Notas iniciais
A chuva.

Céu nublado. A garoa alegrando uns e irritando outros. Afinal, ninguém queria ir à universidade tendo que enfrentar as gotas d’água. Uns tinham automóvel, outros guarda-chuva ou capa para proteção, e ainda existiam aqueles que arriscavam usando moletom para tentar proteger apenas o cabelo, no caso, a grande maioria eram garotas. Eles de fato deveriam agradecer a essa mudança no tempo, vendo que assim as plantas, flores e gramados eram regados.

Sean não tirava os olhos da janela, vivia observando a república à sua frente. Sua vontade mais uma vez era invadir aquele local e aprontar. Tentava bolar algo por dias, mas sempre que pensava sentia-se incomodado em fazer isso e acabar prejudicando mais alguém. Desde o ocorrido, ele vinha tentando se comportar. Desejava ser como os outros, amigáveis. Mas herdou a maldade e hipocrisia da mãe, sabia que não conseguia ser bom amigo ou qualquer que fosse a característica de alguém eternamente generoso. Não seria o moreno, se por um dia, ele fosse alguém simpático. Estava no seu sangue. Lembrava-se dos momentos em que odiava William e Octavio por isso. Não sabia se o que sentia era inveja, porém, descrevia isso como raiva.

— Não quer dar uma volta? — Octavio perguntou.

— Com o tempo dessa forma? — Ele respondeu com uma pergunta, sem tirar os olhos da república à frente.

— E qual o problema? Seria melhor do que ficarmos aqui no quarto. Os outros estão lá embaixo, se divertindo, já que só tem aula no período da tarde, e até mesmo seu parceiro de quarto também.

— Ex-parceiro.

— Que seja.

Sean ficou com o quarto apenas para si. Não suportava mais os roncos de Santiago, e isso serviu como desculpa para expulsá-lo dali. Criando assim um quarto com três pessoas. Isso gerou uma grande confusão entre os Tigres. Ninguém aceitava o fato do moreno ter um quarto só para si, mas ele, com toda autoridade que tinha conseguiu colocar as rédeas naqueles que se opuseram. E bem, teve uma pequena força de Octavio, que diferente do moreno, soube conversar fazendo com que os outros entendessem.

— Vai mesmo ficar aqui sozinho? Se ficar, eu realmente vou à academia, estou há dois dias sem ir.

— Eu tenho aula às nove horas.

— Teórica ou prática?

— Teórica.

— Então por que não pega alguns livros e vai estudar?

— Para de agir como um pai. Que saco.

— Sempre acordando de mau humor. — Octavio falou, sorrindo.

Ele já não mais se incomodava com o mau humor do amigo. Não sempre.

— E você me enchendo o saco em todas as manhãs. Já deveria ter se adaptado com isso.

— Ah, claro, até porque se não sou eu, quem te acordaria e te diria que tá atrasado?

— Pra que tenho a porcaria do despertador?

— Nem sempre você acorda com ele. Deveria me agradecer.

— Tudo bem, Octavio. Não tô querendo discutir. Tá? — Sean se virou, afastando-se da janela, finalmente.

Octavio apenas revirou os olhos saindo do quarto logo em seguida. Sean ficou por ali, sem tomar o café da manhã até o horário que teria de ir estudar. Fizera exatamente o que Octavio sugeriu: estudou no tempo que tinha sobrado.

William passou a manhã na universidade. Não estudando, apesar de que indiretamente estivesse aperfeiçoando seus estudos. O loiro apenas ensinava àqueles que sentia precisarem de ajuda. Estava paciente. Logo, alguns universitários estariam estagiando, ele fazia parte desses. Era querido por grande parte dos alunos da sala. Apesar de inteligente, nunca usava disso para se mostrar superior aos outros, pelo contrário, havia certos momentos em que se segurava para não responder de imediato, ou então se mantinha calado evitando debates e perguntas. Todo esse empenho se devia ao seu irmão Sean, que tivera a vida fácil, mas Will conseguira tudo com esforço. E na universidade isso não seria diferente.

— Até amanhã. — Ele disse, atravessando a porta.

Carregava a mochila e cerca de três livros. Antes de ir embora, o loiro parou na lanchonete. Por ali ficaria mais um pouco. Quando não queria chegar à república e ouvir problemas, William preferia ficar por ali, se possível, até o horário de voltar à universidade. Mas dessa vez, só teria aula integral no dia seguinte.

