República de Leões
9 Capítulo 09
Notas iniciais
Castanho no Negro. Qual seria o resultado dessa mistura? Nada era certo. Mas esse ódio que ambos transpiravam conseguiria atingir os que estivessem por ali. Nenhum dos dois daria o braço a torcer. Ficariam ali se encarando esperando algum tipo de reação e então partiriam para a agressão.
— Colin? — Foi a voz de Caine que cortou aquela corda, fazendo o pequeno e o moreno caírem e acordarem pra realidade.
Sean foi o primeiro a sair da defesa, partindo então pro ataque verbal. Embora nesse quesito soubesse ser inferior ao Colin. Enquanto um atacava com palavras o outro atacava com a força física. Renderia uma boa luta. Psicológica e corpo a corpo.
— Vai lá, babaca. Seu amigo chegou. — Disse o moreno, afastando-se da porta e caminhando novamente para a área das fotografias.
— Melhor do que ficar com você. Espero que seja feliz sozinho aqui. Afinal, sem Octavio você não tem ninguém. — Tocou a alma.
Sean deu um passo à frente, dessa fez estava com certeza de que iria bater em Colin.
— Sean! — Sebastian interveio. — Será que eu não posso me ausentar por alguns minutos que você já tá se metendo em confusão?
— Não fui eu quem começou. Esse garoto atrevido aí fala o que não deve. — Apontou para Colin. — Merece uma surra para aprender a controlar a língua.
— Não quero nenhum tipo de agressão aqui dentro. Se quiserem brigar, que resolvam lá fora.
— Seb! — Caine o repreendeu. — Você tá incentivando Sean a bater em Colin?
— Não foi isso que eu quis dizer. Até porque eu não deixaria que isso acontecesse. Agora suba com o garoto e me deixe a sós com o Sean. A propósito. Teremos uma conversa mais tarde, Caine. — O ruivo disse.
— Séria? — Caine perguntou, engolindo o seco.
— Até demais. —Ele disse, franzindo o cenho e desviando o olhar do irmão. — Agora saia daqui.
Caine não conseguia entender o real motivo disso. Mas se fosse pra receber alguma bronca, com certeza iria aceitar. O irmão geralmente tinha os melhores conselhos que ele já recebera.
Colin e Caine foram para o quarto. Sean e Sebastian continuaram na sala. Enquanto a conversa no quarto era engraçada, a outra, ao contrário, era séria. O moreno ficou até com medo de ser acusado, já que geralmente era ele sempre o alvo de quando algo ruim acontecia na Quadra Nove.
Depois disso, Sean e Colin não trocaram mais farpas. Bom, isso durou por dois dias. Já que no dia anterior a troca de farpas que eles tiveram na universidade, os pais do pequeno foram visitá-lo. Conheceram William e logo pegaram simpatia pelo loiro. Não gostaram muito de Danion, o que era de se esperar. A mãe de Colin foi, por horas, a melhor amiga de Rick. Depois de tantos anos, o garoto deixou alguém abusar de suas panelas. Juntos prepararam o almoço e logo mais tarde um lanche. O pai de Colin conversou por bastante tempo com Ian, ambos eram bons de conversa. Gaspar ficou com Colin e Leo, indo e voltando do supermercado trazendo todo o material que era necessário pras várias receitas que os cozinheiros da casa fizeram. Tivera um dia bom e sossegado. William teve de se despedir mais cedo, já que tinha aula no período da tarde, depois Rick, que foi à universidade com o coração quebrado em saber que iria deixar sua parceira. Final de tarde foi o horário em que os pais de Colin decidiram ir embora.
— Você tem bons amigos, meu filho. — A mãe de Colin disse.
— Eles são legais, mãe, eu te falei.
— Mas e as garotas? — O pai, encostado à porta do táxi, perguntou. — Tem muitos garotos nessa república.
— Essa não é uma república mista, pai. Mas essa sim. — O pequeno apontou para a república de Sebastian. — Tem bastantes garotas nela.
— Repúblicas vizinhas? Ai meu deus. Mais um motivo pra me preocupar. Por favor, Colin, não vá se relacionar com ninguém. Você precisa se preocupar com os estudos.
