Notas iniciais
Não sou mais o mesmo.

Os dedos, impacientes, batucavam a mesa enquanto com os dentes mordiam a tampa da caneta. Edgar matinha os olhos fixos e os ouvidos atentos ao que o professor falava. Não prestava atenção ao que Colton dizia, era algo relacionado a segredos e polêmica. Nada absolutamente mais importava do que as palavras proferidas pelo homem de cabelos brancos.

Mandou todo o pensamento negativo possível para que o que esperava não fosse acontecer.

— Entendidos? — Indagou o homem.

Todos pareceram concordar, apesar de que a metade da turma tinham muitas perguntas.

— Mas professor, isso significa que eu posso fazer dupla com uma garota, certo? — Um loiro, no fundo da sala, perguntou. O motivo da pergunta era óbvio. O sorriso malicioso entregava mais ainda o seu objetivo.

O homem o encarou, querendo repreendê-lo pela pergunta. Mas ele apenas sorriu, pelo menos fingiu sorrir. Porém, era um sorriso sádico do tipo: “Acabei com suas esperanças.”

— Está tudo organizado. Garotas com garotas e garotos com garotos.

— E se sobrar? E se sobrar uma garota com um garoto? — Outro perguntou.

— Não vai sobrar porque eu e a turma de professores fizemos tudo certo, mas se por acaso algo der errado, montaremos dois trios. Larguem de safadeza. — Perdeu a compostura — Tudo isso serve para o aprendizado de vocês.

Edgar recolheu coragem para usar a voz.

— E se eu cair com alguém que eu não goste, por exemplo? Posso trocar? — Perguntou o loirinho, sentindo todos os olhares sobre si. A maioria pareceu aprovar a pergunta que provavelmente iam esquecer de perguntar.

— Além do objetivo da atividade, que são as pesquisas, há outro objetivo também. Como vocês já sabem, a atividade será realizada entre as turmas do mesmo curso que vocês, não importando o período. Por exemplo, você, Edgar, pode cair com alguém que já está no último período. — O loirinho concordou com a cabeça. — O interessante disso é que você deve criar laços com o seu parceiro para que assim resulte em algo na pesquisa. Não quero ninguém tornando-se egoísta.

— Mas não temos a menor chance de trocar nossos parceiros? — O loiro voltou a perguntar.

— Não, Edgar.

— Mas isso não significa que podemos trapacear, não é? Sabe... Só perguntando. — Colton ergueu a mão antes de perguntar.

— Não há como trapacear, Colton. — O homem se virou, voltando-se para as duas urnas de acrílico sobre a sua mesa. Ambas divididas por gênero — Então, quem será o primeiro?

— Eu vou. — Colton se levantou. — Que eu conheça o infeliz que vai ser meu parceiro. Estão todos aí? Tipo, todos os garotos de todas as turmas? — O homem assentiu.

Colton antes de por sua mão dentro da urna sorriu, retirou o papel dobrado e abriu ali, na frente de todos. O sorriso foi desfeito no primeiro momento ao ler em voz alta o nome:

— Quem diabos é Manson? — Indagou, mostrando o papel para todos. — Juro que se for um babaca, eu faço questão de me enfiar na mata sozinho.

Colton voltou ao seu lugar ainda resmungando palavras contra a pessoa que sequer conhecia. Tentou falar com Edgar, mas o loirinho parecia estar com os pensamentos longe dali.

— Vocês estão sendo agraciados por pelo menos saberem o nome do parceiro. Há turmas que estão em aula enquanto eu estou com vocês aqui, há quase uma hora, resolvendo esse sorteio. Vocês estão selecionando enquanto outros são selecionados. Parem de resmungar. — Defendeu o professor.

O próximo a se levantar foi uma garota que pareceu ficar feliz com o nome que retirou, em seguida mais e mais alunos foram se levantando e descobrindo quem era o parceiro. Uns resmungaram como Colton e outros, uma raridade, ficaram felizes. Edgar foi um dos últimos a se levantar e ir até o centro da sala.

Fechou os olhos antes de por a mão dentro da urna e retirar de lá o papel.

Edgar parecia estar nervoso e todos percebiam isso. Demorou quase um minuto para abrir seu papel. Voltou os olhos para a turma que esperava ele falar o nome.

— Então, Edgar? — O professor indagou.

— Por favor, me deixa tirar outro nome. — Suplicou.

— Não. Ninguém fez isso e você não seria o primeiro. Diz logo quem você tirou.

Edgar ficou em silêncio, abaixou a cabeça e temeu proferir aquele nome. O professor, impaciente, foi lá e tomou o papel de sua mão, dizendo em voz alta o nome do seu parceiro:

— Joshua McGraien.

Juntos, os alunos deixaram escapar a surpresa com um longo “uhhh”, logo passaram a murmurar entre si. O professor pediu silêncio não compreendendo os murmúrios dos alunos. Todos eles sabiam a fama que o ruivo tinha por toda a universidade.

Edgar voltou para o lugar ainda em silêncio. Insultou o destino por ter feito isso com ele.

Não demorou e todos esqueceram o que aconteceu, ouvindo os novos nomes proferidos pelos que iam a frente. No final, depois que tudo foi decidido, o professor passou sobre as mesas distribuindo uma folha de papel para que todos eles assinassem.

— Depois que assinarem, eu não quero me devolvam a folha. Ao final da aula procurem os seus parceiros e peçam para que eles assinem. E também acho melhor que expliquem o que foi feito caso eles tenham dúvidas. Depois de assinado, me procurem e resolveremos alguns detalhes.

Edgar repousou sua cabeça em seus braços e suspirou. Que azar o loiro teve.

[...]

Leonard saiu da sala de aula sorridente. Os elogios que estava recebendo serviam como combustível para seu novo projeto. Quando encontrou Danion, tratou de contar tudo ao branquelo e como era de se esperar, ele revirava os olhos achando aquele assunto tedioso.

— Você não quer seu modelo? — Leonard indagou, animado.

— Mas você já me viu nu, que graça tem?

