Notas iniciais
Impulsivos.

Estavam os três sobre a mesa. O horário comum entre a maioria dos estudantes acabava tornando o refeitório, ou como preferem chamar de restaurante universitário, um ponto de encontro. Era preenchido por vários alunos de diferentes cursos que tomavam o tempo para almoçar.

— Hugh, você está estranho. — Kai comentou, vendo-o silencioso.

Hugh sequer teve a oportunidade de contar o que tinha acontecido na noite anterior. Sentia muita vontade de revelar isso, contudo, algo o prendia: o medo. Não medo do julgamento, aliás, eram seus amigos e segredos costumavam não existir entre eles, apesar dos apesares...

— Calvin, por exemplo. Seu medo se dava pelo próprio Pietro.

— Não dormi direito. — revelou.

— Consigo ver suas olheiras daqui. — Calvin se aproximou para tocar em seu rosto, subindo os óculos que ele tinha para averiguar melhor. — Estudando?

— Tínhamos uma apresentação hoje.

E mentiu, finalmente, o garoto conhecido por odiar mentiras. Sentia-se horrível, até considerou que seus amigos não estivessem acreditando nele, pois seus olhos não paravam em um ponto fixo.

— Se saiu bem? — Kai perguntou.

— Claro! Acho que devo ter tirado uma das maiores notas da sala.

— Queria seu cérebro. — Kai, frustrado, disse.

— E o Franklin? — Calvin questionou.

— Disse que me encontraria mais tarde. Vamos sair hoje...

— Vão transar? — Calvin, nada discreto, questionou.

— O que?! — Kai quase saltou da cadeira. — Calvin!

— Nós somos amigos, oras. Não tem nada demais contar sobre essas coisas.

Hugh permaneceu quieto, ainda pensativo. Sequer prestava atenção no que os colegas conversavam.

— E-eu sei. — sentiu suas bochechas queimarem. — Mas a pergunta me pegou de surpresa.

— Tudo bem, tudo bem. — e sorriu ao vê-lo desconcertado.

— Ficou sabendo de que alguém das repúblicas menores foi espancado? — Kai tentou fugir do assunto.

— Sim. Sabe o motivo?

— Ainda não. Isso foi ontem a noite, mas fiquei sabendo hoje pela manhã.

— Eu acho que vou no banheiro. — Hugh se levantou de repente, interrompendo-os.

— Eu acho que já vou pra fila, ela diminuiu um pouco. — Kai também se levantou.

— Vou com você. — Calvin também se levantou.

E os três seguiram, sendo que Hugh seguiu numa direção oposta a deles. Não deu quinze passos e logo sentiu alguém tocar em seu ombro, quando se virou, lá estava Andrew, sorridente.

— Longe dos amigos? — Andrew questionou.

— Eles estão na fila. — respondeu, olhando sobre os ombros do garoto.

Andrew olhou para trás. Hugh aproveitou a oportunidade para voltar a andar, mas acabou dando de cara com Pietro, de braços cruzados. Aquilo certamente causou impacto nos dois, principalmente em Hugh que sentiu-se ameaçado pelo olhar do garoto.

— Desculpe. — Hugh, como de costume, falou.

Pietro novamente fechou os punhos, odiava esses pedidos de desculpas.

— Vamos, Pietro. — Andrew chamou o garoto.

— Pode ir na frente. — falou.

Andrew demorou alguns segundos olhando aquela cena, mas deu de ombros e caminhou para longe deles.

Hugh, ainda parado na frente de Pietro ficou olhando-o, depois tentou andar para o lado e assim seguir caminhou e Pietro acompanhou seu passo, novamente posicionando-se na frente dele.

Foi quando Pietro o puxou pelo colarinho, para mais perto dele, contudo, acabou concluindo que isso foi um erro quando sentiu os olhos e lábios do garoto mais próximos de seu rosto. Pietro piscou desconcertado, mas voltou a seu momento de raiva, dizendo:

— Se alguém descobrir o que aconteceu, eu juro que te mato! — rosnou entredentes.

Depois disso, ele o soltou.

— Qual o seu problema! — Kai interveio entre eles. — Você quer apanhar?! — Kai encarou Pietro.

— Kai, deixa. — pediu, puxando o amigo.

— Eu posso cuidar disso. — Calvin também se aproximou e encarando Pietro.

— Não, deixa que eu cuido! — Kai deu um passo a frente.

— Kai, deixa! — Hugh bradou, puxando-o novamente.

Pietro apenas sorriu e, antes de se afastar, olhou uma última vez para Hugh.

Calvin e Kai ficaram olhando Pietro se afastar sem sequer notarem que Hugh estava voltando para o lugar de antes, sentando-se na cadeira em silêncio, pensativo.

Pietro pareceu se tornar duas vezes mais insuportável após o sexo. Pietro quando sentiu o arrependimento lhe invadindo, levantou-se da cama e recolheu suas coisas. Dali então, Hugh só o viu algumas horas depois, quando o garoto o ignorou por completo na república e, agora, esse era o segundo contato que eles tiveram após a relação.

— Eu quero quebrar a cara dele. — Kai falou, estralando os dedos. — Por que você nunca deixa?

— Nós transamos. — e soltou, sequer se importando com a ameaça feita pelo garoto e, pior ainda, revelando que tinha mentido para os amigos. Hugh não conseguia guardar uma mentira por muito tempo.

— O quê?! — Kai, mais uma vez, quase saltou da cadeira.

— É uma piada? — Calvin indagou.

Mas Hugh não demonstrou estar mentindo, aliás, os amigos confiavam em toda palavra dita por ele, não era à toa que nem questionaram quando ele mentiu ao dizer que estudou pela madrugada.

— Eu não sei como aconteceu, só aconteceu. Não me façam perguntas, por favor. — falava com os olhos fixos na mesa. — Nós podemos conversar sobre isso longe daqui.

Correspondendo o pedido do amigo, eles realmente não fizeram perguntas. Calvin e Kai ficaram se entreolhando, conversando através dos olhares. Muitas perguntas estavam presas nas gargantas, mas notando o silêncio de Hugh, respeitaram.

— E então, vamos comer? — Hugh arrumou-se na cadeira e adotou um novo semblante.

— Comer? Opa! — Luke, tocando os ombros de Kai, sentou-se ao lado dele e pôs os pés sobre a outra cadeira livre. — Achei que não fosse encontrar algum conhecido.

Os três amigos agora não entenderam nada daquilo, mas conheciam Luke, não eram próximos, por isso estranhou a aparição dele na mesa.

