República de Leões
2 Capítulo 02
Notas iniciais
Assim que Colin entrou no quarto tomou um susto. Arrependeu-se por ter escolhido aquela república como morada, se bem que na verdade foi a república que o escolheu. Por preguiça e por simpatizar com Leo, aceitou sem indagações. Mas admitia estar com medo de tudo. Para ele, o ocorrido na lanchonete foi algo idiota e sem necessidade, ninguém é obrigado ficar em um lugar em que não se sente bem. Provavelmente, Santiago saíra justamente por isso, com certeza seu parceiro era imundo e chato.
Sacos de salgadinhos espalhados pelo piso amadeirado do lugar, cuecas jogadas nos armários, gavetas abertas, camisas em cima das duas camas, as cortinas sujas por marcas de mãos, sapatos jogados ao lado da porta, latas embaixo de uma das camas, cadernos abertos e folhas rasgadas ao redor do pequeno cesto de lixo, os livros desarrumados em cima das prateleiras marrons, pôsteres de bandas que Colin jamais faria ideia de que existiam. Quando entrou no banheiro, quase vomitou por conta do mau cheiro, correu para pressionar a descarga imediatamente e também ficou impressionado por tamanha bagunça.
— Que tipo de pessoa dorme em um lugar assim? — Perguntou segurando uma meia na ponta dos dedos.
— Will. — Leo respondeu.
— O carinha da tatuagem?
— Sim. Mas até eu fico surpreso, pois Will é todo limpinho e cheirosinho, mas como vê, o quarto dele é o oposto.
— E não tem outro quarto? O seu, por exemplo... Eu prefiro ficar lá.
— Só se for pra dormir no chão, o divido com Danion. — Leo dizia enquanto chutava algumas latas no chão. — Ao que me parece ele passou toda a noite estudando, por isso todo aquele estresse na lanchonete.
— De qualquer forma eu prefiro dormir no chão a ter que ficar nesse chiqueiro.
— Para com isso... — Leo fez uma pausa tentando lembrar-se de algo. — Como é seu nome mesmo?
— Colin. — O garoto respondeu seco.
— Então, Colin. Todos os outros quartos estão ocupados e você teve a sorte grande, não vai enfrentar a fila do banheiro. E é o quarto do Will, ele é o líder da república. E como você comentou da tatuagem, bem, a maioria aqui tem por orgulho. — Leo levantou sua bermuda e mostrou a mesma tatuagem que Will tinha, só que menor e na coxa.
— Eu vou ter que fazer? — Colin perguntou deixando claro em sua expressão de que não tinha vontade.
— Não é necessário, fiz a minha há três meses, por vontade própria.
— Certo, fugindo do assunto tatuagens e voltando para o William. — Leo assentiu esperando que Colin prosseguisse — Por que ele é o líder?
— Porque há três anos, ou quatro, não me recordo muito bem, esse cargo foi concebido a ele. Engraçado é que ele não se arrepende, no meu caso, teria desistido, pois é estressante. E isso aqui não é patrimônio nosso, ou seja, temos que nos virar pagando e pagando, por sorte, temos Danion e Ian, eles praticamente dão conta do aluguel. O resto de nós damos conta das despesas aqui dentro, por exemplo, a comida. Will só tem a autoridade de líder porque qualquer problema que acontecer ele carrega a responsabilidade, e bem, ele consegue por isso aqui em ordem. Santiago o odiava por isso e olha que eles dividiam o mesmo quarto.
— Certo, então eu terei que obedecê-lo?
— Sim.
— Vai ser um problema. — Colin disse sério, largando sua mochila no chão.
— Por quê? — Leo indagou um tanto curioso.
— Eu odeio receber ordens.
— Daí o problema vai ficar entre você e ele. Will é um cara legal, ele faz o possível e o impossível por nossa união.
— Bem, veremos...
— Mais alguma pergunta senhor indagação? — O garoto cruzou os braços e franziu o cenho.
