Notas iniciais
Quem é rei?

Quando Samuel colocou os pés no gramado de Seattle, ficou boquiaberto com a imensidão do lugar. A entrada e saída de pessoas era impressionante, diferente da sua antiga escola de artes cênicas. Era tudo tão mais intenso e tão mais belo, que não conseguia fechar a boca por tão perplexo que estava. O loiro tinha apenas uma mochila nas costas e uma mala na mão, o que logo anunciava que ele era um calouro.

Os cabelos, que antes eram na altura do pescoço, estavam mais curtos e não usava mais a franja, recebendo a imagem de alguém mais adulto.

Deixaria pra conhecer a universidade depois. Tudo o que queria era fazer uma surpresa para Colin, que não sabia que ele tinha sido chamado. Samuel agora era aluno do curso de medicina. O loiro chorou quando recebeu a notícia. Sua vontade foi ligar para Colin no primeiro momento, mas achou melhor fazer uma surpresa, recebeu permissão de Anita e Joseph; o homem teve que ser vigiado pela mulher, porque ele queria muito contar ao filho a novidade.

Caminhou de um lado para o outro tentando reconhecer o pequeno — e pelo que percebia, seria fácil reconhecer Colin ali. A maioria dos universitários eram altos e, aparentemente, estavam ignorando-o.

— Ei, você... — Tentou chamar um garoto que passou por ele.

Samuel ficou parado, sentindo-se ignorado. Tentou chamar uma garota, mas ela também não pareceu se importar com ele.

— Ei, você sabe onde ficar a Quadra No... — Mais uma tentativa falha.

Pensou estar fedendo e até ousou cheirar a própria axila, mas não tinha nada de errado. Olhou sua roupa e aparentemente estava bem. Por sorte era bem paciente e não se deixou ficar abatido por ser ignorado.

De longe conseguiu ver uma lanchonete, pelo menos aparentava ser uma. Arrastou a mala e atravessou a avenida movimentada, recebendo algumas buzinas na cara dos carros. Mas o errado era o loiro que não procurou a faixa de pedestre.

Ao entrar na lanchonete, procurou saber como as coisas funcionavam. Procurou uma mesa vazia e a única que viu estava ocupada, porém, um assento estava livre. Ficou com medo de incomodar o garoto e a garota que estavam lá.

Ambos eram loiros, a garota e o garoto também tinham olhos claros. Ela parecia irritada com algo e ele ria de algo. Não esperando mais, Samuel se aproximou dos garotos e, ao ver mais semelhanças, chegou à conclusão de que eles eram irmãos. Não que fosse preciso perguntar, estava óbvio.

— Tem mais alguém com vocês? — Samuel perguntou, esperando receber um: “sim, não tem espaço pra você.”

Os dois garotos negaram com a cabeça.

Clara também era uma caloura em Seattle. A loira, amiga de Danion que adorava sair beijando todos que achassem bonitinhos e fofinhos, seria uma futura veterinária. Com ela estava seu irmão, o motivo por qual estava ali.

A garota nunca sonhou em fazer alguma universidade, mas seu irmão sim. Desde que Gale falou para os pais que faria administração em Seattle, a vida de Clara se tornou um inferno. Os pais viviam insistindo para que a menina escolhesse algum curso. Depois de tanta reclamação e sermão, teve que escolher. Clara era tão irresponsável quanto o Danion em um quesito: futuro.

— Você também é calouro? — Gale perguntou.

— Se fodeu. — Clara disse.

— Por quê? — Não precisou admitir. Partiu para a pergunta e sentou-se.

Gale e Clara trocaram alguns olhares.

— Você tem algum familiar por aqui? — O loirinho indagou, repousando a cabeça no ombro da irmã.

— Não. Moro em outra cidade. Um amigo meu mora numa república.

— Quadra Nove?! — Quem perguntou foi Clara. Samuel assentiu. — É por isso que estou irritada. Pra conseguir vaga nas repúblicas oferecidas pela universidade tem que resolver toda uma papelada antes e ninguém nos avisou. Depois falaram que essas repúblicas da Quadra Nove lotam em questão de segundos. Juro que vou matar o Danion que não me avisou sobre isso quando estive aqui.

— Você não procurou ligar antes e avisar que estava vindo. Ele não tem culpa. Quem resolveu fazer a surpresa foi você. —Gale foi contra a irmã, afastando-se da garota.

— Acho que meu amigo conseguirá uma vaga para mim.

— Como ele se chama?

— Colin.

Clara franziu o cenho e logo em seguida fechou os olhos. Esse nome não era estranho para a loira. A garota assustou a todos quando pareceu saltar da cadeira, recuperando a memória.

— Eu conheço! É o baixinho, irritadinho, amigo do garoto bonitinho, fofinho... Ai meu Deus, eu quero beijar aquele garoto. — Disse, pensando em Caine.

— Se controla! — Gale cutucou a irmã. — Larga de ser louca.

— Vem, vamos atrás deles. Vamos procurar essa república. —Clara nem sequer esperou seu lanche. Puxou Gale pelo braço e esperou que Samuel a acompanhasse. — Nem que eu durma no chão da república. Mas, antes eu vou matar meu irmão por encher o saco dos nossos pais e me fazer passar por isso.

Gale imediatamente se afastou. Samuel pouco conhecia dos garotos, mas passou a adorá-los, então sorriu. Apanhou sua mala e acompanhou os novos colegas.

[...]

Colin estava distraído, observando a frente da república. Nada tinha mudado, apenas realçaram as cores, revivendo o que estava morto. O pequeno tinha gastado dias para obter aquele resultado. A árvore ao lado, próxima à janela do quarto em que William e Octavio iriam dormir, deixava a república mais bonita.

Tomou um susto quando alguém bagunçou os seus cabelos.

