República de Leões
49 Capítulo 49
Notas iniciais
[início do flashback]
Chovia bastante em Shoreline, Washington. A cidade que ficava ao norte de Seattle.
Colton já estava no carro com Julian.
O irmão mais velho de Colton recém tinha voltado para a cidade natal após pausar o sonho de ser engenheiro. Preferindo cuidar da mãe e do irmão, já que ela não mais tinha condições de trabalhar após o falecimento do pai, trazendo para si a depressão.
Lisa Green tinha a família perfeita e por tamanho amor a dor foi na mesma intensidade após o falecimento de Natanael Green. O mais velho da família, passando a compreender que precisava passar um tempo com sua mãe, trancou a universidade para dedicar o tempo para a mãe e o irmão: Colton Green.
— Se nosso pai estivesse vivo, talvez as coisas não apertassem tanto para nós. — Julian falou ao ligar o carro.
Eles iriam buscar Lisa que estava na casa de sua irmã, uma rotina semanal. Enquanto Colton passava metade do dia estudando para garantir seu futuro.
— Ela parece estar melhorando. — Pôs a mochila sobre as pernas. — Quanto a você, sem essa história de que vai desistir de ir estudar em Seattle.
— Pela situação crítica em que nos encontramos, não vejo como uma boa ideia. Prefiro ganhar algum trocado por aí e ajudar você.
— Esquece isso, Colton. Até o nosso pai queria que você seguisse o seu sonho.
Colton não falou mais nada. Enquanto ainda chovia, Colton colocou seus fones de ouvido e encostou sua cabeça no banco, riscando a janela graças à umidade.
Ao parar no sinal vermelho, Julian iniciou um novo diálogo:
— Quando vai contar para nossa mãe sobre você? Acredite, ela espera.
Retirando os fones do ouvido, Colton respondeu:
— Você contou?
— Não. Mas sempre que posso e toco no assunto, ela demonstra não ter qualquer tipo de preconceito. — Sorriu.
— Talvez hoje.
— Estarei ao seu lado. — Retirando a mão do volante, ele bagunçou o cabelo do irmão que não parecia nada animado.
Colton tinha uma aura ardilosa e egoísta, mas apesar de tudo, era sua família o maior presente que já teve. Já Julian era bem oposto dele, era alegre e generoso, porém tinha em algo em comum com o irmão quando se tratava da família.
Colocando novamente seu fone de ouvido, Colton seguiu a viagem, pensativo. Dessa vez, Julian não falou nada, somente tocou seu ombro e entregou o celular enquanto ainda permanecia olhando para frente.
Sem entender, ele somente pôs no ouvido.
— Colton, querido, diga ao Julian que não precisa pegar Lisa, eu estou com ela no carro levando-a. — Era Laurie, a tia dos garotos.
— Mas tia Laurie, nós já estamos chegando.
— Oh, céus, eu estou vendo o carro de vocês.
Julian também pareceu reconhecer o carro da tia.
— Então diga ao Julian que eu vou seguindo-o. Irei pegar alguns materiais de cozinha que acabei esquecendo lá.
— Tudo bem, tia Laurie. — E desligou.
Colton se encarregou de guardar o celular do irmão.
— Tia Laurie disse que vai nos seguir, nossa mãe está no carro com ela.
— Por quê?
— Vai aproveitar pra pegar aquelas panelas que ela usou lá em casa.
Julian somente deu a volta no retorno mais próximo e seguiu estrada, dessa vez no caminho contrário. O carro de Laurie estava logo atrás deles.
— Vai sair com sua namorada hoje? — Colton perguntou.
— Namorada? Que namorada?
— Ué, você está namorando, não?
— Ah, aquilo era apenas uma curtição. O grande amor da minha vida deixei naquela universidade e nunca tive coragem de chegar nela e confessar. — Gargalhou da própria desgraça.
— O poderoso Julian finalmente não teve coragem de fazer algo.
— Ah, se fode, Colton!
Colton sorriu.
Foi esse o último sorriso daquele dia.
Julian olhou para o sinal e estava verde, ou seja, permitindo sua passagem. Mas então um carro em alta velocidade acabou ultrapassando o sinal vermelho da outra via e, assim, fazendo Julian frear bruscamente.
Infelizmente isso não foi bem sucedido quando o carro derrapou, capotou e foi de encontro a uma árvore.
[final do flashback]
Colin olhava para suas mãos enquanto movia os dedos. Sentado na cama, simplesmente esqueceu-se de como se falava uma palavra. Qualquer palavra que fosse, ele simplesmente não conseguia. Nada fluía. Até mesmo coragem para se levantar estava faltando.
De pé, William olhava através da janela, o gramado de sua casa sendo molhado pela chuva daquela manhã. Assim como Colin, estava sendo difícil pronunciar alguma coisa.
Desde o momento em que os laços foram unidos, William ao acordar tentou levar o pequeno para o seu quarto, como de costume uma vez que isso já havia acontecido. O pequeno acordou bem quando entraram no cômodo.
Colin tinha sono pesado, mas acordou como uma pena que cai sobre o corpo: leve.
— E então? — O loiro tomou a coragem. — Estamos bem.
— Eu realmente espero que sim. — Colin disse.
— Vai ser difícil para nós dois, mas nos esforçaremos para tudo voltar ao normal.
— Difícil será se quisermos, pois eu sinto bastante a sua falta. Só estou constrangido e não consigo explicar o porquê exatamente.
— Passou bastante tempo desde que paramos de nos falar. Mesmo estando cientes de que nos conhecemos, ainda parecemos dois desconhecidos. Me sinto como na vez em que conheci Octavio. — O loiro sorriu.
— Estão bem? — Colin deu continuidade ao assunto.
— Octavio e eu? — William sorriu. — Sinto que em breve vou me tornar alguém como ele, chato e dono da razão. — Ironizou — Estou brincando. Só tenho certeza de que quando Octavio e eu, daqui a alguns anos, construirmos uma família, ele vai ser o pilar que sustentará eu e meus filhos. Ele é muito cabeça pra algumas coisas e pensando bem, o fato de eu ser o oposto me deixa infantil perto dele.
— Vocês são inspiração pra muitos de nós.
— Sabe Colin... Octavio por esses dias demonstrou da forma mais simples o que é amar. Eu reconheço todos os defeitos que tenho e até os que eu não sei se tenho, um dia reconhecerei. Mas o fato é que Octavio não me deixou mesmo quando dei motivos para que fizesse isso. Se chorar, sorrir ou me irritar, Octavio sempre estará lá.
William afastou-se da janela e caminhou até a cama. Ele tocou ao ombro de Colin para que ele subisse mais um pouco, fazendo com que assim repousasse a cabeça sobre suas pernas.
O loiro olhava para o lado e, ainda surpreso com a atitude de William, Colin afogou seus dedos nos cabelos do loiro.
— Quando penso nele meu coração acelera. — Continuou o loiro — Como no primeiro olhar ou primeiro beijo. Até mesmo na primeira vez que fomos pra cama. É como se eu estivesse me apaixonando novamente.
— É um dever seu se apaixonar todos os dias pelo homem que roubou seu coração.
— Fico imaginando o que ele me dará de aniversário.
— Eu não me esqueci desse dia...
— Acredito em você. — William virou-se e olhou para o pequeno — Parece que Octavio e Colton discutiram.
— Por minha causa... Mas não sei o que aconteceu. Octavio pediu para que eu saísse e o deixasse sozinho com Colton.
William ainda preferia não falar sobre isso. Ainda considerava uma conversa particular entre ele e o namorado e, mesmo que Colin estivesse ali e ambos reatassem a amizade, não seria tão simples contar.
— Quanto a você? — William questionou.
— Eu? O que tem eu? — Colin franziu o cenho.
— Sua vida.
— Se eu estou bem? Sim. Talvez melhor do que nunca. O fato de tê-lo de volta foi uma das coisas maravilhosas que já me aconteceu. Só tive um melhor amigo na vida e essa pessoa foi o Samuel. Não desmerecendo a amizade dele, mas nos afastamos devido às responsabilidades da vida.
— Quem olha jamais dizem que vocês se conhecem.
— Ah, depois de alguns acontecimentos aí realmente nos afastamos. Samuel gostava de mim de outra maneira, uma que eu não poderia corresponder. Sai da cidade e parei aqui sem antes me despedir dele. Eu me sentia incomodado. Não consegui mais olhá-lo da mesma maneira.
— É normal que isso aconteça. Qualquer um no seu lugar faria o mesmo.
— Sabe quando você derruba uma gota de mel no chão e um amontoado de formigas fica ao redor dela? Era mais ou menos assim que eu me sentia quando Samuel chegou à Quadra. Luke e ele me infernizavam e até disputavam para saber quem era meu dono.
— Ah, se lembro disso...
— Mas você é meu melhor amigo. Literalmente me protegia deles. — Colin interrompeu. William sorriu. — Que estranho... “Meu melhor amigo.” Há quanto tempo eu não falo isso pra você.
— Eu também sentia falta. — Sorriu em meio a um suspiro.
O celular de Colin, jogado na cama, vibrou e ambos os garotos naquele quarto notaram isso. William notou no visor a foto de Sean, mas nada disso. Sua reação deixou claro que ele sentiu um pequeno incomodo por isso, porém nada alarmante. Ainda tinha que se adaptar.
Colin não atendeu a ligação do moreno. Sequer mandou uma mensagem para ele. Não que fosse obrigado a escolher alguém para conversar nesse momento.
