/Restaurante da universidade, uns minutos mais tarde

Bruno, Ulrich e Odd se sentam em uma mesa à janela do refeitório. Bruno se senta de um lado, de frente pros dois.

O: Bruno você, não é?

U: Odd, dissemos o nome dele umas três ou quatro vezes no caminho pra cá.

Bruno faz que sim, pegando o garfo.

O: Você deveria provar o purê de batata daqui, é uma delícia! /Ele enfia um garfo cheio na boca, e passa a falar de boca cheia./ Melhor que o de onde a gente estudava! Ulrich, vai comer isso aí?

U: Já quer me deixar sem almoço? Sossega aí, não é porque eu não devorei a minha comida de uma vez que eu não vou comer.

Bruno observa os dois quieto, e dá uma garfada tímida no purê, aparentemente normal. Amarelo, pastoso e meio seco. Ele põe o garfo na boca, e faz uma expressão não muito agradada. Odd, especialista em comida — ou pelo menos viciado em comida, estranha a reação do estrangeiro.

O: Ei, algo errado com o seu purê? /Preocupado, mas meio ansioso pela chance de ter uma porção extra./

B: Sim, não tem gosto nenhum. /Ele dá outra garfada, pra ter certeza de que ele só não havia tido sorte com a anterior. Nada mudou./ Eu mal sinto o gosto da batata, eles lembraram de temperar isso?

Odd olha pra Bruno como se ele tivesse duas cabeças. Como alguém poderia não gostar daquela maravilha? Enquanto isso, Bruno levanta e vai atrás de sal, e na volta à mesa, procede a rasgar alguns sachês e esvaziá-los no prato. Como alguém poderia macular aquela delícia jogando sal e pimenta daquele jeito?

Ulrich, por sua vez, parece curioso.

U: Você não gosta de purê?

B: Adoro purê de batata, mas não rola de comer assim, ne. Ta sem gosto nenhum. /Bruno mistura o tempero na comida, e dá uma garfada de teste. A expressão dele melhora./ Bem melhor, agora.

Bruno começa a comer, torcendo menos o nariz. Ulrich olha pra pilha de sachês de sal e pimenta jogados na mesa, assustado, e olha de volta pra Bruno, comendo como se nada tivesse acontecido.

U: A comida de onde você vem é tão temperada assim?

B: Eu não sei o que quer dizer com “tão temperada assim”.

U: Digo… Com esse tanto de sal e pimenta?

B: Nem sempre, mas com certeza tem muito mais gosto do que isso, sempre.

Bruno olha ao redor, e trava o olhar em algo atrás de Ulrich, na fila do almoço. Ulrich olha pra Bruno, estranhando.

U: Algo errado?

B: Nada, alguém me chamou a atenção, só isso.

A deixa perfeita pra Odd zoar. Os olhos dele chegaram a brilhar.

O: Aaaaaah, mal chegou e já quer pegar as nossas garotas, ne? /sorrindo/ Se quiser umas dicas, é só colar no Odd, o magnífico aqui.

Ele bate uma mão no peito, com ar altivo. Ulrich rastreia o foco do olhar de Bruno, até se deparar com um tom rosa na cabeça de uma garota. Então, ele chama a atenção de Odd pro mesmo lugar que Bruno está olhando.

U: Se liga ô “magnífico”, é a Aelita. /Odd olha./ Eles podiam vir almoçar com a gente, ne. Ei, aqui!

Ulrich acena pra Aelita, o ponto rosa em questão. Na verdade, o “ponto rosa em questão” corresponde ao cabelo dela; curto, ondulado e rosa o suficiente pra chamar atenção num refeitório lotado na hora do almoço. Ao lado dela, Jeremie, loiro como sempre. Bruno fala pra Odd, enquanto Ulrich acena.

B: Vocês conhecem ela?

O: E se conhecemos! Nós estudamos com ela até antes da faculdade. Ela é gata mesmo, ne?

Ulrich interrompe.

U: Mas nem tenta, ela tem namorado. Ta vendo o loiro do lado dela? Então, é o Jeremie. Namorado dela.

B: Eles não parecem muito ser namorados. /Ele analisa Jeremie, que se aproxima da mesa./ Ele ta até emburrado.

U: Ele é assim mesmo. Ele não é a pessoa mais sociável do mundo… Não sei nem como ele fala com a gente.

O: Ele fala comigo, e olha que eu já beijei a Aelita…

Bruno olha relativamente surpreso pra Odd.

U: Mas também, você pediu pra ele. Queria ver se você tivesse beijado ela sem ele saber.

Jeremie se senta numa cadeira vazia ao lado de Bruno. Aelita se senta de frente pra Jeremie, sorrindo brilhantemente.

A: Oi, meninos! /sorrindo/ Do que estão falando?

U: Nada de mais, estamos apresentando o novato à vida daqui. /Ele aponta pra Bruno, que acena./ Esse é Bruno, chegou hoje na faculdade.

B: /timidamente/ Ahn, olá…

A: Oi! /ela imita o gesto tímido dele/ Eu me chamo Aelita, Aelita Sch… Stones.

