República de Leões
43 Capítulo 43
Notas iniciais
[início do flashback]
Joshua até já havia decorado o horário, sempre próximo das 16hrs. Quando ninguém mais estava por perto, ele, o estuprador, sempre aparecia com um sorriso largo no rosto mostrando toda a simpatia, uma falsa simpatia para falar a verdade. Havia conquistado o espaço que queria para poder passar quanto tempo quisesse dentro daquela casa.
O fato era que Joshua sempre foi ameaçado. E, para uma criança, receber ameaças era mais horripilante que histórias de terror.
Ninguém poderia ouvir os seus gritos. Gritos estes que eram abafados pela mão do maior que, sem ressentimento, piedade ou princípio de moralidade, o maltratava. O choro do ruivo era visível e chegava a molhar a mão do estuprador.
Quantas vezes ele olhava para a janela implorando para que alguém a abrisse e o salvasse daquele martírio diário? Deixou de acreditar em super heróis.
As gotas de sangue molhavam o chão, fruto da atitude daquele homem malvado.
A primeira vez, por exemplo, deixou Joshua trancado em seu quarto por vários dias. Seus pais até acharam que ele estava doente e, por uma semana, deixou de ir à escola. Acreditava que seus amigos de alguma forma tinham descoberto sobre o estupro. Sim, ele sabia que era impossível, mas temia.
A segunda, terceira e quarta vez aconteceram em dias consecutivos. Todo o seu corpo estava marcado. Ele perdia a conta de quantas desculpas tinha que dar para os outros sobre tal ferimento. Por isso passou a adotar roupas mais longas que cobrissem todo o braço. Algumas cicatrizes ele sabia que iria carregar pelo resto de sua vida.
Com isso tornando-se frequente, Joshua já não mais se importava com nada. Ele sabia a hora, sabia o que aconteceria. Simplesmente deitava em sua cama e deixava que o homem fizesse aquilo que tinha vontade.
Ele ouvia insultos frequentes, chegando a ser confundido com alguma garota, Jenny. Sim, ele se lembrava desse nome até descobrir dias depois que Jenny era o nome de uma prostituta.
Sempre que o homem terminava de estuprá-lo, fazia questão de cuspir na sua cara. Vestia as roupas e acendia um cigarro. Sem forças pra fazer qualquer movimento, Joshua permanecia deitado em sua cama chorando em silêncio por horas.
— Para onde você vai, Noah? — Ele perguntou assustado após saber que novamente ficaria sozinho.
— Eu vou lanchar com os garotos da minha turma, papai e mamãe deixaram. — Respondeu o loirinho.
— Posso ir com você?
— Ah, não, Josh! É o pessoal da minha turma, eles não gostam de você.
— Por favor, deixa eu ir.
— O tio Kelvin logo aparece, ele vai te fazer companhia.
Joshua não disse nada. Queria muito contar ao irmão toda a verdade, mas sempre temeu as ameaças que recebia.
Sim, o tio Kelvin era o estuprador. O irmão de sua mãe, alguém de confiança. Um ser humano que ninguém jamais iria esperar uma atitude como esta. Um homem completamente conturbado que adotava uma máscara que somente Joshua reconhecia, vendo o monstro por trás dela.
Quando Noah saiu, Kelvin apareceu. Com o mesmo sorriso e, dessa vez, com um doce.
— Vamos subir? — Kelvin sorriu e lhe entregou o presente.
Joshua, em silêncio, subiu as escadas até o seu quarto. Lá iria novamente acontecer a sessão de tortura.
Joshua se perguntava quando isso iria acabar. Já estava com doze anos, e as torturas aconteciam desde que tinha seus nove anos de idade. Sempre obrigado a aceitar as novas formas que o tio buscava ter o prazer. Lembra-se de cada momento a que teve de se submeter; Humilhantes sempre. Uma vez o tio quebrou um dente seu porque Joshua não aceitou continuar com aquela barbaridade.
Para o ruivinho, os finais de semana eram os melhores de sua vida. Já que seus pais estavam presentes e não passavam o dia gravando na emissora local.
O dia do seu aniversário de treze anos foi o mais horrível de todos. Seu tio trouxe mais alguém para que juntos cometessem a mesma barbaridade. Desse dia ele jamais esqueceria, pois se sentiu um simples objeto. Um boneco maleável onde todos decidiam os seus movimentos e faziam o que quisessem com ele. Se com um era horrível, com dois certamente gerou traumas naquele pequeno que um dia já sorriu.
Nasceu ali uma nova personalidade, alguém completamente diferente do que Joshua um dia já foi. Personalidade criada pela tortura. Certamente não era algo bom.
Cansado de tudo, tentou contar para sua mãe. Mas lembrava das ameaças contínuas que recebia do tio. Inclusive das que ele iria matá-la um dia.
Aos poucos Joshua foi se isolando do mundo, perdendo os seus amigos e qualquer contato com a sociedade. Ele tinha medo dos homens, tinha medo dos toques e era sempre o momento de terror quando ficava em algum lugar sozinho.
Exceto isso, outras coisas para o ruivinho já não mais importavam. Ele perdeu a fé pela vida. Quando soube que seu avô morreu, Joshua não chorou. Para ele, foi a melhor coisa que já aconteceu. Afinal, seu avô deixaria de sofrer.
Joshua passou a considerar que a vida é uma fase. Fase de sofrimento que nos testa para que possamos partir um dia: a morte.
Era quarta feira pela manhã, Kelvin havia passado todo o dia lá. Joshua não saiu do seu quarto desde o momento que acordou, ainda sentia suas pernas doerem e as costas feridas. Os seus pais foram gravar uma matéria fora do país.
Passou pelo quarto de Noah e verificou se o irmão estava lá, seguro. Por sorte, ele ainda dormia. Joshua rumou à cozinha e ali tomou o café da manhã sozinho. Contava ansiosamente as horas para que seus pais voltassem, pois as torturas e os estupros cada vez mais tornavam-se piores. Aquela seria a primeira e única refeição do dia para o pequeno.
Em plena manhã recebeu os primeiros toques de Kelvin, que apareceu de surpresa. Estático, Joshua não podia se mover, apenas aceitar aquilo em silêncio. Era uma ordem dada por Kelvin. E se dissesse que não, teria alguma marca em seu corpo por isso.
— Joshua, papai e mamãe... — Noah apareceu de surpresa e, não acreditando no que estava vendo, o tio com a calça na altura dos pés, parou de falar e permaneceu em silêncio.
Kelvin rapidamente levantou sua calça e correu atrás de Noah, e o pequeno, com medo, tentou fugir e se esconder. Foi pego subindo as escadas. Os cabelos foram presos nos dedos daquele homem que puxava com força. O que era uma criança diante da brutalidade de um homem?
— Se você contar o que viu, eu mato você! — Kelvin gritou.
Calado e com bastante medo, Noah começou a chorar e a concordar com a ordem do homem. Kelvin o empurrou no chão e começou a despi-lo. Estava ali tendo um novo objeto de consumo. Mais alguém que provavelmente adotaria uma nova personalidade e teria sua infância destruída.
Como podem pessoas assim existirem?
E a alma, presa e torturada, dentro daquele ruivo, gritou. O novo Joshua finalmente conseguiu se liberar das correntes que o prendiam.
Quando menos esperava, Kelvin foi atingindo com uma faca na perna. Teria permanecido com a faca presa ao seu corpo, se o ruivo simplesmente não puxasse a faca e novamente o atingisse na mesma região, dessa vez rasgando a carne com facilidade.
Um banho de sangue. Noah teve seu corpo revestido pelo líquido vermelho e, em desespero, apenas gritou e chorou mais ainda.
Joshua retirou a faca apunhalada na coxa de Kelvin e chutou o corpo do homem no chão. Montou sobre ele e apontou a faca para o seu pescoço. Crianças geralmente são consideradas anjos, mas os olhos de Joshua apenas transmitiam ódio e frieza: um demônio.
— Eu juro por tudo que farei você se arrepender caso toque no meu irmão! — Ameaçou.
— Joshua, Joshua, Joshua... — Kelvin gritava de dor, tentando estancar o sangue que corria em suas pernas — Largue essa faca e me ajude.
