Os dias foram se passando e uma nova e exaustiva rotina no Santuário teve início. Ainda assim, todas as noites, Kammy descia para se encontrar com o Cisne em frente ao túmulo de seu primo. Nesses encontros, a proximidade e a estima entre os dois cresceu, ficando quase impossível esconder o terno sentimento que ali nascia. Com sua política mais liberal, Saori passou a incentivar treinos mistos entre Cavaleiros e Amazonas, uma forma de unir conhecimentos e multiplicar o espírito de luta, uma tentativa de ressuscitar o espírito de união entre as tropas que havia desaparecido nos duvidosos anos da administração de Arles.

Em um desses treinos, enquanto Sammyrah se alongava, Kammy fazia alguns exercícios de aquecimento, não sem trocar olhares com o Cavaleiro de Cisne, chamando atenção da amiga e de alguns que passavam:

—Vocês estão dando muita bandeira, Kammy…

—Quem está dando o quê? — Disse a loira virando de costas constrangida

—Você e o Patinho… Tá todo mundo percebendo o trelêlê de vocês e olha que você não têm expressão facial por causa da máscara — Disse a ruiva se levantando e rodando um pedaço de madeira entre as mãos, como se fosse um machado – Ahn... Nos meus treinos com o Dite arremessávamos machados na parede…

—EI! — Reclamou o cavaleiro de Leão, que passava por ali — Você sabe muito bem, Perseu, que não podemos usar armas!

—Eu sei, Cavaleiro de Leão. Assim como sei que você amou a surra que eu te dei, não é? — A ruiva cruzou os braços — Se estiver com saudades posso dar outra e, dessa vez, finalizar te transformando em pedra...Vai ser BEM interessante.

Um soldado que passava segurou o riso e foi rapidamente repreendido pelo leonino, que se afastou:

—Deuses… — a amazona de Cervo indagou — você tá com um mal humor terrível…

—Claro — A ruiva resmungou, dobrando uma das pernas, para alcançar o pé e esticou sua perna para cima – Não sou você, gótica, que tem encontros furtivos no cemitério à noite. Meu último homem está morto, lá do ladinho do seu primo, virando adubo para grama.

A loira enrubesceu por trás da máscara e empurrou a amiga:

—Como você sabe que…? — Kammy pensou um pouco e disparou – VOCÊ LEU MINHA MENTE?

—Tá aí, aberta como a Bíblia num altar… qualquer um pode ler — Sammy deu um risinho irônico — Inclusive, eu sei que você pensou em me chamar de viúva-negra...

Kammy ia rebater, mas estava tão incrédula que não encontrou as palavras certas. Mediante a isso, questionou:

—No bosque você disse que não conseguia com frequência.

—Com frequência não consigo mesmo. Vai e volta… não tenho certeza como funciona, Kammy. Obrigada por tentar ajudar, mas você não é mentalista.

A loira inspirou fundo e jogou os braços para o alto:

—Vamos de treino físico então… Sei que a senhora fez não sei quantos mil anos de ballet. É mais flexível que qualquer um de nós e sabemos da surra que você deu em certa Fera Domada – falou em um tom mais alto, fazendo com que Leão a olhasse atravessado. A loira deu um tchauzinho cínico e fez um gesto, como se lançasse um beijo.

—Com quem você aprendeu isso?

—Sarcasmo aquariano. Sempre fui assim… porém acredito que a convivência contigo acentuou a coisa toda.

—Claro. Acho que, com o tempo, seremos tão amargas que vão sentir da casa de Áries! — A ruiva riu – Você precisa se alongar garota. Parece uma velha entrevada — Sammy observava a amiga iniciar as flexões sem vontade, aquelas últimas semanas tinham se mostrado difíceis para ambas — Quanto tempo você acha que vão nos deixar ficar no Zodíaco Dourado?

—Eu não sei… E é isso que me assusta – a loira esticou a perna e soltou um leve gemido de dor — Você já está acostumada a não ter teto, mas eu não! Sempre tive um cantinho gostoso para dormir — Sammyrah botou as mãos na cintura e um leve cosmo foi sentido, Kammy, por sua vez, pulou para trás — Quando você quer, você é bem ardilosa com essa sua cabecinha vermelha, Romanova. Foi só uma piadinha.

—De péssimo gosto, eu diria. Mas segura a bronca aí, que teu príncipe escandinavo está vindo para cá. Arruma essa cara prateada.

—Ridícula! — respondeu, passando a mão nos cabelos.

—Bom dia, senhoritas.