— Vai acabar quebrando o pescoço se ficar assim. —Luke disse com seu jeito brincalhão, envolvendo o braço no pescoço do garoto. — Finalmente terminou. Agora posso tirar um descanso da tarde tranquilo sem ter que ouvir você gritando com os garotos pra pintarem direito.

— Ai, Luke, que susto! — Colin por pouco não o estapeou.

— Eu sou tão bonito e tô te assustando assim? Desse jeito você me ofende, Colin. — Luke novamente bagunçou os cabelos do pequeno. — Tá, agora vem cá, me dá um beijo.

Luke até tentou aproximar os lábios da face do pequeno, mas Colin imediatamente se afastou.

— Desiste, Luke. Já disse que isso não vai dar certo. Que saco!

— Cara, me diz, o que eu tenho que fazer? Você é a pessoa mais difícil que já conheci. Tô apaixonado, bobão! — Ele sorriu. Um sorriso grande, de menino cínico.

— Então desapaixona, desapega, sei lá. Tem tanto garoto aí. — Apesar de tudo, Colin estava ficando constrangido.

— Não vou sossegar até você ser meu. Já disse. Espera... — Luke franziu o cenho, como se estivesse pensando em algo — Você já é meu. Ainda bem que não tem nenhum engraçadinho dando em cima de você. Está vendo aí? Deveria aproveitar a chance.

Colin não respondeu, apenas revirou os olhos e bufou.

— Me fala. Você viu se meus primos saíram?

— Não suporto seus primos e não tenho que vigiá-los. Ou seja, a resposta é não.

Luke imitou a resposta de Colin, arrancando insultos do menor. Luke já tinha pego todas as expressões que o pequeno usava quando era grosso. E imitá-lo era divertido, mesmo que apanhasse logo após.

Colin viu de longe três garotos se aproximarem de sua república. Um deles o pequeno conhecia, tinha quase certeza. E não estava acreditando nisso. O modo que Samuel caminhava era único. Geralmente com passos largos e ombros erguidos. O queixo foi ao chão quando o amigo finalmente parou em sua frente.

Se tivesse dois queixos, o segundo teria caído quando viu Clara com ele.

— É mentira... —Murmurou, mas os outros notaram.

— Donzela! — Clara gritou olhando para todas as janelas. Mesmo sem saber se Danion estava ali, ela permaneceu gritando, sem dar chance do Samuel cumprimentar Colin — Donzela, eu cheguei! Cheguei pra você, meu amor!

— Cala boca, Clara! Que vergonha de você. — Gale tentava puxar a roupa da irmã.

Colin não conhecia Gale, mas viu a semelhança que Clara e ele tinham.

— O que faz aqui, Samuel? — Colin indagou sem se preocupar com os gritos que a loira fazia.

— Eu fui chamado, Colin. Consegui o que tanto queria.

— E-e... — Colin não sabia o que falar.

Apesar do susto, ficou muito feliz pelo amigo. O pequeno tomou a atitude de abraçar o loiro, feliz com a notícia. Samuel sorriu com o aconchego que recebeu no corpo do menor, mas então teve uma mão forte afastando-o de Colin. Luke o encarou, chateado.

— Ei, é meu! —Declarou.

Colin mais uma vez ficou boquiaberto. Olhou para Luke não acreditando no que ele fez.

— Eu vi primeiro, é meu! — Mais uma vez disse, puxando Colin para si.

— Quem é esse louco? — Samuel indagou, não gostando do que estava vendo.

— Espera, vocês são namorados? — Clara até se esqueceu do que estava fazendo. Seus olhos brilharam com a cena que estava vendo — Meu deus, se beijem! Eu quero ver isso! Vamos, vamos, vamos!

Gale revirou os olhos.

— Tá podendo, hein... — Clara disse para Colin. — Se nenhum dos dois te quiser, podem brigar pelo meu irmão. Ele é gay, saiu do armário logo quando nasceu. Costumo dizer que minha mãe era o armário. Gale não saiu chorando, saiu dizendo: cheguei pra brilhar! — E ergueu os dois braços, como se estivesse abrindo algum show.

Ela mesma gargalhou com a piada que fez. Aliviando a tensão criada ali. Samuel achou a piada idiota, mas Luke entrou na gargalhada com a garota, ficando vermelho como um tomate e sentindo o estômago doer.

Danion saiu da república já sabendo quem estava gritando. Logo atrás, Edgar, Caine, Leo, Ian, Colton e Connor apareceram. Até eles ficaram curiosos com a gritaria que Clara fez.

A loira correu e derrubou o branquelo no gramando, enchendo-o de beijos. Danion evitava que ela encontrasse seus lábios. Clara era uma louca. Animava qualquer velório.

— Quem é essa doente? — Leo murmurou para Ian, que estava assustado tanto quanto ele.

— Te faço a mesma pergunta. — Respondeu em sussurro.

— É amiga dele. É melhor vocês protegerem os lábios. Ela tem mania de sair beijando todo mundo. — Caine também interagiu, sussurrando.

Quando Danion finalmente conseguiu se colocar de pé, arrumar o cabelo e fazer Clara se acalmar, ele então perguntou:

— O que está fazendo aqui, garota?

— Não está vendo? —Ela mostrou as malas. — Viverei nesse inferninho que você sempre me falou. Serei leonina como você. Sou uma leoa.

— Clara, nós...

— Eu durmo no chão da sala, não tem problema. Meu irmão pode dormir na rua, ele é o culpado disso. E meu Deus, eu ia esquecendo. — Clara então deu um tapa leve na face do branquelo — Por que você não me disse que essas repúblicas sempre vivem lotadas? Seu desgraçado, aquela maldita universidade não explicou nada sobre as repúblicas. E olha que eu pago! Agora sou obrigada a caçar alguma casa pra morar.

— Como eu iria dizer se você nunca quis frequentar uma universidade.

— Pode culpar o Gale! Nossos pais ficaram reclamando por causa dele. Me chamaram até de vagabunda.