— Dan, é nu artístico. Não vem com essa conversa safada pra cima de mim. Vamos, aceita.

— E você vai me desenhar nu e mostrar pra toda sua turma? — O branquelo parou de andar ao perguntar.

— Desde quando você tem vergonha disso? — Leonard voltou a caminhar.

— Não tenho vergonha. Mas não quero ninguém vendo meu corpo nu. Entre quatro paredes é diferente.

— Quem mais vai participar desse projeto senão você? Ninguém da república iria querer participar.

— Tem aquele amigo do Colin, o Gale e a Clara. — Danion sentiu a cabeça doer ao pronunciar o nome da Clara.

— Quero um nu masculino. — Enfatizou.

Danion por pouco não gargalhou. Cutucou a cintura de Leonard, fazendo-o se afastar.

— Safado! E ainda fala de mim. — Sorriu, quase gargalhando.

— Ai, Dan. Você não entende as coisas.

Leonard revirou os olhos e encerrou o assunto. No momento estava pensando nas pessoas que poderiam ajudá-lo em seu mais novo projeto. William não participaria, certamente. Primeiro porque Octavio não deixaria, e segundo porque não se sentiria a vontade. Se Rick ainda estivesse na república, o mulato poderia até aceitar. Caine e Colin não eram os modelos ideias para ele.

— Santiago anda comendo o Caine? — Danion fizera uma pergunta aleatória, interrompendo os pensamentos de Leonard.

Leo notou que logo à frente, ocupando uma mesa do refeitório, Santiago e Caine estavam juntos.

— Talvez. Eu falei isso pra você, esqueceu?

— Não achei que era tão sério.

Danion e Leonard caminharam até outra mesa e não pegaram a bandeja para por os alimentos. Leo se esqueceu do seu projeto, sentindo o incomodo ao ver aqueles dois juntos mais uma vez.

— Por que não pede ao Santiago? Você já o desenhou uma vez, quem sabe ele não aceita?

— Ele jamais aceitaria. E sabemos os vários motivos para isso. Ficar nu na frente de um garoto seria a sua última opção. E mesmo que ele estivesse prestes a morrer, ele não ficaria nu.

— Você não tentou. Tentou? — Danion passou a mão por entre os fios castanhos, tentando arrumar sua aparência.

— Não vou tentar. Sei que não conseguiria.

— Então vamos descobrir isso. Eu afasto o Caine e você aproveita pra perguntar.

— Mas, Dan... E-eu...

Era tarde demais. Danion já estava de pé e se afastando, caminhando em direção à mesa em que Caine estava. Leonard mandou insultos ao vento e correu tentando se aproximar.

Antes mesmo de chegar à mesa, viu quando Danion disse algo e tomou Caine pelo ombro, afastando-se dali. Pela expressão que Caine fizera, ele não gostou daquilo.

Leonard temeu se aproximar, mas usou da melhor máscara e se sentou, ocupando o lugar que antes Caine estava.

— Oi, Santiago. — Disse, um tanto cabisbaixo.

— Sabe dizer se Danion tem problemas? — Estava indignado. — Claro que tem problemas. Caralho! Ele simplesmente chegou aqui, disse que precisava conversar com o Caine e o levou a forças.

— Por que não interferiu? — A pergunta foi por impulso. Ele só notou isso depois de alguns segundos. Santiago arregalou os olhos. — Desculpa, eu não deveria ter perguntado isso.

— Que seja.

Santiago, como sempre, ficava sem palavras quando Leonard estava próximo. Se lhe perguntassem as vogais, ele certamente não saberia responder. Leo por outro lado não sabia como pedir ajuda a ele. Dessa maneira, o silêncio se instalou.

Santiago tinha os pés impacientes e procurava um ponto fixo onde pudesse deixar seus olhos focados. Leo por outro lado mantinha os olhos na bandeja sobre a mesa. Ouviram gargalhadas de uma mesa vizinha e Leonard percebeu que o outro já não estava se sentindo mais confortável com sua presença ali. Leo era um homossexual assumido e, por causa do curso que fazia, viviam a fazer piadas referentes a isso. Mas Caine também era e isso trouxe certo alivio, mandando embora os pensamentos que lhe incomodavam.

— Santiago, eu preciso te perguntar algo. — De repente, tudo o que tinha planejado fora esquecido.

— Pergunte.

— Você tem vergonha de estar comigo?

Santiago não sentiu mais o chão que estava pisando ou a cadeira que sustentava o seu corpo. Tudo ao redor ficou escuro e os olhos que o incomodavam já nem sequer faziam mais efeito. Jamais pensou que Leonard fosse capaz de lhe perguntar isso. Evitou todas as hipóteses possíveis de ter uma resposta para caso isso acontecesse.

— Sabe, eu sinto todos os olhares de algumas pessoas. Eu sou gay e sei que muitos julgam os que se aproximam de mim. Mas eu queria ouvir de você...

Santiago sentiu as palavras presas em sua garganta.

— Esquece, Santiago. — Leo sorriu, tentando disfarçar o coração quebrando-se aos poucos. — Eu estou aqui por outro motivo. Nem sei por que te perguntei isso. Eu sei que você não tem vergonha de mim. — Sorriu mais uma vez. Como um belo ator, deveria por isso em prática. — Você pode me ajudar no meu mais novo projeto?

Santiago ainda assim sentiu o estômago se contrair, embora pouco aliviado de não ter que responder aquilo. Não era exatamente vergonha de estar com Leonard, mas como alguém que tinha problemas com a sexualidade, temia os julgamentos. Não estava preparado o suficiente para isso.

— Eu estou conversando com o Caine, ele é gay e assumido. Seu irmão, Sebastian, tinha orgulho de falar que eram da mesma família. Se você me perguntasse isso há alguns há alguns meses atrás eu certamente te diria a verdade. Mas aquele garotinho vem me dizendo algumas coisas legais. Eu não tenho vergonha de você, Leo. Você era a pessoa mais próxima à mim enquanto estive nos leões.