— O que foi? Vocês são leoninos e eu sou um águia. Nossas repúblicas são amigas, não incomodo sentando aqui, incomodo?

— Não. — Hugh balançou a cabeça. — Só quê...

— É estranho? Dá em nada. Esse é um ótimo momento para nos conhecermos. Aliás, você é um tigre, não? Como vai o Sean? — perguntou olhando para o Kai. — Ai, o Sean... — Luke sorriu, relaxando ainda mais na cadeira e envolvendo seu braço ao ombro do Kai.

Por uns dois minutos, eles ficaram em silêncio. Luke pouco se importava, seus olhos estavam fixos numas sete mesas a frente dele, onde um certo loiro estava sentado acompanhado do seu namorado — um falso namorado.

Samuel e Carter estavam juntos numa mesa, almoçando. Na verdade, apenas Carter comia enquanto o outro olhava. Ele cedeu sua ficha de estudante para o garoto, já que ele não era matriculado na universidade.

[...]

Era um lugar espaçoso, grande. Tinha as mesmas dimensões dos blocos da mesma universidade, contudo, não tinha diversos andares, mas apenas dois. No andar debaixo, havia um balcão ao centro e ao redor, vários corredores de livros. Livros de todos os tipos, gêneros e tamanhos. Havia também alguns sofás azuis numa das paredes.

Uma escada ficava ao centro, atrás do balcão. Ela levava pra o primeiro andar, lugar com muitas mesas redondas e cadeiras e na cor azul. Mais corredores de livros ficavam nas laterais. Uma só parede era tomada por uma fileira de computadores.

As paredes eram de vidro do piso ao teto — exceto a que tinha os computadores. Qualquer um poderia enxergar o que acontecia lá fora e quem estava do outro lado, também poderia enxergar os estudantes dentro da biblioteca da universidade.

Brandon Ferazza estava sentado numa mesa, sozinho. Dois livros e um caderno aberto próximo ao seu notebook. Brandon costumava usar óculos para estudo, eram quadrados e de hastes prateadas.

Concentrado, ele não percebeu quando seu primo sentou-se logo a frente dele.

— Deveríamos comer. — Charles sugeriu.

— Prefiro estudar. — falou sem olhar para ele. Brandon fazia algumas anotações no seu caderno. — Meu período vai ser mais intenso que o anterior.

— Você literalmente fez da biblioteca sua casa.

— Você também. — Brandon finalmente o olhou. Retirou seus óculos e pôs sobre o caderno e, em seguida, pôs a caneta.

— Que seja. Cansei de estudar. — Charles, audacioso, fechou um dos livros do primo.

— Você odeia a comida daqui. Que merda você vai aprontar agora?

— Nenhuma. — obviamente estava mentindo.

Brandon fechou o segundo livro e depois o seu notebook. Aos poucos foi guardando seus materiais na mochila azul. Diferente de Charles, ele usava vestes brancas, enquanto o outro apenas a camisa.

— Pelo horário a fila não deve estar enorme. — Brandon falou ao olhar o seu relógio de pulso cinza com pulseiras marrons.

Charles se levantou ao ver que seu primo também se levantava. Juntos desceram as escadas e seguiram. Até chegaram no restaurante universitário, andariam alguns metros, cerca de uns dez minutos.

— Por que eles tinham que estar aqui? — Charles, nada feliz, falou ao entrar.

Brandon, diferente dele, ficou calado, guardando pra si a péssima imagem que via de Kai e Luke. O loiro não podia demonstrar o que sentia para seu primo.

Já Charles, depois de chegar ali, quis voltar. Tinha concluído seu objetivo.

— Perdi a fome. — falou querendo dar meia volta. — Esse lugar tá infestado de gente babaca.

— Agora eu fiquei com fome. — Brandon falou, olhando de relance para a mesa de Kai. — Só preciso ir no banheiro.

Kai estava sorrindo. Luke conseguiu roubar a atenção dos garotos, mesmo que o interesse desse tenha sido provocar Samuel que estava na mesa distante.

[...]

Samuel sentia seu corpo explodir por dentro, como se a qualquer momento ele fosse se levantar dali e correr pra esbofetear o Luke. Como ele já pode está paquerando outro? Pensou. Mas sabia que fazer isso era se render as vontades dele. Se seu objetivo era esquecê-lo, faria isso.

— Vem cá! — e Samuel não perdeu tempo em juntar as duas mãos sobre as de Carter que estava em cima da mesa.

— O que foi? — Carter, desentendido, questionou.

— Faz parte do plano, agora sorri pra mim. — pediu.

E Carter sorriu. Sorriso grande, largo, bobo que fazia suas covinhas se formarem abaixo do olhar meigo.

Do outro lado, Samuel viu Luke virar o rosto e sorrir para Kai. Era como se um jogo tivesse sido iniciado. Da mesma maneira que aconteceu quando Colin era alvo dos dois: Quando Samuel tentava conquistar o pequeno e Luke fazia o mesmo. O jogo reiniciou.

— Se o Edgar descobrir que eu tô aqui, ele me mata!

— Relaxa, você queria conhecer a universidade, não queria?

— Queria, uai. Mas o Edgar deve achar que eu ‘tô na escola, não avisei que viria comer aqui.

— É o intervalo do almoço, você pode sair pra comer em qualquer lugar ou comer por lá mesmo. Não tem nada de mal nisso. Eu consigo arrumar uma carona pra você até sua escola, não se preocupe.

— Isso aqui é enorme, égua! — Carter olhou para todos os lados, mas parou novamente quando viu Patrick entrando.

E repetiu-se a cena em que ele esqueceu tudo ao redor e congelou seus olhos no garoto, completamente perdido. Patrick era quase um deus para ele, roubando-lhe toda a atenção do mundo.

— Carter! Carter! Não perde a linha, senão o Luke percebe! — Samuel o despertou.

— Desculpe, desculpe. — falou desconcertado. — Fiquei olhando pra uma mosca. — mentiu.

Samuel não falou nada, mas sorriu. Dessa vez um sorriso sem a intenção de provocar Luke, mas pela mentira contada. Ele também tinha visto o Patrick entrando.

— Tome sua ficha. Só os estudantes podem comer aqui, eu já paguei por ela. É só ir na fila. — falou olhando para a fila indiana formada.

— E você?

— Não estou com fome. Ficarei aguardando. Pode ir, não tem segredo. Estão vendo aquelas pessoas ali na frente, elas vão te servir, basta apenas pegar a bandeja.

