Remember the urge.
10 See you later.
Notas iniciais
Aomine POV's.
Adentrei o aeroporto sem direção. Nunca havia pisado naquele lugar, sempre que eu precisava viajar, acabava optando por meios em que eu pudesse ver o chão. Não por medo de altura ou algo assim, mas eu cresci com o pensamento de que coisas como aviões, eram apenas para pessoas bem afortunadas que gostavam de esfregar este fato na cara das pessoas menos favorecidas. Bom, talvez não fosse exatamente assim, mas isso não importava em nada agora.
Pra me situar, pedi informações para um segurança que me instruiu à subir as escadas e entrar na terceira sala onde estavam os passageiros a espera de seus respectivos voos. E lá fui eu. Subi no primeiro degrau da escada rolante e torci para que ela demorasse para me levar até o outro andar. Eu estava inquieto, ensaiava inúmeras vezes todas as frases que pensava em dizer à Kise, mentalmente. Assim que cheguei no segundo andar, segui pelo corredor, avistando as salas que o segurança havia comentado, todas elas estavam preenchidas com cadeiras estofadas e muitas pessoas. Parei junto a terceira porta, espreitando. Me senti desconfortável e constrangido. As pessoas que estavam na sala vestiam roupas elegantes, carregavam grandes malas chamativas e tinham uma postura exemplar. Voltei os olhos para o pilar espelhado logo ao lado, fitando o meu próprio reflexo e analisando as roupas que eu estava vestido... Uma camisa velha, uma bermuda batida e tênis. Nesse momento, pensei que tive sorte por não ser abordado por um segurança por ser confundido com um mendigo.
Voltei a espiar o interior da sala, não havia sinal algum de Kise tampouco de Kagami. Resolvi checar mais de perto. Assim que entrei pela porta automática, senti os olhares chocados caírem sobre mim e alguns múrmuros. Respirei fundo, soltei o ar pelas narinas e os ignorei. Continuei andando entre as cadeiras e nada. "Será que eles já pegaram o voo? Não, não pode ser! Não cheguei tão tarde assim!" Não desisti. Foi então que percebi o corredor no canto da sala. Em sua entrada haviam placas na parede, sinalizando que ali se encontravam os sanitários.
Direcionei-me à porta do banheiro masculino, o adentrei e bingo! Lá estava Kise! Estava usando uma roupa diferente da que usava quando saiu de minha casa. Vestia agora uma calça azulada que cobria-lhe até a metade da panturrilha, uma camisa gola v branca que servia como "suporte" para os óculos escuros, e um terno básico azulado que dava-lhe um ar elegante. Ele estava encarando o próprio reflexo no espelho sem sequer perceber a minha presença. Pisquei algumas vezes, sem saber o que faria à seguir. Todas as frases que eu havia repetido inúmeras vezes em minha cabeça, sumiram no exato momento em que pus os olhos sobre ele. Hesitei. Olhei em volta, a procura de Kagami, mas só havia Kise e mais ninguém. Foi então que ouvi sua voz espantada:
— Aominecchi? O que você faz aqui? – Indagou, enquanto dava um passo a frente.
Congelei. Apesar de tudo, algo em mim ainda acreditava que Kagami estava ali, que havia algo acontecendo pelas minhas costas, mas Kise não dizia nada. O pensamento de que ele tinha uma vida inteira da qual eu não estava ciente, me deixava louco. Ele agia como se não houvesse problemas e isso me deixava irritado. Eu não queria admitir, mas eu tinha ciúmes de tudo isso. Sentia ciúmes até mesmo dos momentos que ele vivia quando não estava ao meu lado.
— O que–
— Aonde ele está? – O interrompi.
Sua expressão gentil se transformou em confusão. Ele olhou em volta, como se tentasse achar alguma pista relacionada ao assunto que me referia. Ele só podia estar brincando com a minha cara! "Não fode comigo, Kise!", pensei.
