Dias após a partida de Hyoga, Kiki finalmente enviou notícias a Mu. Coincidentemente Sammyrah e Kammy estavam chegando em Áries, com objetivo de continuar a leitura dos diários:



—Ah, que bom! Me pouparam o trabalho de ir até a cabana de vocês — o lemuriano sorriu, fazendo sinal com as mãos para que elas entrassem na primeira mansão do Zodíaco Dourado.

—Notícias de Athena? — a loira questionou com voz eufórica, quase que deixando claro que não era da deusa que ela queria saber.

—Sim... Hyoga foi recolher informações, mas acabou como prisioneiro. Mediante a isso, a deusa partiu para encontrar Hilda de Polaris pessoalmente — inspirou — Kiki não entrou em detalhes, mas parece que Hilda deseja conquistar o Santuário e a Terra... Parou de rezar a Odin e isso está causando o derretimento das calotas polares... Em alguns dias para que o planeta começará a sentir.

—De fato, o tempo começou a ficar esquisito... — foi a vez de Sammyrah falar. Os diários da avó haviam adicionado uma nova perspectiva a ela, que estava mais séria e orgulhosa de quem ela era — Estamos no início da primavera... Deveria ter sol e uma brisa agradável, não esse céu escuro…

Mu assentiu em concordância, continuando a falar:

—Ah, Aldebaran saiu ontem do Templo da Cura. Está aos cuidados de Marin agora.

—Da Marin? — a ruiva perguntou

—Ela estava indo até Leão quando ele sofreu o ataque. Acabou auxiliando no Templo da Cura, já que tivemos muitas baixas nessa guerra interna... E Athena ainda não redefiniu os asseclas. Como eles se dão bem, está lá por enquanto

—Entendi…

—Então, senhor Mu — Kammy tomou a frente — Podemos seguir até Touro? Ainda temos muitos relatos da Vovó Tatiana para ler.

—Claro. Meu mestre costumava contar a história da "primeira esposa", mas eu jamais imaginei que ela seria a sua avó.

Sammyrah apenas curvou o corpo em respeito e seguiu com a amiga para Touro, ficou com a última frase do cavaleiro de Áries na cabeça, perguntaria a Shaka do que se tratava aquela expressão. Chegando lá, escutaram parte da conversa entre Aldebaran e a Amazona de Águia — que trocava as ataduras do Cavaleiro:

—Eu tenho certeza que defendi aquele ataque, Marin!

—De fato... Eu o encontrei caído de frente, como se tivesse sido atacado por trás — suspirou — como disse que se chamava o tal Guerreiro Deus?

—Shido de Mizar... A estrela Zeta

—Zeta?! — a voz dela foi de espanto — Eu terminei seu curativo, senhor Aldebaran. Passarei na casa das Amazonas e pedirei a outra pessoa que fique aqui contigo.

—Mas... Aonde você vai?

—Preciso dar um recado ao Seiya.

Falou antes de sumir pela porta da casa. Estava com tanta presas que sequer notou a presença de Kammy e Sammyrah:

—O que deu nela, Debs? — a ruiva falou. Aldebaran era um dos poucos dourados que odiava ser tratado formalmente. Dizia que todos eram iguais perante Athena

—Acho que percebeu algo que não notei e se mandou pra Asgard. Mas e vocês, meninas, a que devo a honra? Eu ofereceria algo para vocês comerem, mas a máscara, né? — jogou os braços pra cima — mas se sentem. Vamo prosear um pouco.

—Claro — Sammyrah confirmou, sentando à mesa — primeiro queríamos ver como você estava, afinal foi um ataque repentino...

—E era isso que eu tava falando a Marin. Eu juro por meu Padim Cícero que repeli o golpe dele, mas senti como se me atacassem por trás. Como se ele pudesse abrir portais ou...

—Ou tinha um guerreiro escondido nas sombras — Kammy o interrompeu — será que Marin percebeu isso?

—Sabe que pode ser... Se bem que-...

—Fala Debas, meu querido! Não acredito que, primeiro tu deixa o Seiya quebrar teu chifre e agor-... — o escândalo todo era causado por Milo de Escorpião, que vinha pelo outro lado, usando roupas casuais e trazendo uma garrafa de vinho. Ao notar a presença das Amazonas, se calou e tentou recuperar a pose — p-perdão... Eu não sabia que estava com visitas

—Você tem que ser menos escandaloso, homem! — o taurino riu, ficando de pé e abraçando o outro dourado — e eu tô bem. Foi só uma bobagem.

