Renascer
5 Despertar
Notas iniciais
Sherlock estava em um estado de semi-inconsciência, não eram todas as suas faculdades mentais que estavam funcionando, mas pelo barulho de aparelhos que ouvia e pelo cheiro de éter que lhe inundava as narinas sabia que estava em um hospital. Não conseguia elaborar nenhum pensamento sobre aquele fato, principalmente, porque era muito provável que tivesse sido drogado novamente.
Sua mente era uma sucessão de eventos confusos e dolorosos, aliás, a dor havia se tornado tão constante nos últimos três dias que sequer o incomodava, porém, seu corpo agradeceu imensamente quando os sedativos e analgésicos adentraram suas veias.
Ele sabia que havia passado por uma situação importante, que algo estava acontecendo novamente, algo que ameaçava a sua cidade, mas não pôde pensar nisso naquele momento, sentia o sono lhe invadindo. Não era como o sono induzido pelo rohypnol, era agradável e era como se o seu cérebro insistisse para que descansasse os olhos de modo a descansar o corpo, sua mente não venceu a briga e Sherlock dormiu.
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— Como ele está? – John perguntou ao médico de plantão, Doutor Lewis, responsável por cuidar do amigo.
— Muito abatido – Lewis respondeu inquieto, John o conhecia superficialmente por ser alguém do ramo – está desidratado, duas costelas estão quebradas e foi encontrado em um estado de delírio em uma sarjeta, John.
John sentiu algo ruim em sua garganta, saber que Sherlock estava em uma sarjeta não era o que esperava ouvir, não queria ter de lidar novamente com o vício do amigo, aquilo machucava demais, mas algo parecia não se encaixar?
— E o que mais? – ele perguntou incisivo, sabia que Lewis não queria verbalizar algo.
— Olha, Watson – o médico começou – eu não sei em que tipo de aventura vocês se metem e, sinceramente, nem me interessa, mas eu não acho que ele estivesse se drogando.
— Um teste é o suficiente para saber.
— Exatamente – ele suspirou – tem cocaína no sangue dele, mas não o suficiente para deixa-lo no estado em que se encontra... me parece que aquele foi um cenário inventado. Meu olhar técnico me diz que ele foi espancado, privado de sono e de comida, eu diria que foi até mesmo torturado, mas não tenho muitas evidências para comprovar isso.
— Existem muitas formas de tortura que não deixam evidências – Watson afirmou, lembrando-se do seu período no Afeganistão, da época em que ele próprio teve de sujar as mãos – afogamentos, eletrochoques, as possibilidades são inúmeras.
— O que eu devo fazer? – o médico perguntou, John inferiu que ele estava ansioso e que não sabia lidar com esse tipo de situação.
— Temos que jogar o jogo deles – Watson afirmou – deixemos que acreditem que caímos no que tentaram nos vender. Já o testou para drogas lícitas? Algo que o tenha dopado, talvez? É só um palpite, não estou querendo interferir no seu trabalho.
Watson sabia como era ruim quando alguém tentava lhe dizer o que fazer, principalmente sendo um médico experiente e competente como sabia que Lewis era.
— Tudo bem, Holmes, entendo que esteja preocupado com seu amigo, vou seguir com os procedimentos. Quer visita-lo?
— Por favor.
Lewis o conduziu até o quarto em que Sherlock se encontrava, felizmente Mycroft havia arranjado um quarto particular para o irmão, o que significava que ele não dividia a UTI com outros pacientes, John não tinha problema nenhum com aquilo – afinal era um médico, estava habituado as mais adversas situações – mas, era melhor ver apenas ao amigo naquele momento sem que os olhares curiosos, que a presença de Holmes costumava atrair, os atrapalhassem.
Sherlock estava deitado, dormia com uma expressão serena, o soro gotejava para dentro de suas veias, seu rosto e seu corpo estavam mais ossudos, ele estava sumido há três dias, provavelmente sem comer, o que lhe causou alguma perda de peso. Havia um corte em sua face, ao examiná-lo de perto John constatou ter sido feito por um bisturi, sentiu arrepios ao ver os roxos espalhados pelo corpo do detetive e desejou que tudo ficasse bem.
Contemplou a visão de Holmes deitado sobre aquela maca e tentou pensar em algo para falar ao amigo que dormia. Sabia que ele não despertaria tão cedo dada a quantidade de remédios que percorria sua corrente sanguínea naquele exato momento, mas sentiu que devia dizer algo, assim como queria entender o que estava acontecendo.
— Ele está estável – Lewis disse, apontando a seu paciente – não sofreu lesões físicas graves, mas se minha teoria estiver certa – a voz do médico plantonista baixou drasticamente – não podemos garantir nada quanto ao psicológico.
— Quando ele vai acordar? – John perguntou, ignorando as especulações sobre como a mente de Sherlock poderia estar.
— Dentro de algumas horas – Lewis afirmou – avisaremos.
— Obrigado, doutor – John agradeceu, preparando-se para uma longa espera.
O médico saiu de modo a deixar John Watson a sós com Sherlock Holmes, por mais que o ex-soldado estivesse bastante preocupado com o amigo, estava extremamente aliviado por saber que ele estava vivo. Por um momento ele se sentou na cadeira próxima a cama de Sherlock e apenas o observou enquanto dormia.