Joshua novamente ergueu a faca e apunhalou, dessa vez, o braço de Kelvin. O pequeno descontava a raiva sentida durante todos os anos sob tortura.
Após o novo ferimento, Joshua ergueu a faca, pronto para acabar com a vida de quem tanto o machucou.
— Joshua! — Noah gritou.
A faca caiu.
Kelvin, temendo um garotinho com a faca, que foi capaz de causar tamanho ferimento em sua coxa e em um de seus braços, o empurrou e se arrastou deixando um caminho de sangue até a saída.
Noah estava aterrorizado com a quantidade de sangue em seu corpo. Como filho caçula, era notável a sua fragilidade e tudo que restou do mais velho foi acolhê-lo. Porém, Joshua não sentia nada além de prazer ao ver aquele sangue molhar as suas mãos.
Em seguida, largou Noah e foi até a porta, procurando novamente por Kelvin. Seguiu a linha de sangue que o tio deixava pelo jardim e o encontrou caído no gramado da sua casa.
Kelvin gritava por ajuda e parecia falar ao celular, certamente pedindo socorro para alguma emergência.
Joshua simplesmente o encarou e desejou que o tio morresse. Pensou em jogá-lo dentro da piscina, mas não o fez.
Uma criança tendo pensamentos tão terríveis.
A casa caiu para Kelvin e até os dias atuais ele passa a sua medíocre vida na prisão. Os pais de Joshua e Noah descobriram toda a verdade e por vários dias se lamentaram pelo que aconteceu ao filho.
Porém, infelizmente, eles perderam o filho. O velho Joshua morreu e apenas o novo permanecia.
Foi naquele mesmo dia que foi criado o código dos irmãos, onde um deveria contar a verdade para o outro sempre.
Noah começou a ter sérios problemas e dificuldade de contato com as pessoas por um tempo. Enquanto Joshua fingia que ninguém ao seu redor existia.
Descobrindo do que era capaz, Joshua não mais abaixou a cabeça para ninguém. Passou a andar armado, sempre com um canivete no bolso. E o usou várias vezes em outros adolescentes, sempre testando sua capacidade de ferir.
Joshua foi expulso de várias escolas e até de colégio interno. Estava acostumado à tortura da mesma forma que era torturado, procurando sempre machucar pra valer qualquer que fosse aquele que se opusesse à sua vontade.
Joshua era sanguinário. Um garotinho que um dia sorriu, deixou de sorrir. As cicatrizes em seu corpo, causadas por Kelvin, eram lembranças que nunca mais iria esquecer. E olhá-las todos os dias alimentava o ódio que sentia.
Teve grandes dificuldades para se relacionar com alguém depois de tudo o que aconteceu. Foi quando conheceu Caleb anos depois e teve seu primeiro relacionamento sexual. A primeira vez não foi agradável e sentiu desconforto, pois a memória era sempre invadida por imagens de Kelvin o insultando enquanto o estuprava.
Joshua era apto a sentir prazer enquanto machucava, Caleb não escapava de suas torturas na cama. Inclusive, já se machucou um dia quando o ruivo perdeu o controle. Logo descobriu o motivo de tudo aquilo acontecer.
Kelvin também foi o culpado por tornar Joshua soro positivo para o HIV, por torná-lo um monstro, alguém que não mais acreditava na humanidade e fazia da vida um jogo de sobrevivência; ser o mais forte significava estar no topo.
Justificava os erros humanos com seu punho e procurava sempre pela justiça, mesmo que para alguns ela não fosse necessária, ou fosse apenas sua própria justiça.
Só queria provar para si mesmo que Joshua McGraien era forte.
[final do flashback]
Joshua se olhava no espelho usando uma calça cinza de algodão. Se tinha algo que lhe chamava atenção além das tatuagens, eram suas cicatrizes. Ele até já tinha batizado algumas com nomes das pessoas que lhe causaram isso, inclusive as que Kelvin lhe causou eram numeradas. Tanto é que Joshua tem uma sequência de números no seu braço, de 1 a 12, totalizando as cicatrizes em seu corpo.
Joshua virou-se e caminhou até a cama, sentando. Por alguns segundos observou Edgar dormir com o cobertor cobrindo parte de seu corpo.
O que Edgar era para Joshua? Tudo aquilo que um dia ele já foi.
Talvez seja por isso que dentro dele cresce uma vontade incontrolável de proteger o loirinho, porque tudo que reflete no garoto, já um dia refletiu no velho Joshua. Edgar tinha momentos de ingenuidade, certamente teve uma bela infância. Enquanto Joshua teve a sua destruída nos primeiros anos de idade.
— Edgar, tá na hora de acordar. — Joshua tocou os cabelos do loiro.
Edgar se remexeu na cama. Joshua balançou a cabeça e esperou mais um pouco. O loiro permaneceu dormindo. Era de se esperar, levando em consideração o tempo que passaram bebendo.
— Vamos, loirinho, você disse que tinha aula hoje.
Dessa vez Edgar resmungou, virando-se de costas para Joshua. O ruivo desaprovou aquela atitude e puxou seu cobertor. Edgar estava ereto, Joshua sorriu entre lábios com o que viu.
— Você vai acabar se atrasando. — Proferiu o ruivo, ficando de pé.
Não existiram mais motivos para Edgar continuar querendo dormir. O pequeno rapidamente despertou, mas não se mostrou constrangido. Ele simplesmente se sentou na cama e cruzou as duas pernas, colocando o travesseiro sobre elas. Não tinha notado que Joshua o viu ereto.
— Estou apertado! — Disse, coçando os olhos.
— O banheiro é todo seu.
— Onde estão minhas roupas? — Edgar então percebeu que não mais usava as roupas que escolhera para sair e o deixara vários minutos indeciso em frente ao espelho. — E-eu e você... Não acredito. — Ele se auto-estapeou quando levou sua mão à testa, envergonhado.
— Não. Não fiz nada com você e não seria maluco de fazer algo contra a sua vontade. Você só bebeu, dançou sozinho, me convidou para transar, — Edgar agora levou sua outra mão ao rosto, querendo afundar na cama por tamanho constrangimento — vomitou no meu quarto, te forcei a tomar um banho e você fez escândalo porque te vi pelado... — Joshua fez uma pausa para dobrar o primeiro lençol — Te dei novas roupas e você acabou capotando.
Edgar não queria falar nada. Sentia-se um completo idiota por ter bebido além da conta. Isso porque pensou em surpreender não só ao Joshua como a si mesmo. Ele era curioso pra saber a sensação de estar bêbado. Certamente não mais faria isso.
— Suas roupas provavelmente já estão secas. Assim que você dormiu, tomei um banho e as lavei. Deixei no secador de roupas.
— Pelo menos uma boa notícia diante de tudo isso. Pensei que iria voltar para casa vestido essa camisa que mais parece um vestido em mim. — Ele finalmente ficou de pé, sentindo o chão gelado, logo em seguida saltou na cama.
— Sim.
— Como consegue ficar sem camisa?
— Faz frio, pra ser sincero. Costumo me testar pra ver quanto tempo aguento ficar sem camisa. É um desafio que tenho comigo mesmo. Tome, calce-os. — O ruivo lançou ao seu lado um par de sandálias brancas.
— Tem o dobro do tamanho do pé... Você é grande como um urso.
— É melhor do que nada. Seus sapatos também foram lavados, já que você vomitou em cima deles.
— Ótimo, eu nunca mais vou beber na minha vida.
— Sua cabeça não dói? —O ruivo, percebendo que não mais aguentaria o frio, buscou por um casaco e vestiu.
— Não... Deveria? Só me sinto estranho.
— Tem sorte. Agora se levante daí que você acabou de perder a primeira aula.
Edgar olhou para o seu celular e teve a certeza disso. Rapidamente saltou para as sandálias de Joshua e, com dificuldade de caminhar devido ao tamanho do calçado, ele tropeçou. Joshua permaneceu de pé apenas olhando o loirinho se criticar pelo momento constrangedor.
— Eu sou muito atrapalhado, droga! Não fica rindo.