—De qualquer forma, nós já estamos de saída — Kammy falou, com o rosto prateado abaixado — Além de sabermos seu estado de saúde, Debas, queríamos passagem.

—Vocês sabem que podem passar tranquilamente por aqui.

—Aimée! Nem pensar! — Tatiana se exaltou, se levantando da mesa e apoiando os braços no tampo — o Aiolia não vai nos deixar passar nunca! Esqueceu desse detalhe?

—O senhor Shaka disse que era só chamá-lo antes de chegar lá. Você tem poderes para isso.

—Ih... Não quero desanimar vocês, mas... — Milo tomou a palavra. O rosto estava meio corado, fato que as garotas atribuíram ao vinho que ele, provavelmente, já tinha tomado — Passei por Virgem agora pouco e o Shaka tá meditando no Jardim das Twin Sal. Não vai sair de lá tão cedo.

—Pois voltaremos a agir como criminosas e usar a rota alternativa-A ruiva desencostou da mesa e se afastou-Não tô com a mínima paciência de encarar a Fera Domada hoje.

—Eu gosto de fazer a coisa certa, mas concordo contigo — Kammy falou — já tem um tempo que tô a fim de socar o Leãozinho…

—Sem criminalidade e sem violência, garotas — Milo riu — Eu guio vocês, pode ser? Depois volto e tomo o vinho com meu amigo Aldeba.

Sammy olhou de soslaio o sorridente Cavaleiro de Escorpião deixar a garrafa de vinho na mesa e prontamente se virar para acompanhá-las. Percebeu que o olhar do rapaz para a amiga estava diferente e ele agia de uma forma animada demais e, enquanto formulava teses em sua cabeça, inconscientemente tentava entrar na mente de Milo, que a encarou chamando sua atenção:

—Vamos, Medusinha? Estou animado para subir seis casas na companhia das Amazonas mais polêmicas deste Santuário!

—Ah, Milo, pare com isso!- Reclamou Kammy, enquanto percebia a amiga desconcertada.

Tatia balançou a cabeça e apenas seguiu, subindo as escadarias do Zodiaco Dourado, até que chegaram em Leão, onde pôde perceber Milo a olhar enviesado com um sorrisinho, parecia que ele aguardava que ela fizesse alguma coisa.Como que sentindo a presença da Amazona de Perseu, Aiolia brotou na porta de sua morada apenas com a calça do uniforme,tinha um ar apressado,dava a impressão de ter parado de se vestir somente para fazer confusão com as duas :

—O que vocês querem aqui? — questionou com a voz autoritária — Até onde sei, seus mestres estão mortos, então vocês não têm nada a fazer nas 12 casas. Voltem por onde vieram.

—A encrenca comigo eu sei qual é — a ruiva murmurou — mas contigo?

—Dei um fora nele voltando do Japão — Kammy respondeu cínica, enquanto ouvia Milo falar.

—Pelo amor da Deusa, Bichano Vira-Latas. Pra quê tanto rancor? As duas são minhas convidadas... Já que não podemos sair e eu não tenho asseclas, as convidei para jogar canastra.

—Pouco me importa, seu Artrópode desgraçado! Em Leão elas não pisam.

—Cara... Eu podia pegar a merda da rota alternativa com minhas amigas, mas vim aqui porque te respeito. Agora, se tu não respeitar minha vontade e me deixar passar com as garotas, vai ter que encarar os 15 golpes da agulha escarlate, os vendavais da prima do Geladinho e vai virar a estátua mais sexy desse Santuário na mão da nossa bruxinha de Perseu aqui — dito isso, postou as duas mãos na frente do rosto, como se tirasse uma foto de Aiolia — Pensa só que magnífico uma estátua de pedra com esse tórax sarado, Leãozinho. Vai deixar a gente passar?

Aiolia... Se eu fosse você não arriscaria.

O leonino sentiu um arrepio que o fez cruzar os braços frente ao corpo. A voz de Shaka, que meditava na casa seguinte, ressoou diretamente em seu cosmo, apavorando-o:

—Vocês têm 10 segundos para cruzar essa casa.

