Notas iniciais
Dois mundos que foram ao chão.

O táxi parou em frente ao apartamento. Ele ficava no centro da cidade entre os vários outros. Aparentemente não era um apartamento bonito. O verde perdendo a vida, dando lugar ao branco em algumas partes, algumas janelas com vários adesivos e outras até quebradas... Nada atrativo, por sinal.

Nas costas de Leo estava uma mochila e na mão uma maleta onde ficava parte dos seus materiais. Santiago apenas segurava duas telas de pintura, a pedido do artista — Leonard tinha medo de que algo desse errado e por isso estava se preservando com uma tela reserva.

Tagarela, Leonard não parava de falar enquanto entravam no apartamento e subiam as escadas. O menor, de fato, estava animado, porém, preocupado. Tinha perdido uma noite apenas planejando as cores perfeitas para o momento. Planejou tudo e de acordo com seus pensamentos, seria algo perfeito: exótico, quente e misterioso.

Pararam em frente a uma porta branca, com o número 17 e um olho mágico.

— O apartamento não é meu, portanto, não sei o que me espera aí dentro. Apenas pedi emprestado por um dia para que pudesse realizar o meu projeto.

Santiago engoliu o seco e nada disse. Maldita hora em que aceitou isso. Estava completamente arrependido e pensar em desistir era a melhor coisa a se fazer. Porém, sabia que desapontaria Leo caso fizesse isso agora, já estando ali.

Como se Leo estivesse prevendo seus pensamentos, o menor virou-se:

— Você não quer mais se voluntariar, não é? — Perguntou, mordendo os lábios.

— Se levarmos em consideração que isso não é um trabalho voluntário, eu realmente não quero. Mas já que estou aqui, não posso voltar atrás.

— Você pode, se quiser. — As palavras foram suaves, quase como um suspiro.

— Abre logo a porta, certo? — Santiago disse, olhando para a maçaneta.

Leo atendeu ao pedido sem pestanejar. Ao abrir a porta sentiu um alívio ao perceber que estava tudo arrumado. Um apartamento de apenas três cômodos, uma cama ficava no canto da sala e paralelo a ela uma televisão e um sofá, no outro cômodo era a cozinha e lá continha uma máquina de lavar roupas, o terceiro cômodo era óbvio: o banheiro.

— Quer comer alguma coisa antes de começarmos?

— Claro! Saí de casa e não tomei o café da manhã. Isso vai durar quanto tempo? Uma hora?

— Bem, então... Teremos algumas horinhas. Provavelmente sairemos daqui somente à noite.

— Você só pode tá brincando comigo. — Indagou, perplexo.

— Olha minha cara de quem está brincando?! Vem, eu fiz alguns sanduíches de presunto para comermos. Mas vai com calma, conheço você e sei que come bastante, tem que deixar um pouco pra mais tarde.

Santiago não ficou nada feliz ao ter que ouvir isso. Leonard o deixou sentado à mesa e voltou para a sala.

Leo ficou parado no centro da sala tentando relembrar de tudo o que tinha planejado e, ainda por cima, fazer com que sua ideia pudesse ser realizada ali.

Sozinho, puxou a cama e, tendo dificuldades, Santiago apareceu ao seu lado, ainda mastigando. Acabou recebendo ajuda do maior e juntos levaram a cama até a cozinha. Os moradores abaixo provavelmente estavam resmungando pelo som produzido que incomodava até os dois garotos.

— Pode comer, não se preocupe. Apenas quero que você coma e relaxe, não tem porque ficar tenso. Você apenas irá tirar a roupa.

Santiago o olhou, abismado. “Como ele acha que isso é tão simples assim?” Pensou e saiu dali logo em seguida.

Leonard procurou por uma vassoura e varreu toda a sala, retirou a televisão de 14 polegadas e a colocou também na cozinha. Arrastou, novamente, o sofá para o centro da sala e o encostou a parede. Os vizinhos até retrucaram e com algum objeto — provavelmente uma vassoura — bateram no teto, o que agora era o piso em que Leonard estava.

— Santiago, preciso que você feche essa janela. — Leonard pediu.

A janela ficava na cozinha, e era a única. Santiago, como de costume, silencioso, fechou a janela e voltou para mesa.

Leonard foi até sua mochila e de lá retirou várias velas, cerca de 20, todas brancas.

Leo olhou novamente para o ambiente e desistiu da ideia anterior. Sozinho, conseguiu também arrastar o sofá para a cozinha, que foi bem apertada, por sinal.

Pacientemente, Leonard colocou cada vela em pontos estratégicos , todas no chão.

Santiago voltou para a sala e, enquanto estava em pé, viu Leonard arrumar todo o lugar. Era uma ideia simples, apenas velas decoravam todo o cômodo.

— Isso não é um ritual. —Leo disse, sorrindo e terminando de por a última vela. — Logo você entenderá. — Está pronto?

— Já?

— Não podemos perder tempo. Você tem cinco minutos para se preparar, certo? Olha, eu trouxe um roupão de seda na minha mochila. Foi Danion que comprou para mim, mas como achei grande, acabei guardando. Acho que deve caber em você.

Leonard foi até sua mochila e de lá retirou o roupão preto cintilante. Jogou para Santiago que segurou no ar.

— Você pode ir ao banheiro ou se preferir, retirar sua roupa aqui, agora.

— Huh. — Imediatamente se calou. — Às vezes acho que sou a pessoa mais azarada desse mundo.

Santiago deu as costas e foi até o banheiro. Leonard apenas sorriu, vendo o outro desaparecer.

Leo armou sua tela em frente ao que tinha preparado, separou as tintas e os pinceis, fez mais alguns testes e finalmente estava tudo pronto.

Retirou do bolso uma caixa de fósforos e acendeu uma única vela, caminhou até o interruptor e tudo se apagou. Tudo teria ficado escuro se não fosse pela vela acesa.

Leo, guiando-se através daquela vela, foi acendendo uma por uma.

Santiago saiu do banheiro apenas vestido o roupão de seda, que aos poucos iria recebendo destaque pela iluminação das velas. De pé, observou Leonard acender todas as velas e, quando a última foi acesa, sentiu uma onda elétrica invadir todo o seu corpo. Estava completamente nervoso. Inseguro, pra ser mais exato.