— Mas eu estou rindo? — Joshua somente o olhou, sem esboçar reação alguma diante daquela situação.
Edgar comprou de que para Joshua aquilo não importava. Por isso, tratou de ficar de pé.
— Preciso voltar para a república antes de finalmente ir para a universidade. — Disse o loirinho finalmente saindo do quarto.
[...]
Por duas semanas a Quadra Nove, finalmente, teve seu momento de paz. Nenhuma outra confusão.
Desde o acidente de Sean, Colin optou por ter tempo só para a universidade e os estudos, evitando novos diálogos sobre o que aconteceu com os companheiros de república. Ele e William não trocavam mais palavras, exceto os vários bons dias e boas noites por educação e maturidade. Samuel e Luke viveram em novos conflitos, porém, sempre que tinham a oportunidade estavam se pegando às escondidas. Leonard discutiu com Danion uma única vez durante todo esse tempo porque Leo ficou um dia sem aparecer na república. Ian estava em períodos de prova e, não querendo se meter na agitação da Quadra, resolveu passar uns dias na casa de férias dos seus pais e levou Connor com ele. William contou para Octavio depois de alguns dias sobre a conversa que teve com Sean e isso rendeu uma discussão de poucas horas até ambos acabarem transando. Gale e Erica resolveram curtir sozinhos todas as baladas de Seattle.
Era sexta feira.
Caine tomava seu banho tranquilo. Ele tinha acabado de acordar, havia dormido no quarto do branquelo desde o primeiro dia em que Leo decidiu não dormir mais lá e, como Danion costumava dramatizar, dizendo que ficaria sozinho, dormiu com o namorado. Mas o seu banheiro jamais deixaria de ser seu.
Acabava de passar sabonete em seu corpo quando ouvir a porta ser aberta.
— Não, Leo, eu não fiz do seu quarto um cinzeiro e não tem cigarro algum espalhado pelo chão. N-não... Quer dizer... Isso bem, o Caine está dormindo comigo e isso realmente não deixa de acontecer. Calma, Leo! Você todos os dias que aparece aqui entra no quarto e ver se não tá uma porcaria.
— Danion! — Caine gritou.
— Tenho que desligar, te vejo na universidade. — E o branquelo desligou após encontrar o namorado com o cabelo cheio de espumas cobrindo as partes íntimas.
O branquelo logo tratou de retirar sua roupa, também ficando despido.
— O que pensa que está fazendo? Danion... N-não, oh...
— Um dia você convidou o Colin pra tomar banho, por que eu não posso se sou seu namorado?
— Ele é meu amigo!
— Quem transa com você sou eu, agora pare de frescura e deixe que eu dou banho em você, me passe esse sabonete. — Ele puxou sem a permissão do namorado.
Danion foi abaixo do chuveiro e se molhou, colocou Caine contra a parede e passou a esfregar suas costas por alguns minutos.
Não era porque Danion tinha bastantes hormônios, mas ver Caine daquele jeito o deixava duro sem sequer ter controle disso. Não foi necessário pensar bastante, já estava ereto.
— O que é isso tocando a minha bunda? — Caine perguntou.
— Não tenho culpa, tá bom?
Caine rapidamente se virou e, quando notou, Danion estava excitado, também olhando para baixo.
— Vira de costas, Caine. Eu só estou te dando banho, isso não significa que iremos transar no banheiro. Isso se não quiser, é claro.
— Eu já terminei meu banho. — O pequeno disse, puxando a toalha.
Danion o segurou e puxou o namorado para perto de si, fazendo-o sentir mais da sua excitação. Caine imediatamente ficou vermelho, principalmente ao ser abraçado pelo branquelo que somente sorriu.
— Agora não mais Sebastian cuidará de você. Sou eu. Seu namorado e, para isso, os banhos estão inclusos. Sabe aquelas crianças que odeiam tomar banho e só vão quando a mãe levanta o cinto? Você parece uma criança dessas. Não se preocupe, eu darei banho em você. — Mentiu, sua vontade mudou.
— Ele não para de se mexer, eu tô sentindo...
— Acordei animado.
— Dan, n-n-ós transamos ontem...
— Ontem não é hoje. Um novo dia bem lindo com belos raios de sol acaba de se iniciar. — Brincou. — Deixa eu usar em você só um pouco? Aproveita que tá todo mundo dormindo...
— Dan... — Caine não parava de olhá-lo, mas Danion não parava de sorrir.
Caine, não negando sua vontade, já que sua excitação formou-se entre suas pernas, afinal, era o seu namorado e não tinha nada de errado nisso, repousou sua cabeça no tórax do branquelo e molhou-se um pouco. Danion o beijou ali até que Caine decidisse se virar e encostar-se novamente a parede, afastando suas pernas logo em seguida.
Danion encostou seu membro entre as nádegas de Caine e ficou acariciando a região com o mesmo, sempre massageando as costas do namorado. Caine adorava a massagem que recebia, além da provocação em sua parte mais íntima.
O branquelo então se preparou, segurou uma das nádegas de Caine e finalmente se posicionou para invadi-lo.
— Ei, desgraças, eu tô apertado! — Colin gritou batendo a porta. — Deixem pra transar depois!
Caine não deixaria de ser Caine em um momento como esse. Tomado pelo maior constrangimento de sua vida, ele empurrou Danion, que caiu de bunda no chão, e puxou a toalha.
O pequeno ficou desesperado e palavras não saiam de sua boca. Danion, frustrado sexualmente com o que tinha acontecido, ainda caído no chão, deixou a água levar embora a raiva súbita que lhe tomou conta naquele momento.
Sem dizer nada, Danion levantou-se e também se cobriu com a toalha, abrindo a porta logo em seguida.
— Isso vai ter troco, Colin. Eu juro que te odeio e estou desejando a sua morte. Uma morte lenta e, de preferência, com tortura psicológica, física e o caralho todo que existir.
O branquelo saiu do banheiro e deixou Caine sozinho, que ainda sem querer sair, permaneceu dentro, olhando-se no espelho. Era como se seus pais acabassem de flagrar ele e Danion no sexo, ou até mesmo Sebastian. Por mais que estivesse exagerando e ser apenas Colin, ele não sabia como reagir.
Colin não se importou com as palavras de Danion, simplesmente entrou no banheiro e viu Caine.
— Aproveita e vai ao quarto dele, continua o que estavam fazendo lá. Eu, hein...
Caine nada disse, em silêncio saiu o mais rápido que podia. Danion voltou segundos depois e parou na porta do banheiro.
— Acho que eu deveria te expulsar. Isso sim é um motivo justo, seu filho da puta, anão do caralho, arrombado. Eu te odeio, seu desgraçado. Por que não pega o barbeador elétrico, liga e depois vai pra debaixo do chuveiro com ele ligado? Morre eletrocutado, seu filho da puta!
— Vai pra merda, Danion... — Retrucou.
Colin já estava descarregando toda a urina acumulada no vaso sanitário.
Danion ameaçou entrar no banheiro.
— Dan... — Caine o chamou.
O branquelo se virou, extremamente puto com o que Colin tinha feito.
— Não vai valer à pena tentar discutir com ele. Colin finalmente voltou a ser o mesmo... — Disse o pequeno, cabisbaixo, ainda constrangido com a situação em que se encontrava.
Danion voltou a olhar pro banheiro, novamente.
— É isso mesmo, sua bicha, agradeça que o Caine é muito bom pra conseguir me segurar. A sorte é que você está voltando a ser o velho babaca mandão de sempre. Te odeio, filho da puta.
Uma bela amizade entre os dois. Causava inveja.
O branquelo tomou a mão do namorado e juntos saíram dali diretamente para o outro quarto.
Colin saiu do banheiro um minuto depois, pouco se importando. Não era hora de transarem no banheiro e o pior, no banheiro do quarto em que dormia. Porém, sentia pena de Caine, o seu amigo, pois o conhecia muito bem pra saber que ele queria se matar diante todo o constrangimento.
Colin apenas deduziu que eles iriam transar, não tinha certeza disso. Ele acordou bem no momento que viu Danion entrar no banheiro.
Edgar apareceu com uma expressão apavorada, olhando para trás várias vezes.