— Não vai atender?
— Depois eu ligo. — Não mentia, apesar de confuso.
— Se quiser eu posso sair do quarto.
— Não se preocupe com isso. Sean se possível desliga o celular na minha cara quando ligo. Depois eu falo com ele.
William nada disse. Colin a mesma coisa. Mas continuou a mexer no cabelo do loiro enquanto olhava da janela a república da frente e, dali mesmo de onde estava, viu Sean com o telefone próximo a orelha.
Sean estava no seu quarto, mas de onde estava conseguia a movimentação das duas repúblicas em frente. Isso quando as cortinas da janela estavam abertas.
Colin engoliu em seco quando notou o moreno largar o telefone e dar as costas.
“Um bom dia ou um péssimo dia?” Pensou.
— Como tudo começou? — William perguntou.
Talvez não fosse uma boa pergunta. Poderia odiar tudo o que ouviria, mas não pensar nisso o corroía por dentro. Estava curioso e odiava sua curiosidade quanto a isso.
— Queria saber. — Ele se recordou de como tudo foi uma surpresa.
— E como não sabe? Tudo tem um início.
— Não acho que seja um bom assunto para nós dois. Brigamos por isso e é estranho relatar tudo o que me aconteceu com ele. — Confessou o menor.
William respeitou.
— Sei que vou falar a qualquer momento. Mas vamos esquecer o problema Sean por algumas horas. — Colin sendo Colin.
O loiro concordou, mas deu continuidade a conversa anterior. Levantando-se do lugar que estava, arrumou suas roupas.
— Eu gostaria que o atendesse ou retornasse a ligação. — O melhor amigo conselheiro retornou.
— Por que manda que eu faça isso?
— Porque eu odiaria estar no lugar dele. Assim como você também odiaria. Na verdade, faça algo melhor, vá lá e converse com ele. Se eu preferia que você ficasse aqui comigo? Sim. Mas eu vou passar um tempo conversando com Octavio já que ele certamente deve tá curioso sobre o que aconteceu entre nós dois.
— W-william... E-eu... Sou um leonino e pisar naquela república significa decretar a morte. — Colin gaguejou e sequer conseguia argumentar contra.
— Se eu falasse isso iriam me chamar de babaca, mas veja que as palavras estão sendo pronunciadas por você. Muita coisa foi esclarecida entre Sean e eu, e você não sabe, mas conversamos no hospital. Te deixo livre para fazer suas escolhas, Colin.
— Conversaram? — Ficou curioso.
— Eu prometi mudar. Uma vez me disseram que nós limitamos aos calouros de se relacionar com quem eles querem justamente por adentrarem nas repúblicas com a guerra já acontecendo e, sendo assim, são obrigados a escolherem um lado.
— Quem te disse isso?
— Danion.
— O Danion disse isso?! — Colin quase gritou, assustado. — Não é possível.
— Não sei se ele realmente usou das palavras dele ou buscou de alguém. — Coçou a cabeça. — Mas ele tem razão. É burro? Sim, o Danion é burro e desbocado. Mas até que teve cérebro pra falar algo.
Se Danion o ouvisse... Infelizmente o branquelo realmente tomou as palavras de Edgar e sequer deu créditos ao loirinho.
— Se olharmos pela janela podemos ver o carro de Sean estacionado em frente da república. Você assim como eu sabe que ele está aí. Não esqueça que cada um de nós, leoninos, temos um rugido. Então saiba quando usá-lo se precisar de ajuda.
Colin não respondeu ao William, mas o loiro sorria.
— Eu senti falta de um momento como esse. — Revelou o rei.
— Conversamos como antes.
— Ah, ainda tenho um bocado de coisas pra desabafar. Mas faça o que disse. — William abriu a porta do quarto, olhou Colin uma última vez e saiu.
Colin ficou olhando para o vazio que William deixou e imediatamente sentiu falta. Como era bom estar na presença daquele que por vários dias o proporcionou bons momentos. Mas bastou apenas olhar para a janela e a confusão mental lhe tomou conta.
Sean e William ainda sim eram um problema.
— Como posso ainda me preocupar com isso? — Se perguntou.
[...]
Edgar recém tinha acabado de sair do banheiro. Suas coisas ainda estavam jogadas na cama, pois em breve iria para a faculdade. Ainda enxugando os cabelos, o loirinho deitou-se na cama e fechou os olhos. Poderia pegar no sono rapidamente, afinal passou a noite anterior estudando.
Mas então seu celular tocou e ele até se assustou. Ao visualizar a imagem de Joshua, levantou-se e abriu a porta do quarto, verificou se alguém apareceria por ali.
Atendeu e se jogou na cama.
— Achei que não me atenderia. — Do outro lado o ruivo iniciou o diálogo.
— Eu fico receoso.
— Compreendo.
Silêncio. Edgar somente respirava e esperava algo do ruivo.
— Eu adoro ouvir sua respiração, loirinho. Ela é bem tranquila.
— E-eh... Sério?
— O que faz?
— Nada. Na verdade eu estou prestes a sair, tenho aula. Mas tenho um tempinho pra ficar aqui conversando contigo.
— Eu queria...
Silêncio, novamente. Edgar esperou, contudo nada ouviu.
— Joshua? Ainda tá aí?
— Estou.
— Ah, achei que você iria falar algo.
Joshua era péssimo em manter diálogos firmes. Sempre lhe faltavam palavras em situações como essa. Estar apaixonado era terrível nesse sentido.
O mesmo aconteceu quando se interessou por Caleb e depois Megan. Se bem que com a última foi mais rápido devido aos interesses da outra e ela quem tomava a frente no quesito relacionamento.
Todavia com Edgar era diferente. Joshua sequer conseguia ser o homem temido que era. Para diálogos ele realmente era falho, tratando-se do loirinho a coisa tornava-se pior ainda. Ele teria que ser objetivo ou ficar em silêncio.
— Tá querendo jantar comigo hoje?
— Sim. — Edgar respondeu sem antes pensar duas vezes.
— Espera, é sério? Você quer sair comigo? — Perguntou para ter certeza.
— Não estou te reconhecendo...
— Ok, loirinho. Devo passar aí antes das 20hrs? Ok? Vou desligar aqui...
— Joshua?
— Sim?
— Pode ser na universidade? Prefiro te esperar lá ou até mesmo no Ninho. Ainda não me sinto seguro pra andar com você, mesmo com eles sabendo. É melhor irmos com calma.
— Está passando por problemas aí? — Imediatamente se preocupou. — Se estiver, melhor me dizer.
— Não estou. Tudo anda tranquilamente bem. Algumas de boas entre os outros também. Só que não vamos estragar tudo, não é? O que você fez jamais será esquecido com facilidade. — Edgar não queria relembrar desse ato.
— Eu não me arrependo, loirinho. Fiz o que tinha que fazer em honra ao meu irmão. E faria com qualquer um que ousasse levantar a mão para ti.
Novo silêncio.
— Avise-me se eu estiver incomodando você. Ok? Até mais tarde. — A voz de Joshua soou melancólica.
E desligou.
— Joshua? Ei? Ei!
Já era tarde demais, o ruivo simplesmente desligou e Edgar não teve coragem de retornar a ligação. De qualquer forma, adorou receber uma ligação do ruivo e principalmente do convite. Não ia negar: amava estar na presença dele. Era amedrontadora, mas aconchegante de um jeito doentio.
[...]
Leonard estava com os cotovelos apoiados da janela enquanto observava e ouvia o som da cidade. Em uma de suas mãos segurava uma xícara de chá e bebia do líquido quente que combinava com o tempo frio.
— No que está pensando? — Santiago estava deitado na cama, agora não mais de solteiro. Colocada no mesmo lugar que a anterior.
— Sinto falta dos meus amigos.
— Está tão terrível assim morar comigo?
Leonard se virou e sentou-se no sofá próximo.
— Larga de ser idiota. Só realmente sinto falta deles. Falei para o Danion que passaria dez dias aqui e bem... Isso não aconteceu. Você nunca sentiu? Você viveu conosco por um tempo.
— Pra ser bem sincero eu apenas sentia sua falta, dos demais... Não tanto. Talvez do William, mas isso já passou. — Cobriu-se ainda mais com o cobertor.
— Até consigo ouvir os gritos de Colin e Danion. Costumava ser nesse horário, próximo do almoço. William gritando pedindo para que eles parassem e Rickson batendo com as panelas.
—Ainda bem que não cheguei a morar com esse garoto chamado Colin. Seria um inferno. Já não bastasse Danion e Rick.
— Ah, era legal. Não quando estava presente, mas quando essas coisas passam você percebe que faz falta.
— Você deveria parar de pensar nisso e deitar um pouco comigo. Chegou tem nem dez minutos e ainda consegue ficar de pé. Tá frio pra caralho.
— Precisei resolver umas coisas. Aproveitei e comprei alguns alimentos. Você que é vagabundo e dormiu até agora.
— Não tenho aula hoje. Também não me culpe. Se você não estivesse insistindo tanto por sexo ontem, eu teria dormido mais cedo.
— Você precisa me marcar menos. Confundiram essa marca no meu pescoço com um sinal de família. Apenas sorri e fingi que era realmente isso. Contando com esse, eu tenho mais dois pelo corpo. Hoje pela manhã encontrei um na minha bunda. — Leo levantou-se e foi até a cozinha. Colocou a xícara na pia e voltou retirando as botas que usava, ficando apenas de meias.