Leo voltou a ficar de pé e olhou para trás, vendo como ele ficava tão bonito. Santiago tinha parte do corpo escurecida e parte iluminada, beleza encantadora.

— Você deve estar me achando um maluco, não é? Mas me deixa te explicar. Primeiro, quero que você fico ali — apontou — no centro, ao redor das velas.

Santiago temeu e só depois de alguns segundos obedeceu Leonard. Tomando cuidado para que seu roupão de seda não fosse queimado.

— Ah, Santiago, se você tivesse a visão de artista que eu tenho, ou melhor, se você estivesse vendo o que estou vendo, iria... Sei lá! Explodir de felicidade.

— Leo... — Queria tentar falar, mas nenhuma outra palavra saia por seus lábios. Como sempre, Leonard arrancava-lhe toda e qualquer ação.

— Eu amo a penumbra. Amo muito. O efeito que ela tá dando para o seu corpo é único. Tremulante, não sei te explicar. Mas é esse efeito que eu quero captar na pintura. Sabe, Santiago, como te disse, gosto da beleza do corpo humano.

— Vamos pular essa parte? — Não estava mais aguentando ficar ali, queria fugir.

— Espera, me deixa concluir! — Suplicou. — A penumbra ela é misteriosa, você não acha? Às vezes achamos que estamos vendo algo e de repente... Cadê? O seu corpo também é cheio de mistérios, Santi... Assim como você.

Santiago agradeceu por estar naquela penumbra e Leonard não perceber seu desconforto. Sentiu as bochechas arderem.

Leo percebeu então o que tinha dito e também se sentiu um pouco constrangido, aquela frase soou um tanto... Exótica?

Mas era exatamente o que queria pro seu projeto.

O menor caminhou até a tela já preparada e olhou para Santiago.

— Quando você estiver pronto. — Disse.

Santiago se sentiu anestesiado e mesmo nunca entrando em coma, parecia estar em um. Logo, tudo ao seu redor desapareceu e ele se sentiu sozinho em meio à escuridão. Segundos se passaram e ele tornou a realidade.

— Santiago? —Leo chamou.

— E-eu... Por que você não tira?

Leonard o encarou, achando aquilo estranho. A pergunta de Santiago saiu por impulso, como se estivesse desafiando Leo a fazer o mesmo, querendo saber se ele era realmente capaz. Quem sabe Leonard iria sentir o nervosismo que ele estava sentindo?

— Tá ok, se é pra você não ficar constrangido.

— Leo, espe...

Era tarde demais. Leonard já tinha jogado longe sua camisa, retirado a bermuda e sapatos. Estava de costas para Santiago quando retirou, finalmente, a sua cueca.

Leo surpreendeu.

O corpo de Santiago estava formigando. Aquilo era demais para ele. Leonard estava completamente despido em sua frente e, pelo que parecia, aquilo não era o menor problema.

Porém, na verdade, Leonard estava tão constrangido quanto ele. Mas tinha que manter a postura e mostrar segurança.

Os desejos de Santiago insistiam para vir à tona ao não conseguir retirar os olhos daquela bunda que chamava-lhe a atenção. Não poderia ficar excitado! “Se controla, caralho!”

— Leonard, põe a roupa.

— Mas... — Leo então se virou.

Santiago imediatamente retirou os olhos da bunda de Leonard e se forçou a manter os olhos firmes a face de menor.

— Faz isso, por favor. — Suplicou.

Leonard, não mais contestando, apanhou sua cueca e bermuda e novamente a vestiu. Olhou para Santiago como se estivesse perguntando: “Está bom pra você?”

Não foi preciso Leonard pedir novamente. O que estava pra acontecer... Aconteceria.

Santiago desfez o nó que sustentava o roupão de seda em seu corpo e, como se estivesse em câmera lenta, a veste escorregou sobre cada músculo seu, caindo ao chão.

Santiago estava nu.

Os lábios de Leonard ficaram entreabertos e no momento ele tinha algo para dizer, mas... Para onde foram as palavras?

Não queria ser tão descarado, mas não conseguiu resistiu e olhou Santiago dos pés a cabeça por cerca de três vezes. Até finalmente tossi e voltar a prestar atenção em sua tela.

— E-eu... Hum... — Leonard estava perdido, não sabia mais o que falar.

Santiago, mais uma vez, não esperando o comando de Leonard, sentou-se no chão e encostou-se a parede. Inclinou levemente a cabeça para o lado direito, deixou uma perna ereta e a outra dobrada, formando um V. Os dois braços desceram até seu membro, cobrindo-o parcialmente, parecia estar acorrentado.

Leonard tinha uma ideia de posição diferente, mas o modo em que Santiago se posicionou era extremamente sedutor.

Estático, ele permaneceu encarando o outro, que também estava em silêncio. O interior de ambos fervilhava, mas nenhum dos dois poderia deixar isso transparecer.

— Seus olhos... —Leonard disse, agora estando firme e em frente a sua tela. — Preciso que olhe para mim. Preciso que de alguma forma, você demonstre desejo em mim. Eu sei que você não sente, mas me imagine como uma garota gostosa e com os peitos bem grandes. — Tentou descontrair.

Santiago ainda não conseguia dizer nada, mas não foi necessário algum esforço. No momento em que fechou os olhos e novamente abriu, o poder que tinha o seu olhar tocou, profundamente, o íntimo de Leonard.

— Vamos começar. Se se sentir desconfortável, podemos fazer uma pausa para que você possa relaxar seus músculos, tudo bem? Tudo bem. — Disse Leonard, respondendo a própria pergunta.

Leonard pegou o primeiro pincel e começou pintando parte do fundo enegrecido. Até dar início a verdadeira obra. Vários traços de diferentes tamanhos e cores dominantes davam vida a sua obra de arte.

Leonard ainda sentia o seu corpo formigar sempre que olhava bem nos olhos de Santiago. Não era possível... Leo estava com vontade de beijá-lo?! Mandou embora todos esses pensamentos que lhe atormentava e voltou a se concentrar. Tinha que ter a visão de um artista, apenas prestar atenção nos traços.

