Renascer
13 Família
Notas iniciais
— Acho que vamos precisar de um carpete novo – Sherlock comentou torcendo o nariz.
John o observou com certo encanto, percebeu que o amigo estava desviando o assunto, quando abriu a boca para dizer algo, Sherlock o cortou.
— Rosie – ele disse e já subiu as escadas correndo.
John ficou meio estático, suas pernas pareciam ter endurecido e ele não sabia o que fazer. Ouviu barulhos de batida na porta e apenas naquele momento percebeu que não somente a senhora Hudson como toda a vizinhança deviam ter escutado o que acabara de acontecer.
Abriu a porta e encontrou Marta Hudson com os olhos assustados.
— Ligue para o Greg – foi a única coisa que John disse, como se estivesse no piloto automático.
Hudson continuou tagarelando antes que John a dispensasse, estava tão absorto pelos últimos acontecimentos que não conseguia compreender o que acontecia a sua volta.
Sherlock o amava.
Sentiu-se enrubescer ao relembrar as palavras do amigo, John reprimira aquilo dentro de si por tanto tempo que agora que ouvira as palavras da boca de Sherlock, não sabia como lidar. Tudo era muito mais fácil quando era platônico, utópico e quando tinham mil coisas para resolver a ponto de ignorarem a proximidade um do outro.
Subiu até o quarto e encontrou-o de costas enquanto ninava Rosie tranquilamente, aquela era uma visão tão bonita de se ver: Sherlock com a postura tão serena como se não fosse aquele homem quebrado que conhecia. John sentiu um impulso enorme de correr até ele e abraçá-lo, mas algo o refreou. Ele sequer sabia se Sherlock havia dito aquilo de um modo romântico, ou apenas se dissera aquilo porque sentia apreço por John Watson, se havia uma pessoa que era extremamente difícil de decifrar essa pessoa era Sherlock Holmes.
Mas agora John precisava colocar aquilo às claras, falar sobre os sentimentos era o que sempre fazia e ele não podia deixar de o fazê-lo após Sherlock ter trazido à tona tudo aquilo que enterrou no canto mais isolado de seu coração ao longo dos anos.
— Eu sei que você está aí, John – Sherlock proferiu abrindo os olhos e se virando devagar para logo após colocar Rosie gentilmente de volta no berço.
— Como ela está? – John perguntou desviando os olhos para o chão sentindo a face queimar mais uma vez.
— Estava um pouco assustada, mas consegui fazê-la dormir – Sherlock disse – teremos muito o que resolver a partir de agora.
— Eu sei, Sherlock – John concordou – o que você quis dizer com... ?
— Percebo que já chamou a polícia – o detetive o interrompeu – alegaremos legítima defesa, temo que tenhamos que relatar sobre Sherrinford quando formos interrogados.
— Mycroft nos apoiará? – John perguntou.
— Obviamente – Sherlock afirmou – ele deve estar com bastante remorso por ter nos metido nessa situação.
O silêncio voltou a sufocá-los, comprimi-los, nenhum dos dois tinha coragem de proferir palavra alguma.
Sherlock sabia que seus dias de glória ao lado de John haviam chegado ao fim, depois daquela declaração não tinha como tudo voltar ao normal. Sua paranoia estava tão intensa que chegou a considerar que o amigo poderia pensar que ele realmente havia deixado Mary morrer devido ao que sentia.
— Vou observar a cena do crime – Sherlock declarou, e passou por John em direção a porta – não quero ter de ser exilado mais uma vez.
— Fui eu que atirei, Sherlock – John argumentou.
Sherlock parou a um passo da porta e virou para trás lançando um sorriso para John, totalmente nostálgico com a lembrança de quando o amigo matou Jeff Hope para salvá-lo e divertido em saber que Lestrade não havia descoberto aquele fato mesmo após todos aqueles anos. Pensou que ao menos teria essas boas lembranças quando se enfiasse em uma sarjeta, enchesse as narinas de pó, as veias de agulhas e o fígado de álcool, afinal, ele sabia que agora era o momento de deixar John Watson em paz.
Seguiu em direção as escadas a passos lentos já visualizando o local sem a presença de John, teria de dar fim em sua poltrona mais uma vez e sentiria falta de Rosie, é claro, mas não podia colocá-los em risco de novo, ele sabia. Seus pensamentos mórbidos foram interrompidos pela mão de John que segurou firmemente em seu ombro e fez com que virasse sua cabeça para si e o encarasse. Sherlock abriu a boca para dizer algo, mas John foi rápido e astuto o suficiente para tomar a palavra primeiro.
— Achei que você não tivesse sentimentos – ele admitiu.
— Foi o calor do momento – Sherlock disse sem graça já se desvencilhando do contato do outro.
John gargalhou, ele já havia presenciado o amigo demonstrar seus sentimentos algumas raras vezes, sabia que aquilo não havia sido apenas “calor do momento”.
— Seja sincero comigo, Sherlock – ele pediu – quando você disse que me... aquilo... você quis dizer fraternalmente? Romanticamente?
— Você é meu melhor amigo – Sherlock disse com formalidade – não é óbvio?
— Óbvio! – John exclamou com ironia, um sorriso ainda estampado em seus lábios finos – sabe o que é óbvio, Sherlock? Que você está mentindo.
— Eu? Mentindo? – Sherlock se fez de ofendido – como ou... ?
John não deixou que ele terminasse a frase, tapou a boca do amigo com as mãos e o olhou em seus olhos. Sherlock ia começar a protestar, mas John também o impediu e lançou-se para cima de Sherlock, ficando na ponta dos pés de modo que seus lábios se tocaram. John Watson não queria ser deixado em paz.