— Disso eu sei, uai. Não sou tão burro assim. — e se levantou.

Carter foi sozinho para a fila, do seu rosto o sorriso não se desfazia. Se sentir no mundo dos universitários era uma conquista, apesar de ainda está na escola, no ensino médio.

Enquanto caminhava, ele novamente acabou encontrando Patrick que estava de pé ao lado dos companheiros de república. Como podia? Sequer piscava ou olhava pra frente, até que sentiu seu corpo bater em algo.

— Tá cego?! — Charles bradou, encarando-o.

Carter pulou pra trás.

Charles estava na fila concentrado em seu celular, mas acompanhando o movimento dela.

— Égua! — falou assustado com o grito do outro. — É que, é... — não conseguiu falar nada.

— Égua?— Charles questionou, estranhando o sotaque dele. — Você tá me insultando? — falou seguindo a fila.

— Não! Quer dizer... — mas Carter novamente prendeu seus olhos de Patrick, que estava caminhando em sua direção. “Ai, meu Deus!” pensou.

— Anda garoto! — alguém atrás dele falou.

Quando Carter despertou, notou que Charles já não estava próximo dele. Por isso foi empurrado por um estranho e, consequentemente, novamente acabou batendo em Charles, dessa vez caindo por cima dele.

— Puta que pariu! — bradou o tigre. — Qual o seu problema?!

Levantando-se, Carter voltou a se desculpar:

— Ele me empurrou! — Carter apontou para o desconhecido atrás dele.

— Foda-se!

— Algum problema, Carter? — Samuel apareceu de repente.

— Oi, amor! — Carter soltou de repente.

Chamá-lo de amor era um dos planos deles, mas que deveria ser feito apenas na frente do Luke, contudo Carter estava tão nervoso com toda aquela situação, que deixou escapar a palavra de repente.

Charles olhou para Samuel e em seguida para Carter. A expressão de desgosto foi de imediato.

Samuel teria ficado calado se não tivesse visto a expressão de Charles se formando, e do jeito que era, como morador de Aroma, não guardou as palavras:

— Típico dos tigres... — perguntou para Charles.

— O que você disse?

— Essa cara de quem tem dor de barriga, é típica dos Tigres. Sabe quem são? — Samuel fez uma breve pausa. — Uns babacas que moram a frente da minha república. Ah, esqueci, você mora lá... — ironizou.

— Essa mesma república é a mais poderosa daquele lugar.

— Por causa de quê? Dos Ferazzas? — Samuel gargalhou. — Porque poderosa... Sinto informar, mas não vejo nada demais nela.

O explosivo Charles, em honra do seu sobrenome, logo o empurrou, espalmando as duas mãos no peito do loiro e o lançando para trás.

Samuel retribuiu o empurrão na mesma intensidade.

Carter, próximo deles, sequer se importou com isso. Seus olhos, mais uma vez, ficaram presos em Patrick que parecia retribuir o olhar, mas na verdade olhava para a confusão na fila.

— Que feio, Samuel! — A voz de Luke acabou chamando a atenção dos dois. — Isso é lugar pra brigar? Seu namorado não esperava isso de você, hein.

Mas Luke não estava repreendendo-os de verdade, pelo contrário, estava novamente provocando o loiro.

— Sai daqui, Luke. — pediu.

— Então, você não precisa bater nele. — Luke, debochado, falou para Charles. — É melhor não tocá-lo, vai que o namorado dele fique possesso e parta pra cima de você.

— Vocês são doentes? — Charles questionou.

— Sou. — Luke, ainda debochado, respondeu. — Doente por uma bunda branca. — olhou de relance para Samuel.

— É engraçado como vocês daquela república são nojentos.

— Pela sua cara, você adora tomar um pau na bunda, por que tá chamando isso de nojento? — Luke o encarou, suas expressões travessas irritavam Charles. — Aguenta 19cm? Podemos experimentar, daí você me diz se acha nojento ou não.

E, da mesma maneira que foi com Samuel, Charles empurrou Luke. A provocação foi o suficiente para retirá-lo de sua zona de conforto.

Carter, naquele instante, despertou.

— Quer mesmo brigar? — Luke, sem sequer se mover, o olhou, ainda divertido.

Mas Charles não respondeu, partiu pra cima do moreno. Luke conseguiu desviar, segurou a mão do garoto e a girou, quase a torcendo. A expressão de dor na face de Charles foi de imediato.

O pequeno então o chutou, conseguindo acertá-lo na coxa. Luke o largou e recebeu um soco no braço usado para se defender. Em seguida, conseguiu segurar Charles pela cintura e derrubá-lo no chão.

Quando ia socá-lo no rosto, acabou sendo erguido do chão. Brandon o agarrou por trás, afastando-o de seu primo.

— Porra, me pega por trás e não paga nem um sorvete? Adoro pegadas fortes assim. — Luke falava enquanto tentava descobrir quem tinha o agarrado daquela maneira.

Luke então olhou para os pés de quem o segurava e viu a meia do garoto amostra. Era branca e listrada em cores azuis e cinza. E Luke se lembrou.

Quando percebeu que estava livre, Luke olhou para trás. Era Brandon, sério. Brandon já não estava nada feliz em tê-lo visto com Kai minutos antes e, agora, prestes a bater no seu primo.

Um Ferazza defende outro Ferazza, mas se matam entre si.

— Deixa que eu cuido desse garoto. — Charles, levantando-se, logo tentou se aproximar de Luke.

Mas Brandon pôs o braço na frente dele, impedindo-o de prosseguir.

— Vamos embora daqui. — disse o loiro.

— Qual foi? Eu estava começando a me divertir. — Luke falou, esfregando o braço que doía pelo soco que recebeu de Charles.

— Esse garoto acha que é quem?

— Foi você. — Luke ignorou Charles vindo ao seu encontro e olhou para Brandon. — Safadinho! — e sorriu maliciosamente, mesmo ao caos. — Eu vi um par de meias iguais as que você está usando. Meu armário estava...

E foi então que Luke recebeu um soco em cheio no queixo, sem sequer ter tempo de reação. Brandon, assustado com a conclusão da frase do moreno, não viu outra saída senão silenciá-lo daquela forma. O medo misturado a raiva que estava sentido de Luke por tê-lo visto com o mexicano, resultou nisso.

Luke levantou sua cabeça em seguida cuspiu. Sua saliva estava vermelha. Um sorriso se formou, seus dentes vermelhos, tomado pelo sangue. Luke tocou o próprio queixo, acariciando-o.