Santiago, por outo lado, ainda sentia o constrangimento de estar despido na frente de Leo, mas tinha em mente que aquilo era apenas para ajudá-lo em seu mais novo projeto, embora no fundo também acreditasse que não conseguia negar um pedido ao leonino.

As duas primeiras horas se passaram e houve pequenas pausas para Santiago relaxar seus músculos e voltar à posição que estava. Leo, mais uma vez, sentiu vontade de beijá-lo quando sentiu o peso do olhar de Santiago sobre si.

“Maldição.” Quis bradar, mas a palavra ficou em seu pensamento.

[...]

É mal de todo novato passar a ser observando assim que coloca os pés dentro da universidade, principalmente entre seus companheiros de curso. Samuel se sentia desconfortável com todos aqueles olhares sobre ele e, ainda pior, era dentro da sala de aula. Ao seu lado uma garota, lunática, pareceria paquera-lo, sempre piscando e sorrindo. Duas cadeiras à frente, outra garota o olhava sempre que tinha a oportunidade, mas essa parecia colocar medo nele, sempre fazendo algumas anotações em seu caderno. O único garoto que o encarava era um baixinho, com a face marcada por espinhas e, que ele recorda bem, passou um constrangimento muito grande quando foi concluir sua matrícula ao cair e derrubar um computador.

Ao final da aula, o loiro saiu sem ainda falar com ninguém. Caminhou até o refeitório e sentou-se sozinho em uma mesa, no canto, bem distante de todos. Mesmo não sendo do seu feitio fazer algo assim, afinal, Samuel não era aquele típico garoto tímido. Mas, por enquanto, preferia ficar sossegado.

Sua paz foi interrompida quando dois garotos puseram as mãos na mesa, derrubando sua bebida em seu corpo pelo impacto causado.

— Vamos lá, calouro, só pra avisar, essa mesa tem dono, você não sabia, certo? Porém, agora está sabendo e é melhor se retirar. — O mais alto e de cabelos longos disse.

Samuel apenas o olhou sem esboçar reação alguma, até ativar seu modo sarcástico, como era de costume.

— High School Musical? Sharpay Evans? Ou qualquer vilã e patricinha de filme colegial?

Os dois garotos trocaram alguns olhares suspeitos e confusos.

— Não tem o nome de vocês aqui e eu só quero comer em paz, eu poderia?

— Será que você não entendeu? — Indagou o outro, moreno e de cabeça raspada.

— Vai me forçar a sair daqui? — Samuel perguntou, cruzando os braços e encostando-se ainda mais na cadeira.

Não foi preciso mais continuar aquele diálogo. O mais alto lançou a mesa para o lado e segurou Samuel pelo braço, empurrando-o. O loiro caiu no chão. Sentiu seu corpo chocar-se contra a parede e com a oportunidade que tinha para se levantar, partiu para cima daquele que o agrediu, mas o segundo garoto chutou a cadeira, fazendo Samuel cair por cima dela.

Samuel novamente conseguiu se recompor e socou em cheio a face do maior, que cambaleou para trás. Não conseguindo prosseguir a ação, o garoto de cabeça raspada, chutou as costas de Samuel e a força do chute fez o loiro cair por entre as outras mesas.

— Bem, vamos ser justos? — Samuel desperta ao ouvir uma voz já conhecida e nada agradável.

Era Luke, que estava logo atrás dele com um sorriso bobo no rosto.

— Quem devo socar primeiro? — Ele indagou, encarando o menor.

Luke era tão divertido que, sorrindo, nocauteou o mais alto. Ele fingiu socar o menor e acertou em cheio o outro, que caiu sobre a mesa. O de cabeça raspada, assustado, tentou ir pra cima dele, mas Samuel, caído, aproveitou e colocou o pé, fazendo-o tropeçar, Luke, aproveitando a oportunidade, segurou em sua cabeça e usou do joelho para acertá-lo. Puxou ele do chão e passou a sufocá-lo.

O loiro, ainda caído, viu Luke não sentir piedade ao sufocar o garoto.

— Ei, você vai matá-lo!

Foi essa voz que fizera Luke acordar e soltar o garoto, que caiu no chão, recuperando o fôlego. Luke sentiu aquela onda de prazer percorrer todo o seu corpo, mas odiava quando aquilo acontecia.

Luke e Josh eram violentos quando queriam ser, sem poupar vidas, caso possível.

Samuel sentia as dores em seu corpo e olhava para Luke, que sorria — fingindo, dessa vez.

— Obrigado. — Disse o loiro nada satisfeito enquanto se levantava.

— Não tem problema, não achei uma luta justa.

Luke estendeu a mão, ajudando Samuel a ficar de pé. O moreno mesmo se encarregou de limpar a sujeita de seu ombro e arrumar seus cabelos.

— Eu daria conta deles. — Samuel disse, recolhendo sua mochila.

— Daria? Fiquei assistindo sua luta e vejamos, quem estava caído mesmo?

O momento de paz entre esses dois durou menos que dez segundos.

— Eram dois contra um, só precisava conseguir derrubar um deles. — Samuel passou a mão entre o sangue que descia de seus lábios.

— Você é um mal agradecido.

— Obrigado? — Soou como uma pergunta e Luke sorriu, ainda travesso. — Agora me dá licença que preciso me limpar.

— Ei, da próxima vez que você tocar no Colin, posso ser um desses que vai bater em você, tudo bem?

— Garoto, para com essa implicância, que saco.

— Oras, ele é meu! — Pareceu uma criança que tinha escondido o seu doce.

— Conheci primeiro. Então ele também é meu, a propósito, Colin não é um prêmio ou objeto de disputa.

E pra piorar, Colin aparece naquele lugar, após ouvir boatos de que seu amigo Samuel tinha se metido em uma briga no refeitório — espaço para confusões.

Colin correu para Samuel, ignorando por completo a presença de Luke. Tocou os braços do loiro, imaginando que algum membro seu estivesse quebrando.

— Eu tô bem, Colin. Seu amigo me ajudou. — Samuel disse, evitando olhar para Luke.