— Já sei disso, mãe. E pode ficar tranquila.
— Certo. Precisamos ir. Em algum feriado aparecemos aqui pra te visitar. — O pai de Colin dizia enquanto bagunçava o cabelo do filho, entrando no carro logo em seguida.
Da janela, quem acompanhou aquele momento de despedidas, foi Sean.
Colin estava na universidade. Caine e ele conversavam novamente sobre a tal festa e quem seria a pessoa responsável por repassar as drogas. Eles caminhavam pelo corredor indo em direção ao refeitório da universidade. Não estavam com disposição de ir até a lanchonete e comer algo por lá.
Entre os dois, repousando a mão sobre ambos os ombros, posicionando-se exatamente no meio deles, estava Danion, que apareceu logo em seguida, beijando, por brincadeira, o rosto de Colin. Aquilo, certamente, foi pra provocar Caine.
— O que as princesas fazem por aqui?
— Eu quem te pergunto. Não percebe que grande maioria dos que estão aqui são estudantes de arquitetura?
Danion deu de ombros, fazendo-se de desentendido.
— Me bateu saudades. Certo. Isso é mentira. — Confessou, sorrindo ironicamente. — A verdade é que eu iria chamá-los para irmos à lanchonete.
Caine e Colin trocaram olhares de reprovação, deixando Danion curioso quanto àquela atitude dos garotos.
— Então? — Danion apertou os ombros dos garotos.
— Eu não vou. — Colin disse.
— Eu vou. — Caine disse, imediatamente.
— Caine? — Colin indagou, parando de andar no exato momento.
— A lanchonete não fica tão longe e pra falar a verdade, até que fiquei com vontade de comer meu hambúrguer preferido. — Falava sem graça. As bochechas logo ficariam vermelhas como maçã.
— Há minutos atrás você disse...
— Colin, você vem, eu sei. — Caine o puxou, dando meia volta.
Danion os seguiu. Não deram cinco passos antes de Colin bater o pé e parar.
— Eu não vou.
— Colin! — Dessa vez quem o chamou com atenção foi Caine.
Danion já estava cansando de tudo aquilo. Para ele os dois garotos pareciam um casal de namorados indecisos. Uma hora decidiam fazer algo, no mesmo instante, mudavam tudo.
— Eu não tô com vontade de ir à lanchonete. Sério. Prefiro comer no refeitório. E eu sei o motivo de você mudar de ideia assim tão de repente.
— Não sabe. — Caine disse de imediato.
— Vocês tão parecendo dois idiotas. — Danion interviu. — Se Colin não vem, você vai comigo, certo, Caine? — Seus olhos disseram tudo.
Caine olhou para Colin e viu que o amigo não mudaria de ideia. Afinal, era Colin, difícil de mudar de opinião e pavio curto. Se continuasse insistindo para que ele fosse, com certeza, iriam ter sua primeira briga. E como pacífico, Caine não queria nada disso.
— Você não vai ficar com raiva se eu for, certo? — Foi só o que ele perguntou.
— Não. — Mentiu.
— Tudo bem. Eu vou comer na lanchonete, então nos vemos na sala de aula. — Caine falou enquanto já caminhava com Danion o seguindo.
Colin não conseguia entender o porquê de Caine ser tão idiota perto de Danion. O branquelo só o maltratava, fazia dele um escravo e mesmo assim ele estava ali para obedecê-lo. Teve que aceitar que quando uma pessoa ama começa a ficar cega. Sua mãe sempre lhe dissera isso.
Caine e Danion já estavam sentados esperando seus pedidos na lanchonete. O menor entre eles, perto do branquelo, costumava ficar sem saber o que conversar. Ficava sem graça, apenas sentindo seu coração bater e pulsar a cada olhar perdido que tinha com o outro.
O real motivo de o pequeno aceitar o convite era o fato de aquela ser a primeira vez que Danion o chama para lancharem. Apesar de que no momento ele estava com Colin, mas isso de qualquer maneira não influenciou. Tudo que Caine desejava era passar uns minutos ao lado daquele garoto pelo qual nutria um amor não correspondido.
