Renúncias
5 Capítulo V
Notas iniciais
Alguns dias depois da celebração do aniversário de Julian Solo, Saori Kido precisou retornar para o Japão a fim de resolver assuntos da Fundação Graad, mas antes de partir, decidiu convocar o restante da cavalaria numa reunião no Coliseu. Ao sol do fim da tarde, a deusa observava de um palanque a assembléia organizada por patente, aquela formação oficial fazia o coração da jovem deusa pulsar forte, era uma das poucas vezes que se sentia como a deusa que era:
—Como sabem, apesar ser a reencarnação de Athena, também sou Saori Kido — A jovem deu uma pausa natural — Por conta disso, precisarei retornar ao Japão por algum tempo para resolver assuntos civis. Levarei Kiki comigo, caso surja alguma emergência. Agora, antes de ir, preciso fazer um anúncio. Marie, por favor, um passo à frente.
A sobrinha de Saga obedeceu a deusa. Usava a máscara e a túnica preta costumeira. Ajoelhou em reverência:
—Aqui estou, sua Santidade.
—A maioria de vocês não deve saber, mas Marie foi uma das primeiras pessoas além de Shion, que conheci enquanto era criança aqui, no Santuário — Saori suspirou, enquanto caminhava lentamente em direção a amiga — Marie foi a única pessoa a me tratar como uma criança, brincava comigo, me fazia companhia… Quando ficou sem o tio, Shion a colocou como minha acompanhante… Se hoje eu estou aqui, viva, foi porque Marie ajudou Aiolos a enganar os soldados e fugiu por outra rota me levando. Foi o Cavaleiro de Sagitário quem me entregou a Mitsumasa Kido, porém eu só consegui sair do Santuário graças a ela. Justamente por esse ato de nobreza, eu farei algo que já passou do prazo.
A deusa ergueu o báculo dourado e o postou sobre o ombro da morena, que ainda estava ajoelhada a sua frente. Kiki se aproximou, carregando uma urna prateada:
—Aqui está, senhorita.
—Obrigada, Kiki — a deusa respondeu, sem tirar os olhos da morena — Por sua fidelidade para comigo e seus serviços prestados ao Santuário, eu lhe honrarei, Marie, com a Armadura de Prata da constelação de Pavão. Uma armadura que já está no seu destino há tempos, mas que lhe foi negada por ganância de alguns.
As palmas foram secas e sem muita comoção . Ao longe, um grupo de amazonas cochichavam, escondidas entre os cavaleiros que as ladeavam :
—Eu sei que cavalaria está desfalcada, mas qual a necessidade de dar uma armadura a essa aí?
—Nunca a vi treinando — disse chutando uma pedrinha
—Vocês escutaram — outro rosto mascarado falou ironicamente — Ela é amiguinha da deusa e todas nós sabemos que ela se envolvia com o falecido Grande Mestre.
—Além de ser sobrinha do Saga…
—Essa é a geração mais falsa de Cavaleiros que já existiu.
Com o anúncio de sua armadura, Marie se ergueu, elevou seu cosmos e sentiu seu corpo ser envolvido pela armadura que fora outrora de sua mãe. Subiu no elevado, ladeando a deusa, um pouco emocionada, pois há tempos havia desistido de se sagrar amazona, conformando-se com o cargo de acompanhante da Deusa. Não quis saber de decoro naquele momento que lhe foi tão aguardado, abraçou Saori, sendo correspondida com todo o amor que a deusa tinha por ela:
—Eu não deixei de pensar em você um só momento… — a jovem de cabelo lilás sussurrou em sua orelha — Só não falei com você quando se infiltrou na minha casa porque não sabia se você estava sendo seguida.
—Você… — Marie se espantou — m-me reconheceu?
—Lógico que te reconheci — sorriu, soltando o abraço — Como disse, nunca deixei de pensar em você, minha querida amiga…
Marie curvou o corpo mais uma vez e desceu do elevado. Após a rápida cerimônia, Saori deu algumas últimas instruções sobre as semanas que se seguiriam e partiu com os cavaleiros de bronze que sempre a acompanhavam. Apenas Shiryu e Hyoga decidiram permanecer na terra sagrada. O dragão com a missão de aprender mais sobre o legado do Mestre Ancião e Hyoga quis acompanhar o amigo nas pesquisas, mas também queria aproveitar mais um pouco do tempo com Kammy. A protegida de seu mestre ganhava, a cada encontro, cada vez mais afeição do cavaleiro de cisne.
***
Alguns dias após a partida de Saori em canto do Coliseu, Kammy atirava pequenos pedregulhos que Sammyrah tinha que repelir com a mente. O Cavaleiro de Áries estava com elas, apenas supervisionando e evitando que a loira acabasse por machucar a amiga, quando os sinos começaram a tocar:
—Desertores? — a ruiva questionou, levitando por alguns instantes a pedra que foi lançada e pegando-a com a mão.
—Não… – Mu respondeu – Uma invasão.
—Você está calmo demais, Senhor Mu. — Kammy indagou — Pelo soar dos sinos, o invasor foi direto pro Zodíaco Dourado.
—E Aldebaran está lá – sorriu o cavaleiro de Áries – ninguém passa pela defesa do Touro.
—É… — Sammyrah falou entre risos — E o elmo dele nos recorda todos os dias o que um pequeno pônei de asas fez – Mu desviou uma pedrinha que Kammy jogou diretamente para o meio da testa da ruiva — AI MU!
Os sinos pararam de tocar e um grupo de soldados veio correndo na direção de Mu, que ria distraído com Kammy de Sammyrah:
—Senhor Mu… — um deles tomou a frente – Aparentemente o invasor escapou pela saída norte.
—Era apenas um?
—Sim, senhor. Ele derrubou alguns soldados usando ar frio e…
—Mu! Mu! — era Hyoga, que vinha andando apressado – Aldebaran foi ferido.
