Relatos do fim do mundo
1 telefonemas confusos
Notas iniciais
20 dias antes do início.
1 de Dezembro de 2012
O telefone tocava, e ao ouvir o seu soar fui atendê-lo.
— Alô.
— Oi, Davi, como estão as coisas aí em casa?
— Oi pai, está tudo como de costume, a vovó implicando comigo como sempre. E por aí, como você e a mãe estão?
Ouço risos do meu pai no outro lado da linha.
- Que bom, meu filho, estamos bem, liguei só para saber se estava tudo nos conformes e para avisar que esse ano vamos poder passar o natal juntos.
Havia algo estranho, meus pais eram ocupados demais, passar o natal junto deles era algo que eu não esperava.
- Jura? Disse surpreso ao telefone. Que bom ,pai, então vou aproveitar e sair para comprar os presentes, a mãe também vai vir?
- Sim, sim, voltamos no dia 18.
- Ótimo! Já estava com saudade de vocês, afinal, não nos vemos desde maio.
— Eu sei, peço desculpas pela nossa ausência, mas você sabe como é: os nossos trabalhos. Temos coisas pra fazer a todo o momento.
Realmente, meus pais eram as pessoas mais ocupadas que eu conhecia.
- Sei sim, pai, não se preocupe. O que importa é que vamos ter um tempo para passar juntos.
- É, verdade. Bem, filho, tenho que desligar preciso voltar ao trabalho, sua mãe está aqui e mandou um beijo. Aaah, ela falou que quando ela chegar quer ver o seu cabelo cortado heim.
Ouvia novamente a risada do meu pai pelo telefone.
- Mande outro beijo pra ela, e fala para ela ir sonhando porque eu não vou cortar meu cabelo.
1 dia antes do início
20 de Dezembro de 2012
Os dias demoraram a passar e eu, mesmo que não demonstrasse, estava ansioso para ver os meus pais. Além do fato de hoje já ser dia 20 e eles disseram que viriam dia 18. Eu estava esperando uma ligação deles ao menos para dizer que estavam atrasados por causa do trabalho, ou sei lá, dizerem que realmente não poderiam vir. Não deu outra, o telefone tocou e era meu pai.
- Alô.
— Davi é você, meu filho?
Meu pai estava estranho, ele estava eufórico, falava rapidamente e com uma voz trêmula.
— Sim pai sou eu, porque toda essa euforia, o que se passa?
— Filho aconteceu um grande imprevisto, sua mãe e eu não vamos poder voltar para casa nesse natal.
Não fiquei em choque ao receber a notícia, afinal eu já esperava por isso talvez por já estar acostumado em passar o natal todo ano somente com minha avó. Mas eu precisava de mais detalhes.
— Pai explique-se melhor, o que esta acontecendo. E, que barulheira é essa?
— Filho, não tenho tempo para te explicar agora apenas me escute. Faça o seguinte: vá até o mercado e compre mantimentos que sejam suficientes para passar 1 mês, depois de ter feito isso não saia de casa em hipótese alguma e não abra a porta, nunca. Para ninguém.
Aquilo estava me preocupando, meu pai estava falando no telefone com um tom de seriedade.
— PAI. Falei em um tom exaltado. O que está acontecendo, por que tamanho desespero? Você precisa me dizer o porquê disso.
De repente ouvi um barulho estranho na ligação. AAAAAAHHHHHH!!!! Bam, Bam. Aquilo haviam sido tiros, o que estava acontecendo que meu pai não queria me contar?
— Pai que barulhos foram esses, foram tiros? E aquele grito?! Pai, o que está havendo?
- Davi, papai e mamãe te amam. Não importa o que aconteça, nós te amamos muito.
— Pai o que você esta falando? Parece estar chorando. Pai, pai?
A ligação caiu. Eu estava preocupado, o que havia acontecido. Meus pais estavam bem?
-
Não entendi aquela ligação, meu pai não falou nada com nada. Ele estava parecendo sério, mas não consigo entender o que se passou. Já comprei a comida como ele disse e algumas coisas básicas para higiene, mas o que eu não parava de me perguntar era, pra que tanta comida?