Danion olhou para o loiro por cima dos ombros de Clara, revirando os olhos.

— Eu sei que eu devo estar parecendo uma louca. Mas estou animada. Estava até irritada por causa dessa coisa de república, mas olha só, quanta gente bonita. Você não vai me rejeitar, vai?

Clara passou os olhos por todos os outros membros da república, até encontrar Caine. O pequeno sorriu sem graça e acenou.

— Você. Mora. Aqui?

Quando Clara pensou em se aproximar de Caine, Danion foi rápido o suficiente para impedi-la. Ele sabia que a loira iria querer beijá-lo, como de costume.

— Ele é tão fofinho. Que vontade de morder.

Caine se escondeu atrás de Connor, temendo ser atacado. Foi então que viu, do outro lado da rua, Santiago com uma mochila nas costas. Usava um boné preto com detalhes vermelhos, bermuda e camisa xadrez.

O pequeno afastou-se dos demais que ainda resolviam o “problema Clara” e foi cumprimentar o colega, que há três dias não via. Ninguém sequer notou quando Caine saiu. Santiago tinha ido visitar sua mãe e irmã. O maior parou quando viu a aproximação do garoto.

— Ei, finalmente! — Caine disse, sorridente.

Santiago retribuiu o sorriso, mas ficou curioso com o que estava vendo. Aquela quantidade de pessoas reunidas em frente à república que agora era liderada por Danion. Quem eram os três loiros? Principalmente a garota que não parava de gritar.

— Finalmente terminaram de pintar a sua república. — Disse ainda sem tirar os olhos das pessoas reunidas — Quem são eles? — Indagou, curioso.

— Clara e o irmão dela. O outro eu não conheço, mas parece ser amigo do Colin.

— Novos membros?

— Eu acho que sim. A garota tem mania de me beijar e, aproveitando que vi você, acabei fugindo dali.

Santiago olhou para o pequeno, franzido o cenho como se estivesse perguntando: “Isso é sério?” Caine assentiu, já entendo a expressão do outro.

— Minha irmã te mandou beijos. Falei de você pra ela.

Santiago não esperou que Leo pudesse aparecer. Para sua surpresa, o leonino sorria, aproximando-se de Caine. A vontade de Leonard era abraçar Santiago, mas ele sabia que o amigo não gostava dessas coisas. Também sabia do seu problema, e evitou tomar essa atitude. A única vez que Leo o abraçou em público foi quando Danion foi espancado.

— Como foi a viagem? E Nicole, como está? — Leonard perguntou, olhando-o fixamente.

Santiago odiava quando Leo o olhava nos olhos, ele sempre ficava sem saber o que falar. E, para piorar, do outro lado estava Caine, um outro alguém que estava tomando parte dos seus pensamentos.

— Nicole perguntou por você. A viagem foi tranquila.

— Ei, Santiago... — Leo ia começar a falar quando foi interrompido.

— Preciso entrar, estou cansado e com muita dor de cabeça. — Santiago pronunciou as palavras de maneira rápida e objetiva, chegando a parecer grosso.

— Tá... Tudo bem. — Leonard disse com a voz perdendo força a cada palavra. — Conversamos outra hora.

Santiago entrou e deixou os dois garotos parados em frente à república dos tigres. Caine sabia que Santiago estava com medo de estar sendo observado e os outros começarem a levantar suspeitas. Já Leo não gostou de ser tratado assim, foi só apenas chegar para Santiago entrar.

“Mas uma vez Caine tira alguém de mim.” Leonard pensou, mas não disse nada. Não queria colocar a culpa no amigo.

— Vem, vamos voltar. — Caine segurou na mão de Leonard.

Juntos voltaram para os demais, que ainda discutiam. Samuel e Luke trocavam olhares, um desconfiando do outro. Colin mantinha-se entre eles, temendo o pior. Gale tentava calar a boca da irmã, que não parava de falar. Ian sentou-se no gramado, já de saco cheio da conversa e Connor permaneceu de pé ao lado de Colton e Edgar.

— Estou com fome. Danion não vai pedir comida hoje? — Colton chamou a atenção de todos, logo, os garotos pareceram também sentir fome.

— Não vou ficar gastando dinheiro com vocês. Porra, aprendam a cozinhar. — Respondeu o branquelo.

— Eu sei cozinhar! — Clara elevou a voz. — Ótimo! Mais um motivo pra permanecer aqui. Vamos, Gale. Vamos entrar.

Clara não se importou em entrar na república, já se sentia em casa antes mesmo de ser aceita. Alguns garotos foram atrás dela e Connor se ofereceu para ajudar com as malas. Apenas Colin, Luke, Samuel, Edgar e Danion permaneceram em frente à república.

Samuel não tirava os olhos de Luke e o moreno também fazia o mesmo. Um sentia que o outro era uma ameaça.

— Colin, escolhe um pra foder logo. Todo mundo percebeu o que acontece aí. — Danion, como sempre, era o garoto sem noção.

— Quem é ele? — Samuel perguntou, olhando para Danion.

— Sou o líder dessa república aqui. E se você não gostou de mim, sinto muito, não tem vaga pra você. Eu mando nisso aqui.

— Um péssimo líder, por sinal. — Colin retrucou. — Mas não importa, não quero discutir sobre isso. Samuel precisa de um lugar para dormir.

— Tem essa maldita república. — Esquecendo que era sua antiga república, Danion apontou para a república de Joshua — E a do Sean. As menores não tem vaga, todos nós sabemos disso.

— Nenhuma das duas aceitaria ele. — Luke provocou.

— Temos um quarto livre, Danion. — Edgar se envolveu na conversa, olhando para Samuel.

— E você acha que Clara e Gale já não estão nele? Aquela garota é o demônio em pessoa, já deve ter revirado toda a república.

— Eu durmo com eles, sem problemas. — Samuel praticamente suplicava.