Santiago cedeu parte do seu cobertor para que Leo deitasse. Imediatamente o corpo de Leonard foi abraçado e aquecido por Santiago.
— E pensar que você sequer me abraçava na rua. — Comentou recebendo o aconchego.
— Vamos esquecer essa parte.
Leonard silenciou-se e fitou a janela. Santiago fechou seus olhos. Ainda estava sonolento e poderia pegar dormir a qualquer momento.
— Ei, Leo... — Chamou ainda de olhos fechados.
— Sim?
— Onde está o anel que te dei?
Leo apenas se moveu um pouco e enfiou seu braço debaixo da cama, retirando de lá o anel, assim pôs no dedo e mostrou para o namorado, ficando de frente para ele logo em seguida.
— Esse anel? Quando sei que vou andar por áreas perigosas, evito usar. É algo que sua mãe passou para você. Então cuido como se fosse minha vida.
Santiago sorriu. Ao receber o sorriso de Leonard, aproximou seus lábios aos do namorado e o beijou. Leo sem pestanejar arrastou sua mão até a cintura do namorado, descendo até sentir seus pelos aparados e finalmente repousar no membro adormecido, prestes a despertar.
Santiago o beijou com mais vontade após esse toque e montou sobre o namorado que teve os dois braços presos pelas mãos do maior.
Logo afogou seu rosto no pescoço de Leonard e recebeu um gemido do parceiro imediatamente.
Porém, tudo foi por água abaixo quando alguém batia a porta apressadamente.
Santiago, ainda que por cima de Leonard, olhou para a porta e depois para o namorado.
— Deixa que eu atendo.
Foi quando Santiago rolou na cama e ficou de pé, foi diretamente para a cozinha. Já estava vestindo calça de algodão e uma camisa verde.
Leo arrumou os cabelos e parou em frente a porta, respirou fundo e abriu.
— Leo!
Foi a primeira coisa que ouviu ao sentir uma garotinha abraçando suas pernas: Nicole.
Nicole, a irmã de Santiago tinha crescido alguns centímetros, mas ainda continuava a garotinha de cabelos longos e dentes separados.
— Oh, Ni! — A chamou pelo nome carinhoso — Meu Deus, como você cresceu!
— Que bom te encontrar aqui, Leonard. — Marta, a mãe de Santiago, comentou.
Leo olhou para Nicole e em seguida para a mulher.
— Que surpresa agradável.
— Mãe?
Santiago estava logo atrás, ainda parado próximo da cozinha. O nervosismo bateu ao olhar para cama desarrumada e depois para Leonard ali.
— O q-que faz aqui?
— Estava com saudades. Eu estou de folga por dois dias e resolvi passar esse tempo contigo. Quis fazer uma surpresa, não gostou?
— É claro que gostei. Só que... Isso aqui tá uma bagunça.
Mas então, Nicole afastou-se de Leonard e correu para o irmão. Que imediatamente abaixou-se, abraçou-a e a ergueu no ar.
— Minha menina! — Sorriu — Você tá linda.
Marta adorava a relação dos dois filhos. Nicole nunca deixou de falar do irmão mais velho e vê-los juntos até era emocionante.
— E você, Leonard? Como está? Fico feliz em te encontrar aqui. Pelo menos sei que Santiago não perdeu o contato com os amigos desde que saiu daquele lugar.
— Eu estou bem... Quer dizer, eu acho que estou. — Soou confuso. — Eu resolvi conversar com ele. Sabe como é né? Amigos... — Leo olhou para Santiago, temeroso.
Marta quem fechou a porta. Santiago estava ainda enchendo a irmã de beijos e abraços, enquanto a fazia sorrir com cócegas.
— Quando me disse que conseguiu um apartamento pra ficar, não pensei que fosse tão...
— No momento só consigo pagar isso, mas as coisas estão melhorando. — Santiago falou.
— Eu vi as fotos da revista que me enviou. As vizinhas estão todas com inveja.
— Está vendo aí? — Leonard retirou umas camisas do sofá e assim Marta sentou. — Eu tinha dito que ele levava jeito. Mas Santiago é um chato quando se trata dessas coisas.
— Ah, Leo, Santiago me contou que você estava ajudando-o nisso. Eu sequer tiver tempo de te agradecer.
— Nem tem porque se preocupar. Ele te contou que já está sendo cotado para uma nova coleção? E o melhor, para uma loja de roupas lá no shopping. Daqui uns dias deve tá pelos outdoors. De Seattle para o mundo! — Leo disse cheio de orgulho.
— É assim a vida. Começamos com pequenos trabalhos e então disparamos. Ai, como é bom saber que tudo está dando certo para você, Santiago.
— Vocês deveriam falar menos de mim... Eu hein. — Estava começando a ficar constrangido. — Ei, Nicole, descobri um lugar maneiro pra te levar. Vamos patinar no gelo!
Nicole deu gritos de alegria enquanto ainda abraçava o irmão.
Marta continuou avaliando o quarto enquanto Leonard e Santiago brincavam com Nicole, enchendo-a de mimos.
— Uma cama de casal? — Ela perguntou curiosa.
Santiago congelou. Leo também, porém se prontificou a buscar uma mentira rapidamente.
— Não é? Também me perguntei a mesma coisa quando vi isso aqui. Ele diz que é espaçoso e cama de casal é mais confortável.
— É isso mesmo. — Nem olhou para a mãe e sim para Leonard. Quase o beijou por ter conseguido arrumar uma desculpa imediatamente.
Marta acreditou.
— Bruno, quando vivo, era bem espaçoso também. Um dia ele já me derrubou da cama, e claro, foi sem querer. — Ela sorriu ao recordar-se disso.
Todavia Marta teve uma nova surpresa ao olhar para a mão de Leonard nos fios negros de Nicole. Ela imediatamente reconheceu o anel.
— Santiago? — Chamou pelo filho.
— Sim? — Ele levantou a cabeça.
— Posso conversar com você?
Santiago olhou para Nicole e Leo.
— Algum problema? — Temeu.
— Nenhum. Só queria realmente conversar com você.
— Nicole, vamos ali embaixo? Me deu uma vontade de tomar chocolate quente. Que tal comprarmos um pra o seu irmão e sua mãe? — Leo sugeriu.
— Mas e eu? — Ela cruzou os braços.
— O maior que tiver é seu! — Ele abriu a boca.
Nicole logo ficou de pé. Leonard olhou para Santiago e a comunicação foi através do olhar: “Vai ficar tudo bem”.
Nicole e Leonard logo saíram dali.
Santiago ficou de pé, mas não olhou para mãe. Ele antes verificou da janela, se Leonard e Nicole estavam saindo do apartamento. Os viu atravessar a avenida e entrar na cafeteria.
— A cama de casal, os quadros e roupas que sei que não são sua. É impressão minha ou...
— Não! — Interrompeu.
— Não?
— Não sou... — Santiago relutou. Mas o sorrido daquele que tanto ama surgiu de algum lugar — hétero. Não consigo seguir o padrão sugerido pela sociedade. E eu... E-eu lutei pra isso mãe. — Por Leonard revelou.
— É o Leo? — Ela perguntou.
Santiago abaixou a cabeça e murmurou:
— Sim.
— Meu Deus! — Marta por pouco não gritou. — Meu Deus! Eu não acredito!
E o corpo de Santiago foi abraçado tão forte que ele assustou-se e sequer correspondeu ao abraço.
— Eu pedi tanto por isso! Pedi tanto para que fosse o Leo. Sei que eu devo ser a mãe mais louca por ficar feliz de conhecer e aprovar o namorado do meu filho. Ai, Santiago, finalmente você jogou fora aquela máscara. Eu torci tanto pra esse dia chegar! Tanto!
— Mãe? Você não está com raiva? — Ainda sendo abraçado ele indagou.
Marta o soltou.
— Lógico que não! Olha, Santiago, posso parecer não saber de nada e estar distante de você. Mas uma mãe... Ah, o coração de uma mãe sente e sabe de muita coisa. Meu filho, meu querido, eu sempre torci por você desde o dia em que desconfiei de algumas coisas.
Santiago não conseguiu falar mais nada depois disso. Marta prosseguiu:
— Talvez você não se lembre disso, ou melhor, não vai lembrar. Mas ainda quando criança eu te perguntava sempre sobre com quem você namoraria na escolinha e um dia você me disse que iria namorar Jeff. Quem é Jeff? Hoje não faço mais ideia de quem seja e de onde está. E naquele dia eu sorri. Porque mães como eu são raras. Cresci numa geração que julgam ser corrompida, mas minha mente nunca foi abalada e eu tenho minha linha de pensamento firme e forte até os dias atuais, por isso dou esses ensinamentos a Nicole.
— Então você sabe o que me levou a escolher Seattle como universidade?
— Sei sim. Agora, falando com você, eu realmente sei. Mas você fugir e fazer disso um problema foi um erro. E eu me arrependo de não ter interferido, mas depois eu quis que você aprendesse sozinho.
— Eu não queria estudar naquele lugar onde os garotos me chamavam de gay por ser amigo do sobrinho do Bruno.
— Isso já passou, tudo bem? Já passou... Tudo o que eu quero é você feliz. E eu sabia que a qualquer momento você não mais suportaria a máscara. Eu sempre quis que você chegasse a mim e falasse o que acontecia. Eu queria ouvir de você, Santiago. Da sua boca. Muitas das mães apenas esperam por isso. Eu sei que muitas são terríveis, mas eu não sou esse tipo de mãe. Sou daquela que ama o filho, seja o que for. Porque o amor de mãe... Ah, o amor de mãe. — Ela estava emocionada, enxugando com os dedos as poucas lágrimas que caiam.