Bem, não adianta ficar me preocupando com essas coisas, deve ter sido mais uma tentativa de invasão ao laboratório onde eles trabalham e o motivo de mandarem eu não sair de casa é para que não possa ser sequestrado, fora que ele sempre me mandava não sair de casa. É isso tem sentido. Nesse caso vou voltar ao meu treino de Kendô e depois vou partir para o Ninjutsu, se bem que estou mais para Parkour hoje...
-
O dia em que o mundo acabou
21 de Dezembro de 2012.
Não dormi bem essa noite, para falar a verdade, não dormi quase nada, estava muito quente para eu poder dormir e acho que no fundo eu estava querendo saber qual o motivo daquela ligação do meu pai, afinal eu tenho o mal habito de querer entender tudo a minha volta. Passei a noite lendo e ouvindo música para passar o tempo.
Esse tédio constante me irrita, as coisas nunca mudam, são tão previsíveis. Às vezes gostaria que acontecesse algo que mudasse o rumo da história, algo que pudesse me tirar desse tédio.
Trim trim.
— Alô.
— Davi? É você?
— Sou eu sim, quem é?
— É o Matheus cara, preciso falar urgente com você.
Matheus é o meu melhor amigo e sua voz estava irreconhecível no telefone.
— Mat, o que aconteceu?
— Davi, não temos tempo para conversar por telefone. Encontre-me no Mausoléu no centro da cidade.
— Mat, me diz o que aconteceu!? Já não bastava meu pai não ter me dado detalhes sobre o que havia acontecido e hoje recebo esse telefonema do meu amigo sobre algo que ele também não queria falar pelo telefone, o que estava acontecendo? Um complô para me deixar curioso e me surpreenderem com algo no natal?
- O povo do acampamento, eles começaram a se devorar, pelo menos 80% deles estão mortos agora, tudo por causa de um bando de mendigos canibais. Estou assustado, acabei de roubar o carro de um monitor e estou voltando para a casa.
— Mat, pelo amor de deus, mendigos canibais agora? Você se drogou cara? Ta ficando louco? Anda vendo desenho de mais heim?! Fora que se isso aconteceu, como você escapou deles?
Não estava acreditando no que Mat estava dizendo, na verdade não achei que isso fosse provável de forma alguma.
— Eu peguei um taco de baseball e sai abrindo caminho, eu acho que matei alguém. Davi socorro cara, você precisa me ajudar, estou em pânico.
- Mat, você não mataria nem uma mosca, quando você cansar de passar trote para os seus amiguinhos do acampamento ficarem rindo dos outros, você vem falar comigo, ok?
Desliguei na cara dele. Não esperava isso do Mat, sempre achei que fôssemos amigos, mas agora ele vem me zoar pra fazer os amigos dele rirem? Garoto idiota. Quer saber, vou dar uma volta por aí, passar o tempo e ver se mato o tédio.
Andando pelas redondezas começo a reparar que a cidade estava um caos, muito barulho. Pessoas gritando em tom de desespero, tiros, barulho de carros batendo, quando de repente vejo um policial atirar em uma criança. Que porra foi aquela? Pensei comigo.
Fui falar com o policial, ele parecia em pânico, chorava e estava com um pedaço do braço faltando. Ele segurava a arma tremendo, certamente iria atirar e eu não ia deixa-lo fazer isso então reagi. Bati por baixo de suas mãos de forma que se desviava o foco da arma, então ele disparou, empurrei seu braço para baixo e depois puxei em minha direção fazendo ele se desequilibrar; entortei seu braço direito para trás e empurrei seu tronco para frente fazendo com que ele se ajoelhasse.
Apoiei o meu joelho em suas costas e bati em sua mão fazendo com que ele soltasse a arma, foi um movimento rápido, não durou mais que 5 segundos. Provavelmente seria preso depois daquilo, mas foi apenas legitima defesa.
Ele começou a se debater quando percebi que a criança que ele acabava de atirar estava viva com um tiro atravessando sua jugular, toda ensanguentada e com um machucado semelhante a do braço do policial em sua perna, não entendi o que estava acontecendo. Ela pulou como um animal em nossa direção. No mesmo instante soltei o policial, pulei para trás e vi aquela imagem utópica, a criança começou a devorar o policial, como se fosse um leão, eu vi as vísceras do policial e só o que fiz foi me afastar calmamente. Eu era frio de mais para chocar com aquilo.