Leonard levantou o dedo indicador para contestar a afirmação do outro, mas acabou desistindo e voltou a mão à mesa. Santiago, após dizer aquilo, abaixou a cabeça e finalmente deu a primeira garfada no pedaço de carne sobre a bandeja. As mãos ainda tremiam e a tensão permanecia instalada em seu corpo, no final, sentiu como se um peso fosse retirado de suas costas.

— Fico feliz em ouvir isso. — Foi só o que Leo disse, não conseguindo obter mais palavras.

— Que tipo de ajuda você quer? — Indagou, ainda mastigando.

— Você ainda tem aquele desenho que eu te dei? — Era difícil tentar esquecer as últimas palavras ditas por Santiago. Mas Leonard se esforçava a por em ordem os pensamentos. — É algo parecido com aquilo... Só que...

Santiago parou de mastigar e, sem notar, olhou nos olhos de Leonard não ficando sem jeito.

— Só que... — Disse, fazendo menção a última fala do menor.

— Já ouviu falar de nu artístico? — Perguntou, tentando deixar o assunto o mais natural possível.

Santiago engasgou e por pouco não derrubou a bebida que estava logo a frente.

— Com-Cof, como é que é?

— Nas últimas semanas o nu artístico vem sendo debatido em sala de aula. E poxa, a beleza de um corpo é única. Considero o corpo humano uma das maiores artes existentes. Há quem goste de moldá-lo e quem prefira-o do jeito que está. Eu, por exemplo, gosto dos seus traços e a intensidade do seu olhar é sem explicação.

As palavras deixaram Santiago sem saber o que responder. Coçou a cabeça diversas vezes e temeu estar deixando o nervosismo transparecer.

— Você sabe. Danion odeia ser fotografado ou pintado por mim. Ninguém da minha república aceitaria o pedido. Apesar de achar que Colton aceitaria, mas ele não é o modelo ideal pra isso.

— Eu vou ficar nu pra você, Leo. Cara, isso é bem... Constrangedor.

— Eu tenho tudo planejado, acredite. Eu vou te respeitar muito para que meu trabalho seja feito. Ninguém precisa saber, caso queira.

— Mas você vai expor seu trabalho em sala de aula.

— Mas a sua imagem só será divulgada com sua permissão. E bem, você nem sequer conhece os meus colegas de classe. Eu prometo não deixar fotografarem e nem darei cópia a ninguém. Até queimo depois se você quiser. — Essa última parte era mentira e ambos sabiam disso.

— Não sei, Leo. Eu não vou me sentir a vontade assim. Já tentou chamar o William? — Indagou, tentando deixar de ser alvo.

— Octavio não deixaria e o próprio William não aceitaria.

Santiago passou a não responder mais. Seria uma loucura ficar nu na frente de Leonard, o garoto por qual nutre uma paixão secreta há bastante tempo. E se por ventura não conseguisse se controlar? Deveria ser objetivo e dizer não, mas Leo suplicava e era difícil rejeitar o pedido.

Leo então desistiu, já estava vendo que Santiago não aceitaria o seu pedido.

— Ok, tudo bem. — Suspirou, cansado. — Eu tentarei procurar outra pessoa. Uma garota, talvez. Bem, vou indo, Santiago.

Não foi fácil ter que esconder o quão desapontado Leo estava, mas também não deveria ficar irritado com Santiago, afinal, quem mesmo iria querer ficar nu em sua frente senão fosse apenas para ir à cama?

O menor se colocou de pé e em seguida olhou para trás, tentando encontrar Danion por ali, mas não o encontrou.

— Ei, Leo. — Santiago chamou. — Tudo bem, eu aceito ser seu modelo.

Leonard sentou de supetão, com um sorriso de ponta a ponta.

— Sério?!

O maior apenas assentiu, voltando a devolver a atenção à bandeja e saboreando a comida.

[...]

Danion só largou Caine quando dobraram o primeiro corredor. Há bastante tempo aquele contato entre os dois deixou de existir. Na verdade, eles não trocavam mais palavras. Desde que o branquelo acordou, Caine já não tinha mais coragem de olhar para ele.

O tempo foi passando e Caine percebeu que Danion voltou a ser quem era e daquele jeito as coisas permaneceram. Aos poucos, Caine foi obrigado a ocupar seus pensamentos com outras coisas, apesar de ser difícil, afinal, quem dormia ao lado do seu quarto era Danion.

— O que pensa que está fazendo? — Caine indagou, soltando-se do branquelo.

— Só queria conversar com você. — Disse, procurando seu isqueiro no bolso. Logo se lembrou de que estava na universidade e que aquilo era proibido enquanto estivesse dentro.

— Poderia ser mais educado e não sair me arrastando.

Caine estava irritado e isso era até uma surpresa para Danion. Mas era algo que dava pra relevar se levar em consideração o modo que retirou o pequeno da mesa.

— Você diria que sim? Não. Então para de ficar resmungando aí. É engraçado, porque não é da sua natureza. — Forçou um sorriso.

— Danion, eu não tenho mais tempo para isso. — Caine ia dar meia volta.

— Por que está tão irritado? Eu não fiz nada. — Perguntou, tocando-lhe o ombro, fazendo-o permanecer ali. Realmente estava sem entender o motivo de toda aquela agressão da parte do menor.

— Não fez nada? Você simplesmente me retirou de lá. Eu estava conversando com Santiago.

— A propósito, vocês estão juntos? —Perguntou de supetão, como se não quisesse nada.

Caine fechou os olhos por alguns segundos e depois abriu, suspirando. Deveria se controlar, mas era difícil.

— Danion, você é um lixo. — Por um momento se arrependeu de ter dito isso, mas já que tinha dito, não negou.

Danion tomou um susto ao ouvir aquilo, mas não resistiu e mostrou aquele sorriso provocador que tinha. O seu melhor sorriso, para todas as ocasiões.

— Santiago não te comeu pra tá me tratando assim? — Não poderia perder a oportunidade.

— Também vale acrescentar que você é ridículo e sem noção. E isso não é da sua conta.