— "Ele"? Quem? Do que você está fala–
— Kagami! Eu estou cansado de você esconder coisas de mim. Então agora, me diga, onde ele está? – Sem perceber, aumentei o tom de voz e dei um passo adiante.
— Aominecchi, eu não faço a menor ideia do que você esta falando. Porquê, diabos, o Kagami estaria aqui?
— Eu sei de vocês! Não minta pra mim!
— "Vocês"? O que você sabe sobre "nós"?
— No tempo da escola... Eu vi vocês. – Suspirei. – Ele estava saindo da sua casa quando eu cheguei. Vocês se beijaram. Não precisa mais esconder nem mentir pra mim.
— Então foi por isso, não foi? – Kise repetiu meu ato enquanto colocava algumas mexas da franja para trás das orelhas. – Foi por isso que você agiu daquela maneira comigo... Estava com ciúmes–
— Se eu estava com ciúmes? – Ri. – Me diga, Kise... Pra você, pode ser qualquer um, desde que seja homem suficiente para te dar prazer a noite inteira, não é?
Senti a dor se espalhar do lado esquerdo do maxilar para o rosto inteiro. Kise havia me acertado um soco naquela região. Aconteceu tão rápido que sequer sei descrever tal ato. A única certeza que eu tinha, era que as minhas palavras haviam magoado ele. Claro que haviam! Elas saíram da minha boca sem que eu sequer tivesse pensado em proferi-las.
— Ki-kise... Eu... Eu não queria ter dito... Eu–
— Você não entende... Não sabe como eu me sentia e garanto que nunca se esforçou para tentar adivinhar. – Sua expressão amoleceu suavemente.
— Eu não entendo, Kise! E é por isso você precisa me falar...
Nesse momento fomos interrompidos por alguém que abriu a porta agressivamente. Era um homem alto, forte, com expressão carrancuda, dentro dum terno preto. Nos voltamos à ele, que vinha em nossa direção com passos firmes e pesados:
— Hey, what the fuck are you thinking, Kise!? You know what time it is?
Pisquei algumas vezes, tentando entender em que tipo de situação havíamos nos metido agora. Eu não havia entendido porra nenhuma do que aquele cara tinha dito. Nunca me interessei por línguas estrangeiras, então estava sobrando ali. A única coisa que eu havia entendido era que o homem estava sendo grosseiro com Kise, devido ao tom rude que ele usou ao dizer tais palavras.
— What– Kise olhou para o seu relógio de pulso, entreabrindo os lábios em surpresa. – Oh, sorry, Mr. Joe! I'm going... Wait more five minutes, please! I'm almost done here with my friend.
O homem bufou em resposta e logo se retirou do banheiro tão bruscamente quanto havia entrado. Kise massageava as têmporas em sinal de stress, enquanto eu tentava pensar em um jeito de retomamos o nosso assunto anterior.
— O que foi isso que acabou de acontecer? – Indaguei, ainda confuso.
— Aquele era o meu empresário. Desde o início, você sabia que eu estava na cidade apenas à trabalho. Eu vou voltar para o estrangeiro.
— Você vai–
— Eu vou cancelar o meu contrato com a empresa por "motivos pessoais". Não posso fazer isso pelo telefone depois de tudo o que fizeram por mim, isso seria grosseiro! O Joe esta puto comigo por causa disso, mas compreende a minha situação. Justamente por compreender foi que ele, bondosamente, decidiu ir comigo para facilitar o processo. Tem sido muito difícil pra mim viver assim. Não tenho casa fixa, cidade fixa, amigos fixos... Fico longe de tudo. Fico longe de você. E eu não quero mais isso pra mim... Pra nós! Isso não tem nada a ver com o Kagami, então esqueça isso.