Voltei para casa. Precisava de um banho gelado, afinal, não havia entendido nada do que acontecera e ainda estava um calor insuportável. Na volta, uma pessoa imunda com roupas rasgadas estava vindo em minha direção, pensei ser um mendigo e fui logo falando que não tinha dinheiro, quando em questões de segundos ele pulou, desviei esquivando-me para a esquerda, colocando um pé na frente e o empurrando em direção ao chão. Imobilizei-o no mas ele se debatia, não tentava se erguer usando os braços, apenas ficava raspando as unhas no chão, emitindo um som que me lembrava o rosnado de um cão de rua e virando a cabeça de um lado para o outro como se tentasse me morder. Admito ter ficado meio assustado, melhor dizendo, impressionado.
Soltei-o rapidamente e me afastei, senão correria o risco de que ele me machucasse pois não sairíamos daquela posição. Ele levantou e partiu em minha direção, chutei seu rosto de uma forma que ele caiu no chão com o pescoço torcido, que pelo barulho, acredito que havia quebrado. Fiquei um tanto preocupado, mas não me sentia culpado, apenas estava me defendendo. Quando olho para o lado, ele havia levantado e o seu pescoço estava mole, de fato tinha se quebrado com meu chute, mas ele se levantou mesmo assim. Como isso era possível, como?
Comecei a mandar ele se afastar, o que não parecia surtir efeito já que ele avançava incansavelmente. Não tinha outro jeito, era ele ou eu. Esquivei com um movimento de arrasto de pé, típico do kendô, acertando um soco seco (que basicamente é só um impacto, não tem aquele movimento todo de um soco de Boxe, é uma mistura entre o movimento de seus pés e tronco esticando o braço que une a força de seu corpo como um todo, usado para afastar e retardar adversários no ninjutsu e em algumas outras artes marciais), dei o soco direcionando a seu queixo, se seu pescoço já estava fraturado aquilo certamente o destruiria de vez. E foi o que aconteceu. Seu pescoço ficou mole como se não tivesse ossos, mas mesmo assim ele continuou a se mexer e vir em minha direção.
Agora sim eu estava assustado, sua cabeça estava nitidamente pendurada, ela estava na diagonal. Que diabos ele fazia de pé? Vi um cabo de vassoura velho jogado no chão, peguei e o ameacei , mandando se afastar, mas ele não me ouvia, ele estava louco parecia um animal enfurecido. Ele não hesitou nem por um segundo então me armei, posicionei-me em posição de combate (posição de cavalgada do kendô) e quando se aproximou acertei com toda minha força sua costela, ele caiu para o lado. O cabo havia se partido e era impossível que eu não tivesse fraturado suas costelas, eu era campeão nacional de kendô. Até mesmo com as roupas de proteção do kendô eu já havia fraturado a costela de um adversário em um treino mas, ele levantou mais uma vez como se nada tivesse acontecido. Aquele homem/animal era imortal? Ele não sentia dor?
Eu estava confuso e desnorteado, o medo já havia passado, eu não entendia o que estava acontecendo, quando ele me atacou mais uma vez não teve jeito, perfurei seu olho direito com o resto do cabo que estava em minha mão. A perfusão foi tão profunda que era visível a perfusão em seu cérebro. Recuei esperando ele se levantar, mas nada, ele não se levantou mais.
Eu estava imundo de sangue, corri para casa para me arrumar antes que alguém me visse daquele jeito e eu acabasse sendo preso por ter matado o mendigo e provavelmente seria acusado por ter matado o policial também.
Chegando em casa minha avó não estava lá, devia ter saído para falar com suas amigas. Ainda bem, pelo menos assim ela não me veria naquele estado. Enquanto eu tomava banho, me lembrava do que Mat tinha falado por telefone. Mendigos atacando... Será que ele falava a verdade? O que será que estava acontecendo? Eu certamente iria ao Mausoléu encontrá-lo. Eu tinha que ver ele com meus próprios olhos e tirar essa história a limpo.
Fale com o autor