Renascer
10 Sufoco
Notas iniciais
John Watson e Sherlock Holmes estavam sentados lado a lado no trem de volta para casa, um silêncio absoluto e incômodo imperava. John lançava olhares a Sherlock de tempos em tempos, mas apenas observava que sua mirada profundamente azul continuava encarando o vazio da janela do veículo, sabia que o amigo estava triste, machucado, que seu coração estava partido.
Ao longo da viagem viu sua expressão amenizar, mas ainda continuava quieto e soturno, como se não entendesse realmente o que estava acontecendo a sua volta. John – que o conhecia há muito tempo – sabia que ficaria assim por uns dias. E apenas por saber disso sentia seu próprio coração se apertar. Sherlock era tão impassível que sempre que se encontrava em uma situação de fragilidade, John sofria junto com ele.
Muitas pessoas viam Holmes como um ser humano frio e sem sentimentos – um sociopata – mas Watson sabia que não era bem assim, embora ele insistisse naquela fachada e o magoasse constantemente toda vez que ele tentava expressar qualquer tipo de sentimento sobre a amizade deles. Ver Sherlock triste daquele jeito aflorava o instinto protetor do ex-soldado, que apenas queria vê-lo bem novamente, afinal ele era seu melhor amigo.
Ele sabia que nada no mundo o instigava mais do que querer livrar Sherlock da dor que insistia em aparecer lá no fundo do céu azul de seus olhos. Era por isso na verdade que havia aceitado, anos atrás, a dividir o apartamento com aquele homem tão excêntrico. Sherlock era uma boa pessoa, a melhor que John já havia conhecido e ao longo de todos aqueles anos o médico tentava resgatá-lo de si mesmo.
Desceram uma estação antes da que estavam acostumados, e não pegaram ônibus para o caminho de volta para casa. Sherlock dissera que gostaria de caminhar e que encontraria John em casa, mas o médico não se convenceu de que ele não faria uma besteira, seu comportamento estava tão esquisito que não podia permitir que ele se rendesse novamente aos narcóticos, portanto, o seguiu, mesmo que o silêncio fosse sufocante.
Pararam em uma praça no meio do caminho, John já havia a visto pela janela do ônibus, mas nunca havia parado para contemplá-la. Era cinza como o resto da cidade, mas algumas arvores lhe davam um tom de verde agradável, Sherlock se sentou em um dos bancos acinzentados e John se acomodou ao seu lado.
— Eu estou bem – Sherlock proferiu de um modo nada convincente – não precisa se preocupar.
John encarou aqueles olhos tristes e desesperados, sabia que ele mentia. Há muito tempo havia aprendido a ler o detetive.
— Não está, Sherlock – ele suspirou – eu sinto muito... foi cruel da parte de Mycroft alimentar seu sentimento por ela.
Por um momento o detetive se permitiu gargalhar histericamente.
— Eu não sinto nada por ela, exceto admiração... ela é uma adversária formidável – ele disse – por que você acha que não a respondi? Se eu realmente a amasse iria ignorá-la? Pare de romantizar tudo, John! Eu não sinto essas coisas absurdas!
— Então por que está tão triste? – John disse incisivo, decidido a derrubar a máscara que Sherlock insistia em colocar em seu rosto.
— Porque eu achei que havia salvo uma pessoa que merecia ser salva! – ele disse com a voz alterada, meio irritado – eu fui subjugado, John! Eu fui torturado, poderia ter morrido, tudo porque a mulher instruiu pessoas a lidarem comigo. Eu fui traído depois de tudo que fiz por ela... eu devia saber que Mycroft não a deixaria solta por aí, que ele deduziria que a resgatei. Ela é perigosa.
— Você a salvou por um tempo – John argumentou – e só de ter se disposto a salvá-la significa alguma coisa. Significa que você se arriscou e se você se arriscou por ela... você a ama, certo?
Sherlock o encarou com a expressão mais triste que John já havia visto eu seu rosto.
