar fazer isso agora. — Edgar, ainda surpreso com o ocorrido, sentou-se ao seu lado, fazendo o futuro médico se virar para ele.

— Eu estou gostando do Luke. — admitiu, finalmente, pela primeira vez para alguém da república.

— Imaginei. — falou o menor dos três.

Carter sentou-se no chão de forma indiana.

— Há uns dias eu fui procurar o Luke na universidade e soube que ele tinha saído. Andei bastante, sabe? Mas isso já não importa, apesar de me sentir um idiota por ter andado tudo aquilo, pra no final, chegar na república e o encontrar transando com outro dentro do meu quarto.

— Então foi por isso que você trocou comigo. Eu imaginei que algo de errado tinha acontecido, mas jamais pensaria nisso.

— Seria uma falta de respeito da minha parte se você entrasse aqui e me encontrasse transando com outra pessoa, Edgar. Se isso acontecer, que eu fizesse sem que você soubesse, mas porra, o Luke sabia que eu iria chegar a qualquer momento! Tanto motel por aí...

— Seria constrangedor se eu flagrasse alguém da república transando. — pensou.

Carter, no seu lugar, corou. Ele ainda não tivera um contato sexual na vida, ou seja, era virgem.

— E então eu menti pro Luke dizendo que estava namorando. — foi direto ao ponto, evitando detalhes do que aconteceu no quarto.

— E é aí que eu entro. Mas por que eu, uai? Eu cheguei agora. — Carter questionou.

— Se eu provar pro Luke que estou namorando ele vai me deixar em paz. Porque mesmo quando eu disse que estava namorando e saindo do quarto, ele insistia em me procurar. Eu não quero viver de coisas casuais. Luke é o garoto mais cafajeste que eu já conheci em toda minha vida. Fico imaginando se eu levasse isso pra frente, imagina se eu ficasse apaixonado?

— Quer dizer que você percebeu que começou a gostar do Luke e decidiu fugir? — Edgar perguntou.

— Exatamente. Não sou um idiota, é lógico. Mas quando disse pra ele que essas coisas entre nós iria acabar, ele ficou tirando sarro, achando que eu não resistiria. Foi quando disse que eu conheci alguém. Só assim pra o Luke me deixar em paz.

— Mentindo? Isso não foi uma boa ideia. — Edgar pareceu desapontado com a mentira.

— Que outra eu teria?

— Ser sincero? — Carter disse.

— Eu disse que estava cansado de coisas casuais. Eu falei! — seus olhos arregalaram. — Não vi outra saída se não revelar que eu estava em outra.

— Luke vai descobrir cedo ou tarde. Alguns já sabem que o Carter chegou há poucos dias na Quadra. Essa mentira não vai dar certo.

— Vocês precisam me ajudar nessa mentira! — suplicou. — Pelo menos até eu conseguir outra pessoa.

— Isso é errado, Sam. — Edgar ficou de pé.

— Não estamos fazendo algo errado. Só não quero que o Luke ache que eu estou sozinho. O Carter só vai fingir ser meu namorado na frente dele. Eu também disse que ajudaria o Carter com o Patrick.

Carter saltou do chão. Edgar descruzou os braços, olhando-o.

— Quer dizer, eu disse que o ajudaria na Quadra, apresentando-lhe os lugares, festas... Enfim, incluindo-o na nossa rotina. — corrigiu.

— ‘Cês da cidade grande são loucos demais. — contestou. — O que falta aqui é coice de cavalo pra consertar todo mundo.

— Por favor, Carter, eu prometo que isso não vai se estender por muito tempo. Logo eu digo que terminei e arrumei outro. Mas tudo só pra manter o Luke afastado de mim. — a súplica de Samuel.

Carter era alguém de coração mole e facilmente sentiu pena do que ele tinha dito. Edgar, por outro lado, ainda achava aquilo errado.

— Eu não vou me meter nisso. Vou deixar que vocês se resolvam. — Edgar preferiu deixá-los sozinhos e sair do quarto, mas antes disso, sentiu a mão de Samuel segurando-o.

— Você não precisa dizer nem que sim ou que não ao Luke, ou seja, você não vai precisar mentir. Finja que não sabia de nada.

Edgar saiu sem responder ao sentir que sua mão ficou livre.

Carter permaneceu no quarto, quieto. Samuel voltou-se à ele ainda desejando que a resposta fosse sim.

— O que precisamos fazer? — com facilidade, mostrou-se interessado.

— Sério?!

— ‘Cê vai mesmo me incluir nessa vida de gente de cidade grande, não vai? Edgar é certinho demais. — sorriu animado, mas logo de relance olhou pra porta, temendo que seu primo ainda estivesse ali.

— Claro que eu vou! — falou animado. — Por exemplo, amanhã mesmo o pessoal de medicina vai dar uma festa. É aniversário de alguém da turma, mas literalmente o pessoal do prédio todo foi convidado. Você pode ir comigo.

— É amanhã que eu encho a cara de pinga!

— Pinga?! — Samuel questionou curioso.

— Deixa pra lá. Pode falar.

— Como eu disse, você só vai precisar fingir ser meu namorado. O beijo, bem... Isso não vai mais acontecer. Eu realmente fiquei enfurecido, mas na frente de Luke precisamos agir como namorados. Você já namorou alguma vez?

— Não. — respondeu balançando a cabeça feito um bobo.

— Ok, ok. — disse despreocupado. — Eu vou ajudar você. Por enquanto você só vai precisar concordar com algumas coisas que eu falar se necessário for. Agora presta atenção em tudo o eu for falar agora sobre a história de como nós nos conhecemos...

E iniciou Samuel desejando que Carter decorasse tudo o que ele estava falando para a mentira se firmar e não deixar quaisquer brechas.

Samuel falava animado, gesticulando bastante e deixando escapar algumas gargalhadas. Nem mesmo parecia o garoto arisco de Aroma — como Anita e Colin, duas personalidades fortes da mesma cidade.

Carter, por outro lado, não desfazia o sorriso sempre que Samuel contava sobre as aventuras na cidade grande e o que tinha preparado para ele dali pra frente.

[...]

Era tarde de segunda feira, o final de semana tinha ido embora e os alunos voltaram a sua rotina.

O odiado grupo caminhava sorridente, com exceção do último, caminhando isolado deles, carregando uma bolsa nas costas, as mãos no bolso do moletom e capuz cobrindo a cabeça. Os da frente iam chutando latas de lixo e então gargalhavam alto.

— Anda logo, Pietro! — Andrew gritou, ainda caminhando e fazendo gesto para o garoto se aproximar.