— Quem foi? Quem foi os dois garotos? — Colin indagou.

— Não consegue enxergá-los caídos no chão? — Luke disse, vitorioso.

Colin olhou para trás. Sendo membro da Quadra há algum tempo, não ficou surpreso com aquilo. Se fosse ainda calouro, estaria horrorizado.

— Eu não mereço um beijo? Poxa, ajudei seu amigo. — Luke implorou, sorridente.

— Não fez mais do que sua obrigação. Se você quer me ajudar, vai ter que proteger Samuel desses babacas. Odeio essa rincha contra calouros.

— Eu sei me defender.

— Eu defendo você de todo e qualquer mal, mas esse garoto? — Luke parecia querer vomitar. — Não, Colin. Mas... Se você me der um beijo eu posso pensar a respeito e quem sabe podemos negociar isso?

— Ai, Luke, você não perde a oportunidade.

— Você me esnoba pra caralho e isso me deixa cada vez mais louco por você.

— Ei! — Samuel quase gritou, mas não gostou de ter ouvido aquilo.

— Podem parar com esse assédio? Tem várias pessoas olhando. E, é melhor sairmos daqui antes que alguém apareça por aqui e pergunte o que aconteceu.

— Sempre, sempre, sempre me humilhando. — O moreno disse, entristecido.

Luke revirou os olhos e foi o primeiro a caminhar, resmungando durante todo o trajeto. Samuel e Colin foram logo atrás dele. Samuel e Luke? Amigos ou inimigos?

[...]

Quando Ian chegou em sua república já era início da noite. O dia foi extremamente cansativo, se levar em conta as várias aulas que teve e, como era de costume, tinha que ler mais livros. A vida de um estudante de direito não era fácil. Pouco comeu e muito estudou, nos poucos intervalos que tivera, comeu alguma besteira, mas nada o suficiente para recarregar suas energias.

— Connor já chegou? — Ele perguntou para Colton que estava sentado no sofá, ao lado de Edgar.

— Eu cheguei tem trinta minutos, não o vi passar por aqui ainda. — Respondeu.

Ian olhou para Edgar.

— Também não faço ideia, não tive aula a tarde, mas não me lembro de tê-lo visto chegar.

— Ele hoje tinha uma prova e eu passei metade da madrugada ajudando-o. Quem sabe ele não está fazendo a prova até agora, não? Enfim, tudo que eu quero é um banho, comida e cama. — Estava nítido o seu cansaço.

— E uns amassos do namorado... — Colton e seu olhar travesso acabou deixando Ian corado. — Qual é, Ian. Sabemos bem que você adora isso, principalmente sendo o Connor. Eu merecia alguns pontinhos com você, afinal, foi eu quem acabou juntando vocês dois. E sei muito bem que ele é ativo da relação.

— Colton, você poderia ser menos direto. — Edgar revirou os olhos, levantando-se.

— Ser sincero é um defeito? — Colton indagou, defendendo-se.

— Não se preocupa, Edgar. Já estou acostumado. Enfim, não sei se verei vocês novamente. Juro que irei dormir e acordar só amanhã.

Ian deu as costas e deixou os dois garotos discutindo. Segurava nas mãos dois livros grandes e pesados e no ombro sua bolsa de estudos, também pesada. Retirou as chaves do bolso mas quando abriu a porta do quarto a encontrou aberta e estranhou.

Olhou para o corredor e entrou no quarto.

Estava tudo revirado, ou melhor, tudo bagunçado. O vídeo game ligado, o teclado montado no meio, seu cobertor estava caído no chão. Connor estava dormindo no tapete, em cima de uma almofada com o controle sobre seu corpo.

Ian permaneceu olhando aquela cena e bagunça por vários e vários segundos. Sentiu um peso estranho sobre suas costas, talvez fosse o cansaço que estivesse sendo multiplicado.

— Connor... — Ian chamou, pondo os livros sobre o armário ao lado da porta.

O maior continuou dormindo. Ian agora encontrou dois pacotes de salgadinhos jogados no chão.

Qualquer outro estaria gritando naquela situação. Ian aproximou-se de Connor e ajoelhou-se, chamando o nome do namorado mais uma vez.

— Ei, Connor...

Connor finalmente abriu os olhos. Viu a imagem do seu namorado e sorriu meio preguiçoso, esticando-se no chão. Ian imediatamente se levantou.

— Acabei dormindo, nem percebi. — Disse o grandão.

— Eu percebi. — Ian mostrou o desapontamento, colocou a sua bolsa em cima da sua cama.

— Que horas são?

— Quase sete da noite. — Sentou-se na cama e passou a retirar seus sapatos que estavam machucando seu pé.

Connor sentou sobre uma almofada e olhou o namorado que estava há um metro de distância. Sorriu e se levantou, aproximou-se de Ian e sentou ao seu lado, envolvendo o braço no ombro do menor.

Ian, surpreendendo, afastou o braço do maior e se levantou.

— Não, Connor... Por favor. — Sua mansidão incomodava. Talvez fosse uma das características de Ian, uns gritavam quando chateado ou irritado. Enquanto ele apenas respondia com poucas palavras. E isso incomoda muito. — Por favor.

Connor franziu o cenho e mordeu o dedo.

— O que foi que eu fiz? — Indagou ainda sendo o velho bobo de sempre.

— Olhe ao seu redor.

— Nosso quarto?

— Poxa, Connor. Assim não dá. — Ian suspirou, agora estava sério. Retirou os óculos.

— Não gosto quando você me olha assim.

— Você precisa ser mais responsável, Connor. Olha só a bagunça que está o nosso quarto. Eu estou exausto e tudo que eu queria era chegar aqui, tomar um banho, comer, me deitar contigo e te fazer de travesseiro, porque você sabe, eu gosto. Mas você acha que tem condições? Você foi pra aula, Connor?

Connor parecia um cachorro que tinha aprontado algo. O rabinho encolhido entre as pernas e a cabeça baixa. Ele negou.

— Você acha justo? Eu fiquei metade da madrugada te ajudando, Connor. Eu sei que você tem suas dificuldades e até compreendo, mas olha o que você está fazendo com seu futuro.