— Cigarros? — Danion pediu, levantando uma sobrancelha e batendo os dedos na mesa.
— Mas é proibido fumar aqui. — Caine advertiu.
— Eu sei. Mas quero ter a certeza de que você já tem alguns para mim.
— Sim. Você os quer agora?
— Não precisa. Os pegarei quando estivermos voltando. E então, a festa foi legal, não?
Assunto forçado em busca de diálogo.
— Sim, f-foi. — O pequeno gaguejou temendo o que pudesse ouvir depois daquilo. Afinal, não recordava de muita coisa.
—Eu te vi dançando. Você dança muito bem. Apesar de só se soltar de verdade horas depois.
— Eu nunca fui de dançar em público. Colin me forçou a dançar, na verdade.
— Sério? Mas como eu disse, até que você dança bem. Você não se lembra?
— Me lembro? — O seu coração parou.
— Brincadeira. — Danion gargalhou. — Nem eu me lembro do que fiz na noite passada.
— Mas eu lembro muito bem do que você fez. — A voz de Leo surgiu no meio do diálogo.
Caine não queria que alguém interrompesse aquele momento, principalmente Leo. O pequeno até hoje acreditava que o branquelo e ele tinham algo que escondiam de todos. Logo quando a conversa estava criando algum rumo. Suas chances de passar um tempo a sós com o branquelo foram por água abaixo.
O branquelo e o irmão do ruivo trocaram olhares rápidos. Caine deixou claro seu desânimo, não conseguiu esconder, embora tentasse de todas as formas sorrir. Danion soube fingir, ao contrário do outro.
— O que faz aqui, Leo? — Danion indagou, um pouco rude.
— O mesmo que vocês. Lanchando, não é isso?
— Desistiu do refeitório?
— Refeitório? Que refeitório? Eu quase nunca como lá. O que é, hein? Você quer que eu vá embora?
Danion não percebeu. Mas acabara confundido Leo com Colin. Acabara também percebendo o quão incomodado ficou com o fato de o amigo interromper o diálogo entre ele e Caine. Respirou fundo tentando controlar seus ânimos.
— Tá tendo um péssimo dia e vem descontar em mim.
O branquelo gargalhou deixando Caine e Leo confusos.
— Estou brincando, seu idiota. Só quis testá-lo. Até parece que você não me conhece. Eu te procurei nas áreas de artes e não te encontrei.
Certo. Aquilo foi muito estranho. Caine não conseguiu acreditar em tamanha atuação. Olhou para o branquelo sem ter medo de mandar-lhe um olhar confuso, procurando entender o que se passava. Certamente era mais um jogo de provocações, querendo fazer o pequeno acreditar que ele não gostou da presença do amigo ali. Leo demorou a acreditar, porém, logo cedeu.
William saía da sala de aula pronto para voltar pra casa. Sabia que o Rick teria feito almoço e sem sombras de dúvidas nada se comparava à refeição do seu companheiro de república. Aproveitaria também para economizar, já que sentiu as coisas apertarem no último mês para ele.
— William. — Octavio o chamava. — William, espera.
O loiro parou, tentando procurar entre a multidão, o grande e forte amante do passado.
— Saiu a lista dos hospitais onde faremos estágios. — O moreno parou, exausto, em sua frente. Estendeu a mão mostrando-lhe o papel. — Estaremos trabalhando, ou melhor, estagiando no mesmo.
— Estaremos? — Procurou não mostrar felicidade. Contudo, sentiu a animação em seu interior.
— Eu não sei se você está feliz com isso, mas eu estou. Será um prazer tomar conhecimentos e aprender mais contigo.
— Mas no hospital tomaremos conta de casos diferentes, Octavio.
— De qualquer maneira, eu sei que ainda vou ter dúvidas, e nada melhor do que você pra me ajudar.
— Pode ser. — Novamente a frieza. — Só isso?
— Ei, William. Eu ainda não me desculpei pelo ocorrido do seu quarto.
— Aquilo já passou, Octavio.
