República de Leões
27 Capítulo 27
Notas iniciais
Diferente de todas as vezes em que esteve no carro com Sean, Colin permanecia calado. Ele apenas observava a estrada. Eram três horas de viagem, em um carro com um moreno que se irritava facilmente no trânsito. Antes mesmo de sair da cidade, ouviu o moreno insultar três motoristas que não o deixavam ultrapassar. O pequeno em alguns momentos, sem que o outro percebesse, virara somente para olhá-lo. Afinal, era impossível não se prender aos olhos de Sean.
Já estavam há mais de uma hora na estrada, passando por cidades diferentes.
— Podemos fazer uma parada? Estou faminto e apertado.
Colin assentiu, cobrindo-se ainda mais com o moletom. Antes olhou para as mãos e viu as marcas que Joshua deixara.
— Não deveria ter ido lá.
— Eu precisava. Não me arrependo.
— Ele te machucou. — Sean pressionou o volante.
— Isso aqui nem se compara ao que fizeram ao Danion. Mas você não se importa mesmo, então me deixa ficar quieto.
Sean realmente não se importava com o que havia acontecido. Afinal, ele não tinha nenhuma ligação com Danion e já pensara em entregá-lo. Mas tudo isso por causa de Colin. O moreno se preocupava com a segurança do menor.
— Você preferia que eu mentisse e falasse que sinto muito por ele? Seu amigo errou, pagou pelo erro.
— Da mesma forma que você pagou quando mentiu e acabou com o relacionamento do William com Octavio. Tomou uma surra. E quem esteve lá? Eu.
— Algum deles sentiu muito? Não. Então não tenho que me importar.
Não deveriam estar discutindo.
— Ainda dá tempo de parar em alguma outra rodoviária. — Colin comentou, dando-lhe uma indireta.
Sean evitou olhar pra ele e se calou. Continuou com os olhos firmes na estrada e parou em um posto de abastecimento. Aproveitou, reabasteceu o carro e foi ao banheiro. Colin permaneceu dentro até que ele voltasse. Tudo isso durou menos de dez minutos e logo voltaram pra estrada.
Sean, mais uma vez, brigou. Parou seu carro e saiu. Colin apenas o observou indo até o carro que estava à frente. O moreno bateu no vidro e, quando o dono do outro automóvel abriu, uma chuva de insultos aconteceu. Sean apontava para o outro homem que também saiu do carro.
Colin parecia não se preocupar. Só queria chegar em sua casa e reencontrar seus pais. Uma terceira pessoa foi obrigada a interferir, fazendo o moreno voltar pro carro, soltando insultos ao ar. Colin escondeu a cabeça no capuz do moletom e o moreno deu partida, buzinando cerca de dez vezes e incomodando o rival de trânsito.
— Filho da puta, desgraçado. Se ele batesse no meu carro eu juro que derrubaria o dele em um penhasco. Existe muito motorista burro pra caralho, lerdo. Não anda e eu sou obrigado a passar horas no trânsito por conta dessas babacas? Será que eles não sabem cortar caminho?
Insultava, embora Colin não respondesse nem sequer pedia para que ele calasse a boca. Novamente se deu conta de como o pequeno estava, silenciou-se. Maldito momento em que não sabia usar palavras de conforto.
— Estou apenas seguindo as placas, se nos perdermos a culpa é inteiramente sua.
Já em duas horas de viagem, encontraram um shopping. Colin foi forçado a descer do automóvel e ajudar o moreno a comprar cuecas, camisas, calças novas e produtos de higiene pessoal. Tudo para um dia, assim esperava.
Colin deixou toda a comida em seu prato, apenas observando o moreno comer. Não sentia fome. Elegante, educado e atraente. Se Sean soubesse o quão belo era. Não somente uma beleza física, mas interior. O pequeno enxergava isso. Apesar de todos os defeitos, existia nele uma qualidade. Era um enigma, como peças de quebra cabeça. Difícil de encaixar. Impossível de decifrar. Mas Colin sabia que Sean tinha qualidades ou qualidade, no singular.
— Temos mais uma hora na estrada, tem certeza de que não vai comer?
Colin negou, finalmente desviando os olhos de toda aquela beleza.
— Sinto falta da sua voz irritadiça. — Deixou escapar com um suspiro, levantando-se.
Pegou as sacolas e Colin o acompanhou. Dentro do carro e novamente na estrada, Colin mexia no relógio que ganhara. Teria ele coragem de quebrar aquilo por ciúmes? Ou seria sua única lembrança do moreno que por algumas vezes teve o corpo unido ao seu? Apesar de tudo, acreditava que tudo entre eles era passageiro. Errados dos pés a cabeça, opostos e orgulhosos.
Sean parou em meio a um cruzamento sem saber que caminho seguir. Finalmente admitiu estar perdido. Coçou a cabeça, olhou para todos os lados tentando encontrar placas, mas nada havia.
— À direita, Sean. — Colin respondeu, retirando o capuz da cabeça.
Era questão de confiança. Aceitou o que o outro disse e seguiu o caminho sem mais delongas. Se Colin não queria papo, ficaria em silêncio. Babacas por completo. Até em silêncio eles tinham implicância.
Passado a estrada onde pouco era o movimento de carros, logo chegaram à cidade. Novos insultos, brigas e buzinas a cada minuto. Colin pôs o capuz na cabeça e fechou os olhos. O pequeno leonino dormiu em meio a toda aquela barulheira. Estava tão cansado. Cansado fisicamente e psicologicamente. Não era fácil ser membro de uma república que era atacada todos os dias.
Sean até parou de insultar quando viu a cabeça de Colin pender e repousar no próprio ombro. Foi obrigado a desacelerar o carro, pôr um som ambiente e dirigir tranquilamente.
Os lábios entreabertos de Colin enquanto dormia eram chamativos. O pequeno era realmente fofo. Tipo um gato que enquanto dorme passa a imagem de dócil, mas ao acordar mostra suas presas.
Seguiu a viagem e a cada sinal que parava olhava para Colin. Se o pequeno notasse todos os sorrisos que Sean deixava escapar, certamente teria o coração aquecido.
Sean finalmente chegou até a cidade em que Colin morava. Era diferente de onde morava. O ar mais humilde, prédios menores dos que estava acostumado a ver. Porém, era mais viva. Verde tomava conta do lugar, até as casas eram tomadas pelas plantas. Rústico, belo.
— Colin... — O moreno disse, retirando o capuz da cabeça do menor.
O pequeno ergueu a cabeça, coçando os olhos e se perguntando por quanto tempo dormiu. Parecia apenas ter piscado os olhos e chegado ali. Não dormiu nada. Ou dormiu? Odiava essa sensação.
— Estamos na famosa Aroma.
Sean o olhou, confuso.
