Renascer
6 Você vê, mas não observa
Notas iniciais
John estava de plantão no pronto socorro do hospital St Mary’s, mas sua cabeça girava com os acontecimentos dos últimos dias. Estava cansado, não tinha conseguido dormir direito e ainda tinha de trabalhar. No pouco tempo livre que tinha alternava entre visitar Sherlock no Hospital Real de Londres – no qual Mycroft garantiu a estadia do irmão – e cuidar de Rosie.
Sua filha estava sob os cuidados de Molly em sua ausência. Já fazia algum tempo que não pedia ajuda à amiga pelo fato de que ela havia se afastado completamente de John e de Sherlock após a declaração mútua que acontecera quando foram manipulados por Eurus. John tinha certeza que aquilo devia ter sido dolorido para a moça, principalmente porque ela sabia que as palavras de Sherlock haviam sido vazias, e um coração partido pode machucar muito mais do que qualquer injúria física.
Porém, assim que Molly soube da situação em que Holmes se encontrava entrou em contato com John, que lhe explicou o que havia acontecido e que Sherlock ainda ficaria hospitalizado por alguns dias, sendo assim, ela se ofereceu para cuidar da pequenina como costumava fazer antes de toda a confusão em Sherrinford.
A mente de Watson era um misto de preocupação e de angústia, que eram intensificadas pela falta de descanso e pela ansiedade proveniente dos últimos acontecimentos. Preocupava-se com Sherlock e com a possibilidade de ser sequestrado novamente, embora Mycroft tivesse lhe garantido que a proteção em relação ao irmão tivesse sido aumentada. Também se preocupava com a filha, considerando que ela não via Molly já fazia um tempo e temia que a moça não conseguisse cuidar dela adequadamente. Coisa de pai.
O plantão foi longo e extremamente cansativo por conta de um acidente cujas vítimas foram todas transferidas para o St Mary’s, Watson passou o turno da noite costurando pessoas, fazendo curativos e, até mesmo, realizou algumas cirurgias de redução de fratura. Por sorte não teve de lidar com ferimentos graves, mas eram tantas pessoas – visto que se tratava de um ônibus de excursão – que levou muito tempo até que todos os pacientes fossem devidamente tratados.
Foi um alívio imenso quando finalmente se viu livre. John despiu seu jaleco e suas roupas brancas, deixando-as no armário do hospital, fez a assepsia e rumou até a casa de Molly para apanhar a filha. Rosie estava muito bem cuidada, limpinha e cheirosa. Mal viu a figura do pai e já começou a sorrir.
— Olá, pequenina – John disse, pegando a filha no colo e fazendo carretas para vê-la rir – olá, Molly. Muito obrigado.
— Disponha, John – ela disse, o médico percebeu que Molly estava mais arrumada e parecia mais confiante, até mesmo arriscou uma dedução, ela tinha um encontro e mesmo assim se dispôs a cuidar de Rosie – como ele está?
— Está estável, consciente... ah, e adivinha? Entediado. – ele respondeu.
Hooper não evitou que um sorriso viesse a seu rosto.
— Espero que fique bem logo – ela disse – quando voltarem ao apartamento irei visita-los, tudo bem?
— Claro, Molly, você é sempre bem-vinda – ele disse com sinceridade – bem, eu preciso ir, se eu perder o horário de visitas Sherlock vai me matar.
— Você parece cansado... – ela observou – tem certeza que não quer que eu fique mais com ela?
— Fique tranquila, de lá eu vou direto para casa e eu e Rosie vamos descansar.
Claro que a proposta era tentadora, mas ele não podia privar Molly Hooper de continuar tocando sua vida.
— Tudo bem, então.
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O horário de visitas já havia começado há quinze minutos, mas não havia nem sinal de John, fato que estava deixando Sherlock impaciente. Felizmente, sua garganta já estava melhor e ele conseguia falar sem que tossisse como um tísico, o que contribuiu para que chamasse a enfermeira três vezes e perguntasse sobre o amigo.
Suspirou aliviado quando o viu entrando com Rosie no colo.
— Você está atrasado, John – Sherlock o cumprimentou.
— Fui buscar a Rosie – ele disse – diga oi para o tio Sherlock, Rosie.
A pequena sorriu ao ver Sherlock, John sabia que ela também tinha ficado incomodada com sua ausência.
— Eu já lhe disse que não sou tio de ninguém – Sherlock reclamou – não sou seu irmão, sequer temos laços sanguíneos, John.
— É só uma expressão, não seja chato – John replicou emburrado.
— É uma expressão que não faz sentido algum – o detetive argumentou, já mudando o assunto – Mycroft esteve aqui hoje.
— Sério? Você contou a ele tudo o que aconteceu?
— Como vou contar algo de que não lembro? – ele suspirou, pressionando as mãos contra as têmporas num gesto inútil para tentar forçar a mente – ele disse que estão trabalhando para tentar descobrir como hackearam as câmeras, o celular do Lestrade e todo o resto... nem preciso dizer que levei um sermão por conta das drogas.
— Tecnicamente você foi drogado – John argumentou – não é sua culpa. Não consegue se lembrar de nada mesmo?
— Lembro que em algum momento cheguei à conclusão de que me doparam com Rohypnol.
John não pôde evitar de dar uma risadinha.
— Como você consegue se lembrar que droga usaram em você, mas não consegue se lembrar o que houve?
— Você ignora o óbvio, John – Sherlock suspirou e decidiu ser sincero com o amigo ao invés de ficar insultando seu intelecto pequeno – uma vez eu estava investigando um caso de estupro, bem antes de te conhecer, e digamos que usei Rohypnol em mim mesmo, conheço os efeitos.
— Você o quê? – o médico soou surpreso, aquilo era loucura até mesmo para Holmes – quer saber, esquece. Sherlock... você disse que tem certeza que deu a informação aos sequestradores, certo? Precisamos fazer você lembrar do que se trata. Eu, particularmente, acredito que você não tenha falado, não é do seu feitio.
— Tenho plena certeza de que falei, John – ele suspirou – eu já lhe expliquei, lembro-me de que você foi ameaçado, isso é motivo o suficiente para que eu tenha sucumbido à tortura.
— Eu já fui ameaçado muitas vezes – John contra-argumentou – você sabe que posso me cuidar.
— Você vê, mas não observa – Sherlock disse irritadiço – lembra-se de Magnussen? Lembra do que ele disse?
— Ele disse muitas coisas – John se ajeitou na cadeira com Rosie, nervoso com o que Sherlock poderia dizer – onde você quer chegar?
— Você é meu ponto de pressão, John Watson
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