— Colton dorme sozinho. — Edgar sugeriu.

— Ele não vai dormir com o Colton. Não quero que Samuel se contamine com aquela cobra.

— Danion! — Clara aparece na janela, gritando. — Já achei meu quarto. — Todos olharam pra garota.

— Ela vai dormir comigo. — Colton sorriu ao aparecer na porta, mas imediatamente entrou.

Danion suspirou. Olhou para Samuel como se não estivesse gostando.

— Teve sorte, garoto. — O branquelo disse e logo em seguida entrou na república.

Luke não gostou do que ouviu, mas nada podia fazer. Afinal, a república não era dele. Porém, ficou feliz em saber que Samuel não dividiria o quarto com Colin.

Quando Samuel entrou, Colin se despediu de Luke e foi ajudar o amigo.

Edgar e Luke ainda permaneceram lá, ambos repousando na sombra da árvore.

[...]

Leonard arrumava os seus materiais de artes quando deixou que uma fotografia caísse. Não recordando de a ter guardado ali, recolheu a foto e sentiu o coração parar por segundos ao ter várias lembranças daquele dia. Sensação nostálgica que rasgavam seu coração por tamanha saudade.

Era uma típica foto de final de ano: ele, o pai e a mãe. Todos eles sorriam para aquela câmera, que se ele bem recordava, fora a tia quem tirou.

Uma lágrima escapou de seus olhos e ele imediatamente enxugou ao ver que Danion acabara de entrar no quarto resmungando. O branquelo parou com seus insultos ao notar o silêncio de Leonard. Não era do feitio do amigo ficar daquela forma.

— Eles nunca vieram me visitar. — Leo disse, sentando-se na cama, ainda segurando a fotografia. Outra lágrima insistia para cair, mas ele não permitiu isso. — Me odeiam.

Danion observou Leo olhar a fotografia de seus pais e logo entendeu o que se passava.

— Os meus também não. Procuro não me importar com isso. — Disse e retirou sua camisa.

Leo resolveu optar pelo silêncio. Não sabia o que falar, apenas sentir. Sabia que o branquelo não era o melhor conselheiro. Ele geralmente costumava dizer um simples: “Você supera.” Leonard nunca reclamou disso, afinal, ele também não era uma boa pessoa pra conselhos.

— Leo, seus pais não sabem o quão bom você é naquilo que faz. Quem perdeu foi eles e não você. Esqueceu que agora somos você e eu, eu e você? Eu sou o pai e você é a mãe. Somos uma família, Leo. Nós decidimos isso no momento em que nos tornamos amigos. — Danion não esperava falar algo do tipo e, se achando poderoso, resolveu prosseguir — Agora somos obrigados a cuidar de todos nessa república. Porra! Cadê o William que não volta?

Leo soltou um sorriso. A história de pai e mãe surgiu bem no início da amizade deles. Um pai e mãe sem filhos. Uma coisa boba e até engraçada. Apesar de Danion ser líder, ele sempre recorria ao Leonard buscando ajuda, mas isso não servia para nada. Danion era um péssimo líder e, em todo caso, não sabia liderar.

— Só assim você vai amadurecer. Ser líder vai ter ajudar nisso.

— Eu estou aqui te ajudando e é dessa forma que você me trata? — O branquelo o encarou, odiando ter que ouvir aquilo.

Leo colocou a fotografia onde antes estava e abraçou Danion, mesmo sabendo que ele não gostava daquilo. O branquelo reclamou da atitude e só parou com os insultos quando Leonard se desfez do abraço.

Danion se jogou na cama e acendeu um cigarro. Leonard revirou os olhos e abriu a janela. Se o maldito cheiro lhe incomodasse, ele expulsaria o branquelo do quarto, como sempre fazia.

— Cadê a louca da sua amiga? — Leo perguntou, voltando a sentar na cama.

— Suportando o Colton. Não estou gostando nada disso.

— Também não estou gostando, mas não podemos fazer nada. Mas então, o irmão dela... Ele é bonitinho. Já pegou ou vai pegar? — Soube que estava sendo inconveniente, mas Danion era pior.

— O Gale? — Pareceu surpreso. — Não vou pegar, mas já peguei.

— Imaginei. — Leo não se surpreendeu com o que ouviu. — Agora, sendo mais inconveniente ainda... E o Caine?

— O que tem? — Danion perguntou, estranhando a pergunta.

— Desde que você acordou, ele não mais te procurou. Você acha que ele definitivamente te esqueceu?

— Não sei. — Foi objetivo na resposta. — Por que a pergunta? — Danion não queria prosseguir o assunto, mas estava curioso pra saber o motivo da pergunta. Não era normal Leonard estar perguntando aquilo. Revirou-se na cama e soprou a fumaça.

— Acho que tem algo acontecendo entre Caine e Santiago.

Danion, que antes tinha os olhos fixos na parede, apenas moveu as orbes e encarou Leonard.

— Não percebeu? — Leonard indagou, achando que era notável.

— Tá com ciúmes do Santiago?

— Não! — Imediatamente respondeu. — É que Santiago já me deu mais atenção. Hoje fui falar com ele e, pelo que parecia, estava me evitando.

— E daí? Desde quando você se importa com ele?

— Danion, Santiago era meu amigo e, na nossa antiga república, eu era a pessoa mais próxima dele. Tenho o direito de me sentir incomodado por isso.

— Então por que você vem puxar esse assunto comigo sabendo que não me importo?

— Porque eu achava que você estava sentindo algo pelo Caine. Afinal, você só acordou pra ele no quarto. — Mostrou que estava com ciúmes.

— Isso nunca significou nada, Leonard!

— Não me chama por esse nome! — Não gostou. Viu que Danion estava se exaltando.

— Você sabe o quanto esse assunto me irrita!

— Certo, desculpe. — Leo encerrou.

Leonard ficou em silêncio e Danion também. O silêncio incomodou a ambos.