Esperando seu pedido, o loiro estava sentado próximo à parede. Não lia. Dessa vez queria se desligar um pouco disso. Tomar como lição o que seus companheiros de república disseram. Não eram somente os problemas da república que estavam acabando com ele, mas sim os estudos. E bem, deixar de estudar por um dia, algumas horas, no caso de William, não teria problema.

Não era um horário de pico e estava chovendo, sendo assim, o movimento estava fraco. Apenas William e cerca de seis pessoas estavam ali, com exceção daqueles que trabalhavam no lugar. O loiro observava uma garota conversando ao celular, um garoto que vivia batucando na mesa, e o que deduziu ser um casal tirando fotos.

Sua atenção do casal foi tirada no momento em que Connor entrou na lanchonete. Seus olhos se apertaram seguindo cada passo que o outro dava até o balconista. Ele observava o garoto como se fosse um alvo a ser acertado. Lutava contra sua consciência se segurando para não tomar nenhuma atitude precipitada. Porém, não conseguia tirar da mente a imagem de Colin e todos aqueles hematomas.

Viu Connor caminhar para a área dos banheiros. Foi naquele momento que sua consciência sofreu grandes danos. Há dias queria encontrar um dos garotos que espancaram Colin. Mas não tivera a oportunidade, na verdade, teve, mas estes não estavam sozinhos. E esse seria o momento exato para deixá-los avisados de com quem estavam mexendo.

Ele observou na tela e seu número seria o próximo. Já tinha perdido tempo demais ali, parado, sem fazer nada enquanto os babacas dos Tigres abusavam e humilhavam dos leoninos. O loiro se levantou e observou ao redor, na esperança de que mais ninguém fosse ao banheiro. William acelerou seus passos no momento em que se viu longe de pessoas, atravessou o curto corredor e adentrou o banheiro masculino, fechando a porta em silêncio.

Connor ainda estava usando uma das cabines. William esperou pacientemente até a porta ser aberta, e foi exatamente nesse momento que ele o atacou.

Primeiro William deu um soco nas costas do garoto, o que o fez arquear para trás. Rapidamente, o loiro segurou Connor pelos cabelos e deu uma joelhada em sua face, fazendo imediatamente sangue descer do nariz do rival. Ainda segurando o outro pelo cabelo, ele o arrastou até que encontrasse o espelho, mostrando então como o outro estava diante dele.

— Foi exatamente isso que vocês fizeram com Colin, lembra? — Ele disse, e em seguida deu um soco novamente contra o estômago de Connor.

Connor não era maior que William, também não era frágil. O único problema era a força do loiro, que acostumado a todas as brigas que já enfrentara, tinha uma grande vantagem sobre ele.

A lista de pessoas pra serem temidas na Quadra Nove não era enorme. Dentre os mais conhecidos estavam os três líderes das maiores repúblicas, Octavio e mais outros dois garotos de repúblicas menores. Havia também uma garota.

Octavio e William seriam futuros médicos, estavam acostumados a ter sangue frio. Sendo assim, sangue, para eles, não era o problema.

— O que acha que poderia acontecer com você agora? — Ele indagou, puxando cada vez mais os cabelos do rival.

Connor não tinha a oportunidade de responder. William novamente o arrastou, dessa vez para dentro de uma cabine. Lá ele deu dois socos no corpo do rival e em seguida chutou seu poplíteo, fazendo-o ajoelhar-se no chão. Não houve tempo para palavras. Ele rapidamente enfiou a cara do garoto no vaso sanitário, afogando-o.

— O que você acha disso? — Perguntou, puxando o outro pelos cabelos, dando-lhe a oportunidade para respirar.

William finalmente o largou, deixando-o ali, naquele banheiro imundo e pichado. Caminhou tranquilamente até a pia e lavou suas mãos sujas de sangue. Ele olhou para o espelho e viu, dali, Connor ainda tentando recuperar o fôlego perdido pelos socos no estômago e o quase afogamento.

— Não foi a surra que você esperava, — sorriu — mas o suficiente para te deixar avisado. Não ache que sou eternamente paciente e idiota.

Com as mãos limpas e secas, o loiro caminhou até a porta, mas antes de sair, virou dizendo:

— Diga ao seu amigo Adrian que não me esqueci dele. — E finalmente saiu.