Pietro estava pensativo. Na verdade, estava bastante furioso com Andrew, apesar de não demonstrar isso da maneira que queria. O garoto simplesmente fizera uma piada ridícula envolvendo-o, relacionando-o com os leoninos.

“Pietro agora virou boneca dos leoninos”, foi o que Andrew falou alto e bom som na mesa do refeitório quando todos eles comiam. O que deixou Pietro chateado era porque todos já sabiam que ele morava naquela república e aquilo foi justamente para atingi-lo. Quando todos riram, inclusive os que estavam sentados em mesas próximas, Pietro sentiu uma súbita vontade de levantar na mesa e falar de seus beijos com Andrew, revelando o que o garoto costumava fazer.

Talvez não tenha sido a frase que o deixou com muita raiva, mas enquanto ele fazia certas piadas referente aos leões e a sexualidade dos leoninos, ele beijava a única garota do grupo. Isis, a garota de cabelos tão azuis quanto os seus olhos, piercing no septo e tatuagem de caveira no pescoço.

Enquanto não estava com Pietro entre quatro paredes, Isis era vista com Andrew aos beijos por aí, reforçando a ideia de que ele era hétero. Ninguém sabia do relacionamento escondido e conturbado de Andrew e Pietro.

Pietro acelerou seus passos para acompanhá-los. Eles poderiam ter chegado ao Ninho por dentro da própria universidade, cortando caminhos, mas resolveram dar a volta para que assim pudesse badernar a vontade.

Ao chegar na entrada, viram que o nome de Joshua já tinha sido apagado.

— Droga! Vou precisar pichar mais vezes essa parede.

— Acho que dessa vez vão te descobrir. Eu tentaria agora fazer pichações na Quadra. — sugeriu Ewan, o garoto loiro de moicano que possuía vários piercings no rosto.

— Pietro poderia nos ajudar, já que está com os leoninos. — agora quem tomou a voz foi Chris, o de cabeça raspada e olhos verdes.

As vestes de todos eles eram semelhantes, com exceção de Pietro que se satisfazia com seu moletom, enquanto os demais usavam vestes pretas, rasgadas em sua maioria, deixando-os com ar bem rebelde.

— Pietro poderia nos dizer quando todos eles estiverem dormindo, assim fazemos a festa. — Isis, sorrindo, exibiu outro piercings na língua.

— Vão tomar no cu. — ele falou e passou por todos eles. — Se não me querem no Ninho eu não vou ajudá-los.

— Claro que vai! — Andrew largou Isis e se colocou na frente dele. Seu olhar de orbes azuis eram sedutores e maliciosos. O seu sorriso deixou Pietro desconcertado. — Não me diga que está começando a sentir compaixão por eles, está?

Os demais atrás riram do quão estranho Pietro agiu, sem conseguir pronunciar uma palavra contra a indagação de Andrew.

O líder do grupo passou a mão pelos fios negros na altura do ombro e deu a volta no corpo de Pietro, voltando a ficar com Isis.

Eles voltaram a caminhar e finalmente entraram no Ninho. Pietro ainda continuava a ficar atrás deles, em silêncio, observando-os rir a cada minuto.

As coisas ficaram tensas quando caminhando em direção contrária estava Joshua. O ruivo estava quieto, caminhando e encarando-os, como de costume.

— Olha só... Vai buscar o garotinho? — Andrew não perdeu a chance de provocar. — Cuidado hein, podem acabar descobrindo que ele dorme aqui...

— Toque nele. — Joshua disse. Na verdade ele repetiu o que num outro momento tinha dito ao Andrew. — Apenas faça isso.

A ameaça já estava decretada há vários dias e Andrew ainda não fizera o que Joshua tinha dito.

— Oi, Joshua, consegui ligar pra secretaria da escola. Já podemos levar os novos documentos que faltavam do garoto lá, e hoje é o primeiro dia de aula dele, não podemos nos atrasar. — Caleb apareceu no mesmo instante, conseguindo puxar o ruivo para longe dos demais.

Andrew, sorridente, o viu se afastar mais e mais. O grupo continuou seguindo até os blocos que ficavam aos fundos do Ninho.

Nem todos eles dividiam o mesmo bloco. Isis, por exemplo, morava no bloco do lado e Jaime no da frente. Antes de se despedir de Isis, que tinha coisas pendentes a fazer, Andrew deu-lhe um último beijo na frente de Pietro, que virou o rosto.

Ewan seguiu seu caminho e Isis também. Pietro, Chris e Andrew entraram no bloco, o último.

Era igual a todos os outros, alguns cômodos — quartos, cozinha, sala e banheiro.

Chris jogou-se no sofá e ligou a TV. Andrew seguiu para seu quarto e Pietro foi com ele. Ao fechar a porta, Pietro retirou o capuz da cabeça e as mãos do bolso, ficou de pé no quarto enquanto o outro se deitou na cama.

— Você sabe que não precisava ter vindo. — Andrew falou, relaxando a cabeça em um travesseiro.

— Não queria voltar pra lá. — falou.

— Ou queria transar comigo? — Andrew sorriu e se virou na cama.

Pietro mostrou-lhe o dedo no meio para não admitir a verdade. Ele foi se aproximando da cama e sentando-se nela. Seu rosto desceu ao encontro do rosto de Andrew, beijando-o. Logo ele se deitou na cama, sobre o corpo de Andrew, tendo as costas invadidas pelas mãos do garoto.

Mas naquele instante alguém bateu a porta

— Andrew! — era a voz de Isis.

— Manda essa garota ir embora. — grunhiu Pietro.

— É melhor você ir embora. — disse com firmeza. — Espera só um minuto! — gritou em seguida.

— Vai mesmo me expulsar daqui? — questionou com raiva.

— Acha mesmo que vou abrir mão da minha reputação? E também Isis faz umas coisas com a língua que é uma loucura, Pietro. Agora é melhor você voltar para os leoninos.

Pietro não perdeu tempo, saiu de cima dele e ficou de pé. Quando ele ia abrir a porta, Andrew foi mais rápido e o segurou. Balançou a cabeça negativamente e pediu silêncio.

Em seguida ele puxou sua gaveta devagar e retirou de lá uma sacola pequenina de plástico transparente contendo um pó branco. Ele pôs um pouco sobre a mesa e voltou a se aproximar de Pietro.

Com a face próxima a do garoto, Andrew começou a apertar fortemente o nariz dele e em seguida fez o mesmo em si. Ambos ficaram com o nariz vermelho.

Andrew abriu a porta e por pouco não derrubou Isis ao passar por ele, sequer se desculpou.