— Não quero ficar com raiva de você. — Leonard tratou de começar um novo diálogo.

— Não estamos brigados.

— Eu sei que não. A verdade é que me importo com você... E bem, eu torço por você. É tão bom ter alguém, Dan. — Ele abraçou o travesseiro.

Danion revirou os olhos, mas então recordou de uma coisa que sempre quis falar.

— Leo, você sabe que sei que você também gosta de mim, não sabe?

Leonard congelou. Ele não estava preparado para aquilo.

— Não se preocupe, nada vai mudar entre nós dois. — Tentou relaxar o amigo.

— Eu já cheguei a gostar de você. — Confessou. — Não nego. Mas isso já passou, Dan.

— Você me odeia?

— Lógico que não. De todos, você é o mais próximo de mim. Seria um erro te odiar.

— Queria poder, Leo. Mas não consigo. — Danion disse a frase que costuma usar para a vida, quando se trata de sentimentos amorosos.

Novamente o silêncio se instalou.

[...]

— E você? — Luke perguntou para Edgar.

— O que? O que tem eu? — O loirinho indagou, confuso com a pergunta.

— Quem é você? Eu não me lembro.

— Normal, sou quase um fantasma na Quadra. Me chamo Edgar.

— Está decidido. Você vai ser o responsável por vigiar Colin. Não quero aquele garoto novato tocando nele, tudo bem?

— Mas... — Tentou falar.

— Mas nada! É isso e pronto. O garoto chega abraçando o que é meu. — Luke cruzou os braços, parecendo uma criança birrenta.

Edgar preferiu não responder. Na verdade, teria respondido se não estivesse vendo Joshua, Megan, Caleb e Noah se aproximarem. O loirinho ficou em silêncio, apenas encarando o ruivo.

Joshua olhou para Edgar e o pequeno se sentiu menor do que já era. O ruivo o encarou, lembrando-se de quem era. O garoto que caiu sobre seus pés.

— O que faz aqui com esse garoto, Luke? — Megan indagou, olhando Edgar dos pés a cabeça.

— Eu não o conheço, mas estou pedindo algo a ele. Por que voltaram cedo?

Eles tinham ido almoçar fora, Luke rejeitou porque era o único solteiro.

— O motivo de todos os dias. Caleb e Noah discutiram e eu acabei perdendo a paciência.

Edgar queria correr dali, mas não entendia porque não conseguia se mover. O seu medo era maior que a coragem.

Joshua voltou a olhar para o pequeno loiro que tinha os olhos pairando sobre o gramado, completamente contido.

— Ele vai acabar se mijando. — Joshua olhou para Edgar. Disse sem querer provocar, principalmente por achar que a maioria dos garotos se sentia assim perto dele — É melhor irmos.

Megan sorriu, notando o quão intimidador o namorado era. Segurou na mão do ruivo e todos saíram dali. Apenas Edgar permaneceu, aliviado.

Noah e Caleb entraram na república em silêncio, mas no momento em que entraram no quarto, o loiro resolveu colocar pra fora toda a raiva que sentia.

— Você poderia ter sido mais educado. Me puxava no canto e conversava comigo. — Noah bateu a porta com força.

— Você acha que eu deveria? Deveria? Sempre fiz isso, Noah. Mas parece que você não se importa.

— E precisava me tratar daquela forma? Porra! Você se preocupa demais com os outros. — O loiro estava realmente furioso.

— E você se preocupa em ferrar com eles. Em humilhá-los só para sentir prazer. — Caleb cuspiu as palavras.

— E por que você ainda continua comigo? — Noah o encarou.

— Porra! — Odiava falar palavrão, mas estava irritado. — Você sempre me faz essa pergunta, Noah. Isso me irrita profundamente.

— Claro que te pergunto. Você sempre reclama do que faço. Nada te agrada. — Mostrava desgosto.

— O que você faz? Você tomou uma república, planejou espancar o garoto na frente da pessoa que o amava. E hoje quis humilhar o garçom.

— Ele anotou meu pedido errado.

— Custava ser educado? Ele foi educado e se desculpou.

— Vai se foder, Caleb. Estou cansado de todas as brigas. Já faz uma semana que discutimos sem parar. Tá achando ruim, termina comigo.

Caleb ao ouvir isso parou, olhou para o céu como se estivesse suplicando por alguma saída. Estava farto de ouvir aquilo em todas as discussões. Voltou a olhar para o namorado, que estava de costas para ele e finalmente vomitou o que há bastante tempo estava preso dentro de si.

— Certo. Então acabou. — O moreno disse, mantendo-se firme na decisão.

Noah tinha algo para falar, mas tudo foi esquecido ao ouvir o que Caleb tinha dito. Nas vezes em que usava a sua famosa pergunta sobre continuar com ele, nunca esperou que Caleb fosse terminar. Na verdade, era mais uma pergunta que tornou costume em suas discussões.

Os olhos se encheram de lágrima.

— Não precisa disso, Caleb... —Noah tentou tocá-lo.

— Não me toca, Noah. — Se afastou. — Você perguntou e agora estou te dando a resposta. Eu continuava contigo porque acreditava que você pudesse se tornar melhor. Mas agora, vejo que não tem mais solução. Prefiro terminar a ter que viver nesse martírio.

— Não precisamos chegar a esse ponto. —Não parecia mais o Noah explosivo de minutos antes.

— Eu vou sair, esfriar a cabeça. Depois volto pra pegar minhas coisas. Sei que Joshua vai me bater. Acabou, Noah.

Caleb saiu do quarto e achou melhor assim. Permanecer lá iria acabar deixando-o pior do que já estava. Principalmente por saber que Noah iria insistir mais e mais naquele assunto. Não tinha cabeça para isso.

Voltar para a república significaria mais uma tortura. Mas ele teria que voltar... Cedo ou tarde teria que pegar suas coisas e provavelmente enfrentar Joshua.