— Apenas estou sendo sincero com você. Você está aqui me chamando de lixo e quer que eu fique calado?

— Sinceridade? Isso não é sinceridade. Isso é algo idiota vindo de alguém idiota. — Soou infantil, mas estava tentando ofendê-lo.

Danion sorriu.

— Mas eu sou sincero com você. — Ousou falar. — Estou errado?

“Como ele pode ser tão baixo a esse ponto?” Caine se perguntou. O pequeno movia a cabeça, negando e repreendendo aquela atitude. Estava realmente achando aquilo ridículo.

— Você acha que isso é legal? Legal usar desse seu trunfo contra mim? Você é ridículo, Danion. E eu me arrependo amargamente de ter me apaixonado por você.

— Não tenho culpa. Eu não te iludi.

— Mas me deu esperanças. — Jogou as palavras.

— Te dei? — O branquelo deixou escapar, logo em seguida, um “Ra” de provocação. A sonoridade da palavra foi o suficiente para atrair olhares. — Caine, eu sempre te disse que não seria capaz de te amar.

— Eu posso sim ter me iludido. Ter sido um babaca e estúpido por no fundo acreditar que eu poderia ter alguma chance. Mas no momento em que você passou a me chamar pra sair com você, significa que passou a me dar esperanças. — Disse o pequeno.

— Isso não é um problema meu, Caine. Eu apenas queria me divertir.

— Eu era uma diversão?

Não era isso que Danion queria dizer. A má interpretação da frase foi tão absurda que os olhos de Caine se encheram de lágrimas, mas o pequeno se forçou a não derramá-las por quem não merecia.

— Eu não disse isso. Eu apenas queria me divertir naqueles dias de tédio. Eu não te usei em nenhum momento. A escolha de se deitar comigo foi inteiramente sua, lembra?

— Como se você tivesse sido obrigado! — Respondeu irado o menor.

— Não, não fui, mas nunca disse que seria mais do que aquilo. Sou sim um desgraçado e filho da puta, já fiz muita merda e continuarei fazendo. Mas você acharia certo que eu te iludisse?

— Você me iludiu! O tempo todo criticando o Sebastian, dizendo que ele não me dava liberdade quando você também não dava. Você é um hipócrita por falar dele e me fazer acreditar em uma falsa liberdade que no fundo se restringia a você.

— Agora vai dizer que eu também te prendia? — Danion ergueu os dois braços, sinal de rendimento para todo aquele drama que o menor fazia.

— Prendia sim. Me chamava pra sair dizendo que era uma forma de me libertar quando tudo o que você queria era um otário pra se divertir. — Disse.

— Quer saber? Se você acha isso por que não me esquece de vez? — Encarou Caine, os olhos claros pegou em cheio os do menor com aquela indagação.

— Estou tentando e vou conseguir. — Disse, a voz se sobressaiu mais do que esperava.

— Mesmo? Ótimo, por que pra mim não parece que você está tendo progresso. Tudo isso só me mostra o quanto você ainda pensa em mim. — Retrucou, implicante, o branquelo.

— Você me enoja. — Caine falou, perplexo.

A primeira lágrima desceu.

— Não precisa chorar. — Disse.

— Eu choro porque eu te amo, seu babaca. E dói te amar tanto. Mas eu procuro a cura pro amor e se você realmente quer o meu bem, espero que nunca mais fale comigo.

— Caine, eu só... — Danion pareceu sentir uma ponta de arrependimento.

— Olha, Danion. Eu não sei porque estou aqui. — Disse, baixinho.

Caine deu um passo para trás e em seguida se virou, pronto para voltar para Santiago. Mas Danion tocou seu ombro, novamente.

— Não me toca! — Bradou.

O branquelo apenas sentiu a face arder.

Caine olhava para mão que segundos antes tinha ido de encontro a face de Danion. Toda força acumulada foi depositada naquela região. O tapa, merecido, fez a bochecha de Danion ficar marcada. Perplexo, Danion acariciou o lugar.

— Eu te odeio! Te odeio, Danion. E eu prometo te esquecer.

— Pelo menos você consegue odiar! Ódio e amor são sentimentos paralelos, mas com a mesma intensidade.

— Foda-se! — Caine falou palavrão, surpreendendo mais uma vez. — Todos tinham razão quando diziam que você não presta. Eu achei que depois da surra você pudesse tomar um pouco de juízo, amadurecer. Mas continua o mesmo garoto mimado.

— Por quem você...

— Cala a boca! — Bradou mais uma vez, chamando a atenção de todos. — Eu não permiti que você falasse. Agora é a minha vez de falar, porque cansei. — Danion não ousou mais abrir a boca.

O branquelo jamais vira aquele olhar em Caine. De raiva, fúria. Talvez a maior raridade dos membros da república que agora liderava.

“Você não pode se deixar tomar pelo ódio, Caine.” Danion pensou, temendo que aquele garoto mudasse.

— Você, Danion, é um lixo. Do jeito que vive nunca vai ter ninguém na sua vida. Depois que tudo isso aqui acabar — disse, referindo aos anos na quadra —, quem estará pra você? Vai permanecer sozinho! Sozinho. E não há nada pior que a solidão. A sensação de ser abandonado.

Danion já sentiu isso. Porém, Caine não sabia do passado de Danion.

— Quando você foi espancado, todos se preocuparam em te ajudar. Mas e se eles não estivessem aqui? E se ninguém fosse seu amigo? Você não demonstra nenhum afeto por eles, nada. Mas eles sim. Você não seria capaz de fazer o que eles fizeram.

— Você está errado. Eu...

— Eu mandei você calar a boca! Eu não terminei de falar. — Outro brado. Danion não tinha poder para interferir. — A solidão é sua melhor amiga, Danion. E se for possível ser feliz com ela, que você seja. — As lágrimas molhavam a face do pequeno. — Eu estou feliz. Feliz por estar te falando isso e feliz por ter conhecido o Santiago. Ele tem tudo, tudo, tudo, tudo o que você não tem.