Aiolia rosnou, deu as costas e seguiu seu caminho. O trio sentiu a presença de Shaka, sabendo imediatamente que ele os ajudou passar, assim que pisaram no primeiro degrau da escadaria que levava virgem, ouviram Milo se desdobrar numa gargalhada, as duas até riram com ele de tão gostoso que ele ria, mas após alguns minutos, Sammyrah finalmente perguntou:

—O que foi?

—Nada não... só — o cavaleiro ia dar uma gargalhada mas se segurou — Só fiquei imaginando você, Sammy, jogando uma Rosa Sangrenta bem no meio do rabo do Bichano quando ele deu as costas. Ia ser incrível...

O cavaleiro de escorpião deu outra gargalhada gostosa, tendo que parar para recuperar o fôlego, sendo observado pelas duas que apenas balançavam a cabeça. Depois da crise de riso de Milo melhorar,subiram tranquilamente e em silêncio ao atingirem o salão comunal da casa, Sammyrah ouviu a voz do cavaleiro de Virgem em sua mente:

“Acredito que você tem algo para me perguntar sobre essa expressão que paira em sua mente não é?”

Ela discretamente balançou a cabeça em afirmação e ouviu a voz tranquila de Shaka entrar em sua mente, inconscientemente, se encostou em um dos pilares da casa, passando despercebida por Milo e Kammy.

“ Seu avós, algum tempo após o resgate em Ekaterinburgo , começaram a se envolver romanticamente, mas sua avó vivia incomodada de não poder se casar com o cavaleiro de peixes. Há muitas eras os cavaleiros de ouro que desejam, mantém uma favorita e passam a vida com elas, mas sem jamais firmar algum compromisso. Mas para sua avó era inadequado e inadmissível que eles vivessem a vida toda sem firmar um compromisso de matrimônio. Seu avô, que segundo meu mestre quando colocava uma coisa na cabeça só sossegava quando conseguia, depois de meses de discussão com Shion, teve a bênção concedida pelo grande mestre para se casar com sua avó, portanto ela foi a primeira esposa oficializada de toda a história do santuário de Atena…”

A ruiva sorriu, agradeceu mentalmente por aquela explicação do cavaleiro de Virgem e seguiu, encontrando com Milo e Kammy quase na escadaria de Libra. Os dois pareciam não ter percebido sua ausência e ela seguia em silêncio atrás dos dois, que conversavam animadamente. Aos pés de escorpião, Milo as deu passagem e as duas seguiram sem maiores problemas até a casa de Peixes e logo se instalaram na bela suíte que mais lembrava uma máquina do tempo.Sammyrah estava sentada lendo, concentrada. Estava feliz em perceber que não era parecida apenas fisicamente com a avó. A cada linha daquela caligrafia desenhada, a ruiva era transportada para as lembranças da vovó Tatiana, sentia como se ela estivesse ali, sentada diante dela, narrando cada detalhe.Tinha encontrado uma pérola, do começo do casamento de seus avós, ela podia ver a avó encostada em uma coluna, vendo o avô trabalhar no canteiro de rosas apenas com as calças brancas de treino. Parecia um dia de começo de primavera, ela mantinha um meio sorriso enquanto ele desaparecia em meio as rosas:

“O cheiro forte das rosas tinha se tornado habitual, eu que ficava enjoada no começo, aprendi a apreciar e mais ainda apreciar a dedicação que Keith tinha a elas, eram quase cinco da tarde e ele continuava enfiado no roseiral, tratando os pés com o seu cosmo. Sequer tinha percebido minha presença de tão entretido que estava, até um dado momento ele saiu de cabeça baixa do meio do roseiral de cabeça baixa até perto da porta, pegando um balde de água que tinha ali perto e jogando sobre a cabeça, fato que me fez dar um risinho baixo que chamou sua atenção:

—Estava me observando escondida?

—Não, vim ver se eu ainda tinha um marido e você estava tão entretido que eu achei melhor te deixar trabalhar…

Ele veio até mim com um sorriso zombeteiro e me tomou nos braços, me molhando também, reclamei e ele me beijou. Reclamei mais uma vez e ouvi ele dizer em meu ouvido:

—Eu casei com você justamente para parar de te beijar no escuro mulher…”

—Sammy, sério... Sua avó tinha um excelente gosto para livros. Pena que a maioria está em russo.

A ruiva sentiu o mesmo arrepio que a avó sentiu em reescrever aquelas cenas, mas Kammy tirou sua atenção, a desconcentrando do elo com as palavras da avó. Ela tinha as bochechas rosadas e antes de responder, revirou os olhos.