— Abre as janelas e sente o cheiro. É bem diferente do ar que temos na Quadra. — O moreno fez isso. Inspirou e realmente notou a suavidade que o ar tinha ali. Natureza. — Minha casa fica a quatro quarteirões daqui. É logo na entrada da cidade.
— Vem cá. Seus pais, eles sabem de você?
— Não. Está com medo? — Colin perguntou, tranquilo.
— Medo? — Estava apenas nervoso. — Disse que eles teriam que me engolir.
— Já eu estou com medo. Medo de que eles não gostem de você e sua personalidade. E pelo amor de Deus, se meu pai começar a contar alguma história, presta atenção e não contraria ele. Ele odeia ser contrariado.
— Pescador?
— Ele vende doces. Não vá achando que somos ricos, Sean. Foi escolha sua me acompanhar até aqui.
Sean não disse mais nada depois do que ouviu. Seguiu as instruções de Colin.
Antes mesmo de chegar à casa do pequeno, Colin gritou, pedindo para que parasse. O moreno parou em uma esquina, onde ao lado tinha uma pequena doceria. Pequena, mas arrumada. Toda adornada em verde e marrom e cuja placa de entrada tinha escrito: “Doces do Joseph. Vovô também faz doce”.
Sean olhou aquilo um tanto horrorizado com a frase que era estranhamente impactante. Uma jogada de marketing?
O pai de Colin estava logo à frente. Tinha acabado de abrir a doceria e arrumava as prateleiras de entrada. Tinha alguns traços do pequeno, como os olhos e nariz. Até o modo como olhava para os objetos era idêntico. Joseph tinha barba e cabelos grisalhos e costumava vestir roupas acima do seu tamanho, além dos óculos maiores que a cara.
Colin saiu do carro chamando o nome do pai. Joseph olhou para trás, retirando os óculos para ter certeza do que via. Ironia, já que o objeto lhe ajudava a enxergar melhor.
— Colin? — Indagou, ainda sem acreditar. Logo, teve certeza. —Oh, Colin!
Correu ao encontro do filho, recebendo um abraço forte e carregado de amor.
Sean, que observou aquela cena, sentiu inveja. Muita inveja. A raiva quase tomou conta de si. Mas tinha que se controlar. Era Colin e seu pai. Colin teve o que ele não teve. Um pai presente cujo amor era declarado em gestos. Sean apenas aceitou.
Saiu do carro, olhou se estava aparentemente arrumado e se aproximou dos dois que se abraçavam. Joseph ainda não notara a presença do moreno, já que permanecia de olhos fechados e abraçado ao filho. Só visitou Colin duas vezes e há tempos não via o filho. Todo contato era mantido por telefone.
— Pai, onde está a mãe? — Colin perguntou, ainda abraçado ao pai.
— Anita disse que iria me ajudar a abrir a doceria, mas acabou decidindo por arrumar a casa. Hoje isso aqui vai ficar por minha conta.
— Tá complicado vender? Ou tá dando bons lucros? Nossa, que saudades do cheiro que aqui tem.
— Nessa época de ano até que tá difícil, por isso eu não fui te visitar ainda. Sua mãe por noites se preocupava contigo. Mas vem, entra, tem aqueles doces com goiabada que você ama.
Sean fingiu tossir.
Colin olhou para trás, finalmente lembrando-se daquele que estava com ele. Logo, lembrou-se de que Sean. Seu pai não sabia de sua sexualidade. O que diria?
— Pai, esse é meu colega, Sean. — Soou normal.
Joseph mais uma vez retirou os óculos, olhando Sean dos pés à cabeça.
— Não me lembro de tê-lo visto àquele dia. Mas vem também, garoto. Temos doces variados aqui, entrem e comam quantos quiserem.
Colin puxou Sean pela mão. Gesto único e que dificilmente seria repetido, embora ele nem sequer tenha notado isso, mas o moreno sim.
Sean foi criado de maneira diferente, estando sempre em lugares que a sociedade julgava ser para pessoas de classe alta, ricas. Até as docerias que visitou em algumas reuniões de sua mãe, eram extremamente maiores que essa. Ainda assim, considerava o lugar pequeno, mas organizado e belo.
Se conformou com o cupcake todo azul, deliciando-se com aquilo. Era realmente bom. Logo, Colin acabou servindo-o com alguns brigadeiros. Sabor inigualável. Nem mesmo ele que gostava de cozinhar faria um brigadeiro daquele nível, considerando a receita a mais fácil do mundo. Colin perdia-se nas jujubas que comia, até depositando algumas na boca do moreno. E claro, sempre que seu pai dava as costas.
Sean começava a perder a paciência, apesar de adorável o lugar, ele estava impaciente. Nunca foi acostumado a essas coisas de família, reencontros. O pai de Colin era legal, mas Sean sentiu que ambos não se simpatizaram. Mas quem simpatizaria com Sean, vendo-o daquela maneira? Sério como sempre foi e geralmente irritado? O velho mau humor.
Aroma era realmente um lugar bem querido. Cidade pequena, mas acolhedora. O lugar era o oposto da personalidade de Sean. Ele se sentia um alienígena ali. As pessoas eram sorridentes e viviam cumprimentando uns aos outros. Parecia uma cidade de novela, filme; perfeita. “Porra, a quadra é muito defeituosa!” Pensou o moreno. Mas ainda assim, a Quadra era o melhor lugar em que já esteve, apesar dos conflitos.
— Advinha quem tá trabalhando comigo? — Joseph perguntou, novamente sorridente. Ele reabastecia uma prateleira de bombas de chocolate.
— Decidiu contratar alguém? — Colin estava com a boca cheia de jujuba.
Sean mantinha a cara de bundão, sentado.
— Joseph, posso trazer mais bolinhos?
Colin imediatamente reconheceu o novo ajudante do seu pai. Era Samuel, o primeiro garoto que beijou. O garoto que já foi seu melhor amigo.
Assim como Colin, Samuel congelou. Ambos pareciam ter visto fantasmas, por pouco o loirinho não deixou cair os bolinhos que segurava.
Samuel era loiro, com os cabelos caídos na testa, uma franja com pontas cortadas. Olhos claros e verdes. Tinha em média seus 1,82m de altura, e músculos no lugar, mas nada que chamasse a atenção. Era consideravelmente magro.
— Colin! Quanto tempo! — Samuel pareceu se empolgar.
Colin até sorriu. Samuel não era inimigo, era seu amigo. Não mais o mesmo, mas nunca lhe fez mal algum. Pelo contrário, ele que fizera.
— Samuel! — Disse, largando as jujubas.
— Poxa, Samuel! Estragou a surpresa. Garotos, que saudades de vocês juntos. Isso me lembra muito a infância de vocês.
— Há quanto tempo você tá aqui?
— Foi logo que você foi embora. Bem, você foi embora e nem sequer se despediu. Eu fui te procurar e soube da notícia. Seu pai acabou me oferecendo o emprego, já que não tinha o filho pra ajudar.