Falar do Santiago acabou por fluir dos lábios do pequeno. Ele acabou por perceber que os sentimentos se afloraram.

— Que você aprenda a amar e a valorizar aquilo que tem. — Dito a última coisa, Caine finalmente saiu dali, voltando para o refeitório.

No caminho enxugou as lágrimas que ainda persistiam em cair.

O branquelo não conseguiu se mover. Estava tão perplexo com tudo o que ouviu. Sentiu que quilos de metal fossem introduzidos em seu corpo. Sentia-se pesado. Um barco prestes a naufragar. Nunca pensou que palavras pudessem deixá-lo daquela forma. Caine parecia estar sendo tão sincero e isso impressionou o branquelo. “A solidão é sua melhor amiga.” Essa foi a frase que mais trouxe impacto aos seus pensamentos.

Danion se tornou tão pequeno.

Mas não poderia deixar a conversa acabar daquela forma. Ele apenas ouviu tudo e ficou calado sem ter a oportunidade de responder. Deveria responder Caine na mesma medida. Deveria. E era isso que iria fazer.

Olhou ao redor vendo que algumas pessoas tinham presenciado aquela cena. Ignorou os olhares e acelerou seus passos até o refeitório, encontrou Caine já na metade do caminho até a mesa onde antes estava. Correu mais um pouco e gritou por Caine, mas o pequeno o ignorou.

— Isso não vai ficar a... — Ia dizendo o branquelo.

Quando Danion tocou novamente o ombro de Caine, o pequeno se virou, furioso, a primeira bandeja que encontrou na mesa ao lado serviu como arma. Ele acertou em cheio os braços que Danion usou para se defender. Pegou outra bandeja e novamente lançou contra Danion, mas dessa vez ele desviou.

— Eu. Te. Odeio! — Gritou o mais alto que podia.

Danion ainda persistiu e impediu que Caine apanhasse outra bandeja segurando sua mão. Mas a mão livre de Caine, a que ele tinha mais força, foi capaz de agora socá-lo a ponto de ver os dentes brancos de Danion afundar-se no mar de sangue.

— Me larga, seu babaca!

Todos, absolutamente todos, presenciaram aquela cena.

Santiago foi o primeiro a ficar de pé, seguido de Leonard que estava tão horrorizado quanto Danion.

Caine voltou a caminhar e sentou-se em sua mesa, pouco se importando com o que acabara de fazer. O pequeno pegou seu garfo e faca e passou a cortar a carne e em seguida ingeri-la.

Santiago e Leo permaneceram de pé, boquiabertos.

Danion se sentiu humilhado ali na frente de todos.

Caine era um garoto frágil, mas muito corajoso e, de fato, surpreendente.

[...]

Edgar saiu da sala de aula ainda nervoso. Sabia que tinha que ir diretamente até o seu parceiro de pesquisa. Mas o pequeno tinha tanto medo de Joshua que a única coisa que queria fazer era desistir disso. Mas a atividade era necessária para sua formação.

— Para onde você vai? — Colton falou, arrumando sua mochila.

— Procurar o meu parceiro. — Disse, olhando o papel em mãos.

— Tenho um tesão pelo Joshua, mas não consigo me aproximar dele. Ele é perigoso. Se ele fosse gay, juro que o faria meu aliado. Nossa, ninguém iria conseguir nos derrubar.

— Você precisa parar de ser assim. — Edgar dobrou o papel e o colocou dentro de sua bolsa masculina de cores laranja, preto e marrom.

— Nasci assim. — Colton sorriu, irônico. — Bem, vou indo. Tenho que voltar pra república. Aquele lugar me enoja, mas o que posso fazer se dependo dele? Te vejo mais tarde?

— Eu pediria para que você esperasse. Mas como sei que não vai, reze para que eu não volte com nenhum hematoma.

Colton iria fazer alguma piadinha, mas evitou. Sorriu para Edgar e deu as costas, misturando-se aos alunos que também partiam para suas residências.

Edgar tomou o caminho contrário, dobrando alguns corredores até encontrar as salas onde os alunos de mais avançados cursos ficavam. Edgar sabia que Joshua estava por ali, mas não sabia em que sala ele estava.

Sendo tímido, não tinha coragem de entrar nessas salas, apesar de não estarem em aula, notou que alguns alunos ainda permaneciam dentro delas, conversando. As paredes eram de vidro grosso, transparente, impedindo também a saída e entrada de som.

O coração quase saiu pela boca quando de uma das salas Joshua saiu acompanhado de mais dois garotos tão altos quanto ele. Todos vestindo um jaleco branco, com o símbolo bioquímico estampado no peito.

Como sempre, as pernas travaram quando estava diante daquele garoto. Joshua apenas olhou, mas não disse nada. Edgar viu com seus próprios olhos o ruivo passar por ele sem dizer nada.

Com uma coragem que não sabe de onde encontrou, pusera força na voz.

— Joshua McGraien. — Disse, tentando parecer firme.

O ruivo e os outros dois garotos pararam para olhar Edgar, que tinha as duas mãos dentro dos bolsos — uma tentativa de esconder as mãos trêmulas.

— Eu preciso conversar com você. — Continuou. — Sobre a atividade entre as turmas.

— Você é o meu parceiro? — Joshua tinha um olhar de curiosidade, não acreditando que aquilo era verdade.

Edgar apenas assentiu.

— Eu juro que se você não quiser fazer comigo, eu posso fazer tudo sozinho, sem problemas. — Disse o pequeno, novamente entregando o quão assustado estava.

Joshua soltou um sorriso abafado e disse algo para os garotos e imediatamente eles partiram. O ruivo, vendo que os demais não estavam ali, aproximou-se de Edgar e estendeu a mão.

— Cadê o papel? — Indagou.

Edgar se atrapalhou todo quando abriu o zíper de sua bolsa e demorou mais alguns segundos para encontrar o papel para colher a assinatura de Joshua. Quando finalmente achou, sentiu um alívio por não demorar mais tempo.

