Renúncias
1 Capítulo I.
Notas iniciais
Tatiana nunca havia ficado tão pouco tempo em Paris. Os constantes pesadelos com Gigars, caixões, sangue, rosas e diversos corpos espalhados pelo Santuário impediram que ela descansasse de forma plena. Além disso, não gostou da forma com que se despediu do mestre. "Você deve ir. As coisas podem se complicar para você, se você ficar” foi isso que ele disse após ela soltar a mão de Shura, voltar e o abraçar forte, dizendo que não queria ir. O ápice de tudo foi aquela rosa no jardim de sua avó, algo que, até o momento, não sabia se tinha sido real ou apenas uma alucinação. Por mais que gostasse dos luxos da vida externa e de seu nome, estava começando a pegar gosto por sua contra parte. Sammyrah... Uma alcunha poderosa, que ficou mais linda com uma patente e uma armadura:
—Não que eu queira lutar, mas eu fico linda e poderosa na minha armadura. Além do mais, posso transformar qualquer um em pedra — pensou, enquanto encarava a entrada do Vilarejo de Rodorio, após pagar o táxi que a trouxera — Mas o que realmente importa é descobrir se o Dido está bem…
Caminhou pelas ruelas e, logo, avistou a mercearia de Seu Salvador. Uma moça de cabelos castanhos avermelhados varria a calçada. Ela lembrava alguém, mas Tatia ignorou isso, pediu licença e adentrou no local. O dono do estabelecimento, como sempre, estava atrás do balcão:
—Boa tarde — saudou-a — Em que posso ajudar, senhorita?
—As aves já estão migrando para o sul.
—Sinal que o inverno se aproxima.
—E parece que será tão rigoroso quanto o inferno de Cocytus.
Sabendo que se tratava de um habitante do Santuário, o vendedor deu três toques em um tijolo, liberando espaço para que a ruiva passasse. Ela achava todo aquele teatro desnecessário, mas não questionava os métodos. Estranhou a ausência dos guarda na entrada da Terra Santa. Os campos de treinamento também estavam vazios:
—Está tudo tão quieto... — fechou os olhos e se concentrou, procurou as presenças de Shura ou Afrodite, mas sem sucesso — Deuses... Será que eles saíram do Santuário? Não... Eu sentia Afrodite lá de casa... — Se concentrou mais um pouco — Saga, digo, Arles também não está... Camus... Máscara da Morte... — respirou — Vou apelar para aquela maldita camponesa. Ela saberá me explicar o que houve.
Com a confirmação do cosmo de Kammy, Sammyrah correu para Peixes a fim de guardar sua bagagem.
No Memorial, a última homenagem era prestada aos Cavaleiros de Ouro. O sol brilhava forte. Saori Kido, a deusa Athena reencarnada, encarava os membros restantes da cavalaria se despedirem dos valorosos guerreiros que perderam na revolta. Ela tinha a aparência preocupada e triste, todo aquele sacrifício lhe parecia desnecessário. Ladeada por Mu de Áries, a deusa fitava os guerreiros restantes com pesar, sentindo-se extremamente culpada por aquilo tudo.
Dentre os dourados, quem parecia mais mexido era o Cavaleiro de Escorpião, que, acompanhado de uma amazona loira, era consolado por Aldebaran de Touro. Milo parecia fora de si, enquanto a jovem ao seu lado apenas encarava a lápide em silêncio. Kammy seguia sem acreditar naquilo, ouvia Milo indignado, ainda ralhando com seu primo, enquanto Aldebaran tentava acalmá-lo:
—Mas como você pode se deixar levar, Camus? Maldito francês dramático! — Ele resmungava segurando as lágrimas — Queria te ressuscitar só pra te matar de novo, seu idiota!
—Milo, controle-se, a deusa está se aproximando e a Kammy não merece isso…
—Meu melhor amigo morreu, Aldebaran! Camus está comigo desde que me entendo por gente! Ele é praticamente meu irmão… Como espera que eu reaja?
Kammy apenas ouvia Milo estressado, enquanto se sentia rasgada por dentro. Não tinha mais nenhum parente ou pessoa amada viva. Perdera seus pais, seu Mestre, Crystal — que era como um irmão — e, agora, seu primo e mentor. Ela não sabia o que fazer. Sabia que Camus deveria ter orientado o Escorpião a ajudá-la naqueles momentos, mas o próprio estava um caco, prestes a ter uma síncope. Aquilo tudo era absurdo demais. Ao ouvir Milo falar, sentiu como se uma faca lhe abrisse o peito. Num canto mais afastado, Ellen, Shina e outra amazonas encaravam a loira com escárnio. Como podia uma Amazona de Prata como elas ter tantos privilégios?
