Renegade

1 2 de dezembro de 1998, Me conhecendo


Lá estava eu, parada em frente de um espelho. Me distraí com meu próprio reflexo, e senti algo muito familiar sobre minha aparência. Eu tinha uma pele muito pálida, e olhos castanhos, em um tom de caramelo. Meus cabelos eram loiros, sem franja, e íam até a cintura. Nas pontas, meu cabelo era ondulado. Eu estava usando um vestido branco que ía até o joelho, com mangas caídas sobre os ombros, era algo bem simples, afinal. Eu não estava usando sapatos, só uma meia calça de seda, que parecia ser um pouco antiga... Ela era um pouco amarelada, mas eu acho que era branca antes, assim como o vestido.

Só tinha uma coisa de errado, eu não lembrava quem eu era. Isso era muito estranho... Olhei ao meu redor. Eu estava em um quarto com paredes levemente rosadas e o chão de madeira. Ao lado do espelho em que eu me olhava, tinha um armário. Eu abri, e estava vazio, não por completo... Nele, tinham alguns cabides. A cama estava forrada com um edredom, que era um rosa um pouco mais escuro que o das paredes. Em cima da cama tinham muitas caixas, e em cima delas estava escrito algo. Não conseguia ler... Resolvi ver o que tinha dentro delas. Andei até lá e acabei pisando em algo no chão, acho que era um estilete. Peguei ele e abri as caixas usando-o. Em uma das caixas, tinham vários vestidos, um mais bonito que o outro! Eles tinham estampas lindas com cores leves. Em outra caixa, tinham... Acho que o nome daquilo era polâina. Tinham várias dessas! Na outra caixa, tinham desenhos horrívelmente mal feitos; A maioria deles ilustrava o que parecia ser uma família feliz. E na última caixa, tinham fotos... Uma delas me chamou a atenção.

Nela, tinham três crianças. Duas meninas e um menino. A menina na direita tinha cabelos ruivos na altura do ombro, com a franja irritando os seus olhos, castanhos. O menino da esquerda tinha cabelos castanhos e quase na altura dos ombros, também. Seus olhos eram um verde meio abacate... Mas o que me chamou mesmo a atenção foi a menina do meio. Ela era muito parecida comigo! Porém, ela tinha suas diferenças. Seu tom de pele era um pouco mais escuro que o meu, seus cabelos eram castanhos, e o vestido que ela usava era um azul vibrante. Seus olhos eram tão escuros que pareciam pretos, e ela tinha um enorme sorriso no rosto... Talvez eles poderiam me ajudar! Resolvi sair do quarto e ficar andando pela casa para ver se eu encontrava alguém.

Quando saí do quarto dei de cara com um corredor, com seis portas (três na esquerda e três na direita), e uma outra bem grande no final do corredor. Entrei na primeira porta.

Lá tinha uma sala super simpática, as paredes eram laranjas. Lá tinha uma TV e um sofá forrado com um tecido vermelho, cheio de almofadas coloridas em cima. Do outro lado da sala tinha uma porta. Fui até lá e abri, vi um elevador, quem diria? Estou em um apartamento. Resolvi voltar ao corredor e escolher outra porta...

Entrei na segunda porta, lá tinha uma cozinha. Fora os lindos azulejos que tinham lá, nada de especial... Voltei ao corredor e entrei na terceira porta.

Lá tinha um quarto com uma cama de casal. A parede era composta por quadros e retratos! Eu achei aquilo muito bonito, mas... Tinham muitas fotos daquelas 3 crianças. Isso me deixava incomodada, não sei porquê.

Voltei ao corredor e entrei na quarta porta. Lá tinha um quarto com um papel de parede listrado azul e verde. O chão tinha um carpete azul marinho. Lá tinha uma escrivaninha com um monte de papéis, e um notebook perdido no meio da papelada. Aquele cômodo era o mais bagunçado da casa, o chão estava cheio de tranqueiras, eu não conseguia nem andar direito lá dentro. Resolvi sair de lá o mais rápido possível, toda aquela bagunça estava me deixando irritada. Ouvi uma música tocando baixinho de dentro da quinta porta. Resolvi entrar lá.

Na quinta porta, tinha o cômodo mais lindo do apartamento! Um quarto inteiramente lilás, o forro e o edredom da cama, o carpete, o papel de parede, a escrivaninha, os travesseiros, os bichinhos de pelúcia em cima da cama e as molduras dos quadros na parede! Na escrivaninha, tinha um notebook com um case lilás, também. E ao lado dele, tinha um mini rádio, era dele que provavelmente vinha a música. Abri o armário e vi muitas roupas lindas, resolvi checar as gavetas que ficavam no canto do armário. Em uma delas, vi o que parecia ser um celular tocando. Peguei ele, e não sabia como mecher. Fui apertando os botões aleatóriamente e acabei aceitando a ligação sem querer, fiquei em silêncio.

