Notas iniciais
Família.

Três dias se passaram após o ocorrido. Colin sentia as dores, não tanto como no primeiro dia, porém, isso de qualquer maneira dificultava o seu movimento.Tinha colocado na cabeça que não deixaria as dores físicas atrapalharem no seu desempenho. Tanto porque ele era calouro e bolsista, se não se empenhasse, logo estaria dando adeus a essa grande oportunidade que tinha em mãos.

O único hematoma visível era o da face de Colin, que infelizmente tirava o brilho dos seus olhos. O roxo com certeza não fazia parte das cores que combinavam com ele. Isso de certa forma atraía alguns olhares, mas ele não se importava. Afinal, ele sempre estava pronto pra encarar aqueles que mantinham certa antipatia para com ele. A coragem do pai e a teimosia da mãe.

Seus dias se resumiram em universidade e república. Tamanho esforço o limitou a conhecer a cidade em que morava. Muito queria sair dali, mesmo que fosse só por algumas horas, porém, por ter já duas faltas não queria uma terceira, embora soubesse que no futuro, algum evento não esperado pudesse acontecer.

Nesses três dias, a única coisa boa que lhe aconteceu foi a companhia de William, que pareceu um pai cuidadoso, sempre alimentando-o. Mesmo tendo que enfrentar Rick ao roubar coisas na madrugada e que na manhã seguinte o cozinheiro da república sentiria falta de algo. Também teve Caine. Ele ficou feliz ao saber que pelo menos um vizinho, digamos assim, também cursaria o mesmo curso que ele. Não teve sequer algum contato com o irmão de Sebastian, porém, percebeu que Caine era diferente dos demais. Não procurava briga e estava sempre quieto, observando sem querer se meter nas confusões.

William estava na sala, sozinho, lendo mais um dos seus livros que com certeza faria qualquer um perder a cabeça pela quantidade de palavras estranhas contidas naquelas páginas. Para ele, acostumado, aquilo não era nada. Só era chato ter que ler e ler... Em busca de melhorias o mais rápido possível. Nunca dependeu de ninguém para estudar, claro, tinha seus professores. Diferente da boa parte dos alunos, o loiro preferia estudar sozinho, tirar suas próprias dúvidas em livros ou na internet. Odiava ensinar, sabia que perderia a paciência em questão de segundos caso tentasse.

Alguém bateu na porta, e de imediato ele soube não ser algum membro da república, e o ruivo, seu amigo, líder da república à frente, tinha permissão para entrar sem bater.

Suspirou antes de se levantar e abrir a porta, estava tão concentrado lendo seu livro que perder a concentração iria fazê-lo voltar a recuperar o raciocínio em palavras anteriores a que ele estava.

Seu desprezo foi claro ao encontrar, parado a sua frente e cabisbaixo, Octavio. Ele imediatamente pensou em fechar a porta, mas logo ficou curioso em saber qual o motivo do outro estar ali.

— E-eu estou aqui para saber do garoto. — Ele disse, sem jeito.

— Bem. — Respondeu Will. — Só isso?

— Poderia ao menos me deixar entrar?

William revirou os olhos. Octavio, a raridade dentre aqueles que pertenciam à república rival. Ele era um dos poucos, senão o único a poder entrar ali. Deu espaço para que o outro passasse por ele, e logo bateu a porta.

— Você não foi à aula hoje.

Octavio tentou puxar conversa. Mesmo sabendo que o loiro só iria responder o necessário.

— Fiquei cuidando do Colin.

— De qualquer maneira sentiram sua falta. Você é o melhor aluno e o mais empenhado, o período de estágio logo começará. E sabemos que não é legal ficar faltando.

William não disse nada. Estava de pé, usando camisa cinza e calça claras, esmurradas. Descalço e usando seus óculos pra leitura, o loiro cruzou os braços, sem desviar os olhos de Octavio.

— Eu posso olhar o garoto? — Indagou, apreensivo, doido pra deixá-lo só, mesmo que não quisesse.

— Depois do que fizeram ele não vai sair do quarto até aquele roxo da sua face desaparecer. Com certeza não vai aceitar visitas. —Mentiu.

— Posso ao menos tentar?

Octavio estava ciente da frieza do loiro, isso o incomodava, mas estava tão adaptado com essa atitude, que às vezes o modo que William o tratava tornava-se inválido.