— A única pessoa por quem eu me arrisquei de verdade nessa vida foi por você, John – ele admitiu e suspirou – talvez devêssemos nos afastar novamente, eu só trago desgraça a sua vida assim como levei desgraça à vida da mulher.
— Não diga isso... ela não virá atrás de nós, ela é esperta o suficiente para saber que tudo que aconteceu foi obra de seu irmão.
— Preste atenção no que digo, John – Sherlock esbravejou – eu disse que devemos nos afastar! Olha quantas pessoas já se aproveitaram de nossa amizade, isso desde o início, desde que Moriarty te encheu de bombas naquela piscina, isso tem que acabar! John, eu juro que eu tentei... eu quero que você seja feliz, mas Mary morreu para me salvar e eu não vejo nada de útil que eu possa fazer com essa vida miserável que ela resolveu poupar, então apenas pegue Rosie e vá embora antes que eu acabe com a sua vida de novo!
— Sente-se culpado pela Mary? – John perguntou – eu... te culpei sem você merecer... percebe o que você está dizendo, Sherlock? Percebe como você é inconstante e não está fazendo sentido algum? Se você diz que não tem esses sentimentos então por que raios você quer manter a mim e a Rosie salvos? Por que raios você se preocupa em destruir nossas vidas?
— Eu quebrei meu voto – ele disse simplesmente e fez uma careta de amargura — tenho de compensá-lo por isso.
Watson encarou Sherlock mais uma vez, sabia que o homem estava fora de si, somente por olhá-lo concluía como estava inquieto e entristecido. A relação entre os dois nunca foi fácil, mas vê-lo disposto a sacrificar tudo o que tinha para que ele e a filha tivessem paz e sossego fazia com que John constatasse o que muitos duvidavam: Sherlock Holmes era uma pessoa com sentimentos e os sufocava apenas porque não sabia lidar com eles.
John o abraçou, a cumplicidade que existia entre os dois era algo precioso, algo pelo qual o médico lutaria para que continuasse existindo. Há não muito tempo atrás era Sherlock que o consolava após tudo o que havia acontecido em sua vida, mas Watson nunca havia parado para pensar que todos os acontecimentos nos últimos anos não afetavam apenas a si mesmo, mas ao amigo também.
— Está tudo bem, Sherlock – ele disse – nós estamos juntos novamente, não? Estamos em casa, somos um ótimo time... me desculpe se peguei pesado com você nos últimos meses...
Sherlock não respondeu, parecia estar ponderando se dizia o que o importunava ou não. Precisava desesperadamente fumar um cigarro, tomar um whisky, e até de um pico de heroína, um pino de cocaína, ou o qualquer coisa que o tirasse de si. Qualquer coisa era melhor do que aquilo que insistia em lhe afligir toda vez que John se aproximava demais. Mycroft era um filho da puta por ter trazido aquilo à tona mais cedo, era óbvio que o irmão já tinha entendido o que se passava com o caçula muito antes dele próprio ter qualquer centelha de compreensão.
Ainda assim, enterrou sua cabeça no pescoço de John e fechou os olhos, seu cheiro lhe era tão familiar e dizia tanto sobre aquele homem com quem tinha aprendido a conviver, aquela pessoa que tinha aprendido a admirar tão profundamente e que tinha lhe mostrado qualidades que sequer imaginava que existiam em seres humanos.
Aquele odor era mais viciante do que qualquer droga que já havia experimentado, remetia a alguém que aprendeu a decifrar há muito tempo, alguém que o livrou de sua casca de indiferença e que o salvou, alguém que aprendeu aos poucos a amar. E o que mais o afligia em meio aquele turbilhão era o fato que Sherlock não conseguia mais salvar John ultimamente, temia que chegasse tarde demais mais uma vez e perdesse a única coisa que ainda fazia com que sua vida desprezível valesse a pena.
Decidiu que era melhor continuar a enterrar seus sentimentos profundamente como já vinha fazendo ao longo dos anos. John já tinha muitas coisas para lidar.
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