– Alô? Minatsuki, você está aí? — Disse a pessoa da outra linha.

"Então o nome da dona do celular é Minatsuki", pensei.

– O-oi — Respondi, para não deixar a pessoa falando sozinha. Ficamos na linha por alguns segundos totalmente em silêncio.

– Alguém aí? — Disse a pessoa, como se não tivesse me ouvido.

– Sim! Tá me ouvindo?

– ...

– Oi?

– Deve estar mudo. — Então ela desligou.

"Que falta de educação", pensei, e desliguei o celular, jogando ele de volta na gaveta. Resolvi voltar á minha excursão e voltei ao corredor, e abri a sexta porta. Percebi que lá tinha "presença humana" e dei uma espiada antes de entrar.

Na sexta porta tinha um escritório, e lá tinha um senhor trabalhando. Me lembro de ter visto ele em muitas das fotos que encontrei nas caixas do quarto em que estava antes, nos retratos do quarto onde tinha a cama de casal...

Ele estava digitando em uma máquina de escrever das antigas, enquanto checava coisas em papéis que ficavam separadas ao lado dele. Sua expressão parecia estar triste... Resolvi chamar a atenção dele.

– Olá... Com licença? — Eu disse, entrando no escritório devagar.

Ele me ignorou. Como fez a pessoa do outro lado da linha no telefone...

– Com licença? — Tentei novamente. Mesmo depois de alguns minutos ele não me respondia, fiquei com raiva e saí de lá batendo os pés.

Tentei abrir a enorme porta que ficava no fim do corredor. Mas ela estava trancada. Ouvi um barulho vindo da primeira porta que entrei, um barulho de chaves e de pessoas falando baixinho. Corri para lá, na esperança de ver alguém que pudesse me ajudar.

Lá, estavam todos vestidos de preto: Duas das crianças daquelas fotografias (a menina e o menino dos cabelos curtos) sentadas no sofá vendo TV, e dois adultos (talvez o pai e a mãe deles) conversando.

– Olá! — Gritei, com um sorriso no rosto. — Vocês podem me ajudar?

As duas crianças olharam para mim sem expressão, talvez um pouco assustados. Mas depois sem dizer nada, desviaram o olhar de mim e voltaram a ver TV. Os adultos nem sequer olharam para mim...

– Me respondam! Por favor! Todos tem me ignorado, eu não sei o que fazer! — Sentei no chão e comecei a chorar. Aquelas duas crianças levantaram do sofá e foram até onde eu estava. O menino disse baixinho, mas sem olhar para mim:

– Venha conosco. — Então eles dois saíram da sala e foram até o corredor. Enxuguei as lágrimas e segui eles.

Eles entraram naquele quarto verde e azul bagunçado, assim quando viram que eu entrei, fecharam a porta e trancaram.

– O que está acontecendo? — Perguntei, e sentei na cama. Só o que eu via eram aqueles dois conversando baixinho um com o outro enquanto olhavam para mim. Depois de algum tempo, a menina veio até mim e disse:

– Olá, sou Minatsuki! Qual o seu nome?

"Essa é a garota do celular", pensei.

– ...E-eu não me lembro... Perdi a memória, estou procurando ajuda faz algum tempo mas todos me ignoram como se eu não existisse. P-por favor, me ajude... — Respondi

– Eu sou o Yue. Você sabe pelo menos como...– Disse o garoto, que se aproximou de mim também. Fez sinal de "aspas" com os dedos — "Perdeu a memória"?

Fiquei um pouco confusa com o tom de ironia em "perdeu a memória", mas respondi:

– Não, não sei. Não sei quem sou eu, e nem o porque de eu estar aqui. Tudo é um completo mistério para mim...

Minatsuki e Yue se olharam com uma expressão meio triste e depois, olharam para mim.

– A partir de hoje você será a Misaki — Disse Yue. — Nossa irmã.

– E-eu? — Perguntei.

– Você.

– M-mas... Por que todos me ignoram? Há algo de errado comigo?

– Não. Você é perfeita.

Sorri, e então nós três ficamos conversando. Imagino o que acontecerá comigo nos próximos mêses aqui... Quero minha memória de volta.

Notas finais
Esse é o capítulo mais leve da história, hehe :D
Espero que tenham gostado! Se sim, comentem *-*
Deixem a autora feliz u_u