Relicário Infernal
2 Hora do lanche, quer dizer treino
Notas iniciais
Nicole abriu a porta da sala de treinamento. E Felipe distraído com seu biscoito não viu a faca pquena que voou e prendeu seu pacote de biscoitos na parede. Ele olhou para o biscoito na parede, e com o pacote ainda preso na parede pegou um biscoito e sorriu para Justine que olhava sério para os dois.
–E, nove minutos e trinta segundos. Pontuais.
–Está ótima de pontaria Justine. -Nicole disse apontando para o pacote preso na parede.
–Concordo. -Felipe fitava o pacote- Vamos treinar que estou morrendo de fome.
–Você estava comendo -Justine disse rígida entregando duas espadas para eles.
–Estava, você falou bem. Estava comendo até você atirar uma arma mortifera no pobre pacote.
–Precisa controlar o peso Felipe, se não vai ficar fora de forma. -ela sorriu pela primeira vez no dia.
–O que? Para que? Quando eu tenho tudo isso. -ele flexionou os músculos e Nicole disfarçou o olhar.
–Que seja. Podem começar. Vocês tem que estar preparados para hoje a noite.
–Ah não. Vamos cobrir eles novamente? -Nicole perguntou.
Eles cobrirão os pais na noite anterior, tiveram trabalho dobrado já que só tinham os três que podiam ir caçar no Instituto. O Instituto estava em desvantagem, o número de demônios do Rio de Janeiro tinha aumentado.
–Sim. Não reclamem vocês ficam com a parte mais fácil. -Justine suspirou já impaciente.
–Mais fácil? Qual a parte fácil de um luau com dois demônios Hydra? -Nicole disse.
–Não esqueça do Drevak que nos atacou quando estávamos vindo para cá. -Felipe lembrou.
–Crianças. -ela quase sorriu, parecia se divertir- Chega de drama, vocês não virão nada. Fazem drama porque não estiveram na Guerra Mortal. -seu sorriso congelou- Agora chega.
Felipe pegou sua espada e entregou a outra para Nicole. Justine ficou sentada narrando os passos e dizendo quais os erros dos dois. "Não abaixe a guarda", "mantenha a defesa", "observar o ponto fraco" e por fim "um, você esta melhor Nicole"
O rosto de Felipe pingava suor, ele sempre dizia que a altura de Nicole não interferia na habilidade dela. Ela não era boa em confronto armado quando chegou mas logo, com bastante treinamento ficou ótima em desarmar.
Os dois sempre tinham aulas juntos, tanto as aulas de luta como as de idiomas. Ambos sabiam falar latim. Era sua segunda língua. E o inglês aprenderam por convivio com Justine, que morou a vida inteira em Alicante; única cidade de Íris.
–Acho que podemos terminar o treino por hoje. Vocês precisam descansar. E eu também, já que vamos caçar hoje.
–Eles ainda não podem voltar? -Nicole perguntou bebendo apressadamente a garrafa de água.
–Ainda não. Os assuntos da Clave são complicados.
–O que a Clave acha que está acontecendo?
Justine respirou fundo, como se tivesse pensando se devia contar para seus dois pupilos os assuntos da maioridade. Porém Felipe já havia atingido a maior idade. E Nicole, Nicole parecia mais velha que o próprio Felipe.
–A Consulesa Jia ainda não pode tomar uma decisão se o Conselho continuar dividido como está. Alguns concordam que não é normal a vinda de tantos demônios para o sudeste brasileiro. -ela fez uma pausa, e Nicole se perguntou se ela também queria estar lá- Mas outros... hipócritas — ela acrescentou- acham que é apenas um assunto normal e que tem mais o que se preocupar com os assuntos do Povo das Fadas.
–Estamos sozinhos. -Nicole complementou.
Justine apenas concordou com a cabeça, com os cinzentos olhos tristes. Nicole se perguntava se ela sentia saudades de Alicante; a Cidade de Vidro.