— Eu acabei perdendo a hora da prova. Dormi e quando dei por mim, já não dava mais tempo pra nada. — Tentou se defender.

— Eu poderia ter perdido o tempo, também. Mas não perdi. Estive o dia inteiro na universidade.

— Você está bravo comigo? — Ele perguntou, se levantando.

— Estou, Connor. — Admitiu, mesmo sem gritar. — E chateado, magoado.

— Desculpa, poxa. — Tentou se aproximar, Ian virou o rosto.

— Por hoje, por favor, me deixa sozinho, tudo bem? Eu vou dormir no quarto do Leo, eu acho. Não sei, mas... Não me procura, tudo bem? Amanhã eu volto aqui pra conversarmos.

— Ian, eu posso arrumar tudo. Não me deixa sozinho aqui, poxa, eu tenho medo do escuro, você sabe.

— Aprenda a conviver com seus próprios monstros, Connor. Eu só não estou com cabeça pra discutir. Não é apenas a bagunça no quarto que me incomoda, mas sim você e seu futuro.

Ian não deu sequer oportunidade para Connor responder. Ele recolheu seu cobertor e travesseiro, olhou para o namorado e suspirou, estava triste. Saiu do quarto e não fechou a porta.

Connor até pensou em ir atrás dele, mas preferia obedecê-lo. Não queria piorar mais as coisas. Apenas deitou-se na cama e abraçou o seu travesseiro, sentia-se um idiota por completo e desse fez acreditava no poder que esse insulto tinha.

Ian, por outro lado, passou realmente a pensar sobre o que queria para o seu futuro. Essa foi a primeira vez que teve uma discussão séria com Connor, embora não parecesse e o motivo fosse considerado bobo, mas para ele era de grande valia que o namorado passasse a ser mais responsável. Tudo bem ele ter todo aquele jeito brincalhão e bobo, aquilo era seu charme, mas há certas coisas na vida que precisam de um pouco de seriedade.

Tinha até perdido a fome. Entrou no quarto de Leonard e, vendo a cama vazia, deitou-se nela. Se não fosse o cansaço ele estaria revirando-se na cama e pensando em como Connor estaria, podendo até mesmo voltar lá se quisesse, mas o sono logo o abraçou.

[...]

Danion tinha acabado de surgir no corredor quando viu Caine sair do quarto. O pequeno usava uma bermuda jeans escuro com barra dobrada, sapatos brancos e uma camisa da mesma cor com uma estampa enegrecida, o destaque estava na jaqueta jeans de um azul mais claro, que caiu perfeitamente naquele visual.

O branquelo olhou para Caine dos pés a cabeça e, ignorando-o por completo, passou por ele e encontrou Clara de pé, olhando para os quadros na sala.

— Quem é o artista? — Ela perguntou.

— Leonard fez o que está no meio. Eu não entendo nada, apenas uma mistura de tintas. — Ele respondeu.

— Não é feio, achei bo... — Clara parou de falar quando viu Caine também aparecer na sala. O súbito desejo de beijar-lhe tomou conta da loira.

Caine dessa vez não tinha mais a proteção de Danion e, sem conseguir fazer nada, Clara avançou. Mas, por sorte, Gale correu em direção da irmã, conseguindo segurá-la a tempo.

— Poxa, vocês nunca vão me deixar beijá-lo. — Resmungou a loira, sentando-se no sofá, desapontada.

— Você pode ser processada por isso, sua louca. — Gale disse.

— Processar por admirar um garoto bonitinho como ele? A propósito, vai sair pra algum lugar? — Ela indagou.

Danion achou a pergunta interessante.

— Irei sair com o Santiago. — Era difícil ter que ignorar Danion, mas o pequeno apenas se esforçava e não queria encontrar os olhos claros do outro.

— Santiago? Ainda não sei quem é Santiago.

— Um babaca, traidor. — Danion não conseguiu ficar calado e disse.

Caine preferiu não rebater.

Danion voltou para seu quarto e deitou-se na cama em que Ian estava. Ian resmungou, mas não abriu os olhos.

— Qual o problema agora? — Ian indagou.

— Eu sou um péssimo líder, não sou?

— Você... — Não conseguiu terminar de falar.

— Porque, porra, todo mundo sabe que as regras são claras: Leões não se misturam com os Tigres. Daí William fode com tudo e é namorado do Octavio. Você do Connor. E agora Caine vai sair com o Santiago. Eu deveria impor novamente essa regra.

Ian se acomodou na cama, pondo a cabeça sobre o braço e em seguida olhou para Danion.

— Nós sabemos perfeitamente o porquê da rivalidade entre Leões e Tigres. William e Sean. Éramos levados a entrar nessa briga justamente para defender nossos lideres, Danion. O mesmo valeria pra você, caso fosse líder na época. Agora com o William não estando tão presente na república, percebemos que as brigas contra eles não são mais frequentes. Nossos novos rivais moram na república ao lado. — Referiu-se a Joshua.

— Mas eu não acho certo. Santiago nos traiu e Caine vai lá sair com ele. Tenho quase certeza que aquele traidor vem comendo o Caine.

— Qual é o problema? Caine ou Santiago?

— Nenhum! Minha vontade é apenas rebater tudo o que o Caine me disse. Ele me humilha perante todo o refeitório e agora fica rindo por aí só porque vai dar a bunda.

Danion parecia uma criança birrenta.

— Ele, o Caine, é o problema.

— Lógico que não. — Olhou para Ian, que mantinha a expressão que mais incomodava os leoninos: ele estudava as reações de seus parceiros. — Por um acaso eu pareço estar preocupado com ele?

— Não. —Ian mentiu. Talvez fosse melhor assim.

— Ótimo. Eu juro que iria te insultar até a morte.

Ian agora novamente fechou os olhos percebendo que a conversa se encerraria ali.

— Eu vou ficar aqui com você. — Danion disse, acomodando-se na cama, fechando os olhos e roubando metade do travesseiro de Ian. — Se seu namoradinho aparecer aqui, não vou me responsabilizar por nada. Quando Leo chegar, e a propósito, estou preocupado com esse desaparecimento, ele vai ter que dormir em minha cama.

