Renascer

8 Memórias do cárcere


Notas iniciais
Olá, meus queridos leitores. Como estão todos? Como eu já tinha dito, agora estamos de volta à Baker Street do jeitinho que amamos. Então, desejo uma ótima leitura a vocês! :3

Sherlock finalmente havia recebido alta e estava de volta à Rua Baker. A sensação de normalidade que o apartamento do 221 B trazia era capaz de fazê-lo se sentir quase como se ele não tivesse abandonado aquele lugar. Porém, apesar de se sentir quase totalmente recuperado, sabia que o havia acontecido precisava ser solucionado com urgência e a dor constante em suas costelas fraturadas teimava em lembra-lo de seu fracasso.

Ficou um tempo examinando seu rosto com um espelho de mão, reparou no fino corte que já estava quase cicatrizado, corte que não se lembrava direito como havia sido feito, mas que – pelo seu olhar técnico – era fruto de um bisturi bem afiado, fato com que John concordava. Odiava ter de tatear no escuro, odiava não ter o controle das coisas e não saber direito o que tinha acontecido.

Sherlock também estava irritado com o jeito protetor de John, que o assistia o tempo todo desde que havia retornado. O amigo não o deixava sozinho por muito tempo, e mesmo não sendo sua intenção, atrapalhava constantemente sua cabeça de trabalhar. Ele sabia que o médico estava preocupado consigo e com a sua recuperação, mas odiava se sentir como uma criança necessitada de ajuda. Não entendia o porquê de tanta proteção em cima de si considerando que o pior já havia passado.

Sentia-se humilhado por não conseguir reunir os fragmentos de pistas que estavam espalhados em seu cérebro, encontrava-se tão irritado que ninguém ousava se aproximar dele e de seu violino quase incessante naqueles dias. Ninguém exceto John, que já estava habituado a lidar com as crises do detetive e que sentia que precisava observá-lo de perto para evitar que fizesse uma besteira.

John, por outro lado, tinha todos os motivos para estar desmedidamente preocupado. Algumas horas antes de Sherlock receber alta, foi interceptado por Mycroft que insistiu para que fizesse com que o irmão desistisse de entender o que lhe havia acontecido. O médico sabia que o oficial do governo era uma pessoa de muitos segredos e temia que ele escondesse mais coisas que pudessem machucar seu irmão.

De uma coisa ele tinha certeza: não podia conseguir convencer Sherlock nem se quisesse, e ele não queria. Aquele não era um caso normal em que foram contratados para resolvê-lo. O que acontecera fora um atentado à vida de Sherlock, uma ameaça a John e à normalidade que estavam acostumados. E se Mycroft sabia alguma coisa e estava escondendo, precisariam descobrir a todo custo.

— Por que você não deixa isso para lá, Sherlock? – John perguntou, apenas para aguçar mais o detetive.

— Obviamente que não posso, John – ele suspirou – estou deixando algo passar.

— Você não vai usar drogas para expandir seu palácio mental – o baixinho ordenou, havia notado como Sherlock estava inquieto e sabia que os narcóticos haviam o afetado novamente – não pense que não sei que você convenceu as enfermeiras a te darem morfina sem necessidade.

— Você não entende, John – ele se irritou – não se lembra de Culverton e de como as drogas me ajudaram a resolver o caso?

— Não te ajudaram, Sherlock – ele replicou – não quero que você fique doente de novo, esse é um caminho sem volta.

— E no que isso vai mudar em sua vida? – ele perguntou incisivo, aumentando o tom de voz e deixando seu violino de lado – essas pistas... quem quer que esteja por trás disso está jogando comigo... eles poderiam ter me apagado, poderiam ter usado de métodos para que eu não me lembrasse de nada...

— Eu me importo com você – John o interrompeu, chocado com a pergunta do outro – você é meu melhor amigo, nós moramos juntos, você é padrinho da minha filha. Às vezes parece que você se esquece de tudo isso e só se importa com o maldito jogo!

— Laços fraternos são um desperdício de tempo – Sherlock disse a contragosto, magoando o médico – eu não posso desistir disso. Isso é o que eu sei fazer!

John saiu chateado e nem sequer desligou a televisão que estava assistindo momentos antes, não era a primeira vez que o detetive lhe dizia palavras tão rudes e embora no geral suas ações dissessem o contrário, Watson não conseguia evitar ficar aborrecido com as palavras que ouvia.

O detetive continuou concentrado na tarefa ardilosa de escavar sua mente, mas não obteve sucesso algum. O ruído da tv que John esquecera ligada o incomodava freneticamente e o impedia de pensar com clareza, nos últimos dias qualquer coisa o desestabilizava. Antes ele não havia notado barulho porque o som de seu violino o sobrepunha, mas como havia abandonado o instrumento, agora se sentia agoniado com o programa estúpido que passava na televisão.

— John – ele chamou impaciente, enquanto estava deitado sobre o sofá com as palmas das mãos coladas em frente a seu corpo – venha desligar a TV.

Sem resposta.

Sabia que o amigo estava no quarto de cima, mas entendeu que o havia machucado mais uma vez, a contragosto se levantou, ajeitou seu roupão e se direcionou a passos lentos em direção ao aparelho. Xingou John baixinho por tê-la deixado ligada e puxou o fio meio descascado com as mãos nuas.