— Ótimo, sangue. — Luke falou ao tocar os próprios lábios e observar seu dedo. — Então eu só vou parar quando ver você sangrar. — disse.

E não deu outra, Luke quem investiu sobre o loiro.

Brandon deu um passo pra trás, mas Luke conseguiu socar seu estômago. Quando Charles notou o espaço em aberto, tentou bater no moreno, mas Samuel já estava em sinal de alerta e interferiu, puxando-o.

Carter, sem saber o que fazer, afastou-se. Descobrindo naquele momento o quão agitadas eram as coisas daquele lugar.

Luke recebeu um novo soco no rosto e em seguida um chute na coxa, mas conseguiu revidar quando puxou o loiro pelo braço e usou do joelho para atingir em cheio do estômago do garoto. Em seguida fechou o punho e o levou ao nariz do tigre, atingindo-o em cheio.

Brandon viu tudo ficar escuro, dificultando sua defesa. Contudo, ele tentou se concentrar no que acontecia. Puxou a mão do Luke e usou do cotovelo para atingir o tórax do garoto, mas o moreno desviou.

Brandon avançou novamente e cegamente, mas quando olhou pra frente, o que viu foi uma cadeira ser lançada contra seu corpo, ele quase conseguiu desviar, mas o objeto atingiu sua perna.

Luke apanhou uma bandeja de uma das mesas próximas e arremessou no loiro forte o suficiente para ouvir um gemido de dor escapar por entre os lábios do garoto quando o objeto atingiu sua cabeça.

O Luke sádico despertou.

O moreno chutou em cheio o peito de Brandon, fazendo-o arrastar pelo chão e cair de braços abertos. Luke pisou no braço do loiro que gritou de dor, depois o pegou pelos cabelos. Brandon socou o Luke, mas tomado pela adrenalina e sadismo, o moreno ignorou a dor sentida. Luke o lançou de volta ao chão e desceu seu joelho ao peito do futuro médico. A dor tomou conta do tigre, que usou das mãos para tentar retirar Luke de cima dele. Luke caiu de lado e foi atingido no estômago pelo cotovelo do loiro.

Brandon tentou se levantar, mas Luke o puxou pela camisa e colocou-se em cima dele mais uma vez, em seguida depositou um novo soco no loiro, que já estava tonto com os socos já recebidos. Luke viu a face dele ensanguentada, mas pouco se importou. O moreno fechou seu punho e ergueu o braço.

— Luke! — Samuel, que estava no mano a mano com Charles, gritou pelo seu nome ao ignorar completamente a briga.

Mas Luke o ignorava, nada ao redor dele existia mais.

O prazer.

Samuel sabia como Luke reagia numa briga, o viu brigar duas vezes. E ele era exatamente como seu primo Joshua, cego numa luta, o sangue era seu combustível, quanto mais sangue via, mais prazer sentia em machucar.

Luke foi pego pelo pescoço por alguém, forte o suficiente para depositar dor na região, depois, quando afastado, viu quem era: Kai.

Mas Luke sorriu, apenas sorriu. O sorriso com dentes vermelhos pelo sangue.

— Não! — Samuel, largando Charles, colocou-se na frente dele.

— Sai da frente, Samuel. — e afastou para o lado.

Contudo, encontrou Kai de braços abertos na frente do Brandon que estava caído. Charles, em um ataque de fúria, avançou contra Luke. O moreno dos águias viu apenas olhou para o lado, apanhou um garfo e, quando ia investir, Charles recuou a tempo.

Brandon, com dificuldade, ficou de pé. As vestes tomadas pelo vermelho do seu próprio sangue.

Luke recebeu um soco no estômago do próprio Samuel.

Sem ar, ele recuou e então, seus olhos observaram o loiro a frente, tomado em desespero.

— Para! — bradou.

— Qual foi? — questionou sem ar.

Mas Samuel então o pegou pelo braço. Luke não questionou. Samuel segurou na mão de Carter e saiu os arrastando para fora do refeitório, temendo que a situação apenas piorasse.

Luke resmungava. Sim, resmungava como uma criança que queria seu doce de volta, insultando Samuel por estar arrastando-o dali, contudo, não reagia, apenas se deixava levar. Ele agora agia como o velho garoto de ar travesso.

— Você precisa se tratar! — Samuel disse ao larga-lo fora do refeitório. Algumas pessoas tinham os seguido, mas Samuel olhou furioso para todos eles.

O loiro seguiu caminhando sozinho, segurando na mão de Carter. Luke, vendo aquilo, o seguiu.

— Você queria que eu apanhasse? Ele me bateu!

— Ele não se compara a você numa luta! — rebateu o grito.

— O quê? Aquele garoto tirou até sangue de mim e você tá preocupado com ele? Está vendo aqui? — Luke cuspiu.

— Égua, mas ‘cê pegou pesado, hein. — Carter falou.

— Cala a boca, ô da roça. — retrucou.

— Respeita meu namorado! — Samuel bradou.

— Ah, claro, seu namorado! Eu aqui machucado e você preocupado com seu namorado!

— Quê?! — Samuel parou bruscamente.

— Porra. Eu só acabei me metendo nessa briga por sua causa.

— Por minha causa? Eu não levantei uma placa dizendo “Luke, por favor, me defenda!” Pelo contrário, você apareceu lá pra bancar o valentão e me provocar.

— Ah, Samuel, vai tomar no cu. — Luke deu as costas para o loiro.

— Vai você! — gritou do lugar que estava.

Samuel ficou parado por alguns segundos. Carter, respeitando o silêncio dele, sentia-se deslocado. Queria saber das horas, sentia que iria perder os restos das aulas na escola e aquela era sua primeira semana.

— Vem, eu vou dar um jeito de te levar de volta. — falou sem olhar nos olhos do garoto.

[...]

— Por favor, Dan! — Caine pediu.

— Eu vou ter que sair do quarto só por que o menino tá chorando? — retrucou, colocando o celular no bolso.

— Ele está com sono, tenho certeza. Deixa eu fazer ele dormir, depois você volta.

— Puta que pariu, estou sendo trocado por ele? — levantou-se da cama.

— Não é hora pra sentir ciúmes, Dan. Ele é meu sobrinho, poxa.

— É por isso que eu não quero ter filhos, olha só pra isso. — bateu pé e se aproximou do namorado, em seguida olhou para Arthurzinho, chorando e mostrou a língua para o bebê, seguido de uma careta. — Tão chato quanto o pai.