— Connor não vai aparecer aqui. —Ainda de olhos fechados, Ian disse. — Nós brigamos.

Danion novamente abriu os olhos.

— Posso saber o motivo?

— Quero torná-lo alguém mais responsável. Estou triste por ter virado uma madrugada, ajudando-o para uma prova e...

— Ele não foi a aula. — Danion completou. Ian assentiu. — Não tão diferente de mim, mas... Talvez você só precise se esforçar mais.

— Eu me esforço, Dan. Me esforço muito. Eu já amo o Connor. — Amor, Danion não sabia o significado disso — Mas, não quero amar alguém que a todo o momento quer ficar apenas vidrado em seu vídeo game. Estou morrendo de peninha por deixá-lo sozinho no quarto, mas eu preciso fazer isso. Se ele quer ser uma criança, preciso tratá-lo como uma, que fica de castigo quando os pais descobrem algo de errado.

— Sou péssimo pra conselhos. Mas o que eu quis dizer é que Connor não é nada na república sem você. Quando você tá em aula e ele não... Meu Deus! Aquele garoto enche o saco perguntando se você já voltou. Vive cantarolando pelos corredores e seu nome geralmente é citado nas músicas. — Ian sorriu, sentindo o coração aquecer. — Você também só precisa se esforçar mais. Vocês vivem em mundos bem paralelos, cara, olha só quem você é: O mais nerd da república. E ele o mais lerdo, burro e etc. Cada um precisa entrar no mundo do outro e achar um ponto onde vocês possam relacionar as diferenças.

— Onde está o Danion? — Ian indagou, sorrindo.

— Vai tomar no cu. Eu estou tentando ajudar e você me tirar sarro.

Novamente, era surpreendente quando Danion abria a boca para dar conselhos.

— Por hoje eu vou dormir aqui, amanhã eu converso com ele.

— Sei que vocês vão transar. A propósito, é bom? Ou ele também é um lerdo na cama?

— Te confessar minhas intimidades com o Connor? Por favor, Dan. Prefiro voltar a dormir.

—Qual é, Ian! — Pressionou o braço do moreno.

— Cala a boca, Danion.

Ian virou-se e evitou com que o branquelo notasse seu constrangimento. Danion passou os primeiros dois minutos ainda tentando roubar alguma informação dele, mas finalmente se calou. Ambos dormiram na mesma cama.

[...]

Colin tinha ido ao banheiro por acaso. Não esperava encontrar Sean lá, parado e encostado a parede, como se já estivesse esperando-o. O moreno apenas moveu os olhos vendo-o caminhar até a pia e se olhar no espelho.

Sean e Colin tinha essa tensão sexual quase que impossível de não ser notada.

Quando o garoto que estava usando uma das cabines saiu, Sean deu o primeiro passo e se colocou atrás de Colin que o viu através do espelho.

— Estou começando a ficar preocupado. Sinto que meus companheiros de república desconfiam de minhas saídas, Sean. E isso tá se tornando cada vez mais frequente.

— Quem disse que me importo? — A sinceridade em pessoa. — Foda-se todos eles.

— Você não mais estuda aqui. O que está fazendo?

— Te esperando.

— Me esperando? — Colin se virou. — Que surpresa. — Foi irônico. — Pronto, agora pode ir.

— Ah, Colin, vem que eu sei que você gosta disso.

Sean, sorridente, segurou a cintura do menor com sua mão, ato tão inconsequente que um outro garoto entrou no banheiro e por pouco não os flagrou. O moreno rapidamente se afastou e voltou para a porta, antes de partir olhou para Colin e ele entendeu completamente aquele olhar: A saudade de possuir aqueles lábios.

Sean caminhou até o estacionamento e Colin foi logo atrás.

Ao entrarem no carro, Sean fez questão de tocar-lhe as coxas, deixando Colin um pouco constrangido, mas ainda assim adorando aquela ação.

— Não. Não vou fazer o que você quer aqui no carro e muito menos no estacionamento da universidade. — Colin afastou sua mão.

— Às vezes você me assusta. Nunca vou me esquecer daquele dia em que voltamos da sua cidade natal.

— Vai mesmo me forçar a meter a mão na sua cara? — Colin o encarou. — Vamos embora daqui antes que alguém passe a sentir minha falta e me procure.

— Está dizendo que quer transar comigo?

O tapa. Por sorte não foi na cara de Sean. Foi em seu ombro. Ele se encolheu, sorrindo. Colin se derretia sempre por aquele sorriso. Tão moleque e tão safado.

Sean pôs o cinto e deu partida. O destino: Sua residência.

Colin foi o primeiro a descer do carro e entrar na casa. Jogou-se no sofá e fechou os olhos. O cheiro de Sean era impregnado naquela casa e, inalando tudo aquilo, não se cansava. Colin tinha que admitir... Ele adorava o cheiro daquele moreno.

Sean foi até o seu quarto e voltou de lá depois de alguns segundos, sem camisa. Diferente de todas as outras vezes, Sean usava um acessório bem peculiar: Era um cordão preto, preso ao seu pescoço, com dois pingentes militares.

— Exercito? Sério? — Colin sentou, indagando. Estava confuso.

— O quê? Isso? — Sean olhou para o cordão. — Não. — Sean puxou um banco para se sentar logo a frente de Colin. — Faz um tempo que eu tenho isso guardado, desde que eu tenho meus 12 anos, eu acho.

Colin estendeu as mãos e tocou os pingentes tentando decifrar o que havia escrito nele. Sean não se incomodou com a curiosidade do menor, permaneceu quieto em seu lugar, apenas vendo os olhos de Colin cada vez mais encolhidos.

— E o que tem escrito?

— São números.

— Só pra dar um destaque? Ah, achei bonito. Mesmo achando que uma frase seria melhor que número. — Colin soltou o cordão.

No primeiro pingente tinham os números: 83266. No segundo: 26546.

— Isso é um código. Quem sabe pra um cofre cheio de dinheiro? — Sean se levantou e foi até a cozinha.

— Então me dê! — Exigiu, levantando-se e indo até a cozinha. Sean estava abrindo a geladeira. — Não que eu seja ganancioso, sabe... — Brincou.