—O que foi garota?-Disse Kammy cruzando os braços

A jovem tagarelava, enquanto tirava a poeira dos livros que ali haviam. Sammyrah aceitou que ela a acompanhasse primeiro para se sentir mais segura, caso alguma memória mexesse com ela novamente e, segundo, porque a loira insistiu em tirar toda aquela crosta de poeira do aposento, já que a habilidade de queimar o cosmo não as deixava livre de doenças respiratórias:

—Kam... Sabe, eu aprendi a gostar de você, mas eu preciso de concentração aqui! — a ruiva bradou, ficando de pé e fechando o caderno — você não quer bater um papo com o Milo não?

—Você me ofende profundamente ao me chamar de tagarela, ruiva... Mas está bem... Vou lá jogar canastra com o Aldebaran.

—Mas o Milo que tinha feito esse convite.-Ela deu um sorrisinho

—Sim, mas o Debas tá convalescente e, na pressa que a Marin saiu daqui, duvido que ela lembrou de pedir a alguém que ficasse de olho nele.

Sammyrah assentiu a cabeça, sacudiu a mão como se estivesse a mandando embora e voltou a leitura, enquanto Kammy rumou para a parte baixa. Haviam prometido a Shaka que não usariam mais a rota alternativa, então desceu tranquila pelo caminho do Zodíaco Dourado. Milo estava cochilando em uma cadeira. Ela passou direto, sem incomodá-lo, enquanto Shaka estava na área comum, usando o uniforme de treino. Ela nunca se acostumaria a vê-lo sem armadura:

—Onde está a Sammyrah?

—Em Peixes... Eu estava atrapalhando um pouco e aí ela me expulsou- A loira balançou a cabeça indignada- daí decidi fazer um pouco de companhia para o Aldebaran.

—Precisa de ajuda com a próxima casa?

—Acho que ele não vai me incomodar para descer... Qualquer coisa, eu uso meu cosmo para te chamar, Senhor Shaka.

Continuou o caminhar serelepe e o loiro pensou no quão diferente ela era de seu primo. Chegou em Leão cantarolando uma música de Diana Ross. Aiolia se exercitava em uma barra presa a uma das colunas da casa. Ao ver a loira, saltou de imediato em sua frente:

—Onde está a outra?

Neda… — olhou as unhas

—Hã?

—Né da sua conta, Leãozinho. E eu tô descendo...

—Não vai passar enquanto não me disser onde está Sammyrah de Perseu!

—Lembra do que te falei no navio? Então... eu poderia dar aquele soco agora, mas to com preguiça e fiz as unhas ontem. Não quero estragá-las socando sua cara. Vou indo porque o Aldebaran está sozinho — deu dois passos e parou — Eu não tô a fim, mas, se você ousar avançar contra mim, vai apanhar... E, se você decidir ir atrás da Sammyrah, vai apanhar também... Só que do Shaka. Então, melhor você voltar a fazer barra. Apesar de você não me agradar nem um pouco, foi uma visão deveras interessante.

O leonino ficou olhando meio incrédulo, enquanto a loira se afastava cantando Upside Down. Chegou a Touro e, como havia imaginado, o brasileiro estava sentado sozinho, encarando a janela:

—Precisando de companhia, Debas?

—Ah menina... Eu acho que Marin esqueceu de avisar alguém, mas que bom que você voltou! — abriu um sorriso — É tão ruim ficar sozinho.

—Eu sei — puxou a cadeira e sentou de frente para ele — Eu não sou muito boa em conversa, porém sou uma ótima adversária em canastra.

—Eu num tenho baralho. Só dominó.

—Não é meu forte, mas vamos jogar.

—Pegue o jogo ali, naquela prateleira, por favor — apontou — os doutores disseram para eu evitar levantar os braços acima da cabeça, por enquanto.

Kammy usou a mesma cadeira que estava sentada para alcançar o Dominó, depois dirigiu-se a mesa, onde Aldebaran já estava sentado. Jogaram 5 partidas seguidas, rindo muito, pois ambos eram péssimos no jogo. Quando iam iniciar a sexta partida, Shina adentrou a segunda morada:

—Com licença, Aldebaran. Eu poderia falar com a Marin?

