Remember The Urge
1 Kai
Notas iniciais
Onze anos de banda e eu ainda me lembro de como começamos... Ainda me lembro de sentir a incerteza e o frio das noites mal dormidas... Ainda me lembro de como nossa união foi essencial para atravessarmos os desafios...
Cada novo dia em que eu pude acordar e dizer a mim mesmo diante do espelho “eu sou o Kai do the GazettE” foi uma verdadeira vitória... Porque essa passou a ser a imagem que eu fazia de mim mesmo quando me olhava... Eu não saberia lidar com a situação caso um dia essa imagem desaparecesse...
Mais do que Uke Yutaka, eu era o líder do the GazettE e algumas vezes eu nem sabia o por que... Eu nem sempre sabia responder por que eu tinha sido escolhido para ser o líder, o porta-voz da banda... Eu não era o mais velho, eu não era o idealizador, eu só os tinha conhecido quando o the GazettE já tinha se formado... Eu não era o baterista da formação original, eu não era o mais centrado nem o mais responsável de nós cinco... No entanto, nenhum deles jamais questionou (a não ser por brincadeira) que eu era o líder!
A verdade é que eu sentia um imenso orgulho de ser líder de uma das maiores e mais promissoras bandas do Japão! Um orgulho quase paternal de ser líder de uma banda que só me trazia felicidades! Claro que o trabalho era duro e nós arregaçávamos as mangas e colocávamos a mão na massa de verdade! Mas fazíamos isso juntos e com gosto! Porque a cada novo trabalho finalizado era um sentimento sublime de dever cumprido! E cada novo trabalho finalizado significava um recomeço do zero para o próximo! Era o nosso segredo para mantermos os pés no chão e a qualidade das músicas!
Quando eu decidi que queria ser músico, eu ainda tinha a visão ingênua e juvenil de que eu poderia tocar bateria despreocupadamente e não teria de me prender a responsabilidades... Poderia me manter apenas na música sem me preocupar com mais nada! Acho que essa é a imagem que todo mundo tem quando é adolescente e decide que quer ser músico... Por isso mesmo que são poucas dessas pessoas que vão atrás de realizarem esse sonho...
Mas ser músico acabava sendo uma profissão como qualquer outra... Talvez nós tivéssemos de sacrificar até mais do que as outras pessoas pela escolha que fizemos... Se a música não nos bastasse, não conseguiríamos ir tão longe...
A cada novo aniversário que podíamos comemorar juntos, em cima do palco, com nossos fãs, eu olhava para o alto, sem ver verdadeiramente nada, com os olhos transbordando de lágrimas e agradecia imensamente pela sorte que tínhamos!
Agradecia por nosso sonho ter se realizado e por ajudarmos a criar cada vez mais sonhos com ele! Agradecia por ter encontrado aqueles amigos que faziam tudo valer à pena! Agradecia por existirem vidas que salvamos com nossa música! E por nunca nos esquecermos de onde viemos e quem somos!
Existia muita gratidão transbordando em mim quando nós completávamos mais um ano de banda... Porque tudo o que eu tinha conquistado desde então ao lado daqueles bons amigos tinha sido muito mais do que o adolescente de Tokushima poderia ter sonhado...
— Pronto pra entrar no palco, Kai-san? – Mariana brincou, abrindo a porta do camarim e eu olhei para o seu lindo reflexo no espelho diante de mim, já com um sorriso nos lábios antes mesmo de me virar para vê-la verdadeiramente.
— Nunca estou pronto antes de me sentar na bateria! – me levantei da cadeira giratória que o maquiador nos fazia sentar antes de todas as apresentações e caminhei até ela, prendendo sua cintura esbelta com meus braços, impedindo-a de se afastar mesmo que soubesse que ela não tentaria fazê-lo, puxando seu corpo para o meu, carinhosamente.
Mariana sorriu o lindo sorriso que acabara com a minha solidão no dia em que nos conhecemos, no dia em que eu me apaixonei perdidamente por ela e desejei que ela pudesse me amar da mesma forma. Seus braços me envolveram como costumavam fazer desde então, me prendendo nela como eu queria ficar pelo resto de minha vida!
— O que foi? – eu perguntei, quebrando o silêncio depois de termos ficado absortos nele e em nós mesmos por um longo tempo e ela me encarava sorrindo. Eu poderia viver apenas do sorriso de Mariana, sem precisar de mais nada, porque foi ele que fez com que eu entregasse meu velho coração solitário e maltratado aos cuidados dela de início... Mas eu tinha me apaixonado tanto por todos os outros mínimos detalhes dela, sua voz, seu perfume, seus olhos... Que também não sabia se viveria sem tê-los acompanhando o sorriso...
— Eu tenho tanto orgulho de você, sabia? – ela disse com sua voz suave e eu sorri, sentindo meu rosto queimar. Como era bom ter alguém que sentisse orgulho de mim daquela maneira... Que pudesse estar ao meu lado e compartilhar daquele sentimento como eu podia ter Mariana...
— E eu sou verdadeiramente grato por ter você ao meu lado, sabia? – fui capaz de dizer em meio ao meu constrangimento e ela abaixou o rosto, lindamente envergonhada, e beijou meu peito.
— Vamos! – ela disse de repente e eu senti que não importava o que eu devia fazer, não gostava de não tê-la em meus braços... – Eu não posso ser responsável pelo atraso do baterista com o sorriso de covinhas mais lindo do mundo!
— Que exagero! – revirei os olhos, seguindo-a ainda com minha mão presa à dela.
— Suas fãs são capazes de me matar, sabia? – ela brincou, mas nós dois tínhamos medo de algumas fãs do the GazettE descobrirem nós dois de uma maneira ruim...
— Que horror! Como consegue namorar com alguém que a coloque nesse tipo de perigo? – eu também brinquei e Mariana revirou seus olhos de maneira graciosa, puxando meu rosto de encontro ao seu e selando nossos lábios rapidamente.
— Você vale muito a pena!
Eu sorri e nós voltamos a caminhar... Era hora de o show começar!
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