Renegade

2 3 de dezembro de 1998, Chuva


Estou me sentindo bem, Minatsuki e Yue estão sendo legais comigo. Mas eu continuo sem entender o porquê de todos agirem como se eu fosse invisível.

Noite passada, quando Minatsuki e Yue foram dormir, fui ao quarto de Minatsuki e a vi dormir. Eu não estava com sono, dormir era a última coisa que eu pensava em fazer.

Deitei no carpete (não tinham camas disponíveis, exceto pela cama do quarto cor-de-rosa, mas tinha muitas caixas e eu estava com preguiça de tirá-las de lá.) e fechei os olhos, eu não conseguia dormir nem assim. Fui até o lado da cama de Minatsuki e ajoelhei. Cutuquei o ombro dela e a chamei sussurrando seu nome; “Minatsuki! Acorde, Minatsuki!”.

– O que foi...? – Acordou Minatsuki, esfregando os olhos – Misaki?

– Minatsuki, eu acho que tem algo de errado comigo. – Eu disse.

– O que?

– Não consigo dormir.

– Então não durma.

– Mas...

–...

– Minatsuki?

– Você não precisa mais dormir.

– Não?

– Não.

– Por que não?

– Porque não...

– Mas, Minatsuki...

– Apenas confie em mim.

–...

– Até amanhã – Disse ela, se virando de lado. Depois disso, ela caiu no sono. As coisas estavam ficando cada vez mais estranhas, não preciso mais dormir? Dormir é uma necessidade humana.

Bom... Resolvi confiar nela.

Fiquei acordada a noite toda, mexendo nas caixas que estavam no quarto cor-de-rosa. Tentei lembrar como era ler, mas sem resultados positivos. “Amanhã pergunto para Yue-kun e Mina-chan o que está escrito nos rótulos das caixas”, pensei. Depois, fiquei andando pela casa e vendo as pessoas dormindo em seus quartos, afogadas no próprio sono.

Passei o resto da noite no quarto de Yue, pensando em como ele conseguia viver no meio da imundice e tentando lembrar sobre mim e minha memória perdida... Novamente, sem resultados positivos. Resolvi esperar até amanhecer, para ver se ficar acordada a noite inteira causaria efeitos colaterais.

Incrivelmente, não aconteceu nada! Hoje de manhã eu abri a janela de Yue e vi o sol nascer, não tinha acontecido nada ruim comigo por eu ter passado a noite em claro, e nenhum pingo de sono até agora.

– Mas o que é isso? – Disse Yue, acordando. Talvez ele tivesse acordado por causa do sol que deixei em seu rosto, abrindo a janela...

– Bom dia! – Respondi. – Dormiu bem?

– Mais ou menos...

– Que pena – Suspirei. – Vamos acordar a Mina-chan! – Então corri até o quarto de Minatsuki e abri sua janela também.

– Yue...? Misaki...? – Disse ela, acordando. Assim que ela esfregou os olhos e viu eu e Yue ao lado da cama dela, abriu um sorriso. – Ta, agora saiam daqui porque eu ainda estou com sono – E cobriu seu rosto com o edredom.

Assim, eu e Yue fomos até a cozinha, onde a mãe dele e de Minatsuki estava cozinhando.

– Bom dia – Disse Yue, sentando-se à mesa.

– Oi – Eu disse, e sentei também.

– Bom dia, Yue! – Disse a mãe deles – Acordou cedo hoje...

Irritei-me por estarem me ignorando ainda, e fiquei quieta.

– É. Certa força me obrigou a acordar mais cedo hoje – Respondeu Yue, rindo.

Ri também, mas fiquei brava. Dei um empurrão nele e ele acabou caindo da cadeira.

– O-opa... – Disse eu.

– Yue! Você está bem? – Disse a mãe deles, e correu para ajudá-lo a levantar.

– Sim... – Respondeu Yue.

Senti-me envergonhada e saí correndo, para o quarto de Minatsuki, e me escondi debaixo da cama.

– Mãe, eu não estou com fome hoje, já volto. – Disse Yue, que saiu correndo atrás de mim.

Assim que ele entrou no quarto de Minatsuki, fechou a porta e trancou. Debruçou no chão e me viu embaixo da cama.

– Tudo bem – Disse ele.

– Tudo bem o que? – Perguntei.

– Não tem problema, não doeu. Costumo cair muito dos lugares.

–...

Yue estendeu a mão para mim e me puxou para fora de debaixo da cama, e então me ajudou a levantar.

– Jura que não teve problema? – Quis confirmar.