— Nenhuma, com o tempo elas serão respondidas. — Ele sorriu.
— Espero que diferente do Santiago, você consiga lidar com Will. — Leo deu um aceno de mão e saiu, fechando a porta do quarto logo em seguida.
Colin ficou parado observando novamente tudo aquilo ao seu redor. O quarto, por incrível que pareça, era grande e espaçoso, estava somente bagunçado. O garoto retirou sua mochila do chão e a jogou no canto da parede, junto colocou suas malas e o abajur.
— Certo, vamos lá. — Disse, retirando a camisa e a amarrando na cintura.
Colin novamente foi ao banheiro, dessa vez com a mão no nariz, pegou a vassoura, o esfregão, balde com água e desinfetante. Sorriu ao encontrar a pequena caixa de som em cima do armário e a ligou na rádio local. Começou varrendo toda a sujeira, resultando em dois sacos cheios de lixo, passou óleo na prateleira e nos livros empoeirados, arrumando-os logo em seguida. Aproveitou o momento para pôr seus quadros na parede, dois ao lado da porta e um acima do armário. Retirou mais alguns livros da mesa de estudos, que somente viu naquele momento, e pôs seu notebook ali. O garoto arrancou as cortinas sujas das duas janelas e as trocou por novas, no mesmo momento também trocou os lençóis da cama e os cobertores, encontrou na cama de Will lápis e canetas, pôs na caneca — sim, uma caneca — ao lado da caixa de som. Por atrevimento, dobrou todas as roupas de Will arrumando-as para que as suas também coubessem no armário e surpreendeu-se quando sobrou espaço. O seu velho abajur ficou ao lado de sua cama, e ele sorriu ao perceber que combinava com a textura da parede em cor âmbar.
Ficou enjoado ao entrar no banheiro pela terceira vez, mas até mesmo aquele lugar ele resolveu arrumar. Jogou metade da garrafa de desinfetante no vaso sanitário e deu descarga por duas vezes, o mau cheiro de urina era insuportável. Limpou a pia e colocou todos os objetos de higiene pessoal em seus devidos lugares, esfregou o vidro do box e o espelho. No final passou o esfregão úmido em todo o piso do quarto e banheiro.
— Foda-se se é amadeirado. — Reclamou enquanto esfregava.
Exausto, Colin tomou um banho inaugurando o banheiro e saiu enrolado com a toalha em sua cintura, jogou-se em sua cama ainda com os cabelos úmidos e respirou fundo. Ele não esperava dormir naquele momento, mas não resistiu ao cansaço e apagou.
Não demorou dez minutos para ser acordado por Will, que o encarava com um olhar curioso sentado em sua cama. Colin saltou da cama assustado e reclamando quando descobriu ser o loiro.
— Que mágica você fez aqui? — Will indagou esfregando os olhos caminhando para o centro do quarto.
— Tá falando do quarto?
— Claro. Horas atrás isso aqui estava uma zona e agora... Nem parece ser o mesmo lugar.
Will realmente estava impressionado. Seus olhos denunciavam a sua surpresa. Provavelmente, em anos, não via seu quarto tão arrumado. Observou atentamente todos os quadros de construções nas paredes e os livros todos arrumadinhos, a lixeira vazia e as cortinas absurdamente limpas. Até mesmo o cheiro era agradável.
— Agradeça ao esfregão, à vassoura e à minha força de vontade. — Colin lhe disse revirando os olhos e novamente sentando-se na cama.
— Ótimo. Tá gostando da república, Colin? — Will indagou levantando-se e indo em direção a sua cama, retirou os sapatos e meias deixando-os no mesmo lugar.
Colin levou seus olhos ao do loiro e em seguida aos seus sapatos, voltando para ele novamente. Will, sem jeito, levantou-se e os levou até a porta, deixando-os de lado.
— Não ache que perdi a moral do quarto. — Will disse, sorrindo, ainda sem jeito.