— O que estavam fazendo? — ela perguntou. — Por que ele saiu daqui tão furioso?

Andrew limpou o nariz, fingindo-o o limpar, em seguida olhou para a mesa.

— Disse que preferia dividir aquilo com você.

Andrew fechou a porta.

Pietro saiu do bloco e por pouco não derrubou a porta. Talvez fosse melhor pichar muros por aí, como costumava fazer. Estava com muita raiva, muita...

[...]

— Você acha que eu já estrou criando músculos? — Colin perguntou para Caine, olhando os braços e as pernas.

Caine, coitado, estava morto de cansado. Estava se arrastando ao sair da academia. Nem mesmo queria aquilo, sequer cogitava fazer academia um dia. Mas pela amizade, preferiu fazer companhia ao leonino.

— Acho que sim. — disse sem sequer olhá-lo. Nem mesmo estava prestando atenção, apenas queria chegar em casa, tomar um banho bem tomado, comer e se debruçar nos braços de Danion enquanto adormece recebendo cafuné.

— Nossa tão rápido assim? É nosso primeiro dia de academia. — falava ainda se olhando. — Peguei pesado!

— Você não vai vir aqui amanhã. — Sean, trajando as vestes brancas, assustou-os ao surgir atrás deles.

— Que susto, filho da puta! — gritou o pequeno. — O que faz aqui?

— Aqui? Aqui no meio da rua enquanto caminhamos pra voltar pra Quadra? — ironizou.

— Achei que você iria largar mais tarde.

— E larguei. Já viu que horas são? Sete da noite. — retrucou.

— Oi Sean. — Caine, parecia que carregava uma bolsa cheia de metais nas costas, como se não aguentasse o peso dela. Estava destruído fisicamente. Sua voz soou tão fraca que o moreno não pôde deixar de olhá-lo.

— Você é idiota por aceitar acompanhar o Colin. — disse o moreno, nada carinhoso como de costume.

— Olha como você fala com ele! — bradou o leonino, estapeando. — E amanhã eu estarei aqui, aceito a aposta. O que tá valendo?

— Uma massagem. — disse o moreno de imediato, sabendo que precisaria de uma.

— Apostado.

— Lá na república tem remédio pra dores, você vai precisar, é melhor dormir comigo.

Colin já estava fazendo isso ultimamente, rejeitando dormir nos leões por causa do Danion.

— Tá achando que eu vou desistir, Sean? — questionou com um sorriso de deboche no rosto.

— Dan! — Caine, cansado, acelerou seus passos até o namorado, que estava em frente a república de leões. Teria entrado se não tivesse ouvido seu nome ser pronunciado. — Dan! — repetiu Caine.

Caine se jogou nos braços do namorado, mesmo suado, e deitou sua face no peito dele. Ao sentir os braços úmidos do garoto, Danion fez cara de nojo, mas não o largou.

— Onde você estava? Que roupa é essa?

— Academia. — respondeu ele.

— Quê?! Desde quando?

— Comecei hoje, esqueci de avisar. Eu quero cama, quero massagem, quero comida... — falava levantando a cabeça.

— Até amanhã, Caine. — Colin se despediu. Ele não iria entrar em sua república, iria acompanhar Sean até os tigres.

— Colin, precisamos conversar. — Danion falou no momento que percebeu uma oportunidade.

— Não precisamos. — disse o pequeno, andando.

— Porra, filho da puta, a liderança é sua! — retrucou, com raiva.

— Nunca foi. Afinal, você é o dono da república, esqueceu? — o tiro.

Danion só não continuou discutindo porque Caine saiu arrastando-o para a república ao lado, os águias.

Sean gostou da resposta e ficou observando Danion que retribuiu o olhar com raiva.

O branquelo, agora não mais sendo arrastado, mas sim arrastando Caine, seguiu para a república dos águias. O pequeno quase se lançou no chão e dormiu por ali mesmo. Danion, por outro lado, lançava palavrões avulsos sempre que lembrava de Colin, insultando-o até com as mais pesadas ofensas.

— Que loucura é essa de ir numa academia? — Danion perguntou, rumando para o quarto.

— Colin disse que não queria fazer sozinho. — respondeu. — Então eu o acompanhei, achei que também iria convencê-lo a conversar com você.

— Se eu fosse o William, ele certamente já estava se rastejando pra falar comigo. — era nítido o seu ciúme naquele momento quando se comparou com o antigo líder dos leões. — Aquele anão desgraçado nunca entende as coisas.

— Eu tinha dito que certas ações geram consequências.

— Vai ficar contra mim?

— Existem lados quando se trata de você e Colin? — uma sinceridade incontestável.

Danion não falou nada. Já dentro do quarto, ele abriu a porta do banheiro e empurrou o namorado.

— Tira logo essa roupa e entra no chuveiro.

Danion fazia o mesmo, ele retirou suas vestes sem pressa alguma, olhando-se no espelho. Caine, sentado na privada com tampa fechada, retirou seus o calção que estava na altura da sua coxa, em seguida retirou a camiseta de náilon. Permaneceu de cueca ainda sentado, observando Danion se desfazer da última peça que faltava, completamente despido.

O branquelo o olhou, curioso.

— Ainda com isso? — Danion se ajoelhou perto dele e se encarregou de retirar a cueca do namorado, deixando-o despido.

Caine costumava ficar constrangido na frente de Danion quando totalmente pelado, exceto nos momentos em que transavam, obviamente, mas quando a ação não acontecia, ele não gostava do seu corpo nu diante o grande amor da sua vida.

Mas Danion era tão despreocupado com isso, poderia sair e andar pela casa pelado.

O pequeno se levantou com ele e juntos entraram debaixo do chuveiro. Danion não teria tomado banho naquele momento se não encontrasse Caine. Mas precisava tomar, ainda mais depois de Caine tê-lo abraçado suado e fedendo.

Caine ficou de costas no momento em que a água caia em seu corpo, o branquelo se encarregou de ensaboá-lo e também esfregou os cabelos do pequeno, brincando com a espuma.

Caine se virou e o encontrou sorrindo enquanto mexia no seu cabelo, fazendo obras de artes com ele. Foi quando Caine fez o mesmo, pôs shampoo em sua mão e levou aos cabelos do seu namorado, formando um moicano nele.

— Ai. — Caine fechou os olhos.

— O que houve?

— Caiu espuma no meu olho. — falou tentando abrir o outro olho.

Mas Danion somente sorriu e aproximou seus lábios aos de Caine, dando-lhe um beijo molhado embaixo do chuveiro. O pequeno até esqueceu da ardência em seu olho e retribuiu o beijo demorado.

