Renascer
11 Revelação
Notas iniciais
John não precisou de mais palavras para convencer Sherlock de que a ideia de afastá-los era, no mínimo, estúpida. Voltaram à Rua Baker como se estivessem nos velhos tempos: cansados, após a resolução de um caso. Decidiram que não fariam nada a respeito de Irene Adler a não ser que ela viesse a provoca-los, Sherlock apenas esperava que seu nome tivesse sido esquecido e que ela se refugiasse bem longe do Reino Unido. Ele havia feito sua parte.
Chegaram de volta ao 221B e foram recepcionados por uma Senhora Hudson um tanto quanto impaciente que lhes dizia que apesar de gostar muito de Rosie, não era babá da criança. Os dois homens riram, aliviados com a situação cotidiana e subiram para seu apartamento. Curiosamente, Rosie estendeu seus braços para Sherlock e não para John, mas esse fato não intrigou ao médico e nem despertou aquele ciúme típico dos pais. Na verdade ele ficava encantado ao perceber como Sherlock tinha jeito com crianças, ou pelo menos, com Rosamund.
Adentraram ao apartamento discutindo sobre os últimos casos que apareceram, John tentava distrair Sherlock para que ele não ficasse pensando na traição da mulher e o incentivava a escolher um novo caso o mais rápido possível. Uma leve discussão começou ao tentarem decidir quais casos deveriam dar atenção e quais deveriam ignorar, pois – segundo Sherlock – não passavam de “bobeira” e “o Graham poderia cuidar muito bem sozinho”. Ficaram ambos satisfeitos com a sensação de normalidade que pairava no ar, embora algo ainda os incomodasse.
No entanto, a normalidade não durou muito tempo. Antes de entrarem propriamente no apartamento, Sherlock percebeu — por meio de suas habilidades dedutivas — que havia algo de errado. Adentraram os aposentos cuidadosamente e assim que se viram dentro daquele lugar que amavam, John, que não havia entendido o motivo de tanta cautela, levou um susto enorme.
Um homem de olhos castanhos frios estava sentado na poltrona de John. E ele os encarava com um sorriso bizarro em seu rosto. John procurou sua pistola, mas Sherlock abaixou sua mão o impedindo.
Quando o médico se virou para encarar o melhor amigo percebeu que ele estava paralisado.
Imediatamente o detetive reconheceu aquela silhueta, o modo como se portava, já podia ouvir sua voz mesmo que ele ainda não tivesse proferido palavra alguma, o rosto que estava à frente deles era totalmente diferente do que Sherlock havia imaginado todas as vezes que forçara sua mente de modo a tentar traçar o seu perfil.
Era seu torturador e ele havia retornado para terminar o serviço.
— John, desça com a Rosie – Sherlock disse com a voz trêmula, oferecendo a criança para o pai que a pegou com cuidado.
O homem apontou sua pistola na direção de Sherlock.
— John, não desça com a “Rosie” – ele disse em tom de desdém – se quiser que seu amiguinho viva.
John congelou.
Algo como uma raiva se apoderou do corpo do médico, como alguém ousava apontar uma arma para Sherlock? Quem era aquele homem e quem ele pensava que era ao invadir aquele apartamento que era um santuário para os dois homens?
— Cortei o telefone e a internet – ele disse – dê-me seus celulares. Ah, e doutor Watson, temo que não possa lhe permitir ficar com essa pistola.
Os dois homens obedeceram cautelosamente.
— Leve o bebê para o quarto, doutor, deixe-a no berço – o homem instruiu.
E assim obedeceu enquanto o homem continuou brincando com as duas pistolas em suas mãos e encarava o único detetive consultor do mundo.
— Você é o marido de Irene – Sherlock concluiu.
— Ora ora – ele disse com deboche – temos um Xeroque Romes aqui*.
John, que retornava de seu quarto agora de mãos vazias, arregalou os orbes acinzentados ao ouvir a conclusão de Sherlock, seus sentidos todos lhe diziam que corriam perigo real.
— O que você quer? – John perguntou – sua mulher já está solta, que tal nos deixar em paz?
— Ah, sim, claro – ele respondeu – mas tem um pequeno problema... Irene... ela é uma pessoa muito esperta, sabem como é... Quando ela me deixou instruções de como conseguir sua localização caso sumisse, achei que não funcionaria.
— Mas você sabia sobre Sherrinford – Sherlock disse confuso.
— Achei que você fosse mais rápido no pensamento – ele suspirou e revirou os olhos com descaso – quando Irene negociou com seu irmão ela me deixou bem claro que só conseguiria sair daquele lugar com a sua ajuda. Talvez se eu tivesse mencionado que ela estava em perigo você tivesse me ajudado de bom grado, mas confesso que foi divertido descobrir que você faria qualquer coisa pelo seu bichinho de estimação.
— John não é meu bichinho de estimação – Sherlock replicou irritado.
— Não? – ele perguntou e deu de ombros – não me importa. A sua vida e a vida desse médico não me importam.
— Então por que está aqui? – John perguntou.
— Sei que lhe fiz uma promessa, Sherlock – ele suspirou mais uma vez – de que deixaria você viver caso me desse a informação que eu precisava, mas... minha mulher tem um interesse muito especial por você e eu não gosto disso.