—COMO É QUE É? — o tibetano questionou, empurrando o soldado e seguindo o Russo.
—A Marin está com ele agora, no Templo da Cura. Foi um ferimento superficial, mas parece que o guerreiro usava o ar congelante.
—E isso certamente diz algo a você, não é?
Ele balançou a cabeça positivamente e respondeu:
—Eu tenho uma suspeita… E não gosto nada dela.
Mu seguiu com o Cisne e, quando Sammyrah mencionou fazer o mesmo, foi bloqueada pela loira:
—Não é um assunto que nos diz respeito.
—Mas eu quero saber quem foi que-…
—Eu também quero arrancar membro por membro do desgraçado que fez isso. Mas, se o cara… Ou a mulher, foi capaz de derrotar o Debs, tenha certeza que é alguém muito forte.
—E o que faremos?
—Continuamos a treinar ué — A loira deu de ombros e viu a amiga cruzar os braços — Você está progredindo muito. Adorei o levitar da pedra, a propósito – inspirou – quanto ao ataque, certamente o Senhor Mu, a Marin ou o Hyoga nos dirá o que aconteceu. Agora vamos para o bosque. Eles saberão onde nos encontrar.
—Fazer o que, né? — A ruiva jogou os braços para cima e passou a mão pelos cabelos — O Mu amassou minha máscara...
—Não preciso ler mentes pra saber que você está rolando com os olhos por trás dessa máscara!
As duas seguiram sem pressa até o seu ponto de treino favorito em uma das clareiras do bosque que rodeava o Santuário, perto do Templo da Cura. Depois de um delicioso almoço, que dividiram como se fizessem um piquenique, as duas retornaram a sua rotina de treinos que fora interrompida pelo ataque.
Horas depois, a dupla de amazonas ainda estava na clareira, se dividindo entre treinos e conversas bobas, quando Hyoga surgiu. O cavaleiro de bronze usava suas roupas casuais e carregava a urna com a Armadura de Cisne nas costas:
—Senhoritas…
—Hyoga! — Kammy respondeu num pulo, ficando de frente para o rapaz – Como está o Aldebaran?
—Fora de perigo — respondeu firmemente Cisne — Quem o atacou não tinha a intenção de matá-lo, era como se o guerreiro quisesse testar a força de um dos cavaleiros de Athena.
—Péssima hora para…
—Se você terminar a frase, eu juro que te boto pra dormir no relento – Kammy pensou com firmeza, apenas para interromper a ruiva. Depois prosseguiu em voz alta – Você disse ao Senhor Mu que tinha uma suspeita…
—Sim. — Hyoga colocou a caixa de pandora no chão e sentou em cima dela — Pela forma como o ataque foi feito e o fato dele usar ar congelante, esse guerreiro veio das Terras Gélidas do Norte. Gaard Azul ou Asgard… De qualquer forma, irei ao Japão solicitar autorização de Athena para verificar ambas possibilidades.
—Athena… — Sammyrah falou seria, algo estranho vindo de alguém que era quase sempre sarcástica – Ela já soube do ataque?
—Mu enviou uma mensagem telepática pelo Kiki. Como sabem, ele está junto da Deusa justamente para servir como meio de comunicação – suspirou – Enfim, Kammy… Eu só vim lhe dar adeus.
—“Adeus” é uma palavra usada por conformistas que já aceitaram a derrota – a loira se aproximou e tirou a máscara – eu prefiro mil vezes um “até logo”.
E, por fim, o abraçou e lhe deu um terno beijo nos lábios. Sammyrah, que estava sentada em uma rocha observando tudo enquanto caçava os cigarros que tinha deixado escondidos ali outro dia, apenas abriu os braços em indignação. Por fim, o beijo cessou:
—Até logo, Hyoga. — E colocou a máscara como se nada tivesse acontecido
—A-Até… — O loiro colocou a caixa da armadura mais uma vez nos ombros e, encabulado, saiu andando pela clareira até desaparecer entre as árvores do bosque.
Assim que o loiro sumiu de vista, a Amazona de Cervo virou para Sammyrah, com a voz calma e questionou:
—Então… Onde estávamos?
—Eu não sei… — A ruiva tirou a máscara — Mas pelo que eu saiba , a pudica da casa era você, não eu! — Ela acendeu um cigarro rapidamente e sorriu antes de dar o primeiro trago – Agora me diz uma coisa, só vai dar essa beijoca mixuruca nele?
—O-o que você define por mixuruca , Sammyrah? — A loira inspirou fundo tirando a máscara também.
—Bem.. Sendo pessimista, mas também coerente… Ele pode morrer amanhã e, aí, você nunca vai saber dos reais talentos do loirinho siberiano — Ela tragou e soltou a fumaça pelo nariz — Ele tem umas mãos bem grandes, né?
—TATIANAAAAA! — O grito que a loira deu espantou alguns pássaros que estavam nas árvores
—É sério! — Ela tragou outra vez — E não grita meu nome assim que ele não deve ser usado em vão — Sammy deu um meio sorriso — Deixa de se fazer de boba , Aimeé... — A ruiva se aproximou e tocou com o dedo entre as sobrancelhas da sua amiga — Eu sei que você não é tão santinha aí no fundo.
—O QUE DIABOS VOCÊ FAZIA COM O SHURA? — questionou Kammy, envergonhada
—Ahh...isso não te interessa — a ruiva cruzou os braços e virou de costas
—Mas tu não era mortalmente apaixonada pelo tiozão com dupla personalidade, criatura?
A ruiva corou e fechou a cara, devolvendo um grito:
—É MAS A GENTE TRABALHA COM O QUE PODE! EU TINHA MINHAS NECESSIDADES! — respirou fundo – fora que, o Shu sempre foi um ótimo amigo… uma pessoa que eu tenho muito carinho… muito melhor que esperar o amor da sua vida querer algo com você…
—Mas você…?