Entregou o papel para Joshua e o ruivo recolheu. Tentou encontrar nos bolsos do jaleco alguma caneta, mas não tinha o objeto.

— Tem caneta aí? — Perguntou o ruivo, encarando-o.

Edgar demorou para confirmar a pergunta. Depois de quase trinta segundos, o loirinho passou a remexer em sua bolsa até encontrar a caneta. Após entregá-la, arrumou seus óculos. O ruivo caminhou até uma parede onde a fez de apoio. Sequer leu o que tinha na folha, apenas assinou.

— Você deve tá odiando, não é? — Edgar perguntou. O pequeno na verdade arriscou em tentar algum diálogo.

— Ter você como parceiro ou fazer essa atividade? — Joshua devolveu o papel. — Já fui calouro como você e fui obrigado a passar por isso.

Edgar se sentiu ofendido. Mas ir contra a ofensa com certeza seria uma má ideia. O pequeno dobrou o papel e o colocou dentro da bolsa.

Joshua encostou-se a parede, olhou para o teto e suspirou; estava cansado. Seus olhos foram de encontro aos olhos de Edgar, que inquieto e constrangido, remexeu nos óculos.

— Pode ir, garoto. Eu já assinei, não assinei?

Edgar ficou tão nervoso que até esqueceu que teria que procurar o professor e entregar os papeis assinados. Joshua também acabou esquecendo que tinha um papel para entregar ao loiro. Isso mais tarde eles resolveriam, agora era apenas esperar o dia da atividade.

[...]

Já era noite quando Caleb voltou para a sua república. Disposto a apenas entrar, pegar suas coisas e depois disso não mais sabia para onde iria. Talvez iria para algum hotel ou tentaria voltar para o Ninho, mesmo sabendo que seria difícil, afinal, sua vaga foi preenchida por outros.

Ao entrar em seu quarto viu que tudo já estava arrumado. As malas todas alinhadas no canto da parede e alguns objetos de decoração.

Tomou um susto quando a porta atrás dele se fechou. Quando olhou para saber o que tinha acontecido, viu Joshua de pé e braços cruzados, encarando-o.

— Vai mesmo me bater? — Caleb indagou, parecendo não se preocupar com isso.

— Noah me proibiu. Mas juro que minhas mãos estão coçando para fazer isso. Você tem noção do quanto ele chorou? E está chorando até agora em meu quarto. Megan está tentando confortá-lo.

— Não estava mais dando certo. — Caleb deu as costas e aproximou-se de suas malas.

— Há anos. — Seco, o ruivo permaneceu na postura.

— Eu só acreditei que seu irmão pudesse se tornar melhor. Mas nada aqui está certo. Já não quero mais ter essa fama que temos. Não gosto e se for contra isso, certamente entraremos em conflito. Sei que perderia feio uma briga contra você, então é melhor terminar e ir embora.

Ele parou e encarou Joshua, que não tinha a melhor das expressões.

— Estou no caralho desse quarto apenas para te alertar: Meu irmão te ama pra merda, mas vocês terminaram. Porém, eu quero que você fique distante dele, caso contrário, Caleb, sabemos como isso vai acabar.

— Um braço meu você já quebrou. Quer quebrar o outro? — Indagou e em seguida colocou a mochila nas costas.

Caleb era uma das poucas pessoas a não temer Joshua.

Acabou recolhendo suas malas sem receber ajuda. Entrou umas três vezes na república e só deixou de entrar quando todas as malas estavam reunidas em frente ao gramado da casa. Ele olhou ao redor e tudo que via era apenas alguns moradores do lugar, mas nem todos ali gostavam dos moradores daquela república, e bem, ele ainda era considerado um morador de lá e levaria um tempo até as pessoas se acostumarem a sua saída.

Teria escolhido a república ao lado para pedir ajuda, mas ali jamais seria aceito. Principalmente por causa de Danion.

Caleb foi tão ousado em ir até a república de Sean, bater por três vezes na porta e esperar até que fosse atendido.

Quem abriu foi um dos moradores daquela república que logo gritaram por Sean e o moreno desceu mandando um sermão para o garoto, que por pouco não saiu chorando ao encontrar os olhos negros do moreno.

Sean encontrou Caleb de costas para ele, mas o outro imediatamente se virou:

— Você gosta de status, poder e de roubar membros das outras repúblicas, certo? — Caleb indagou.

Sean o olhou, suspeitando de algo.

— Será que posso ser um... Tigre? — Sorriu.

— Acha mesmo que vou acreditar nessa encenação? — Sean encostou-se a porta.

— Não estou mentindo. Algumas coisas aconteceram e eu resolvi me tornar um tigre. Sei que você vai adorar provocar Joshua por ter retirado um deles.

— Mas eu não retirei. Você está vindo aqui por vontade própria. E porra, cara, odeio você e aquele seu pessoalzinho.

— Eu não suporto o Joshua, assim como você e quase todo mundo aqui desse lugar. — Olhou ao redor. — Não precisamos de um diálogo enorme, Sean. Sabemos que todos que entram em sua república é por interesse. Interesse de ambas as partes, de líderes para com membros e vise e versa.

Sean novamente o encarou. O moreno e tigre suspeitava de algo, mas ao olhar para trás e ver toda as malas, acabou diminuindo as suspeitas. Mas, ainda assim, era estranho demais.

— Você gosta de segredos, certo?

— Você gosta de comprar as pessoas com isso?

— Eu preciso de um lugar para ficar. Se for pra pagar com algum segredo, quem sabe?

— Se eu julgar interessante, quem sabe? — Sean sorriu, usando o mesmo tom de voz, mencionando o “quem sabe”. Aquele sorriso de quem adorou entrar nessa conversa.

Caleb não era um menino mal. Mas, de qualquer forma, comprar alguém com segredo era a sua única saída. Não queria se igualar a Noah, mas era exatamente isso que estava fazendo.

As más companhias influenciam?

[...]