Sean se virou. Para a surpresa de Colin, o moreno retirou o cordão de seu pescoço e caminhou até Colin, estendeu a mão para o menor. Colin o olhou, suspeitando que aquilo fosse uma brincadeira.

— Pode pegar. — Afirmou com a cabeça.

— Mas é seu desde a infância.

— Eu não o quero mais. — Não retirou os olhos de Colin.

— Só aceito se você me disser o que esses números significam.

— Você não é burro, logo vai descobrir. — Sean repousou o cordão no ombro de Colin e o pequeno, temendo que caísse, agarrou o objeto com volúpia.

— Você poderia ser mais cavalheiro e me ajudar a colocar, seu estúpido. — Colin voltou para a sala.

O pequeno voltou a se deitar no sofá e passou a observar o cordão preto, remexendo-o entre seus dedos e até mordiscando o metal. 83266 e 26546... O que significava, afinal? Mas Colin não acreditava em Sean, estava certo de que aquilo era apenas uma brincadeira para deixá-lo confuso e irritado, como costumava fazer.

Sean voltou com um copo d’água em mãos e sentou-se novamente no banco. Colin o encarou.

— William sabe que você tinha esse cordão?

— Não sei. E já cansei de repetir que não me importo com nada a respeito dele.

— Octavio?

— Talvez.

— Então é melhor te devolver. Meu clima com Octavio não é lá dos melhores, mesmo eu me esforçando para deixar tudo bem entre nós dois. Não sei se já te contei que discutimos por sua causa.

— Isso aconteceria, cedo ou tarde. — Sean pareceu não se preocupar, bebeu mais da sua água. — Não é surpresa para mim.

Colin então devolveu o cordão para Sean, que tomou o objeto. O moreno levou as mãos ao bolso de Colin e o deixou lá.

— É seu, eu já disse.

Não indo contra Sean, Colin apenas aceitou e ficou em silencio. Permaneceu deitado no sofá.

O moreno depositou o copo vazio sobre uma mesa ao lado e tocou o tórax do pequeno. Colin sentiu a mão quente e áspera do moreno sobre si, mas não se moveu, apenas moveu a cabeça e encontrou novamente os olhos de Sean.

— Posso te propor um desafio? — Indagou.

— Não há um que eu não posso cumprir. — Ironizou.

— Me beije. — Estava seguro do que falava.

— Sério? Isso é tão fácil, Sean.

Colin se sentou, inclinou seu corpo para frente e quando ia encostar seus lábios aos de Sean, o moreno se afastou. Colin abriu os olhos e achou aquela atitude estranha, embora estivesse odiando.

Sean ficou de pé.

— Você só pode estar brincando comigo. — Disse o pequeno.

— Eu te propus um desafio, oras.

O moreno passou a caminhar novamente até a cozinha. Colin detestava ser contrariado. Levantou-se e foi até Sean, que parou imediatamente.

Parado em sua frente, Colin levantou seus olhos e ficou nas pontas dos pés... Não era possível. Nem assim ele alcançava. Sean sorriu e fez sinal negativo com a cabeça.

— Abaixa, seu desgraçado.

Sean permaneceu negando. Colin ainda saltou, mas Sean sempre se esquivava de todos os seus ataques. O pequeno até tentou escalar o corpo de Sean, mas tinha dificuldades. Conseguiu agarrar em seu pescoço, mas Sean virava a face, impedindo o menor de beijá-lo.

— O banquinho. — Sean disse.

Exausto, Colin voltou para o chão.

Sean não olhava para Colin, mas sim para o objeto logo atrás dele. Colin, compreendendo o recado, caminhou até o banco e o colocou em frente ao Sean. Após subir, ainda exausto, conseguiu tomar os lábios do moreno que não mais negando, aceitou os beijos, sorrindo.

O moreno envolveu o braço com a mais facilidade na cintura de Colin e com força, o ergueu do chão. Colin prendeu suas pernas na cintura do moreno e, aos beijos, eles caminharam para o quarto.

Colin estava tão cego que nem sequer percebeu que já estava dentro do cômodo. Só notou isso quando foi deitado sobre a cama. Os braços estirados pressionavam o lençol da cama, não demorou muito para o moreno montar sobre seu corpo e tomar seu pescoço, como adorava fazer em todas às vezes em que se encontravam naquela situação.

Sean, bruto, arrancou a calça de Colin e viu o pequeno apenas de cueca, já excitado. Ele sorriu ao encontrar a face de Colin vermelha, com o corpo sustentando pelos cotovelos enquanto forçava-se a ver o que Sean estava fazendo.

O moreno ficou de pé, retirando também sua calça e junto dela levou a cueca, estando despido. Colin tinha que admitir: Não havia ninguém mais gostoso que Sean. Em todos os sentidos... Corpo e membro, tanto excitado quanto em repouso.

O celular de Colin tocou.

Sean negou com a cabeça, querendo impedir o pequeno de retirar o celular do bolso da calça jogada no chão. Tendo que ser rápido, Colin se jogou no chão e recolheu seu aparelho, a foto de William estava estampada no visor. Atendeu.

— Colin? — William estava com a voz abatida.

— O-oi, Will.

— Onde você está? — Indagou.

— A caminho de casa. Por quê?

— Queria tanto conversar contigo...

— Aconteceu alguma coisa?

— É, eu acho que sim. Queria alguém pra conversar, sabe.

Sean suspirou, querendo gritar algo como: “Porra, me deixa transar em paz.” “Empata foda do caralho.” Mas tinha que se conter, caso contrário ferraria com a vida de Colin.

— Discutiu com Octavio, não é?

— Como você sabe? Poxa, está tão na cara assim? O pior é que foi uma briguinha boba, mas sei lá, queria alguém pra conversar.

— Tudo bem, em trinta minutos eu chego. Você está na república?

— Sim, hoje eu vou dormir aqui. Não tenho plantão.

— Nos vemos aí, então. Beijo, Will. — E Colin desligou, não esperando resposta do outro lado.

Colin tratou de vestir sua calça e olhou para Sean que não tinha a melhor das expressões. O moreno procurou alguma camisa para vestir e apanhou também sua calça, caminhou para a sala e lá se vestiu.