— De qualquer maneira, foi rude tentar tocar na sua ferida. Eu prometo não fazer mais isso.
— Você quase nunca cumpre essa promessa. Mas eu aceito as suas desculpas. — O loiro voltou a caminhar.
— Onde você está indo?
— Para casa, comer.
— Não vai assistir às aulas depois?
— Nossas repúblicas não são tão longe daqui. Tenho tempo pra voltar.
O diálogo teve seu fim. O moreno sendo pisado pela saudade e o loiro pelo orgulho.
Colin, sozinho, comeu no refeitório da universidade. Não foi tão chato como ele pensava. Até porque presenciou uma confusão entre garotos de cursos diferentes que brigaram pelo direito de uma sala, onde pudessem realizar estudos, projetos e reuniões. Foi uma briga interessante, sem agressão física, apenas com troca de argumentos cabíveis para quem teria mais direito.
Depois de pôr sua bandeja no lugar e sair do refeitório, o pequeno resolveu ir ao banheiro. Tinha trinta minutos livres antes das aulas se iniciarem.
Era incrível. Cerca de dez ou mais banheiros na universidade e, mesmo assim, o destino se atrevia a colocar rivais declarados dentro de um mesmo espaço. Logo quando o pequeno entrou, um outro garoto acabara de sair, deixando o dono dos olhos caramelos e Sean a sós.
Como bom provocador, o moreno não demorou a se pronunciar.
— Vou achar que você tá me seguindo, que tá querendo algo comigo. — Disse, lavando as mãos na pia.
— A universidade é grande e acredite, tem pessoas mais interessantes que você. — Rebateu mesmo sem perceber que sua frase soara um tanto estranha e homoafetiva.
— Alguém mais interessante que eu? Por favor, anão. Nos últimos anos eu fui eleito o garoto do sorriso mais belo aqui da universidade. Como também considerado um dos dez mais gatos.
— Vale lembrar que você saiu em sexto. William saiu em terceiro e Sebastian em primeiro. Tô por dentro dessas notícias. — Sorriu ironicamente. — E do que vale isso? Você deveria ser igual ao seu irmão e não se importar com tais rótulos.
O pequeno Colin entrou em uma das cabines, notou que perdeu tempo ali fora encarando o moreno.
—Você se acha esperto demais, Colin. Sempre procurando me atingir usando dessas palavras como se fosse alguém certinho demais.
— É aí que você se engana, Sean. Você quem se acha o esperto demais. É necessário dizer verdades para que você note o quão burro é. Abusa dessa postura forte, da autoridade, do título de líder só para conseguir o que quer. Isso, na minha concepção, é idiotice, além de autoridade passageira.
Um minuto de silêncio após essas palavras. O moreno novamente se viu perdido e sem saber o que responder. Fechou seus punhos, mas conseguiu manter a calma, vendo o pequeno sair da cabine e caminhar até pia, levando as mãos molhadas aos cabelos, arrumando-os.
— Um dia, acredite, você vai se arrepender de tentar me desafiar.
— Estou morrendo de medo. — Disse, olhando para sua imagem no espelho.
— Você é igualzinho a mim. — Sean falou, sorridente.
— Sou? — Gargalhou. — Não mesmo.
— Vejamos. Você usa das palavras para se defender. Eu uso da autoridade que tenho. Somos iguais interiormente, Colin. Sabemos que fora do alcance de pessoas nos tornamos o contrário daquilo que tentamos ser só para impressionar os outros.
Dessa vez, o silêncio foi de Colin.
— Era só isso. —O moreno disse, saindo do banheiro e novamente deixando Colin sozinho.
Colin sentiu-se esmagado pelo peso das palavras. Um dia da caça, outro do caçador. Foi exatamente assim que se sentiu. Quem tanto usou das palavras para atacar, estava sendo atingido por elas também. E o pior, vindas de alguém a quem declarara ódio eterno.
Saiu do banheiro ainda pensando no que ouvira. Quis entender como Sean fora inteligente o suficiente para dizer tais palavras e acertar em cheio a sua teoria. Colin acreditava que todos tinham problemas interiormente, e a postura era apenas uma forma de ser forte o suficiente sem demonstrar infelicidade. Não que fossem infelizes ou sofredores, mas aquilo que você transmite por fora é criado por influências de alguém ou de alguns fatos.