Danion não conseguiu esconder a ereção que se formava. Caine até levou sua mão ao pênis dele enquanto o beijava, ruborizado pela ação.

Desfeito o beijo e terminado o banho, sem sexo, eles saíram se enxugando. Danion tinha algumas roupas no armário de Caine. Eles se vestiram um na frente do outro.

O pequeno se jogou na cama e Danion foi logo em seguida, mas o branquelo encostou-se à cabeceira da cama e o pequeno se enroscou entre suas pernas, sendo abraçado e sentindo o nariz de Danion repousar sem seus cabelos.

— Dan, me faz uma massagem. — pediu.

— Não sou bom nisso.

— Não importa. — e se acomodou melhor entre as pernas do namorado.

Danion então fez o que já tinha visto e recebido. Suas duas mãos foram aos ombros do pequeno e, delicadamente, ele foi pressionando a região, como se estivesse amassando uma massa de pão.

Caine viu estrelinhas e fechou os olhos, sentindo aquela sensação de peso sendo retirada das suas costas. Logico que já tinha recebido massagens melhores, como a do seu irmão Sebastian...

Mas pensar em Sebastian acabou assustando-o quando ele viu ali, se materializar a sua frente, o irmão, que recém tinha entrado no quarto, segurando seu filho Arthur e mais umas três bolsas.

— Sai daqui, Danion. — exclamou o ruivo, não gostando nada da cena que tinha visto.

Sebastian estava diferente. Os anos que se passaram o deixaram com traços mais fortes, os cabelos em um novo corte e acesos num vermelho maravilhoso, penteados. Suas roupas mais compostas, digamos assim: calça preta, camisa social de manga longa na cor branca e sapatos pretos. As tatuagens cobertas e algumas poucas a mostra.

— Sabia! Estava bom demais pra uma desgraça aparecer e interromper o momento. — retrucou o branquelo. — Como entra no quarto sem bater na porta?

— Dan! — Caine, levantando-se, repreendeu o namorado.

— Ele quem começou! — apontou o branquelo.

Arthur estava nos braços do pai, acordado. Era um garotinho bochechudo e de cabelos tão vermelhos como os de Sebastian. Caine não perdeu tempo e tomou o sobrinho nos braços, recém completou nove meses de vida.

Arthurzinho deixou escapar um sorriso banguelo quando encontrou os olhos meigos do tio.

— Seria incomodo pedir pra você cuidar dele por alguns dias? — questionou o irmão mais velho.

— Seria! — Danion logo tomou a voz pelo namorado. — Isso é tarefa sua, não nossa.

— Cala a boca, eu estou falando com meu irmão. Já mandei você sair daqui!

— Seb! — agora Caine repreendeu o irmão.

Sebastian e Danion se encaravam um querendo pular no pescoço do outro. Obviamente, Danion, coitado, não duraria muito numa luta contra ele, mas ainda assim não o temia.

Danion não se via sendo pai, ele nunca foi muito fã de crianças. Também, era nítido que ele não conseguia dar certo com muitas crianças e nem sequer levava jeito para tal. Ele dizia que choro de criança é a pior coisa. Odiava dormir na casa dos tios e ser acordado pelos primos que saltavam na cama dele.

Caine já sabia disso. Sem contar que toda vez que ele tentou segurar ou se aproximar de Arthur, o bebê abria a boca em um escândalo, chorando.

— Mas onde está a Lydia? — perguntou o menor.

— Lydia está viajando. Lembra que ela iria para Tóquio? Então, aconteceu que ela viajou antes de ontem. Leo e Santiago foram com ela, isso me deixou mais seguro. Eu acabei de receber uma promoção no meu trabalho, mas para isso eu vou precisar viajar para uma conferência, uns testes para isso. A babá disse que não podia passar das 19hrs, porque tinha seus afazeres e filhos pra cuidar, então a dispensei por uns dias. Eu não teria tempo de levar o Arthur para os nossos pais, a viagem seria longa e eu já começo a fazer a cumprir horas amanhã. — explicou o ruivo, tudo de uma só vez.

— É, e-eu posso sim cuidar dele, mas tem certeza que é uma boa ideia? — Caine olhou ao redor. — É a Quadra, você sabe...

— Eu confio em você. Claro, só devemos combinar que esse garoto deve se manter longe do meu filho. — Sebastian fuzilou o branquelo.

Mas Danion, contrariando o que ele tinha dito, aproximou-se de Caine que segurava Arthur no braço. Quando o ruivinho bateu os olhos em Danion, que olhava-o, logo espremeu os olhos e abriu a boca, num choro que começou silencioso, mas depois se estendeu, tornando-se alto e agudo.

Danion tapou os ouvidos e Caine se afastou dele, balançando Arthur em seu braço e produzindo sons como “shh”, tentando acalmá-lo.

— Viu? Nem meu filho gosta de você. — Sebastian aproximou-se do irmão e filho, tocando os fios vermelhos de Arthur.

— Eu também não gosto dele. — soou infantil e cruzou os braços, mas Danion estava extremamente magoado com aquilo. Não queria sair por baixo. Era até engraçado ver suas reações diante o choro de Arthur, Caine morria de pena de como ele ficava com raiva, mas ao mesmo tempo sentindo-se péssimo por isso.

Arthur parou de chorar e voltou a sorrir para o tio.

— É apenas por uma semana.

— Sério que eu vou ter que dormir com o choro dessa criança? — Danion, sentado na cama, retrucou.

— Você tem a sua república. — rebateu o ruivo.

— Ah, vai tomar no cu. — respondeu o branquelo irritado, dando as costas para ele e mexendo no seu celular, ouvindo-os.

— Vai ser uma semana puxada. — continuou o ruivo ao seu irmão. — E bem difícil, porque vou ficar longe do meu filho.

— Lydia sabe disso?

— Sabe sim. Eu esperava essa promoção há tempos. Ela mesma sugeriu deixar o Arthur com você, embora muito preocupada. Nessas duas bolsas tem tudo que é necessário para ele, inclusive algumas anotações sobre a alimentação, horário da soneca e etc.

— Você já vai?

— Meu ônibus sai daqui a pouco, se você olhar da janela vai ver um carro lá fora, é meu patrão. Precisei passar em casa para pegá-lo, eu também não esperava que fosse ser promovido assim. Recebi a notícia pela manhã e liguei para Lydia, avisando. Seu celular... Tá desligado. — falou e olhou para o irmão.

Caine então se lembrou que a bateria tinha morrido enquanto ele estava em aula.

— É verdade.