Dobroye utro* Alexei. Agora que sei seu primeiro nome, esquece… — a ruiva respondeu – fiquei de trocar uns socos com a Marin hoje. Aproveitem para conversar a vontade.

A ruiva saiu num passo desapressado, ouvindo em seu pensamento Kammy a amaldiçoando:

—Como ela sabe meu primeiro nome? Ia sugerir que você contou, mas não lembro de ter dito isso a você… Ou a qualquer pessoa a não ser o mestre Crystal.

—Crystal era qualquer coisa, menos fofoqueiro... Mas a sua cabecinha – a loira ousou colocar o dedo na testa do russo – ela é um doce livro aberto para a Sammyrah.

—Tá me dizendo que aquela garota pode ler mentes?

—E usar ataques psíquicos que deixariam o Mu de cabelo em pé, se ela dominasse bem os poderes dela. Enfim... Veio para treinar comigo?

—Bom, eu ia te chamar para dar um passeio, mas…

—Eu não sou mulher de galanteios baratos, Hyoga de Cisne – riu – e nem tenho permissão para deixar o Santuário. Vamos… Eu prometo pegar leve com você, afinal, você ainda está se recuperando.

Ao longe, Tatiana observava a amiga incrédula, desviando de um golpe de Marin por pouco:

—Foco, Sammyrah! — a japonesa ralhou – você me chama para treinar e fica aí, viajando na maionese.

—Querida, eu só não queria atrapalhar o romance da minha amiga. Só que ela consegue ser pior que você.

—O que você quis dizer com isso?

—Não preciso ler sua mente pra saber que rola um super clima entre você e o Bichano Vira-latas do Aiolia, só que você não sabe chegar e ele muito menos. A loira tá indo pelo mesmo caminho com o Patinho Gelado ali.

—Como você ousa?!

Marin tentou aplicar uma rasteira, mas a russa lançou o corpo para trás e atirou uma rosa branca no chão:

—AGORA eu li a sua mente – deu de ombros – e poderia ter te matado. Ganhei – se aplaudiu – vou espiar a Kammy das arquibancadas. Adorei nossa lutinha, ruiva japonesa.

Marin tentou responder, mas não teve tempo, Tatiana logo seguiu para o lado das arquibancadas com sombra e ficou observando de longe a amiga treinar com o atual romance. Sentia falta daquilo e de outras coisas que a invasão dos cavaleiros de bronze haviam tomado de si. Ficou absorta em seus pensamentos no passado, até perceber a presença incômoda de Shun que, acompanhado por Shiryu, mantinha a mente inquieta por sua presença.

—Pode relaxar, Andrômeda... não é hoje que eu vou decepar a sua cabecinha e usar seu sangue para trazer meu mestre de volta – Disse tranquila, enquanto enrolava uma das pontas dos cabelos

—O que você disse garota? — Bradou Shiryu

—O que você ouviu, Dragão de Rozan! Apenas um desafio, apesar que eu não acredito que Hades trocaria seu amigo pelo meu mestre…

O irmão de Ikki parecia se curvar, até que Shiryu o encarou de forma mais incisiva:

—Você vai deixar esse projeto de Amazona falar assim com você?

—Controla essa língua, Dragãozinho, que eu já disse que não tenho nada contra você. Mas isso é mera sorte sua.

—Sorte?

—Sim. Você tentou se matar junto com Shura, mas ele era nobre demais. Ele viu seu valor e estava se sentindo mal pelos próprios erros… Se sacrificou para te salvar e para limpar sua honra — o encarou — E não tente contra-argumentar dizendo que matou o Máscara da Morte. Estou vendo na sua mente como essa luta ocorreu.

—Ela tem razão — Shun disse, acuado — O único que realmente matou foi eu! Eu matei o Afrodite

—E é por isso que eu preciso matar ele. É uma desonra para mim, como discípula, deixar o assassino do meu mestre perambulando por aí como se nada tivesse acontecido…

—Mas a Saori…

Kammy percebeu uma tensão se formando na arena. Virou o olhar para ver o que todos, inclusive os dourados, olhavam e sentiu seu sangue gelar:

—Hyoga... preciso intervir e acho que você também deve fazer o mesmo…

O loiro correu, acompanhado por Kammy e ficaram um pouco a margem, pois um pequeno grupo já se juntava para ver a confusão:

—Eu entendo, Shun… Entendo de verdade – A ruiva já começava a entrar totalmente na mente do jovem cavaleiro de Andrômeda – Meu mestre matou o seu, você precisava fazê-lo por honra – Prosseguiu, projetando uma rosa branca, colocando-a nos cabelos – É a mesma coisa… Você matou meu mestre e, por isso, por honra… terei que te exterminar.