Colin o ajudava quando podia. Mas não com muita frequência, já que Anita não aceitava isso, querendo que o filho mais se preocupasse com os estudos.
— Nossa. Seu cabelo cresceu. Lembro que você estava com a cabeça raspada.
— É, acho que o prefiro assim. — Samuel sorriu, assoprando os fios que caíam em sua testa.
— Vai, Samuel. Eu te deixo ficar conversando com ele. Mas fica de olho na loja. Preciso fazer uma entrega.
— Esqueceu que estou aqui? Sei bem como as coisas funcionam. — Colin pareceu se sentir ofendido. Até o pai ele não perdoava.
Joseph esfregou os óculos na camisa, sorriu pro filho e saiu. Seu carro estava parado em frente à loja. Não era o melhor carro, mas servia bastante.
Colin e Samuel trocaram mais algumas perguntas, até Sean mais uma vez fingir tossir.
— Seu amigo? — Samuel perguntou. Aproximando-se e sentando.
— Sim. Sean é o nome dele. Não liga não, ele tem essa cara de bundão mesmo.
Por que Colin era assim? Adorava provocar Sean de todas as formas, rebaixá-lo se possível. Até fora da Quadra. Malditos! Malditos sejam aqueles que traçaram o destino desses dois. Tão incerto.
Sean apanhou as chaves em cima da mesa. Gesto de que iria sair dali.
Colin foi tão rápido em se sentar ao seu lado e lhe chutar o pé, tentando disfarçar para que Samuel não percebesse nada. Mas o loiro não era burro e certamente notou algo ali. Ator. Samuel era estudante de teatro.
— Prazer, Sean. — Samuel estendeu a mão.
Mesmo não querendo, o moreno aceitou e ambos se cumprimentaram.
— Então, gostou do cheiro daqui?
A pergunta em si era feita para todos aqueles que visitavam a cidade. Afinal, ela realmente tinha um cheiro diferente. Em quaisquer outros lugares perguntariam: “Gostou daqui?” Mas na pequena cidade, conhecida como Aroma, essa pergunta era a mais popular.
— Enjoado... — A sinceridade em pessoa.
Samuel pareceu ficar desconfortável com a resposta. Olhou para Colin, mas o pequeno lhe mandou um olhar calmo, pedindo para que relevasse.
— Mas acho que você vai gostar, é só ficar mais alguns dias.
— Voltaremos amanhã. — Sean respondeu. — Mas eu gostei do lugar. — Forçou-se a ser simpático.
— Então, Samuel. — Colin quis tirar toda a atenção do moreno. — Me conta, como estão as coisas por aqui? Minha mãe me ligou dizendo que você está fazendo artes cênicas.
— É verdade. — Se empolgou. — Cara, é engraçado, mas sempre fico nervoso. Acredita que fiz até um comercial pra loja do seu pai? Infelizmente ele ainda não foi ao ar. Joseph pretende fazer o negócio dele crescer.
— Sério?! Poxa, ninguém me contou isso.
— Acredito que fariam uma surpresa pra você. Mas estou gostando bastante do curso. Quem sabe eu estarei aí pelo mundo? Famoso. Engraçado porque esse não é meu sonho. Você sabe que nasci pra medicina.
Samuel e Colin tentaram ir para Seattle, apenas Colin foi chamado.
— Lembre-se de me colocar na sua biografia. — Sorriu. — E continua tentando, você disse que seria meu médico.
— E do carinha que conheceu na doceria do Joseph. — Sean tentou participar da conversa. Mas seu desinteresse era notável.
Até Joseph voltar, eles permaneceram conversando sobre tudo. Samuel contou sobre o futuro dos antigos colegas de Colin e relembraram de coisas passadas. Riram até chorar. Infelizmente Sean não estava se agradando disso. Maldita hora em que se ofereceu para acompanhar o menor.
— Vou fechar pra almoço. —Joseph comentou.
— Mas o senhor nunca fecha pra almoço. — Samuel estranhou.
— Meu filho está em casa. Há um grande motivo para isso. E você tá convidado pra almoçar conosco, Samuel.
— Pai, não precisa disso tudo.
— São só duas horinhas, Colin. À tarde eu volto pra cá.
Sem conseguir ir contra a decisão do pai – a propósito, eles eram parecidos nisso –, aceitou.
Sean entrou em seu carro e Colin, felizmente, foi nele. Se o pequeno aceitasse a carona do pai, certamente iriam brigar muito durante o resto do dia. O mau humor do moreno já estava claro. Preferia ver Colin irritado com ele, preferia ter o pequeno tentando chamar sua atenção a qualquer custo, mas agora, o pequeno era a atenção dos outros e parecia não notá-lo ali.
Parados em frente à casa de Colin, Sean encarou o pequeno.
— Pode entrar, sei que não é grande e meus pais não vão te morder.
— Por favor, que não me faça passar vergonha na frente dos seus pais. Não vou saber o que responder se falarem algo como: “E as namoradas?” Tenho medo de jogar o prato na cara daquele que perguntar.
— Eu vou ficar ao seu lado.
— E não gostei daquele garoto. Me irrita e me lembra o William. Porra, por que loiros são tão irritantes?
— Samuel é meu amigo, Sean. Para de implicar. Você não o conhece bem. E assim como nós, ele também beija garotos.
— Como?! — Sean pareceu não gostar de ter ouvido aquilo.
— Isso é assunto pra outra hora. Agora vamos, quero logo abraçar minha mãe.
O pequeno saiu do carro. O moreno xingou mentalmente.
Anita já esperava na porta. Com um vestido beirando as pernas, florido. Os cabelos castanhos estavam presos. Colin largou a mochila no chão e abraçou a mãe. Forte. Muito forte. Tinha tantas saudades daquele abraço que poderia permanecer ali, com ela, durante a eternidade. Era uma mãe. O porto seguro de muitas vidas.
Joseph e Samuel estavam logo ao lado, sorridentes. Ter Colin ali era animador. O pequeno, apesar da personalidade, era a alegria da casa. Filhos.
— E esse cabelo? Colin, você tá começando a ter barba? E essa roupa? E...
— Mãe! Não é hora pra isso. Poxa.
Anita voltou a sorrir. Era natural de uma mãe, tão automático. Se ele não falasse, ela continuaria olhando cada parte do seu corpo.
Sean saiu do carro. Nunca ficou constrangido na vida, mas nesse momento, estava um tanto receoso. Tanto é que chegou como alguém que nada queria, evitando contato direto com aqueles ali presentes.
Anita olhou para Sean. Nunca tinha visto o moreno, já foi na Quadra e também não recordou dele.
Colin notou que a mãe o avaliava. “Por favor Sean, não fale merda.” Pensava. Não queria realmente causar alguma tensão ali. Anita era tão pavio curto quanto o filho.
— Não me lembro dele.