—Ah garota você quer que eu desenhe? — ela bateu com uma das mãos na cintura e cruzou os braços – Vamos continuar o treino, que estamos aqui pra isso e não pra destrinchar os porquês das minhas escolhas…
Kammy percebeu naquele instante que o assunto incomodava a ruiva, tudo em relação a Shura parecia ser algo sensível para ela, coisa que ela jamais imaginava que poderia acontecer, pois Tatiana vivia se gabando de suas experiências e de como ela era desenrolada e não deixava passar nada, por não ser pudica nem “camponesa” como ela era. Ainda naquele mesmo dia, Mu ficou sabendo, por intermédio de seu aprendiz, que o atentado realmente viera de Asgard, sendo que Hyoga chegou a Tokyo em meio a um ataque efetuado pelo mesmo Guerreiro Deus que nocauteou Aldebaran, logo decidiu ir a cabana de Kammy e Sammyrah para relatar todo o ocorrido:
—Aparentemente, Hilda de Polaris, representante de Odin na Terra está cansada de dividir o comando do planeta com Athena — o ariano relatava a Kammy e Sammyrah na cabana delas — Ao menos foi isso que o Kiki disse ter ouvido do tal Shido de Mizar.
—Ah… mais problemas para nossa jovem deusa e seus escolhidos, hein? — a ruiva ralhou, tamborilando os dedos na mesa
—E o que Athena decidiu? — Questionou Kammy.
—Hyoga foi para Asgard verificar se Hilda realmente ordenou o ataque ou se o guerreiro agiu de má fé — O cavaleiro suspirou com um ar confuso — enquanto Shiryu partiu para a China e está com o Mestre Ancião reunindo informações sobre os Guerreiros Deuses.
—Espero que tudo acabe bem — a loira murmurou, fechando as mãos em forma de oração.
—Relaxa, Barbie, que o seu Ken escandinavo com a cara do C.C. DeVille sem maquiagem vai voltar são e salvo pros seus braços.
—Quem? — o tom da prima de Camus foi de total desentendimento
—Isso mesmo — A ruiva pousou o rosto na mão, instigando a mente ligeira de Mu.
A loira apenas balançou a cabeça ainda sem entender, enquanto Mu a encarava com certa curiosidade:
—Você e o Hyoga…? — ele não terminou a pergunta, mas fez um sinal com as mãos, como duas pessoas se beijando.
—Estão no maior amasso sim, Mu — a ruiva resumiu e Kammy instintivamente tentou puxar a trança do seu cabelo, mas foi bloqueada pela mesma, fazendo com que Kammy caísse desengonçada no chão.
—Aí, sua… ARGH! — A loira se levantou enfezada e voltou o rosto mascarado ao tibetano — desculpe, Mestre Mu. Não, não estamos namorando… Quer dizer, eu não sei… Ficamos próximos após a morte do Mestre Camus e estamos nos dando bem desde então. Foi apenas um beijo, mas…
—Eu já entendi — estendeu a mão e tocou-lhe o ombro a fim de confortá-la — Tente ocupar sua mente com coisas boas, por exemplo, em como fazer a Sammyrah controlar os poderes e a língua dela.
—Os meus poderes talvez... — a amazona de Perseu questionou, ficando de pé com ambas as mãos na cintura — Mas nem minha mãe consegue me regular imagine esse pudinzinho de leite que a Kammy é...
—Hahaha… Bem meninas… — falou o cavaleiro, já se levantando para deixar a cabana — Eu manterei vocês informadas.
—Obrigada por isso, Senhor Mu.
Assim que o ariano deixou a cabana, Kammy passou a tranca, tirou a máscara e caminhou até a saleta:
—Hey, Sammy… Tem uma coisa que quero te perguntar há alguns dias… Posso?
—Claro — respondeu, também livrando-se do adorno facial, sentando e acendendo um cigarro.
—Aquele livro com uma rosa na capa…
—É o diário da minha avó — soltou a fumaça e começou a desfazer a trança — Ela me entregou no leito de morte, dizendo que era uma das chaves para eu acessar a minha herança.
—E você já pegou?
—A herança? — viu a loira balançar a cabeça positivamente e respondeu — Não… Eu tive um pressentimento ruim e decidi voltar ao Santuário. Nem abri esse diário e, com isso de alerta de ataque, não podemos sair daqui… — suspirou — Nem mesmo eu, que tenho permissão para isso.
—Também não teve nem um pingo de curiosidade para abrir o diário?
—Até tive, mas… — deu uma tragada intensa — Eu tenho uma tia louca, que acha que tudo que era da minha avó pertence a ela… Eu tive medo de abrir o diário, achar o local que essa tal herança está e ela querer tudo, sendo que a Babushka falou claramente que meu avô e ela deixaram isso para mim… Agora vai saber em qual lugar da França.
—Ou do Santuário…
Tatia apagou o cigarro em um copo, virou o corpo e encarou a filha de Dorothée. Ela segurava uma foto nas mãos, enquanto o diário estava aberto sobre o sofá:
—Por que você mexeu aí?!
Ela se levantou rapidamente e tirou a foto da mão da loira, examinando-a. Duas crianças; uma menina de, mais ou menos, 5 anos e um bebê de pelo menos 6 meses. Estavam sentados em um campo florido, onde diversas colunas estavam caídas, a menininha tinha os cabelos soltos e usava um vestido de fazendas aparentemente branco, com a saia bordada com rosas e o bebê em seu colo, parecia estar só de fraldas e com uma camisetinha. A arquitetura podia fazer parte de algum ensaio fotográfico, mas a sombra do Zodíaco Dourado e da estátua de Athena ao fundo não negava: Era uma foto de Alexandra e Dimitri crianças no Santuário.