Colin lembrou-se de sua infância e o quão difícil fora. Lembrou-se de William e a história que descobrira sobre ele. Lembrou até mesmo do moreno que minutos atrás o atingiu. De Octavio que tinha milhões de motivos para ser um mau caráter e, mesmo assim, procurava mostrar a imagem de alguém realmente gentil com as pessoas.
Cada um esconde um verdadeiro eu que não quer mostrar.
Era noite. Horário na qual a maioria dos universitários da Quadra Nove resolvia não estudar, somente alguns, esses odiavam o horário, já que eram de cursos não tão comentados.
Sean observava sua república rival da janela. Conseguiu ouvir gargalhadas de lá, as luzes acesas, viu Rick passar pela janela da sala, logo em seguida Colin. Notou que o pessoal estava animado, diferente dos da sua república, que dormiam ou assistiam TV.
— Desde que você chegou está aí nessa janela. Trouxe algo pra você comer. São sanduíches, eu mesmo fiz. — Octavio entrou no quarto.
— Não estou com fome.
— Não te perguntei isso. Você vai comer e fim.
Octavio colocou a bandeja em cima da cama do moreno e caminhou em sua direção.
— O que foi dessa vez? — Indagou, cruzando os braços e olhando a república à frente.
— Nada demais. Só tô pensando em algo.
— Em algo ou em alguém? Ou no que fazer pra irritar William?
— Nos três.
— Põe pra fora.
— O que? — Sean saiu da janela voltando para a cama, ignorou o sanduíche e apenas bebeu o suco.
— O que você tá pensando. Eu te conheço, e geralmente, esse olhar é de preocupação. Fomos criados juntos, Sean. Não adianta tentar me esconder alguma coisa.
— Mas eu não estou te escondendo algo. Só acho que não preciso sair contando tudo. Até porque você vive desaprovando tudo que penso em fazer.
— Quando o negócio é atingir William ou a república à frente, claro que desaprovo.
— Está vendo aí? Você sempre ficará dividido entre nós dois...
— Eu não quero conversar sobre isso, Sean. — Octavio odiava tal assunto. — E não é sobre mim que estamos falando.
— Certo. — O moreno disse, bebendo o suco e voltando para a janela. — Agora posso ficar sozinho? Meu dia não foi legal e aquele idiota do Colin mais uma vez se meteu no meu caminho.
— Então é nele que você está pensando? — Octavio indagou, sorridente.
— O quê?
— Para e pensa, Sean. Nos últimos dois meses você e esse garoto vivem brigando ou trocando insultos.
— E daí? Sou assim com todos os leoninos.
— Não com todos. Especialmente com William. Mas veja esse garoto Colin, diferente dos outros ele consegue te tirar do sério.
— O que você tá querendo dizer com isso? Por favor. Que não seja o que estou pensando, Octavio. Vou ficar muito magoado com você.
— Eu não estou pensando em nada. — O amigo não conseguiu esconder o sorriso. — Eu vou resolver algumas coisas com Sebastian. Quando voltar espero que você tenha comido o que preparei.
— Eu vou te bater se você continuar com esse sorriso no rosto. Juro que te expulso da república e te faço ser também expulso da Quadra Nove.
Octavio correu saindo do quarto imediatamente. Sean realmente quis bater no amigo. Não poderia admitir isso, nem mesmo sequer pensar em algo do tipo. Isso jamais aconteceria.
— William, preciso fazer uma denúncia. —Rick disse, enquanto jantavam.
Todos estavam ao redor da mesa, por algum milagre. Até mesmo Ian e Gaspar. Danion chegou depois, mas resolveu se juntar a eles já que não queria comer sozinho na sala.
— Diga. — O loiro deu continuidade ao diálogo.
— Descobri quem estava comendo todo o chocolate em pó na madrugada. — Rickson levou seus olhos a Danion, fazendo com que todos fizessem o mesmo.