— Eu sempre fugi de tudo o que me assustava. Da escola, da faculdade e da república. Eu sempre tive medo da sua reação. Se eu soubesse que seria tão fácil assim...
— Às vezes pode ser fácil, basta abrir a boca.
— Então estamos bem? Não vai falar mais nada?
— O que você quer que eu fale?
— Sei lá... Qualquer coisa. — Ele a olhou.
— Não o deixe por nada. Leonard é sem sombra de duvidas a pessoa mais certa pra você. A que quebra tabus e estereótipos. Eu adoro o Leo e a maneira como ele cuida de você. Qualquer mãe se orgulha em saber que o filho está sendo bem cuidado. Eu tinha tanto medo de você sozinho aqui, dos seus problemas com as drogas e aceitação. Ai, Santiago, como meu coração está tranquilo agora... Estou feliz e orgulhosa.
A porta do apartamento foi aberta, mas apenas uma cabeça surgiu ali.
— Será que devo ir novamente comprar chocolate quente para a Nicole? — Leo perguntou e em seguida olhou para Santiago.
— Pode entrar... Ela já sabe de tudo.
— Vem cá! Vem Leo, eu preciso te abraçar depois disso!
Ele então abriu a porta e Nicole entrou com as bebidas.
— Ela sabe que você brigou? — Mentiu na cara dura sem retirar os olhos de Santiago.
— Não precisa mentir por Santiago, Leo... — Marta sorriu. — Sei que você e ele estão juntos. A prova? Olhe sua mão...
Leo então a olhou e encarou o anel.
— Céus... — Murmurou.
— Bem vindo à família, Leonard! — Marta então o abraçou.
Leo olhou para Santiago e ele somente piscou.
Santiago então percebeu, de fato, que não havia nada de errado com ele e agradeceu pela família que tinha. E nada melhor de ter um namorado como Leonard.
Como Marta disse: Leonard quebra tabus e estereótipos.
Delicado ou não... Santiago o amava do jeito que era.
Nicole ainda era imatura demais para compreender tudo o que acontecia naquela sala, mesmo recebendo os ensinamentos de Marta. A mulher sempre soube do filho e de seus problemas de aceitação. Queria ter a oportunidade de conversar com ele, mas também como mãe tinha seus receios. Esperando sempre ouvir dele uma súplica, um pedido de ajuda.
Não era necessário Leonard revelar ser gay, há quem reconheça apenas por olhá-lo. Mas ela adorava tanto esse garoto que sempre o quis com seu filho. Por sorte isso aconteceu.
[início do flashback]
A movimentação de pessoas que saiam de seus carros para assistirem o acidente era mediana. A chuva daquele dia dificultava ainda mais o atendimento de pessoas de coração bom.
Um homem, também por ali presente, de seu carro enquanto observava tudo puxou o celular do bolso e solicitou por duas ambulâncias. Em seguida, saiu do seu carro.
Joe estava indo para o hospital e no caminho acabou dando de cara com o acidente e como médico e cidadão de bem, não pensou duas vezes antes de buscar por ajuda. Ele caminhou pela chuva e encontrou os dois garotos extremamente feridos sobre escombros do carro, além de desacordados.
As ambulâncias chegaram rapidamente e mostraram qualidade no atendimento e na retirada dos garotos.
A tia dos garotos desmaiou e a mãe, aquela que os colocou no mundo teve que se mostrar forte demais para assistir tudo aquilo.
A chegada no hospital foi avassaladora. Desde o abrir das portas até o amparo daquela mulher. Ela gritava desesperada pedindo para que socorressem seu filho. Foi proibida de acompanhá-los ela ficou pelos corredores do hospital andando de um lado para o outro.
Nesse mesmo momento Suzana passava. Ela olhou para a mãe de Colton dos pés a cabeça e sempre respeitava alguém de acordo com sua condição financeira. Aquela mulher não se enquadrava nisso.
— Senhora, está ciente que esse hospital não é pra o seu porte, não está?
— Por tudo que há no mundo, salve os meus filhos!
— Deveria procurar um outro hospital.
— Só salve os meus filhos! — Insistia.
— Foi você quem os trouxe pra cá? — Suzana perguntou para Joe, que voltava com um copo com água.
— É meu dever como médico.
— Espero que ela consiga pagar tudo. Qualquer morador daqui deve reconhecer que esse hospital não é pra qualquer um. Depois apareça em minha sala, Joe. E faça de tudo para transferirem esses garotos antes que o valor dobre.
— Então negue atendimento e vá direto pra cadeia! — Joe não olhou para ela. — Tome senhora, se acalme.
[final do flashback]
Era muito estranho para Edgar estar ali. Ele simplesmente não se sentia seguro.
— Eu achei que fosse apenas um jantar... — Falou baixinho ao descer do carro.
— Não deixa de ser um. — O ruivo tinha o ouvido falar.
O motorista da família ainda esperou alguns segundos até partir.
Eles já estavam na garagem daquela casa. Não uma simples casa, era realmente enorme. Um jardim extenso, com piscina iluminada e decoração incrível. Edgar olhava tudo atentamente, como bom observador, não deixava nada escapar de seus olhos e, por isso, cada vez mais se sentia estranho.
Não fazia parte do seu universo um lugar como aquele.
Veja bem: Edgar vem de uma família humilde e sequer teve a oportunidade de conhecer seus pais, vivendo à custa da avó, ajudando-a sempre que podia. Para estar na universidade exigiu sacrifícios e teve sorte ao conseguir vaga na Quadra. Senão, a abandonaria, devido às diárias que teria que pagar. Ele não foi vítima da falta de informação da super lotação nas repúblicas oferecidas pela universidade, mas ainda assim insistiu em buscar por um lugar que desse pra arcar com a pouca grana que recebe da avó.
Já Joshua era filho de pais ricos e famosos, mesmo tendo várias coisas cortadas do seu dia a dia, devido ao comportamento rebelde do garoto. Estar em Seattle não deveria ser uma opção, principalmente por falarem que ele deveria seguir a carreira dos pais, mas seu amor pela bioquímica era maior que isso. Um absurdo aos olhos alheios? Sim. Mas ele não se importava, estava bem com o que fazia.
— Olha só pra você... Todo... Todo? Que seja, mesmo achando estranho vestir isso, certamente estar melhor do que eu.
O loirinho vestia apenas uma camisa social branca, calças sociais pretas, cinto e sapato da mesma cor. O ruivo uma camisa social cinza e de manga longa, cobrindo todas as tatuagens em seu corpo, uma calça brim na cor verde água ou pouco mais escuro que isso, cinto marrom e tênis social, pra completar um gravata preta fina deixava-o completamente diferente do que era.
— Não gosto de usar isso, mas se tratando do aniversário da minha mãe, eu deveria me vestir assim. E foi Caleb quem me fez usar isso.
— Espera, é aniversário da sua mãe? Aqui é sua casa? Isso não é um restaurante? — Edgar realmente se assustou.
— Pra que tanta pergunta, loirinho?
— Você me chama pra jantar e isso é simplesmente um...
— Não precisa se preocupar, garoto. Você está bem assim, devemos entrar?
— Eu não acho que seja uma boa ocasião para que eu esteja aqui.
— Por quê?
— Seus pais são famosos.
— Posso te falar umas coisas, loirinho? Meus pais são famosos por trabalharem na TV, mas isso não chega aos pés dos ditos astros de TV, que não conseguem sequer passear. Eles são jornalistas e vivem mundo a fora gravando reportagens ou apresentando. Noah e eu somos quase invisíveis e aparecemos uma vez ou outra em alguma revista. Nunca apareci em noticiário de TV, nem mesmo o Noah. Tem pessoas que nem sabem que sou filho deles. E que se não fazem polêmica, filhos de famosos quase nunca são visados. Já saiu por aí que sou o filho rebelde do casal e Noah o queridinho, por isso meus pais me tiraram o carro.
— Li a matéria que fala sobre Noah e seus pais.
— E mesmo assim as pessoas estão comentando ou levando isso em redes sociais? Desencana, loirinho. É mais fácil saberem deles em revistas, como já deve ter percebido. E nós dois sabemos que quase ninguém as lê. Agora vamos entrar e você vai perceber que não há o que temer.
Quando apaixonado, as pessoas até falam mais. Joshua nesse momento falou bastante.
Joshua não precisou bater a porta para entrar. Como já era de casa, apenas a abriu e então encontrou a casa com parentes e amigos da família. Edgar, como já sabia que aconteceria, não permaneceu olhando para todos por muito tempo.
Não demorou muito para que o filho mais velho mais velho do casal de jornalistas recebesse a atenção da mãe, a aniversariante do dia.
Naomi era ruiva de cabelos curtos e repicados, tinha os olhos frios de Joshua, mas o sorriso era como o de Noah. Jamais diriam que ela era mãe do Joshua se não fosse ruiva. Magra e bem vestida, era quase impossível acreditar que aquela mulher estava completando os seus quarenta anos de idade.
Primeiro abraçou e beijou o rosto do filho.
— Amei o presente! — Exclamou a mulher, ainda desfazendo-se do abraço.
Joshua apenas sorriu.
— Quem é esse garotinho? — Disse, ao olhar para Edgar se aproximar para cumprimentá-lo com beijo na bochecha e um abraço.