Como já dito, ele era alto e forte, e a luz do sol da tarde, adentrando pelas janelas, fazia com que seus olhos brilhassem. O que Colin gostou foi da simpatia de Will, mesmo que horas atrás ele tivesse se mostrado um tanto explosivo, teve de aceitar que aquilo fora somente efeito do estresse. De qualquer maneira, deu o seu melhor sorriso para responder-lhe:
— Até agora só conheci seu quarto e a sala.
— Você vai gostar dos seus irmãos, alguns deles estão estudando e outros trabalhando.
Colin ficou um tanto pensativo quanto a palavra irmãos. Embora Will estivesse fazendo-o se sentir confortável, aquilo na verdade o deixava sentindo o oposto.
— Você tá mais calmo? — Colin franziu a testa ao perguntar.
— Bem, refere-se ao incidente de hoje na lanchonete? Se sim, estou. Foi só algo momentâneo, logo passa. Não é a primeira vez que isso acontece. Desde que Sean tornou-se líder dos Tigres as coisas mudaram e vivemos assim, — ele sorriu — brigando.
Novamente aquilo. Colin não fazia ideia do que era, nem mesmo se atrevia a perguntar. Preferia continuar com seus pensamentos futuros, tomando a lição de sua mãe pra não se meter em confusão.
— E foi melhor Santiago ter ido pra lá. Os outros já não mais aguentavam as nossas brigas, mas de qualquer maneira levo isso como traição.
— Ele vai se arrepender. — Colin disse numa tentativa falha de confortar Will.
— Não vai. Eu sei que não.
— Certo, você não vai saber se não esperar.
Will sorriu com a resposta do seu novo companheiro de quarto. Depois do curto diálogo, optou por deixar o menor sozinho. Desceu as escadas e jogou sua camisa no corrimão, estava sorridente, mesmo depois do ocorrido. Quis se desligar da traição de Santiago para com ele e os demais.
— O cheiro disso tá muito bom. — Will falou para Rickson ao encontrá-lo na cozinha.
— Claro. — Ele respondeu convincente. — E acho melhor você sair da minha cozinha, caso contrário não terá janta. Dá última vez você comeu metade do que eu havia preparado.
— Eu estava faminto e não iria esperar até a janta. — tentou explicar.
Rick cruzou seus braços e encostou-se ao balcão logo atrás. Will conseguia ver em seu olhar a seriedade misturada com humor.
— Vai logo embora daqui, William! — Gritou.
— Olha Rick...
— Um, dois... — Rick o interrompeu. — Vai mesmo me deixar chegar até o cinco?
Não esperou o três e acelerou os passos. Will sabia que ninguém poderia mexer em nada na cozinha, a única oportunidade que tinha era na madrugada. Não só ele como os demais. Rick era o único que cozinhava, na verdade, que se sentia bem em cozinhar. Os outros, aqueles que arriscavam, geralmente faziam seu próprio alimento, mas o garoto era aquele que organizava a alimentação para todos os membros da república. E por isso ficava livre durante a maior parte do tempo sem fazer as outras tarefas.
Encontrou Leo na sala sozinho mexendo em seu celular. Jogou-se ao lado do garoto e cruzou suas pernas. No mesmo momento Danion resolveu aparecer. Os três eram amigos de longas datas, apesar de que Will estava há um ano a mais na república.
— E então? — Leo indagou retirando seus óculos que usava para ler.
— Ele arrumou todo o quarto sozinho, gostei do garoto. — Will respondeu sorridente.
— Vai comer ele hoje, amanhã ou deixar com que alguém o pegue? — Danion perguntou sério, mas logo em seguida sorriu ao perceber o impacto da pergunta. — Qual é gente, eu senti o cheiro logo quando conversamos. Aquele abajur entregou tudo.
