Renascer
4 Sob pressão
Notas iniciais
— Eu cansei de ser bonzinho, Sherlock Holmes – a voz que sabia ser do homem de olhos castanhos dizia – onde fica Sherrinford?
Mais um choque. O corpo de Sherlock já quase não assimilava a dor, mas toda vez que ouvia a palavra “Sherrinford”, um arrepio horrendo o perpassava. Ele sabia que, a partir daquele momento, os torturadores iriam tentar outras formas de extrair as informações de seu cérebro brilhante, talvez de um modo mais sujo.
— Eu... – sua voz vacilou – vai se foder.
Os dois homens gargalharam até perderem o ar.
— Ele está ficando ousado – a voz aguda, do homem de olhos claros, respondeu.
— Não por muito tempo.
Ouviu barulhos metálicos e soube que um deles estava abrindo o estojo, sentiu um arrepio na espinha. A venda foi tirada de seu rosto revelando olhos profundamente azuis e cansados, olhos cheios de insegurança e de medo. O homem segurava um bisturi em sua mão, mas havia vários outros instrumentos em seu estojo que agora estava aberto em cima de uma pequena mesa. Sherlock pensou que ele poderia mata-lo e se desfazer de seu corpo que ninguém descobriria.
— Eu já disse que não sei de nada – Sherlock repetiu não tão convicto quanto antes.
Sentiu o homem se aproximar, pelo modo que o pano da máscara se mexeu, inferiu que ele sorria, imaginou um sorriso sádico adornando os lábios que nunca viu, combinando perfeitamente com a fúria que havia em seus olhos castanhos. Sentiu a lâmina cortar a pele do seu rosto, não gritou, mas a sensação do sangue escorrendo lhe incomodou mais do que qualquer coisa.
— Bem, Sherlock – o homem de olhos claros, que estava com as mãos desocupadas começou – sabemos muitas cosias sobre você. O que acha de conversarmos um pouco e esquecermos, por hora, Sherrinford?
Holmes sabia que não tinha escolha, mas não estava disposto a ceder, quanto mais tempo ele ganhasse, mais tempo ele tinha para permanecer vivo até pensar em algo. Assim que a droga saísse completamente de seu sistema, ele conseguiria organizar sua mente mais uma vez, mas naquele momento, tudo ainda estava muito embaralhado.
— Vou ser legal com você – ele continuou – imagino que esteja com sede, não?
Ele não tinha tido tempo de pensar na sede e na fome que sentia, mas agora que havia sido lembrado de suas necessidades fisiológicas, sentiu a dor em seu estômago decorrente da fome e sentiu sua garganta seca como nunca. O homem se aproximou e deu-lhe de beber, Sherlock se sentiu agradecido, o que deve ter transparecido em seu rosto.
— Está mais tranquilo agora? – ele perguntou – quer mais?
O detetive não foi capaz de responder, obviamente que ele queria, mas não gostava de saber que estava sendo controlado por dois homens de quem ele não tinha pista alguma sobre suas identidades e sobre suas motivações, seu olhar de súplica respondeu por ele mesmo e o homem aproximou o copo de seus lábios mais uma vez.
— Então... que tal começar a facilitar as coisas? – ele perguntou – nós sabemos que você esteve lá, Sherlock. Não acho que você esteja gostando da situação em que está e, sinceramente, nós também não gostamos disso aqui.
Sherlock não pôde evitar de gargalhar, sentia que estava ficando ensandecido, mas de algo ele tinha certeza: aqueles homens amavam o jogo tanto quanto ele.
— Você pode estar coberto da cabeça aos pés – Sherlock pontuou – mas pelo seu tom de voz eu sei que está mentindo, você não consegue controlar sua respiração e deveria trabalhar esse seu chacoalhar de mãos para a próxima vez.
Finalmente um pouco de controle, ele pensou. Claro que aquela atitude havia irritado o homem, que desferiu um tapa na maçã de seu rosto com força e chutou suas costelas sem dó.
— Que seja – ele disse – continuando... eu lhe garanto que se colaborar sairá daqui com vida, mas se continuar desse jeito eu não vou ter escolha, Sherlock.
Holmes percebeu que o homem atrás dele limpava uma pistola, como sua visão ainda estava um tanto quanto turva não conseguiu identificar qual modelo era. Pensou que talvez os homens tivessem um prazo para conseguir aquela informação, e estava se esgotando.
— Eu já disse... – ele começou, decidido a convencê-los de que estava dizendo a verdade, conforme o efeito da droga passava, ele se sentia mais confiante.
— MENTIRA – o homem gritou, a raiva evidente em seus olhos, mais um tapa no rosto de Sherlock.
Sherlock respirou fundo, tentando se controlar e se concentrar, mas seu palácio mental ainda estava despedaçado, o único lugar em que ele podia se refugiar naquele momento era dentro da própria mente, mas os seus sequestradores garantiram que não conseguisse.