Um leve choque perpassou seu corpo.

Uma memória despertou decorrente do susto, tão nítida como se fosse uma lembrança não afetada por narcóticos. Lembrou da dor subsequente da tortura por meio dos eletrochoques e lembrou-se das palavras que ouviu repetidamente quando estava enclausurado.

Queriam saber a localização de Sherrinford.

Sentiu-se nauseado tanto pela lembrança da tortura quanto pela constatação de que havia vazado uma informação demasiada importante. Sherrinford era um lugar perigoso, qualquer pessoa que fosse solta daquele lugar – se é que aquilo era provável – provocaria danos irreparáveis à sociedade. Se resolvessem soltar a todos então, haveria um verdadeiro pandemônio.

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John estava organizando suas coisas em seu quarto, que já não era mais tão arrumado quanto costumava ser antigamente. Isso se dava em partes pela convivência com Sherlock que não era tão organizado com seus pertences, mas também porque tinha de cuidar de um bebê sem ter muita experiência no assunto.

Quando resolveu voltar à Rua Baker com Rosie, algumas adaptações foram feitas: um berço foi colocado ao lado de sua cama, assim como alguns armários foram adicionados ao quarto. Não era muito bonito ao olhar e ficou demasiadamente apertado, mas aquele era seu lar e se sentia confortável em tal lugar.

Por conta de ter voltado a exercer sua profissão não estava tendo muito tempo para arrumar suas coisas e por mais que pedisse à Senhora Hudson que “desse uma geral” no apartamento, ela continuava a repetir que não era sua empregada ou de Holmes.

Roupas de bebê estavam espalhadas por cima dos armários, assim como talco, shampoos, fraldas, lenços umedecidos e toalhinhas. John colocou todas as “tralhas” da filha em cima da cama e começou a separá-las e coloca-las em seu devido lugar. Respirou aliviado ao ver que o quarto estava ficando mais ou menos organizado novamente.

Os acontecimentos dos últimos dias haviam-no deixado praticamente incapaz de fazer as coisas que fazia normalmente. O estresse de cuidar de uma criança sozinho e a preocupação que sentira com o sumiço de Sherlock foram o suficiente para desestruturá-lo.

Sentiu um pouco de raiva ao pensar no amigo que estava deitado no sofá lá embaixo, afinal John nunca consideraria criar e manter laços fraternos como um desperdício e ele nunca iria concordar com o detetive nesse quesito. Sabia que os Holmes eram excêntricos, mas durante algum tempo ele achou que havia atingido os sentimentos de Sherlock.

Doce ilusão, é claro, Sherlock Holmes era de fato um sociopata altamente funcional. Ele não entendia o que era ter sentimentos por outras pessoas, nem mesmo quando se tratava de sentimentos fraternos. Watson havia sido tolo em achar que ele era a ligação entre Holmes e à humanidade.

Após ver tudo organizado e limpo, sentiu-se um pouco melhor, toda aquela bagunça estava o sufocando. Colocou Rosie em uma cadeirinha e ela o observava com os olhinhos curiosos, de vez em quando o médico conseguia arrancar dela as mais gostosas gargalhadas. Brincou com a filha durante um tempo apenas para ouvir aquele som que mexia com seu coração, a pequenina estava cada vez mais parecida com Mary e saber que pelo menos um pedacinho de sua mulher havia sobrevivido lhe trazia algum conforto.

Estava tão distraído com a criança que levou um susto quando Sherlock abriu a porta de seu quarto abruptamente, seu rosto estava com uma expressão que denotava um misto de preocupação, angústia e culpa. Notou que o amigo estava ofegante, o que só podia significar que havia subido as escadas correndo.

— Eu me lembrei – Sherlock disse simploriamente.

— Lembrou-se do quê? – John perguntou num salto se esquecendo da mágoa.

— Lembrei-me sobre o que eles queriam, John – Sherlock tomou um pouco de ar em seus pulmões – Londres corre perigo novamente. Talvez toda a Inglaterra. Talvez todo o Reino Unido.

— O que eles queriam? – John sentiu seu coração acelerar, já sabia que não gostaria da resposta.

— Queriam a localização de Sherrinford – Sherlock respondeu sério.

— Oh, céus – foi a única coisa que Watson conseguiu responder.

Notas finais
obs: o título do capítulo foi emprestado do livro homônimo, "Memórias do Cárcere", de Graciliano Ramos. Eu estava sem ideias para o título, e bati o olho na minha estante direto nesse livro, achei que caiu uma uma luva! Não consegui pensar em outra forma de fazer o Sherlock recuperar algumas de suas memórias perdidas, então essa foi a solução que encontrei. Agora que o Sherlock descobriu a motivação dos seus torturadores não vai demorar muito a descobrir o que está acontecendo, afinal estamos falando do melhor detetive da Inglaterra, não? Como eu havia falado, gosto de introduzir o romance aos poucos (rs), não percam a paciência comigo que logo vai acontecer. Principalmente porque essa história já está na metade. Quero agradecer a todos que tem comentado e me impulsionado a continuar escrevendo, vocês são uns fofos e desejo muito Johnlock a todos e que todos os ships se tornem canon ♥ Em breve nos vemos no próximo capítulo!