— Ainda me pergunto como é que eu gosto de você, Dan. — Leo falou, sentando-se ao lado dele e deixando Will sozinho. — Mas devo confessar que aquele abajur o entregou. — E começou a sorrir como um idiota, depois disso, Danion também estava gargalhando.
— Para com isso Danion, já perdemos a conta de quantas pessoas saíram da república por conta de suas piadas. — O loiro disse, irritado, calando-os.
— Ou porque descobriram que o líder dela pende para os dois lados? — Danion logo o respondeu.
— Para Danion! — Dessa vez, já não havia mais gargalhadas.
Danion sentiu seu braço ser apertado quando Leo o repreendeu. Will odiava aquele assunto, claro. Somente os dois ali sabiam da sua verdadeira sexualidade, não que ele escondesse de todo o mundo, mas não gostava de expor. Não depois de ter uma relação delicada com os pais.
— Acho melhor deixá-los sozinhos. — O loiro levantou-se cabisbaixo e saiu, pensou em bater a porta, mas logo respirou fundo e a fechou com delicadeza.
Porém, ao se deparar com Sean, logo à frente de sua república, sentiu seu corpo esquentar. Se fosse um personagem de desenho animado, poderíamos enxergar Will com a cabeça vermelha como um tomate maduro e fumaças saindo de seu nariz e orelha.
Sarcástico, Sean apenas acenou. Will mostrou-lhe o dedo do meio e dessa vez voltou para dentro da república, e não poupou em bater a porta. Danion e Leo que conversavam tomaram um susto, mas o loiro nem ousou explicar e subiu as escadas. Encontrou Colin sozinho deitado em sua cama, vestia uma bermuda xadrez em diversos tons de verde, estava sem camisa e descalço. Lia algo, mas ele não sabia o que era.
Caminhou em silêncio até sua mesa de estudos e pôs a cabeça em seus braços.
— Qual o problema dessa vez? — Colin indagou como se já o conhecesse. Pôs seu livro de lado e sentou-se na cama.
— Nenhum. — Foi direto em sua resposta.
— Certo. Você não tá pensando em socar a mesa de estudos como fez na lanchonete, não é?
— Não vou fazer isso, pode continuar lendo. É que, Sean me irrita profundamente. Pra você que não sabe, Sean é o líder da república à frente. Ele é irritante só de olhá-lo.
— Eu nunca vou entender o porquê da rivalidade entre vocês, se bem que ele não me pareceu uma má pessoa na lanchonete, só foi um tanto... Grosso e...
— Você vai defendê-lo? — Will levantou-se exaltado.
Colin tomou um susto. Will era duas vezes maior que ele e o olhar furioso do garoto o deixava inquieto.
— Não foi isso que quis dizer. E não precisa gritar comigo. — Tomou coragem para encarar o loiro.
— Eu não estou gritando. — Disse, mas no fundo sabia que gritara.
— Sim, você está! — Colin também se exaltou.
— Tá, desculpe. — Ele disse baixo, voltando a se sentar.
— Eu prefiro descer, você precisa descansar. Nunca vou entender essa rivalidade entre repúblicas. Acho idiotice isso.
Colin levantou e calçou suas sandálias, pegou o livro em mãos, planejando lê-lo em outro local. Mas sabia que não daria, morando numa república só teria o quarto para ler sossegado. Conhecia a fama que locais como esses tinham, era sempre uma gritaria. Estava prestes a sair quando Will disse:
— Vamos provar sua lealdade hoje.
Seu coração acelerou, mas por algum motivo ele achou aquilo mais idiota do que a rivalidade entre as repúblicas.
— Provar minha lealdade? — Indagou, perplexo.
— Mais tarde eu te explico.
O loiro se levantou e entrou no banheiro. Tomar um banho seria o melhor nesses momentos.
Colin, ainda sem camisa, resolveu descer. Acabou por conhecer mais pessoas, como Ian, já citado por Leo, Rick que não foi nada simpático ao expulsá-lo da cozinha, e Gaspar. Por enquanto, aparentavam serem simpáticos, mas Colin achou que tudo aquilo não passava de uma falsa simpatia de primeiro momento.