— O que deu nele? — Perguntou para Colin. — Parece que vai derrubar a república.
— Está puto porque acho que atrapalhei o sexo dele com o Caine. Quem se importa? O banheiro é nosso e não um motel.
Edgar novamente não dormiu em casa e sim no Ninho, com Joshua. Dessa vez foram realmente assistir ao jogo que há duas semanas tinham perdido. Edgar não conheceu Gaspar, mas em breve adotaria o costume deste.
— Imaginei que fosse coisa desse nível. Pobre Caine, vai ser obrigado a ouvir todos aqueles palavrões... Danion não muda.
— E você, onde dormiu?
— Na casa de um amigo. — A resposta fluiu por seus lábios.
— Que estranho, achei que você não tinha amigos. Espero que não esteja mentindo. Me tome como exemplo. — Colin disse, arrumando sua cama.
— Por que me pergunta isso?
— Nada, só me veio na mente.
— Tudo bem, só estou aqui pra tomar um banho e pegar minhas coisas.
— Te vejo depois, no refeitório caso seu horário vá de encontro com o meu.
Colin não demorou a sair do quarto. Ele iria tomar um bom café da manhã. Os dias que se passaram desde que viu Sean no hospital estavam sendo suficientes para renovar suas forças. Ainda não tinha coragem de finalmente fazer uma visita, principalmente por descobrir que Suzana impediu a sua entrada e William não mais avaliava o moreno. Depois soube que Sean já estava em casa, mas optou por esperar mais um pouco
Edgar não demorou muito em sua república, caçou seu material, tomou um rápido banho e vestiu roupas novas. Depois de se olhar no espelho finalmente saiu da república. No passo que deu, Noah apareceu com o melhor sorriso no rosto.
— Ei, Edgar, preciso da sua ajuda.
— E-eu, bem... Eu estou atrasado.
— É rapidinho. Vem cá... — Noah puxou a sua mão.
Edgar nem sequer conseguiu se soltar. Ao chegar à porta da república de Noah, foi pego por mais alguns garotos.
Era dado ali o início da vingança de Noah. Aproveitando-se do horário em que ninguém estava vendo. Exceto Caleb, que estava sendo os olhos e ouvidos de Joshua na Quadra. Ele rapidamente puxou o celular do bolso e ligou para o ruivo.
[...]
Joshua fumava na sala do seu bloco no Ninho. Ele olhava todas as suas fotografias, relembrando do passado mais uma vez. Como esquecer daquilo que iria atormentá-lo pelo resto da sua vida?
O ruivo puxou uma garrafa de bebida do frigobar e a abriu com o próprio dente, bebendo logo em seguida.
Logo mais teria que estar na universidade, mesmo que não estivesse tendo aula. Não poderia retirar os olhos do loirinho sequer um segundo. Noah certamente perderia o controle em breve e, sabendo que ele poderia surtar diante de toda a situação, estava tentando ser mais atento.
Ele acreditava que o irmão tinha algum distúrbio, embora os pais não acreditassem no que ele falava. Por isso, tratavam Noah como um garoto normal com auto-estima elevada.
O seu celular vibrou.
Sem antes olhar quem era, Joshua até ouviu a voz de Caleb.
— Vai ser pior do que imaginávamos. — Caleb tinha a voz acelerada.
— Não deixe! — Ordenou.
— Já está sendo tarde demais, Joshua, corra! Ele levou o garoto para a república.
Era a única informação necessária.
Joshua jogou o seu celular, abriu a porta da sala e correu.
Mas correu muito, bastante, empurrando tudo o que encontrava pela frente. Joshua saltou muros, chutou latas de lixo e quase foi atropelado. Mas ele não parou de correr sequer um minuto.
Algo dizia que ele estava demorando e que certamente Noah tinha feito algo humilhante para o loirinho. Joshua demonstrava o seu medo através daquele desespero. Ele sim sabia do que o irmão era capaz.
Finalmente pôs os pés dentro da Quadra Nove e quando chegou lá notou que já era tarde demais. Caine, Danion, Caleb e Colin estavam na frente da sua antiga república.
Joshua pouco se importou com os olhares, apenas sentiu o coração doer ao ouvir os gritos de Edgar. Gritos estes que maltratavam a sua alma.
Colin batia desesperado na porta procurando saber o que acontecia lá dentro. Danion procurou por aberturas na janela, tentando até entrar pelos fundos, mas não tinha passagem alguma.
Outro grito de Edgar fez Joshua tremer. Esse mesmo grito o levou para o passado, quando era estuprado. Noah não podia estar fazendo isso com o loirinho. Não podia.
— Joshua! — Foi por esse nome que Edgar gritou.
Nenhum outro nome senão esse. Apenas o nome de Joshua era citado por Edgar. O loirinho reconhecia que Joshua era seu protetor e, mesmo sabendo que seus gritos jamais poderiam ser ouvidos pelo ruivo, ele não parava de gritar.
Caine, Colin e Danion olharam para o ruivo que parecia aterrorizado. O ruivo levou sua mão à cabeça, temendo perder o controle. As pernas tremiam e o coração gritava.
Joshua tentou abrir a porta ao ouvir um novo grito de Edgar. Ele certamente estava perdendo a voz e chorava bastante.
No último grito de Edgar, Joshua chutou a porta duas vezes até conseguir derrubá-la.
O que viu jamais iria esquecer, mais uma vez. Noah tinha ido além dos limites existentes de crueldade.
Edgar estava caído no chão da sala, com pés e mãos amarrados e corpo despido. Nas suas costas estava escrito: Kelvin.
Joshua rapidamente correu e se ajoelhou. Ele virou o corpo de Edgar e nesse momento a fera despertou. Colaram um papel com a fotografia de Kelvin na face de Edgar que, sufocado, lutava para respirar.
Joshua puxou o papel e o amassou com uma única mão.
O monstro adormecido dentro de Joshua mais uma vez acordou.
Edgar tinha os lábios sangrando, proveniente de um soco.
— Me tira daqui. — Murmurou, choroso.
Joshua fechou as mãos e se levantou. Ele olhou para Noah no canto da sala. A morte em breve chegaria ali.
Joshua apanhou uma cadeira e a lançou contra Noah, o objeto quebrou-se na parede e prontamente cinco brutamontes ficaram a frente do seu irmão.
E não importam quantas guerras você vença, uma é o suficiente para decretar a queda do seu reinado.
Nas costas Joshua foi atingido com uma cadeira e caiu ajoelhado no chão.
Joshua já enfrentou até dois caras de uma só vez, mas seis era algo além da conta. Não tinha vantagem nenhuma sobre eles.
O que aparentava ser o mais forte, o segurou pelos cabelos enquanto outro logo atrás se prontificou a socá-lo, retirando imediatamente sangue de sua boca. Logo recebeu um chute no estômago que retirou todo o ar.
Joshua ainda assim tentava se defender daqueles ataques.
Caído, o ruivo chutou a perna de um, mas recebeu um chute ainda pior de outro e dessa vez nas suas costas. Ele cuspiu sangue e tentou se levantar. Mas a cada tentativa era novamente chutado ou socado.
— Batam, batam, batam! — Noah ordenava.
Caleb até tentou interferir, mas um só conseguiu acertá-lo em cheio, fazendo-o desmaiar com um único soco.
Colin e Caine nada podiam fazer, nem mesmo Danion. Esse certamente não moveria um dedo seu.
Toda casa foi revirada com o espancamento de Joshua.
A coroa de sangue foi derrubada. Um sorriso vermelho se formou no momento em que encontrou os olhos de Edgar. Joshua perderia aquela luta, não importava quantas vezes tentasse se levantar.
Um garoto deu uma sequência de socos em seu estômago e ele cuspiu mais sangue. Logo puxaram os seus cabelos vermelhos, fazendo-o olhar para o teto, sua face foi estapeada e ele recebeu um novo chute, caindo no chão.
Tudo o que faziam com ele, Joshua já fez com alguém. Não era tão diferente do espancamento de Danion. Talvez seja por isso que o branquelo não se mexia, apenas assistia do lado de fora da porta. Caine e Colin foram impedidos de entrar.