—Está vendo, Shina? — resmungou Ellen — Ela está prestando as homenagens junto aos Cavaleiros de Ouro. Que absurdo!
—Essa garota sempre teve tantas rinhas com aquela maldita Sammyrah de Perseu, mas é igualzinha a ela. Perdeu o primo e já está caçando garantias com Milo… Ridículo.
****
Sammyrah se deparou com a Casa de Peixes vazia e silenciosa. Aquilo não era o normal. Quando entrou em seu quarto, tomou um banho rápido e ouviu a voz de Dione procurando por si. Vestida com as roupas de treino, encontrou a serva com um olhar vazio:
—Jovem Mestra, você precisa descer agora até os jardins do memorial… — A serva suspirou
—O que está acontecendo? Cadê o Afrodite? — Ela ouviu a serva reprimir o choro e sentiu o coração parar de bater por um segundo — DIONE!
—Por todos os deuses, jovem Mestra… Apenas vá!
A ruiva apenas elevou o cosmo chamando a armadura de Perseu e desceu o mais rápido possível até o local. Chegando lá viu aonde finalmente estavam todos e, inconscientemente, foi passando sem ser notada entre cavaleiros e amazonas que pareciam aglomerados e com uma energia pesadíssima. Tentava entender o que diabos estava acontecendo. Queria saber onde estavam os cavaleiros que ela não sentia o cosmos, até que deu de cara com um mausoléu imenso, com esculturas que lembravam o signo de Gêmeos. Ela sentiu um arrepio da espinha e veio em sua mente um flash da última vez que viu Saga, implorando pelo seu perdão e por sua ajuda, a cena que a assombrou por dias a fio. Ficou lembrando disso até conseguir ler as grafias abaixo da escultura: Saga, Cavaleiro de Ouro de Gêmeos. E foi ali que ela sentiu as pernas bambas e começou a procurar desesperadamente pela cabeleira azul clara de Afrodite na multidão. Viu rapidamente um Milo de Escorpião choroso e algo que não esperava: uma réplica da estátua da casa de Capricórnio. Ali ela apenas estagnou, tocando incrédula a inscrição na lápide com o nome do seu amado. Chamou a atenção do cavaleiro de escorpião, que falou baixinho para Kammy:
—Não acredito.... ela tem muita coragem de vir aqui sozinha…
A loira apenas virou o rosto e viu sua dita inimiga de infância paralisada de frente ao túmulo do falecido namorado. Pela primeira vez na vida, sentiu pena de Sammyrah, até porque, ela parecia não saber de Afrodite:
—Desculpe, Mestre Milo, mas não acho certo julgá-la... Ela não parece ter noção nenhuma de tudo que aconteceu… Maldito Arles, acabou com a vida de todo mundo…
Ali, naquele momento uma lembrança boa pareceu ressurgir como uma forma de negação ao que Sammyrah encarava. Parecia ainda sentir o calor do corpo de Shura ao lado do seu...
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A tarde gelada obrigava os parisienses a já retirarem casacos mais pesados do armário, o outono findava, as temperaturas caíam mais rápido que as folhas restantes nas árvores quase já despidas, seus galhos nus recebiam o inverno. Perdidos em meio ao vai e vem da cidade, Tatiana e Shura conversavam tranquilamente em um bistrô:
—Estou tão feliz que você ficou um pouco mais — A ruiva disse, se aninhando no ombro do capricorniano e dando um beijo em seu rosto
—Eu vi que você precisava, não é? — Shura deu um meio sorriso — E é bom ter um gostinho de vida normal… com você… — bebericou a taça de vinho, apoiando-a na mesa em seguida, ainda sorrindo.
—Me dá um gole? — Ela sorriu e deu um beijo no pescoço dele, fazendo-o arrepiar
—Não vou te dar bebida, lolita. — Shura a olhou enviesado — Já basta você ser minha namorada menor de idade… Deuses — Ele deu um beijo na testa da ruiva, que sorriu
—Há quanto tempo você não tinha uma “vida normal”? — Ela se ergueu encarando o espanhol com um ar sonhador
—Uns dez anos, eu acho… — Suspirou — Antes de toda essa merda começar sabe? Era legal… às vezes até mais tentador que ser Cavaleiro…
—Eu estou muito, mas muito feliz de estar vivendo isso contigo, Shu… de verdade…
—Também estou, Cariño… — O Capricorniano a abraçou pela cintura e encostou a cabeça no ombro dela — Te juro… se tudo acabar bem, eu quero viver assim com você. Te levar pra beber Rioja no Barrio de Santa cruz, em Sevilla. Seremos apenas Tatiana e Gael, nada de alcunhas ou patentes... — Ele a encarou, sonhador — Mas, por enquanto, vamos ter que nos contentar com esses diazinhos....