— Danion! — Caine deu as costas para o namorado, balançando o pequeno em seus braços, tentando acalmá-lo.

— Tá, tá! — levantou as mãos. — Fui trocado por um bebê!

O branquelo se aproximou da porta e, quando foi a abrir, ouviu seu namorado falando:

— Aproveita e vê e leva a mamadeira dele. — Caine apontou para o objeto em cima da mesinha ao lado da porta.

Danion o olhou boquiaberto, virando o pescoço para olhar o namorado. Apanhou a mamadeira e saiu do quarto reclamando, pronto para atravessar a sala e ir para a cozinha fazer o que o namorado mandou, mesmo que estivesse detestando isso.

No trajeto até o outro cômodo parou ao ver a porta ser aberta por Colin, o pequeno, como de costume, o ignorou. Danion nem mesmo existia para ele.

— O Caine tá tentando por o sobrinho dele pra dormir, é melhor nem atrapalhar. — disse de imediato.

Colin parou ao ouvir o choro vindo do quarto.

— É isso mesmo que você está pensando. Aquele garotinho veio infernizar minha vida nessa república.

Colin revirou os olhos e deixou pra falar com Caine depois. Deu meia volta e se preparou para sair da república, mas antes que pudesse fazer isso, viu a porta ser fechada pelo branquelo.

— Vai ficar fugindo? — Danion perguntou.

— Eu vou gritar. — Colin o ameaçou.

— Normal. Você é escandaloso. Agora fica quieto e me ouve.

— Eu não quero ouvir, não quero falar. Agora me deixa sair.

Colin aproximou-se dele e tentou afastá-lo, mas Danion não se mostrou tão fraco enquanto era empurrado pelo menor. Ele se manteve firme encostado à porta.

Colin também não estava dando tudo de si. Como o próprio Sean falou, ele sentiu bastante dor em seu corpo, inclusive, ir a universidade foi horrível.

— Para de palhaçada! — Colin, desistindo de o empurrar, o fuzilou.

— Colin, a república precisa de você. — falou o branquelo.

— Eu não tenho mais nada com a república, em breve vou sair de lá. — uma mentira, obviamente, mas ele a deixou escapulir por seus lábios no momento de raiva.

— Quê?! Você vai sair? William vai te matar se você se tornar um tigre!

Colin pensou em dar uma resposta, mas a engoliu antes que ela saísse. Era melhor não contestar a afirmação de Danion, tendo em vista que era realmente uma verdade.

— Me deixa passar, Danion! — Colin bateu o pé.

— Não sem antes você falar que vai voltar a ser líder.

— Eu não quero, você é o líder! Quer dizer, o dono da república. Não é assim que você se intitula?

— Ah, para de bobeira. — disse o branquelo com uma expressão carrancuda.

— Bobeira? Você não sabe o que diz, Danion. Então fique com a república, já que você é dono.

— Colin! Aqueles garotos me detestam e eu detesto todos eles... Isso é verdade. — Danion levou seus orbes ao teto, pensativo. — Além de que é um saco liderar, puta que pariu, é muito problema, muito mimimi, muita coisa pra organizar.

— Então por que contestou a minha ordem? Você viu no que isso resultou. Teria me deixado liderar quieto, sem sair se metendo nas minhas decisões.

— Vou te fazer uma pergunta direta: Você acha que William não te contestaria?

Colin estava com uma frase pronta para qualquer que fosse o argumento do branquelo, mas o questionamento o fez engolir as palavras e, até mesmo, mostrar-se vulnerável a ela. Colin tossiu.

— Você sabe que ele faria o mesmo. Aquele garoto precisa de ajuda.

— Aquele garoto...

— Ai você vai me falar que ele é um problema? Porra, você namora o Sean! Sabe muito bem o quanto sofremos na mão dele na antiga geração dos leoninos.

— Isso não vem ao caso. Não é essa a questão.

— E qual é a questão?

— Você! Eu já não estou mais nem me importando com a presença daquele garoto na república. A questão aqui é você ir contra minha ordem na frente de todos. Você não consegue medir as consequências de seus atos.

Dessa vez Danion não soube o que falar. Colin o encarou.

— Está vendo aí? Sabe que se conversasse comigo em particular as coisas poderiam ser resolvidas. Mas você fez questão de esfregar na minha cara que tem mais autoridade que eu. Billy viu isso como um espaço para me desrespeitar como líder, espelhando-se na sua atitude.

— Ah, aquele garoto é um pé no saco, sempre foi. E vocês duvidando do Pietro...

— E você confia nele? — Colin até sorriu maliciosamente.

— Não. — respondeu de imediato.

— Nem eu. Então é melhor ficar de olho aberto. — falou e deu um passo pra frente, voltando a tentar a abrir a porta.

— Você só vai sair daqui quando voltar a ser líder. Se eu permanecer lá, vou acabar colocando todo mundo na rua, e aí? — brincou.

— Você é babaca, Danion. Me deixa passar, desgraçado! — bradou.

Mas então, diante do silêncio que vinha do quarto, eles ouviram Caine por a cabeça pra fora e fazer um som de “shh”. Em seguida voltou pra dentro do quarto.

— Porra, hein. — sussurrou o branquelo.

— A república é sua, unicamente sua, exclusivamente sua.

— É, mas você esquece de que quando eu era dono dessa república aqui — referiu-se aos águias — eu impedi o William de te expulsar justamente porque eu era dono dela. Filho da puta ingrato.

Colin, novamente, não conseguiu responder no mesmo instante.

— Custa perceber que eu não fiz nada por mal? Tá, eu sou filho da puta mesmo, adoro ver o circo pegar fogo, mas nesse caso, não.

— Danion depois a gente conversa. — deu-se por vencido, finalmente, mas ainda estava pensativo.

O branquelo sorriu.

— Vai pensar direitinho?

— Não sei. — Colin estava mais furioso por começar a compreender a situação e, consequentemente, tornando Danion um vitorioso nessa discussão. Talvez considerar o argumento dele sobre permitir que William não o expulsasse, o convenceu.

— Olha que eu não deixo você sair, hein...

— À noite a gente conversa, agora sai daqui! — e o empurrou, dessa vez sendo bem sucedido.

Colin abriu a porta e saiu de lá. Danion então foi lavar a mamadeira, esquecendo-se de que estava puto por ter sido expulso do quarto, mas no momento em que segurou a esponja e olhou pro objeto, resmungou.

[...]