— Como eu ia dizendo, nós sabemos que você esteve lá, Sherlock. Recebemos ordens expressas para extrair a informação de você unicamente, mas sabemos que não foi a única pessoa que foi até aquele lugar.
Sherlock arregalou os olhos interessado e preocupado, sentiu um arrepio em sua espinha.
— A informação que recebemos é que você, seu irmãozinho e aquele seu médico de estimação foram até as instalações. Não tente desmentir, nós sabemos.
— Onde você quer chegar? – Sherlock perguntou apreensivo.
— Nós vamos te dar meia hora para refletir sobre sua vida, Sherly – ele disse – se não nos der a informação que queremos, vamos te matar e a próxima pessoa a estar aqui nesse lugar será o seu queridinho John Watson. Será que ele aguenta um pouco de tortura? Um veterano de guerra como ele deve render uma boa diversão... coitada da filha dele, não é? Um bebê e já órfã de pai e de mãe...
— Espera – Sherlock interrompeu – eu conto sob uma condição: não mexam com John Watson.
Mais uma vez o pano de sua máscara se moldou em sorriso.
— O que você quiser, Sherlock Holmes.
O detetive sentiu uma dor latente na boca de seu estômago que nada tinha a ver com a fome que o assolava, sentiu-se tonto novamente, mas também sabia que não era por conta do Rohiphynol, lembrou-se de Charles Augustus Magnussen, finalmente seus torturadores haviam encontrado seu ponto de pressão.
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John estava com muita dor de cabeça, Sherlock havia sumido há quase três dias e nem mesmo Mycroft conseguia pistas sobre o que tinha acontecido com o irmão, um sentimento de culpa e de arrependimento pesava sobre os ombros de Watson, afinal a relação entre os dois não era mais a mesma coisa há um tempo.
Pensou no dia de seu casamento, uma lembrança tão distante que parecia até mesmo um sonho, a única prova que tinha de que aquilo realmente havia acontecido estava aninhada em seus braços dormindo tranquilamente, lembrou de como Sherlock havia deduzido que Mary estava grávida, sentiu um sufoco em sua garganta e desejou que aquilo não passasse de mais uma das experiências do amigo.
Algo lhe dizia que não era nada disso, não se tratava de experimento algum, se John Watson aprendeu alguma coisa quando esteve no Afeganistão foi em confiar em seus instintos e algo lhe dizia que o amigo estava correndo perigo real. As lembranças do dia mais feliz de sua vida insistiam em lhe voltar a mente, lembrou-se das palavras que disse a Sherlock, que ele queria passar aquele dia com as pessoas que mais amava, ele e Mary.
Antes da morte da esposa, Watson costumava ser honesto com Holmes, sempre falava sobre o que sentia e, às vezes, tinha até mesmo algumas reações exageradas como quando ele desmentiu sua morte e atrapalhou seu pedido de casamento. Eram lembranças distantes de um passado maravilhoso, mas trazer tudo aquilo à tona doía muito. Já fazia um bom tempo que não havia honestidade entre John e Sherlock.
John ainda não aceitava a morte da esposa e conviver com Sherlock tornou-se muito difícil pelo falo de que ele era muito parecido com ela em alguns aspectos, como ela mesma havia dito quando estava definhando, havia muitas coisas não ditas entre os dois e John sabia que permaneceria assim.
Os pensamentos do médico foram interrompidos pelo choro de Rosie que começou a se contorcer em seu colo, ela estava com fome. Colocou-a sentada em uma cadeirinha e preparou a mamadeira, para logo em seguida segurá-la e niná-la. Olhar nos olhos de sua prole, sentir seu calor contra seu peito, era algo que fazia John se esquecer de seus problemas.
Quando Rosie voltou a dormir, Watson seguiu até seu quarto segurando-a com delicadeza, tomando extremo cuidado para não acordá-la, colocou-a com amabilidade no berço que agora era parte de seu quarto e ligou a babá eletrônica. Desceu novamente até a sala, observou os papeis de parede e deixou-se cair no sofá, segurou o rosto com as mãos, deixando o vazio de estar naquele apartamento sem o melhor amigo consumi-lo. Adormeceu.
Acordou um tempo depois com um susto, o telefone tocava insistentemente, seu coração se acelerou e, mais uma vez, se encheu de esperança. Atendeu com as mãos trêmulas e teve medo de ouvir quem estava do outro lado da linha, era uma voz conhecida, teve medo do que ele tinha a dizer.
— John, aqui é o Mycroft – ele ouviu.
— Alguma novidade? – John perguntou, dispensando formalidades.
— Nós o encontramos, mas ele não está nada bem – Mycroft declarou.
— Só me diga onde ele está – Watson pediu – já estou a caminho.
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