Jeremie percebe a hesitação de Aelita em falar seu sobrenome, e olha pra Bruno, esperando que ele não pareça surpreso. Felizmente, ele parece não ter percebido, ou estar absolutamente desinteressado no que aquilo poderia significar.

Fato é que Stones não é o sobrenome real de Aelita: Schaeffer é. Stones foi só o nome que ela e Jeremie combinaram na hora de falsificar a papelada da matrícula dela na escola, anos atrás. Uma escola chamada Kadic, onde Ulrich e Odd também estudavam. E volta e meia, Aelita ainda confunde os dois.

B: Aelita… Não é um nome comum de onde eu venho. Eu me chamo Bruno, como eles disseram.

J: Eu me chamo Jeremie. /Ele vira pra Bruno, e estende a mão. Bruno a aperta./ Somos do curso de engenharia eletrônica. Eu e a Aelita. O Ulrich é do Direito e o Odd é de cênicas.

Bruno ri discretamente. O Odd tem mesmo toda a cara de quem faz cênicas, ou pelo menos do estereótipo de quem faz cênicas: cabelo estranho, roupa mais estranha ainda e jeito desleixado/despreocupado. Mas considerando o gosto que ele sempre teve por arte em geral, especialmente montagens em vídeo, ele entrar pra algo como artes cênicas era mais que esperado.

Entretanto, era completamente inesperado que alguém como Ulrich entrasse pra Direito. Tímido, e com as notas que ele tinha na escola, era esperado que ele nem sequer conseguisse entrar pra uma faculdade. Quem dirá pra de Direito. E mesmo que ele tivesse boas notas, era de se esperar que ele escolhesse qualquer coisa, exceto uma profissão próxima da do pai dele, o CEO de uma grande empresa alemã. Mas cá está ele, um aluno de Direito. E um bom, inclusive.

Aelita parece interessada no novato. É uma boa variação falar com alguém diferente, de vez em quando.

A: E de onde você vem?

B: Do outro lado do Atlântico. /Ele diz, e bebe um pouco do refrigerante que ele comprou numa vending machine./ A umas boas horas de vôo daqui.

Ulrich não gosta muito do mistério que Bruno está fazendo. Ele não entende…

U: Ele vem do Brasil. Você sabe, sam--

Bruno olha pra Ulrich com olhar assassino, ainda bebendo. Ulrich para de falar, e olha de volta pra Bruno, sem entender o que se passa. Aelita olha pros dois, sem entender a causa do olhar do Bruno.

J: O que foi? Algum problema? Não gosta de suas origens?

Bruno põe a garrafa, vazia até a metade, na mesa.

B: Eu amo as minhas origens, por isso mesmo. Tem tanta coisa boa vinda de lá, não é legal ver isso reduzido a um punhado de estereótipos, sabe?

Aelita assente com a cabeça, e faz uma pergunta, sorrindo inocentemente.

A: Você veio do Rio?

Bruno vira os olhos discretamente. Jeremie olha confuso.

B: … Como esse. Mas sim, por acaso, eu vim de lá.

U: Não entendi, qual é o problema de ela ter te perguntado se você veio do Rio?

B: O problema é que todo mundo que eu já vi de estrangeiro tem costume de perguntar se uma pessoa do Brasil veio de três lugares: Rio, São Paulo ou Buenos Aires.

Odd parece completamente desentendido.

O: E qual é o problema? Eu não entendi…

Jeremie olha pra mesa, com cara de derrotado. Bruno imita o gesto. Ulrich parece confuso, Odd parece só ligar pra comida e Aelita continua expressando uma curiosidade felina no rosto.

J: O problema, Odd, é que Buenos Aires é a capital da Argentina…

U: Que tem uma rivalidade histórica com o Brasil no futebol…

Bruno olha pros dois, e concorda.

B: Exatamente.

Odd não parece ter entendido muita coisa.

O: Então você também não tem um macaco de estimação?

Bruno suspira, irritado. Ulrich e Aelita olham preocupados pra ele.

B: /desanimado/ Pater, dimitte illis, non enim sciunt quid faciunt.

J: Perdão, disse algo?

U: Isso é latim. “Pai, perdoa essas pessoas, elas não sabem o que fazem”.

A: Desde quando você fala latim, Ulrich?

B: É parte da profissão de advogado aprender latim.

De fato, e Ulrich era bom com línguas. Muito. Mesmo negando a habilidade, ele é fluente em alemão, latim, russo e italiano.

U: Sim, é isso aí.

A: E você ainda ta tentando aprender japonês?

Ah, mas uma língua fazia ele falhar miseravelmente: o japonês. Segundo ele, a língua do amor, graças a uma certa pessoa…

Ulrich fica arredio.

U: Não, deveria? Eu não tenho o menor motivo pra aprender agora…

Bruno observa Ulrich puxar o time pra retranca, e estranha.

B: Ele tem algo contra japonês?

J: Não... Um dia ele te explica, se você conseguir quebrar a concha dele.

Bruno revira os olhos.