— Então você fica com o celular 24hrs, sempre que precisar de ajuda é só me ligar ou ligar para Lydia. — disse firme. — Bem, tudo o que você precisar vai encontrar nas bolsas, deixei uma terceira preparada por precaução. Mas acho que tem o suficiente para uma semana. Caso precise de algo, está aqui a chave da minha casa. — disse entregando-o. — Eu volto na manhã de segunda feira para buscá-lo.

— Vou adorar cuidar do Arthurzinho. — disse sorridente, realmente empolgado, apesar de preocupado.

— Eu sei que vai. Ele gosta de você. Agora preciso ir. — Sebastian olhou para o relógio.

— Já vai tarde. — provocou o loiro.

— Que você fique bem longe do meu filho. — ameaçou o ruivo. — Aliás, evitem barulho na república. — disse autoritário. — Se eu tivesse mais tempo, iria reunir todo mundo para avisar. Eu ainda mando aqui. — não perdia a autoridade nunca.

— HÁ-HÁ-HÁ-HÁ! — ironizou o branquelo.

Sebastian tocou a nuca do seu irmão e levou seus lábios a testa dele, beijando-a de leve.

— Eu te amo. — sussurrou para o irmão. Em seguida beijou a testa do filho, sorrindo para ele. — Eu também te amo. Papai logo volta, e o tio Caine vai cuidar de você. — e depositou um último beijo.

Sebastian ainda receoso, ficou mais alguns segundos no quarto. Estava com o coração doendo só por deixar seu filho ali, mas era uma necessidade. Olhando para Danion e o fuzilando, ele saiu do quarto.

Caine o acompanhou ainda segurando Arthur no braço. Danion permaneceu no quarto, mas assistiu da janela Sebastian se despedir mais uma vez do irmão e em seguida o viu entrar no carro que o esperava.

Caine voltou para o quarto segundos depois, ainda sorridente para Arthur, ignorando totalmente a presença de Danion naquele quarto. Era um tio babão.

— Então, sabe que isso é loucura, não é? — disse o branquelo.

— Nos sairemos bem. Olha só, seremos pais por uma semana. — e então sorriu para o namorado.

Danion revirou os olhos. Caine tinha sim o sonho de ser pai, diferente de Danion que nem sequer pensava nisso.

— Como você vai ajustar seu tempo na faculdade?

— Nós daremos um jeito. — e continuou sorrindo para Arthur.

O bebê retribuiu o sorriso, deixando escapar gargalhadas gostosas de serem ouvidas.

[...]

A chuva caía forte.

Hugh apenas escutava seu baquear lá fora, sem que pudesse apreciá-la. Seu quarto era o último e sem janelas, mas os trovões eram audíveis. Era assustador, mas estranhamente confortável.

O leonino olhou o relógio na parede e constatou que era uma hora da manhã. Estava preocupado, duas vezes preocupado: Por Calvin e por Pietro. Calvin saiu há menos de meia hora para mais um trabalho e Pietro... Bem, Hugh não o via desde que ele saiu de manhã para a aula.

Era bem verdade que ele não deveria estar preocupado, mas tratando-se daquele grupo do qual Pietro pertencia, nunca conseguia imaginar momentos bons. E desde que descobriu que ele era usuário de cocaína e vivia a pichar muros, foi então que sua preocupação tornou-se maior.

Hugh saiu do quarto e caminhou pela casa silenciosa, as luzes apagadas. Era bem provável que todos os outros membros estivessem dormindo para que fossem as aulas na manhã seguinte.

Pela janela, Hugh observou a chuva desabar dos céus cada vez mais forte. A república da frente — dos tigres — tinha todas as luzes apagadas. Sentiu inveja pelos membros de todas as repúblicas, que provavelmente dormiam e acordariam maravilhosamente bem sem aquele cansaço de matar.

— Não consegue dormir? — uma voz atrás de si o assustou.

Era Patrick, que estava apenas usando um short.

— Não. Estou ansioso. — respondeu.

— Alguma apresentação amanhã?

— Também. — e se virou. — E você?

— Insônia. Mas eu não sofro disso, só que hoje eu não estou conseguindo dormir. Resolvi dar uma volta na casa, achei que pudesse encontrar alguém acordado.

— E me encontrou. — Hugh sorriu.

— Há quanto tempo está aqui?

— Cheguei agora a pouco. Mas acho que eu deveria dormir, não? Amanhã eu não vou conseguir acordar e tampouco conseguir apresentar o trabalho.

— Soube que tem morador novo nos águias? — Patrick acabou não respondendo a pergunta dele.

— Não. Quem?

— Carter, é seu nome. Ele tem um sotaque bem estranho, é meio... Estranho. Segurou minha mão e quase não largou.

— Talvez eu o conheça mais tarde. Pelo menos ele está morando nos águias, teria pena se fosse morador novo na nossa república. As coisas ultimamente estão tão agitadas... Danion e Colin...

— Mas você sabe que isso se deu por conta da entrada do Pietro, não sabe? — Patrick não estava brigando, mas seu questionamento não foi agressivo.

— Sei. Tenho culpa no que está acontecendo. Eu queria conversar com o Colin, mas do jeito que ele anda tratando o Danion, sinto que é capaz de ele ser duas vezes pior comigo. Tenho medo, sabe?

Patrick sorriu.

— Mas sem sombra de dúvidas ele é o único que consegue por esse lugar em ordem. Danion vem me fazendo de pombo correio e eu tô odiando isso. — falou irritadiço.

— Pietro não vem causando problemas, vem? Ele só entra na república e passa o dia no quarto.

— Ainda bem. Eu mesmo não iria suportá-lo. Desculpa, mas...

— Eu entendo... — disse, desviando o olhar. — Bem, vou voltar para o quarto. Tentar dormir...

— Eu também. Não posso me deixar vencer pela insônia. — e sorriu.

Patrick encostou-se em Hugh e o segurou pela cintura. Juntos caminharam até que se separassem no primeiro corredor.

Hugh retornou para seu quarto, mas decidido a aguardar mais alguns minutos buscou por seu violão, sentou-se com ele na cama e passou dedilhar algumas notas, acordes soltos, sem pretensão de entoar alguma música conhecida.

Era ridículo — pensava ele.

Hugh largou seu violão e ficou de pé. Iria desligar a luzes quando a porta foi aberta bruscamente.

Diante dele estava Pietro.

Seus cabelos caídos e grudados sobre a testa, as roupas e mochila completamente molhadas. Suas mãos estavam sujas de tinta e ele pôde constatar isso. Os olhos profundos de extremo ódio acabaram assustando Hugh, mas este não se mostrou intimidado.

