Renascer
2 Depois da meia noite
Ninguém imaginava o que havia sob os pés apressados dos clientes. Nem os lojistas, nem os seguranças, nem os engenheiros que ergueram o maior shopping da América Latina.
No fim da última escada rolante, depois do último degrau de emergência e da última câmera de segurança, havia um pequeno espaço escondido — uma pecinha de 2x2 onde o concreto deveria estar sólido, mas que, por alguma falha, ficou oco.
Foi ali que tudo começou.
De dia, o shopping brilhava. De noite, dormia.
Mas quando os portões se fechavam, quando os últimos refletores apagavam com um estalo, elas despertavam. Era o mundo secreto das irmãs. E de dezenas de outras crianças que aprenderam a viver com elas.
As escadas rolantes pareciam caracóis gigantes, ligando o paraíso dos brinquedos ao reino dos doces. As vitrines piscavam com luzes coloridas, e o som abafado do ar-condicionado se misturava com risadas baixas.
Eles sabiam os horários de cada guarda, cada sensor, cada câmera desligada.
— Vamos pela escada caracol azul hoje — sussurrava Alana, apontando para o terceiro andar.
Lá em cima, havia uma loja de brinquedos tão grande que parecia um parque. No fundo, doces de todas as cores, e mais além, livros, cadernos, canetas que brilhavam no escuro, tablets deixados na vitrine, esperando por mãos pequenas e imaginativas.
Cada noite era uma missão.
Uma missão para conseguir roupas novas da loja infantil famosa. Para encher mochilas com bolachas e sucos do supermercado. Para passar na farmácia e buscar band-aids com estampas de super-heróis. Para ver se, na loja de games, haviam deixado alguma coisa ligada.
Eles sabiam que não podiam tirar tudo de uma vez — isso chamaria atenção. Sabiam que precisavam deixar tudo como estava. E sabiam, mais do que tudo, que o paraíso não era de verdade. Mas era o suficiente.
Para uma infância que nunca existiu, aquela cidade noturna era o que bastava.
Era o que elas haviam construído com as mãos vazias
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Na sala dos fundos da loja de fantasias, onde uma pilha de caixas velhas escondia uma fresta no teto, dormiam quatro crianças.
Uma delas tinha o cabelo rosa desbotado de um spray vencido, e roncava levemente com a boca aberta. A menor dormia com um carrinho apertado contra o peito, e os outros dois estavam embolados sob um cobertor roubado da seção de casa & decoração.
Alana os observou por um instante, depois olhou para a irmã.
— Hoje vamos só nos dois — murmurou. — Eles estão cansados.
A irmã mais nova assentiu com um movimento rápido, como se estivesse com pressa.
Elas atravessaram o corredor escuro, desviando das sombras das vitrines, até chegarem à escada caracol dourada — a que levava direto ao mezanino da livraria.
Ali era o lugar delas. Ninguém mais subia ali.
Tinham escondido um cobertor entre os livros de capa dura, feito almofadas com papéis de presente e, numa prateleira alta, deixado um único livro aberto, com uma caneta marcando a página.
— Lê pra mim? — pediu a menor, chutando levemente os pés no ar, como se estivesse deitada na nuvem mais macia do mundo.
Alana abriu o livro com cuidado. Era uma coletânea de histórias antigas, daquelas que nunca terminam bem.
— Hoje não quero final triste — sussurrou a pequena.
— A gente pode fingir outro final — respondeu Alana, puxando a irmã para perto.
E então, lá do alto da livraria, cercadas por letras e cheiros de papel novo, elas se esqueceram — por um instante — que aquilo tudo era de mentira. Que ninguém sabia que elas existiam. Que tudo ali era emprestado.
Até que um bip soou.
Fraco.
Distante.
Mas real.
As duas pararam. O som vinha do andar de baixo. Um bip eletrônico, diferente dos barulhos que já tinham decorado.
Não era de câmera.
Não era de portão.
Não era de ar-condicionado.
Era novo.
— Você ouviu? — perguntou a menor, já de pé.
Alana não respondeu. Apenas apagou a lanterna.
No escuro, segurando a respiração, ela pensou:
"Será que descobriram a gente?"
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O bip parou tão repentinamente quanto começou.
Por um instante, parecia que tinham imaginado. Mas a escuridão não mente. E os ouvidos delas já estavam treinados demais pra confundir aquele tipo de som com qualquer outra coisa.
— Fica aqui — sussurrou Alana, enquanto se esgueirava até a beirada da sacada da livraria.
Lá embaixo, o shopping dormia.
Ou quase.
Entre as luzes automáticas que piscavam de tempos em tempos, algo se movia. Pequeno, rápido, com reflexo metálico.
Alana se abaixou devagar. Não era segurança. Também não parecia um rato. Era mais… polido. Quase como se fosse um brinquedo. Mas nenhum brinquedo se move daquele jeito.
A irmã menor apareceu ao lado dela, ignorando o aviso.
— É um drone? — perguntou, baixinho.
Alana não respondeu. Estava tentando identificar. O objeto tinha passado pela loja de doces, feito uma curva precisa e agora descia pelas escadas rolantes paradas.
Então, bip. De novo.
E agora, um clarão minúsculo: uma luz azul no lugar exato onde tinham deixado um dos livros da "pecinha 2x2". O esconderijo mais secreto de todos.
— Não era pra ninguém saber daquele livro — disse a menor, agarrando o braço da irmã.
Alana engoliu seco.
Elas desceram correndo, sem sapatos, pisando como fantasmas nos tapetes das lojas fechadas. Passaram pela praça de alimentação, onde os cheiros de gordura velha e doces esquecidos ainda pairavam no ar.
Até chegarem à entrada do estacionamento subsolo.
Lá embaixo, bem no centro da linha vermelha pintada no chão, havia uma caixa de metal.
Não era delas.
Nunca tinha estado ali.
Na tampa: um visor digital com três números piscando: 3:00.
A contagem começou.
2:59
2:58
2:57
— Vai explodir? — perguntou a irmã.
— Não. Não faz sentido. Não teria luz azul. E não colocariam num lugar tão óbvio — respondeu Alana, mas sem certeza.
Ela sabia uma coisa: aquela caixa não era parte do jogo que elas conheciam.
Não era comida, não era brinquedo, não era armadilha de segurança.
Era uma mensagem.
E alguém tinha enviado pra elas.
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