William fez um sinal para que ele subisse, ele hesitou, mas então o loiro subiu primeiro e parou em frente à porta de seu quarto, a abriu dando passagem para que ele passasse. O que ficou foi somente o cheiro agridoce do dono dos cabelos escuros.

Octavio olhou para trás e viu a porta se fechar, William não o acompanhou. A sua frente, Colin estava sentado em cima de sua cama. Segurando um caderno de desenhos e lápis, aquele de olhos claros e castanhos estava tão desligado que nem notou a presença daquele que tinha quase dois metros a mais que ele. Certo, não vamos exagerar. Colin odiava se sentir um anão perante os demais universitários.

— Ao que parece você melhorou. — Octavio disse, sorridente, acordando o outro dos seus vagos pensamentos.

Colin, por incrível que pareça, sorriu. Seu dia foi alegre, e Octavio não era um inimigo. Ainda tinha lembrança dos cuidados que recebeu desse que estava a sua frente. Ele apontou pro roxo em sua face e seu sorriso foi desfeito, dando lugar a uma expressão desagradável, porém, irônica.

— Não até esse roxo desaparecer e eu sentir menos dores em meu corpo.

— Já estou acostumado a sentir dores físicas de tanto interromper confusão ou me envolver. Em uma semana você deve tá sarado.

— Eu não tenho medo de brigar, mas não sou bom de briga. Você viu o resultado, não é?

— A culpa não foi sua, foram dois contra você. — Ele disse, lembrando-se do ocorrido. Mas logo se arrependeu. — Desculpe, eu sei que é chato lembrar isso.

— Sem problemas. — Colin falou, largando o caderno de lado — O que te traz aqui?

— Eu tive vergonha de aparecer durante esses dias, mas é que o estado em que você saiu de lá da república foi um pouco sério, fiquei preocupado. Além disso, eu sou um dos Tigres, e sempre acabo tomando culpa do que acontece lá dentro. Sendo assim, também estou aqui pra me desculpar. — Octavio estava inseguro, suas palavras soavam firme, porém seu olhar que vivia desviando de um canto ao outro entregava seu nervosismo.

— Você cuidou de mim. Acho que suas desculpas já valem por isso. E a culpa disso tudo foi de Sean, não sua. Sendo assim, fica tranquilo. Não sinto raiva de você. Will te agradeceu?

— William? — Perguntou surpreso após a indagação do outro.

— Sim. Tem outro?

— Como assim me agradeceu?

— Por ter cuidado de mim. Ele me falou que com certeza você apareceu numa boa hora e que deveria te agradecer por isso. Foi logo depois que eu contei como tudo aconteceu.

— Ah... — Octavio levou seus olhos ao chão — Ele não agradeceu, mas eu sei que vai.

Ele não sabia. Mentiu.

— Há quanto tempo vocês são amigos?

Octavio teve que ficar em silêncio após a nova indagação. Levantou-se e caminhou até a janela, deixando o outro confuso quanto a sua atitude. Recordações.

— Não somos mais amigos. Somente dois desconhecidos que vivem a tentar consertar erros nossos e dos outros.

— Você só pode tá de brincadeira comigo. E-ele ficou todo estranho, embora me parecesse sorridente quando falei que você cuidou de mim.

— Ficou?! — Ele virou de supetão, o olhar confuso tomando conta de si.

— O que tá acontecendo? — Perguntou logo ao observar a reação do outro.

— Você ainda não sabe da real história por trás dessa rivalidade, não é? — Octavio perguntou, aproximando-se e sentando-se ao seu lado.

— Dizem que Will não gosta que comentem sobre isso e me alertaram a não perguntar sobre. Mas não nego que estou bastante curioso pra saber das coisas que se passam.

— Tudo começou há três anos atrás. Mas vamos desde o princípio: William e Sean são irmãos. — Ele contou, sem se preocupar. Colin fez um olhar de surpresa e ao mesmo tempo confusão. — É, você não sabia, e os que sabem preferem evitar esse assunto. Pois ambos não gostam de recordar. Mas se estou te contando, é porque te vejo diferente dos demais.

— Você só pode tá brincando. Como assim? William é loiro, tem os cabelos claros e é quase parecido com um anjo. Sean... — sentiu repulsa ao pronunciar esse nome — é a personificação da morte, demônio... Tem cabelos escuros e age de forma despretensiosa.

Octavio teve que sorrir ao ouvir essa comparação. No fundo, teve que concordar com o que Colin falou. Enquanto um era um anjo, o demônio morava na casa da frente. Até nisso, o loiro teve o azar.