— Esse é o Edgar, estuda comigo.
— Oh, céus... Você nunca me trouxe um amigo para que eu conhecesse!
Naomi estava realmente feliz com aquilo. Ela jamais conheceu algum colega de Joshua, apesar de já vê-lo em uma roda de amigos e não se agradar deles.
— Prazer em conhecer, senhora Naomi.
A mulher sorriu ao adorar a educação de Edgar.
— Seja bem vindo, Edgar. Não se sinta constrangido, a família é realmente grande.
— Onde está o meu pai?
— Está verificando o jantar que já vai ser servido. E Megan, onde está?
— Depois conversamos sobre isso.
Naomi somente olhou para o filho com surpresa, mas foi fácil interpretar a resposta de Joshua e por isso não indagou novamente.
— Luke está por aí com outro amigo. Caleb está com sua tia Donna. Agora me deixem ir que tenho mais pessoas para cumprimentar.
Dando uma última olhada em Edgar e depois beijar o filho mais uma vez, Naomi afastou-se deles e rapidamente foi pega de surpresa por novas visitas.
— Venha. — Joshua chamou pelo outro.
Foi somente atravessar a primeira sala que encontrou Samuel de pé conversando com Luke e Caleb.
Caleb foi o único a sorrir ao perceber que Edgar e Joshua apareceram juntos.
— Edgar? — Samuel indagou.
— Samuel? — O menor também ficou curioso.
— Joshua tá mesmo comendo esse garotinho? Gostei da novidade, hein primo!
— Vai se foder. — O ruivo foi grosseiro.
— O que você disse pro pessoal da república? — Edgar perguntou para Samuel.
— Que ia sair com esse desgraçado aqui. Eles zombaram de mim. — Respondeu.
— Acham que vou te levar pra algum motel. Mas não é uma mentira, se você quiser, podemos ir.
— Sério; alguém mata esse garoto? Só fala merda.
— Merda é o que tu vai passar quando eu meter meus 19 centímetros em você, porra. Ai, esqueci que você gosta de tudo, porque encaixa direitinho em você. — Luke era sempre cômico e gargalhou com o que disse.
Caleb ficou com o queixo no chão e também começou a rir disso. Samuel manteve a postura, mas o beliscou.
— Ai! — Gemeu.
— E o que você disse? — Samuel ainda irritado perguntou para Edgar.
— Nada...
— Que seja, eu estou aqui pra qualquer coisa.
Joshua olhou para Samuel não gostando do que ouviu.
— Acha que ele está em perigo? — O ruivo indagou.
— Talvez. — Respondeu sem temer.
— Por está encarando-o, Josh? — Luke perguntou para o ruivo, mudando o seu semblante.
— Não vamos brigar aqui, não é? — Caleb tentava manter a paz.
— Vem comigo, loirinho.
Joshua sequer deu oportunidade de Edgar respondeu, puxou o pequeno pelo braço e juntos voltaram para a primeira sala. Edgar somente parou quando chegaram próximo ao sofá e imediatamente sentou-se.
O ruivo posicionou-se ao seu lado, com os dois cotovelos em ambas as coxas.
— Eles não param de olhar pra você. — Edgar tentou iniciar o diálogo.
— Quem?
— Seus parentes? Amigos? Não sei. Mas todos que passam em algum momento olham para você. Percebi isso desde que entrei.
— Sou o filho rebelde, tatuado e que vive metido em confusão. — Retirou os cotovelos das coxas e encostou-se ao sofá, pondo o braço logo atrás de Edgar, embora não estivesse encostando nele, mas sim no sofá.
— Sua família costuma ser unida?
— Não. Há muita falsidade aqui. Tá vendo aquela velha e gorda ali? Ela é a Donna, irmã do meu pai. — Joshua não apontou, mas Edgar conseguiu saber de quem ele falava — Ela vive metida em dívidas e meu pai sempre tem que bancar com isso. O marido dela também tá aqui, ele a traí com uma prima da minha mãe e Noah e eu sabemos disso.
Edgar não soube o que falar e ainda tentava diferir a informação.
— Toda árvore tem fruto podre. Eu sou um dos. Um monstro, como todos costumam falar.
— Às vezes você é bem contraditório. — Edgar não olhou para ele, mas se encostou no sofá, consequentemente no braço de Joshua. — Já me disse que é um monstro, mas também já me disse que não é.
Pego de surpresa pelas palavras de Edgar, Joshua reconheceu sua contradição e por isso não disse nada, somente sorriu de lado por gostar da forma como o loirinho se portou, mostrando-se inteligente.
— Josh, o jantar já vai ser servido.
Boa parte da população de Seattle conhecia aquela voz, pertencia à Jared, pai de Joshua. Ele era um homem alto e de cabelos já grisalhos, com um certo charme.
Acenou para o filho e logo se dirigiu para a sala de jantar, já arrumada.
Edgar sentiu-se miúdo diante tanta classe e decoração. Ele engoliu em seco quando encontrou a mesa já preparada com pratos, talheres e taças e isso o deixou apreensivo. Joshua o guiou para o meio da mesa, sentando-se ao seu lado.
— Você está bem? — O ruivo perguntou.
Edgar parecia suar e tremer.
— Pra que tantos talheres, taças e pratos? — Ele olhou para o ruivo.
— Te explicar agora não acalmaria o seu medo, talvez até piorasse. Então faça tudo o que eu fizer, certo?
O ruivo olhou para ele e pegou o guardanapo, Edgar vendo aquilo o imitou, embora um pouco mais desastrado ao colocá-lo sobre as coxas e encaixar.
— Os talheres estão na ordem em que os alimentos vão ser servidos, não precisa ficar com medo. Se quiser, coma do jeito que preferir.
— Mas parece que todos aqui sabem se portar em uma mesa, tem até modo de segurar um garfo. — Ele sussurrou.
O ruivo sorriu.
— Não quero ser motivo de zombaria por não entender quase nada disso aqui. Como disse, meu mundo é bem diferente do seu.
— Loirinho, não se preocupe.
— Como não? Eu não sou destro... — Arregalou os olhos em desespero.
— Oh, isso é um problema, por isso acho injusto algumas regras.
Pequenos detalhes mudam tudo, até mesmo quando alguém é destro ou canhoto. Edgar pareceu ficar mais nervoso ao perceber que a mesa estava seguindo a ordem dos destros e sendo canhoto, seu desespero foi visível.
— Loirinho, vou precisa fazer algo e você precisa concordar.
— O que fará?
— Só diga que sim. — O olhou nos olhos.
— Sim. — Ele respondeu.
Edgar então ficou quieto em seu lugar enquanto Joshua apoiou se acomodou na cadeira, de modo com que suas costas ficassem eretas e os punhos sobre a mesa. Até esse momento o loirinho achou que o que o ruivo havia planejado não seria grande coisa.
Joshua somente esperou até que quando serviram vinho para Edgar ele simplesmente e surpreendentemente levantou-se, fazendo com que seu braço fosse em direção a taça do loirinho, derrubando-a sobre ele. Logo, a manifestação de olhares se iniciou:
Edgar ficou apavorado e somente afastou os dois braços olhando todo o seu peito molhado. A camisa era branca e logo o roxo tomava conta dela.
— Me perdoe. — Joshua não sabia atuar. Luke até sorriu do lugar que estava, mas para qualquer um ele estava enganando perfeitamente. — Venha que eu o ajudo.
Edgar ficou de pé sem falar qualquer coisa, ele estava querendo correr dali por tamanho constrangimento. Já não bastasse o fato de ter que jantar com todas as regras existentes e, completando, o ruivo o surpreende daquela forma.
Eles saíram da sala de jantar com todos os olhares de familiares e amigos da mãe do ruivo.
Joshua estava à frente do loirinho que o seguia. Voltaram para a sala e subiram as escadas caracol e passaram por um belo corredor com quadros enormes e de grandes valores. Logo ali o ruivo abriu uma porta e, ao acender as luzes, Edgar descobriu que estava em um quarto.
Ele era enorme e também o maior quarto que o loirinho já tinha visto.
Tinha duas varandas, uma dava visão da piscina redonda e a outra dos fundos da casa com uma bela plantação de bambu e demais plantas. O quarto em si era espaçoso e moderno com móveis bem colocados. Numa única parede ficava o guarda roupas embutido e no centro a cama, decorada com travesseiros pretos e o cobertor, enquanto toda sua lateral era branca. O piso de madeira maciça era claro e entrava em contraste com as paredes brancas. Uma grande estante dividia o quarto em duas partes, a nova área, de acesso à piscina, tinha um saco para boxeador e uma esteira, uma mesa de vidro também ficava por ali. Mas as coisas que decoravam o quarto eram quadros, um em especial de frente a parede e algumas prateleiras.
— Nossa... — O loirinho disse, ainda perplexo com o lugar que estava.
— Isso não é nada comparado ao do Noah.
— Por que o Ninho?
— Lá eu mando e aqui eu obedeço.
— Quando eu paro pra pensar no quarto em que você dorme lá e esse daqui... Sinceramente...
— Tendo uma cama tá tudo tranquilo. Eu não gosto daqui, não gosto de ficar sozinho em um quarto, não gosto dessa casa.
Tudo o que Joshua quisesse, os pais dariam, principalmente após as marcas dolorosas da infância. E o quarto foi um presente, repaginado diversas vezes, embora nunca agradasse o ruivo.