—A menina Marin saiu daqui correndo um tempo atrás. Acho que se debandou pra Asgard.

—Pra Asgard? Por quê?

—Isso não sabemos, Shina — Kammy interrompeu — provavelmente percebeu algo sobre o ataque que o Aldebaran sofreu e foi avisar o Seiya.

—Se aconchegue, Shina — o cavaleiro de Touro falou — Venha jogar dominó com a gente.

—O Seiya... Eu.. Tenho que ir!

E, assim como a Amazona de Águia, saiu correndo, provavelmente também rumo a Asgard. Aldebaran ficou sem entender, enquanto Kammy balançou a cabeça em negação:

—Ela ainda não superou o sentimento pelo Pangaré Alado... Lamentável — suspirou — enfim, vamos jogar, Debas

Aldebaran continuou encarando-a totalmente perdido, até que deu de ombros e embaralhou o dominó:

—Agora eu vou mostrar que consigo ser pior que você.

—Não ouse tirar meu título de pior jogadora de dominó desse Santuário, Jose Vítor!

****

Marie estava no Templo de Athena, sentada aos pés da estátua da Deusa. Sentia o cosmo de Saori cada vez mais cansado, por isso foi até o lugar que se sentia mais próxima da amiga. Mesmo após a deusa sagra-la Amazona, continuava sendo tratada com indiferença pelos demais cavaleiros e sabia o porquê: não era digna. Era sobrinha do cara que fez os cavaleiros lutarem entre si. Na mente deles, ela passou 10 anos ali, ao lado dele, claro que ela sabia a verdade, claro que ela o acobertou. Sentia falta de Shion, de seu tio Kanon... E de sua mãe. Sem perceber, começou a cantarolar. Cansou de ver a mãe esculpindo réplicas das cerâmicas que ela escavava cantando essa música:

É pau, é pedra, é o fim do caminho

É um resto de toco, é um pouco sozinho

É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã

É um belo horizonte, é uma febre terçã

São as águas de março fechando o verão

É a promessa de vida no teu coração

De repente, um raio cruzou os céu, que irrompeu em tempestade. Ainda distraída a amazona sentiu as primeiras gotas de chuva tocarem sua pele e sentiu como se um choque passasse pelo seu corpo, choque que a fez sentir medo. Se levantou rapidamente e correu para se abrigar, enquanto ainda se enxugava com as mãos inutilmente, se questionava:

—Não... Não chove aqui nesta época do ano... Tem algo muito, mas muito errado acontecendo. Acho que... — suspirou — precisarei ir a Star Hill

Decidida, Marie apanhou sua capa e rumou ao monte sagrado, cujo o acesso era restrito ao Grande Mestre, entretanto, talvez devido às circunstâncias, a sobrinha de Saga conseguiu escalar facilmente:

—É a primeira vez que venho aqui sozinha — murmurou, após uma profunda inspiração — sempre achei incrível como o clima não interfere nesse lugar...

Ela murmurou alguns mantras ensinados por Shion e, logo, estava visualizando todas as constelações:

—Algumas estrelas da Ursa Maior estão apagadas... Isso significa que os Cavaleiros de Bronze estão se saindo bem... Mas o que isso tem a ver com as chuvas? A estrela Polaris está chorando... Uma mulher controlada por um deus... Um deus que está sendo manipulado... O que isso quer dizer? — um outro brilho surgiu no céu e, dessa vez, os olhos da morena se arregalaram — Por que a constelação de Gêmeos está brilhando? Eu não entendo... Meus tios estão mortos! Eu vim atrás de respostas e acabei com mais perguntas... Inferno!

Marie decidiu não falar nada sobre o que viu nas estrelas com ninguém. Desceu do monte de forma silenciosa, tentando se proteger da chuva o máximo que conseguiu.

****

Depois de algumas horas, Sammyrah finalmente foi ao encontro de Kammy na Casa de Touro. Aldebaran agradeceu a companhia e disse que já se sentia melhor:

—Se eu sentir algo errado, chamo o Mu. Podem ir para casa... Só tomem cuidado com a chuva. Eu emprestaria uma capa pra cada, mas acho que fica grande demais.

—Tá tranquilo, Aldebaran — a loira falou — Já que a Sammy desceu sem nenhum livro, vamos aproveitar para um treinamento de concentração na chuva.