De início Holmes ficou estático, não sabia onde colocar as mãos e demorou alguns segundos a fechar os olhos. Ele fora cego, porém naquele momento via todos os sinais claramente, era óbvio que John Watson estava apaixonado por Sherlock Holmes. Fechou os braços em torno de John ao mesmo tempo que deixou as pálpebras caírem, o beijo se aprofundou e, por um momento, o tempo congelou.
Apartaram-se apenas quando o ar faltou em seus pulmões.
— Entendo – Sherlock disse – então você também sente.
— Você é a pessoa mais idiota que conheço, Sherlock – John proferiu.
Algo crescia no peito dos dois, havia um cadáver no cômodo abaixo, mas aquilo não parecia grande coisa comparado ao que sentiam naquele momento. Sentiram o ímpeto de se beijarem mais uma vez, mas quando seus lábios estavam prestes a se encostarem novamente, ouviram barulhos na porta de entrada.
Greg Lestrade e sua equipe adentravam mais uma cena de um crime, um dia totalmente normal da vida da Scotland Yard. Não demorou muito para que vissem diversas pessoas dentro do pequeno apartamento, a equipe da Scotland Yard, senhora Hudson e alguns vizinhos preocupados. John achou curioso o fato de Mycroft também ter dado as caras tão rapidamente, considerando que eles não haviam contatado o irmão mais velho. Watson também achou absurdo que eles já estivessem sendo noticiados na TV.
Sherlock conversava com Greg explicando-lhe o que havia acontecido, enquanto John se jogou na poltrona de couro preto com Rosie em seu colo, e esperou, sabia que não poderiam ficar no apartamento até que tudo fosse resolvido e só em pensar em mais aquela intempérie sentia dores de cabeça. Mal percebeu quando Mycroft se aproximou, apenas viu uma silhueta borrada ao seu lado e levantou os olhos devagar até focá-lo em sua visão. Holmes, que normalmente era tão sério, esboçava um sorriso divertido com o canto da boca.
— Você está com uma cara de bobo, Watson – ele declarou.
John se assustou com a afirmação, pensando se Mycroft já havia deduzido o que tinha acontecido entre os dois. Sentiu as bochechas se esquentarem e se fez de desentendido.
— O quê? – perguntou, parecendo ainda mais abobalhado.
— Já estava na hora – Mycroft declarou e saiu elegantemente com seu guarda-chuva em mãos.
Continuou sentado na poltrona enquanto a equipe policial fazia seu trabalho, normalmente John os acompanharia, mas estava esgotado, sua cabeça doía como nunca, mas de alguma forma, estava leve. Parecia que o destino havia o preparado especificamente para aquele momento, esboçou um sorriso ao pensar que se dissesse aquilo a Sherlock, ele diria que John não estava sendo nada racional.
Encarou a pequena Watson em seu colo, acariciou os cabelos loiros que caíam sobre sua testa. Rosie também estava esgotada, parecia que dormiria por dias, mas sabia que tudo aquilo era devido ao estresse pelo qual todos passaram. Ouviu um pigarro e olhou para frente, até que viu uma figura muito conhecida, mas que não aparecia para ele há um bom tempo.
— Minha terapeuta disse que se eu voltasse a vê-la iria me encaminhar para um psiquiatra – ele disse.
— Relaxe, John Watson, eu prometo que essa é a última vez que apareço para você – Mary Morstan respondeu.
— Você sabia... – John afirmou.
— É claro que eu sabia, John! Por que acha que eu o salvei? Você nunca iria suportar perdê-lo de novo.
— Claro que sabia! — ele exclamou — você é a versão feminina de Sherlock... eu nunca deixarei de a amar, Mary! Assim como nunca deixarei de amá-lo... Por que eu tenho essa tendência a me apaixonar por pessoas nada normais? Eu sinto sua falta... Queria tanto que você visse todas as coisas que Rosie tem feito.
— Ah, como eu queria poder acompanhar tudo isso! – ela disse, divertida – mas John, aceite o que a vida está te oferecendo agora... seja um bom pai para Rosie e ensine a ela como ser uma pessoa maravilhosa como você é. Aproveite a companhia de Sherlock. De todas as pessoas que conheci, você é a que mais merece ser feliz.
— Mary... você não se sente brava? Pela minha situação com Sherlock? – John perguntou, cheio de vergonha.
— Brava? Por que sentiria isso? – ela suspirou – Saber que você está com uma pessoa tão incrível quanto Sherlock Holmes ao seu lado é o que me deixará descansar em paz. Pode ter certeza, John, ele sempre fará de tudo por essa família.
— Com certeza ele irá – John respondeu sorrindo enquanto via a imagem sorridente.
— Posso te pedir uma última coisa? – ela perguntou.
— Claro...
— Lembra quando você me disse que sempre me protegeria? – Mary indagou, seus olhos azuis encaravam John por dentro.
— Me desculpe se não consegui... – ele disse entristecido.
— Não é isso, John — ela suspirou – proteja Sherlock e estará fazendo isso por nós dois. Você promete?
— Eu prometo, Mary.
A esposa apenas sorriu em resposta enquanto sua imagem sumia diante dos olhos de John Watson, agora para sempre. Finalmente ele havia aceitado a nova vida que lhe era oferecida. Correu os olhos pelos cômodos, encarou Sherlock de longe enquanto este provavelmente dava alguma explicação complicada a Greg Lestrade, chegou a única conclusão possível para que tudo tivesse chego àquele desfecho: sua família sempre seria seu ponto de pressão. Sempre.
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