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A voz dele parecia se distanciar, ainda mais a lembrança do beijo apaixonado que ele a deu antes de se levantar, ela o via andando até desaparecer. E aquela lápide com seu nome, surgiu em vez do sorriso zombeteiro do espanhol reclamando do vinho. A ruiva tentou conter o choro, mas apenas um urro saiu de sua garganta enquanto ela tocava o mármore gelado. Sentiu as pernas fraquejarem e, ainda tentando fugir da realidade, virou a cabeça e encarou o que mais temia: lá estava, a última defesa antes de Athena, seu mestre, enterrado em uma lápide como aquela de Shura. Ali ela não pode mais. As cenas de riso e brincadeiras quando ela ainda era criança, as noites de tempestade em que Dite a acalentou... Aquilo era além do que ela podia aguentar. Finalmente ali, diante do seu mestre morto se entregou às lágrimas, confirmando sua identidade para aqueles que já a olhavam torto. A única coisa que ela queria era abraçar Afrodite uma última vez, mas o mausoléu estava selado:
—Isso... Não pode ser real... — Ela falava de joelhos sem acreditar
—PODE... PODE SIM E É TUDO CULPA SUA, SUA MALDITA BRUXA MANIPULADORA! — O grito partiu de Satrina, a garota que perdeu a armadura para Kammy e passou a servir o Grande Mestre. — VOCÊ VIVIA SUSSURRANDO MALDADES E PLANOS DE DOMÍNIO NA ORELHA DO MESTRE ARLES. EU OS FLAGREI DIVERSAS VEZES!
—Não apenas isso — Shina levantou — Você também usava de sua capacidade de ler mentes para nos usar a seu bel prazer. Manipulou Saga e manipulou todos nós!
—Sua maldita! Deveria ter ficado em seu palácio! — Aiolia indagou, postando-se de pé — Ah, esqueci! Você não tem um, princesa sem teto!
—Maldita!
—Bruxa!
—Manipuladora!
—Princesa sem teto!
Os gritos teriam continuado se Athena não tivesse batido o báculo e Kammy não tivesse saído do lado de Milo, tirando a ruiva dali o mais rápido que pôde. Ao longe, ainda puderam ouvir a voz da Deusa:
—Todos perdemos alguém importante nessa guerra.... Não há necessidade de culpar uma garota que, apesar de tudo, claramente também era usada pelo mal que possuía Saga.
A amazona de Cervo levou Sammyrah para o lago perto da sua antiga cabana com Misty. A ruiva tirou a máscara e as lágrimas desceram com força, levando-a a cair de joelhos, chorando enquanto tinha fôlego. Kammy tinha vontade de fazer o mesmo, mas se conteve, apenas tirou a máscara e deixou as lágrimas escorrerem silenciosas. Se sentou ao lado da Amazona de Perseu, alisando as costas da mesma em forma de consolo:
—De todas as pessoas ali — A ruiva fungou — você era a última que imaginei que fosse me ajudar.
—Suas amigas não estão e, tal como Athena disse.... Todos perdemos alguém nessa guerra. Um amigo, um mestre, um parente ou até mesmo um amor. — A loira sentiu a ruiva segurar em suas mãos enquanto enxugava lágrimas — Eu não sou um deus para julgar seus atos, Sammyrah. Ainda mais quando sei que você apenas os cometeu por amar o Saga.
—O que você está dizendo? Eu não...
—Posso não conseguir ler mentes como você, mas é uma coisa que sempre disseram sobre o Didier, digo, o Camus: a visão de um aquariano está sempre 3 passos a frente do resto do mundo. Ele não era o único aquariano por aqui... E você não é a única odiada por "andar com os dourados" — fez aspas no ar — parece que também conquistei esse título.
—Como? Eu entendo que me odeiem... Eu fiz por merecer isso, mas você...?
—Tudo começou quando venci Satrina no combate pela Armadura de Cervo. Era só uma Armadura de Prata se ela ganhasse, mas como eu ganhei, ela automaticamente virou "a armadura usada por Zephiros, aquele que abandonou a esposa grávida, uniu-se aos Cavaleiros Negros e blá blá blá, Filhos do Vento, blá blá blá...". Aí o mestre Misty, o único que me protegia aqui, morreu por causa dessa porcaria guerra. Foi derrotado pelo Seiya...
—Seiya? Aquele Seiya?
—O próprio... O Poneizinho Alado matou o mestre Misty... Achei que você soubesse disso.