Quando Colin abriu a porta do quarto viu roupas jogadas em cima da cama. Do banheiro ouviu o barulho de água caindo. Não demorou muito e Caine saiu de lá enrolado em uma toalha. Os olhos levemente vermelhos e inchados denunciando, de imediato, que estava chorando.

Caine olhou para Colin sabendo que o amigo percebeu o seu choro, mas nada disse, apenas sorriu e puxou da gaveta uma cueca, voltou ao banheiro e depois saiu de lá apenas de cueca.

— Vai sair? — Colin indagou, olhando para as roupas na cama.

Caine também olhou para as roupas e em seguida sentou-se na cadeira.

— Iria. Perdi a vontade e me arrependeria caso fizesse isso, pior, seria capaz de me perder nessa imensa cidade.

Caine realmente seria capaz de se perder. Já ouviu falar de vários lugares, porém, apenas ouviu falar. E nas vezes em que saia pra lugares distantes, Sebastian estava com ele. Caine se sentia constrangido a sair pedindo informações.

— E para onde iria? — Colin indagou, aproximando-se.

— Não sei. Extravasar, era só disso que precisava. Mas depois desse banho, acho que já extravasei. — O choro.

— Quer me contar o que aconteceu?

— Danion é sempre o problema. — Após dizer isso, Caine suspirou, relaxando os ombros na cadeira. — Eu o soquei no refeitório da universidade. E nossa, como estou constrangido pelo que fiz, mas não arrependido. E minha mão dói.

Colin sentiu seu queixo ir ao chão. Os olhos arregalados eram assustadores. Se jogassem uma bola pequena, certamente acertariam em cheio sua boca.

— Pois é, se você ficou assim, imagina todo o pessoal que presenciou isso no refeitório. Até eu me surpreendi comigo.

— E tudo isso por quê? — Colin perguntou, agora sentando-se. — Por incrível que pareça, eu tô feliz por você. Não sei se vai soar meio falso o que estou falando, mas... Danion precisava de uns tapas seus. — Colin teve reflexos de coisas que aconteceram enquanto estava com Sean. — É por essas e outras que vivo estapeando aquele desgraçado. — Disse, sem perceber o devaneio de suas palavras.

Caine então levantou sua cabeça e olhou para Colin.

— Não que seja esse o problema. E não sei porque envolvi Sean nisso. Mas pode prosseguir. — Tentou desviar o assunto, sentindo-se o idiota por lembrar do moreno.

Caine balançou a cabeça negativamente.

— E se o Danion quiser descontar o soco que dei? — Caine perguntou. — E não foi apenas um soco, bem, acabei pegando as bandejas de pessoas que não conhecia e arremessei nele. Deveria pedir desculpas a essas pessoas, pelo menos.

— No calor da emoção, ou no caso, na hora da raiva, ficamos cegos. E é incrível saber que você consegue ficar com raiva. Ufa — suspirou — me sinto mais humano. Mas você ainda não me disse o motivo disso.

Caine se levantou, caminhou até sua cama e passou a dobrar suas roupas jogadas.

— Ele primeiro me arrastou do refeitório sem falar nada, depois disso alegou estar querendo ajudar o Leo, e então discutimos. Depois me disse algumas coisas duras relacionadas aos meus sentimentos por ele e ainda resolveu se vangloriar por isso. Explodi, coloquei tudo pra fora e no final, perdi o controle.

— E o que ele fez?

— Nada. Ficou sem reação. E o que ele iria fazer? — Olhou para Colin, mas não deu chances pra o amigo responder — Se Danion fosse capaz de levantar a mão, eu juro que iria odiá-lo pra sempre. Ele já foi capaz de fazer isso, mas sei que àquele dia foi por motivos bem diferentes e não quero ninguém falando que ele batia em mim, mas agora, depois de tudo o que já aconteceu, de eu já ter deitado com ele — corou — e me declarado, mesmo que palavras não fossem necessárias para isso, eu seria capaz de odiá-lo a ponto de sair dessa república.

Caine realmente estava sério enquanto falava, e Colin estava sentindo isso através daquelas palavras.

— Você está mal com isso? — Foi só o que conseguiu perguntar.

— Pelo contrário, me sinto bem. Aliviado... Não sei explicar.

No momento em que Colin abriu a boca para falar a porta foi aberta por Edgar e logo atrás dele estava Santiago. Com um boné de beisebol e uma camisa branca. Colin olhou para Caine e em seguida para Santiago.

Mentalmente, Colin insultou Santiago. Queria ter um tempo com seu amigo, mas o outro apareceu e compreendendo a situação, achou melhor sair. Caine estava começando a ficar próximo daquele garoto e Colin não estava gostando nada disso... Ciúmes.

Caine olhou para Colin como se estivesse suplicando por um tempo a sós com Santiago, sabia que o amigo não gostou.

Colin se levantou e sorriu, fingindo estar tudo bem. Segurou na mão de Edgar e juntos saíram do quarto.

Caine olhou para Santiago e logo em seguida viu a porta atrás do moreno ser fechada. Os dois ficaram em silêncio por longos segundos. Foi então que Santiago percebeu o tempo se passando.

— Eu estava de saída, mas resolvi passar aqui antes pra saber como você está. — Perguntou, aproximando-se.

— Você vai sair?

— Os Tigres vão sair. Os Tigres, menos o líder. É aniversário do Adrian.

— Ah, sim. Mas... — Caine se levantou e foi até Santiago e retirou o boné que o outro usava. — Você fica melhor sem eles. — Caine então colocou o boné em sua própria cabeça.

Santiago o olhou, querendo repreendê-lo pela atitude. Mas achou um gesto bonito e se arrependeu pela atitude que ia tomar.

— Você está bem? —Santiago perguntou mais uma vez, evitando o assunto passado.

— Estava conversando com Colin sobre isso. Eu me sinto bem, de alguma forma estranha.

— Aquilo foi bem... Assustador. — Santiago franziu o cenho, sua afirmação soou como uma pergunta.