–Seria bom se nós mandassem reforços, sabe. Se fizessem isso já estava bom. -Felipe disse deslizando os dedos pela espada na mão.
–Não é assim tão simples Felipe. Não são apenas alguns demônios a mais. É como se...
–Se eles estivessem imigrando para cá? Você acha mesmo? -Felipe perguntou.
–Acho que sim, mas...
–Mas eles querem pegar um sol na praia de Copacabana? Ah. Qual é Justine. -Nicole revirou os olhos.
–... não acho que deva ser apenas isso. -ela olhou incrédula para Nicole- Parem de completar minhas frases.
–Desculpa. Mas o que você quer dizer com "apenas isso"? -Nicole perguntou, já tinha bebido duas garrafas de água.
–Acho, que talvez estejam sendo atraídos aqui por alguém, ou talvez alguma coisa. Só não sei o quê.
Felipe ficou completamente em silêncio. E quando as duas iriam checar sua pulsação para ver se ele ainda estava vivo ele disse.
–Nós podemos investigar. Tipo Sherlok.
–Não podemos chegar para um demônio e perguntar porque tantos demônios estão vindo passar férias no Rio de uma só vez. -Nicole disse.
–Não custa tentar. Você sabe que não podemos deixa-los por ai. Tem que haver um fundamento. -as duas olharam sérias para ele- Porque tenho certeza que não vieram de férias para cá só para ver o Cristo. -ele fez uma careta.
–Bravo Sherlok. -Nicole riu e jogou a garrafa de água para ele.
–Crianças, vou a biblioteca. Preciso ligar para Ídris para saber como as coisas estão indo. Vejo você mais tarde. Vou pedir a Maria para fazer alguma coisa para vocês comerem. Não vou poder jantar com vocês.
–O que você vai fazeri? -Nicole perguntou virando-se para trás para ver Justine na porta.
–Preciso de informações. Eu digo se descobrir algo.
Nicole concordou com a cabeça e a porta bateu atrás de Justine.
Pela janela ela via que o céu estava laranja escuro, estava escurecendo. E logo iriam sair novamente. Eles precisavam de seus pais. Estava ficando mais dificil cada dia lidar com tantos demônios imigrando para o Rio. Não estavam conseguindo dar conta de tantos.
–Tá pensando no que Nick? -Felipe perguntou apoiando suas pesadas botas em cima da cadeira onde Justine estava sentada.
–Precisamos dos nossos pais.
Felipe concordou com a cabeça.
–Cada dia encontramos mais. Isso não pode ser normal. Precisa ter um motivo e nós precisamos encontra-lo.
–Você tem razão. E nós vamos. E depois vamos acabar com o que seja esse motivo. Então tudo vai ficar bem como antes. -ele riu sozinho, o "bem" dos caçadores das sombras não era exatamente "bem"- Ah, você me entendeu.
–Assim espero. -ela sorriu para ele.
Ele sorriu de volta e o coração de Nicole quase parou. Quando se gosta de alguém desse modo, até a respiração da pessoa já te deixa em um pré-infarte.
Estavam sozinhos na sala. Será que estava na hora de arriscar? Qual seria o pior resultado? Ele dizer não? Ele parar de falar com ela? Não isso nunca. Ela iria esperar o momento dele.
Ele checou seu relógio de pulso e disse.
–Acho melhor encontrar Maria, depois temos que ir.
–Ah. Claro, vamos lá.
Ela deixou a espada pendurada na parede onde era o lugar de costume e se digeriu a porta e notou que Felipe não estava ao seu lado.
–Pelo Anjo, o que você está...
Ele tirou a faca do pacote e a jogou no chão. Pegou outro biscoito e sorriu para ela.
–Lanchinho.
Nicole riu e os dois saíram juntos da sala de treinamento. Felipe jogou o farelo do biscoito nos cabelos negros dela. E se dirigiram para a cozinha.
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