As horas iam se passando, Colin conversava com Leo e odiava as piadinhas de Danion. William estava preso em seus livros, Rick cuidava da janta, Ian dormia e Gaspar saiu para algum encontro.
Não havia união na hora do jantar, pelo menos foi o que Colin percebeu. Ele e Leo foram os únicos a ficarem comendo na mesa de jantar, os outros comiam em cômodos separados. Danion levou um pouco da janta para Will que ainda estava preso em seu quarto.
Depois de comer, Colin caminhava pelo corredor pensativo. Era tudo tão estranho, apesar de novo. Os novos colegas não eram tão chatos assim. Era uma república animada e unida, pelo pouco que percebeu. Apesar de cada um ter sua personalidade, única, distinta. Encontrou William já deitado em sua cama.
— Vai dormir? — Ele indagou, deitado e virando-se.
— Provavelmente sim, estou cansado da viagem. E o dia foi um tanto exaustivo. — Ele brincou, referindo-se à bagunça do lugar.
Will percebeu e sorriu sem graça.
— Eu me esqueci de agradecer, a culpa não é toda minha. Santiago não arrumava, eu também não arrumava. Cheguei a arrumar nos primeiros dias, mas ele vivia a bagunçar tudo. Acabei deixando do jeito que estava.
— Ótimo, só assim não terei que arrumar sozinho da próxima vez. — Ele falou e se jogou em sua cama.
— Sobre o negócio de lealdade, esquece. É desnecessário isso, é que eu estava irritado e acho que o fato de você ter arrumado todo o quarto — ele forçou um sorriso — já vale por qualquer desafio.
Colin ficou sem graça diante do provável elogio. Mas apenas sorriu retribuindo o mesmo gesto de Will.
— É que, bem, nossas repúblicas vivem em pé de guerra, e estou achando estranho nada ter acontecido até agora. Os Tigres são traiçoeiros, me pergunto o que Santiago e muitos outros veem naquela república. São todos uns falsos e mimados, deve ser por isso. Não há bolsistas lá.
— É o mundo em que vivemos, Will. — Colin disse com simplicidade, cobrindo-se com o cobertor logo depois.
— Mas cara, eu considerava Santiago como um irmão de sangue, apesar de todas as brigas. E ele está comigo desde que entrei aqui.
— As pessoas costumam nos surpreender. E foi bom isso ter acontecido, logo você acaba descobrindo quem é quem. Não vai ser sua primeira decepção, e bem, eu sei que essa não foi.
Will ficou pensativo diante das palavras. Decepção, ele odiava essa palavra. Quantas vezes já fora decepcionado por pessoas que acreditava serem legais e fieis? Realmente, Santiago não era o primeiro a fazer aquilo. Era esse um dos motivos de odiar tanto Sean, ele de alguma forma conseguia persuadir os membros leoninos e levá-los para lá.
— Quer saber, gostei de você. — Ele sorriu na escuridão.
— Todos gostam de mim. — Colin respondeu de forma irônica, mas verdadeira.
— Retiro o que disse. — Will falou, sarcástico.
Logo veio o silêncio. Ambos esperaram os sonhos. Will foi o primeiro a dormir, estava tendo um bom sonho, se levarmos em consideração todo o estresse do seu dia. Colin dormiu minutos depois, mas o sono veio carregado, tanto é que dormia como pedra, mas após um pesadelo acordou com sede.
Calçou suas sandálias e desceu as escadas em passos lentos, temendo acordar alguém. Encontrou a camisa que Will vestia logo cedo no corrimão e resmungou, colocou-a em seu ombro e prosseguiu o caminho até a cozinha. Dessa vez, sem Rick que com certeza iria acordar a qualquer momento para saber se alguém roubava algo para comer escondido.