Mesmo sem compreender a situação por inteiro, Edgar não gostava de fazer mais perguntas ao ruivo. Ele temia de alguma forma a resposta e temia a grosseria do mais velho.
— Eu queria entender o que aconteceu lá embaixo. Por que me deu um banho de vinho?
— A hora do jantar é sagrada para os meus pais, ninguém deve sair da mesa. Isso vale para mim, na verdade. Noah e eu crescemos obedecendo algumas regras e essa é uma das quais não podemos quebrar, eles não acham elegante alguém que sai da mesa antes do jantar ser servido.
— E foi por isso que derrubou o vinho em mim?
— Precisávamos de uma solução, certo? Minha mãe também reconhece quando alguém precisa de ajuda e talvez já tenha esquecido que eu esteja aqui com você. Se eu não fizesse isso, ela mesma faria e te levaria ao banheiro.
— Eu fiquei apavorado, não quis passar mico e comer como qualquer cidadão de Seattle. Não tenho culpa se não tive os mesmo privilégios que sua família.
— Loirinho, eu estou reclamando? — O ruivo perguntou. — Mesmo que você comesse com a mão, sem os talheres, eu não teria vergonha de você. Mas se ficou nervoso, só fiz o ajudar.
O loirinho engoliu em seco.
— O banheiro é logo ali. — Apontou.
Edgar descobriu uma nova porta.
— Irei conversar com minha mãe, voltarei em dez minutos.
Edgar concordou apenas em um movimento de cabeça a medida que o ruivo saia do quarto. Depois, viu-se sozinho naquele enorme quarto.
Não perdendo tempo, caminhou até o banheiro e não se surpreendeu com o tamanho. Era tão belo como o quarto. Posicionou-se frente a pia e ao espelho. Com um pano úmido passou sobre as manchas de vinho que se formavam em sua camisa branca, mas tirou boa parte do excesso. Depois desfez alguns botões presos e com as mãos molhadas passou sobre seu peito, lavando-o. Até que se sentisse bem, buscou por uma toalha nas gavetas abaixo da pia e se enxugou.
Saiu do banheiro ainda enxugando-se.
Antes mesmo de novamente avaliar o quarto, a porta foi aberta e o mesmo homem que ia servi-lo lá na sala de jantar, empurrava um carrinho de comida, com todas três prateleiras ocupadas e uma garrafa de vinho.
— Mas... — Ele tentou dizer.
— Senhor Joshua pediu para que eu trouxesse. Onde quer que eu coloque?
Ainda sem reação, ele apontou para a cama e a primeira bandeja foi colocada lá. Aquele que o servia saiu do quarto.
Edgar não quis tocar naquilo, acreditava que era para o ruivo se alimentar.
O loirinho sempre foi retraído e mesmo querendo andar pelo quarto, preferiu sentar-se na cama e observar distantemente os quadros. Minutos depois o ruivo aparece.
— Não comeu?
— Achei que fosse pra você comer. — Respondeu o menor ainda sentado.
— Comerei em breve.
— Aqui é tudo tão... Não é qualquer um que é servido no seu próprio quarto. E parece que ainda assim essa coisa de etiqueta me segue até no quarto. Tudo o que eu aprendi durante toda a minha vida foi já mais colocar os cotovelos sobre a mesa.
Joshua sorriu.
— Minha família é um tanto tradicional e seguem as regras de etiquetas em jantares como esse. Noah, Luke e eu, e quase todos lá embaixo tem que saber dessas regras, é algo que carregamos e devemos passar para as gerações.
— Se me lembro bem, quando assisti o filme da Julia Roberts e Richard Gere lembro o quanto foi constrangedor a situação que ela se encontrou naquele jantar tão sofisticado. É embaraçoso se encontrar numa situação como aquela.
— Uma linda mulher? — Joshua franziu o cenho.
— Algum problema em gostar desse filme?
Joshua novamente sorriu.
— Ok, loirinho, deixa eu te ensinar algumas coisas.
Joshua simplesmente puxou uma pequena mesa logo atrás e colocou próxima da cama. Retirou a bandeja de onde estava e a pôs na mesa.
Fez com que Edgar ficasse sentado na beirada.
O que deixou Edgar desarmado, sem tomar qualquer atitude, foi quando Joshua posicionou-se logo atrás dele, encaixando o corpo pequeno do loirinho entre suas pernas e repousando sua cabeça em seu ombro.
— Está nervoso? — O ruivo perguntou.
Edgar engoliu em seco.
— Me ensine... — Foi só o que disse tentando controlar a respiração desregulada.
Joshua somente sorriu e felizmente Edgar não viu aquele sorriso, senão ficaria mais nervoso.
— Eu considero injusto o fato da mesa ser preparada para destros e não canhotos, como é o seu caso. Noah teve que se adaptar a situação, ele é como você, loirinho.
— Outro privilegiado. — Soltou.
Joshua nada disse e continuou seu ensino.
— Olhando para todos esses utensílios parece complicado, não é? Mas onde estão as facas?
— Do lado direito.
— Então eis as damas nesse lado: As taças, as colheres e as facas.
— E no lado esquerdo os cavalheiros: Os garfos e aquele prato menor?
— No caso o prato é para o pão, em algumas ocasiões você vai encontrar também o guardanapo, mas ele geralmente vem sobre o prato no meio. Entendeu até aí? As palavras no masculino e feminino te dão noção de que lado fica cada talher.
Edgar movimentou a cabeça em concordância.
— Os talheres são postos na ordem que vão ser servidos os alimentos, ou seja, de fora para dentro. Vai chegar um momento em que você vai encontrar uma faca um tanto peculiar, ela serve para peixe. O mesmo vale para os pratos, são postos na ordem em que os alimentos vão ser servidos, nesse caso, de cima para baixo. O último prato é a base, então não terá alimento para ser servido nele, é apenas uma base.
— Sempre cresci sabendo que prato serve pra por alimento, mas nunca soube de um prato pra outro prato. E aqueles outros talheres?
— Esses são os para sobremesa, ficam na parte superior do prato e eles são apenas usados ao final da refeição. E como sabe, a sobremesa vem após a refeição.
— Não é atoa que sou viciado em doce.
— Lembrem-se, loirinho. A boca não vai até a comida, mas sim a comida vem até a boca. E, antes de sentar-se a mesa, lembre-se de por o guardanapo sobre suas coxas, evitando assim a sujeira em sua roupa.
Joshua então afastou-se de Edgar, deixando-o sozinho na cama.
—Isso é o básico do básico. Mesmo que pareça fácil falando, só terá realmente perfeição quando praticar. — Afrouxava sua gravata — Mas agora eu não me importo com isso, só uso-as quando estou na presença dos meus pais. Se quiser, poderemos sair e comer em qualquer lanchonete.
Quando o ruivo menos espera, Edgar já segurava uma taça com vinho e com um prato em mãos e uma colher.
— Me desculpe... — Disse, já de boca cheia.
O ruivo sorriu.
— É difícil comer assim.
— Não me importo com isso. — Deu de ombros.
Ele também foi até o carrinho de comida e beliscou do alimento.
Nos minutos seguintes, Edgar já estava farto. Tinha o costume de comer pouco e somente isso bastava, afinal, era universitário e tinha dias que mal se alimentava. Isso se dava ao fato de preferir doces e comê-los em horas inapropriadas.
Joshua estava jogado na cama segurando uma taça de vinho, ele a remexia enquanto olhava o liquido se mover. O loirinho estava na varanda, observando a lua cheia e exuberante.
O ruivo tinha uma vontade incontrolável de tomá-lo naquele quarto, como no dia em que transaram pela primeira vez. Mas nessas investidas, o menor sempre deu motivos para que Joshua prosseguisse.
Encontrou excitado ao olhar para o volume na sua calça. Não era nada fácil estar no quarto com alguém que o deixava louco física e emocionalmente.
— Ei, loirinho, o que tanto olha aí fora? — O ruivo perguntou da sua cama.
Mas Edgar estava no mundo da lua e não o ouviu. Os pensamentos estavam bem distantes dali. Pensava em diversas coisas ao mesmo tempo. Mas em todas elas Joshua fazia-se presente.
— Loirinho?
A voz saiu como um sussurro ao se aproximar de Edgar e, por isso, o loiro quase saltou da varanda por tamanho susto. Mas como todo bom ator, ele não gritou, apenas se remexeu.
— O que faz aqui fora? — Insistiu em perguntar.
— É bonito o que vejo.
Mas os olhos de Edgar não estavam mais na lua e sim em Joshua, que o encarava.
— É bonito...
— Parece que o jantar teve fim e todo mundo voltou a circular pela casa. — O ruivo alertou ao perceber que Samuel e Luke conversavam próximos da piscina.
— Sua mãe vai aparecer por aqui.
Joshua bebeu do vinho e negou com a cabeça.
— Gostou desse vinho? — O ruivo perguntou.
— Achei forte.
— E o que achou dele? — Ele encostou-se na mureta.
— Sei lá, o que tem demais nele? — Edgar também se encostou.
Joshua pegou a taça e Edgar ficou olhando o objeto e o líquido por alguns segundos.
— Esse é um vinho tinto Tannat com corte de Merlot, envelhecido três anos em barrica, você pode observar que ele foi envelhecido pela cor mais forte, esse vermelho rubi — Joshua agitou a taça e aproximou-a do nariz cheirando a bebida, como um verdadeiro especialista — Também dá pra identificar aromas como frutas vermelhas, canela e outras especiarias, típico das variedades de uvas tintas, um pouco de chocolate também, mas isso vem da barrica. — Tomou um gole e prosseguiu— Na boca você também pode o sentir bastante aveludado, é o que chamamos de corpo ou volume de boca, geralmente se deve ao envelhecimento em carvalho. — Finalizou deixando a taça sobre a mureta.