—Eu não o fiz por mal, Sammy. Você sabe que eu sou a louca dos livros... já estava tentada a espiar quando vi a capa — murmurou, sentando no sofá e encolhendo as pernas — Quando você disse que era um diário da sua avó, a Romanov sobrevivente, a tentação veio com mais força e tive que abrir em qualquer página. Foi aí que vi a foto e… Não sei quem é a garota, mas esse bebezinho, que parece ruivo, certamente é o seu pai. Não o conheço, mas…
—Sim, somos muito parecidos — indagou sem tirar os olhos da foto — Só que minha avó nunca disse nada sobre ter estado no Santuário. Quer dizer…
Ainda fitando a foto, Tatiana recordou dos últimos momentos com sua querida avó, mais especificamente de uma frase que ela disse: “você fez o que eu não quis fazer… Dominou sua bruxaria e ainda conseguiu uma Armadura de Prata”. Ela poderia saber do Santuário por intermédio de Dimitri, porém ela nunca falou nada com ninguém, nem com a mãe, sobre ter conquistado uma armadura, pois chegou em Paris muito transtornada para fazê-lo:
—Tatiana Romanova, na escuta? Câmbio? — Kammy estalava os dedos enquanto falava, a fim de tirá-la do transe — Achei outra foto solta. O colar me denuncia que essa é sua avó, mas quem é o bonitão enfiado na Armadura de Peixes?
Os olhos verdes da ruiva se arregalaram antes que ela tomasse a foto das mãos de Kammy. Aquela realmente era sua avó, o nariz fino e os olhos azuis gelados que quase tinham um tom de cinza, naquele momento a voz delicada de sua avó surgiu em sua mente dizendo “os olhos dos Romanov”, em frente a décima segunda morada, usando uma longa túnica e um arranjo floral na cabeça, que lembrava os louros dos deuses. O cavaleiro a seu lado tinha algumas feições de seu pai, o sorriso que sua vovó adorava, mas era mais alto e forte, lembrava o porte de Saga e, apesar de ser uma fotografia no tom sépia, Tatia reparou uma coisa:
—O olhar dele… É igual ao do Sergei. — A ruiva suspirou um pouco ansiosa — Esse deve ser Keith, o meu avô.
—Você tá querendo me dizer que é neta de Cavaleiro? — Kammy arregalou os olhos
—Bem… é o que está parecendo… — ela sentou no chão, colocando as duas fotos a sua frente, as encarando — Mas não faz sentido… Se meu pai soubesse do Santuário ele não teria encarregado minha mãe de decidir se eu deveria vir ou não… ele apenas me entregaria ao Afrodite, pois saberia o que é o cosmo. O mesmo vale para a tia Alix… Ninguém precisaria dizer a ela que eu estudo em um “internato conservador na Grécia” — fez aspas no ar — O que você acha disso, Kam?
—Eu posso estar viajando na maionese, mas você tem poderes paranormais… E se a sua avó também os possuísse e utilizou esse poder para apagar a lembrança do Santuário da mente dos filhos?
—Ela os possuía… Não tão fortes quanto os meus, mas acho que sua teoria faz sentido…
—Bom, só temos um jeito de descobrir — a loira indagou, estendendo o diário a amiga — Se você não o ler, eu terei que fazer isso.
—Sua rata de biblioteca curiosa!
A ruiva pegou o livro das mãos da amiga e respirou fundo. Abriu na primeira página e a letra desenhada da avó fez seu coração aquecer. Prestou atenção na data, e passou delicadamente o dedo sobre aquelas letras desenhadas e, percebendo o olhar curioso por parte de Kammy, começou a ler em voz alta:
—O dia já amanheceu estranho, as crianças estavam mais agitadas que o normal , sobretudo o pequeno, que não queria ficar longe do pai sobre nenhuma circunstância e que tinha causado uma cena horrível quando Keith teve que voltar graças àquela convocação. Por mais que o rancho seja grande e tenha um amplo bosque, ele sente falta de correr entre as colinas do Santuário e de todos os mimos que ele recebe dos colegas de cavalaria de Keith. Não o recrimino, pois também sinto falta daquele lugar…e dele.
“Shion surgiu enquanto eu cuidava do roseiral de Keith. Eu não gostava de mexer nas rosas venenosas, mas ele simplesmente não conseguia viver sem elas, portanto assim que nos mudamos, ele construiu o paredão de rosas. A presença do Patriarca me preocupou muito, pois ele não portava as vestes civis que costumava usar quando fazia uma simples visita. Usava o manto Sagrado de grande mestre e assim que ele retirou o elmo pude ver seu olhar triste, eu conhecia profundamente aquela expressão… quantas vezes Shion não me ajudou com as buscas das minhas irmãs, e, todas as vezes, retornava com uma flor e esse olhar devastado. Eu temia o que ele tinha para me dizer, mas a ansiedade não me deixou em paz e eu precisava saber o que Shion tinha para me contar do meu querido Keith… Com lágrimas nos olhos, ele me contou que Keith havia falecido cumprindo seu dever de cavaleiro, na última missão que ele tinha sido designado. Antes de partir, ele me deu um abraço forte e me pediu calma para contar a notícia as crianças, que eu digerisse tudo aquilo antes de lhes dizer qualquer coisa, pois ele sabia que o cavaleiro de Capricórnio viria prestar suas homenagens e nos buscar para os ritos fúnebres. Como conseguirei omitir isso dos meus filhos? Acho melhor eu tentar me lembrar dos bons momentos que passamos juntos e tudo que ele fez para me reerguer… seus doces olhos âmbar… preciso me preparar, pois não posso desabar na frente das crianças… minha pobre mãe se manteve forte diante de pressões tão maiores...”
—Eu tô chocada — foram as únicas palavras que saíram da boca de Kammy — V-você… Tá bem?