Ele pediu pra ficar sozinho assim que chegou à república. Subiu as escadas com dificuldade, mancando, e abriu a porta do seu quarto sentindo as dores em seu corpo. Lançou a mochila de um lado e, os óculos, quebrados, colocou sobre a mesa.

Brandon sentou-se na cadeira e pôs as mãos no joelho, gemendo baixinho de dor a cada movimento.

Sentia-se péssimo e constrangido ao se lembrar do que aconteceu e da sua derrota para Luke em frente a todo refeitório. Questionou-se sobre o soco que deu início a confusão. Seria melhor ficar quieto? Ele não sabia, contudo reconheceu que o susto que tomou quando o moreno pronunciou as palavras o fez tomar aquela atitude de socá-lo e impedi-lo de concluir. Charles estava ali, quer dizer, muita gente estava ali.

Seus olhos azuis foram até a maçaneta e a viu girar, logo em seguida, na porta, Sean apareceu, encostando-se à soleira e cruzando os braços.

— Vai, pode me chamar de fraco. — disse o loiro, voltando a descer seus olhos para o chão, ainda com as mãos apoiadas nos joelhos.

Sean não falou nada, permaneceu em silêncio, olhando-o. Não sentia pena. Deveria? Ao finalmente entrar no quarto, ele fechou a porta e puxou uma cadeira, colocando-a à frente da cadeira do loiro. Pôs uma perna sobre a coxa e cruzou os braços.

— Já soube que você brigou com o Luke.

— Eu não queria ter brigado. — confessou o loiro.

— Quis bancar o valente?

— Não. Ele sabe. Ou eu acho que sabe.

— Uma hora a verdade vem à tona. Não adianta esconder, ela sempre é revelada, queira cedo, queira tarde. Para muitos ou para uma única pessoa, não importa.

Lembrou-se do que aconteceu com sua amizade com Octavio, mas não a tornou assunto naquele momento.

— Por que você não está lá batendo nele? — Brandon perguntou, olhando-o, finalmente.

— Porque isso é um problema seu. Eu faria isso se ele tocasse no Colin, mas você foi idiota por tentar brigar com ele. — pausou e, diante do silêncio do primo, prosseguiu — Brandon, você não sabe as histórias do passado, não queira bancar o valentão só porque consegue lidar com aqueles idiotas do Ninho, que, aliás, não sei como ainda não foram exterminados pelo Joshua.

— Ele teria batido no Charles se eu não intervisse.

— Deixava-o bater. Mas será mesmo que você apanhou só por isso?

— O que quer dizer?

— Eu conheço o Luke... — permaneceu olhando-o nos olhos. — Sei o quão sádico ele pode ser numa briga, mas ele não costuma sair brigando por aí. Algo você deve ter feito para isso.

— Ah, Sean, não começa. — falou, chateado.

— Luke deixou uma cicatriz no Octavio. — revelou o moreno. — Luke, com um bastão, quebrou o braço de alguém que quis acabar com minha república.

— E daí?

— E daí que você deu sorte. — esfregou a verdade na cara dele. — Luke só parece um idiota, mas na briga ele não brinca até sujar suas mãos de sangue.

— Falando assim, até parece que você tem medo dele.

— Ninguém me causa medo. Já briguei com o Luke, Brandon, ele teria me esfaqueado se não fosse o Octavio. Luke joga com tudo que encontra, fora isso, eu teria quebrado a cara dele. — convencido, falou. — Posso dizer que empatamos. Qualquer dia você vai descobrir como, de fato, se iniciou, a rivalidade entre Ninho e Quadra.

Brandon reconhecia que Sean era bom de briga, não duvidou do que ele estava falando.

— A verdade é que Luke tem mais experiência que você numa briga de rua. Você mal saiu das fraldas, chegou na Quadra não tem sequer dois anos. — continuou o moreno.

Ele teria prosseguido conversando com Brandon se Charles não abrisse a porta.

Quando Charles entrou no quarto, Sean não viu mais motivos de ficar ali. Levantou-se logo em seguida e fingiu não vê-lo. Olhou para Brandon mais uma vez e saiu do quarto.

Charles teria fechado a porta se, para a surpresa do loiro, Kai não aparecesse na soleira.

Assustado, Brandon fixou seus olhos nele por quase um minuto. Kai também ficou olhando-o, mas tal conexão foi interrompida por Charles.

— Você não pode ficar aqui. — falou, fechando a porta.

Kai pôs a mão e o impediu.

— Não é você quem decide isso. — e entrou no quarto.

— Deixei-o, Charles. — pediu o loiro.

O garoto olhou para seu primo desacreditado. Brandon não esboçou reação a expressão dele, apenas ficou observando Kai de pé na sua frente. Brandon depois olhou para Charles e levou seus olhos até a porta, dando-lhe um sinal.

— Que a mão pesada dos Ferazzas caia sobre você. — disse entredentes para seu primo.

Charles saiu do quarto e nem mesmo fechou a porta.

Kai acompanhou os passos do pequeno e, satisfeito de vê-lo longe dali, rumou até a porta e a fechou. Em seguida, voltou a olhar para Brandon, sentado.

— Eu precisava ver como você estava. — disse o mexicano um pouco constrangido por isso.

— Fico feliz que tenha me procurado. — admitiu.

— Deveríamos cuidar disso. — observou Brandon dos pés a cabeça. — Tira a roupa e vai pra cama. Eu acho que tenho algo pra ferimento nas minhas coisas.

Brandon também tinha um quite de primeiros socorros, teria sugerido que procurasse em sua gaveta, mas se negava a rejeitar as ações do mexicano, preferido obedecê-lo. Qualquer minuto na presença dele era valioso, tendo em vista que Kai estava cada vez mais afastado.

O loiro assim fez. Enquanto Kai procurava em suas coisas, Brandon se desfez da camisa, deixando-a no chão. Erguer os braços foi uma tarefa difícil, pois tudo doía. Ele também observou alguns hematomas espalhados em seu corpo. O loiro retirou os sapatos e meias, sentando-se na cama apenas com a calça branca, suja.

Brandon ficou observando Kai de costas com o corpo inclinado e mãos na penúltima gaveta do armário. Cada movimento que ele fazia só o tornava a lembrar-se do momento íntimo que aconteceu. Pensamentos impuros em meio a uma situação daquela. Quando o mexicano se virou, Brandon o olhou nos olhos.

Kai depositou uma maleta verde sobre a mesa de cabeceira do Brandon e depois puxou uma cadeira e a posicionou na frente do loiro.