— Eu–
— Eu sei que se eu não esclarecer isso agora, você vai continuar pensando nisso até eu voltar, então vou dizer agora. Naquele tempo, eu era jovem. Eu estava confuso porque o meu primeiro amor, era uma pessoa do mesmo sexo que o meu. Haviam muitos rumores sobre a minha sexualidade naquela época, mesmo que nem eu soubesse do que eu gostava. Eu acabei encontrando Kagami e, por estar sobrecarregado com tudo isso, acabei desabafando com ele. Como era uma longa história, preferi convidá-lo para ir até a minha casa. Foi ai que perguntei pra ele o que deveria fazer para saber se eu realmente era gay. Ele me disse que se eu fosse gay, eu me atrairia por outros homens também, não apenas por você. Fizemos um "teste". Ele tentou me seduzir pra provar se eu era gay ou não, mas nada aconteceu. Ele me beijou, mas eu não senti nada. Ele me tocou, mas meu corpo sequer reagiu. Tentamos, mas não chegamos nem nas preliminares. – Riu-se. – Ele foi embora pouco tempo depois, de manhã. Eu dei um selinho nele como forma de agradecimento. Foi isso que você viu?
— Bom, sim, mas–
— "Mas", nada. Eu realmente queria ficar aqui e esclarecer as coisas da melhor forma possível com você. Mas eu vou acabar perdendo o voo se não for agora! Sem contar que o Joe vai arrancar os meus preciosos cabelos se eu demorar mais. Já se esgotaram os nossos cinco minutos. – Ele riu e, agora, não pude deixar de rir junto. – Fique tranquilo e me espere! Assim que eu resolver as coisas lá, vou ligar pra você. Quando eu o fizer, já vou ter a data de retorno programada.
Assenti. Me senti um idiota completo por ter me preocupado tanto e também, por ter duvidado dele. Tudo o que eu estava fazendo desde que voltamos à nos falar, era brigar, enquanto ele... Ele sempre sorria pra mim e contornava a situação com facilidade. De fato, ele era a única pessoa no mundo que conseguia me acalmar e calar a porra da minha boca... Mostrar que eu não tenho razão. Suspirei. Antes que ele saísse, o puxei pelo braço, trazendo-o pra mim. O abracei enquanto cochichava um "Só mais um minutinho, ok?", que fez ele rir.
— Me desculpe por duvidar de você e deixar a sua cabeça, um caos. Tenha uma boa viagem! – Ditei em voz baixa.
Seu corpo contorceu-se um pouco afim de determinar uma pequena distância entre nós. Seu rosto voltou-se ao meu e logo os nossos lábios se juntaram num selo. Lambi seus lábios que logo se partiram, acolhendo minha língua ansiosamente, dando início a um beijo feroz. Nossas línguas se roçavam em total desespero e necessidade. Pude sentir Kise estremecer em resposta ao contato, o que quase me deixou inconsciente da situação. Chupei sua língua demoradamente, dando fim ao beijo.
Assim que nossos rostos se separaram, encontrei uma cara totalmente avermelhada e uma expressão desnorteada à minha frente que me fez rir em total diversão. Ele piscou algumas vezes, dando um tapa fraco no meu ombro, então beijei-lhe a testa carinhosamente.
— Anda logo e me deixa ir! – Pediu num fio de voz.
— Certo, certo... – Voltei a beijar-lhe a testa. – Eu amo você.
Um largo sorriso abriu-se naquele rosto ao que proferi tais palavras. Seus olhos se fecharam enquanto me puxava para um último abraço que, infelizmente, não foi tão longo quanto ambos gostaríamos.
— Koishiteru*, 'Minecchi. – Exclamou, para após depositar-me um selo rápido nos lábios e se afastar.
O observei andar até a porta, abri-la e parar por alguns instantes antes de sair pela mesma. Ele me olhou por cima do ombro, recebendo um aceno meu, então assentiu enquanto sorria e logo saiu pela porta que fechou-se em suas costas, deixando-me ali, sozinho com meus pensamentos.
"Até logo."
{Continua...}
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