[...]

Eles trocaram olhares durante todo o trajeto até a república. William e Octavio tiveram, de fato, as melhores férias de suas vidas. Lógico que teriam outras, mas essa serviu para o loiro colocar no lugar os pensamentos referentes a tudo o que aconteceu. Nate, pai de William e Sean, tinha acabava de pegar os garotos no aeroporto.

Antes de pararem em frente à república, os dois contavam a Nate tudo o que aconteceu durante a viagem.

Nate sempre teria orgulho do filho. William sempre teria orgulho do pai. Era uma relação bonita, principalmente por Nate saber da sexualidade do filho e o tratar da melhor maneira possível.

— Chegamos! — Nate disse, olhando pelo espelho retrovisor interno.

— De volta ao inferno. — Octavio soltou.

— Ah, Octavio. Não fala assim. Eu gosto daqui. — William defendeu a Quadra.

— Eu também. Mas sabemos que agora não iremos mais viver em paz. Não vai dar dez minutos e logo alguém aparece gritando.

O loiro sabia que Octavio tinha razão, portanto aceitou a afirmação do namorado.

Nate foi o primeiro a descer do carro, abrindo a mala para que os garotos pudessem retirar suas coisas.

A relação de Colin e William era mágica. Algo inexplicável. O pequeno estava na cozinha quando, de alguma forma, sentiu o cheiro ou presença do loiro. Dentro de si, uma vontade enorme de ir até a porta e verificar se o loiro chegou, acabou crescendo dentro de si. E foi isso que fez. Ao chegar lá, viu William de costas.

O pequeno correu para abraçar William, que se assustou, pois não esperava que outros soubessem da sua volta.

— Colin! — William tentava dizer enquanto era sufocado pelo abraço do pequeno.

— Que saudade. Que saudade. Que saudade. — O menor disse, três vezes ou mais. A voz ficando infantil a cada vez que repetia.

— Nos ajuda com a mala, Colin. — Octavio pediu, os ciúmes vindo à tona.

Colin saiu dos braços de William e saltou pra abraçar Octavio. Uma surpresa para os dois. Apesar de tudo, havia sentimento ali, quando os dois abaixaram as armas — de nome Sean.

— Bem que você disse, Will. — Nate comentou, referindo-se ao Colin.

— O que? — O pequeno indagou, suspeitando que falavam dele.

— Você é meu protegido. —William disse, contente.

Colin corou. Ficou constrangido demais ao ouvir aquilo.

— É mais fácil eu proteger você. — Tentou esconder o constrangimento adotando a postura de garoto rude.

— Com esse tamanho? — Nate disse em voz alta, gargalhando sozinho.

William e Octavio ficaram em silêncio enquanto Colin fuzilava Nate. O pai do loiro notou que aquela piada não foi aceita ao notar os olhos do pequeno e então silenciou.

Quando William colocou os pés dentro da república, ninguém havia notado que ele estava ali. Afinal, alguns estavam preocupados com a louca da Clara na cozinha. Mas bastou apenas uma voz, ou melhor, um rugido:

— Eu voltei!

E todos os leoninos, até aqueles que estavam nos quartos, ouviram o pai rugir. Na verdade, não era preciso ser um leonino para ouvir o rugido daquele leão. William foi recebido com gritos e abraços dos seus companheiros.

Apenas Colton não foi abraçá-lo. Sentou-se no sofá e cruzou os braços, observando todos ao redor do loiro.

— Finalmente! — Danion comentou.

— Por que não avisou que estava vindo? — Leo perguntou.

— Gente! Que gato! — Clara não conseguiu manter a língua presa. Seus olhos estavam fixos em William.

Octavio apenas olhou a loira cada vez mais aproximando-se de mansinho e quando notou o que ela ia fazer, segurou em seu braço, impedindo-a de prosseguir.

— Tem amor a vida? — Ele perguntou.

— Clara, não me mata de vergonha, garota! — Gale puxou a irmã. — Se controla!

— Ele é bonito, oras! — A loira respondeu, indignada.

— Bonito e gay. — Danion disse. — E esse aí é o namorado dele. — Completou, olhando para Octavio.

A loira não se importou.

William nunca se sentiu confortável ao falarem de sua sexualidade, porém, preferiu não falar nada.

— Agora o momento é de vocês, garotos. Melhor eu voltar. — Nate disse, já aproximando-se da porta.

— Fica! — William se virou. — Come conosco.

— Se eu fosse ele não comeria. A louca da Clara quem disse que iria cozinhar. — Danion resolveu brincar, fazendo uma piadinha sobre o que a amiga preparou. Clara mostrou o dedo do meio.

— Quem é ela? — Octavio perguntou.

— Uma amiga minha. Vai morar aqui conosco. — Danion respondeu.

— Prazer. — Clara disse, com o olhar cheio de malícia.

— Meu nome é Gale. — O loirinho respondeu.

William sorriu para os dois até notar Samuel, encostado à parede.

— E ele? — Perguntou, apontando com os olhos.

— Samuel, ele chegou hoje. É meu amigo, lá de Aroma. — Colin tratou de responder por Danion, antes que alguma piada fosse feita.

— E toda essa gente cabe na república? Ah, prazer Samuel. Sou William.

Samuel sorriu com os lábios, achando-o gentil.

— Se estivéssemos na antiga república, não teríamos metade do que temos aqui. Mas isso também significa que ninguém mais cabe aqui. Nem mesmo amigo de amigos. — Ian disse, roçando os dedos nos ombros de Connor.

Depois de toda aquela apresentação, Nate se despediu com um aperto de mão e um abraço no filho. William recebeu ajuda dos companheiros que lhe perguntaram sobre a viagem. Clara voltou pra cozinha com Gale que, evitando ser expulso da república, se ofereceu para ajudar antes que a irmã causasse algum incêndio.

Quando Colin pensou em ir pro quarto, Samuel o puxou pelo braço.