Connor continuou ali, parado. Não sabia o que fazer. Teve medo de sair e novamente ser atacado pelo loiro. Admitia a derrota e a humilhação. Acreditou ter sorte, já que o loiro o poupou de um grande espancamento, afinal, só tinham os dois ali.

Quando William voltou, seu pedido tinha acabado de sair. Ele, como um bom ator, embora não cursasse algo do tipo, estava agindo como um ser humano qualquer, livre de problemas e tranquilo. Sendo que há segundos atrás acabara de bater em um garoto.

— Mudei de ideia, irei levar, pode ser? — Pediu, sorridente.

Caine estava segurando em mãos uma tigela com cereal. Seus olhos atentos a programas aleatórios, entediado com a chuva que caía lá fora, já que nesse dia não tivera aula. Sebastian passara o dia distante dali, ajudando ao seu pai em mais uma mudança. Se não voltasse hoje, logo pela manhã estaria em casa. Caine tivera que ficar, Seb não confiava em mais ninguém além da namorada e do irmão, e como um não conseguiria lidar sozinho com a república, os dois, juntos, teriam mais capacidade para liderar, mesmo por poucas horas.

Não existia ninguém melhor que Sebastian, para Caine. Irmãos e melhores amigos. Embora o mais novo sempre recebesse sermões, ele sabia a necessidade que tinha do irmão por perto. A começar pelo escudo que o maior era, sempre que possível fosse, ele recorreria àquele que sempre o protegera, independentemente do que fosse. O ruivo sempre foi um homem íntegro e que jamais ofenderia o irmão. Foi na adolescência ele quem estudara o irmão, descobrindo então o seu verdadeiro interesse. Qualquer outro com certeza o entregaria para os pais ou teria vergonha, mas ele foi diferente, tratou Caine como um garoto normal, falando a respeito de relacionamentos, traições e paciência. E ainda brincava fazendo piadas.

— Sebastian já voltou? — Lydia indagou logo ao entrar na república, sentando-se ao lado do garoto.

Ela tirava as sapatilhas e prendia o cabelo, sua bolsa estava sobre a perna, enquanto ela vasculhava algo para prendê-lo.

— Ainda não. Provavelmente chegará de madrugada. Quando liguei, ele me falou que ainda estava na metade da mudança.

Ela não falou mais nada depois disso. Tomou a tigela de Caine e em uma única colherada, comeu quase metade de todo o cereal. Sinal de que realmente estava faminta.

— Aproveita porque é a única coisa que tem pra hoje.

— Como assim?

— Alyssa provavelmente vai estagiar. Gabriel disse que não tem cabeça para preparar o almoço e a janta. E daqui somente eles dois cozinham. Sendo assim, será mais um dia daqueles em que teremos de nos virar.

— Então vamos logo pra cozinha pegar algo e levar pro quarto, antes que esses monstros comam tudo que tiver de bom.

Lydia se levantou de imediato puxando Caine. Ele gostou daquilo, pelo menos algo para animar seu dia.

Quando nada de interessante encontraram, a primeira coisa que resolveram fazer foi: chocolate. Caine adorou a ideia, mas a briga pra saber quem ficaria em frente ao fogão rendeu alguns segundos, no final, foi o garoto quem cuidava da louça enquanto Lydia preparava o chocolate.

— Ei, Lydia. — Caine indagou, sentado em uma das cadeiras ali.

— Diga. — Disse com simplicidade, ainda sem tirar os olhos da panela.

— Como você fez para que Seb prestasse atenção em você? Que dizer... Você é linda e qualquer pessoa olharia para você, — sentiu seu rosto corar — porém, queria saber se foi necessário algo mais.

— É sobre Danion que você quer conversar, certo?

A pergunta pegou Caine de surpresa. Isso o deixou frustrado por deixar isso parecer tão óbvio. O seu silêncio soou como um sim.

— Você tem certeza de que ele gosta de garotos?

— Bom, e-eu não sei. Ainda não. Mas eu o vejo tão próximo do Leo...

— Que Leo é gay, todos nós sabemos. — Ela disse, como se isso não fosse importante. — Mas Danion pode não ser, embora eu já ouvisse boatos de que ele já ficou com garotos em alguma festa, mas se eu não vi, não posso acreditar.