Matou sua sede, fechou a geladeira e lavou o copo que usou. Estava voltando para o quarto quando ouviu passos vindos da sala. Atreveu-se a ir até lá, até que de repente sentiu seu corpo ser lançado contra a parede, no momento em que ia falar sentiu os dedos daquele que o empurrou pressionando seus lábios pedindo silêncio. Conhecia aquele olhar, profundo, traiçoeiro e cheio de mistério, mesmo tendo o conhecido recentemente. A respiração gélida e forte tocando-lhe a face. Sean estava sério e também assustado, assim como Colin.
Quis saber o motivo de o garoto ter invadido a república aquele horário, mas suas perguntas com certeza não seriam respondidas. Ele tentou falar novamente, mas Sean agora o calou com a mão inteira.
— Não diga que me viu aqui, caso contrário arranco sua língua. — Ele murmurou no ouvido de Colin e desapareceu na escuridão.
Assustado, Colin ficou parado por alguns segundos sem saber o que fazer. Até então, sons semelhantes aos de tiro ecoaram por toda a república, rapidamente luzes foram acesas e os membros do lugar gritavam, viu Rick cair da escada e correu para ajudá-lo. Depois viu mais dois garotos, que não tinha visto horas atrás, correrem pela casa.
— Socorro! É tiro! — Leo gritava desesperado, puxando pelo braço Danion, que usava um samba canção.
— Se escondam! — Gaspar gritou em resposta, surgindo logo atrás deles.
Will surgiu logo depois, também assustado e de cueca preta, seus cabelos bagunçados e o seu rosto amassado e vermelho.
— Que diabos está acontecendo? — Ele gritou para Colin.
Colin não sabia o que responder. Sabia que aquilo fora algo tramado por Sean, por isso ele o flagrou ali naquele horário. Estava todo mundo assustado e ainda correndo, somente Ian estava escondido entre os sofás. Quando finalmente os sons semelhantes aos de tiro se cessaram, todos pararam.
Eles estavam assustados, mas Danion mais do que nunca ficou furioso e começou a xingar quando encontrou embaixo da escada bombas.
— Esses desgraçados me pagam! Eu juro que vou matar o infeliz que fez isso. Quem diabos eles pensam que são pra invadir a república e nos assustar dessa forma?
Eram bombas caseiras, e Colin deduziu serem feitas por algum químico membro da república logo à frente. Will sentou-se no chão descarregando todo o peso dele em um só soco contra a parede, Leo pusera a mão no corrimão e abaixou a cabeça. Ian levantou ainda assustado e também furioso.
— Tenho que concordar com o Danion, já está na hora de fazermos algo. Pela segunda vez eles invadem nossa república, caralho! — Gaspar falou.
Era um moreno, baixo e barbudo, mas pela força das palavras, era de se deduzir que era violento.
— Leo, vai pegar uma calça pra mim que eu vou invadir aquela república na base do soco. Isso pra mim já chega.
— Eu não gosto de brigas, mas juro que dessa vez não irei tolerar. — Leo resmungou e estava subindo as escadas, obedecendo a Danion.
— Ninguém vai fazer nada agora! — Will gritou, parando Leo no último degrau.
— Mas...
— Primeiro temos que saber como eles conseguiram entrar aqui e quem invadiu.
Depois de dizer isso, Will desceu os degraus e caminhou até Danion, pegando as bombas caseiras, já usadas, em suas mãos.
— Foi Sean. — Colin disse, mas sem encarar os outros e logo em seguida jogou a camisa pra o loiro.
Próximo dali, na república de nome Águias, somente Sebastian e seu irmão estavam acordados. Era uma república mista, com garotos e garotas morando juntos, porém, o ruivo colocava a ordem para que nada fugisse dos limites. Garotos não podiam dormir com garotas, sem contar que ele gostava de evitar que casais se pegassem em cômodos livres da casa. Das três repúblicas, a Águia era a maior e sempre movimentada. Observando pela janela, Caine estava atento à movimentação na casa à frente. Sabia que algo errado estava acontecendo por lá, justamente porque as luzes acenderam em sequência.