— Não vou conseguir mais comer naquele refeitório. — Caine então encostou sua face no peito de Santiago, que sem reação ficou com os braços jogados. O pequeno parecia uma criança que se escondia atrás da mãe quando assustado ou constrangido. — Que vergonha, Santiago. Só agora tenho noção dos olhares.

Santiago sorriu fraco e finalmente envolveu os braços no corpo pequeno de Caine.

Entre quatro paredes, Santiago mostrava seu lado mais amoroso com um garoto. Se fosse na presença de mais pessoas, ele certamente se afastaria de Caine e suas palavras seriam mais diretas.

— Já fiz coisa parecida, você sabe... — Disse, referindo-se ao que aconteceu no jogo de basquete.

— Só agora eu entendo perfeitamente o que se passou na sua mente. — Caine então se afastou. — Fico feliz que tenha se preocupado comigo.

— Você se preocupou comigo àquele dia. Entenda isso como uma troca de favores.

Caine sorriu em resposta. O celular de Santiago vibrou e ele imediatamente leu a mensagem. Era os seus parceiros de república perguntando por ele.

— Bem, tenho que ir. Pelo que parece, volto apenas pela manhã.

— Posso ir com você? — Os olhos brilharam.

— Ir comigo? — A pergunta surgiu quase de imediato. Era normal ficar assustado com uma pergunta?

— Bem, isso não seria bom pra você. — Os olhos deixaram de brilhar e ele imediatamente passou a olhar para a camisa de Santiago. — Eu sou gay assumido e você está em fase de aceitação. Não quero virar motivo de piadas.

Uma razão que foi contra qualquer argumento que Santiago achava ter.

— Não se preocupe, eu não irei ficar chateado. — Continuou, tentando deixar Santiago confortável.

— E se eu não quiser ir pra ficar aqui com você? — Outra pergunta que disse sem antes ter noção das consequências.

— Você tem certeza? William logo mais chegará. Você e ele...

Santiago suspirou e logo em seguida pareceu ter engolido alguma comida podre.

— Quem sabe um dia teremos um tempo pra passar algumas horinhas juntos, não é? — Caine perguntou, sorridente.

Santiago pareceu não estar nada feliz com isso.

— Enfim, vou indo. Até amanhã.

Como de costume, beijou a testa de Caine e logo em seguida sua bochecha.

“Te esquecer.” Isso ecoou na mente de Caine por diversas vezes antes de tomar aquela atitude.

Caine, quando sentiu que Santiago iria afastar os lábios de sua bochecha, virou imediatamente e, surpreendendo a Santiago, selou seus lábios.

Caine tinha aprendido que poderia mandar no seu coração e, agora, diante dele estava alguém com todas as qualidades que já procurou. Apesar de todas as falhas do passado, Santiago busca por mudanças. Talvez fosse bom dar uma chance para Santiago. Não era um namoro ou algo do tipo, estavam na famosa fase do “conhecer.”

Santiago afastou seus lábios dos de Caine antes mesmo de concluir aquele beijo. A boca fazendo um “O” e os olhos franzidos. A expressão de indagação chegou a incomodar Caine.

— Você disse que... — Tentou falar.

— Achei que você também quisesse... — Caine corou, constrangido e perto de se arrepender pela atitude.

— Não está fazendo isso por sentir raiva do Danion?

Parte do que Santiago tinha dito poderia ser verdade. Mas Caine estava realmente precisando provar para si mesmo que era capaz de esquecer aquele branquelo. Seu coração não tinha mais espaço para ele, apenas as lembranças permaneceriam. Danion já deixou claro tudo o que pensa ao seu respeito.

— Eu só queria provar que sou capaz. Me desculpe.

Caine deu as costas, envergonhado.

Santiago dessa vez surpreendeu, puxou Caine pela mão e o pequeno foi facilmente contra o seu corpo. Caine estremeceu e olhou para cima, encontrando os olhos de Santiago cheios de desejo.

Leo? Danion?

Nessa hora eles deixaram de existir.

Caine apenas fechou seus olhos e sentiu os lábios do outro contra o seu. Um beijo tímido, mas ainda assim cheio de vontade de ambas as partes.

[...]

Quando Danion e Leo entraram na república, viram metade dos membros na sala, poucos eram os que não estavam presentes: William, Colton, Octavio e Ian. Ambos passaram pelos colegas e apenas Leo foi capaz de cumprimentá-los. Eles não se importaram com o silêncio do branquelo, afinal, ele não era educado.

— Me deixa sozinho, Leo. — Dizia enquanto passavam pelo corredor.

— Mas eu preciso guardar minhas coisas, preciso de roupas, quero tomar banho.

— Porra, dá pra me deixar sozinho?

Danion entrou no quarto e imediatamente fechou a porta com força, deixando Leonard do outro lado.

O branquelo caminhou até o espelho e olhou o estado em que sua boca ficou. Mandou insultos para Caine e retirou sua camisa. Nunca se sentiu tão humilhado perante tanta gente e, por mais que não quisesse acreditar, estava surpreso por ter sido Caine a fazer isso. “Como um pirralho daquele seria capaz?” Pensou.

— Não vou gostar de ninguém. Me nego a gostar de alguém, porra. — Dizia, sozinho.

Mas doía. As palavras doeram... E doeram mais ainda por Caine ter dito.

— Espero que você se foda, garoto desgraçado. — Gargalhou sozinho. — Quem já se viu? Eu? Logo eu gostar de alguém? — Gargalhou mais alto ainda.

Mal sabia que no quarto ao lado Santiago e Caine estavam aos beijos.

Notas finais
Ai, eu não consegui responder todos os reviews, acabei deixando alguns pendentes, mas tentarei respondê-los no passar dos dias. Não sei se muitos sabem, mas agora, finalmente, estou trabalhando. Bate palmas, gente!! Enfim, o capítulo está aí e me perdoem o atraso, vários foram os motivos para isso. Obrigado a Magashi, linda e ao pessoa do skype que me ajudaram em algumas cenas. Beijos, gente, até o próximo capítulo e farei o possível para tentar me programar mais uma vez. Sintam orgulho do Caine.