— Filhos do mesmo pai e de mães diferentes. Nesses três dias o pai de William apareceu por aqui?

— O pai dele?

— Certo, vou entender como um não. Continuando... — Octavio se levantou novamente e foi até a porta e abriu, por sorte, ninguém estava por ali, em seguida voltou — Você vai observar que William é bem parecido com o pai, já Sean é parecido com sua mãe, e bem... Quando falo isso, é porque são bem parecidos. — Deu ênfase.

—Isso significa que o pai é bom e a mãe é má?

—Quase isso. — Ele sorriu, brincando. — Você já ouviu caso de pais infiéis que pegam as empregadas da casa?

— Isso é uma pergunta ou uma afirmação? — O olhar de surpresa de Colin fez Octavio se sentir incomodado.

— William é o filho mais velho. Sean veio em seguida. Depois de toda a história de divórcio, separação de bens e todo o lance da briga entre os pais, a mãe declarou distância do ex-marido e de seu filho com a empregada. Mas os anos foram se passando, e os dois pombinhos voltaram a se encontrar... Me diz: Tem que ter muito amor pra superar uma traição, não é?

— Verdade. — Colin disse, desligado, captando tudo que ouvia. — A história já começa a partir da traição?

— É onde todo o ódio e rivalidade iniciam por parte das famílias.

— Então quer dizer que todo o problema se iniciou na guerra criada pelos pais?

— Não foi exatamente uma guerra, a mãe de Sean só odeia o pai e também o filho, fruto do erro.

— Tudo bem. Pode continuar, vou tentar não fazer perguntas. — Sorriu, dando de ombros.

— Certo. Dois anos depois as brigas continuavam a acontecer, principalmente porque a mãe de Sean vivia a lembrar do ocorrido e desprezando William, que nem sequer morava com eles.

— Isso seria natural em qualquer família. Nenhuma mulher quer passar por algo do tipo. — Ele parou, pois novamente interrompeu. — Continue.

— Você está certo. — Octavio sorriu, aceitando a interrupção — Porém, diferente dessas outras mulheres, a mãe de Sean fez de tudo pra que o garoto não nascesse. Entende? Mas felizmente o loiro nasceu, o escândalo aconteceu, se separaram e reataram e depois novamente se separaram.

— Quer dizer que eles não estão mais juntos?

— Exatamente. William cresceu com o pai, já que a mãe, uma jovem, atualmente não mais, decidiu que era muito cedo pra cuidar do seu filho e depois do escândalo foi morar em um lugar que ninguém sabe. Então imagina crescer sem saber do paradeiro da mãe?

— Tadinho do Will.

— Ele é forte. Dá pra perceber não é? Não é a toa que ele tem todo esse vínculo de amizade com os membros de sua república e sempre toma a posição de um pai. — Sorriu, bobo.

— Isso é verdade.

— Sean e eu crescemos ouvindo histórias que não deveríamos nos juntar a ele. Porque por destino, até na mesma escola Sean e William estudavam, por sorte não eram da mesma sala. O loiro tinha muitos amigos, Sean roubava todos para si. E a rivalidade entre os dois, se iniciou, de fato, nesse período, pois mesmo com poucos amigos William nunca se mostrou vulnerável ao irmão.

Colin ficou pasmo e ao mesmo tempo triste. Era tudo tão parecido com o que já passara. Não teve toda a história dos pais em sua vida, por sorte, mas sobre as amizades sendo tomadas por pessoas que se sentiam superiores, era realmente triste de lembrar.

— William foi chamado para mais de uma universidade, mas o seu objetivo era a Seattle. Não pensou duas vezes antes de sair da sua antiga cidade, e recebeu todo o apoio do pai. Sonha em ser médico, como já sabe. Inclusive, minha paixão por medicina cresceu graças a ele. — Ele sorriu, por lembrar.

— Quando você cuidou de mim logo imaginei que você cursava o mesmo.

— Então. — Ele sorriu novamente. — Quando Sean e eu chegamos aqui, William já era líder dessa república e para a infelicidade do loiro, ele ficou sabendo pouco tempo depois que a república à frente pertencia a sua família, mesmo que ele fosse considerado um filho bastardo.

— Bem, já posso deduzir o resto. — Colin se deitou, suspirando.