– Claro que não teve! Acontece toda hora por aqui... – E então, Yue empurrou Minatsuki para fora da cama.

– Ei! – Disse Minatsuki. – Seu desgraçado... – Levantou do chão e bateu no braço de Yue.

– É você, depois vou contar pra mamãe que você me bateu e você vai se ferrar LOL. – Disse Yue, subindo na cama de Minatsuki para olhar pela janela. – Olhem meninas, o sol está sumindo entre as nuvens.

– Jura? – Minatsuki subiu na cama e olhou também. – Que legal!

– O que tem isso? – Perguntei.

– Quer dizer que teremos chuva hoje à noite, Misaki-san – Disse Minatsuki – Nós adoramos chuva... Toda vez que chove, nós vamos ao parque abandonado que fica perto daqui e ficamos sentindo a chuva escorrer pela nossa pele... – Os olhos de Mina-chan brilhavam.

– Chuva? – Sei que parece estúpido, mas eu não lembrava o que era a chuva.

–...

– Você verá o que é na hora – Disse Yue. – Garanto que você vai adorar a chuva assim como nós adoramos...

Concordei e depois de mais ou menos uma hora, já estava nublado e segundo Mina-chan e Yue-kun, tinha começado a garoar.

– Olhem lá fora! – Disse Yue, e eu e Minatsuki olhamos.

– Wow, eu acho que me lembro agora... – Eu disse.

Minatsuki olhava as gotas pingarem em todos os lugares com admiração.

– Já que começou a chover mais cedo, por que não vamos naquele parque mais cedo hoje? — Sugeri — Não me lembro de como é sentir a chuva na pele...

– Não dá agora — Disse Yue — Temos que esperar mamãe e papai saírem de casa no final da tarde, aí vamos.

– Por que?

– Mamãe e papai não nos deixam sair quando está chovendo — Explicou Minatsuki — Então quando chove, nós esperamos eles saírem de casa, aí pegamos as capas de chuva e vamos para o parque. Assim, nós não nos molhamos e subimos de volta ao apartamento antes que eles voltem. É simples!

– Entendi...

Então nós ficamos esperando até anoitecer, quando ouvimos o pai deles guardando as chaves:

– Yue, Minatsuki, eu e Akemi já voltamos — Então ouvimos a porta do elevador fechar.

– Akemi? — Perguntei.

– É, Akemi é o nome da mamãe e Jun é o nome do papai, — Explicou Minatsuki — Agora vamos pegar as capas de chuva e vamos embora.

– Ah...

Então Yue e Minatsuki pegaram as capas de chuva deles e disseram que eu não precisaria de uma, mais uma vez estranhei mas resolvi confiar. Afinal, não aconteceu nada na última vez que eles disseram que eu não ia precisar de tal coisa.

Chegamos no estacionamento do prédio, um lugar muito familiar pra mim... Yue-kun usou um alicate para quebrar as correntes que prendiam as bicicletas de lá, pegou uma para ele, uma para Minatsuki e uma para mim.

– Não sei andar de bicicleta... — Lamentei.

– Claro que sabe — Disse Minatsuki, rindo.

E o incrível, é que eu sabia mesmo. Yue foi andando de bicicleta até o parque, enquanto eu e Minatsuki seguimos. Quando chegamos, Yue largou a bicicleta na calçada e correu para o meio do parque, abriu os braços e levantou a cabeça, com os olhos fechados.

– Isso é muito bom! — Exclamou ele.

Minatsuki fez o mesmo, me puxando pelo braço.

– É uma sensação tão boa sentir os pingos em você, não é, Misa-chan? — Perguntou Minatsuki.

– Não... Não sinto nada... — Respondi, um pouco confusa e assustada.

Minatsuki e Yue olharam para mim com uma expressão assustada, mas forçada...

– Você não sente nem frio? — Perguntou Yue — Você é bem diferente...

– Não...

– Que estranho! — Disse Minatsuki. Então nós três ficamos sentados na grama conversando, até que eu reparei que bem no outro lado do parque tinha uma casinha bem pequena, parecia uma cabine, inteira feita de madeira e um pouco defeituosa, só tinha uma janela que mostrava estar com a luz acesa dentro da "casa".

– O que é aquilo? — Perguntei, apontando para a casinha.

– Wow, melhor você ficar longe de lá, Misaki — Respondeu Minatsuki, olhando para onde eu apontei.

– Por que?