— Também ouvi a mesma coisa. Não que eu tenha buscado informações, é que...

— Eu sei que você não busca informações, Caine. — Ela mais uma vez o interrompeu — Na Quadra Nove as notícias são espalhadas pelo vento. Todos nós sabemos disso.

Novamente o silêncio pela parte do garoto.

— Sabe, Caine, mesmo que ele possa até gostar de garotos, ele não é o cara certo. Mas sou suspeita de falar isso, teve um período em que achei que Seb não era o cara certo, e olha onde estou... Super apaixonada por ele. — Ela sorriu, feliz com o que disse. — Mas eu já percebi que ele te maltrata.

— Ele não me maltrata, ele é só... Explosivo. — Tentou então defendê-lo.

— E te socar por motivos tolos não é te maltratar?

— Não.

— Tudo bem. — Ela cedeu, revirando os olhos. — A única dica que te dou é simples: não mude. Só isso basta.

Colin já estava melhor do que os dias em que passara com o roxo no olho. Como a cor ia desaparecendo, sua face ia ganhando mais vida. Estava até mais sorridente do que os últimos dias. Principalmente agora, quando Danion e Leo decidiram provocá-lo.

—“... Não ligue para seu pai, não quero que vocês conversem sobre namoricos...” — Danion provocava Colin enquanto lia a carta de sua mãe.

— Me devolve isso, Danion. — Ele rosnava, enquanto era impedido por Leo de avançar em cima do garoto.

— “... Acreditamos no filho que educamos. Atenciosamente, Annita, sua mãe que te ama muito.”Cara, é sério isso? — O branquelo gargalhava ainda com a carta em mãos.

— Bebê da mamãe. — Leo provocava, liberando então Colin de seu braço.

O dono de olhos castanhos conseguiu recuperar a carta que Danion arrancara de suas mãos, enquanto ele falava dela para eles. O branquelo gargalhava como nunca, deixando a ponta de seu nariz vermelha. Leo era outro que não se segurava, provocando cada vez mais Colin.

Ele estava irritado, mas a gargalhada de Leo era engraçada demais para conseguir deixar qualquer um sério. Parecia ter engolido uma ave de som estridente enquanto ria, logo tomava a personalidade de um porco deixando cada vez mais hilário.

William chegou logo depois, para a surpresa de todos. Ele estava com a embalagem da lanchonete em uma das mãos e Leo correu, roubando-a. O loiro nem se preocupou, havia perdido toda a fome. Mas de qualquer maneira estava sorridente e feliz. Principalmente depois da curta lição que conseguira dar em um dos rivais. Só faltava outro.

— O que houve?

— Cara, a mãe do Colin. — Danion ainda estava sem ar enquanto ria e se retorcia no sofá com Colin dando leves socos em seu corpo.

— Ai, William. Manda o Rick preparar a mamadeira, porque temos um bebê na república. — Leo provocava ainda mais, abrindo a embalagem.

— Seus idiotas!

O loiro olhou fixamente para o pequeno vendo que ele realmente estava irritado. Mas a piadinha de Leo o fizera sorrir também.

— Até você?! — Colin indagou, mais irritado ainda.

— Eu? Eu não sei o que tá acontecendo.

— Atenciosamente, Annita, sua mãe que te ama muito. — Danion imitou a mãe de Colin, oitavando a voz e incorporando uma senhora.

O que foi suficiente para arrancar mais gargalhadas de Leo e fazer William se segurar para não entrar no meio daquilo, porém, não resistiu e correu antes de soltar um belo grito de leão enquanto ria. Sua risada era áspera e bastante peculiar.

Colin ficou mais irritado. William não era pra estar rindo dele, muito pelo contrário, era para estar ali por sua defesa. Ele tentou calar Danion com almofadas, mas não conseguia, e isso resultava em mais gargalhadas. Olhou para o loiro, que não tirava os olhos dele enquanto ria.

— Para! — Pediu. Mas William não o obedeceu.

O pequeno correu para tentar bater no loiro, porém, esse foi mais ágil e conseguiu subir as escadas. Continuou a gargalhar dali, apontando para o outro que o fuzilava. Se Colin estivesse com uma arma na mão, com certeza faria um grande massacre naquela república.