— Vamos primeiro limpar esses ferimentos.

Kai foi até o banheiro e voltou com algumas gazes, todas submergidas em um pote pequeno com água.

Ao se sentar na frente do loiro, ele retirou uma gaze molhada do pote e puxou a mão ferida do Brandon.

O toque delicado não fez Brandon reagir, mas interiormente reconheceu a necessidade que tinha de mais toques como aquele.

— Como você pode ser tão tolo ao se meter numa briga com o Luke? — questionou.

— Está se preocupando comigo? — Brandon perguntou, manso. Talvez não estivesse planejando perguntar isso.

De cabeça baixa, ainda limpando seu ferimento, Kai respondeu:

— Por que brigou com o Luke? — fugiu do assunto.

— Eu acho que ele sabe o que aconteceu entre você e eu.

— Como tem tanta certeza disso? — finalmente o olhou, tão assustado quanto o loiro na primeira vez em que ouviu Luke ter recordado das meias.

— Na verdade ele sabe que eu dormir lá. Ele encontrou a... Bem, ele pelo menos sabe que eu dormi lá. Juntou algumas informações e concluiu quando observou minhas meias. — disse sendo objetivo, reduzindo a informação, mas que foi necessária para Kai entender com facilidade.

Brandon havia esquecido suas meias no quarto de Luke, juntando isso ao fato do moreno ter encontrado a embalagem do preservativo, resultava na suspeita de Luke.

— Mas ele não sabe com quem você dormiu. Seu segredo ainda está a salvo.

Kai puxou a outra mão do loiro e verificou se havia algum ferimento nela, mas não encontrou. Retirou uma nova gaze do pote com água e começou a limpar o ferimento no cotovelo direito de Brandon.

— Eu sinto a sua falta. — soltou o loiro.

— O Luke, segundo os leoninos, é bom de briga e muito violento. Você não deveria ter dado uma de louco. — e novamente fugiu do assunto.

Brandon, já entristecido, prosseguiu com a conversa do mexicano.

— Sean disse a mesma coisa. Eu só fiquei assustado com o que ele poderia dizer a respeito do que aconteceu.

— Entendo.

Kai então lançou a gaze suja ao lado da outra sobre a mesa de cabeceira e puxou uma nova. Dessa vez ele iria se atentar aos ferimentos na face do loiro. Tocou-lhe com a gaze úmida no nariz ensanguentado dele.

Kai evitava olhar para Brandon, o contato visual talvez o fizesse se desconcentrar no que fazia. Mas o loiro, diferente dele, mantinha os orbes azuis fixas nos olhos verdes do mexicano.

— Eu o vi beijando o garoto. — revelou o loiro.

A princípio, a informação pegou Kai de surpresa, mas ele não demonstrou a reação que Brandon esperava. Quieto, Kai permaneceu limpando o nariz de Brandon, sem sequer querer olhá-lo.

— Vocês estão namorando? — o loiro perguntou.

— Não.

— Ele te faz feliz?

— Faz.

— Isso é bom... — ele sussurrava. — Isso é muito bom. Queria ter a chance de te fazer feliz, mas eu só estrago as coisas, não é?

— Por que você quer tanto ouvir a verdade? — trocou a gaze por outra.

— Não sei. — desceu seus olhos ao chão.

Um breve silêncio se iniciou. Brandon ainda não retirou os olhos do Kai.

— Sinto falta até dos seus sermões sobre tudo o que eu fazia.

— Eu cansei deles. Não há mais necessidade para isso. Nós buscamos seguir em frente, não buscamos?

— Você decidiu isso.

— Nós decidimos. Você também me disse que cansou, ou melhor, que estava cansando. Apenas facilitei as coisas pra nós dois. O que aconteceu... — Kai fez uma pausa. — Aconteceu.

Brandon não o respondeu.

Kai terminou de limpar os ferimentos e puxou algumas novas gazes, secas, de dentro de uma embalagem na maleta verde.

— Se arder, me avise.

Kai molhou gaze numa substância liquida e transparente contida num recipiente pequeno e, em seguida, pôs sobre a mão do loiro. Brandon deixou escapar um som de “s”, como se estivesse sugando o ar.

— Me desculpe. — falou o mexicano.

— Não tem problema. Só arde um pouco.

Uma nova pausa, curta.

— E então... Como está a vida? — Brandon perguntou, tentando a todo custo manter um diálogo.

— Caminhando... E a sua? — agora pôs a gaze sobre o cotovelo, ouvindo o mesmo som de “s” anterior.

— Estudando... — e sorriu, tentando descontrair.

Não havia assunto que pudesse prosseguir. Brandon sentia que, apesar de Kai está disponibilizando de seu tempo para cuidar dele, ainda assim agia com frieza, evitando assuntos que remetesse a vida dos dois. Contudo, o loiro não desistia:

— Eu realmente sinto a sua falta, Kai.

Os olhos de Kai encontraram os azuis de Brandon assim que ele levou a gaze para o nariz do loiro.

— Eu não queria que as coisas chegassem a esse nível... — continuou o loiro.

— Você mentiu pra mim. — disse num tom firme, duro, apesar de falar baixo.

— Eu não queria ter mentido, acredite em mim.

— E até hoje eu não sei por que você mentiu. — admitiu, pressionando o nariz dele.

Brandon não conseguiu falar nada. Sempre que Kai fazia o questionamento indireto, Brandon tinha medo de contar a verdade.

Seus olhos estavam fixados nos olhos verdes de Kai. Vê-lo tão próximo fazia seu corpo gritar em necessidade, mesmo que entrasse em uma luta constante com seu pensamento a respeito de suas vontades. Era errado. Estava tão confuso quanto a tudo.

Brandon fechou seus olhos e, num impulso, levou seus lábios, devagar, até os de Kai, mas tudo o que conseguiu foi encostar sua boca à bochecha do mexicano. Kai virou o rosto antes do encontro de lábios acontecer.

— Eu não vou cair nisso de novo. — murmurou, ainda sentindo o toque dos lábios em sua bochecha. — Melissa não merece isso.

Kai então se levantou e recolhendo o material sujo e jogou no lixo.

— Terminei. — falou o mexicano. — Você deveria descansar.

Kai voltou a guardar suas coisas.

Brandon levou sua mão à testa, sentindo-se mais uma vez ridículo.

O mexicano voltou ao banheiro e lavou suas mãos, perdendo dois minutos e olhando-se no espelho. Seu coração batia tão forte que ele jurava estar ouvindo-o. Depois de se recompor, enxugar as mãos e sair, ele encontrou Brandon ainda sentado.