Shiryu, ao ouvir aquelas palavras, tentou segurar a jovem que se aproximava perigosamente do irmão de Ikki, mas ao fazê-lo, foi atirado com força do outro lado da arena, chamando atenção de Mu de Áries:

—Eis que eu me pergunto – a ruiva disse, em um tom zombeteiro – como um homem de cabeça tão fraca, derrubou meu mestre?

Neste momento, o Cavaleiro de Bronze soltou um grito agonizante e desceu rapidamente os degraus da arquibancada. Sammyrah caminhava lentamente atrás dele, com uma aura vermelha a seu redor. Seus cabelos esvoaçavam conforme Medusa, morta pelo herói mitológico que dá nome a sua constelação. Era a prova de que todos precisavam, a prova de que ela era, legitimamente, a Amazona de Perseu, mas uma prova que veio da pior forma possível:

—O que foi, Shun Amamiya? — a discípula de Afrodite questionou com deboche, elevando mais ainda a energia ameaçadora – Não consegue suportar o que vê? Não consegue suportar que você é um pacifista apenas de aparência? Você é um demônio! Um demônio da pior espécie!

—Por favor… — implorou Shun, a essa altura, com um filete de sangue escorrendo por uma das narinas– Por favor, Sammyrah de Perseu. Eu assumo a culpa de meus crimes. Apenas… Apenas acabe com isso.

—Ah, mas nunca! Você cometeu uma matança e não ficará impune. Precisa sofrer tudo que nos fez sofrer… A morte será um alívio consequente. Antes dela, você sofrerá muito!

—Sammyrah, pelo amor de Athena, pare! — Kammy intercedeu, tentando chegar perto da amiga, mas foi lançada longe por sua energia.

—Não ousem interromper – a ruiva falou com voz firme – Nem você, Kammy e nem ninguém! Isso é entre Andrômeda e eu.

—Isso não trará Afrodite de volta – a loira gritou, enquanto se levantava.

—Não… Mas, como eu disse ao fedelhinho de bronze, aliviará a minha dor… E a minha raiva.

Shun caiu no chão, se contorcendo de dor. Ela estava a ponto de eliminá-lo, quando Mu finalmente apareceu:

—O que está acontecendo aqui? — O lemuriano questionou, observando rapidamente a cena. Um agonizante Andrômeda com o nariz e as orelhas sangrando, enquanto Sammyrah segurava uma rosa branca nas mãos – Perseu! Eu ordeno que você pare com essa sandice imediatamente! O exército de Athena não permite tais vinganças!

A ruiva vendo a amiga balançar a cabeça, apenas suspirou e parou, colocando a Rosa de volta nos cabelos:

—Então que ele fique com uma amostra de como as coisas funcionam com os filhos da Casa de Peixes…

A jovem apenas ignorou a presença de Mu de Áries e passou em meio à multidão, enquanto ouvia um cavaleiro de bronze qualquer fofocar com uma amazona:

—E, aparentemente, era assim que ela controlava a mente do mestre Arles… Não sei porque essa vagabunda ainda está viva…

O mesmo foi repreendido por uma rosa que passo em riste, no meio do rosto dos dois:

Yale! Se quer falar de mim, seja pelo menos capaz de me enfrentar! Como não é, recolha-se a sua insignificância e cale-se!

A jovem subiu as escadas até a saída do Coliseu, seguida por Kammy, que correu atrás dela e a segurou pelo braço:

—Você pirou de vez, Tatiana? — Vociferou.

—Você me chamou de Tatiana? — assobiou — Deuses, você deve estar muito brava comigo.

—Que foi? Gastou todo seu poder incomodando um cavaleiro de bronze, que ainda não está 100% recuperado, e não foi capaz de ler minha mente? Eu tô furiosa! Você acabou de assinar nossa carta de despejo do Zodíaco Dourado – respirou fundo – agora que a merda tá feita, vai para Peixes, come alguma coisa e dá uma descansada. Me encontre em duas horas no bosque.

—Nós ainda vamos treinar no bosque?!

—Não iríamos… — respondeu. Sua voz estava carregada de raiva e deboche — Mas agora que percebi que a Grã-duquesa consegue causar um pânico daqueles num cara que foi capaz de superar um Cavaleiro de Ouro, vou forçar essa cabecinha de fogo o máximo que eu conseguir. E nem pense em não aparecer… se fizer isso, te arranco de Peixes a força!

A loira finalmente a soltou e deixou-a seguir seu caminho. Voltou ao Coliseu para treinar, mas ele já estava praticamente vazio. Mu a encarou e se aproximou. O ariano tinha fama de ser o mais calmo da confraria, porém parecia furioso:

—Kammy de Cervo, não é mesmo?