Rick apareceu depois, no corredor. Nesse momento todos se calaram. Ninguém se atreveu a dizer sequer uma palavra quando encontraram o garoto de braços cruzados. Certo que não segurava nenhuma panela, mas a colher de madeira em suas mãos conseguia causar medo.

— Gaspar foi dormir quatro da madrugada estudando. Ian está doente. Posso saber o motivo de toda essa gritaria? — Indagou, sério.

Novamente o silêncio. Cabisbaixo, William já estando no primeiro andar decidiu ir pra o seu quarto. Danion tentava ao máximo parar de rir, porém afogou seu rosto em uma almofada, amenizando ainda mais sua gargalhada. Leo enfiou o hambúrguer em sua boca, calando-se. Colin se sentiu confortável com aquilo, além de um pouco vitorioso justamente por conseguir o que tanto queria.

Rick voltou à cozinha, ali ficaria até terminar de preparar o almoço. Colin voltou para o sofá, sentando-se e fuzilando Danion. Leo só se preocupava com o que comia.

— Ei, Leo. — Danion chamou, controlando-se.

— Fala. — Disse, ainda de boca cheia.

— Já faz uns dias. — O branquelo mandou-lhe um olhar malicioso.

— À noite. — Ele disse, curto.

— Mas cara...

— Calma, caralho.

Não sendo ingênuo, Colin entendeu exatamente o que aquele diálogo significava. Ele apenas revirou os olhos, afastando-se o máximo que podia para não ouvi-los. Estava na janela, observando a chuva fraca que caía.

— Seria idiota se eu fosse lá fora me molhar? — Ele perguntou, baixinho.

Os outros nem sequer prestaram atenção nele, já que estavam conversando.

Idiota, Colin arrancou sua camisa e sandálias, abriu a porta e correu para a chuva. Sorriu para o céu, mesmo que esse estivesse nublado. Abriu os braços e girava em seu próprio eixo. Uma criança, com seus dez anos: era exatamente assim que ele se sentia.

Para os outros, seria considerado um lunático. Estava sendo observando por todos, inclusive por William e Sean, ambos em suas repúblicas, olhando de suas janelas.

Sean perguntava-se que tipo de idiota ele era pra ficar fazendo aquilo. Atraindo a atenção de todos para si. Sem contar que era idiota demais para isso, acabara de se recuperar de uma surra e estava ali, banhando-se pela chuva, correndo o risco de ficar doente.

— Sean! — Alguém gritou.

O moreno, não querendo, forçou-se a sair dali e descer as escadas. Iria perguntar o que queriam com ele, mas logo quando viu Connor recebendo cuidados de Octavio, engoliu as palavras que seriam proferidas.

— Quem fez isso? — Adrian perguntou.

— Você não vai querer saber. — Connor respondeu, fraco, sentindo as dores.

Octavio estava ao seu lado, já tomando os devidos cuidados. Somente duas pessoas seriam capazes de fazer isso para o moreno: William ou Danion. Os dois mais valentes da república rival. Pensou em Colin, mas viu que esse estava ali, tomando banho de chuva e o descartou imediatamente.

— Eu vou bater em que fez isso contigo. Diz, Connor! — Adrian vociferou, realmente irritado.

— Você não seria capaz. — Sean falou, calmo, sentando-se em um degrau da escada.

— Por que não? — Ele perguntou, confuso.

— Porque foi William quem fez isso. — Santiago, ex-leonino, respondeu.

— Como você sabe?

— Conheço a forma que o loiro ataca. Veja a marca em suas costas, William costuma começar a atacar por aí, quando não, pelas pernas.

— Mas...

— É isso que ele disse. William me pegou desprevenido. — Connor finalmente disse.

Causou silêncio imediato. Apenas Octavio foi capaz de agir tranquilamente. Estava preparado para isso. Conhecia bem o loiro e o achou paciente demais por não ter tomado essa atitude antes.

— Adrian. — Octavio chamou. — Você precisa evitar andar sozinho até eu convencer William de te deixar em paz.

— Você acha mesmo que eu tenho medo do William?

— Ninguém tem medo de ninguém aqui. Mas se você não for inteligente, com certeza sairá pior que Connor. — Octavio falou, suspirando.

— Eu consigo derrubar todos os leoninos! — Gritou, demonstrando o ódio.

— Danion sozinho consegue quebrar todos os seus dentes. — Sean falou, pondo o cotovelo em seu joelho. — Até mesmo Leo.