— Ele mora na república da frente. Meu colega, mãe. — Colin tentava explicar, sendo o mais direto possível.
— Mas segundo o seu amigo... William? — Colin confirmou o nome — Ele disse que a pessoa daquela república era babaca, chato, mimado...
— É verdade, mãe. Mas ele não é assim. — Defendeu, interrompendo a mãe. No fundo, concordava.
Sean já odiava o William. Depois do que ouviu, iria matá-lo assim que chegasse à Quadra.
— Me chamo Sean. — O moreno disse, sério, educadamente.
— Sou Anita, a mãe do Colin. Venham, entrem.
Ela sorriu. Ainda não tinha opinião formada sobre o moreno, mas não viu nada que pudesse impedir aquela amizade com o filho.
Samuel também foi envolvido no abraço da mulher, junto a Colin. Sean e Joseph caminhavam logo atrás.
Anita não era má, mas ela apenas gostava de conhecer todos aqueles que cercavam o seu filho. Ainda não conformada com a ideia de ele morar em repúblicas, tinha que sempre saber de tudo.
Colin, como tinha dito, sentou ao lado do moreno. Logo à frente Samuel, nas duas pontas, Anita e Joseph ficaram. Cada um tinha que se servir. Foi um almoço organizado, Sean não se sentiu constrangido. Estava realmente faminto e querendo passar boa impressão, aceitou a comida sem mais delongas.
Conversavam sobre tudo, e claro, toda atenção focada em Colin. Tantas foram as perguntas. Colin fazia o possível pra esconder os roxos em seus braços, consequência do tapa em que deu em Joshua. Mas olhos de mãe são como os de águia.
— O que foi isso, Colin?
Sean notou os olhos da mulher fixos no pequeno.
Pensou, rápido.
— Foi nos jogos.
Todos olharam para o moreno. Ele finalmente havia dito algo. O moreno prosseguiu:
— Em um dos jogos, o time inimigo estava insatisfeito com a derrota que se aproximava — tinha que inflar o ego — e em uma jogada brusca, iriam derrubar Colin, mas um dos nossos conseguiu segurá-lo a tempo de cair, o que rendeu esses roxos no braço. — Voltou a mastigar.
Eles deveriam acreditar naquela conversa, com tamanha atuação. Sean disse com naturalidade, e Colin olhou para Anita, que voltava a encará-lo com suspeita.
— Não precisa me olhar assim. — Colin disse para a mãe. — Não sou mais uma criança e foi apenas nos jogos.
— E o que aconteceu com o garoto que fez isso?
Sean limpou os lábios com o guardanapo, dando fim à sua refeição.
— Eu fui obrigado a resolver as coisas da minha maneira. — Sorriso mais falso da sua vida.
— Disse que não era preciso ter feito aquilo. — Colin entrou na atuação.
— Você bateu nele? —Joseph perguntou, um tanto conformado com o que ouviu.
— Teria batido mais, porém, sempre tem aqueles que me seguram.
“Porra, Sean!” Colin achou que o moreno estragou tudo.
— Gostei desse garoto. — Joseph, o pai, mostrou que a surra em muitos momentos é necessária. — Deveria ensinar ele a se defender. Colin precisa muito. Era sempre o Samuel que se metia nas brigas por ele.
— Joseph! — Anita olhou para o homem.
— O que foi? Todos abusam do tamanho do nosso filho. Olha o tamanho desse garoto, e sendo amigo do Colin foi mais que obrigação defendê-lo.
— Colin não vai mais voltar pra lá. Eu sabia que não deveria ter deixado meu filho ir pra alguma república.
Joseph revirou os olhos. Samuel olhava para Sean, novamente suspeitando de algo.
Daí então começou uma leve discussão sobre Colin voltar ou não. Anita resmungava de um lado, Joseph do outro e claro, Colin também se defendia, chutando a perna de Sean em alguns momentos pela ideia que ele criou. Maldito moreno.
Dado fim ao almoço, Anita serviu algumas sobremesas, eram trufas que Joseph costumava fazer. Sean estava sentado no sofá da sala, com Colin sentado ao lado de Samuel, no chão. Joseph tinha uma poltrona só pra ele e Anita estava de pé, atrapalhando o filme que os garotos assistiam.
Sean não prestava atenção em nada. A família era barulhenta, diferente da sua. Olhar Colin conversando com Samuel não era agradável, mas teria que manter a imagem de bom moço. Sem partir pra agressão ou insultos. Pobre Colin, iria ouvir muito depois.
Joseph teve de voltar para sua doceria. Deixou Samuel ficar ali, já que compreendia a amizade que seu filho tinha com ele. Anita era uma mãe coruja e encheu o filho de perguntas, aparecendo na sala a cada cinco minutos só para observá-lo. Mas a mulher foi obrigada a sair e ir ao supermercado.
Sean acabou dormindo no sofá, rendendo-se ao cansaço. A cabeça apoiada no braço e o corpo relaxado. Ele certamente não tinha a intenção de dormir. Dormiu e não percebeu.
— Vou acordá-lo e levá-lo ao meu quarto. — Comentou assim que percebeu que o outro dormia.
— Não vai me contar? — Samuel perguntou.
— O quê? — Colin perguntou, sem suspeitar de nada.
— Você e ele?
— O quê? — Ficou nervoso. — Claro que não! Ele é só meu amigo.
— Ele parece não ter gostado de mim. — Samuel soprou os fios que caíam sobre a testa.
— Ele não gosta de ninguém. Acredite. Não entendo por que ele tá sendo tão bonzinho aqui. Mas é um pé no saco, infelizmente meu colega.
— Você não está chateado comigo, não é? — Perguntou, aleatoriamente.
— Não, Samuel. O que aconteceu foi passado. Aqueles beijos não deveriam significar nada.
— Tem certeza?
— Ainda somos amigos, grandes amigos. Mas só estávamos confusos.
— Garotos, eu voltei. — Anita apareceu, assustando-os. — Oh, ele dormiu. — Falou baixo. — Coitado, a viagem deve ter sido cansativa.
Sean acordou, coçando os olhos. Todos olhavam para ele. Não gostou daquilo. Felizmente, Anita meneou a cabeça e foi até a cozinha. Samuel evitava olhar para o moreno. Por mais que Colin negasse, era nítido que eles tinham algo. Samuel conhecia Colin, e ele certamente não faria amizade com alguém como o Sean.
A tarde seguiu com filmes, doces e mais filmes. Aquela não era a típica rotina de Sean, deveria estar achando aquilo um saco, mas tudo que fazia era aceitar. De poucas palavras, só falava em momentos necessários.
— Ele é meu melhor amigo. — Samuel disse para Sean.
Esses dois estavam levando o lixo da casa. Por mais que Colin tivesse se oferecido para fazer isso, Anita deu outra responsabilidade para o filho.