— Sean só tomou posse da liderança um ano depois. E eu tenho que admitir que é ele o culpado de toda essa rivalidade. Ele começou a tomar também os membros daqui para lá, inclusive os garotos que te bateram eram leoninos.

— Sean é um monstro! — Colin disse, desprezando o moreno com desgosto em sua voz.

— Não é, acredite. Tudo bem que ele só faz merda, mas eu conheço as suas qualidades. No fundo ele é uma boa pessoa.

— Me pergunto como você consegue ficar junto a ele. — Colin falou, sério. Mas então, veio a lembrança dos cuidados. Teve que mandar para longe esse pensamento. Não queria admitir que o moreno era, no fundo, uma boa pessoa.

— Eu já saí daquela república, já fui leonino, depois voltei pra lá. — Octavio disse, como se aquilo não tivesse importância.

— Como?

— Certa vez eu me meti numa briga séria com Sean, e passei cerca de uma semana com vocês, mas logo eu voltei para lá. Eu teria dormido na rua se William não me deixasse dormir com ele.

— Então é por isso que William gosta de ti. Talvez, ele saiba que você é diferente dos demais.

—Minha história com William aconteceu também na infância. Acho que isso fica pra outra hora.

— Como assim?

— Bom, eu tenho que voltar Colin, já passei muito tempo aqui.

— Não, eu preciso saber de tudo. Você ia me contar mais coisas. Poxa, você iria me falar de vocês antes, mas resolveu contar desde o princípio, e agora na metade diz que vai embora?

— Outro dia eu conto, tudo bem? Não agora, porque é recente e você pode se assustar. Mas eu prometo contar em outro momento, isso se você não souber pelas más línguas. E ah, eu passei da metade e cheguei ao fim, William e nós já somos outra história.

— Ah... — Colin não gostou nada da ideia de saber depois, mas aceitou.

— Foi um prazer conversar com você, Colin. A propósito, me chamo Octavio, mas isso você já sabe.

O menor apenas sorriu vendo-o passar pela porta. Colin suspirou, rolando pela cama abraçado ao travesseiro. Digerir toda aquela informação não era tão fácil assim.

— Irmãos? Como são tão distintos... — Murmurou para si mesmo abrindo novamente o seu livro.

Octavio descia a escada sorridente. No fundo, dias antes estava sentindo ciúmes de Colin, mas agora, depois da conversa, mesmo não conhecendo muito sobre o garoto, poderia dizer que ele não era alguma ameaça. Seus ciúmes era devido ao fato do loiro mostrar-se bastante preocupado com ele.

— E então? — William indagou.

Continuava na sala, sentado e de braços cruzados.

Para William, a presença de Octavio, mesmo que passageira, era boa. Ele tinha que admitir aquilo. Tivera lembrança dos poucos dias que o outro passou ali, e pra ser mais sincero, foram os melhores dias já vividos. A começar porque era o melhor amigo de Sean tornando-se um leonino e isso já valia mais do que qualquer coisa. Pena que as coisas já não eram mais as mesmas, há três anos o loiro se considerava imaturo demais, atualmente, se dizia amadurecido.

— Ele gostou de conversar comigo. — Foi só o que conseguiu dizer.

Depois disso o clima desconfortável surgiu. Aquele silêncio que maltratava a ambos demoraria a ser desfeito. Porém, de lá do alto, Colin resolveu mandar embora toda aquela tensão.

— Alguém me ajuda a descer? — Ele perguntou, brincando. — Era bom quando você me carregava no braço, Will. — Sorriu.

Os três sorriram e observaram o outro descer os degraus. Colin caminhou diretamente até a cozinha, deixando novamente os outros dois sozinhos.

Octavio seguia os olhos do loiro. Nenhum dos dois se atreviam a falar algo. Uma única palavra seria capaz de novamente desencadear as palavras presas que ambos escondiam. Como duas crianças, sem graça e tímidas, lá estavam eles. Grandes mas tão pequenos ao mesmo tempo.

— Já pode ir. — O loiro finalmente se manifestou, tomando posse da palavra firme que tinha sempre.

Octavio permaneceu em silêncio. Sem iniciar qualquer movimento, apenas observando William sentar-se no sofá e levar sua atenção novamente ao livro que antes lia.

— Não adianta me tratar assim, William.

— Você nunca vai me chamar de Will.

— E não adianta mudar o assunto.

— O que você quer, Octavio? — O loiro fechou o livro bruscamente.