Gotas de água formavam uma poça ao redor do garoto, que despreocupado com isso apenas olhava para Hugh.

— Você está horrível... — as palavras escaparam por entre os lábios de Hugh.

— Foda-se. — xingou o outro.

Pietro largou a bolsa no chão do quarto e permaneceu no lugar que estava.

— Tem uma toalha em alguma gaveta! — Hugh deu as costas e se ajoelhou no armário, encontrando de imediato a toalha.

Ele voltou caminhando devagar ao perceber que Pietro não reagia.

— Algum problema, Pietro? — Hugh perguntou. Pietro não respondeu. — Bem, deixa eu te ajudar.

Hugh, sem medo, aproximou-se dele. Sozinho tocou o zíper do moletom do garoto e o abriu e depois entregou a toalha a ele.

— Eu vou buscar um esfregão pra enxugar o chão.

Hugh saiu do quarto e foi até a dispensa. Ele encontrou o esfregão e quando retornou ao quarto, encontrou Pietro já sem o moletom.

As tatuagens sendo exibidas, os poucos músculos destacados no abdômen e braços. Mas seus olhos, raivosos, não paravam de encarar Hugh, que sozinho enxugava a poça d’água que tinha se formado no chão.

Hugh desceu seus olhos ao chão, o olhar já estava começando a incomodá-lo. Depois de enxugar, o garoto voltou e deixou o esfregão no lugar que antes tinha encontrado.

— Como você pode ser tão idiota? — Pietro, do seu lugar, questionou.

— Como?

— Você está me ajudando. Eu odeio você, odeio todos nessa república.

Algo não estava certo, as ações de Pietro demonstravam que ele estava com raiva. Hugh, contudo, permaneceu no lugar olhando-o.

— Ah, não tem nada demais, não? — sorriu.

— Para de sorrir! — berrou.

Hugh temeu que alguém ouvisse aquilo e fechou a porta no mesmo instante.

— Desculpe. — disse com a voz baixa. — Eu só queria ajudar.

Pietro fechou os punhos, enfurecido.

— Você deveria tirar essas roupas molhadas pra não pegar um resfriado, sabe? Você tem outro moletom? Tá um pouco frio, não? Eu posso emprestar o meu.

— Puta que pariu! Vai se foder, garoto.

Hugh voltou a olhar para as mãos fechadas de Pietro, estavam sujas de tinta, mas o que destacava nela era uns ferimentos nos nós dos dedos.

— Você brigou? — Hugh, aproximando-se, questionou.

— Não importa. — disse de imediato, escondendo a mão.

— Me deixa ver isso.

Hugh teria tocado a mão dele se Pietro não o empurrasse. Hugh deu alguns passos para trás e o olhou. Ele engoliu em seco diante a atitude.

— Eu não quero a sua ajuda. — falou, parado.

— Por que você se recusa? Eu não estou fazendo nada de errado, estou? — perguntou tristonho.

— Cara, qual a parte do eu te odeio que você não entendeu? Ninguém aqui é meu amigo.

— Eu queria ser...

Pietro mostrou os dentes num sorriso sádico.

— Você é idiota. É por isso que todo mundo abusa da sua bondade e facilmente consegue te provocar. Você sequer reage.

— E pra que se meter em confusão? Qual a necessidade disso?

— Se você não provar que é forte as pessoas vão te tratar como um lixo.

— Eu não me importo de ser visto como um lixo. Nada disso tem importância, eu só quero ter uma vida tranquila nesse lugar caótico.

— Você é fraco, Hugh. — era a primeira vez que ele tinha dito o seu nome.

— Sou. — preferiu concordar com o que ele tinha dito, evitando prolongar com a discussão — Desculpe.

Os punhos de Pietro se fecharam novamente, seu maxilar ficou mais destacado revelando seu grunhido. Sem mesmo perceber o que estava fazendo, uma raiva súbita tomou conta de Pietro de tal forma que ele deu um passo a frente e ergueu, socando o rosto de Hugh.

Os óculos caíram no chão.

A ação foi tão rápida, mas a surpresa aconteceu ali.

Seu punho sequer encostou a face de Hugh. O leonino estava parado em sua frente, os fios encaracolados caídos sobre a testa e os olhos, gentis, permaneceram encarando-o. Mas o punho que teria o socado estava parado no ar, preso a mão do mais doce morador daquela república.

— Por que, por que você vive pedindo desculpas?! Puta que pariu! — explodiu o garoto.

Pietro tentou puxar sua mão, mas não teve força o suficiente para isso. Hugh a segurava com força, ainda olhando, em silêncio.

Olhares.

— Eu me importo com você. — Hugh finalmente disse, ainda sem largar a mão dele.

— Você não deveria. — retrucou Pietro.

— Por que? — Hugh questionou.

Hugh não recebeu a resposta em palavras, mas sim em ação. Ação esta que ele não conseguiu interromper como o soco.

Como o raio que caiu lá fora o que aconteceu foi na mesma velocidade: um lábio estava unido ao outro.

Um trovão ressoou.

Pietro tomou a atitude de beijar Hugh.

A mão que pressionava seu punho perdeu força e aos poucos foram descendo, retornando para seus lugares de origem.

Nos primeiros três segundos, Hugh se assustou, mas quando notou que uma língua pedia permissão para invadir sua boca, cedeu. Por alguns segundos ficou de olhos abertos, notando os olhos fechados de Pietro, e, nesse momento, ele também fechou os seus.

Ao som da chuva e trovões, o beijo aconteceu. Tão inesperado como um raio que parte o céu e ilumina um bairro.

As mãos de Hugh foram até os quadris de Pietro, enquanto o outro afundou uma mão nos seus cabelos, tocando-lhe a nuca.

Era bom, era maravilhoso. Uma batalha de línguas.

O beijo seguiu, eles não se importavam com o tempo. Até se o céu caísse; eles não estavam se importando com isso.

Esqueceram-se por alguns segundos aquela discussão de outrora, entregando-se ao momento. Pietro sentiu seu quadril ser pressionado e, consequentemente, fez do beijo mais quente.

Contudo, Hugh parou de mover seus lábios e afastou seu rosto, ainda de olhos fechados. Quando os abriu, encontrou Pietro encarando-o. Os dois, por alguns segundos permaneceram trocando olhares.

Hugh estava constrangido e surpreso de um lado. Pietro tinha as orelhas vermelhas.

Pietro deu um passo pra trás, virou seu rosto. O que tinha feito? O questionamento martelou em sua cabeça. Hugh não parava de olhá-lo, sequer conseguia pensar em outra coisa senão no beijo de segundos atrás.