— Tá me zoando, Sean?

— E se eu estivesse? Qual seria o problema? Não percebe que vocês conseguiram tirar William do sério?

— Vocês? — Connor se manifestou, insatisfeito. — Lembre-se que você também está incluído nisso.

Connor estava certo e isso deixou Sean irritado. Não queria admitir. Ele apenas revirou os olhos, fingindo não se incomodar.

— Que seja. O problema aqui é que você teve o azar de sair sozinho. Adrian certamente será o próximo. E mesmo com toda essa pose de valentão, sabemos exatamente como William consegue ser frio numa briga. Mas vocês não estão aqui há muito tempo pra saber disso.

— O que Sean está falando é verdade. Não tentem provar da irá do William. — Santiago falou, encostando-se à parede. Recordou então das confusões em que se metera com seu ex-colega de quarto.

Sean tentava pensar em algo. Ele mesmo admitia não ser um bom líder. Outros com certeza teriam dito algo que os apoiassem e palavras inteligentes, mas ao contrário disso, ficou ali, parado. Ficava incomodado com os olhares de Octavio, que parecia perfeitamente ler seus pensamentos.

Colin! — Pensou.

Arrancou sua camisa do corpo e os sapatos.

— Sean, não! — Octavio falou.

Mas era tarde demais. O moreno já estava fora da república, exibindo seus músculos enquanto era molhado pela chuva. Olhou para os dois lados antes de poder atravessar a rua.

— Ei, Colin. — Ele disse, para o garoto.

Antes que Colin pudesse sair dali, foi pego pelas mãos hábeis do moreno, que o segurou pelo braço. Mesmo estando com o corpo escorregadio, Sean conseguia prendê-lo.

Estavam os dois presos um ao outro, ligação de um único contato de pele. Colin imediatamente parou, não demonstrando mais força. Rendendo-se. Os cabelos molhados e colados à testa de Sean, o olhar profundo e penetrante ameaçando-o. Foi uma bela conexão, mesmo que a raiva estivesse dando o seu sinal.

Tudo que Sean tinha pensado em fazer tinha ido embora. Não conseguiu. Encontrou os olhos caramelos, assustados, vindo em direção aos seus. Perguntou-se o porquê de não conseguir lançar o garoto contra o chão e chutá-lo, até descontar o que William fez com Connor. Simplesmente ficou parado, apenas encarando e perdendo-se no mais profundo olhar do pequeno.

Logo, ambos despertaram.

— Me larga! — Colin gritou, tentando soltar-se dele. — Eu não fiz nada dessa vez.

— Larga ele! — William gritou, saindo da república às pressas, tomando Colin para si.

Estavam os três ali, sendo molhados pela chuva. No silêncio, apenas com olhares maltratando uns aos outros. Corpos molhados, punhos fechados e qualquer movimento seria o ponto de partida para mais uma briga.

— Colin, entra! — O loiro pediu.

— Eu não vou entrar.

— Entra, agora!

— Não! — Continuou negando-se a entrar.

— Sabemos que ele não é como qualquer leonino. — Sean falou, provocando-o. — Não nasceu pra te obedecer.

William até pensou em respondê-lo com um soco, porém, controlou-se o máximo que podia. Não queria sujar o seu gramado com o sangue do rival.

— Veio aqui por conta de Connor? — O loiro indagou, pondo na face o melhor sorriso que já tivera.

— Sabemos que você só piorou as coisas.

— Pelo contrário, eu apenas acordei. E se você não tomar cuidado...



— Eu serei o próximo? — Sean o interrompeu, gargalhando sadicamente. — Ora, irmãozinho, você realmente acha que só porque é o mais velho tem que ser mais forte que eu?

— Te deixei na cama por três dias, Sean.

— E eu tirei um braço seu do lugar. Tem coisa pior que isso?

— Se isso te faz vencedor, eu não me importo. Porém, se você quiser, te deixo na cama por mais de uma semana, não importa quantos ossos meus você consiga tirar do lugar. Podemos iniciar isso agora. — O loiro falava, pondo-se na frente de Colin.

— Não seria uma má ideia. — Sean não se mostrou intimidado, fechando os punhos.

Deveria sim ter medo do irmão mais velho, porém, já estava acostumado a todas as brigas em que se metera com ele. Isso amenizava o medo que sentia de sair derrotado.

