Renascer
9 Epifania
Notas iniciais
— Sherlock, precisamos falar com o seu irmão – John insistiu, enquanto tentava fazer com que o detetive se levantasse do sofá no qual havia se deitado pelas últimas quatro horas – ele precisa saber que você deu à informação.
— Não ainda – Sherlock replicou, abriu os olhos e se sentou.
— Estamos correndo contra o tempo – o menor tentou argumentar arrancando um suspiro de tédio do moreno – imagina o que pode acontecer se invadirem aquele lugar e libertarem àquelas pessoas?
— Assassinatos, massacres, terrorismo – Sherlock respondeu com sarcasmo – é isso que deduzo. A grande questão é: quem seria capaz de invadir Sherrinford?
— Sherlock.... – John suspirou – por que não quer contar a Mycroft? Sei que ele não queria que você se afundasse nisso, acha que tem a ver com Eurus?
O homem alto suspirou novamente e virou sua mirada azul tão intensa na direção do melhor amigo. Ele estava incomodado, muito incomodado.
— Não. Eurus está colapsada para sempre... tem algo que não faz sentido – ele ponderou – como conseguiram evitar minhas deduções? Eles foram instruídos a isso...
— Espera... – John o interrompeu – você está desconfiado do seu irmão? Acha que por isso ele mandou que se afastasse?
— Não consigo pensar em mais ninguém astuto o suficiente para me ludibriar – ele disse – mas não faz sentido.
— Não. Não faz o mínimo sentido – John concordou – ele é um dos protetores daquele lugar... além do quê, ele sempre protegeu a você.
— Sim, John – Sherlock socou a mesa de centro de modo a descontar sua frustração – então quem? De quem Mycroft quer me proteger?
— Okay, Sherlock... – o médico falou suavemente para acalmá-lo – vamos lá... diga-me o que você já deduziu.
— Só especulação e nenhuma conclusão e isso me irrita, odeio especular – ele disse – parece-me que foi alguém que me conhece... cheguei a considerar que pudesse ser alguém novo no jogo, mas quem quer que esteja o jogando agora é um jogador muito antigo e muito bom, um ótimo adversário, inteligente, astuto e que está evitando dar as caras. Mas tem um pequeno problema, John, todos os meus grandes adversários estão mortos. O único que sobrou foi meu arqui-inimigo, meu irmão.
— Sherlock... – John fez uma pausa intrigado com o pensamento que acabava de lhe ocorrer – você conhece mais alguém que tenha conseguido evitar suas deduções? Até onde sei não são todos os seus adversários que estão mortos.
O detetive forçou a mente, entendeu a insinuação do amigo, mas não queria acreditar, não podia... Não depois de tudo o que ele fez por ela, mas era a única explicação plausível. Correu em direção a seu quarto e começou a revirar suas coisas freneticamente em busca do caderno em que fizera anotações quando ainda estava internado no Hospital Real de Londres, sem muita dificuldade encontrou o que procurava.
conclusão 4: é uma pessoa conhecida da mídia, famosa, ou até mesmo algum tipo de fugitivo.
Lembrou-se de quando a conheceu, o modo que se apresentou à Holmes nua de corpo e de alma. Ela foi capaz de ludibriar Sherlock tanto quanto foi capaz de encantá-lo. Era mais do que óbvio que ela reapareceria em sua vida mais uma vez depois de tudo o que havia acontecido, talvez para agradecê-lo pelo o que fizera por ela no passado ou talvez para dominá-lo. O fato é que Sherlock nunca havia a entendido completamente.
— Adler – ele suspirou, ainda imerso nas lembranças de quando conheceu a Mulher e de como ela sempre fora uma incógnita para si – Irene Adler.
John sentiu uma pontada estranha em seu estômago ao ouvir a menção do nome da Mulher. Sabia que Irene estava viva e salva pelo próprio Sherlock. Sabia que Sherlock a considerava uma adversária formidável e suspeitava que o amigo a amava.
O médico havia incentivado Sherlock a procura-la e a responde-la, mas ele sempre soube que o detetive consultor nunca o faria. Ele o conhecia o suficiente para ter essa certeza. Algo despertava em John, talvez ciúmes, talvez preocupação com o efeito que Adler causava em Holmes, ele preferiu não nomear aquilo que insistia em fazer seu estômago revirar. Se havia uma verdade nas palavras que proferiu quando tentou convencer o amigo a procurá-la era que Irene era, sim, uma lunática, uma criminosa e insanamente perigosa.
— Mas... quem está em Sherrinford a ponto de atrair a atenção dela? – John indagou – fora que... você a salvou... ela tem uma dívida com você. Ou será que ela se irritou por que você nunca a respondeu?
— Não seja tolo, John – Sherlock disse – já entendi tudo. Mycroft e seus jogos...
— Insiste no envolvimento de seu irmão?