—Vamos? — a ruiva indagou surpresa

—Uhum — falou, balançando a cabeça positivamente, com os braços cruzados na frente do corpo — A madame vive reclamando que odeia treinar no sol... A chuva veio a calhar.

—Você é a pior mestra que eu poderia ter.

—Não, a pior é a Marin... Você não lembra o que ela fazia com o Seiya? Aquilo era desumano... Mas veja onde ele chegou.

—Você é desprezível, Aimée — ela revirou os olhos e passou a mão pela raiz dos cabelos- Vai, vamos logo.

Já na parte baixa, a loira abusava dos joguinhos para exercitar a mente de Sammyrah. A água deixava o uniforme pesado, mas ainda assim, a agilidade de Kammy lançando pequenos pedregulhos para que Sammyrah repelisse com a mente era assustadora. Obviamente, devido a baixa visão causada pela chuva, algumas pedrinhas passavam reto e foi justamente uma dessas que atingiu Ellen e outras duas aspirantes que ali estavam:

—Mas é claro que foram vocês — a Amazona de Lebre indagou, se aproximando com postura intimidadora — perderam o medo de treinar no Coliseu?

—Nunca tivemos medo de treinar aqui, Ellen — a ruiva falou — Apenas nos desagrada a companhia.

—Hm, claro... E você, Kammy? — virou o rosto prateado a discípula de Misty — não era você que vivia bradando aos quatro ventos que odiava a Sammyrah? Agora, que seu priminho está morto e você perdeu seus privilégios entre os dourados, divide uma cabana com ela. É uma reviravolta engraçada, não acha?

—Eu acho melhor você retirar o que disse sobre meu primo, Ellen!

—Eu sei porque você se aliou a Sammyrah — prosseguiu, ignorando-a — Traidores se reconhecem, não é mesmo? Claro que você estava ao lado de Arles... Tanto que tentou a sorte com o Mestre Milo e ele a rejeitou. Não quis a filha de um traidor como assecla.

—Acho que você esqueceu que esse traidor te fez Amazona, querida! — Sammyrah interrompeu — A Kammy e eu temos um negócio chamado maturidade e o usamos para resolver nossas diferenças infantis. E não estamos no bosque dos ventos apenas porque "os dourados não nos querem no Zodíaco Dourado" — fez aspas no ar — inclusive, saímos de lá há pouco. Estamos no bosque porque queremos mesmo.

—Não precisa dar explicações a ela, Sammyrah — a loira bradou — Eu ainda estou aguardando você retirar o que disse do meu primo, Ellen.

—Isso nunca! Sua família é uma escória! Misty e eu fomos os únicos Filhos do Vento a não trair o Santuário. E sua amada mamãe, a santa Dorothée de Flamingo, fez o quê? Partiu pra França levando apenas o pequeno Thierry, o menininho que ela resgatou! Eu fiquei aqui, sendo treinada com ódio pelos demais, afinal eu era a discípula do traidor... Foram anos pra me livrar desse estigma! Anos! Pra você chegar aqui e, só porque um Dourado te chamava de Prima, porque eu sei muito bem que ele era só um mendigo parisiense, todo mundo esqueceu de quem você é filha!

Sammyrah se afastou em um passo silencioso, enquanto Kammy lançou-se sobre Ellen com toda sua força, derrubando a amazona no chão e socando-a sem piedade. As duas garotas que a acompanhavam tentaram ajudá-la, mas bastou uma encarada de Sammyrah para que elas ficassem imóveis:

—Mudas chegaram. Mudas continuarão! — debochou a Amazona de Perseu — A Ellen só tá pegando o que é dela por direito.

—O que está acontecendo aqui?

Questionou uma figura encapuzada com uma capa de lona cinza, em pé sobre uma pilastra. Uma das aspirantes seguras por Sammyrah ousou gritar:

—Elas nos atacaram sem motivo, Mestra Shina!

—Shina?! Ah, claro... Ela rumou para Asgard usando uma capa de chuva dessas, mas nossos sotaques são completamente diferentes — a figura saltou para o centro da arena, deixando o capuz cair e exibir o rosto mascarado, com uma estrela azul solitária abaixo do olho esquerdo — e eu não acredito que elas tenham atacado vocês do nada.

—Marie?!

—Sério... — cruzou os braços, mas sem perder a compostura — Por que sempre rola esse espanto quando apareço diante de alguma amazona?