Sammyrah estava perplexa, passava os dedos pelo papel antigo e podia sentir o coração batendo mais rápido da ansiedade, as palavras manchadas pelas lágrimas da avó que, claramente, buscava se consolar sozinha num momento tão difícil como aquele. Foi então que a ela ergueu a cabeça, exibindo o rastro negro nas maçãs do rosto:
—Por isso que o Misty sempre me disse para usar a prova d’água — a loira riu, partindo para o lado da amiga
—Eu posso sentir…
—O quê, Tatia?
—Sentir o que a minha avó sentiu na hora que escreveu isso... o cheiro da casa, a ansiedade que ela tinha, o medo... TUDO! — Ela ajeitou a postura e enxugou as lágrimas que corriam
—Você quer que eu leia para você ?
—Não — Ela suspirou tentando conter as lágrimas — Eu preciso fazer isso, Kam! — respirou fundo e passou para a próxima página. Mais uma foto. Dessa vez ela e Keith estavam na frente de uma floricultura. Tatia reconheceu aquele prédio de imediato, era o prédio em que ela morava em Saint-Germain com os pais. Na página seguinte, datada de algumas semanas para a frente, estava a solução de um dos maiores questionamentos que ela tinha naquele momento, porque todos em casas agiam com tamanho estranhamento por ela ter sido convocada para o Santuário:
“Acho que é a última vez que escrevo aqui, no nosso quarto. A pedido de Shion, vim ao Santuário resgatar alguns pertences, mas assim como um pedaço de Keith vive comigo no rancho, eu quero deixar um pedaço meu na Casa de Peixes. Eu lacrarei o nosso aposento, com todos meus livros, quadros, fotos… Tudo que nos ligava ao Santuário ficará aqui. Talvez, algum dia, eu deixe o pequeno tesouro que é nossa história para alguém, alguém que possa entender de corpo e alma tudo que nós sentimos… Estou aguardando Alix e Dima dormirem. Decidi que eles também não precisam lembrar da vida deles aqui no Santuário. Keith me ensinou como unir meus poderes as rosas e mexer com pequenas lembranças. Como eles são crianças, será bem mais fácil plantar novas memórias neles. Só espero que eu consiga.”
—Então… Foi isso mesmo. Ela apagou o Santuário da memória do meu pai e da minha tia
Tatiana ergueu o rosto, ainda sujo de rímel, e seu olhar encontrou o de Kammy imediatamente. Elas não precisaram trocar nenhuma palavra. A prima de Camus apenas lançou a máscara para a ruiva e, já de pé, falou:
—Vamos pelo caminho secreto. Tive a honra de conhecê-lo quando matei o Piton
—Primeiro beija o Patinho de Gelo e, agora, matou o Piton. Você é realmente a camponesa que eu conheci? — debochou.
—Eu jurei me vingar daquele que causou a morte do meu Mestre. Seiya não teve escolha, porém o Piton teve quando o mandou para uma batalha sem sentido.
—Olha essa nossa convivência está te fazendo bem, nunca te imaginei como uma mulher vingativa...
—E eu nunca te imaginei como uma chorona — deu de ombros fazendo a amiga rir — agora vamos logo atrás desse aposento secreto antes que anoiteça. Quero saber mais sobre o seu avô bonitão...
Enquanto se esgueiravam pelas vielas do caminho alternativo, elas conversavam sobre a arquitetura Doze Casas:
—Apesar delas apresentarem algumas diferenças em sua área comum, todas foram construídas seguindo um esquema militar da Athenas antiga — Kammy comentava — tanto o Misty quanto o Crystal me falaram que, no princípio dos tempos, os Cavaleiros de Ouro agiam como generais de seu exército, tendo cada qual a disposição, 2 cavaleiros de prata, 4 de bronze e quantos soldados e servos quisessem.
—O Dido também falou nisso, porém sem tantos detalhes. A única coisa que ele disse foi que esse esquema de "cada dourado ter, no máximo, 6 asseclas” ainda é usado, mas que alguns tinham privilégios para recrutar seus agregados...
—Certamente uma indireta ao Camus, que, contando comigo, tinha 3 asseclas de prata ... Falando nisso, alguma vez ele te disse porque odiava tanto o Mis?
—Nunca... Mas acho que tem a ver com o fato de sempre compararem a beleza deles. E você sabe que era um ódio mútuo.
—Sim, só que uma vez perguntei e o Misty disse que era uma "bobagem infantil e sem importância", enfim... Você tem alguma ideia de onde seja esse quarto?
—Bom, tinha uma ala da Casa que o Dite nunca me deixou ir. Até tentei entrar, uma vez que ele foi tirar o sono de beleza, mas algo me repeliu... Como se tivesse um escudo protetor ali.
—Não entrou porque não tinha a chave de acesso... — apontou para o camafeu no pescoço da ruiva — agora você conseguirá.
Sammyrah acenou com a cabeça e continuou a seguir a Amazona de Cervo. Logo, alcançaram a Casa de Peixes:
—Agora resta saber se eu conseguirei entrar com você.
Adentraram no 12º templo pedindo licença respeitosa a alma de Afrodite. A Casa Zodiacal mantinha o calor e o aroma de rosas do seu finado protetor. A ruiva inspirou, soltando o ar lentamente e, em seguida, puxou Kammy pela mão:
—É por aqui.
Os corredores estavam escuros. Certamente nem as servas acessavam aquele lado da casa. Elas sentiram a barreira, porém Sammyrah se concentrou, sentindo o camafeu esquentar. Em seguida, passaram sem problemas. No fundo daquele corredor, uma porta bonita, com rosas entalhadas na madeira. Foi preciso um pouco de força para empurrar, provavelmente as dobradiças estavam enferrujadas. Kammy apertou a mão da amiga:
—No três?
—Sim.
