Renascer

1 Fugir no escuro


Notas iniciais
Sejam bem vindas a minha mais nova história. Não quero transformar a fic em um +18, então vou deixar algumas coisas subentendidas, quem for esperto vai entender.

O mundo nunca tinha sido gentil com a gente. Nem um pouquinho.

A alegria, a gente só conhecia de ouvir falar.

Então, a gente decidiu inventar a nossa.

Minha irmã mais velha, Alana, sempre dizia que viver era como andar de bicicleta no escuro: você nunca sabe se vai cair, mas continua pedalando mesmo assim.

Naquela noite, eu só queria ficar parada. Queria as cobertas, minha boneca de pano, e fingir que o mundo lá fora não existia.

– Eu não quero ir embora… – sussurrei baixinho, tentando esconder as lágrimas.

Ela estava sentada na beira da cama improvisada. Nossas coisas estavam dentro de uma sacola amassada. Tínhamos só o que dava pra carregar.

– Nana, por favor… – ela disse, com aquela voz que ela usava quando estava tentando ser mais adulta do que era.

Eu tinha quatro anos. Ela, quase sete. Nossos pais tinham saído de novo naquela noite. Como sempre. E Alana ouviu conversas. Conversas que falavam sobre a gente. Sobre alguém vir nos buscar.

Abrigo.

Aquela palavra fazia a gente gelar por dentro.

Antes que pudéssemos falar mais alguma coisa, ouvimos passos. Pesados. A cortina fina que servia de porta se mexeu, e meu pai apareceu.

– Que cochichos são esses? – ele rosnou.

Alana correu pra sua cama como se não tivesse saído de lá. Eu me encolhi em silêncio, tremendo.

Ele entrou. Minha mãe veio logo atrás. O quarto virou sombra e medo.

Ele puxou as cobertas de Alana.

– Levanta, menina! – gritou.

– Papai… – eu choraminguei, sem saber o que fazer.

Ele segurou minha irmã pelos cabelos. Eu fechei os olhos. Ouvi os gritos abafados dela e os estalos que vinham com os tapas.

A dor dela me doía também.

Depois, ele me olhou.

– Eliana… quer vir abraçar o papai?

Eu queria correr. Me esconder. Mas não me mexi.

Ele puxou minhas cobertas. Seus dedos subiram pelas minhas pernas. Mas antes que fizesse mais alguma coisa, minha mãe o empurrou com tanta força que ele caiu no chão.

– VAGABUNDO! – ela gritou. – NÃO ENCOSTA NELA!

Eles começaram a brigar, gritar, e foram se embolar no colchão da sala.

Eu só fiquei ali. Encolhida. Olhando pro teto. Tentando sumir.


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De manhã, Alana me acordou.

Ela já estava vestida com sua camiseta mais limpa. Me ajudou a vestir uma calça rasgada e um moletom que nem era meu.

Eu não queria ir. Chorei de novo. Pedi pra ficar.

– Quer ir pro abrigo, Nana? – ela perguntou, séria.

Balancei a cabeça, assustada.

– Então vem comigo.

Caminhamos por ruas frias, dormimos em lugares estranhos, comemos o que achávamos. E, depois de dias sem destino, encontramos algo que parecia uma cidade gigante feita de concreto e ferro.

– O que é isso? – perguntei, olhando pra construção que parecia tocar o céu.

– É um shopping – ela disse.

Olhei pra ela. Ela estava sorrindo pela primeira vez em dias.

– Vamos morar aqui, Nana. É grande. É escondido. É nosso.

E foi assim que começou a nossa nova vida.

No lugar onde tudo acabava… a gente renasceu.

Notas finais
Curto, eu sei, mas isso é só o prólogo... Próximo capítulo tem as meninas agora adolescentes ;)