— Saia daqui! — Pietro pediu, empurrando-o novamente.

— O que acabou de acontecer? — exigiu explicação.

— Saia daqui! — bradou.

Assustado, Hugh deu um passo para trás, mas ele não saiu do quarto, era seu por direito. Hugh apanhou seus óculos e o pôs sobre a mesa de cabeceira, apagou as luzes, acendeu o abajur e, ainda tocando o próprio lábio ele se virou para ir até sua cama, contudo, um corpo estava novamente próximo ao seu.

Pietro não conseguia compreender suas ações, mas seu corpo estava em abstinência, em desejo, ardia em vontade de tomá-lo para mais um beijo.

Olhares em meio a penumbra.

Hugh estava tão surpreso que se esqueceu de que deveria estar dormindo. A cena do beijo não parava de passar em sua mente, diversas vezes, como se um filme travasse e repetisse apenas aquela cena. Ele gostou.

Gostou? Era o Pietro!

Outro beijo inesperado. Beijo roubado, Beijo molhado.

Hugh fechou os olhos novamente e, sentiu ser guiado até a cama, em seguida foi lançado sobre ela.

Ele ouviu passos, sentiu sua cama afundar, mas não se atreveu a abrir os olhos.

Algo úmido tocou o seu pescoço. Hugh sentiu um rápido arrepio. E mais uma vez ele sentiu novamente outro beijo úmido em seu pescoço. Em seguida, Hugh teve a mesma sensação de quando dormiu na mesma cama com Pietro.

Pietro estava encolhendo-se junto ao corpo de Hugh, mas dessa vez ele não buscava ser aquecido para dormir...

Um terceiro toque úmido em seu queixo.

Hugh estendeu a mão até o outro abajur na mesa da cabeceira, conseguindo enxergar através penumbra que se formou.

Pietro estava montando sobre ele, tomando o seu pescoço e maxilar em beijos até que finalmente seus lábios foram preenchidos mais uma vez. O que acontecia? Ele mais uma vez não entendeu, mas não negou.

Os lábios de Pietro foram descendo devagar, voltando a tomar o pescoço de Hugh, em seguida ele puxou a camisa do garoto, retirando-a e permaneceu descendo cada vez mais com os beijos. Sua língua brincou dando voltas no mamilo de Hugh por alguns segundos até que ele voltasse a beijá-lo novamente.

Hugh, por outro lado, não sabia como agir. Deveria se mover? Deveria tomar as ações? Do jeito que Pietro era, ele temia acabar estragando o momento.

A ereção de Hugh já havia se formado, Pietro pôde senti-la roçar naquele atrito de corpos que se beijavam. Foi por isso que, impaciente, desceu sua mão até as calças do garoto e quase arrancou o botão fora.

O pênis de Hugh saltou para fora da cueca quase de imediato no momento em que ele a abaixou junto da calça. Contudo, Hugh não se atreveu a descer seus olhos, sentiu o velho constrangimento tomando conta.

Pietro o tocou, estava quente, rígido. Ele o sentiu pulsar em sua mão. Era grosso, uniforme, e não parava de produzir sua própria lubrificação.

Hugh deixou escapar um gemido ao toque daquela mão em seu membro, porém seu gemido foi abafado com um novo beijo.

Há quanto tempo ele não fazia aquilo? Estava nervoso, muito nervoso.

Então não se fez mais questionamentos. Agiu, com a pouca experiência que tinha, não temeu.

Suas mãos que estavam repousadas na cama subiram até as costas de Pietro, descendo até a calça dele, invadindo-a para tocar-lhe as nádegas. Pietro o ajudou a abaixar a própria calça e juntos, retirando todas as vezes um por cima do outro, ficaram despidos.

Hugh pôde sentir o membro de Pietro sobre o seu.

Os beijos eram interrompidos em intervalos curtos, enquanto eles roçavam o pênis um no outro, num atrito prazeroso.

Ousado, Pietro voltou a descer com seus beijos. Eram leves, delicados, e descia muito devagar, até repousar na barriga do garoto. Hugh sentiu arrepios, vários arrepios, fazia cócegas, mas era bom, suportável.

De joelhos, beijando barriga de Hugh, Pietro levou suas duas mãos ao pênis do garoto e o segurou. Seus lábios saltaram da barriga até a glande, tomando parte da lubrificação e sugando o falo até a metade.

Hugh até remexeu-se na cama e deixou escapar outro gemido. Seu movimento foi semelhante a uma penetração, porém, seu pênis estava na boca de Pietro.

Sugando-o devagar, Hugh apenas deleitou-se com aquela sensação que tomava-lhe conta. Era bom, muito bom. A língua de Pietro desceu pelas laterais do falo, brincando numa das virilhas, onde proporcionou ainda mais prazer ao Hugh, depois voltou ao falo.

A qualquer momento alguém poderia entrar por aquela porta... Mas quem disse que eles estavam preocupados com isso?

Sugando novamente a glande, a ação durou quase dez minutos enquanto Hugh preenchia o quarto com seus gemidos, controlando-se para não ejacular.

Pietro fez o mesmo trajeto de beijos até voltar a tomar os lábios de Hugh. Fios negros estavam colados na testa de Hugh, seus cabelos foram invadidos pelas mãos de Pietro enquanto novamente o beijava.

Eles rolaram pela cama de solteiro, com beijos e mais beijos. Em determinado momento, Hugh estava segurando o falo de Pietro, masturbando-o enquanto beijava-o com vontade. Pietro virou seu rosto para o lado e deu sinal de que queria seu pescoço tomado, e isso aconteceu.

Hugh repetiu a ação de Pietro, beijou-lhe o pescoço e desceu até tomar o membro do garoto em seus lábios.

Nervoso? Sim. Muito.

Era a segunda vez que ele fazia aquilo. Porém, pensar em fazer em Pietro o deixava nervoso, afinal, era o Pietro... Tudo bem que eles dois estavam rolando por entre lençóis e o revoltado parecia totalmente entregue ao momento, mas não queria ser péssimo, não queria que no dia seguinte o garoto pudesse esfregar na cara dele que ele não sabia transar.

Pietro afundou seus dedos nos cabelos de Hugh e foi guiando-o enquanto era chupado. A ação não demorou muito, pois Pietro o puxou para cima e juntos voltaram aos beijos.

— Minha bolsa. — disse Pietro.

Hugh apanhou seus óculos e buscou pela bolsa do garoto no quarto com pouca iluminação.

Pietro estava na beirada da cama enquanto Hugh estava atrás dele.