A contagem foi mental e as duas entraram com o pé direito no aposento e sentiram-se como numa viagem no tempo, o quarto era enorme tinha os janelões imensos com uma pequena varandinha, como o quarto de Afrodite, uma cama de casal forrada com lençóis rosados com um dossel ferro, cujas cortinas estavam desfeitas pelo tempo. Em outro canto, uma escrivaninha, onde um vaso exibia uma rosa solitária e murcha. Tatiana também viu uma penteadeira antiga, lembrava muito a penteadeira que a avó tinha em casa, mas tinha adornos e cores diferentes, na mesinha da penteadeira, havia uma caixa de madrepérola, com algumas joias, ao lado organizadas em ordem de tamanho estavam dispostas escovas, pentes de ossos, presilhas de flores e por fim uma caixinha de música de corda. Tatia riu ao lembrar da avó praguejando e rindo para si mesma enquanto se pegava arrumando as coisas na casa do filho, “maldita alma de governanta”. Pegou a caixinha com cuidado, girou a manivela algumas vezes e lembrou da melodia de Czardas, que a avó sempre cantarolava enquanto cuidava do jardim. Kammy também caminhava pelo quarto, achando um guarda-roupas fechado, com uma espécie de vitrine no meio, lá dentro viu dobrado uma peça branca, com uma pequena coroa de flores secas em cima, supôs ser o vestido de casamento que viu na foto momentos antes. Depois um espelho de parede, com uma foto colocada entre a moldura e o espelho. Usou os dedos para tirar a crosta de pó e viu o rosto semelhante ao da amiga, segurando um bebê nos braços. Ao seu lado, o sorridente cavaleiro de peixes:
—É como se estivéssemos em uma cápsula do tempo — Kammy comentou animada após um espirro
—Sim... E, cada objeto que toco, eu a vejo... — tirou a máscara e caminhou até uma estante, passou os dedos delicadamente. Eles tinham o mesmo padrão, mas a cor do couro da capa mudava entre os dois primeiros, até que se investiu, limpando um pouco mais os dois primeiros e reconheceu o signo da águia bicéfala da sua família, logo pegou rapidamente o primeiro diário de couro negro e se sentou no chão ao lado da estante. Kammy veio em seguida:
—Vai ler em voz alta, né?
—Curiosa... — riu, enquanto abria na primeira página, logo se deparou com uma foto da avó com sua irmã mais velha Olga, com um buldogue francês em seu colo em algum canto aparente do palácio — Que fofo! Olha, é minha avó com minha tia-avó Olga…
As meninas rapidamente leram aquele diário, tinham entradas simples e cotidianas, aparentemente pelo conhecimento que Tatia tinha, ela sabia que pelo rumo da história tudo aquilo acontecera antes do confinamento da família em Tsarkoïe-Selo, em uma das entradas, vovó explicava seus poderes anormais e de suas irmãs, que assustavam criados, padre e preocupavam seus pais, que não entendiam a origem daquilo tudo.
“Papai, em nosso jantar familiar semanal, ressaltou mais uma vez a preocupação por eu e Olga estarmos adivinhando coisas. Ele temia que algum membro da corte nos denunciasse por bruxaria. Maria e Anastasia também manifestavam poderes, mas as meninas pareciam ter mais controle sobre aquilo do que nós, pois suas clarividências surgiram no auge do convívio de Rasputin com nossa família. Os meus poderes e os de Olga eram diferentes, ele dizia. Ele não não reconhecia aquele tipo poder nem de influência, que vinha de uma outra fonte, diferente da de nossas irmãs”
—E-eu nao sabia que todas elas podiam…- Tatia falou enquanto enrolava os cabelos e analisava mais uma foto caseira de sua avó e suas irmãs.
—Claramente o Czar tinha um pequeno sabá dentro de casa e queria ignorar, não é mesmo? — Kammy parecia animada em participar daquela leitura
—Verdade… será que por isso ele decidiu por não alterar a lei que impedia tetya Olga de ser imperatriz? — A ruivinha suspirou, alisando os rostos sorridentes de sua avó e de suas irmãs — Minhas pobres tias…
Elas continuaram a ler o diário animadamente, viram o relato da morte de Rasputin e toda a tristeza e caos que trouxe a família. Mas logo depois, percebeu uma entrada diferente no diário:
—Kammy, olha isso aqui…
“Escrevo aqui de madrugada, uma situação estranhíssima que acabo de presenciar em casa. O baile tinha acabado há algumas horas e eu estava desejando alguns doces que vi que sobraram da festa, então fui com Maria, que sempre estava de pé por um lanche fora de hora. Fomos as duas até a cozinha sem sermos percebidas, até que ouvi uma acalorada discussão entre um homem estranho, de cabelos vermelhos longos e meu pai. Maria quis sair logo dali, medrosa como era, mas eu precisava saber do que se tratava tudo aquilo, só consegui ouvir por último o homem dizer: ‘sua família corre um grave perigo e só com a ajuda do Santuário poderemos salvá-los! A Casa de Peixes vem protegendo sua família a séculos! Rasputin não poderá protegê-los disso!’ e Maria me arrastou de volta para nossos quartos. Aquilo foi de arrepiar, lembro dele nos ver fugindo pelo corredor e fechar os olhos, o que papai estava recusando? Acho que, em breve, vamos descobrir”
Um pequeno ponto de observação foi adicionado, aparentemente, na manhã seguinte:
“Acordei com uma rosa vermelha lindíssima ao lado da minha cama. Não entendi, mas a escondi na minha caixinha de jóias antes que a governanta chegasse”
—Aparentemente, o Santuário quis alertar sobre o que iria acontecer e aconteceu logo depois… — Sammy sentiu seu coração apertar, pois sabia o que talvez enfrentaria nos próximos diários.