— O que você tá olhando? — Sebastian perguntou, quando voltou da cozinha.
— Acho que você vai ter que ir lá novamente. Tem algo errado acontecendo.
— Dessa vez eu vou dormir. William sabe lidar com sua república e também sabe cuidar de Sean. Já estou cansando de tentar acabar com essa briga dos idiotas. — Ele respondeu, mas ainda assim preocupado.
O ruivo, o maior, puxou o irmão da janela, forçando-o a parar de observar o que acontecia. Caine viu quando Sean saiu da república adversária, mas não quis falar nada. Principalmente porque Sebastian já estava cansado disso tudo, e ambos com certeza deveriam dormir.
Caine, quando entrou em contato com a luz, deixou aparecer o que mais cedo tentou esconder do seu irmão. Ele rapidamente se afastou da luz.
— Você se machucou? — Ele perguntou, mas já suspeitando de algo.
Caine desviou o olhar de Sebastian voltando para a janela. Foi um erro, pois o irmão mais velho conseguia perceber quando o menor estava mentindo. E não respondê-lo deixou claro que ele novamente havia se metido em confusão.
— Foi Danion? — Perguntou, já furioso.
— Foi. Mas ele não teve culpa, eu apenas acabei derrubando-o no chão. — Tentou se explicar. — E ele parecia estressado com alguma coisa, por fim achou que eu o derrubei propositalmente.
— Quantas vezes você vai derrubá-lo propositalmente? Eu já não acredito mais nessa desculpa, Caine. Vai ser a última vez que tentarei conversar com Will sobre isso. E caralho, para de ser fraco!
— Eu não sou fraco. — Ele murmurou, mas Sebastian o ouviu.
— Claro que é. Você sempre deixa Danion bater em você. Não só ele como metade dos universitários, e eu sempre tenho que me meter nas confusões por sua causa. Se nossos pais souberem o que realmente acontece aqui, com certeza nos tirariam daqui. É isso que você quer?
Sebastian já estava se exaltando. Logo acabaria acordando alguns que iriam reclamar sobre os gritos. Mas Caine também odiava quando o seu irmão era grosso com ele. Ambos já haviam tido esse diálogo por milhares de vezes, mas nunca tinha um fim.
— E o que você quer que eu faça? Que eu seja igual ao Sean? Will? Ou igual ao Danion? — Ele agora virou para encarar o irmão. — Não gosto de brigas, Seb. E você também não gosta, e por ser amigo dos donos das duas repúblicas vive tentando apaziguar a situação.
— É diferente. Eu só acho desnecessário toda essa rivalidade. Tudo bem que Sean é um babaca e vive provocando todos por ser um rico, mimado e egocêntrico. Mas você é meu irmão, e eu devo me preocupar com você, por isso já te disse milhares de vezes pra aprender a se defender, pois nem sempre estarei presente.
— Certo. Eu vou para o meu quarto. — Ele disse cabisbaixo. — Acho melhor você se acalmar com sua namorada.
E o mais novo saiu dali. Não chorou, mas conseguiu demonstrar a tristeza nas últimas palavras. Sebastian era um bom irmão, um pouco grosso com ele, mas não deixava de ser um ótimo irmão. Só queria o bem de todos, sem a idiota rivalidade criada por Sean e Will.
Santiago esperava sorrindo quando Sean resolveu aparecer. Ambos agora também dividiam o quarto, assim como Will e Colin. Foi tudo planejado por Santiago, e o moreno adorou pegar confiança logo no primeiro momento. Devolveu as chaves do fundo da república para o até agora chamado amigo e jogou-se em sua cama.
— Eles vão te matar pela manhã. — Santiago disse, sorrindo.
— Que venham. — O moreno usou do seu sorriso mais travesso e passou a mão em seus cabelos.
Fale com o autor