— Foram poucas as vezes que fiz isso. E não me olhe assim, vocês estão me assustando. — O branquelo disse, com medo de se sentar.
— Gaspar me pede desculpas. — Colin disse para o companheiro, interrompendo o diálogo.
— Não vou pedir.
— Claro que vai. — Ian se meteu. — Você o acusou àquele dia.
— Vamos, me pede desculpas! — Colin realmente estava interessado em ouvi-lo se desculpando.
— Ai Colin, não exagera. — Leo se meteu.
— Não é questão de exagero. Só achei injustiça ele suspeitar de mim. Só porque costumo acordar pra beber água.
— Gente, o foco aqui é Danion. Ele é o verdadeiro culpado por isso. — Rick continuou.
— Ai agora vocês vão me crucificar só porque como chocolate em pó? —O branquelo não mostrou preocupação. — Qual é, se não sou eu o chocolate acaba saindo da validade.
— Mas Danion, você tem que entender que você não é o único a morar na república. — William disse.
— E daí? Quem mais come chocolate em pó aqui? — O branquelo indagou. Todos levantaram a mão. Ele engoliu o seco, assustado. — Caralho, então por que ele fica guardado um tempão? — Perguntou para se proteger.
— Pra ser sincero, é porque Rick não deixa. — Leo foi sábio nas palavras.
— Agora a culpa é minha? — o cozinheiro parou de comer. — Ele rouba o chocolate em pó e a culpa é minha?
— Precisa dessa encenação toda? — Gaspar disse, sorrindo e provocando Rick.
— Olha aqui seu terrorista dos infernos. Não me faça te dar uma surra de panela. — o ameaçou, sério.
— Tá gente, não vamos brigar só por causa do chocolate em pó. Danion é o culpado e sabemos que ele não irá mais fazer isso, certo? — Indagou vendo o branquelo afirmar. — E Rick promete fazer receitas usando o material. Não é? — Dessa vez indagou para o cozinheiro, que também concordou. — Viram como foi fácil?
— Ainda estou esperando as minhas desculpas. — Colin se atreveu a falar. Teimoso.
— Vai pra puta que o pariu. Na boa, garoto. Desculpas. Pronto. Fim. — Gaspar disse, iniciando mais uma sessão de estresse.
— Olha só como você fala comigo. — Colin se levantou.
— Chega! — Ian gritou, todos se calaram. — Vocês são muito infantis.
Era a primeira vez que Colin via Ian daquele jeito. Ficou assustado com como ele conseguiu silenciar todos. Depois disso o jantar prosseguiu calmo. Gaspar e o pequeno garoto dos olhos castanhos logo estavam agindo normalmente como se nada tivesse acontecido. Não importava o que acontecesse. Eles eram unidos.
— Que tal jogarmos verdade ou desafio? — Danion sugeriu.
Todos trocaram olhares. Sim, a maioria queria.
— Eu topo. — Leo foi o primeiro a sentar-se no enorme tapete da sala.
— Eu também topo. — Gaspar falou. — Mas não seria mais fácil jogarmos na cozinha? A mesa é melhor.
— Claro que não. — Rick disse, imediatamente. — William e eu arrumamos tudo. E a propósito, eu também topo jogar.
— Eu tenho medo do que vocês possam perguntar ou desafiar. — Colin falou. — Mas eu irei participar.
— Não ache que eles vão pegar leve, Colin. — William falou, sentando-se ao lado de Leo.
— Eu vou ficar apenas observando. — Ian falou. — Se tiver interessante, participo nas próximas rodadas.
— Certo. Sendo assim, todos estão de acordo com a brincadeira, não é? Não vale desistir hein? Ian você pode pegar uma garrafa em meu quarto? Tá ao lado da minha cama.
— Não precisa. — Gaspar disse, retirando de trás do sofá uma garrafa de vidro verde e vazia. — Eu tinha deixado aqui ontem. Não precisa brigar comigo, William. Eu ia jogar depois.
— Certo. Depois vocês conversam sobre isso. Vamos começar a brincadeira.