—M-mas o que aconteceu logo depois? — Kammy perguntou sentindo a ansiedade da amiga mudar
Tatiana esticou o braço e por preguiça, puxou logo os dois próximos diários e se espantou com uma coisa: a capa dos dois já era diferente. Ela não entendeu e ficou ainda mais intrigada ao abrir o diário seguinte. Ele tinha muitas folhas arrancadas, sujas e com longos períodos sem entradas. Sentiu o coração apertar por saber o que aquilo significava, passou por recados desconexos, folhas sujas, textos cifrados, até chegar numa página legível. A entrada não tinha data, então começou a ler tranquilamente:
"Eu ainda não sei como tudo aconteceu... eu me perdia nos dias, nos rostos dos soldados assustadores que nos vigiavam. Não conseguia passar mais um minuto sozinha, estava sempre com mamãe ou com Olga, que já estava rouca de cantar para fazer com que as crises de ansiedade forem embora. Estávamos a dias sem saber o que iria acontecer conosco, quer dizer, estávamos a meses confinados, sendo mudados de lugar, escondidos. Alexei e Anastasia me contaram de um cochicho dos soldados que o exército czarista estava se aproximando da cidade. Vi o rosto do meu irmãozinho se iluminar com a esperança, mas eu sentia como uma pedra no peito."
Tatiana pausou a leitura de novo, passando por folhas sujas, até encontrar uma entrada novamente legível, ela entendia o que a avó queria dizer, ela sentia o mesmo naquele momento e, pelo teor da última entrada ela sabia o que vinha depois. O maior trauma que alguém poderia viver e sobreviver, e ele passaria diante dos seus olhos. Voltou a ler, novamente em voz alta:
"Eu acordei na cabine de um navio. Minha última lembrança era de uma dor intensa e do gosto ferroso do sangue saindo pela minha boca, o peso de algo, ou alguém, sobre mim e este peso sendo tirado por um anjo dourado. Vi um belo cavalheiro sentado ao meu lado em uma poltrona , cochilando em um terno fino e segurando um chapéu nas mãos .Tentei sentar na cama mas não consegui. Senti uma pontada forte e reclamei da dor, fazendo ele acordar num pulo. Parecia preocupado comigo. Me ofereceu um copo de água e me ajudou a tentar ficar com o torso mais alto. Olhei bem suas feições e lembrei daquele rosto: o anjo de cabelos de fogo que me tirou daquele porão cheio de morte… mas eu lembrava de ter visto aquele rosto tanto tempo antes, porém minha mente exausta parecia me pregar peças. Será que ele entendia minha língua? Perguntei o que tinha acontecido com a minha família, e ele pareceu querer desconversar. Senti a ansiedade tomando conta de mim, mas eu não queria demonstrar. Senti todo cuidado que ele tinha comigo, os olhos que tinham uma cor exótica, parecendo as chamas da lareira no inverno. Ele falava muito bem o russo, mesmo que com um forte sotaque, não sei se galês, irlandês ou escocês, apenas sei que era galante.
Ele me prometeu que faria de tudo para que eu ficasse bem e que tinha resgatado este diário das mãos de um soldado e mais um outro, que estava escondido debaixo da minha cama."
—K-kammy, ele a salvou — a ruiva parecia embasbacada e tremia um pouco. Ela passava as páginas, lendo o conteúdo banal de recuperação da sua avó, até encontrar uma entrada mais longa.
—Sammy... você tem certeza que quer continuar a ler agora? — A loira se preocupava, pois sentia as alterações no cosmo da amiga. Conseguia até ver uma fina camada de energia vermelha entornando o seu corpo.
—S-sim, eu preciso saber — Disse Tatia entre soluços, retomando a leitura em voz alta
"Keith me disse que estávamos indo para a Grécia. Um lugar seguro, onde eu poderia me recuperar sem problemas e em paz. Eu me senti um pouco animada com a informação, mas mesmo assim, ele me fez um pedido. Ele me ajudaria a reescrever aquela noite horrenda, pois eu acordava quase todas as noites chorando e gritando e, aquilo, além de claramente me fazer mal, parecia assustar nossos vizinhos de cabine, o que comprometia nossa estada e poderia nos causar problemas. Ele se sentou ao meu lado na cama, alisando as minhas costas como incentivo, mas aquilo me fazia sentir mais calma…"
—Ja vi que o dom de conquistar belos rapazes é algo de família — Kammy riu recebendo um olhar sério da amiga
—Ele deveria estar acalmando ela com o cosmo de Peixes… ajudando ela a se lembrar do que aconteceu, sua maluca!
[00:53, 31/03/2020] Fia: "Eu me lembrava da tensão antes de dormir, um sentimento desgostoso, revirei na cama até me forçar a sonhar com Ortino correndo pelo jardim, até que Anastasia nos acordou ansiosa, dizendo que papai havia a dito de nos arrumarmos e descermos até o porão por segurança, pois os batalhões estavam muito próximos da casa e poderíamos nos ferir com balas perdidas. Anastasia não parecia saber, mas Olga me olhou de um jeito que fez minha espinha arrepiar. Vestimos todas os corselets que vínhamos costurando joias desde o início do confinamento, nos vestimos em roupas casuais e, cada passo que dávamos para entrar naquele porão, parecia apertar o meu coração ainda mais forte. Eu e as meninas descemos juntas. Mamãe pediu uma cadeira, pois sentia-se muito mal em passar muito tempo em pé. Um tempo depois eles trouxeram. Eu tremia até o fundo dos meus ossos, Olga segurava minha mão e me dizia que tudo ia ficar bem, até que, usando a cadeira par alcançarmos a pequena janelinha do porão, ela me mostrou que era apenas por segurança, entretanto eu ainda sentia, que tinha algo errado ali."
Kammy ouviu passos no corredor e, rapidamente colocou sua máscara e foi até o locsl observar se alguém se aproximava, até porque Tatia tinha parado de ler em voz alta. A lua já estava no meio do céu, ela nao tinha percebido o passar das horas:
—Talvez isso faça parte do poder de Sammyrah...