— Oi? — Sean perguntou, olhando-o com suspeita, mas ainda assim com ar de superioridade.
— Ele é meu melhor amigo.
— Que bom.
— Eu sei que há algo além de amizade entre vocês. Colin é irritado e louco, além de extremamente ciumento. Mas essas são as maneiras que ele tem pra mostrar que gosta de alguém.
— Sei cuidar daquilo que escolho.
—Espero que saiba. Não confio em você.
— Eu também não gostei de você. Mas quem precisa saber, certo?
A mesma prepotência, arrogância e sinceridade. Colin tinha queda por pessoas assim. Certeza.
Sean deu as costas, voltando para casa. Samuel foi logo em seguida.
Samuel foi embora horas depois se despedindo de Colin, dessa vez com uma despedida oficial, já que quando o pequeno foi embora, não teve coragem de falar com o loiro.
O jantar foi mais tranquilo que o almoço. Sean, que sempre foi acostumado a comer sozinho, agora ouvia as histórias de Joseph e Anita. Soube que Colin teria sido o irmão caçula, já que a mulher perdeu o primeiro filho.
— Você namora, Sean? — Anita perguntou.
— Já namorei, uma vez.
— E porque não namora mais?
— Não deu certo. — Foi direto.
— Colin tem namoradas? Sei que ele só conversa essas coisas com Joseph, mas como meu marido não me conta nada. É sempre bom saber por terceiros.
— Eu não namoro, mãe. Estou fazendo tudo o que você pediu. Não vou em festas, apenas estudo.
— Posso garantir. — Sean confirmou, embora mentisse.
— Eu sei que não te vi no dia em que apareci lá, mas você me lembra alguém. Se parece com aquele líder, amigo do meu filho. William. Nossa, sempre esqueço esse nome.
Respirou fundo. Paciência. Não podia explodir, não estando na frente dos pais do pequeno.
— Não quer me ajudar a arrumar o quarto, Sean? — Colin indagou. — Temos que ver espaço pra você dormir.
— Mas eu preparei uns cobertores e travesseiros. Olha só, o sofá da sala é enorme. — Anita, a inocente.
— Mãe, você mesmo me disse que visitas devem ser tratadas como pessoas de casa. Acha mesmo que eu vou oferecer o sofá pra ele?
Anita e Colin. Mãe e filho, mas discutiam como irmãos brigando pelo mesmo brinquedo.
Joseph e Sean trocavam olhares aleatórios. O homem já estava adaptado a toda aquela discussão, embora sentisse falta disso nos dias que se passaram e sentiria nos próximos dias. No final do jantar, Anita e Colin ainda discutiam sobre onde Sean dormiria.
Insistente, puxou o moreno pelo braço, embora não percebesse que a atitude pudesse levantar suspeitas, e foi até o seu quarto. Assim que entrou, fechou a porta. Pequeno, mas extremamente estressado. Tal mãe, tal filho.
Três minutos depois alguém bate à porta.
— Abra essa porta, Colin. — Joseph, calmo, pediu.
Colin abriu, obedecendo a voz do pai.
Joseph surpreendeu por estar carregando em seu braço dois cobertores e um travesseiro. Simpático e calmo, oposto da mãe e filho, o homem entrou no quarto, caminhou até a cama de Colin e colocou o que carregava lá.
— Já dormi naquele sofá tantas vezes, não vai ser legal acordar. Iria se arrepender amargamente de ter nos visitado. Anita, quando estressada, me fazia dormir ali. E cara, meu corpo doía durante todo o resto do dia.
— Mas não tinha problema.
— Tinha sim, muitos problemas, ou melhor, ainda tem. Anita trata o Colin como um bebê, ou seja, até você conquistar a confiança dela, terá que se esforçar. Ela não confia no pessoal que o Colin conhece, não confia no local. Agora mesmo, ela está no quarto resmungando.
— É, não sou simpático.
— Um cara que é mais alto que ela, que vive quase sempre calado. Bem, realmente, é alguém que não mostra confiança. Mas você bateu em uns garotos pelo Colin. Já ganhou meu respeito.
Sean sorriu de lado. “Para de sorrir assim, seu mentiroso” Colin pensou.
— E Anita, apesar de saber que Colin tem uma bicama, se nega a deixarem dormir aqui. Colin não costuma ter muitos amigos, era apenas ele e o Samuel. Aquele garoto lá tem todo o meu respeito, por isso compramos uma bicama. Samuel era como se fosse um filho para nós, em finais de semana ele dormia aqui. — Bateu no peito, sentido orgulho.
Sean preferia não ter ouvido isso. Não simpatizou com o loiro. O loiro não simpatizou com o moreno.
— Bem, garotos, eu vou voltar e deixar vocês se resolverem aqui. É melhor eu ir lavar a louça antes que a outra comece a gritar pelo meu nome.
Joseph, quando virou, sentiu uma certa tontura, amparando-se no ombro de Sean.
— Pai! — Colin aproximou-se, preocupado.
Ele suspirou, negando qualquer suspeita.
— É o sono, cansado. Consequência do trabalho. — E sorriu, saindo do quarto logo em seguida.
Sean sabia que aquilo não era nada relacionado ao sono. Colin também sabia. Mais algo para se preocupar. Sean o olhou. Olhar que conforta e um sorriso entre dentes, firme.
Os garotos estavam tão cansados com a viagem que, embora fosse apenas oito da noite, consideravam aquilo tarde. O corpo implorava por cama, desejando entrar em um sono profundo.
Pegou suas coisas, puxou a bicama e a arrumou. Como Anita costumava sempre arrumar o quarto do filho, embora esse estivesse ausente, nada demais foi preciso ser feito.
Colin sentia saudades daquele quarto. Até do cheiro dele. Era menor que o quarto da república, mas ainda assim aconchegante. Foi naquele lugar que dormiu desde o nascimento. Sim, aquele quarto já teve três grandes transformações. Quando bebê, adolescente e agora jovem.
O pequeno foi o primeiro a se deitar em sua cama, observando o criado-mudo vazio, sem seu abajur. O moreno foi logo depois. As mãos apoiadas em seu peito, os olhos fixos no teto. Colin não fechou os olhos, apenas observou a janela. A última vez em que esteve ali, chovia.
O moreno que sempre foi acostumado a dormir em uma cama de casal, agora dormia em uma menor. Sentia-se desconfortável. Iria reclamar. Deveria. Mas ainda era educado.
Colin o observou, manteve os olhos fixos nos olhos do moreno, que permaneciam fixos no teto.
— Por que me olha? — Ele perguntou, a voz cansada.
— Estou pensando na Quadra. Will não me ligou.
— Melhor assim. — Se virou, podendo olhar o menor com facilidade.
— Não foi um dos seus que foi espancado. Você é tão insensível, Sean.
— Pelo menos não minto pra você, não te dou falsas esperanças. Você gosta dos meus defeitos, da mesma forma que gosto dos seus. Somos imperfeitos, Colin. Tão imperfeitos.