— Sherlock – ele disse, mesmo sabendo que ele não ouviria – estou feliz que você esteja bem... quer dizer... mais ou menos bem. Acorde logo e me conte que raios aconteceu.
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O bipar incessante do monitor cardíaco irritava o recém-despertado Sherlock Holmes que não fazia a mínima ideia de como havia parado naquele lugar e nem mesmo em qual hospital se encontrava, mas respirou aliviado ao perceber que estava vivo, afinal, seria um grande desperdício se morresse sem resolver o que havia acontecido.
Holmes não era uma pessoa frágil, não era a primeira vez em que ele passava por uma situação semelhante. Quando se dispôs a desmembrar a rede criminosa de Moriarty foi pego um punhado de vezes, o que acabou por resultar em algumas cicatrizes em sua pele alva e uma série de experiências com situações de tortura.
Porém, nada havia sido como o que havia acabado de passar.
Sua mente era uma confusão, ele se lembrava apenas de alguns detalhes. Lembrava-se de como seus sequestradores haviam sido capazes de evitar suas deduções e já formulava pelo menos umas cinco explicações para aquele comportamento. Lembrava-se dos inúmeros eletrochoques perpassando seu corpo, assim como se lembrava que queriam a localização de algum lugar, mas que lugar?
Forçava a mente sem sucesso, seu palácio mental ainda estava se restabelecendo aos poucos, apenas uma coisa era clara e nítida em sua memória, a ameaça a vida de seu melhor amigo e sabendo dessa ocorrência tinha certeza que tinha dado a informação solicitada por seus torturadores. Sentiu-se, mais uma vez, frustrado.
Seu fluxo de pensamentos desorganizados foi interrompido por John que entrava em seu quarto, os olhos acinzentados transpareciam alguma aflição. Sabia que o amigo devia ter ficado desesperado com sua ausência, provavelmente achara que ele estava usando drogas novamente, mas não viu raiva ou desapontamento em seu olhar, apenas a mais genuína preocupação.
— Sherlock... – John proferiu – o que aconteceu?
Watson estava com as sobrancelhas franzidas, sentou-se ao lado da cama do amigo, esperando uma resposta. Sherlock fez menção de falar algo, mas sua voz não saiu e ele teve um acesso de tosse, ele havia ficado um tempo considerável privado de água e de comida e seu corpo implorava para que fosse hidratado novamente.
John solicitou um copo de água a uma das enfermeiras que, de prontidão, atendeu a seu pedido. Levou-o a boca do amigo que estava completamente sem forças para segurá-lo e deixou que tomasse pequenos goles, aos poucos, até lubrificar a garganta.
— Eu não sei direito o que aconteceu, John – Sherlock disse, ainda com a voz rouca e com a garganta arranhando.
Tal afirmação chamou a atenção do médico, Sherlock sempre tinha uma resposta para tudo e agora ele... não sabia? Algo de muito errado estava acontecendo, mas ele não queria que Sherlock ficasse se esforçando para falar, sabia que verbalizar qualquer coisa com a garganta irritada como estava seria um esforço desnecessário.
— Eu vou fazer umas perguntas e você só me reponde se sim ou não, tudo bem? Não force a sua garganta – ele acrescentou.
Sherlock meneou a cabeça em concordância.
— O doutor Lewis te examinou, você foi encontrado em uma sarjeta inconsciente! – John suspirou – seja sincero comigo... você estava usando drogas novamente... por vontade própria?
O detetive negou com a cabeça, seu olhar estava vidrado. John o observou por mais um tempo, até formular mais perguntas, ele sabia que tinha de fazer as perguntas certas.
— Armaram para você? – perguntou simplesmente.
Sherlock balançou a cabeça mais uma vez, dessa vez em concordância.
— Céus, Sherlock! – ele exclamou algo, mas logo baixou o tom de voz – Lewis acha que você foi torturado, isso aconteceu?
Mais uma vez, Holmes concordou. Seu amigo arregalou os olhos horrorizado, eram ossos do ofício, sabia, mas mesmo assim era aterrorizante imaginar que ousaram machucar a seu melhor amigo.
— O que eles queriam? – John não pôde evitar a pergunta curiosa.
Sherlock balançou a cabeça negativamente, as palavras ainda saíam arranhadas.
— Não... con... sigo... lem... brar – ele disse com dificuldade, seguido por mais um acesso de tosses.
Tomou mais água até que sentiu o ardor na garganta melhorar, John fez menção de continuar com suas perguntas, mas Sherlock levantou a mão pedindo para que parasse, ele pretendia tomar a palavra mais uma vez.
— Tenho certeza de que falei o que queriam – ele declarou, ainda com a voz arrastada, arranhada, dolorida.
— Você? – John perguntou, até mesmo caçoando, duvidando das palavras do amigo, sabia que Sherlock preferiria morrer a revelar algo – por que você tem essa certeza, Sherlock? Pelo que sei, você não é do tipo que sucumbe...
— Você... foi... ameaçado... – o detetive o interrompeu com um olhar sério – só.... me... lembro... disso.
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