— Chega! — Colin gritou.

A chuva parecia ficar cada vez mais forte de acordo com a ira dos garotos. William e Sean ficaram assustados com a força que o pequeno teve ao gritar, pondo-se entre eles.

O dono dos olhos castanhos mandou um olhar para o loiro, repreendendo-o por tal atitude. Mas ele entendia a fúria de William, tanto é que sua vontade, naquele momento, era aproveitar a oportunidade e bater em Sean até tirar sangue de seu nariz. Mas do que valeria isso em um momento como esse? Era cedo demais para se deixar tomar pelo ódio.

Colin encontrou, depois, os olhos de Sean. Viu a gotas d’água repousarem no queixo do moreno e logo depois despencarem. Os lábios se reprimindo, impedindo a água de entrar em sua boca.

— Sabe, Sean... Eu sinto nojo de você. — O pequeno conseguiu falar. — Acho que toda essa sua pose de valente e ira contra nós, leoninos, deve-se ao fato da desunião em sua república...

— Um calouro me dando sermão. — O moreno falou, de imediato, tentando interrompê-lo.

— E com o pouco tempo aqui, já consigo definir quem é você: um idiota, sem vida, que nasceu para infernizar os outros simplesmente porque cresceu sem amor.

— Colin, vamos entrar. — O loiro pediu, manso, tocando-lhe o ombro.

O menor estava disposto a continuar falando. As palavras presas em sua garganta desde a última vez que vira o moreno insistiam para sair, e essa seria a oportunidade. Colin era esperto, resumiu tudo, mandando palavras diretas e objetivas.

— Você é tão grande, se acha tão esperto e se sente como o dono do mundo, porém é pobre de espírito e carente de atenção.

Foi o suficiente.

Sean sentiu. Tanto é que perdeu o controle ao tentar calar a boca de Colin, mas Octavio conseguiu interrompê-lo. Segurou em seu braço, impedindo-o de levantar. O pequeno, por sua vez, não sentiu medo dessa vez, pelo contrário, preparou-se para atacar também, avançando. Quem o segurou fora William.

— Agora sou eu quem irá surrá-lo! — Colin gritou, tentando desprender-se dos braços do loiro.

— Outro dia, Colin... Não hoje. — O loiro dizia, paciente e fuzilando o irmão.

— Tão pequeno e tão valente. Deixe-o vir para cima, Will. — O moreno provocou.

Aqueles que observavam não se atreveram a intrometer-se na confusão. Pelo contrário, estavam ansiosos por isso. Também achavam tudo confuso; Colin impediu William de socar o irmão, e agora o papel se inverteu. O loiro quem o impedia, com facilidade.

Agora eram quatro garotos, todos conversando por olhares. A chuva continuava ali, molhando-os. Octavio segurava Sean, mesmo que o moreno não mostrasse nenhuma ameaça de movimento.

— Você é um imbecil, Sean! Pobre de espírito! — Colin repetiu, gritando o mais alto que podia.

— Já chega! — O moreno disse, conseguindo se soltar. — Esse garoto merece uma surra minha.

Porém, Octavio foi mais rápido do que ele, e o segurou novamente. Dessa vez com dificuldade, vendo que Sean realmente estava disposto a bater em Colin. Percebeu que o pequeno conseguiu atacar, com palavras, o interior do amigo. Coisa que somente ele sabia.

— William, leva o garoto pra dentro. — Octavio pediu.

O loiro tinha que aceitar a ordem de Octavio. Ele simplesmente ergueu Colin do chão e o arrastou para dentro da república. Foi uma sessão de socos fracos até colocá-lo no chão, fechando a porta logo em seguida. Absolutamente todos os membros da república estavam na sala, observando tudo sem interferir.

Colin não quis olhar para ninguém, estava com raiva, e ele não sabia o porquê. Definitivamente tinha ideia. Molhado, saiu caminhando até o seu quarto. William não seria capaz de deixá-lo sozinho, sendo assim o seguiu até o quarto. Trancando a porta. Chegava de incômodos por um dia.

Notas finais
Olá meus lindos, o capítulo está aí. Espero que vocês realmente gostem do que escrevi. Foi uma delícia escrever esse capítulo, principalmente agora onde as coisas realmente começaram a "acontecer." Irei responder todos os reviews agora, nesse momento. Beijo, amo vocêssss!