Renúncias
2 Capítulo II

Alguns momentos depois, Kammy decidiu seguir com a ruiva em Peixes por segurança, pois sabia que não teriam cara de invadir a 12ª morada para afrontá-la. A subida foi rápida, aparentemente todos ainda não tinham voltado do memorial. Seguiram conversando até o cair da noite, lembrando com carinho de Camus e Afrodite, até que o cansaço finalmente venceu e Sammyrah decidiu dormir. Passava das oito, quando a Amazona de Cervo percebeu que a ruiva só despertaria no dia seguinte. Decidiu aproveitar o silêncio da noite para prestar as devidas homenagens a seu primo, já que passou a maior parte do tempo consolando Milo e, depois, Sammyrah:
—Não me arrependo do auxílio que dei ao senhor Milo e, posteriormente a Sammyrah… — pensou, enquanto deixava a rota das Doze Casas – Tirá-la de lá foi um alívio para mim também, afinal eu não estava a vontade… É horrível você querer se despedir de um parente enquanto escuta comentários péssimos e ilógicos sobre si...
A loira continuou em seu passo calmo, aproveitando o frescor da noite. Ainda não havia tirado a armadura, exigência da deusa durante os ritos fúnebres. Chegou ao memorial. Os cavaleiros dourados ganharam sepulturas especiais, em uma espécie de Mausoléu. Logo avistou o túmulo com o símbolo de Aquário, passando a mão sobre as letras gregas que formavam o nome de seu primo:
—Você prometeu me ensinaria esse alfabeto… — sussurrou, tirando a máscara e deixou uma lágrima escorrer – Poucas foram as vezes que conversamos como quem éramos… Normalmente, eu era sua assecla… Uma subordinada com um grau de inteligência maior que os demais. Aquela para quem você emprestava e recomendava livros.
Ela se ajoelhou diante da sepultura e começou a chorar. Em sua mente, memórias dos momentos que passara com o amado primo, memórias que foram interrompidas por uma morte precoce, uma morte que ele mesmo escolheu. De repente, a loira sentiu uma presença. Recolocou a máscara calmamente e ficou de pé, elevando sutilmente o cosmo:
—Acho melhor sair das sombras e me dar uma boa explicação do porquê me espionava – falou com voz firme – caso não me convença, o mandarei sem dó para perto do Príncipe do Inferno.
—Peço mil perdões… — respondeu um jovem loiro com belos traços. Estava com algumas bandagens e, apesar da noite fresca, usava um casaco — eu não tive intenção de te espionar. Apenas queria dar um último obrigado e adeus ao meu segundo mestre.
—Segundo mestre? — enfim virou o rosto mascarado e o encarou – Claro… Hyoga de Cisne. Treinado por Crystal na Sibéria, mas que recebeu ensinamentos do Di… do Mestre Camus em alguns momentos.
—Como você sabe desses detalhes?
—Kammy de Cervo. Assecla da Casa de Aquário e… Prima de Camus.
O jovem loiro ficou embasbacado com o que ouviu, estava em um momento frágil, mas decidiu abrir a guarda:
—Seu primo… foi mestre de meu mestre, consequentemente, meu mestre também – sorriu o loiro simpático – Infelizmente… Camus se sacrificou para que eu pudesse atingir o Sétimo Sentido… Espero que você não me odeie… jovem Kammy, pois qualquer pessoa próxima a meu mestre é digna de meu apreço.
—Toda essa guerra… foi uma loucura… tanto se perdeu…- A loira inspirou profundamente, tentando conter as lágrimas que já se formavam – Aquele desgraçado…
Hyoga não pensou duas vezes: se aproximou da garota e a puxou para perto de si, a abraçando com o único intuito de confortá-la:
—Sofremos muito com essa batalha, Amazona… mas Saga também sofreu. Ele estava dominado por um mal que o destruiu…
A jovem loira por alguns momentos cedeu ao abraço do rapaz desconhecido, mas logo voltou a si e se afastou:
—Obrigada por tudo, Cavaleiro… Eu não poderia odiar aquele para o qual meu primo doou a vida para dar uma última lição… — respirou fundo, agradecendo aos deuses por usar aquela máscara – Camus, diferente dos demais, não tinha uma cega devoção a Arles e não se importava quando ouvia que vocês eram traidores. Mas quando ele sentiu seu cosmo na Casa de Escorpião… — sentiu as lágrimas brotaram novamente. — quando ele sentiu aquela batalha acontecendo e como você quase acabou com Milo, ele me abraçou com força e disse que te passaria a última lição, a que Crystal não pode completar… Eu já esperava pelo sacrifício dele, mas mesmo assim…
—Não precisa se controlar, nobre Amazona. Eu também quero chorar a morte daquele que foi tão valoroso para mim.
O mestiço tornou a se aproximar, estendeu a mão e sorriu. Kammy suspirou e pousou a mão sob a dele. Ambos se sentaram em frente ao túmulo de Camus. Hyoga elevou levemente o cosmo, fazendo cair pequenos flocos de neve, um pequeno tributo ao Mago da Água e do Gelo. Finas lágrimas escorriam de seus olhos. Kammy, ainda mascarada, sentia o rosto úmido. Por fim, acabou abraçada no Cavaleiro de Cisne, sem a máscara, deixando toda a tristeza sair:
—Obrigada por estar aqui comigo — falou, ainda com o rosto abaixado. A cabeça estava levemente aninhada no ombro de Hyoga.
—Eu digo o mesmo. Não sei se aguentaria sozinho — respondeu – acabei de despertar e os cavaleiros do Templo da Cura me contaram o que houve. Disseram que eu tinha que repousar, mas eu precisava ver o túmulo dele… — inspirou – por favor, me avise quando for erguer o rosto. Não quero lutar contigo.
—A regra das máscaras é uma piada. Algo ultrapassado… — bradou, levantando o rosto, mas direcionando o olhar a sepultura do Cavaleiro de Aquário — Pelo pouco que vi de Saori Kido e seus ideais, acredito que ela vai acabar com essa hipocrisia de “mulher precisa se mascarar para poder lutar”. Mesmo que, por ventura, você acabe vendo meu rosto, eu não vou entrar em combate contigo. Estamos em um momento de luto e somos, igualmente, filhos de Aquário.
—Pelo visto, você conviveu muito com Camus…
—Só pela forma que falo? — deu um leve riso – Pior que, apesar de vivermos na mesma casa, não éramos próximos, apesar de nos considerarmos parentes.
—Como assim se consideravam? Você não disse que é prima dele?
—E sou, mas… É uma longa história que ficará para outra ocasião. Você está trêmulo, apesar de não estar frio… Volte para o Templo da Cura e respeite seu tempo de convalescença. — se levantou e colocou a máscara.
—Mas, eu não… — se encolheu. Ela tinha razão. Mesmo sendo um Cavaleiro do frio, seu corpo ainda não havia se recuperado da explosão causada pelo choque da Execução Aurora. — Certo. Eu… Te verei novamente?
—Quando se sentir melhor, me encontre aqui. Tenha certeza que virei todas as noites.
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