E perfeitos um para o outro.
Desconfortável, Colin ficou em silêncio. Olhava de um lado para o outro, não gostando daquele silêncio que se instalou. Dez minutos se passaram, até então ter que falar:
— Ainda estou triste. Passei todo o dia ocupando a mente tentando esquecer o que aconteceu. Mas agora, deitado aqui, lembro-me do motivo que me fez sair de lá.
Novamente o moreno não soube o que fazer e o que responder. Era péssimo nessas situações.
Colin rolou, caindo na cama abaixo. Admita, Colin; Não existiu abraço melhor que o dele. Colin encostou a face no tórax do moreno, encolhendo-se. Sean permaneceu estático, apenas deixando com que o pequeno fizesse o que quisesse.
— Odeio gostar de você. Sei que acabei caindo em um buraco negro, estou perdido, Sean. Obrigado por me acompanhar até aqui. Eu teria desabado a qualquer momento se não fosse você.
Colin, que tanto evitou, estava agora admitindo.
— No final, eu não sou o vilão que todos falam.
— Você é egoísta, chato, arrogante, prepotente, vingativo, travesso e tantas coisas, Sean.
— Tenho que ser bom em algo.
— Infelizmente você é. Mas eu sei que você se considera alguém cheio de defeitos, sem qualidades. Que só faz merda. Tá, tenho que concordar, você só pensa em si. Você tem uma maneira torta, estranha, peculiar de demonstrar carinho, cuidado. Já tive tanta inveja do Octavio por isso. Você se nega a demonstrar, Sean, mas eu vejo que, no fundo, você se importa com quem é próximo a você. Da maneira mais sincera possível.
— Prefiro continuar sendo o vilão que todos falam.
— No dia em que me bateram, eu vi o seu desespero. Sei que muita das vezes você não faz por mal. Apenas...
Sean o silenciou com o dedo. Colin não deveria prosseguir. Felizmente, o pequeno entendeu o recado. O moreno detestava quando o assunto partia pra sua vida. Preferia que falassem mal.
Naquele novo silêncio que se instalou, apenas com o som de respirações, ambos dormiram. Sem brigas, sem resistência. Apenas dormiram, um ao lado do outro. Que o sol não dê seu sinal de vida por muitas horas. Os dois precisavam de um momento assim.
Na madrugada, Colin acordou. Sean mantinha as pernas presas ao seu corpo. Com dificuldade, conseguiu sair delas sem que o moreno acordasse. Perdido na escuridão, conseguiu sair do quarto, guiando-se pelas paredes. Fui até a cozinha, bebeu água e sentou-se em uma das cadeiras, pensativo.
Que loucura. Pensou em tanta coisa que já aconteceu na Quadra. Queria manter sua linha de pensamento em relação ao Sean. Mas tudo era tão incerto. Sempre iria acreditar que era apenas um jogo de sedução. Que o moreno queria apenas algumas aventuras e nada mais que isso. Se odiava por estar gostando de alguém que não valia alguma moeda. Perderia amigos caso descobrissem. Um rival de sua república, irmão do loiro que por muitas vezes foi seu apoio. Não sabia onde havia se metido.
— Sabia que iria te encontrar aqui. — Anita apareceu.
Uma mãe sempre conhece o filho.
— Está abatido, preocupado.
Colin se assustou com a presença repentina da mãe. Mas sua expressão só fez confirmar o que ela tinha dito. Abaixou a cabeça e, quando Anita sentou-se ao seu lado, ele repousou seu corpo ao dela. Que saudades daquilo.
— O que te aflige?
— Acho que a senhora estava certa o tempo todo. A paixão é complicada.
— Acha? Eu sempre estou! — Iria se exaltar, mas então lembrou que aquele não era o momento. — Mas sim, a paixão é realmente complicada.
— Mãe, eu sei toda a sua história com meu pai. Mas, em algum momento você já pensou que não teria algum futuro com ele? É que, sei lá, sou tão inseguro quanto a isso. Sempre acho que vou ser abandonado em algum momento.
— Quem ousaria abandonar alguém como você, Colin? Você é lindo, inteligente. É estressado, mas isso tem a quem puxar. — Pareceu orgulhosa com o que disse. — Se eu fosse mais jovem e você não fosse meu filho, tenha certeza que eu investiria. Investir? É assim que vocês jovens falam.
Colin sorriu.
— Mas sim, querido. Por muitas e muitas noites, quando eu e Joseph ainda estávamos nos conhecendo, me perguntava se ele era o rapaz certo. Principalmente porque, acredite se quiser, seu pai era o maior cafajeste da cidade. Tinha namorado duas amigas minhas, eu fui a terceira. E juro que se tivesse uma quarta, a quinta não teria. Pois eu o mataria.
Até nisso eles se pareciam. Anita também surtava quando com ciúmes.
— É normal de todo jovem. A fase das descobertas, onde tudo é bom e não há consequências.
— Eu te amo. — Colin abraçou a mãe, apertado. Ela sempre conseguia compreendê-lo, confortá-lo. — Você não sabe a falta que me faz todos os dias.
Anita suspirou, aliviada. Ela precisava ouvir aquilo. Abraçou o filho, mandando embora toda a saudade. Mas, isso só duraria um dia.
— Você ainda não me contou quem é a sortuda.
Colin se afastou. “Sortuda.” Bem, não era essa a palavra certa a ser usada. O pequeno tremeu, sua respiração pesou.
— M-mãe... Eu sinto que devo te contar.
— Está com vergonha da sua mãe? Poxa, você conta pro Joseph toda sua vida amorosa e eu sou a última a saber. Vamos, Colin, me conte.
— M-mas é que... Olha, eu não sei qual será sua reação. — Procurou se acalmar. — Não sei, eu realmente não sei. Mas não conseguirei voltar pra Quadra sem te contar tudo. Você é minha confidente, embora ache que meu pai quem seja.
Anita o olhou, confusa.
— Eu sou gay, homossexual. Beijo garotos, mãe. — Ele disse, firme. Colin era corajoso. Não desgrudou por nenhum segundo seus olhos dos dela.
Já não tinha mais volta, Colin finalmente contou. Tão pequeno, mas tão corajoso. As conversas frequentes que tinha com Caine serviram de ajuda para que ele tomasse essa coragem. Caine serviu de espelho, mais uma vez, em sua vida.
— Bonito. — Anita quebrou o silêncio.
— Como?
— Ele é bonito. O garoto que veio com você. É ele, não é?
— Ah, n-não... — Colin ficou constrangido — Não! Ah, sim. Mãe! Brigue comigo, mas não fale essas coisas.
Anita sorriu. Embora estivesse um tanto confusa e assustada quanto a tudo isso, seu amor por Colin era maior que qualquer coisa já existente. Já perdeu um filho e não se atreveria a perder outro pelo simples preconceito criado pela sociedade. Sociedade essa da qual ela tem vergonha de pertencer.