Joshua poderia sozinho dar conta de alguns deles, mas já estava se dando por vencido. Afinal, machucar um causaria mais ódio em Noah, e Edgar estava completamente vulnerável a qualquer vontade do irmão. Já tinha perdido metade das suas forças ao notar o corpo preso de Edgar.
Joshua novamente foi levado ao passado. Não era tão diferente da tortura e estupros diários que sofria de Kelvin. Por isso a dor já não era um problema para ele. Porém, Edgar era o seu espelho. Ser tratado da forma que foi tratado era extremamente humilhante.
Vê-lo despido só lhe dava a ideia de que Edgar foi também abusado. Apesar de que aquilo tudo poderia ser apenas um jogo de Noah, mexendo com seu psicológico, como adorava fazer.
— Não é a mim que você quer? — Joshua disse, caído no chão. — Por que faz isso com ele?
— Você conhece os meus jogos.
— Só o deixe ir.
— Foi assim que eu me senti quando descobri que você fodia com meu namorado.
— Ai, Noah, você nunca vai entender...
Noah nada disse, somente retirou do seu bolso uma seringa.
Joshua somente o olhou não querendo acreditar no que o irmão era capaz. Quando o viu se aproximando, o desespero lhe tomou conta e o ruivo tentou se mover, mas estava imobilizado.
Noah certamente precisava de algum tratamento, pois estava indo longe demais.
Coletou um pouco de sangue do irmão e aproximou-se de Edgar.
Foi nesse momento que Danion finalmente falou algo, não somente ele como Caine. Colin rapidamente puxou o celular do bolso e discou o número da polícia. Ele não queria saber se era contra as regras da Quadra. O que Noah estava fazendo era doentio demais e ele precisava urgentemente de ajuda.
— Eu vou te matar se você fizer isso, Noah.
— A morte é minha amiga.
— Para! — Ordenou, tentando se desfazer das mãos que o prendiam.
— Para garoto, seu doente! — Colin gritou do lado de fora.
— Noah, para! Você vai se arrepender. Faça o que quiser comigo, mas não encoste com essa seringa nele.
— Não, não, não — Edgar balançou a cabeça várias vezes.
Noah olhou uma última vez para Joshua que, mostrando o seu desespero, parecia se mover em câmera lenta. Noah apenas pressionou a seringa e ajoelhou-se.
O seu sangue seria o suficiente para destruir a vida de alguém que não merecia. Mesmo sendo Joshua, ele não era forte o suficiente para ver aquilo. Sua voz estava indo embora a cada grito que ele dava chamando pelo nome do irmão. Joshua estava pagando por todos os seus pecados.
“Eu vou matá-lo!” Foi só o que Joshua pensou.
De onde ele tinha buscado forças? Não se sabe. Joshua não era um super humano ou algo do tipo. Estava longe de ser isso, apesar de ser bastante forte. Mas dizem que na hora do desespero descobrimos o verdadeiro poder que nós temos.
Joshua abriu os braços com tanta força que foi capaz de afastar um dos brutamontes que o segurava. Na pequena oportunidade que teve, socou três vezes o rosto do garoto, quebrando o seu nariz. O sangue seria capaz de encher um balde.
Noah, assustado, acabou derrubando a seringa que se quebrou no chão. Ia ser pego pelo irmão, mas alguém que foi bem pago por ele acabou conseguindo puxar a sua perna, derrubando-o. Logo os garotos montaram sobre o corpo do ruivo, depositando vários socos nele.
— Que merda é essa aqui? — Foi só o que Luke perguntou antes de presenciar tudo aquilo.
Quando percebeu a covardia que estava acontecendo, tratou de socar o garoto que impedia a passagem de todos na porta e entrou. Samuel também tinha aparecido por ali, os dois acabavam de chegar juntos da casa de Natalie, depois de uma nova festa que a garota resolveu dar.
— Noah?! — Luke perguntou para o primo.
— Saia, Luke, não atrapalhe! — Gritou.
— Ei, ele é meu primo, deixem ele! — Luke ordenou para os garotos que agrediam Joshua.
Ninguém o ouviu. E foi aí que Luke entrou em ação, puxando um dos garotos para então agredi-lo.
Luke era bem travesso no seu modo de luta. Ele conseguia escapar dos socos com facilidade e sorrir, mas como foram dois contra ele, acabou sendo atingido pelo garoto que socou na porta.
Samuel, não admitindo aquilo, também acabou entrando na confusão.
Colin e Caine correram para ajudar Edgar que estava caído no chão e que tinha sido sem querer pisoteado por dois dos brutamontes.
Joshua, recebendo ajuda, pareceu se animar. Se de dois conseguia dar conta, tentaria cuidar de três de uma só vez.
Ele puxou um pedaço de madeira quebrada e cravou no braço do garoto acima dele. Sentiu sangue molhar sua camisa, mas pouco se importou. Lançou o garoto para o lado e com uma sequência de socos o fez desmaiar.
Teria prosseguido, mas foi atingido pelas costas. Ele rapidamente se virou e se defendeu de um chute, revidou com outro em cheio no pênis do garoto que se ajoelhou gemendo de dor. Joshua o segurou pelo seu cabelo e estendeu a mão, mandando o outro parar em seu lugar. O garoto acatou a ordem reconhecendo a fera que ordenava.
Joshua, agora, era quem estava dando as ordens, mesmo estando bastante machucado, o monstro dentro de si gritava pelo prazer em machucar.
Joshua era, de fato, um monstro.
— Faça alguma coisa! — Caine gritou para Danion.
Porém o branquelo não conseguia se mover. Ele sentia que a justiça estava sendo feita de alguma forma. Ver que Joshua também tinha apanhado bastante trazia algum alívio que ele não reconhecia. Não se reconhecia, pois sentia alívio e estava gostando o fato das pessoas baterem em Joshua. Ele simplesmente não iria fingir que se esqueceu de tudo o que o ruivo foi capaz de lhe causar.
Não queria ajudar. Não podia ajudar.
— Danion! — Caine gritou ao ver o namorado parado.
Danion balançou a cabeça negativamente.
— Danion, por favor! — Caine suplicou.
Danion não iria obedecê-lo, novamente acreditava que era absurda a ideia de ajudar quem um dia quase o matou. Danion só não resistiu por mais tempo quando viu um garoto surgir com um canivete, pronto para atingir Joshua pelas costas de maneira covarde. O branquelo jogou o seu celular e acertou em cheio a cabeça do garoto.
Joshua se virou pelo reflexo preparado para socar, mas o garoto já estava caído no chão, dessa vez recebendo agressões por parte de Luke, que já tinha conseguido derrubar um. Ele olhou para Danion antes de voltar a atenção para o alvo a sua frente.
Com o garoto ajoelhado, o ruivo usou do seu joelho para atingir a sua cara e depois o arrastar pelo chão. Josh o segurou pelo pescoço, sufocou por alguns segundos, o lançou no chão novamente e ali não parou de chutar até que ele perdesse a consciência.
O que assistia parado sem reação e sem escapatória tentou correr quando viu o ruivo aproximar. Mas Joshua apanhou um novo pedaço de cadeira quebrada e lançou contra ele, fazendo cair no chão. Joshua montou sobre o garoto e só parou de socar quando Luke tocou o seu ombro, decretando ali o fim, já que todos os outros estavam caídos graças à ajuda que recebeu.
Joshua limpou o sangue de seu rosto e, muito furioso, ficou de pé. Ele olhou pra Noah e foi se aproximando aos poucos.
Noah não estava temendo-o. Por isso empurrou Colin e Caine e segurou Edgar pelo cabelo. Joshua parou, tremendo e tentando se controlar. Se perdesse o controle mais uma vez, a desgraça aconteceria.
— Eu não me importo se você é ou não é o meu irmão, você vai pagar pelo que fez a ele. — Disse apontando para Noah, o dedo tinha sangue inimigo.
Noah puxou mais forte o cabelo do loirinho que gemeu de dor. Depois passou a sufocá-lo com o braço. Joshua voltou a caminhar e cada vez mais Noah recuava até que não encontrou espaço. Agora sim ele estava temendo o irmão.