— Esse garoto. Eu lembro dele. Foi sobre eles que vocês falaram no jantar, não foi? — O loiro indagou, referindo-se ao jantar na casa de Colin com seus pais e Sean.

— Você não viu nada, você não se lembra de nada. Você não sabe de nada. Samuel, não conte nada a ninguém. — O pequeno praticamente o ameaçava com os olhos.

— Por que não? — Samuel perguntou, tentando compreender as coisas. — Sean o nome dele, não é? Eles não sabem?

— Sean era apenas meu amigo. Era!

— Não precisa mentir pra mim, Colin. — Mostrou desconfiança.

— Não estou mentindo. Você não conhece o Sean e vai conhecer, portanto vai acabar compreendendo o porquê de não falar mais com ele. Aos poucos você vai receber as informações necessárias e saber como as coisas aqui na Quadra são loucas. William e Sean são irmãos, eles se odeiam. Isso é o suficiente para você começar a saber, Samuel.

— Mas Colin. Você e aquele garoto não... —Estava prestes a concluir a frase quando Colin interrompeu.

— Não! Não existe nada entre nós dois, Samuel. — Reforçou a mentira. — Éramos amigos.

— Vou acreditar em você. — No fundo não acreditava.

— Você vai odiar Sean. E, apesar de tudo, não crie esperanças, Samuel. Não comigo, você sabe.

— Eu já o odeio desde Aroma. E pode deixar que eu não vou mais tocar naquele assunto. — O desejo que tinha pelo pequeno.

— Ótimo. — Colin tremia por dentro. Queria que Samuel estivesse acreditando em sua palavra.

Samuel não podia sequer imaginar que existia algo entre ele e o Sean.

Apesar de tê-lo visto em Aroma, aquilo foi só um momento. Fingir que não falava mais com Sean será apenas mais uma desculpa das muitas outras que usava para conseguir ter algo com o moreno.

Samuel finalmente o soltou. e Colin rumou ao quarto que antes estava. De lá iria para outro lugar que há tempos tinha planejado.

[...]

Sean tinha dirigido por trinta minutos até chegar ao local: A parte alta da cidade.

Estava sentado em um banco de pedra, ao lado duas enormes árvores com poucas folhas, pois metade delas iam sendo levadas pelo vento e outras estavam no chão. Ao seu lado direito um poste de luz retro piscava constantemente. Logo a frente, um pequeno muro impedia as pessoas de caírem. Ultrapassar aquele muro significa dar adeus à vida, já que logo abaixo, depois de muitos metros, tinham pedras rochosas.

Era um lugar iluminado, uma espécie de praça, mas que não era movimentada. Há alguns metros atrás, ficava a casa que Suzana comprou para Sean. Bem diferente da Quadra, as pessoas daqui preferiam ficar dentro de suas residências.

O moreno ouviu o som de folhas sendo pisoteadas por passos lentos. Imediatamente se virou para ver quem era. Um garoto, com 1,65m de altura, usando um moletom branco: Colin.

— Achei que não iria aparecer. — Sean disse, ainda sentado.

Colin aproximou-se mais para responder, ficando em pé, ao seu lado.

— Também achei que não. — Disse, olhando para a lua logo a frente.

Um breve silêncio teve início ali. Nenhum dos dois chegou a tomar alguma atitude.

— Por que me ligou? — Colin perguntou, quebrando o silêncio.

Sean não respondeu. O moreno também passou a olhar para a lua. Não queria dar explicações, nem sequer precisava.

— Me chamou pra isso? Pra ficar aí parado nesse lugar esquisito? — Colin olhou ao redor.

— Você nunca vai parar de reclamar de tudo? Até de uma folha que cair você vai reclamar.

E foi isso que acontecer. Uma folha caiu bem em cima do ombro de Colin, que se assustou com aquilo. Por causa disso, mostrou o dedo do meio para o moreno que sentiu vontade de retribuir, mas preferiu fechar os olhos e suspirar, cansado.

— Eu não deveria ter vindo aqui. Preferia continuar te evitando. — Colin disse, baixo. Não estava tão agressivo.

— Não implorei para que você estivesse aqui. — Disse o moreno.

— E é por isso que eu vou voltar.

Sean novamente ouviu o som de folhas sendo esmagadas. Ele rapidamente se levantou, tomou Colin pelo braço e o colocou sentado no banco de pedra. O pequeno teria indagado algo. A sua expressão deixava claro que ele odiou aquela atitude. Sean agora estava de pé, com os braços cruzados.

— Não sou um brinquedo, Sean.

— Para de ser chato, porra. Você sempre reclama de tudo. Todos os dias ouço seus gritos da república.

— Vai mesmo ficar esfregando isso na minha cara? Vai você conviver com o Colton. Ah, esqueci... Você já foi pra cama com ele, já conviveu com ele, já amou aquele desgraçado. — Não se importou em falar essas coisas.

Sean teria pensado em uma boa resposta. Mas Colin era especialista em deixar o moreno sem palavras.

— Eu não vou me desculpar. — Disse, sabendo que tinha magoado o moreno.

— Não precisa. — Foi seco. Uma chama da raiva nascia dentro de si, mas o moreno se controlava ao máximo para não explodir. Aquele era Colin, vivia jogando verdades. — Você não sente falta? — Preferiu mudar o assunto.

Colin estranhou a mudança repentina de assunto. Até hesitou ao responder, mas a curiosidade falou mais alto.

— Do que?

— Dos meus beijos.

A resposta veio imediatamente:

— Gostar dos seus beijos não significa gostar de você. E se acha que me chamou aqui e no final, iremos cair na sua cama, está muito enganado. Eu volto hoje mesmo.

Sean não iria perguntar nada já que era isso que Colin queria.

— Seu pai esteve lá. — Colin era realmente muito mal quando queria ser. E como já dito, era por isso que eles se completavam.