— Uau... — Sua voz não saiu.
— Também cresci tendo que estudar esse tipo de coisa. — Sorriu o ruivo. — Nessa ocasião foi um interesse meu, vendo meu pai sempre apreciando bons vinhos. Noah não faz ideia desse tipo de coisa. Se a humanidade soubesse como é bom ter paladar aguçado, jamais dispensaria essa bebida dos deuses.
Edgar, como de costume, nada falava. Ele simplesmente silenciou-se enquanto viu o ruivo tomar para si a taça para si novamente e beber todo o resto. Minutos se passaram e eles ficaram em silêncio, até que Joshua finalmente abrisse a boca
— Andei conversando com o Caleb. — Largou a taça de lado e se virou, aproximando-se mais do pequeno.
— Eu gosto dele, me parece uma boa pessoa. — Tentava manter-se no assunto, mas a aproximação de Joshua novamente o deixava nervoso.
Mesmo já tendo se encostado no ruivo diversas vezes, quando acompanhado daquele olhar penetrante e sádico, o deixava daquela forma, com medo do que pudesse acontecer dali por diante.
— Ele costuma ser o meu cérebro quando me falta razão.
— Sim, os amigos servem para isso.
— Quero te beijar. — Não poupou as palavras.
— C-como?
A pergunta veio de supetão.
— Eu quero te beijar. Você me deixa te beijar?
—S-sim...
Edgar entreabriu seus lábios com a aproximação do ruivo que sem perder tempo o beijou. Uma única taça de vinho foi o suficiente para Joshua agir daquela forma.
O beijo foi intenso. Quando o braço do ruivo envolveu toda a cintura do loiro, Edgar não podia mais escapar. Tendo os lábios tomados com vontade, entregou-se.
O Joshua ergueu o loirinho e o colocou sobre a mureta da varanda, ainda o beijando. Edgar tinha medo de altura, porém não ousou olhar para trás, apenas continuou beijando-o.
Mas então o jogo virou quando Edgar interrompeu o beijo. Joshua o segurava pela cintura e o loirinho o olhou.
— O que houve?
Edgar somente tocou-lhe a gravata. Os olhos de Joshua acompanharam toda a movimentação da mão do loirinho, que afrouxava sua gravata aos poucos até finalmente desfazer o nó. Ele segurou a peça de roupa entre seus dedos e olhou para o ruivo.
— Sua insanidade me torna tão louco quanto você. — Mesmo com a respiração falhando, o loiro conseguiu dizer.
— Fazer o que você quer é mais perigoso do que estar com você aqui e podendo te derrubar a qualquer momento.
— Eu confio em você.
Joshua retirou uma mão da cintura do loiro. Edgar não temeu, continuava a confiar nele, mesmo tendo seu corpo prendido a um único braço estando apoiado.
— Eu ainda confio em você.
E do bolso Joshua buscou o que tinha comprado na manhã. Tinha planos bem diferentes para aquilo, mas vendo o loiro em seus braços, não poderia perder mais tempo.
— Ei, loirinho, eu nunca fui uma pessoa boa com as palavras. Mas... — Joshua retirou do bolso um recipiente vermelho. Dentro dele havia um anel de ouro branco e titânio. — Você quer namorar comigo? Eu não gosto de continuar algo se não for oficial.
Edgar estava em silêncio ainda sem acreditar no que estava vendo. Era Joshua. E quem sabe como é o ruivo jamais esperaria dele uma coisa tão formal quanto aquela. Não bastasse o fato de entender de etiqueta, vinhos e agora estava dando-lhe um anel em compromisso.
— Hein, loirinho? — Ele estava inseguro.
Edgar olhou para a gravata e logo em seguida para Joshua.
O loirinho abaixou sua cabeça, fechou seus olhos e, delicadamente, vendou-se com a gravata que antes Joshua usava.
Era um sim.
Joshua segurou em sua mão, encostou seus lábios sobre ela e logo em seguida inseriu o anel que coube perfeitamente.
Depois disso ele puxou Edgar para si e o loiro prendeu-se ao corpo do maior, encostando sua testa a dele, embora estivesse com os olhos vendados pela gravata. Um novo beijo teve início.
Joshua carregou Edgar em seus braços até a cama, deitando-se ainda com ele sobre seu corpo. O loiro ficou de joelhos e ergueu os dois braços. Assim, Joshua pôde retirar botão por botão da camisa branca de Edgar... Com os dentes, arrancando-os um por um.
Depois puxou com agressividade o cinto da calça do menor, até então fazê-lo deitar novamente sobre seu corpo.
Enquanto o beijava sua mão acariciava a nádega do loirinho, embora ainda estivesse de calça. Edgar gemeu baixinho quando recebeu um beijo com vontade e sabendo o que aconteceria, afogou seu rosto no pescoço do ruivo.
Joshua enfiou suas duas mãos sobre a calça de Edgar podendo tocar sua pele ali dentro. Continuou a acariciar e sentia suas mãos cada vez mais aquecidas.
— Eu posso? Por favor... — O ruivo pediu.
— Não perca o controle. — O loirinho murmurou e mordeu seu pescoço.
— Edgar...
— Faça. — Não temeu.
Assim, Joshua abaixou a calça de Edgar até que elas alcançassem as coxas, ainda que estivesse deitado sobre o corpo do ruivo. Suas nádegas, naquela posição, pareciam mais suculentas e lisas, além de brancas... Onde mais tarde a vermelhidão tomaria conta.
As pontas dos dedos do ruivo acariciavam cada nádega com delicadeza enquanto Joshua pediu para que Edgar o beijasse mais um pouco. Foi naquele beijo que, sem esperar, o primeiro tapa, leve, foi registrado.
Um gemido, o silêncio. Mais um novo beijo.
Edgar desceu sua mão ao membro rígido do ruivo e o segurou, mesmo que o beijando. A nova carícia tomou conta de sua nádega. Sendo assim fechou seus olhos.
Um novo tapa foi registrado
Joshua não prosseguiu com o terceiro tapa.
Ele continuou acariciando a bunda de Edgar, apenas ouvindo a respiração do menor em seu ouvido. Joshua voltou com sua mão até os lábios do pequeno e o fez umedecer um dedo, em seguida voltou com o mesmo dedo por entre as nádegas do loirinho, que já não resistia e gemia baixinho no ouvido do ruivo.
Aquele dedo travesso brincava cuidadosamente enquanto o corpo de Edgar se contraia ao seu.
Não demorou muito para que ele introduzisse, devagar, metade do seu dedo. Edgar se contraiu mais ainda. Joshua tinha mãos grandes, consequentemente os dedos também.
Os gemidos de Edgar, reprimidos, eram tão excitantes que o membro de Joshua latejava e poderia explodir a qualquer momento.
Joshua bruscamente introduziu mais do seu dedo e Edgar gemeu, mas mordeu forte o pescoço do ruivo e imediatamente pressionou seu braço.
O ruivo, certamente, entendeu o recado.
— Dói... — Murmurou.
Joshua nada disse, ele continuou com seu dedo em Edgar e com delicadeza foi retirando.
Mas no segundo seguinte ele jogou o loirinho na cama, que caiu de costas e sem compaixão retirou a calça do menor, jogando para longe sem ver em qual lugar cairia.
Joshua sentou-se na cama, encostado a parede e logo depois segurou as duas pernas de Edgar. O loirinho, deitado, não sabia o que aconteceria e curioso apoiou-se entre os dois cotovelos, mas logo foi puxado.
O ruivo desceu suas mãos das pernas até as coxas de Edgar e o puxou mais um pouco até que suas nádegas estiveram bem próximas da face do maior.
Joshua juntou as duas pernas de Edgar e a segurou com uma só mão. A outra estapeou, devagar, uma das nádegas do loirinho e logo em seguida a apertou. Já estava vermelha.
Após tudo feito, Joshua afastou uma das nádegas e observou tudo o que queria encontrar no meio delas. Um segundo se passou e ele afogou seu rosto ali, brincando perfeitamente com sua língua, arrancando um alto e forte gemido de Edgar.
O loirinho estava de cabeça pra baixo, com parte das costas e cabeça repousadas na cama, com as pernas erguidas e presas enquanto tinha o seu ponto mais sensível sendo massageado pela língua do maior e suas nádegas apertadas pela mão áspera do ruivo.
Era impossível não gemer e sentir prazer. Posição peculiar, mas que Edgar certamente amou.
Dali em diante o sexo acabaria horas depois. Até porque Joshua adorava prosseguir e demorar com as preliminares.
Joshua era bom em etiqueta, em apreciar vinhos e certamente bom na cama. Perfeito galante.
[...]
Estar em frente àquela porta foi uma das coisas mais difíceis de sua vida.
Colin não olhou para trás e jamais iria. Preferia permanecer com os olhos fixos naquela madeira do que saber que algum amigo seu estivesse espionando-o. Ou talvez imaginar o que eles pensariam.
Na última vez que esteve ali, foi recebido por Colton, a quem estapeou. E agora, depois de ficar horas em sua república ainda decidindo se iria ou não conversar com Sean, resolveu. O moreno não o atendia mais, principalmente após ter a ligação ignorada enquanto Colin conversava com William.