— Eu não queria que meus pais sentissem vergonha da sua cor.

E revelou o loiro a verdade, sem que sequer a percebesse escapando.

O mundo, ao redor de Kai, escureceu. Pareceu petrificado.

— Brandon... — a voz saiu rasgada. — O que você disse?

O loiro, ligeiramente, levantou seus olhos e encontrou Kai espantado. Os olhos revelando o susto, a tristeza.

— Você tem vergonha da minha cor?

— Kai, n-não foi isso que e-eu quis dizer. — tremeu, tentando se levantar.

— Como eu posso ser tão estúpido? — falou batendo na própria testa. — Eu... Eu... Eu odeio você, Brandon. — exclamou, deixando escapar a lágrima.

— Kai, eu juro, não é isso que você entendeu. Eu não tenho...

Mas não concluiu a frase. Kai correu para fora do quarto.

— Me desculpe, me desculpe... — falou baixinho, lágrimas desciam por seu rosto— Como eu sou idiota. Como eu sou idiota! — repetia diversas vezes, deitando seu corpo na cama, afogando seu rosto no travesseiro. — Como eu sou idiota...

Brandon não tinha sequer condições parar correr...

Kai desceu as escadas a passos largos, querendo, desesperadamente, se ver longe dali. Ao abrir a porta da república, ainda em passos rápidos, ele foi até a residência dos leões, onde abriu a porta sem sequer pedir permissão, encontrando Franklin levantando-se do sofá assim que o viu.

— Ainda bem que...

Mas Franklin não conseguiu concluir a frase, Kai o beijou, silenciando-o. Em seguida, o abraçou. Necessitando de um conforto. Afogou seu rosto no pescoço dele e o apertou no abraço, em seguida, o beijou novamente, precisando, desesperadamente, daquilo para acalmá-lo.

— Aconteceu alguma coisa?

Hugh estava no banho e Franklin aguardava na sala sozinho.

— Aconteceu alguma coisa? — Franklin o olhou, percebendo o quão magoado ele parecia estar.

— Não quero dormir na minha república hoje. — revelou.

— O quê? Aquele garoto tentou te bater?

Kai balançou a cabeça negativamente, entristecido. Franklin sabia que ele tinha chorado, seus olhos ainda estavam úmidos.

— Então o que aconteceu? — o olhava preocupado.

— Eu não quero falar sobre isso.

Franklin respeitou.

— Ok, ok. Acho que sei pra onde podemos ir.

— Não quero te prejudicar no Ninho.

— Não vamos para o Ninho. — Franklin disse. — Ouvi falar das quitinetes douradas. Hoje você vai dormir comigo e, quem sabe, eu consiga te tirar desse baixo astral. — o abraçou mais uma vez, beijando-lhe a bochecha.

Juntos, saíram da república, sem sequer se despedir de Hugh. Kai o deixaria uma mensagem. O que importava, no momento, era esquecer o que ouviu de Brandon, pois novamente, a decepção tomou-lhe conta e, agora, com a verdade. Ódio, era esse seu alimento.

“Ele tem vergonha de mim.” Pensou o mexicano, deixando escapar a lágrima.

Estava tudo tão bem e, em questão de segundos, desmoronou.

Porém, Brandon nunca sentiu vergonha do Kai. Nunca! Brandon tinha, na verdade, vergonha da sua família e, mais do que a vergonha, tinha medo do que sua família poderia fazer com ele... Medo, também, do que poderiam fazer ao Kai, seja em palavras de ofensa ou até mesmo em ações maldosas. Afinal, Brandon sabia como era sua família.

[...]

Era noite, horário onde os universitários costumavam estar em suas repúblicas.

— Pra onde está indo? — Colin perguntou ao namorado que estava saindo da república.

O pequeno recém tinha voltado da academia, como prova de que não iria se submeter as provocações de Sean sobre ele desistir no segundo dia.

— Resolver um problema.

— Farei a mesma coisa. — disse o pequeno.

De um lado, Colin entrou na república dos leões. Do outro, Sean na república dos águias.

Quando Colin entrou na sala, encontrou Hugh, Calvin, Patrick, Marcus, Julius e Billy. A expressão do último foi de puro desagrado ao ver Colin, mas o pequeno seguiu direto até a cozinha e voltou em menos de dez segundos.

Danion tinha acabado de descer as escadas, parando ao meio dela.

— De quem foi a louça do almoço? — questionou o pequeno.

Todos ficaram em silêncio, mas Billy deixou escapar um sorriso.

— Vá lavar, Billy. — ordenou expressões frias, parado na entrada do corredor. — O lixo de ontem ainda está lá. Lembro-me bem os dias das responsabilidades de cada, ontem era pra você ter jogado o lixo e, a louça, você está deixando acumular.

— Já disse que você não manda em mim. Sem contar que você renunciou o que chamava de liderança, você é membro como eu. Danion não se importou.

— Está me desrespeitando mais uma vez? — Colin realmente não se mostrava irritado, como da última vez que discutiu com o garoto.

Os demais ficaram calados, reconhecendo a tensão que se instalou na sala.

— Você está expulso da república. Tem até amanhã para recolher suas coisas. — Colin, decidido, falou. Ele subiu as escadas e parou no meio dela. — A liderança voltou pra mim. — olhou para o branquelo.

Billy imediatamente olhou para Danion, mas o branquelo nada esboçava, confirmando a autoridade de Colin dentro daquela república.

Colin, finalmente, dera sua primeira expulsão. Ele era, oficialmente, o verdadeiro líder dos leões.

Enquanto de um lado o impulsivo e decidido Colin decretou a expulsão de um membro.

Do outro, o frio e calculista Sean estava na sala dos águias. Samuel estava sentado no sofá, assustado ao vê-lo ali dentro, sem que sequer tenha batido ou pedido permissão para entrar.

O moreno caminhou a passos lentos, despreocupado até parar na porta bem conhecida. Bateu três vezes e esperou menos de um minuto.

Quando a porta foi aberta, ele apenas deu um passo pra frente e a fechou.

Estava cara a cara com o Luke.

[...]

Sean Ferazza.

Colin Manson.

Duas pessoas com personalidades explosivas. Sean, o frio. Colin, o impulsivo. Ambos são decididos quanto as suas vontades. Algo em comum entre eles.

Notas finais
É isso! Espero que gostem! Beijinhos! ♥