—Porque a cadelinha do Grande Mestre, de Arles e, agora, de Athena, nunca é vista na parte baixa — Ellen respondeu, após aproveitar uma brecha deixada por Kammy para empurrá-a e ficar de pé — É mais uma traidorazinha privilegiada desse lugar! Nunca tivemos tantas amazonas como nesta era, mas essa geração... Essa geração me dá nojo!

—Te da nojo por que mesmo, Ellen de Lebre? — A sobrinha de Saga falou incisiva

—Não está claro? Aqui, diante de mim, vejo três falastronas! A filhinha da Santa Dorothée, a doce e meiga Kammy de Cervo, que vive para limpar a imagem da armadura que herdou do papai traidor. Sammyrah de Perseu, a principal vagabunda de Arles, que ganhou a armadura de uma baixa de guerra que mal tinha esfriado e, por fim, você, Marie de Pavão... Sobrinha do cara que matou e usurpou a identidade do Subcomandante, ajudou-o a consumar seus planos de domínio seduzindo e matando o antigo Grande Mestre aos poucos e, não contente, se fez de vítima e amiguinha da deusa para envergar uma armadura, sem ao menos ter um treinamento bélico.

—Kammy! Sammyrah! Como vocês já se divertiram, posso ter as honras?

—Claro, Ma Cherie

Ambas responderam se afastando, enquanto a morena elevou o cosmo e lançou seu golpe:

—GALAXIAN EXPLOSION!

O sagrado golpe de Gêmeos foi lançado acima da cabeça das amazonas, derrubando apenas algumas colunas, porém serviu para assustá-las. Marie olhou para Sammyrah que entendeu o recado e tornou a usar o golpe paralisante, dessa vez contra as três garotas:

—Eu vou contar uma coisinha, que obviamente vocês não sabem, já que só servem para fofocar. Eu cheguei ao Santuário com quase 14 anos! É verdade que treinei apenas 6 meses com meu tio Kanon, só que eu já sabia esse golpe. Sabem por que? Porque eu já vim do Brasil com conhecimento bélico passado por minha mãe, a antiga Amazona de Pavão, Salomé. No dia que pisei no Santuário, eu já sabia queimar o cosmo e estava destinada a Armadura de Pavão. Eu passei 10 anos rejeitando-a porque sabia os comentários que iriam surgir... Porém a gente não recusa um pedido da Deusa em pessoa, né? Todo ser humano nasce predestinado a algo, porém isso é ainda mais forte para nós, Cavaleiros e Amazonas do Zodíaco. Agora larguem de fofocas e ocupem-se em ver como estão os acampamentos. Essa chuva fora de época pode nos causar estragos.

—S-sim, mestra Marie.

—Ótimo... Pode libertá-las, ruiva.

—Certeza? O mestre Mu me ensinou a levitar e girar objetos. Eu posso testar com elas.

—Não vamos piorar as coisas... Além do mais, a Kammy fez um belo estrago na Ellen... Até a máscara tá amassada.

—Ai... Tá bom.

Assim que a ruiva libertou-as do controle mental, elas saíram correndo em direção a casa das Amazonas. Certamente, a notícia correria entre elas:

—Parece a dupla odiada agora é um trio — riu Kammy — Adorei a moral, Mestra Marie.

—Pelo amor de Athena, você não precisa disso, loira! — riu — Nós três somos tipo as Charlie's Angels do Santuário agora.

—Quem é Charlie? Não conheço esse cavaleiro... — Kammy questionou — E por que seríamos os anjos dele?

—Ignora... Ela cresceu no campo — debochou Sammyrah — provavelmente nunca viu um aparelho de TV.

—Claro que já vi uma TV! Tinha uma no haras, porém eu era criança, só assistia desenhos...

As três gargalharam, até que a tempestade se intensificou. Marie suspirou profundamente, colocando de volta o capuz:

—É melhor vocês também seguirem o conselho que dei àquelas criaturas. Confiram o acampamento dos aprendizes. Na ausência de Shina e Marin, nós três e a Ellen somos as mais velhas. Precisamos cuidar dos mais jovens.

—Certo, Marie. Qualquer coisa, te chamamos

A morena apenas assentiu com a cabeça e rumou para o Zodíaco Dourado. Ela poderia ter revelado as duas sobre a má vibração e o que viu nas estrelas, mas achou melhor não preocupá-las. O jeito era voltar ao templo e aguardar novas notícias.