— Não foi Irene que ordenou que me sequestrassem, mas alguém relacionado a ela – ele disse.
— Mycroft?
— Não, John. Use sua cabeça, pense um pouco! – ele exclamou energicamente – é ela quem está em Sherrinford.
—--
Sherlock caminhava de um lado para o outro irritadíssimo, Mycroft estava o evitando e não queria atende-lo de modo algum, muito provavelmente Irene já havia escapado e era por isso que não queria que o irmão caçula se envolvesse. Suspeitava que após tal acontecido, o irmão já havia deduzido o que tinha acontecido a Sherlock e o envolvimento de Adler naquela situação. Mycroft queria sim protege-lo de Irene, mas também queria proteger a si mesmo de Sherock.
Apenas uma coisa martelava a cabeça de Holmes: Adler iria caçá-lo. Caçá-los.
O irmão não atendia aos telefonemas e parecia ter sumido do mapa, não se encontrava no parlamento ou em qualquer lugar em que Sherlock havia procurado. Tentou se concentrar e pensar em algum lugar que fosse um refúgio para ele. Conhecia bem o irmão, e sabia que ele era astuto, mas estúpido as vezes.
Sabia onde ele estava por mera intuição, na casa de seus pais, é claro! Assim que constatou tal fato, o detetive e o médico deixaram a Rua Baker rumo a mais um caso, um caso que ainda os intrigava e que os deixava sem respostas.
Encontraram o irmão mais velho em frente à casa da família Holmes fumando um cigarro tranquilamente. Sua expressão como sempre não demonstrava nada, absolutamente nada, seus gestos eram mudos, seu olhar era de uma pessoa vazia, assim como Sherlock fora um dia.
— Olá, irmão – Mycroft cumprimentou – vejo que me achou...
— Irene Adler – Sherlock disse, fuzilando o irmão com o olhar – por que raios você a trancou em Sherrinford?
— Ah, meu caro irmão – Mycroft suspirou – eu temia que um dia descobrisse.
— Você mandava as mensagens – Sherlock deduziu.
— Obviamente – o primogênito desviou o olhar.
— O quê? – John interrompeu – você esteve enganando seu próprio irmão por todos esses anos... ele a ama...
Mycroft revirou os olhos.
— Não seja tolo, John – ele suspirou – sério que ainda não contou a ele?
— Não contou o quê? – Watson perguntou irritado.
— Nada que seja da sua conta. Não sei do que fala, irmão! – Sherlock o interrompeu com uma fúria no olhar – não desvie o assunto, Mycroft. Percebo que você deduziu que eu a salvei...
— Ah, Sherlock! Você sempre foi tão previsível. Fiquei de olho na Mulher de perto depois que você a salvou, mas é claro que ela iria continuar se metendo em escândalos! Foi avistada em muitos lugares, perseguida, seria morta em breve se eu não tivesse intervindo... sei que ela é importante para você – ele fez questão de acrescentar – você não a salvou, Sherlock, apenas adiou o inevitável.
— E aí, você a prendeu.
— Não exatamente – ele disse – ela veio até mim, disse que precisava entrar no programa de proteção a testemunhas novamente após tentar manipular novamente uma pessoa importante no cenário político de Londres, mas era tarde demais. Ela estava mais insana do que nunca, Sherrinford foi a única solução.
— Ela começou a enlouquecer naquele lugar? – John perguntou.
— Começou? – Mycroft indagou – ela é como nós, como Eurus, não é como se ela não merecesse estar lá e agora percebo isso... ela deve ter deixado instruções de como lidar com você, Sherlock, só isso pode explicar como você foi subjugado. Mais uma vez Sherlock Holmes perdeu para a dominatrix.
— Obviamente – ele disse, ainda mais irritado – mas se ela está presa quem veio atrás de mim?
— Seu marido – Mycroft disse – Godfrey Norton*. Depois que você a salvou, ela se casou, mas continuou sendo perseguida. Norton estava possesso com o seu sumiço, veio me importunar algumas vezes, mas não lhe dei atenção.
— Estava? – Sherlock e John perguntaram juntos.
— Sherrinford foi invadida e Irene foi solta – Mycroft soltou um muxoxo – este foi o motivo de seu sequestro, não?
— Como? Como conseguiram passar pela segurança de Sherrinford? – John perguntou abobalhado.
— Não seja tolo, John – Sherlock revirou os olhos — isso não é problema para quem tem os recursos certos... até nós já invadimos aquele lugar.
— De fato – Mycroft concordou.
— Ela irá nos caçar... – Sherlock meio que afirmou, meio que perguntou.
— Ou ela pode fugir, vá saber – Mycroft argumentou – sei apenas que ela estando fora de Sherrinford corre o risco de não viver por muito mais tempo.
Sherlock se despediu do irmão secamente, não quis mais estender a conversa, estava visivelmente chateado e ficou quieto a maior parte do trajeto de volta à Rua Baker.
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