Colin foi logo atrás, vestindo sua roupa no curto trajeto até a sala.

— Não precisava ficar tão irritado por causa de um sexo.

— Sabe há quanto tempo estamos sem isso?

— Três semanas. Não deveria me culpar, temos essa relação às escondidas.

— E você acha pouco? Ah, vai se foder, Colin.

— Sério que você tá me insultando por isso? Porra, Sean. É, realmente, é melhor eu ir embora.

Colin passou por ele e abriu a porta, mas antes de sair o moreno o puxou pelo braço e lhe deu um beijo caloroso a ponto de que fazer Colin ficar sem ar. Após os lábios se afastaram o menor deixou escapar um “Arrr” bem nítido de aprovação.

Sean sorriu.

— Aproveita e manda meu irmão tomar no cu. — Disse, recolhendo as chaves da mesa e saindo da casa.

Colin, desnorteado pelo beijo, fechou a casa e entrou no carro. Por incrível que pareça, Sean não estava tão irritado. O pequeno pusera a mãos no bolso e sentiu o cordão que acabou ganhando, ele mesmo se encarregou de colocá-lo em si.

[...]

Talvez, você seja um dos muitos que ao saírem de casa olham para o céu e logo deduzem como o dia será: Se chuvoso ou ensolarado, talvez nublado. É assim na vida de cada um de nós, muitas das vezes por ocasiões do destino ou por nossas escolhas — que em grande maioria são falhas.

Porém, existe alguém que manda no dia e não deixa com que o dia mande nele.

Colton estava parado, em frente à república da qual faz parte, conversando com Harry. Ele certamente conhecia os passos de cada um que saia em entrava ali, tendo informações preciosas a ponto de derrubá-los. De alguns, felizmente, não eram coisas tão polêmicas e, certamente, não teriam grande efeito caso revelasse.

— E eu achava que você tinha perdido o poder que tinha sobre a Quadra. — Harry disse, retirando a mão do bolso e olhando para o celular.

— Estou aqui com um único objetivo e você sabe perfeitamente qual é. Lá vem ele. — Colton passou a mão pela barba imaginária.

Harry olhou para trás e viu quando Colin se aproximava da república. Colton soltou alguns sorrisinhos e o amigo o acompanhou. O leonino, irritadiço como sempre foi, mostrou-lhe o dedo do meio antes de entrar na república. Colin teria mandado insultos, mas achou melhor permanecer na posição que estava.

— Em vinte minutos Sean aparece.

— Nossa, você anda contando até isso?

— Profissionalismo, já ouviu falar? — Colton indagou, sorrindo apenas com os lábios.

Mas em apenas dez minutos o carro de Sean estacionou em frente à república dos Tigres e de lá ele saiu, passando a mão pelos fios negros. Olhou para os dois, mas como de costume, ignorou.

O moreno teria entrado em sua república se não notasse que outro carro estacionou em frente à república. Era Suzana, sua mãe. Sean, não gostando daquilo, permaneceu parado apenas vendo-a sair do carro acompanhado do homem que, segundo ela, seria seu novo padrasto.

Colton viu quando os três, a nova família, olharam para trás e encararam ele e Harry.

— Bem, acho que já está na hora de abrir o meu show. — Colton descruzou os braços.

— O que vai fazer? Não acha que deve elaborar mais o seu plano? — Harry estudava as expressões de Colton e tentava ler seus pensamentos, mesmo sabendo que isso era impossível.

— Não. Ele foi concluído no momento em que encontrei esses três reunidos. Por favor, vá embora. — Ordenou.

Colton atravessou a rua sem esboçar nenhuma expressão. Passou os dedos no carro e logo aproximou-se dos três, olhou para trás e viu Harry obedecendo-o. Colton então voltou a atenção para Suzana, Sean e o homem. Cínico, ele sorriu.

— Olá, como estão? — Colton indagou, abusando do cinismo cada vez mais.

Suzana, como mulher poderosa, o olhou dos pés a cabeça e sua expressão não foi agradável. Era como se Colton estivesse fedendo. O pequeno não se intimidava em estar ali, entre três pessoas poderosas, financeiramente.

— Eu lembro de você.

— Eu também lembro de você, Suzana. Mas no momento, vamos direto ao assunto, porque a paciência está me faltando.

Sean ousou em segurar o ombro de Colton e o afastar dali, mas o pequeno, corajoso, estapeou sua mão.

— Seu filho é gay. — Colton disse, naturalmente.

Sean sentiu aços serem injetados em seu tórax, estava pesado demais para suportar aquilo que acabou de ouvir. O coração pareceu desaparecer, por segundos.

— E a prova disso está aqui. — Colton estendeu o celular e mostrou fotos.

Suzana engoliu em seco, mas não se atreveu a olhar para Sean.

— E, por favor, Suzana, ai de você se abrir a boca para tentar me agredir verbalmente, porque assim como derrubei a máscara do seu filho, terei que derrubar a sua. Primeiramente, como já disse, Sean é gay e tem um caso escondido com aquele maldito garoto da república que faço parte, o Colin. Agora derrubando a sua máscara — Colton guardou o celular e olhou para o homem, que estático permaneceu — Esse é o verdadeiro pai do Sean. Sim, eu sei de tudo. E sei que você está tentando preparar o terreno para contar ao Sean que Nate não é o verdadeiro pai dele, que assim como o pai do William, você também pulou a cerca.

Dois mundos que foram ao chão.

— Sean e William nunca foram irmãos, de fato. Agora se eu fosse vocês, em silêncio, entraríamos naquele carro e, se não querem algum escândalo, terão que me ouvir.

Colton, não se preocupando, aproximou-se do carro e encostou-se nele, olhando para os três que estavam ali, parados.

Era Colton... Sendo Colton.

Notas finais
Certamente, não era isso que vocês esperavam, ou eram? Bom, gente, eu quero que vocês leiam isso, literalmente vai resumir toda essa nota: http://ask.fm/thomasnyah/answer/118228260892 Também criei um tumblr de música para RDL, as músicas são dos casais, haha: rdlmusicas.tumblr.com Boa leitura e é isso, até o próximo.