— O quê? – John continuou confuso.
— Esse homem ousou flertar com a minha mulher.
— Sua mulher flertou com esse homem – John o defendeu – e vocês nem eram casados!
— Não interessa – ele disse rispidamente – eu não sou idiota! Sei que Irene se casou comigo apenas para se proteger, não posso arriscar que ela venha a recorrer ao grande Sherlock Holmes para ajudá-la mais ou vez. É uma questão de sobrevivência, meu caro Watson, se ele sobreviver eu não sobrevivo e vice-versa.
— Não entendo... – John começou a dizer.
— Então, você não estava seguindo ordens de ninguém? – Sherlock interrompeu, agora que havia entendido o que realmente estava acontecendo, as deduções voltavam a ser espontâneas – disse aquilo para me distrair... na verdade você era seu próprio mandante enquanto me torturava. Deve ter contratado um vagabundo qualquer para lhe ajudar.
— Quanta astúcia! – ele disse ironicamente – é uma pena que a Inglaterra vá perder seu melhor detetive.
— Irene... – Sherlock perguntou nauseado – ela deixou instruções para que me torturasse caso eu me negasse a ajudar?
O detetive sabia que aquele não era o estilo da mulher, ela trabalhava muito mais com o psicológico das pessoas do que qualquer coisa física, mas se ele não ouvisse da boca do próprio torturador, aquilo iria o atormentar para sempre. Precisava tirar aquela história a limpo.
— Bem... não sei porque está fazendo essas perguntas, mas já que o deixei tão confuso, irei esclarecer um pouco as coisas para você – ele disse, seguido de uma risada de divertimento – Irene costumava falar em como havia sido salva pelo incrível Sherlock Holmes, ela me deixou instruções para encontra-lo, apenas não me disse o que fazer quando conseguisse.
— Por que apenas não nos pediu ajuda? – John perguntou inocentemente.
— Não seja idiota, John – Sherlock o interrompeu – é mais do que óbvio que Irene se casou com ele porque ele faz algum tipo de trabalho sujo no submundo. Claro que após ser liberta, ela iria pedir nossa ajuda para se livrar dele. Ele usou o próprio plano dela contra ela mesma.
— Mais uma dedução incrível! – Norton debochou e bateu palmas – realmente, seguindo o meu plano apenas eu tenho algum benefício: Adler está solta novamente e eu posso usar de suas habilidades, assim como ela saiu de cena e foi esquecida então não creio que ela esteja correndo riscos novamente, a única pessoa que pode por tudo a perder é você, Holmes. E é por isso que estou aqui.
— Mas por que raios você o drogou? – John perguntou, tentando ganhar tempo para que Sherlock pensasse em algo – e como você sabia da nossa visita a Sherrinford?
— Pela diversão, talvez? – Norton perguntou – e sobre Sherrinford... digamos que não é tão difícil ter contatos dentro do parlamento, mas a localização daquele lugar não seria algo que eu poderia conseguir tão facilmente, eu não menti para você, Sherlock, quando disse que sequestrar Mycroft Holmes estava fora de questão. Será que você se lembra disso?
— E toda aquela encenação? – as perguntas não paravam de vir a boca do detetive – minhas deduções...
— Ora... se Irene conseguiu o despistar aparecendo nua para você, apenas fiz o inverso – Godfrey disse como se fosse algo óbvio – Então, cansei de conversar, está pronto para morrer?
Watson arregalou os olhos, seu lado soldado dizia que devia fazer alguma coisa. Norton se aproximou de Sherlock e apontou a pistola para sua cabeça. O detetive estava quieto, provavelmente tentando calcular algum modo de acabar com aquela situação, mas se deu por vencido. Ele não tinha medo de morrer.
— Últimas palavras? – Norton perguntou.
Ironicamente, Sherlock se lembrou das palavras de John quando este ainda achava que ele era apaixonado por Irene Adler. Como se o momento não pedisse maior justiça poética.
“Responda a mensagem, ligue para ela! Faça alguma coisa enquanto ainda tem uma chance, porque essa chance não será eterna. Acredite, Sherlock, ela some antes que você perceba!”
O coração de John, por sua vez, batia quase que fora de seu peito, ele sequer imaginava o que se passava pela cabeça do amigo, apenas pensava continuamente que aquilo não podia estar acontecendo.
— John, preste atenção – ele disse, o médico ficou atento a suas palavras, esperando instruções do que fazer – eu... perdoe-me por todo o mal que lhe causei... nunca tive más intenções, apenas as melhores...
— Sherlock, para com isso! – John exclamou desesperado ao perceber que o amigo estava se rendendo.
Sherlock fez uma careta esquisita, seu coração também pulava dentro de seu peito, pensou em tudo o que reprimira ao longo dos anos e se fosse para ele morrer, pelo menos deveria colocar para fora o que o angustiava. John tinha razão, todas as chances que ele havia tido de lhe dizer como se sentia haviam se esgotado sem que percebesse, aquela era a última. Soltou um suspiro longo e vomitou as palavras que há tanto tempo estavam entaladas em sua garganta.
— Eu o amo, John.
Fale com o autor