— Eu não tenho nada a ver com o que aconteceu com Colin. Você sabe disse e me deve agradecimento. — Falou, lembrando-se do que Colin dissera.

— Claro que você tem culpa. Você deixou com que isso acontecesse, se fosse mais inteligente teria impedido o espancamento.

— Você nunca vai aceitar o fato de eu pertencer aos Tigres. Nunca vai aceitar o fato de eu ser melhor amigo do seu irmão. Mas lá no fundo, você sabe que sou eu quem reergue suas estruturas.

Octavio cansou de permanecer na defesa e partiu pra o ataque. As palavras certas que atingiam em cheio o alvo a sua frente.

— Huh... — William fora interrompido.

— Não adianta me xingar, se exaltar ou até mesmo suspirar o rancor que tem guardado em si. Você fala de Sean, mas o temperamento de ambos é parecido. Eu sei lidar com os dois.

— Já acabou? — William se levantou, tentando manter-se calmo.

O loiro tentou então passar por Octavio, mas esse se pôs a sua frente, olhando nos mais fundos olhos claros que ele tinha. Dois gigantes, armas na ponta da língua, nada de sangue.

— Novamente vai me dar as costas quando eu tento conversar com você? E se diz tão maduro. — Não queria provocá-lo, mas se fosse para chamar a sua atenção, era necessário usar de tais palavras.

— Para de me desafiar, você sabe que odeio isso.

— Também odeio quando você me trata como se sentisse nojo de mim.

— E o que você quer que eu faça? Me diz! — William agora se exaltou, mostrando a raiva acumulada em seu olhar — São as circunstâncias de tudo isso que nos levaram a viver desse modo. Não dá pra digerir tudo e fingir que nada aconteceu e acontece, Octavio. Não somos mais os mesmo adolescentes. Crescemos, sabemos o que é melhor para cada um. Temos noção dos fatos.

— O fardo tá pesado. Sabemos disso. Você é líder disso aqui por anos e carrega nas costas todos os problemas que acontece... Tá perdido, sem saber como agir...

— Não começa! Não estamos falando sobre mim, mas sim de nós. — O loiro o interrompeu.

— É por isso que você trata Colin desse jeito. Deposita todo o amor que não recebeu da mãe no garoto. Não só nele como nos demais da república. — Continuou com as palavras certas, atingindo novamente o loiro.

— Octavio, para...

William conseguiu atravessar a barreira que Octavio tinha criado, subindo as escadas mostrando-se vulnerável. Raridade.

Octavio foi logo em seguida, ainda falando coisas que ele não gostaria de ouvir. Somente alguém conseguia atingir o mais profundo e obscuro sentimento do loiro, e esse alguém estava ali mais uma vez. Iniciando novamente o mesmo diálogo, a mesma discussão.

— Por que você sempre gosta de tocar nesse assunto?

William tentou fechar a porta do quarto, mas o outro o interrompeu. Entrou e fechou a porta com força, e com certeza os outros escutaram.

— Porque é isso que você é. Não será pra sempre o garoto forte que mostra ser para todos nós. Você é humano, William. Eu consigo ver em seu olhar agora que você precisa de descanso, que está preocupado, que está com sede de vingança, que está tramando algo.

— E mesmo assim, sabendo de tudo isso, veja só o lado que você escolheu.

— Eu não escolhi lado nenhum, William.

— Existem lados, Octavio. Porra, admita!

Sim. Existiam lados. Era uma guerra. Octavio estava dividido entre o amor de irmãos. Cresceu com um e viveu um romance com outro. Sabia da perfeita ligação que tinha com cada um deles, mas fora destinado a conviver com o moreno.

— Você sabe que é verdade. Mas é igual a mim, não gostamos de admitir o erro ao outro.

O moreno engoliu o seco com tamanha verdade dita. Odiava discutir com o loiro por que quase sempre a falta de argumentos reinava. Eram dois cabeças duras, tão iguais.

Viu William observar as fotos e o desenho recente de Colin sobre a cama. Eram construções mal acabadas, rabiscos e palavras perdidas sobre a folha. O loiro tomou o caderno em mãos e folheou.

—O garoto tá sendo o que eu sou pra você, não é? — Ele indagou, tirando todo foco da conversa.

— Não vamos falar do Colin. — William jogou-se na cama, largando o caderno de lado.