—Sim, senhor Mu… — curvou o corpo em leve respeito – Vai me aplicar uma punição por me distrair?

—Não, isso não cabe a mim. Apenas pedirei que cuide melhor de sua protegida. Há pessoas que dariam qualquer coisa para arrancar a cabeça dela. Um episódio como esse que acabou de acontecer pode bem ser um gatilho. Eu conheço os valores que estão por trás de você. Sei bem de sua linhagem e capacidade, amazona. Sei que é a única que consegue controlá-la, apesar desta não ser a palavra correta.

—Eu entendi o que quis dizer, senhor Mu. Obrigada por seus conselhos.

—Não precisa me agradecer. Sammyrah tem um grande potencial e seria um desperdício morrer por mero impulso. Se precisar de ajuda com o treinamento dela, sabe onde me encontrar.

A amazona meneou a cabeça positivamente e saiu, rumo a casa de Aquário pelo caminho alternativo, ainda meditando as palavras de Mu. Pensando nisso, resolveu ir a Sala do Grande Mestre, tentar uma audiência com Athena. Recebeu a notícia de que a Deusa estava em um rito de meditação, mas que poderia atendê-la mais tarde.

Conforme o combinado, duas horas depois, Sammyrah foi ao bosque. Usava o costumeiro espartilho de treino. Encontrou Kammy sentada em uma rocha. A loira batia o pé e estalava os dedos:

—Você ainda tá furiosa? — perguntou, sentando a seu lado e tirando a máscara

—Não… A raiva diminuiu um pouco depois que conversei com o senhor Mu e almocei — observou a ruiva sentar ao seu lado e continuou — Ele disse que vai me auxiliar com seu treinamento, mas, mesmo assim, eu tomei a liberdade de marcar uma audiência com a Deusa para saber como fica nossa situação de moradia.

—Você fez o quê?

—Veja bem… Somos Amazonas de Prata, mas seu título é extremamente questionado, devido a forma como você o obteve. Tá, mais cedo teve aquele episódio no Coliseu, que afirmou que você é mais que digna de envergar o título de Amazona de Perseu, só que você surrou um “herói de guerra” — fez aspas com as mãos — É capaz de pedirem a Athena uma assembléia para votarem e retirarem sua armadura. Considerando sua idade, se isso viesse a acontecer, você acabaria como a Satrina: rebaixada a serva... E você sabe melhor do que eu que o povo daqui adoraria te mandar esfregar latrinas com uma escova de dente. E eu tô falando uma das melhores hipóteses...

—DEUSES! — ela fez cara de nojo, acendeu um cigarro e o tragou lentamente – e o que você pretende com essa audiência?

—Pedir proteção e uma cabana… Pois tenho certeza que nos expulsarão do Zodíaco Dourado.

—Só espero que ela não nos mande a casa das Amazonas…

—Eu acredito na justiça da Deusa.

—Bem… E onde eu te espero?

—Você vai comigo, criatura.

—Eu? Euzinha? Cara a cara com a Deusa? Ai, ao menos me deixe tirar essa roupa de treino e colocar um vestido Dior.

—Nem pensar! Ela precisa ver que você tá se esforçando nos treinamentos! Aliás… — Kammy deu um tapa leve na ruiva, mas que já deixou seu rosto avermelhado e desalinhou um pouco os cabelos – Desculpe por isso, mas mesmo com o uniforme, você estava muito arrumadinha.

—Você me paga, Aimée!

—Já disse para não usar meu nome de batismo no Santuário.

Minutos depois, ambas estavam diante de Saori, que estava sentada no trono do Grande Mestre, já que o lugar agora estava vago:

—Sua santidade... — Kammy ajoelhou em reverência, puxando a ruiva para o mesmo – Agradeço por ter nos recebido.

—Ainda não tive o prazer de conhecer todos os Cavaleiros e Amazonas da confraria, mas graças ao episódio do memorial, eu sei quem vocês são... Kammy de Cervo e Sammyrah de Perseu… Que também é Tatiana Romanova

—Eu peço desculpas pelo nosso ultimo encontro… — Sammy murmurou — A senhorita deve está pensando o pior de mim após eu ter te espionado e com o que, provavelmente, ouviu no memorial..

—Ouvi algumas fofocas sim, mas não dei atenção… Como eu disse, apesar de seus dons, Sammyrah, o mal que possuía Saga também usou você. Não foi você que o manipulou. Quanto a você, Kammy de Cervo, sequer conheceu seu pai. Não deve ser ligada a ele apenas por ter herdado a armadura que ele abandonou... Enfim... Não creio que vieram a minha presença apenas saber o que foi dito no memorial.