– Lá, mora o dono do parque. Ninguém sabe sobre o seu gênero ou se ele tem família, mas dizem que ele foi abandonado pela mãe nesse parque. Desde então ele ficou excluído e se isolou naquela casinha, e tem raiva quando alguém "invade" o parque dele. É por isso que ninguém nunca vem aqui... Quando alguém costuma vir aqui nesse parque, a pessoa não costuma voltar para casa. Todos tem medo dele ou dela, o dono ou da dona do parque, que fica naquela casinha.

– Nossa...

De repente, nós ouvimos um barulho vindo da casinha, vimos as luzes de lá de dentro sendo apagadas e a porta sendo aberta. Yue e Minatsuki levantaram me puxando, enquanto gritavam "Corra! Rápido!", eles dois foram correndo até as bicicletas e acabaram me soltando e me deixando para trás, tentei acompanhá-los mas acabei tropeçando e caindo na grama.

– Rápido, Misaki! — Disseram eles, enquanto já estavam saindo de minha vista com as bicicletas.

Por algum motivo eu não conseguia me levantar e correr atrás deles, alguma força me puxava para baixo. Ouvi passos distantes se aproximando de mim e ficando cada vez mais altos, olhei para trás e lá, tinha uma garota adolescente, ou pelo menos era o que parecia. Ela usava roupas desleixadas, uma saia listrada meio curta, uma blusa bege com mangas compridas e com a gola desabotoada, ela estava com botas castanhas de couro, mas de cano longo, e esse cano era feito de pano. Ela usava braceletes de o que parecia ser... náilon. Ela era muito descabelada, seus cabelos eram castanhos um pouco abaixo dos ombros, ela não tinha franja mas mesmo assim ela tinha algumas mechas finas na frente de seu rosto. Ela chegou correndo meio tropeçando até onde eu estava, ela parecia ser do tipo desastrado, não vi nada de tão perigoso nela. Mas eu estava assustada, tinha alguma coisa que estava bloqueando meus movimentos.

Aquela menina olhou pra mim me encarando profundamente e intensamente, por um lado eu estava feliz, alguém conseguiu não me ignorar.

– Olhe só o que temos aqui — Disse ela, em um tom baixo; Ela se aproximou de mim e ajoelhou ao meu lado, se debruçou para ficar mais perto de mim e continuou, sussurrando no meu ouvido — Sei que você está aí, sei o que você veio fazer aqui. Não sente nada, né? Veremos...

Comecei a sentir um arrepio na espinha. Foi a sensação mais desconfortável que eu já tive, isto é, que eu lembro que eu já tive. Me senti insegura e desprotegida...

– Não apareça por aqui por mais nenhuma vez, estamos combinadas? Se não... Coisas ruins vão acontecer... — Continuou ela. Então, senti um calor por dentro. — Espero que nós não nos vejamos de novo.

Então, a garota se levantou e se dirigiu para a cabine dela, de repente consegui o controle do meu corpo de volta. Levantei do nada, como se aquela força estivesse me ajudado a levantar do chão. Olhei assustada para a cabine, parecia que aquela garota já tinha entrado lá. Fiquei olhando lá por alguns minutos e levei um leve susto quando as luzes acenderam e eu vi a sombra dela parada em frente a janela. Ela me olhou com um olhar de "vá embora", e a voz dela dizendo "o que está fazendo aqui ainda?" ficou ecoando dentro da minha cabeça. Saí correndo de lá olhando para trás, aquela garota não tirou os olhos de mim até que eu sumi completamente da visão dela e ela completamente da minha. Resolvi voltar a casa a pé, não queria voltar ao parque para buscar minha bicicleta. Decidi tomar o caminho mais curto, então tive que atravessar um morro...

Cheguei no topo do morro e meus cabelos molhados com a chuva esvoaçaram ao vento. Não tinha jeito... Não conseguia sentir nada nem assim.

Fiquei lá de pé no topo daquele morro por um bom tempo, até que comecei a ouvir alguém conversar perto de lá. Me aproximei lentamente de lá e me escondi para ouvir a conversa. Eram duas criancinhas conversando.

– Você viu? Eu vi! — Disse um deles, apontando para o topo do morro, onde eu estava antes.

– Não vi nada, idiota. — Disse o outro — Você está enlouquecendo...

– Não estou enlouquecendo. — Suspirou — Realmente vi algo lá... Parecia um borrão, visto de longe... Mas sumiu! Um dia, vamos investigar lá em cima e ver se achamos algo.

– Claro, senhor enlouqueci-de-vez...

Então eu vi os dois caminharem ao longe... Até que eles sumiram de minha vista.

Então as pessoas tem dificuldade de me ver?

Como assim?

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Notas finais
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