— Você é meu fruto, Colin. Minha joia. Seja gay, seja hétero ou sabe-se lá o que mais existe nesse mundo. Você é meu filho.
Pequeno e emburrado, mas um tremendo chorão.
Colin novamente abraçou sua mãe.
— E é ele o garoto que vem causando toda essa confusão em mim.
— Eu tenho um bastão de beisebol embaixo da cama. Qualquer coisa é só me ligar.
Eles poderiam prosseguir com a conversa. Tantas perguntas seriam respondidas em relação à sexualidade do filho. Mas Anita sabia que isso não era certo. “Indagar pra quê? Se tais indagações não existiriam se ele fosse hétero.” Pensou a mulher. Ela realmente amava o filho e seu amor por ele não diminuiria depois disso. Era estranho, tinha que admitir. Mas nada mudou, nada mudaria. Seu amor permaneceria o mesmo.
— Tenho medo de falar ao pai.
— Não se preocupe, você não precisa. Isso será segredo nosso. Seu pai vai saber, mas antes, eu vou preparar o terreno pra você. Isso deve ser dito por você, assim como você teve coragem de dizer pra mim.
— Meu melhor amigo, lá na Quadra, me disse que a melhor coisa do mundo é ter uma família que te aceite. Hoje entendo o que ele falou.
— Caine? O garotinho da qual você sempre fala?
— Sim, ele mesmo. O irmão dele é hétero e o trata como uma criança. Acho tão bonito. Sebastian não o enxerga como uma aberração, nada. Apenas como o irmão que tem que proteger. Sabe mãe, lá na Quadra há tantos exemplos a serem seguidos.
Colin ouviu a porta ser aberta. Aquele mesmo som estridente que ele tanto odiava. Se perguntou por que Anita ainda não arrumara isso.
O moreno apareceu na cozinha, coçando os olhos. A carinha de sono, deixando-o com a imagem de um tigre bebê. Fofo, mas quando cresce se torna uma fera.
Anita olhou para o filho, piscou, sorriu. Se levantou e também sorriu para Sean.
— Eu realmente tenho que dormir. Amanhã tenho que arrumar a bagunça dessa casa.
Anita tocou o ombro de Sean antes de passar por ele.
O moreno estranhou a atitude, até olhou para trás e viu Anita desaparecer ao dobrar o corredor. Agora só ele e Colin estavam ali.
— Eu acordei, não vi você ao meu lado. — Sean tomou o lugar em que antes a mulher estava.
Colin sorriu com um suspiro.
— Estava chorando?
— Contei algumas coisas sobre a Quadra. — Enxugou o último resquício de lágrima que tinha em sua face. — Diferente de você, eu sei chorar.
— Não preciso expor minhas lágrimas.
— Sempre um grosso.
— Vamos pro quarto. — Sean estava pedindo.
Colin o olhou. Ele ainda queria permanecer por mais alguns minutos ali, pensando.
O pequeno demorou a responder. Sean foi rude o suficiente para erguê-lo do chão, colocá-lo em seus ombros e caminhar até o quarto. Colin era obrigado a não gritar, não espernear — embora estivesse tentando fazer isso de uma maneira menos agressiva e que não acordasse ninguém.
Logo quando entrou no quarto, jogou Colin na cama, trancou a porta e voltou para o lugar em que dormia.
Sean às vezes esquecia-se de como o pequeno era. Colin por pouco não chutou suas bolas. Levantou-se da cama e caminhou novamente até a porta. Se o moreno quisesse algo, deveria pedir, ser mais gentil.
Rápido e hábil, Sean se levantou também, correu e envolveu seu braço na cintura de Colin. Um suspiro.
O moreno adorava provocações, assim como Colin adorava ser provocado por ele. E vice-versa.
— Me solta. — Pediu, sua voz falhou.
O polegar do moreno acariciou a cintura pequena do outro. Sean encostou seus lábios na orelha de Colin, mordiscando a região. As pernas do menor por pouco não cederam. Era tão vulnerável aos toques do outro.
— Me solta... — Sua voz novamente falhou.
Beijos foram espalhados no pescoço nu de Colin. O menor acabou rendendo-se, cedendo mais espaço do seu pescoço para que Sean pudesse beijar. Logo, recebia mordidas. O moreno o puxou. A ereção de Sean era notável, Colin pôde sentir isso. O polegar novamente acariciou a cintura.
Sean virou o corpo de Colin, podendo encontrar seus olhos. Aquele momento era mágico. Quando eles se olhavam tudo era esquecido. Era nítida a química existente. Por segundos Colin perdia-se na imensidão negra daqueles olhos.
Colin se soltou de Sean e foi até sua cama, deitando-se nela. Recado entendido, o moreno o acompanhou. Foi somente deitar sobre o corpo do pequeno que os beijos se iniciaram. Extasiado, o pequeno fechou os olhos e deixou seus lábios e pescoço serem tomados pelos dentes do outro.
— Eu não quero fazer isso aqui... — Colin tentava dizer, sua voz baixa devido ao calor que sentia.
Sean aproximou-se do seu ouvido.
— Te respeito. — Falou.
Continuou suas mordidas e beijou Colin mais uma vez. Um último beijo. Voltou a encontrar os olhos do Colin, já abertos. O pequeno respirava forte, a temperatura era alta ali dentro. E isso foi apenas o início do que não aconteceu.
Se há um sorriso no mundo mais perfeito, para Colin, esse sorriso era o do Sean. Quando o moreno sorriu, em cumplicidade e sinceridade, o pequeno se derreteu também sorrindo. Quando piscou, uma lágrima desceu pelos cantos dos olhos. Seu emocional foi abalado.
De todas as pessoas no mundo, quem estava ali com ele era Sean. Tantos defeitos... Mas o único a fazê-lo chorar de emoção. Sorte? Talvez. Apesar das milhares de dúvidas que tinha, precisava admitir: Sean era especial, único. O único homem capaz de esquentar e acalmar aquele coração arisco.
Sean com o dedo enxugou a lágrima que descia dos olhos de Colin. Beijou sua bochecha e deitou-se ao seu lado. Uma de suas pernas envolveu a cintura de Colin, um de seus braços cobriu o tórax do menor, encontrando a sua mão e logo entrelaçando os dedos.
— Por que veio, Sean? — Colin perguntou.
— Por medo de você não mais voltar.
Admitiu. Colin não fez mais perguntas depois disso.
Naquela noite de incertezas, eles dormiram.
Colin foi o primeiro a acordar naquela manhã. Sean permanecia com o corpo preso ao seu. Fizera de tudo para não acordá-lo, e felizmente conseguiu. Saiu da cama com os pés descalços, insultando a atitude que tomou. Diferente das muitas manhãs na Quadra, ali fazia frio.