—Na verdade... Eu apenas sabia que ele havia sido derrotado pelos "cavaleiros de bronze renegados". Na boa? Eu só fui descobrir que aquele no poder não era o Saga, mas um demônio que assolava seu corpo, quando ele decidiu mandar alguém matar Mu de Áries. Foi nesse momento que percebi o erro que havia cometido.
—Desculpa... Mas ele tentou algo contra você?
—Não da forma que você está pensando... — a ruiva viu o olhar de reprovação da Loira — não pense que li seus pensamentos... Já que estamos sendo sinceras uma com a outra, vou te confessar uma coisa: eu não domino totalmente meu poder. Eu tenho algumas visões em momentos de tensão ou quando quero irritar alguém... Não me julgue.
—Já disse que não sou uma divindade para te julgar. Pense que você está em uma zona segura... Você pode responder minha pergunta?
—Claro.... Como disse, não domino totalmente meu poder. Arles, Saga... Aquele demônio queria que eu descobrisse onde estava a Armadura de Sagitário, que tinha sido parcialmente recuperada por Docrates, mas sumiu da noite pro dia, literalmente. Eu me concentrei de todas as formas possíveis, mas nada adiantou. Eu apenas via uma luz dourada guiando cinco jovens e ouvia a voz de Aiolos... O que não significava nada na hora, mas que agora faz sentido, enfim... Contei a ele que não vi nada... E ele...
—Ele te agrediu?
—Foi um único tapa...mas um tapa que rasgou minha alma. Eu me encolhi no canto e sei que ele teria feito o que quisesse comigo se Afrodite e Shura não tivessem chegado. Acho que os chamei sem querer...
—Bom, Sammyrah... Meu primo, meu mestre e o Crystal estão mortos. Seu mestre e o Shura também... As amazonas nos odeiam e creio que 99% dos Cavaleiros que restaram no Santuário compartilham do mesmo sentimento para contigo. Estamos sozinhas... Acho que, tudo que nos resta, é esquecermos essa ridícula desavença infantil e nos apoiamos uma na outra.
—Aliás: por que a gente se odeia mesmo?
—Eu não sei porque você me odeia, mas eu criei raiva de ti devido os constantes deboches.
—Ah, lembrei... Os caras que tentaram me sequestrar trabalhavam pro seu pai.
—E como você descobriu isso?
—Misty e sua cabecinha aberta. Ai presumi que você era uma miniatura de traidora, que só estava aqui para avisar aquele povo a minha localização.
—Mon Dieu... Eu sequer sabia que ele era meu pai naquela época. Sempre achei que meu pai tinha perdido a vida em...
—Eu sei, eu sei... Bem, o passado ficou para trás — a ruiva estendeu a mão — amigas?
—Claro... Mas sem essa de me chamar de camponesa. Até porque, eu sou uma Amazona de Prata e você tem um título meio controverso. Teoricamente, eu sou sua mestra agora.
—Ah não...
—Ah sim! Eu vou exercitar essa sua cabecinha oca, Romanova!
—O que eu te fiz... É...?
—Belmount, Aimée Belmount. Esse é meu nome de batismo. E você passou quase a última década toda me chamando de Camponesa! Acho que isso é mais que suficiente
—Bem... como “nobre” sou repleta de problemas de caráter e de limites sabe? — A ruiva riu, tirando uma carteira de Marlboro do lenço do uniforme — Quer selar nossa nova amizade ?
—O que é isso? -Suspirou a loira, vendo a ruiva bater o cigarro na caixa
—Marlboro vermelho? — A ruiva respondeu tranquilamente, mas prossegui a explicação ao ver que a expressão de dúvida se mantinha — Sério que você não sabe o que são cigarros? Meu Deus... que espécie de francesa é você?
—Uma francesa que viveu até os cinco anos no campo e, depois, veio para este fim de mundo, Sammyrah?- A loira estendeu a mão enquanto a nova amiga lhe estendia um cigarro aceso
—Pode me chamar de Tatiana… Ou Tatia, se preferir — A ruiva tragou o cigarro intensamente e soltou pelo nariz
A loira tentou imitá-la sem sucesso, mas rapidamente disfarçou, puxando assunto:
—Bem, agora que somos amigas... aquele boato de você e o do Shura...
—De eu ter perdido a virgindade com ele? É verdade... mas nunca tive nada com o louco do Arles… — A ruiva tragou outra vez — O Shu era um cara incrível... Nem acredito que ele não está vivo… — Tatiana sentiu as lágrimas insistirem em voltar, mas percebeu que a loira só fazia fumaça e reclamou — Cara... você precisa aprender a tragar
Notas finais
Talvez as postagens fiquem mais espaçadas, porém prometemos atualizações regulares para vocês.
Beijinhos
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