Não tendo o que fazer, Noah derrubou Edgar no chão e passou a chutá-lo.
Joshua apanhou o pedaço da seringa quebrada, com a agulha, e continuou a caminhar. No terceiro chute que Noah dava em Edgar, Joshua o segurou forte pelo pescoço e o lançou contra a parede.
— Eu te salvei àquele dia, eu vinguei o seu acidente, eu te livrei de muita coisa e é dessa forma que você resolve se vingar porque eu me relacionava com o seu namorado? Alguém que nem sequer te conhecia na época.
Noah não retirava os olhos da agulha infectada.
— Você simplesmente resolveu piorar as coisas, Noah. E eu não me importo mais com você, acaba aqui o laço de sangue que nós tínhamos.
— Seu sangue é impuro! — E logo em seguida cuspiu sentindo nojo do irmão.
— E você terá do mesmo sangue impuro que eu.
Joshua então aproximou a seringa do braço de Noah.
— Joshua, não! — Edgar pediu.
Ouvir isso o fez lembrar-se do dia em que Noah o impediu de matar o tio.
Mas dessa vez buscou não dar ouvidos.
O ruivo olhou para o chão e somente balançou a cabeça. Ele não admitia que o loirinho acabasse envolvido em sua confusão. Brutos não choram, mas seus olhos queimavam. Joshua nunca sentiu tanto ódio em sua vida na fase adulta, ele queria matar Noah, mas ainda restava-lhe um pouco de humanidade graças ao loirinho. Porém, o que estava prestes a fazer não deixava de ser assassinato...
— Joshua, isso é crime. — Luke também pediu para que ele não prosseguisse.
— Por favor, não... — Edgar clamou, sentando-se ao tocar suas pernas.
Joshua olhou para o loirinho e sorriu pela última vez àquele dia. Balançou a cabeça e com os olhos pedia-lhe perdão.
— Me desculpe, mas eu sou um monstro. Não há perdão para os cruéis. — Afirmou o ruivo.
E inseriu a agulha contaminada no braço do irmão.
— Se um dia eu morrer com isso, saiba que você irá junto, Noah. — Ele cuspia as palavras na cara do irmão. — Eu realmente torço para que esse sangue ainda se torne válido para te contaminar e que você sinta na pele tudo o que eu senti. Sabe por que, Noah? Porque se eu cair, você cairá da mesma forma.
E largou o irmão que caiu no chão em estado de choque ao observar a seringa cravada em seu braço. Noah não conseguia falar nada, ele estava de boca aberta tentando pronunciar palavras que não saíam. Parecia ter um ataque epilético ou muito próximo disso.
— Josh, isso é crime... — Luke repetiu e ajoelhou para acolher Noah, retirando sua camisa e puxando a seringa do braço do primo.
— Foi legítima defesa. — Murmurou, mas Luke o ouviu.
Nesse mesmo momento, Caleb despertou assustando-se com a destruição em que se encontrava o lugar.
Joshua ajoelhou-se, retirou sua camisa e cobriu as partes íntimas do loirinho que estava acariciando as mãos antes amarradas.
— Eu não posso te tocar... — Disse o ruivo, entristecido.
— Você é um monstro. — Edgar abaixou a cabeça.
— Você tem toda a razão.
— Monstro... — Repetiu num murmúrio.
— Queria poder te erguer, mas eu não posso. Estou sujo de sangue e tenho medo de te infectar. Deve estar me odiando pelo que fiz, mas eu não me arrependo. — Estava sendo sincero — Eles vão cuidar de você bem melhor do que eu poderia cuidar. — Olhou para trás e mostrou os amigos de Edgar — Não me odeie, loirinho. — Joshua ficou de pé.
— Monstro... — Edgar disse uma última vez — Quem vai cuidar de você? — O bom coração não resistiu e perguntou ao erguer a cabeça.
— Eu sei me virar. — Tentou mostrar que estava bem.
— Me leve com você. — Pediu.
Todos presenciavam aquela cena sem conseguir pronunciar algo. A forma que Joshua o tratava era a mais singela possível. Os olhos antes violentos, agora expressavam ternura.
Danion sentiu suas mãos formigarem e um péssimo sentimento lhe invadir.
Colin, de alguma maneira, identificou-se e lembrou-se da conversa que teve mais cedo com Edgar. Colin também olhou para o seu celular e percebeu que deixou a ligação ter fim sem antes passar informação alguma para a atendente.
— Não posso fazer com que te tratem da mesma forma que me tratam. Olhe ao seu redor, você tem amigos.
— Eu quero cuidar de você. — Puxou a calça do ruivo.
Joshua balançou a cabeça e olhou para Luke. O primo não sorria, finalmente. Luke também estava começando a sentir a situação em que Joshua se encontrava. Se estava feliz pelo primo ele não sabia, mas ficou contente em reconhecer que diante do mostro que Joshua era, alguém finalmente mostrou se importar com ele se querer algum benefício em troca.
— Loirinho, vá descansar. — Logo em seguida se afastou dele.
Joshua deixou Edgar falando sozinho, evitando colocá-lo em mais problemas e dessa vez com os amigos.
Quando já se aproximava da porta, o ruivo parou. Ele notou os olhares fixando em algo atrás, ou melhor, alguém; Edgar estava de pé. Luke foi rápido o suficiente para cobri-lo com um lençol que encontrou.
Edgar passou a caminhar em passos pequenos e demorados. O loirinho não se importava com ninguém ao seu redor, apenas com Joshua. Ele não queria saber se era certo ou errado, mas queria cuidar de quem um dia cuidou dele. Edgar sabia que Joshua, apesar de ser um monstro, tinha também um coração carente.
Ainda existem pessoas boas no mundo.
— Pode levá-lo. — Danion sugeriu, sendo o primeiro a falar depois de tudo.
Joshua parou e olhou para o branquelo.
— Não me sigam. — E deu as costas, voltando para sua república.
Caine desobedeceu ao pedido e correu para acompanhar o namorado. Danion estava abalado, pra ser mais exato: com bastante raiva.
Colin aproximou-se de Samuel e segurou a sua mão. Ele acreditava que se Edgar queria ir com Joshua, era porque ele preferia. Forçá-lo a ficar na república causaria transtornos, principalmente agora que os ânimos de Danion estavam alterados.
— Obrigado. — Edgar disse, voltando a chorar. Ele abaixou a cabeça e enxugou as lágrimas. — Desculpa por eu ser tão fraco e ser o culpado por te machucarem tanto.
Diante daquilo que ouviu, a fera dentro de si se acalmou. Se Joshua pudesse dar a sua vida, Edgar seria o hospedeiro. O seu coração nunca bateu tão forte e acelerado como naquele momento. A sua vontade de abraçar e acolher aquele loirinho estava sendo incontrolável.
Brutos também choram.
— Desculpa, grandão... — E o chamou carinhosamente, ainda enxugando as lágrimas.
— Você é mais forte do que eu. Mais forte do que qualquer um que já conheci. — O ruivo falou, ainda temendo tocá-lo. Ele segurava firme as mãos.
Joshua olhou para todos que assistiam àquilo e repousou os seus olhos no corpo do irmão caído, em seguida olhou para frente.
— Vamos? — Perguntou o ruivo.
— Vamos. — Respondeu o loirinho.
Juntos afastaram-se daquela república dos horrores. Edgar não sabia como seria dali pra frente, mas ainda voltaria para conversar com Danion. Porém, não poderia deixar Joshua sozinho diante de tudo o que passou.
Ambos estavam feridos, mas o ruivo encontrava-se numa situação pior. Os cabelos estavam mais vermelhos devido ao sangue. O rosto machucado e o braço ensanguentado. O ruivo evitava ao máximo qualquer contato com o loirinho.
Todos os olhares eram atraídos devido à situação em que se encontravam.
Edgar conseguiu amansar a fera que todos sonharam um dia domar.
[...]
Danion entrou na república da mesma forma que Joshua conseguiu invadir a república ao lado. Ele literalmente chutou a porta. Sentado no sofá, levou sua mão a cabeça e tentou pensar. Mas não conseguia.