—Não mesmo… Bem, senhorita… Após ser sagrada amazona, passei a viver na Casa de Aquário como subordinada do cavaleiro que a defendia. Infelizmente, ele também pereceu na guerra interna. Sammyrah sofre praticamente do mesmo mal: Afrodite era seu mestre e, devido aos ataques das amazonas, vivia com ele em Peixes. Agora que eles se foram estamos ocupando as casas, mas sabendo que aquele não é nosso lugar. E não podemos simplesmente ir para a Casa das Amazonas, pois seríamos escorraçadas. Antes que a senhorita comente que alegam que a Sammyrah apenas é Amazona devido influência do Saga, ela derrotou um Cavaleiro de Ouro sozinha em combate e a Armadura de Perseu a reconhece como portadora. Caso aleguem que ela não controla todo seu poder, eu tomei para mim a responsabilidade de cuidar do treinamento dela… Já que sou a única que, desculpe o termo, ruiva, a suporta. Tudo que desejo é uma cabana na parte baixa, porém mais afastada das demais. Queremos uma área onde possamos treinar e viver em paz, sem que as outras nos incomodem… Estou exigindo muito?

Saori respirou fundo e Sammyrah se encolheu. Diferente de Kammy, ela acreditava que a deusa também lhe crucificaria, afinal, ela também a enganou quando a encontrou “casualmente” em Tokyo. A deusa ficou de pé e estendeu a mão para que as duas fizessem o mesmo:

—Não há necessidade de tanta reverência… Levantem-se – sorriu – apesar de tudo, meu corpo ainda é de uma humana de 13 anos… E eu também fui hostilizada antes que me reconhecessem como deusa – olhou para os lados e cochichou – Shina o que o diga.

Por mais que Saori tenha tentado abafar o riso com as mãos, a gargalhada das três ecoou pelo salão. Em seguida, Kammy questionou:

—Então…

—Sim. Eu vou verificar se existe alguma cabana mais…

—Eu tenho uma sugestão, senhorita – Tatia tomou a frente.

—Pois bem, Sammyrah…

—Há alguns anos, uma cabana no setor leste foi abandonada por seus antigos ocupantes. Um traiu o santuário e a outra, temendo por sua vida e pela do bebê que carregava no ventre, foi obrigada a se isolar. Essa cabana jamais foi ocupada novamente… Ela só precisa de algumas reformas… E é grande o suficiente para nós duas.

—Hm… Gostei da ideia. E você, Kammy?

—Eu…

A loira não conseguiu terminar a frase. Apenas abraçou a ruiva e começou a chorar. Saori sorriu:

—Bom, vou interpretar isso como um sim — a deusa sorriu e se aproximou, segurando nas mãos de ambas — Agora eu que tenho um pedido a fazer a você, Tatiana.

—A mim? — soou um tanto incrédula — E com meu nome civil?

—Sim… Era algo que eu pediria ao Shiryu ou ao Shun para evitar de ir com o Tatsumi, mas não acho prudente… — suspirou — Eu fui convidada para a festa de aniversário de um empresário com o qual a Fundação Graad mantém negócios. Eu não o conheço pessoalmente, mas sei que, assim como Saori Kido, ele é um jovem herdeiro… Julian Solo.

—Ah claro… O herdeiro da Solo Empreendimentos Marinhos. Também recebi o convite pouco antes de retornar ao Santuário. Não tinha pretensão de ir, mas — deu de ombros — Eu a acompanho e faço escolta para a senhora.

—Então estamos combinadas — sorriu — sábado nós iremos às compras… Ainda temos um tempo até a festa, mas… Eu não gosto de fazer compras de roupas na última hora.

—Finalmente alguém que me entende.

Ao fundo, Kammy olhava as unhas rolando com os olhos em silêncio, enquanto pensava:

—De pensar que ela estava extremamente temerosa em vir falar com a Deusa… Agora estão conversando como duas comadres.

No dia seguinte, com a autorização da Deusa, a reforma da antiga cabana de Dorothée teve início. Kammy e Sammyrah seguiam com seu treinamento. A ruiva parecia um pouco mais empenhada, o que dava um certo ânimo para a prima de Camus. Os olhares tortos no coliseu também diminuíram, mas isso foi graças à proximidade de Mu de Áries com a dupla, que passou a auxiliar Kammy no treinamento psíquico da ruiva.

Notas finais
*Bom dia, em russo