— Não é só o fato de querer cuidar dele. Eu sei que não. Colin não é como os outros, ele consegue enxergar além daquilo que vemos. Ele é como nós dois, William.

Sentiu, no fundo, os ciúmes atingir sua alma. Mas fazia de tudo pra prendê-lo dentro de si. Octavio odiava sentir ciúmes, e o pior era não poder manifestar isso, já que não existia mais nada entre ele e William.

— Ele ainda é uma criança, Octavio. Toda criança sonha.

— Universitário.

— Por que estamos falando do Colin agora? Não lembra que o foco estava em nós dois?

Octavio respirou fundo, sentando-se ao lado do loiro.

— Você deveria ser um leonino. — William falou, novamente calmo.

— Tira o foco dessa rivalidade entre você e Sean. Eu sou a exceção, William. Ninguém além de mim tem total liberdade de falar com os dois irmãos de forma amigável. Eu tenho alma de leão e sangue de tigre.

— E sempre entraremos em conflitos por conta disso. — As palavras falharam.

Octavio sentiu a voz trêmula de William. Mas não queria ficar ali por mais tempo. Sabia que fim teria novamente. Levantou da cama e viu da janela a sua república. Teria que voltar. Sean o esperava.

— Tenho que ir.

William não disse nada. Continuou na cama.

Octavio não se despediu, apenas passou pela porta, desceu as escadas e finalmente saiu da república indo diretamente para a sua.

No quarto do loiro, restou apenas o silêncio e a voz chorosa abafada pelo travesseiro. William ficou ali por alguns minutos, sozinho. Odiava ter sempre que conversar com Octavio e no final sempre desmoronava, enquanto o outro se mostrava mais forte do que ele. Ambos aceitavam o término da história que tiveram. Conversavam quando havia necessidade ou pela insistência do moreno, mas se possível fosse, o loiro sempre o ignoraria, demonstraria o desprazer de conhecê-lo. Mas se em um quarto, só houvesse os dois, se rendia sempre às palavras e ações. Ninguém estava observando.

Aceitava, em partes, que o outro tinha razão no que dizia. William carregava o fardo da liderança. Não tinha a riqueza de Sean nem mesmo todo o luxo vivido por ele, apenas o necessário. A grana movia os Tigres. A união movia os Leões.

Por horas quisera ser como Sebastian, sempre sabendo o que fazer.

— Will?

A voz de Colin.

O menor entrou no quarto, em passos leves, pois havia percebido toda a tensão que ali acontecia quando Octavio estava no quarto. Deduziu o que se passava, mas tal pensamento poderia ser errado.

O loiro ficou em silêncio, não queria responder por conta da sua voz tomada pelo choro.

Em um gesto cúmplice, Colin o abraçou deitado na cama. Mas de repente, estava sendo abraçado. William apertou o menor em seu abraço, afogou seu rosto no ombro do garoto e permaneceu em silêncio. As lágrimas cessaram, mas o abraço, se possível, não teria fim.

— Está tudo bem. — William disse, confiante. Mas a mentira estava pairando por suas palavras.

Colin podia admitir o que sentira naquele momento. O corpo aqueceu com o abraço do maior, sentiu-se um bebê, mesmo que fosse o outro quem precisasse de cuidados. Por que o incômodo?

Sean estava em seu quarto. Parado, observando da janela a república à frente. Tinha saído do banho e ainda estava enrolado em sua toalha. As paredes de sua república eram consideradas novas, o cheiro de tinta nova ainda pairava no ar daquele cômodo, ou melhor, por toda a casa. Quadros e objetos novos ocupavam o lugar daqueles que não eram mais aproveitáveis, alguns conseguiram ser recuperados, outros já não tinha o mesmo valor de antes.

Ainda tinha o pincel de Colin com ele. Ele olhava o objeto, mas seu pensamento estava bem longe dali.

— O garoto está bem. — Octavio falou, entrando no quarto sem pedir permissão.

— Certeza?

— Absoluta. — Confirmou.

Notas finais
Oi meus amores, tá aí mais um capítulo. Saiu no prazo, haha. E desculpem-me o atraso com QD. Esse capítulo só faltava ser concluído e revisado, então aproveitei. Meus amores, eu estou com a vida bastante corrida, com academia, auto escola e também estou tocando e ensaiando bastante com a orquestra. Sendo assim, posso atrasar no máximo uns três dias. Então, vocês devem entender o meu atraso com QD, né? Mas eu logo postarei, ok? Beijão!!!