Tantas eram as perguntas que tomavam conta dos seus pensamentos. Sobre Joshua, Edgar e o espancamento. Além do seu espancamento alguns meses atrás.
— Dan... — Caine o chamou.
— Agora não, Caine. — O branquelo ficou de pé e saiu da sala, trancando-se em seu quarto.
Caine respeitou o espaço que o namorado precisava e ficou de pé. Colin apareceu logo atrás dele, apertando o seu ombro.
— Eu estou tão assustado quanto você.
— Danion se sente da mesma forma que William. — Caine relaxou seus ombros e procurou pelo sofá.
— Sem William, sem Octavio, Connor, Ian, Erica e Gale... Todos resolveram dormir longe daqui bem quando a casa cai mais uma vez.
— Eu vou tentar entrar no quarto e conversar com ele, Colin. — Impaciente, querendo saber como o namorado se encontrava, Caine voltou a ficar de pé.
— Eu vou deixar a república só para vocês dois. Tenho meus problemas para resolver.
Colin disse e logo em seguida caminhou até o seu quarto, pegou sua mochila e rumou à universidade. Na verdade, tentou.
O seu rumo foi completamente diferente. Estava pronto.
Colin tinha milhões de motivos para não estar ali. Havia se passado duas semanas desde que o visitou naquele hospital.
Ainda nas costas com uma mochila que usou para levar os vários materiais pra a aula de hoje, ele tinha deixado seu compromisso para trás só por isso. Tinha perdido tempo demais sem fazer aquilo que realmente era necessário.
Diante todos os motivos que o impediam de estar ali, existia um que ia contra tudo aquilo que Colin já pensou em ter feito. Esse motivo? O amor.
Nervoso, Colin enxugou as mãos de suor em sua calça e finalmente bateu na porta. Olhou para os lados algumas vezes e logo depois abaixou sua cabeça. Parte de si queria que ninguém abrisse a porta, mas outra gritava para que ele permanecesse com os pés firmes no lugar que estava.
Quando ouviu a maçaneta girar, ele rapidamente ergueu sua cabeça. Quem o atendeu foi Joe, o verdadeiro pai de Sean, fato que até o momento Colin não tinha conhecimento.
— Ele está? — Colin perguntou sem sequer falar o nome de Sean. Tinha certeza de que não estava na casa errada.
— Espera por você há dias. — Joe mantinha uma expressão de súplica, como se estivesse agradecendo por Colin estar ali.
— Você está cuidando dele?
— Na ausência de muitos, sim, mas nesse momento estou de saída.
— Posso entrar?
— Deve. Eu estou de saída mesmo. — Joe saiu de dentro da casa, colocando-se ao lado de Colin — Não o deixe sozinho, não o faça sofrer mais do que já sofre.
— Como você... — Colin parecia confuso e foi interrompido.
— Ele vai te falar quando o momento chegar. —Joe interrompeu, afastando-se de Colin e caminhando em direção ao seu carro que estava estacionado à frente da casa.
O pequeno viu quando Joe ligou o carro e saiu dali, acenando para ele. Perdido, Colin permaneceu mais um segundo parado antes de entrar até finalmente dar o seu primeiro passo e sentir o cheiro daquela casa. Percebeu que estava em abstinência não só daquilo, mas do corpo que o esperava.
Colin imaginou encontrar Sean deitado no sofá, mas o moreno não estava ali. Ele fechou a porta e rumou até o quarto onde um dia se entregou ao moreno pela primeira vez. A porta já estava entreaberta e Colin só precisou empurrá-la um pouco antes de entrar.
Sean parecia estar adormecido, com fones de ouvido e o celular sobre o tórax. Era sempre aquela mesma sensação de vê-lo pela primeira vez, o frio na barriga nunca iria embora. Poderia passar horas admirando o moreno tão sereno sobre a cama.
Colin fechou a porta delicadamente e caminhou um metro até se ajoelhar na beirada da cama e admirá-lo. O pequeno chorou. Mas não foi como o dia em que descobriu sobre o acidente, quando quase perdeu o pai ou no dia em que William decretou fim à amizade. Apenas uma única lágrima desceu de seu olho, repousando nos lábios.
Colin tinha fechado os olhos e feito ali uma oração, pedindo a Deus forças para o momento e, é claro, para cuidar daquele que tanto ama.
— Eu amo o seu cheiro. — Esta era a voz que Colin amava ouvir.
Quando abriu seus olhos, encontrou o moreno também de olhos abertos, encarando-o. Sean levou sua mão até a lágrima de Colin e a enxugou. O seu braço esquerdo estava enfaixado, preso ao pescoço.
— Pensei que estivesse dormindo. — Colin disse baixinho, quase como um sussurro.
— Eu reconheceria o seu cheiro mesmo se estivesse morto. Sou tipo um cão treinado para isso, Colin. Estou viciado na melhor droga existente desse mundo: você.
Colin sentiu as maçãs do seu rosto queimarem e por isso ficou de pé, pondo suas mãos nos bolsos tentando se distrair das palavras que acabou de ouvir.
— Você sentiu minha falta. — Disse o moreno, afirmando.
— Senti.
— Me perdoou?
Colin parou pra pensar.
— Não é tão simples assim. Ainda me lembro de algumas coisas, Sean. Mas não consigo te odiar. Iria cometer suicídio caso permanecesse com aquele sentimento.
— Bom... Isso é bom. — Seus olhos fixaram o chão por alguns segundos.
Colin buscou algo em seu bolso e de lá retirou o cordão que um dia ganhou do moreno, aproximou-se dele e, delicadamente, colocou o objeto também sobre seu tórax. Sean não retirou os olhos de Colin sequer um minuto, sempre prestando atenção em seus movimentos e expressões.
— Por que me devolve isso? —Ele perguntou, tocando o cordão com os dedos.
— Não estou devolvendo. Estou querendo alguma explicação. Por que, Sean?
— Quando foi a última vez que você pensou em mim? Ou você me apagou completamente da sua memória?
— Todos os dias.
— Está tendo a sua resposta, Colin. — Ele estendeu o objeto devolvendo. Colin o aceitou, dessa vez colocando em seu pescoço e escondendo abaixo da sua camisa.
— Você costuma deixar tudo subtendido, Sean. Você não pode e não deve ser assim. Essa sua mania de me mostrar tudo por parcelas e não como um todo irá me matar um dia.
— Eu te dei o espaço para que você pudesse respirar, eu mantive minha distância, assim você seria livre.
— Por que, Sean? Por que tudo isso? Será que nada poderia ter sido mais fácil? Sabe quantas noites eu chorei por você?
— Eu ainda choro por você, Colin. — Dessa vez Colin não desviou o olhar — E não existiu outro motivo capaz de me fazer derramar lágrimas. Você é o único capaz de me desmontar e montar da maneira que você quiser. Há tanto de mim em você, Colin. Será que ainda não percebeu que você está me moldando?
— Marcado pelas falhas da vida, moldado pelos traços do amor. — Colin pronunciou uma das frases criada enquanto pensava em Sean.
— É exatamente isso que você está me falando. Há tanta coisa que você ainda precisa saber, Colin. Mas isso não cabe a este momento. Só queria que você soubesse que eu respiro você. Meio idiota ouvir isso sair da minha boca, mas essa frase nunca fez tanto sentido na minha vida.
— Às vezes me pergunto se fiz a coisa certa, sabe?
— Algum dia você já se perguntou se o certo e o errado existem? Se para os demais eu sou completamente errado, para você eu sou um erro? É tudo questão do ponto de vista, Colin.
— Eu sacrifiquei minha amizade com o William por você no dia em que te visitei no hospital. Mostrei para o William que não consigo viver sem você. Octavio tinha razão quando me disse que ter um significa não ter o outro. Como disse, não sei se fiz a coisa certa.
— William te perdoará um dia. Mas você está comigo, posso te provar que valeu à pena.
— As coisas não são tão simples assim, Sean. Eu quero muito sair desse quarto. Por que eu não consigo?
— A morte não foi capaz de me separar de você. Quem nós somos diante dela? Temos a certeza de que um dia partiremos desse mundo, mas ela decidiu que isso não acontecesse agora. — O moreno tentou se levantar.