A loira vagou com o olhar e tomou um susto: no final do corredor estava Shaka de Virgem, de olhos fechados, portando um traje indiano típico. Era a primeira vez que ela via o santo de virgem em trajes civis:
—S-senhor Shaka... O q-...
—Sabe... eu não tenho nada contra vocês duas. Ambas já mostraram que são capaz de envergar uma Armadura de Prata e, ao que tudo indica, são dignas da aceitação de Athena — suspirou — mas nada justifica vocês invadirem uma das Doze Casas dessa forma.
No quarto, Tatiana sequer percebeu que Kammy tinha saído, e continuava avidamente a leitura:
"Logo, um grupo de guardas armados entrou no porão, causando ansiedade e comoção entre todos. Vi Maria ao lado de papai e Anastasia se sentando no chão para acalmar meu irmãozinho. Palavras de ordem. Uma ordem de execução… "
O grito da ruiva irrompeu o corredor e Kammy imediatamente correu de volta até o quarto, deixando o cavaleiro de virgem terminando sua frase sozinho. Ela entrou no aposento a tempo de ver a amiga soltando o caderno e se arrastando no chão até bater na quina da estante. Ela via as oscilações de energia, e a amiga chorando e tremendo, o caderno largado no chão. A Amazona de Cervo não precisou pensar muito para entender: tudo que a avó da ruiva escreveu,l em toda concentração naqueles cadernos, sua amiga sentia. A loira se sentou no chão ao lado dela, segurou a mão direita de Sammyrah e começou:
[01:09, 31/03/2020] Fia: -Tatiana, calma! Você está segura… — Ela abraçou a amiga, que energeticamente a repeliu, a jogando uma distância que a fez bater no ferro da cama — TATIA!
O cavaleiro de virgem apenas se aproximou, caminhando lentamente em direção a Amazona de Perseu sentada no chão. Ele lhe tocou o centro da testa e murmurou algo inaudível. Alguns momentos depois, a ruiva começou a se acalmar e a chorar mais baixo, até conseguir respirar e tatear por sua máscara no chão:
—Não é o tipo de leitura que é feita tomando cha, Jovem Sammyrah de Perseu — Disse, ajeitando a postura e cruzando os braços — Nem sem ser supervisionada por alguém que possa controlar a sua força...
—Senhor Shaka, eu... — Sammyrah começou, após resgatar sua máscara e a encaixar no rosto, ficando de pé — Esses são…
—Sim, os diários de sua falecida avó, a Primeira Esposa — abriu lentamente os olhos — nem sempre um segredo selado em alguma casa do Zodíaco Dourado é de conhecimento somente do Cavaleiro que protege aquele lugar. Algumas vezes, ele é compartilhado com algum outro cavaleiro…
—O Afrodite o confiou a você? — A ruiva apanhou os cadernos fechando rapidamente aquele que ela estava lendo, os segurando no colo
—Não bem ele, mas sim a sua avó... Ela deixou um pergaminho a meu antecessor, contando sobre o quarto secreto e a única forma de abrí-lo.
—Então o senhor sabe que é direito da Sammyrah estar nesse quarto — Kammy saiu em defesa, ficando de pé.
—Claro que é. Em nenhum momento discordei disso.
—Então qual é o problema? — sussurrou a ruiva, que ainda tremia
—Simples: vocês usaram uma rota proibida para vir a Casa de Peixes — tornou a fechar os olhos — Eu sou um Cavaleiro de Ouro e, para chegar até aqui, estacionei em Escorpião. E quando digo estacionar…
—Sabemos o quanto Mestre Milo gosta de conversar... — Kammy murmurou — Já entendi, temos que pedir passagem na próxima.
—Além disso, essa leitura deve ser feita com cuidado. Sua avó era conhecida por ser ainda mais descontrolada que você, pois não teve auxílio na idade adequada — Suspirou Shaka — Keith de Peixes colocou muita energia para fazê-la pôr para fora os traumas através da escrita… ele via as memórias dela ao fazer isso também
Tatiana abraçou os livros e sentiu as pernas tremerem. Ela temia, talvez nunca conseguir ler aquilo tudo, talvez não suportasse.
—Esses diários, são sua herança — o indiano falou — um presente dos seus avós para você, herdeira dos poderes de ambos… a indicação para o pós rompimento dos selos, era que você tentasse lê-los em ordem, mas talvez você não tenha a maturidade necessária para absorver tudo isso… então...
—Não devo ler?
—Não isso — O cavaleiro de virgem pôs a mão no ombro esquerdo dela — Você deve medir seus sentimentos e, se sentir alterações — virou rapidamente para Kammy — e isso incumbo a você, Cervo… pare de ler e descanse. Os diários também contam muitas historias felizes… seus avós eram muito apaixonados… mas ela sofreu por anos devido os traumas sofridos pela…
—Nao precisa continuar… eu senti — Sammyrah falou séria enquanto tremia — Posso levar o próximo para casa?
—Pode… — Shaka meneou com a cabeça — Desde que, da próxima vez…
—Nós subamos pela rota dourada, sem atalhos não é, Senhor Shaka? — Kammy completou, abraçando a amiga com um dos braços
—Isso!
—Claro, nenhum problema nisso... Até chegarmos em Leão! — Sammyrah falou incomodada — O Aiolia me odeia e jamais me dará passagem.
—Estou na casa seguinte. Você sabe como me chamar — tocou na própria cabeça.
—Claro... Foi assim também que descobriu que nós estávamos aqui em cima?
—Não... Digamos que sua avó foi bem minuciosa quando m lacrou essa porta — O cavaleiro de virgem deu um risinho — O pergaminho possuía uma mensagem secreta, que só apareceria se alguém abrisse a porta. Foi assim que cheguei aqui.
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