O branquelo sorria. Ele certamente adorava a brincadeira porque simplesmente pegava pesado no que perguntava ou desafiava. Quando girou a garrafa, esta se atreveu a ficar entre Gaspar e Rick.
— Rick pergunta, Gaspar responde. — Danion falou.
— Verdade ou desafio, Gaspar? — Rick perguntou.
— Começo com a verdade.
Rickson juntou os lábios e pensou. Demorou dez segundos até ter uma pergunta pronta.
— É verdade que você já invadiu o quarto de Lydia só pra vê-la seminua?
— Quem te contou isso? — Gaspar perguntou exaltado.
— Não sei. Não vale mentir hein. — Rick apenas sorria.
Todos esperavam a resposta. Queriam saber como Rick descobrira aquilo.
— É verdade. Mas eu não invadi. Apenas fiquei olhando da janela e sim, eu me masturbei pensando nisso. A garota é gostosa demais, gente. — Ele pareceu ficar excitado com o tipo de pensamento. — Depois quero que você me diga quem te contou. — Voltou então para o jogo.
— Eu mesmo vi. Era madrugada quando fui à cozinha. Se Sebastian descobre isso, você com certeza estará morto. Mas não se preocupe, ninguém daqui irá contar.
— Existem tarados e existe Gaspar. — Leo brincou, arrancando gargalhada dos amigos. — Mas certo. Deixa que eu gire agora.
Leo olhou para cada um antes de girar. Queria ele perguntar algo ou desafiar alguém e felizmente teve essa sorte. A garrafa caiu entre ele e William.
— Verdade ou desafio, senhor líder. — Perguntou esfregando as mãos.
— Verdade.
— Poxa, escolhe desafio.
— Não. — William falou sério.
—Tudo bem, me deixa pensar.
Leo conhecia o amigo o suficiente. Não sabia o que perguntar. Demorou cerca de um minuto antes de mandar uma pergunta que saiu sem querer ao olhar para Colin.
— É verdade que você e Colin já se pegaram?
— Que pergunta é essa, Leo? — Colin se manifestou.
— Ué, é apenas uma brincadeira.
— Eu escuto gemidos na madrugada. — Danion brincou.
— Vai se ferrar, Danion. — Colin mostrou o dedo do meio para o colega que estava à sua frente.
— O deixa responder, gente. — Gaspar falou.
— Tantas perguntas a se fazer e você me vem com isso, Leo. Sinceramente, esperava mais. Mas respondendo a sua pergunta: Não. Eu não me pego com Colin.
Todos ficaram em silêncio, duvidando.
— Ele está falando a verdade, gente. — Rick também se envolveu. — Todos conhecem quando William mente. Agora dá pra rodarem a garrafa?
— As perguntas já começaram a subir de nível. — Ian, que estava de fora e sentado no sofá, disse. — Quem será a próxima vítima?
Leo novamente girou a garrafa, com força. Essa demorou a parar e quando parou, Danion sorriu de felicidade quando a viu cair entre Colin e ele. Ele esfregou as mãos, fuzilou o companheiro, intimidando.
— Desafio. — Colin disse já respondendo a primeira pergunta. — Vamos ver do que você é capaz. Não adianta me intimidar com esse olhar.
— Você tem certeza, Colin? — Danion indagou, tentando parecer ameaçador. — Que seja. Não vale mudar mais.
Se tivesse um fundo musical, seria algo macabro. Os olhos de Danion brilhavam com tamanha perversidade que ele transmitia. Rick sentiu medo. Ian estava ansioso para o primeiro desafio da noite. Gaspar até mesmo roia as unhas.
Danion olhou para todos no círculo, mas especialmente para Colin. Ele queria deixá-lo apreensivo, e estava conseguindo.
— Vamos, Danion, desafia logo. — Rick também estava apreensivo.
— Não pode amarelar, certo, Colin? — O branquelo falou.
— Que saco. Vai desafiar ou não? — O pequeno bateu a perna.
— Eu te desafio a beijar Will.
Silêncio. Olhares. Boquiabertos.
— O que?! — William e Colin falaram ao mesmo tempo, olhando um para o outro, e quebrando de vez o silêncio que tinha se criado ali.
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