— Você não pode fazer muito esforço, sugiro que permaneça deitado.
— Não vai demorar.
Colin não conseguia dizer não para o Sean. Ele aproximou-se do moreno e o levantou pelo ombro. Sentado, Sean acomodou o seu braço quebrado e logo depois ficou de pé. Ainda sentia um pouco de incômodo em sua costela também quebrada, mas nada que o impedisse de prosseguir e fazer o que queria.
Ele retirou os fones de ouvido, aproximou-se do aparelho de som e conectou seu celular. Por mais alguns segundos procurou por uma música e, quando finalmente encontrou, ele estendeu sua mão.
Colin o olhou, mas como se estivesse magnetizado ao outro, caminhou e segurou a sua mão. Sean retirou sua mochila e a jogou no canto do quarto, aproximou mais seu corpo ao de Colin e o pequeno pode encaixar sua cabeça perfeitamente ao tórax do maior, tendo o corpo envolvido pelo único braço disponível de Sean.
E então, as primeiras batidas da música passaram a ecoar pelo quarto: Don’t You Remember, Adele.
Sean desceu sua cabeça ao pescoço de Colin e respirou forte, sentindo o cheiro mais agradável que um dia já sentiu.
O seu primeiro passo foi para a esquerda e Colin compreendeu o comando, acompanhando. Mesmo que não saíssem do lugar, em passos lentos e únicos, os dois dançaram. Colin fechou seus olhos e pressionou a camisa escura que o moreno vestia.
— Não tinha outra música que eu não escutava naquele hospital, apenas essa. E então eu te pergunto, Colin: será que você não se lembra? Não se lembra da razão pela qual você me amou antes? Dos meus toques e dos meus momentos criados só para provar que sou completamente dependente de você?
— Sean... — Murmurou baixinho.
I know I have a fickle heart and bitterness
Eu sei que tenho um coração inconstante e amargurado
And a wandering eye, and a heaviness in my head
E um olhar errante, um peso na minha mente
But don't you remember, don't you remember?
Mas será que você não se lembra, você não se lembra?
The reason you loved me before
Da razão pelo qual você me amou antes?
Baby, please, remember me once more
Por favor, lembre de mim mais uma vez.
Sean não perdia a oportunidade de sempre respirar fundo e sentir o bom cheiro que Colin costumava exalar. Era só dele e, agora, pertencente ao moreno. Jamais iria esquecer-se das noites em que perdeu cheirando a camisa que um dia Colin esqueceu.
Colin, por sua vez, não soltava a camisa de Sean. Sempre pressionando a cada frase da música. Lembrava-se de coisas que já até havia esquecido. Ele amava Sean. Cada gesto, cada palavra, cada olhar, cada atitude, até as mais erradas e, se um dia desaprovasse, mais tarde voltaria a amar.
— Por que não tentamos mais uma vez?
— O que eu estou fazendo? Eu não sabia que amar era tão complicado, bem que minha mãe falava. Por que você? Logo você, Sean? Tantos são os motivos para te odiar. Mas por que me mostrou o que ninguém mais conhece de você?
— Colin, já parou pra pensar que quanto mais você procura motivos para me odiar, sempre acaba encontrando um novo para me amar?
— Como pode um leão se apaixonar por um tigre?
— Eu me prostro diante do seu rugido. Mas não importa o que você fale, o quanto você me castigue tentando me afastar de você. Um tigre nunca perde as suas listras, Colin. As minhas listras têm o seu nome.
When was the last time you thought of me?
Quando foi a última vez que você pensou em mim?
Or have you completely erased me from your memories?
Ou você me apagou completamente de suas memórias?
I often think about where I went wrong
Porque muitas vezes eu penso onde eu errei
The more I do, the less I know
E quanto mais eu penso, menos eu sei
Foi nesse momento que Colin percebeu que as perguntas feitas por Sean, minutos antes, tinham relação com a música. Colin simplesmente abraçou mais o corpo do maior, querendo nunca mais soltá-lo.
Era assim o amor. Ele poderia ter várias formas, vários tamanhos segundo a mente humana, mas a essência sempre seria a mesma. O amor não é algo que se escolhe, que se planeja ou que se decide. Não. O amor costuma machucar, é uma verdade. Mas o mesmo amor que machuca também sara as feridas. Afinal, não existe melhor remédio que o amor.
Um dia esses dois se perguntarão: Por que nós dois? E ainda assim não irão obter respostas. Colin e Sean são duas pessoas com milhões de defeitos, nasceram para viver sobre erros e poucos acertos. Não iria existir explicação para o relacionamento entre os dois. Porque quando se tem um baixinho irritado e um grandalhão de poucas emoções, nada é de se esperar.
Como o céu e o mar. Distantes e imensos... Mas há quem diga que o céu toca no mar, basta olhar pro horizonte.
— Quanto tempo até tudo acontecer novamente? — Colin perguntou.
— Não sei. Mas no final, acabaremos juntos de qualquer forma.
A música teve seu fim e os passos foram cessados. Colin permaneceu abraçado ao corpo do maior e Sean também não o largava. As respirações, leves, diante daquele silêncio, eram agradáveis e pareceu ser uma nova trilha sonora para o momento.
Logo, uma nova música passou a tocar: You There, Aquilo.
— Desde quando você costuma escutar esse tipo de música? — O pequeno perguntou, ainda abraçado a ele.
— Não me lembro de quando exatamente. Mas é bem verdade que quando estamos destruídos, costumamos escutar músicas pra ferrar ainda mais a situação. Ou elas simplesmente surgem de repente e qualquer música alegre torna-se triste.
— E se um dia você me deixar? Nunca me senti tão inseguro desde àquele dia.
— Eu estou no meu quarto dançando com você, temendo te largar.
Colin apertou ainda mais a sua camisa. A música dava a sensação de que os dois estavam flutuando para fora do quarto, numa outra dimensão acolhedora e aconchegante.
— Quer namorar comigo, Colin?
E finalmente o pedido oficial surgiu. Mesmo que jamais fosse necessário ter feito essa pergunta, Sean acabou de oficializar o que fez Colin sempre permanecer em dúvida sobre os dois.
Em seu lugar, quietinho, Colin somente afirmou com a cabeça. O coração perturbado, finalmente foi amansado.
O braço que envolvia Colin não mais estava envolvendo, a mão de Sean tocou a bochecha do menor e a acariciou por alguns segundos e o pequeno finalmente abriu seus olhos, encontrando as duas ônix à sua frente. Que belos olhos Sean tinha. Tão negro quanto a sua personalidade.
O moreno aproximou sua testa à de Colin e fechou os olhos, os dois, por mais alguns segundos ficaram compartilhando da mesma respiração.
— É agora que você diz que me ama? — Colin perguntou, mas não sorriu.
Sean nada disse. Ele simplesmente segurou Colin pela nunca e o beijou. Ali, mataram a sede dos beijos que necessitavam há vários dias. Como alimento, eles renovavam as forças perdidas durante todo o processo de tristeza que passaram enquanto distantes. Um beijo tão carregado de sentimentos que causaria inveja a quem assistisse aquele momento.
Colin não queria jamais se desfazer daqueles lábios. Sean sentia sua respiração ir embora, mas não poderia jamais largar o pequeno. Não existiu beijo mais longo na vida de ambos.
O pequeno ergueu uma de suas mãos e tocou na de Sean que acariciava a sua nuca. Numa pausa para respirar, Sean sorriu para Colin e o pequeno retribuiu o sorriso, dando-lhe um último beijo.
Ao final do beijo, Sean caminhou até a cama e lá se deitou. Ele então chamou o pequeno que o obedeceu mais uma vez, deitou-se no lado oposto ao braço quebrado e repousou a cabeça no tórax do moreno, recebendo cafuné.
— Sim, é agora que te digo que te amo.
— Eu também te amo. — Colin disse, novamente baixo como um sussurro.
— É, eu te amo.
As lamentações de Colin e Sean, um momento de rendição.
Colin inclinou sua cabeça e Sean abaixou a sua, um novo beijo deitado naquela cama.
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