— Não preciso dos seus detalhes. — O moreno tomou a atitude de se sentar ao lado de Colin.

Por ser mais alto, era de se esperar que a cabeça de Colin estivesse na altura de seu ombro.

Ambos ficaram em silêncio. Olhavam para a lua, a única testemunha dos vários beijos que deram nas caladas da noite. Foi ela quem também testemunhou o primeiro beijo, cheio de raiva e desejo.

Eles lembravam bem desse dia e agora, naquele lugar que estavam, a sessão nostalgia tomou parte dos seus pensamentos.

Sean tinha as mãos repousadas no banco em que estava sentado, há poucos centímetros da mão de Colin que também estava repousada. Orgulhosos, não iriam trocar olhares.

— Você tem certeza da sua escolha? — Colin perguntou, quebrando o silêncio mais uma vez.

Sean sabia do que ele estava falando.

— Tenho meus motivos. — Foi objetivo na resposta.

— Abandonou seu futuro. E tudo isso pra quê? Porra! Desculpa, você foi um babaca. Nunca me fala nada. — Colin forçou a desviar os olhos da lua e olhar para o moreno, que permanecia olhando pra frente.

— Não confio em você. — Uma sinceridade que poderia ter doído no pequeno, mas ele aceitou.

— E é por isso que nunca daríamos certo. — Colin soube o que responder.

Palavras ficaram presas na garganta do moreno. Parecia ter ensaiado algo, mas não conseguia colocar para fora.

— Minha mãe ligou e perguntou por você. William voltou. Seu pai esteve aí. Samuel agora vai morar na Quadra. Colton... — Foi interrompido.

— Aquele garoto está na Quadra? — Sean então encontrou os olhos de Colin.

— Já deixei claro que brigamos. O que de fato não é uma mentira... É uma meia verdade. — Tornou a olhar para a lua, constrangido com o olhar do moreno.

— Ele gosta de você. — Sean falou e Colin já sabia daquilo.

— Fui pra cama com você. — Colin tinha a resposta na ponta da língua, como se já estivesse preparado para isso caso ouvisse algo relacionado ao Samuel.

— Se arrependeu? — O moreno perguntou tocando sua face, forçando-o a olhar em seus olhos.

Dessa vez conseguiu deixar o pequeno sem palavras.

Colin não iria responder aquilo. Não tinha se arrependido e, se por ventura se arrependesse, sabia que seria em um momento de raiva. Ou quando profundamente magoado. Mas estava evitando que isso acontecesse. Afinal, não há nada entre ele e Sean, ambos consideram isso.

— Sean... — Colin quase sussurrou. Ele esperava por algo. Um beijo, pra ser mais específico.

O moreno não respondeu.

Parecia que um jogo de silêncio se iniciou. Era preciso chamar a atenção com algum comentário para que respondessem. Nesse jogo quem estava vencendo, no momento, era Sean.

Colin olhou para sua mão há centímetros da mão de Sean e, com delicadeza, moveu seus dedos até repousarem sobre a mão do outro. Sean sentiu aquele toque e fechou os olhos, aprovou a atitude. Por causa de Colin, ele retirou sua mão do lugar e pusera sobre a de Colin, aquecendo-a.

O moreno se levantou e voltou a se sentar, só que dessa vez o banco estava entre suas duas pernas. Ele puxou Colin para mais próximo e disse palavras quentes em seus ouvidos, fazendo assim o pequeno se arrepiar.

Como de costumo, os beijos eram surpresas. Afinal, naquela relação quem desse o primeiro bote conquistava o território. O moreno tocou o queixo de Colin e ele imediatamente foi obrigado a olhar nos olhos de Sean, dando início ao beijo.

Eram esses beijos o sinal de paz, a bandeira branca, mesmo que durassem poucos minutos ou algumas horas embaixo de lençóis.

Colin se afastou um pouco e recuperou o fôlego que havia perdido. Mas isso durou três segundos, o moreno voltou a tomar seus lábios.

— Dorme comigo hoje. —Sean pediu, entre os beijos.

Colin negava apenas com a cabeça, ainda aos beijos com o moreno. Foi então que o pequeno percebeu onde estava. Ele imediatamente se afastou, ofegante. Olhou ao redor procurando alguém que estivesse assistindo aquilo.

— Não precisa se preocupar. Quase ninguém aparece aqui.

— Estamos a céu aberto. Qualquer um pode nos flagrar.

— Está vendo alguém? — Olhou para todos os lados. — Eu poderia facilmente transar com você aqui e ninguém iria ver. O pessoal daqui não costuma sair de suas casas.

— Ainda assim, e-eu...

Pobre Colin... Não teve tempo para argumentar. Sean puxou aquele pequeno corpo para si, beijando o seu pescoço e voltou para os seus lábios. Não mais conseguiu se desfazer daquilo, Estava novamente entregue aos beijos quentes do moreno. Por mais que sua mente dissesse não sobre ir para cama com Sean, o fogo que lhe consumia pedia para que dissesse sim.

E a lua? A testemunha.

Só que hoje, especialmente hoje, ela não era a única testemunha.

Quando se quer derrubar alguém, é necessário fazer de tudo. Um plano perfeito, provas perfeitas. Na Quadra há alguém capaz disso... Bastava apenas isso para conseguir o que queria. Porém ainda não se sabe quem ele quer derrubar. Sean? Colin? Ou os dois?

Colton estava escondido entre alguns carros filmando e fotografando tudo o que conseguia captar.

Aquele que se considera rei voltou a se reerguer.

Notas finais
Eis que a nova parte da fic tem seu início. Como já dito, preparem os corações. Há bastante coisa legal preparada para essa segunda parte, não vai ser longa, mas espero que vocês gostem de tudo o que tenho preparado. Como viram... Colton descobriu tudo. E como vocês conhecem o Colton... Desejem sorte pro Colin e pro Sean!