Ele a encontrou caída próxima a cama, com dificuldade, se esticou e a arrastou para mais próximo. Dali, Pietro abriu um zíper dela e retirou de lá um único preservativo.

Hugh ficou em seu lugar, tenso. Foi chegado o momento.

Pietro virou-se para ele, mas estranhamente, ele não tinha mais aquele olhar raivoso que Hugh costumava encontrava, quer dizer, era o mesmo olhar, mas ele demonstrava estar tão constrangido, que chegava a ser uma expressão tão meiga: uma mistura de raiva e constrangimento.

Pietro rasgou o preservativo com os dentes, ainda o olhando-o.

A surpresa veio quando ele desceu sua mão até o falo de Hugh, fazendo-o se deitar com a barriga para cima e, delicadamente, colocou-lhe o preservativo.

Hugh engoliu em seco.

— V-você, você é...

— Cala a boca! — grunhiu em meio ao constrangimento. Suas bochechas ardiam. — Ou eu te mato se concluir a frase.

Pietro era passivo. E odiava admitir isso a qualquer um, mas não conseguia sentir tanto prazer sendo ativo numa relação, apesar de já ter sido, contudo, ser tomado era a coisa que mais lhe dava prazer. Amava ser pego de jeito, ser preenchido.

Mas admitir? Jamais. Era como levar numa ofensa, apesar de ser isso o que lhe dava prazer.

Pietro, odiando olhar aquele sorriso que se formou no rosto de Hugh, virou-se para ele, ficando de lado, seus olhos fitaram o chão.

Hugh por alguns segundos ficou parado, mas então tomou a ação de se mover, ainda deitado, ficando por trás de Pietro, ambos de lado.

Uma mão de Hugh passou corpo de Pietro e o segurou pelo pescoço, conduzindo-o a um beijo. A outra mão, livre, tomou a lubrificação da camisinha e, delicadamente, enfiou-se por entre as nádegas de Pietro, tocando-lhe o ponto sensível.

Um suspiro.

Pietro fechou seus olhos a aquele toque. Por isso que amava aquilo.

Hugh voltou a tocar o próprio membro, segurando-o pelo falo até aproximar-se ainda mais das nádegas de Pietro. O garoto fechou seus olhos enquanto tinha uma mão sobre seu pescoço, deitado de lado com as costas arqueadas.

Hugh forçou a entrada, Pietro sentiu-se invadido. Ele fechou olhos, contraiu os lábios e gemeu abafado. Centímetro por centímetro foi invadindo-o, ele suportou. Quando finalmente sentiu o corpo do outro colar ao seu, respirou fundo.

Hugh permaneceu parado dentro dele, apenas ouvindo a respiração de Pietro, que estava com a cabeça virada para Hugh, o pescoço tomado pela mão dele e os lábios abafados pelo beijo.

Hugh, sentindo seu pescoço doendo pela posição, voltou a olhar pra frente e repousou sua cabeça no próprio braço, onde parte estava para fora da cama.

— Posso? — Hugh, educado como de costume, perguntou.

Um gemido e um balançar de cabeça deu a resposta positiva.

Hugh se moveu tão delicadamente, como se estivesse rebolando. E isso arrancou um novo gemido de Pietro, que com a permissão dele, deu liberdade para novos movimentos.

Foram leves, vagarosos, mas a medida que os gemidos de Pietro se tornavam intensos, Hugh sabia que a dor inicial estava indo embora.

E isso realmente aconteceu. Pietro com os olhos fechados, gemia a cada movimento dentro de si, mordendo o próprio braço pelo prazer sentido.

Hugh, sabendo da vulnerabilidade de Pietro, voltou a segurá-lo pelo pescoço e o fez virar o rosto mais uma vez, para beijá-lo. Os movimentos foram se intensificando mais e mais em Pietro.

Seria um absurdo pensar que Hugh estava dando-lhe mais prazer que Andrew na cama?

Mandando os pensamentos para longe, Pietro foi puxado por Hugh, posicionando-se, de costas, acima dele. Hugh desceu suas duas mãos para as coxas de Pietro e levantou suas pernas. Pietro tinha sua face bem próxima aos seus próprios joelhos encolhidos em seu corpo enquanto era penetrado.

Pietro era realmente vulnerável na cama com Hugh. Quem o via, jamais conseguia pensar nele entregue daquela forma para Hugh.

O mais doce dos leões o soltou e Pietro rolou para o lado, ficando de bruços. Ele respirava com dificuldade, ofegante. Mas acabou recebendo o corpo de Hugh por cima dele, penetrando-o mais uma vez.

Os dedos entrelaçaram-se na cabeceira da cama. Ao observar suas mãos e as mãos de Hugh juntas, Pietro não soube o que sentiu... Mas uma sensação estranha preencheu o seu corpo.

Pietro tocou a cintura de Hugh, impedindo-o de prosseguir. Hugh saiu de dentro dele e Pietro se virou, agora de frente para ele. Suas pernas se afastaram e Hugh notou que ele queria permanecer sendo penetrado.

Quando foi invadido mais uma vez, Pietro fechou seus olhos e não viu quando os lábios do outro se aproximou do seu, recebendo a língua do outro dentro da sua boca, da mesmo forma que recebia o pênis dele dentro de si.

Corpos suados, lençóis molhados.

Eles transaram sobre a penumbra.

Pietro tinha o pescoço tomado, mas também tomava o pescoço de Hugh para si. Beijos e mais beijos, gemidos abafados.

Hugh intencionou seus movimentos e, sabendo que chegaria ao ápice, explodiu em gemido, dando um forte movimento dentro de Pietro e caindo sobre o corpo dele, ofegante.

Pietro parou de gemer no momento em que ele parou com os movimentos, mas deixou escapar um gemido quando Hugh saiu de dentro dele devagar. Sozinho ele passou a se masturbar, mas a mão de Hugh, mesmo que cansado, repousou sobre a dele, tomando a ação.

O ápice também chegou para ele e ele gemeu uma última vez, seguido de suspiros logo em seguida.

Silêncio.

O silêncio que impregnou o quarto era até esperado, tendo em vista que eles dois acabaram de transar. Pietro, o garoto rebelde que vivia a sair em confusões e Hugh, uma das vítimas preferidas do grupo de delinquentes.

Rivais na vida, amantes na cama.

E então, Pietro sentiu o duro e doloroso arrependimento, que veio quase que de imediato após alguns minutos do orgasmo.

Notas finais
Capítulo surpresa pra vocês. Beijinhos, amo todo mundo. Comentem! ♥ Minhas aulas começaram na faculdade começaram, socorro. Respondo os comentários assim que puder, beijos.