Vestiu seu moletom e saiu do quarto. Procurou pela mãe e nada de encontrá-la. Naquele horário, sabia que o pai também não estaria ali. Olhou da janela, na tentativa de encontrar Anita regando as flores, mas a mesma não se encontrava ali.
Desistindo de procurá-la e após fazer sua higiene matinal, caminhou até a cozinha, arrastando os pés pela preguiça que sentia. Se surpreendeu quando viu que tinha tudo preparado na mesa. Anita?
Geleia, manteiga, torrada, doces, bolo, frutas. Até suco e leite tinha.
— Foi você quem preparou? — Se assustou com a voz rouca de Sean.
O moreno tinha acabado de acordar. Seu rosto estava molhado, sinal de que tinha saído do banheiro há poucos segundos. O frio por pouco não foi embora devido ao calor que Colin sentiu ao ouvir aquela voz.
— É, não foi você. — Sean disse. Colin não tinha respondido. — Onde estão seus pais?
Após perguntar, o moreno tomou uma das torradas da mão de Colin.
— Te faço a mesma pergunta. Na verdade, sei que meu pai está trabalhando. Já minha mãe, não faço ideia.
Sean virou a cadeira, fazendo Colin ficar de frente para ele.
— Ainda espero você me falar do seu amigo.
— Samuel? — Colin sabia que era ele, mas ainda assim perguntou.
— O garoto que beija garotos.
— Exatamente. Samuel foi o primeiro garoto que eu beijei. Sabe...
O moreno voltou a posição inicial. Preferia não ter perguntado nada.
— Ele gosta de mim.
— Cala a boca.
— Ele gosta de mim, mas não é recíproco, Sean. — Quis justificar. —E não adianta ficar com essa cara, porque não vou excluir o Samuel do meu ciclo de amizade por sua causa. Eu sei o quanto ele é importante na minha vida.
— Namora com ele.
— Ciúmes? Que seja. Não preciso te explicar nada, e se você não acredita, problema seu.
— Depois me chama de grosso.
O moreno se levantou. A manhã mal teve início e lá estavam eles, discutindo mais uma vez. Sean caminhou sozinho até a sala, mas o pequeno o acompanhou.
— Assim como você, eu odeio que me deixem falando sozinho. E pare de agir assim.
— Me dê uma caneta ou relógio e te mostro realmente como eu deveria reagir.
— Sean, para! — Colin quase gritou.
Silêncio. O moreno se sentou no sofá, Colin também. Ambos olhavam para frente. Deveriam se encarar, mas o que fazer quando esses dois são orgulhosos, encrenqueiros e problemáticos?
Como era de se esperar, Colin tomou a atitude de tocar o seu dedo, pegando em sua mão. Sean ainda assim não o encarava. Encostou sua cabeça ao ombro do moreno e daquela maneira ficou. Não eram namorados, mas agiam como tal.
— Temos a casa só pra nós? — A principio, parecia uma simples pergunta.
Colin se levantou e correu. Sean foi atrás, prendendo o pequeno na parede. Esperto, Colin chutou em cheio entre as duas pernas do moreno, fazendo-o cair no chão.
— Tarado! Estamos na casa dos meus pais e... Ontem...
— Eu só queria te assustar, anão do caralho. — Ainda se contorcia, tendo dificuldade para caminhar até o sofá.
A noite tinha ido embora e toda aquela cena fofa vivida por eles pareceu não existir. Era rotina. Eles tinham que brigar de alguma forma.
Anita tinha aparecido de repente, assustando os garotos. Sean permanecia o mesmo, com a mesma cara de dor, só que dessa vez seus insultos eram por pensamentos. A mulher deixou escapar um sorriso e rumou a cozinha.
— Mãe, preciso voltar.
Imediatamente parou de caminhar.
— Mas você não aproveitou nada.
— Eu aproveitei o máximo, mãe. Não voltei por causa da cidade, mas sim por você e papai.
— Não pode ir depois do almoço?
— Infelizmente não.
— Iremos voltar pra outro almoço. — Sean estava melhor. — Isso se eu estiver vivo daqui pra lá, já que seu filho adora me bater.
Anita chorou. Coração de mãe é tão sensível. Colin a abraçou, permanecendo naquele abraço por minutos. O moreno tomou a atitude de ir até o Quarto e começar a arrumar suas coisas que estavam ali.
O pequeno apareceu no quarto dez minutos depois, também recolhendo o que era seu.
Na despedida, Anita novamente chorou, enchendo o filho de beijos. Sean, educado, estendeu-lhe a mão. A mulher, negou. Anita na verdade o puxou para um abraço, também enchendo-o de beijos. O moreno achou a atitude estranha, era carinho demais para ele.
Entrou no carro e deixou Colin mais alguns minutos com a mãe, até finalmente saírem dali. Passou onde o pai estava e se despediu do homem.
Na estrada, Sean estava mais calmo. Talvez, Aroma, tenha realmente impactado aquele coração duro de alguma forma. Sorriso, o segundo maior charme do Sean. Colin perderia horas e horas só observando aquele sorriso do garoto que dirigia.
Ao sair da cidade, Colin olhou para trás, vendo o lugar que cresceu cada vez mais longe. Seus olhos voltaram aos de Sean, que estavam fixos na estrada.
O mesmo sorriso.
No caminho não retirou da mente o gesto de Sean, de enxugar a lágrima dos seus olhos. “Porque tive medo de você não mais voltar.” Sean tinha suas façanhas, era uma caixinha de surpresas quando queria. Deveria tomar o conselho de sua mãe e arriscar. Tinha noção da sua loucura, afinal, Sean era tão louco quanto ele.
— Para o carro! — Quase uma hora depois de ter saído ele pediu.
Sean o olhou assustado, estacionou o carro um pouco mais a frente.
Não esperou ser atacado por Colin, que avançou sobre o moreno com um beijo quente e carregado de prazer. Embora com a atitude repentina, Sean adorou aquilo. Deitou seu banco enquanto Colin montava sobre seu corpo.
— Tem certeza? — O moreno perguntou, tentando interromper os beijos, mas o pequeno não deixava.
Colin apenas confirmava em silêncio, começando a retirar sua camisa.
Vamos, garotos, aproveitem. Ainda há muito tempo de voltar pra Quadra.
[...]
— Feito? — Um homem barbudo indagou.
— Feito. — Joshua confirmou.
[...]
Caine estava sentado, com as pernas encolhidas e a cabeça apoiada no joelho. Dessa vez não estava dopado. Encarava os pássaros voando no belo céu que servia como um canal de televisão para sua janela.
— Venha, Caine...
— Não precisa... — Disse para Lydia. — Eu não preciso mais desses remédios, por favor, me deixe sozinho. — Pediu.
— Mas, mas...
— Eu sei o que aconteceu, Lydia. Preciso ver o Danion.
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