Colin então bateu na madeira e esperou ser atendido. Isso durou menos de um minuto.
Um garoto de cabelos lisos e loiros que repousavam nos ombros, embora se arrastassem e até a metade de suas costas, foi quem o atendeu.
— O que quer aqui? — Foi rude o suficiente, características da rivalidade tigre e leão. E Colin já era bem conhecido por ser leonino.
— Falar com o seu líder.
— Saia daqui, leonino!
— Se eu fosse você não faria isso. — Colin soltou um sorrisinho, realmente provocando.
— E o que você fará? Sequer chega ao meu ombro.
— Quer mesmo me desafiar? Eu juro que sou capaz de te dar na cara, garoto atrevido. — Colin bancando o durão era engraçado.
E então o loiro deu um passo à frente e se preparou para agredir Colin.
— Um passo a mais e eu não respondo pelos meus atos. — A voz de Sean era sempre um destaque diante as demais.
O garoto parou, surpreso. Os demais logo atrás também ficaram assustados.
— Acho que tolerei demais vocês aqui. Eu já não os expulsei? O que estão esperando? Em Colton, Harry e Adrian já dei o pé na bunda e vocês ainda esperam mesmo que serão aceitos por mim? Fui bonzinho demais ao dar prazo de um dia para que arrumassem suas coisas, agora arrumem todas essas malas e saiam daqui. Agora! — Gritou a última palavra.
Se duvidaram mesmo da autoridade de Sean, o moreno foi capaz de arrastar uma mala aleatória e a jogar pela porta.
— Vou mesmo ter que fazer isso com cada mala? Ou algum engraçadinho deve tá me odiando a ponto de querer bater em mim? Vamos, quem vai ser o primeiro? Saiam, seus desgraçados! — Gritou novamente.
Ele realmente não estava de bom humor. Colin temeu.
Em questão de segundos todas as malas já estavam no gramado e os membros que restaram após a ordem de Sean no dia anterior, não reclamaram. Ele realmente se considerou bonzinho ao deixar com que os novatos tigres arrumassem suas coisas e dormissem por uma noite, tendo que no dia seguinte ir embora. Mas a presença de Colton, Harry e Adrian ele realmente não queria. E os três foram os primeiros a saírem e não insistiram para ficar.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Colin entrou na república e pisar lá era desagradável. O clima já não era o mesmo e ele sentia o peso nas costas.
Sean fechou a porta e subiu as escadas. Colin o seguiu.
— Não concordo com a atitude de expulsá-los.
— Acha que minha república se iguala a sua? Eles são ricos, sabem bem se virar. Sem essa de bancarem os coitadinhos como vocês leoninos.
— Está querendo discutir comigo? — Colin questionou ao perceber que o moreno havia entrado no quarto.
— O que acha que eu quero? O vi conversando com ele e rejeitando minha ligação.
— Estou na merda da sua república pisando no orgulho de todos os leoninos. Isso não conta? Ou você simplesmente vai me tratar assim? Nem te contei o que aconteceu com William e eu.
— É necessário? A viadagem de vocês está exposta. Aposto que você foi lá insistir em ter a amizade dele novamente. William não deveria ser médico, talvez ator, ele dramatiza bem.
Foi nesse momento que Colin lembrou-se de algo que William disse.
Relacionou médico ao hospital.
— Talvez você devesse seguir a mesma carreira. Pois eu sei que toda essa postura tomada é uma atuação.
O moreno entreabriu os lábios e fitou Colin.
— Já sei que conversaram no hospital.
A máscara de Sean caiu.
— Fiz o que tinha que fazer. — Sean voltou a se movimentar pelo quarto e sentou-se na cama. — Mas ainda assim estou com raiva por ter rejeitado minha ligação.
O pequeno Colin caminhou até a janela, lugar onde geralmente Sean costumava ficar para espioná-lo. A visão que tinha tanto da antiga república e a nova eram imparciais. Apenas conseguia enxergar parte do quarto quando a janela estava aberta.
— Como se sente pisando no orgulho dos leoninos? Somente Octavio tinha a liberdade de andar livremente por minha república. Inclusive ele já esteve várias vezes aí.
— Não vai me perguntar sobre William? — Colin continuou a fitar sua república.
— Não é melhor que eu não saiba como foi? — Retirou seu celular do bolso e passou a mexer. — Simples assim.
— Se é isso que prefere... Só estive aqui pra conversar com você, mas percebo que nada importa.
— Pra que complicar as coisas, Colin?
— O que estou complicando? Eu saí da minha república achando que você estava me odiando, mas percebi que está normal. Até acreditei que iríamos discutir e que você iria começar a agir como William me limitando em tê-lo. — Se virou.
— Quem está discutindo agora? — Sorriu, ainda deitado e sem retirar os olhos do celular. — Pra que complicar tanto as coisas, garoto?
— Não tem como ficar em paz com os dois ao mesmo tempo. É melhor que eu volte antes que nós dois discutamos.
— É assim? — Sean largou o celular e olhou para Colin que se afastava. — Você simplesmente acha que está com razão? Vai sair, Colin? Certo, passe por essa porta e me esqueça.
— Acha mesmo que esse truque vai funcionar como no dia em que perdi minha virgindade pra você? Eu sou muito capaz de fazer isso e nenhum suborno barato vai me comprar.
Colin passou pela porta. Ele jamais iria se render aos subornos de Sean quando se tratava sentimentos. Forçá-lo a ficar era absurdo.
Sean saltou da cama e no corredor gritou pelo nome do namorado:
— Não percebe que quem tá estragando as coisas é você? Nada mais me importa. Se você conversou com William não é do meu interesse. Não quero saber e você consegue enxergar nos meus olhos que não estou mentindo. Eu certamente vou ficar com ciúmes e isso não vai ser legal, me deixa pelo menos me adaptar ao fato de vocês voltarem a serem amigos, para aí sim, te ouvir. Mas eu somente me importo com você. Foda-se William, que saco hein.
Ele entrou no quarto após dizer tudo o que precisava.
Sean novamente voltou a se jogar na cama e não esperou por Colin.
Mas a silhueta do pequeno se formou logo atrás da soleira da porta e então Colin apareceu.
— Desistiu de fazer todo o seu show? — O moreno perguntou.
Colin não conseguiu falar nada. Na verdade, talvez não tivesse razão para falar. Sentindo-se culpado, caminhou até a cama e também se deitou. Repousou sua cabeça no tórax do moreno e colocou sua perna entre as coxas de Sean.
— Acho que nunca iremos deixar de discutir. Caralho, hein garoto. — Sean beijou sua cabeça e em seguida começou a acaricia a bochecha de Colin com o polegar.
— Posso te fazer uma pergunta? — Aleatório.
— Algo que eu possa responder.
— O que fará daqui em diante sem outros membros em sua república?
— Já tem novos membros na lista. Toda república tem. E eu sou um Tigre, Colin. Deve aceitar que querendo ou não, minha república é desejada.
— Sabe que não irei me tornar um Tigre, não é?
— Você já é um.
— Não sou.
Sean fez um ataque surpresa ao levar sua mão às nádegas de Colin e apertar com volúpia.
— O que tem aqui? Algo que amo, como e ainda por cima tem minha marca. Você reconhece que assim como Octavio, há sangue leão e tigre em você. Não há como negar.
Colin deu o seu silêncio e sequer confessou que adorou a forma como Sean pegou em suas nádegas.
— Colin, quer me chupar? Sim, eu sei que quer. Como sei que vai ficar de mimimi e não quer transar comigo, bem que poderia quebrar esse galho pra mim, não?
Ele conseguiu ser até mais cara de pau do que Luke.
— Como pode ser tão babaca? Ok, tchau! — Tentou se levantar.
— Ei, fica aqui! — Sean o prendeu e gargalhou.
Colin, logicamente, ficou e foi preenchido de beijos.
Mas ninguém havia notado que Colton sumiu.
[início do flashback]
Pra acordar, não precisa necessariamente abrir os olhos. Com Colton foi assim. Aquele cheiro ele já conhecia, típico de sala de hospital. Porém, não sabia há quanto tempo já estava ali. Lembrava-se bem da última vez em que seus olhos estiveram abertos.
Na mesma sala, duas mulheres conversavam.
— Esse garoto acordará em breve, a família não tem sequer condições para arcar com as despesas do hospital. — Essa voz era incrivelmente mais aveludada e impactante.
— Quanto ao irmão dele? Como procederemos?
— Fiz o que tinha que fazer.
— Suzana, não vamos nos prejudicar com isso?
— Não.
As mulheres silenciaram-se quando Lisa, mãe de Colton, entrou na sala. Suzana imediatamente saiu, deixando apenas a enfermeira.
Quando Colton sentiu suas mãos serem tocadas, imediatamente abriu os olhos. A enfermeira era loira e de olhos claros, estava ainda fazendo avaliações em Colton.
Lisa sorria para o filho e logo se emocionou. Tinha que se controlar, temia tocá-lo muito e o machucar.
— Mãe... — Ele a chamou e desviou os seus olhos.
— Finalmente você acordou, meu anjo. Finalmente...
— Julian... — Silenciou-se. E pensou em tudo o que ouviu da enfermeira e a mulher que atendia por nome de Suzana. — O Julian está bem, não está?
Lisa não escondeu o seu choro audível.
Colton nunca se esqueceu das palavras daquela mulher: “Fiz o que tinha que fazer”.
Lisa e Colton jamais foram os mesmos depois daquele dia. Julian morreu.
[final do flashback]
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