Relatos do Cotidiano - Parte 3: Velhas Cicatrizes
2 O primeiro trabalho
Apesar de não parecer, estamos na terça-feira, ou seja, no dia seguinte daquele capítulo que vocês leram. Começando o dia com o pé direito é muito essencial, afinal, queremos ser receptivos durante do resto do dia com as pessoas, ou a maioria delas. Como eu disse em uma pequena oração de nada, é meio impossível uma pessoa acordar alegre e sorrindo, ainda mais se o sol mal despontou completamente no horizonte, mas existem exceções para tudo nessa vida e uma delas é meu pai, que acorda sempre alegre, nos atazanando com aquelas piadinhas que apenas pais e filhos aguentam – explicação é bem óbvia, né?
No entanto, aquele dia foi diferente. Meu pai, Rodrigo, estava bem cabisbaixo, como se ele não tivesse mais aquela alegria que o carregava pelas manhãs quase sem luz solar. Estava quieto e apreensivo, assim como minha mãe, Catarina. Eu só não sabia se a cara dela era disso ou de cansaço, assim como minha irmã, Beatriz, que acordava em um humor três vezes pior que o de qualquer pessoa. Os "Bom dia" eram secos e sonolentos, nem se bebesse um copo com água para melhorar aquilo. Permanecíamos naquele silêncio até o instante de irmos para a aula.
Tchau para lá, até logo para cá, um vá com Deus e boa manhã de complemento e eu seguia para o ensino médio e minha irmã para o ensino fundamental dois. Lá, eu notava a popularidade dela, pois conversava com todos e com muita alegria no rosto, diferente de mim, que tinha medo de colocar os pés na sala de aula. Tinha momentos que eu queria pular dali e estudar em casa, nossa, era um sonho fazer isso, mas eu não conseguiria, acredito que ainda não tenho maturidade para isso.
Apesar de eu chegar relativamente cedo, já alguns do meu grupinho em nosso canto, inclusive Débora e Larissa, que eram de outra cidade e chegavam cedo por causa do ônibus. Nós três ficamos conversando por um tempo, o que não nos fez notar que o professor entrou mais cedo na sala de aula e quem era, aliás. Como ainda o sinal não soara, nem liguei. O pessoal entrava aos poucos e chegava vagando em sono ainda mais pesado que o do dia anterior. Não mando ficar até altas horas da madrugada na internet.
Repentinamente, olho para o lado e vejo meu pai se aproximando. Ele era alto, quase um metro e noventa, com poucos cabelos já em sua cabeça, mas com uma barba feita e desenhada nascendo em seu queixo. Ele, com a roupa do uniforme de professor semelhante ao uniforme dos alunos, se apresentou às duas meninas, que conversaram um pouco com ele. O pessoal via aquilo com um olhar estranho, como se professor não pudesse conversar com os alunos caso se o assunto não fosse sobre a aula.
Quando ele se virou e seguiu até o computador, Larissa se virou para mim.
—Seu pai parece ser gente boa. Por que o pessoal não gosta dele?
—Eu me pergunto até hoje. E não é de hoje, desde o momento em que o antigo professor foi substituído, ele é odiado. Luca acha que é por causa das aulas teóricas, mas eu falo que são ordens do dono da escola. O que meu pai pode fazer sobre isso?
—É, se a ordem vem de cima, quem está embaixo tem que respeitar.
A sirene que tínhamos como sinal tocou e a aula começou.
—Pessoal, bom dia. – Poucos responderam, mas eu deixo vocês adivinharem quem não abriu nem os olhos para isso. – Então, vocês estão com sorte, pois terão quatro aulas comigo essa semana. – Alguns comemoraram, outros ficaram com a mesma cara de orifício corrugado de sempre. – Por causa disso, essa primeira aula será teoria e a próxima será prática. – Sorrisos desapareceram, mas eu creio que alguns ficaram felizes, pois poderiam dormir mais um pouco, já que meu passava aula no projetor e, como a claridade atrapalhava, era necessário apagar as luzes. Bom, já sabemos o resultado...
A aula foi sossegada, quem tinha que copiar, copiava, quem dormia – mesmo sendo proibido e meu pai não deixando – dormia, e afins. No meio da explicação, reparei certo movimento para a fileira perto de mim, mas não notei quem se mudavam para lá. Depois de uns segundos, Rodrigo passou um slide que eu não compreendi e levantei a mão. Ele pediu calma e voltou.
—Pai, eu não entendi essa parte do movimento das peças de xadrez? – Sim, esse era o tema da aula.
—Aqui ele é seu professor, não seu pai, ouviu João? – Era Danilo.
—Ah, vai tomar no cu! – Aquilo saiu sem querer, mesmo o dia nem tendo começado corretamente, ele já tinha me tirado do sério.
—Professor, João Pedro falou palavrão.
—Falei nada! – Eu menti, era errado, ainda mais para o meu pai, mas ficar nessa implicância de "Aqui não posso chama-lo de pai, pois é seu professor!" ninguém merece, ainda mais que não é de hoje que eles me atormentam com isso.
—João Pedro, é verdade que você o xingou? – Eu ia responder, gaguejando um pouco, mas Larissa me salvou.
—É claro que ele não falou, Danilo. Não foi ontem que o Viktor o chamou de careta por não falar palavrão?
—Bem, é verdade, mas...
—Acho que estamos resolvidos. – Meu pai não falou nada, se virou e retornou a falar da aula.
—Obrigado, Larissa. – Ela sorriu em retribuição, diferente do bando, que ficou com a carranca de sempre. Pensando agora, eu poderia ter falado a verdade, o que me renderia uma bronca. Será que isso não os faria enxergar que não sou privilegiado por ser filho de professor?
Quase meia hora depois, parece que o pessoal acordou com a bateria toda e todos começaram a falar muito, o que atrapalhou muito meu pai, ele precisou gritar para pedir silêncio, pois a voz dele já não saía direito. Quando conseguiu retomar a aula, o sinal soou.
—Pessoal, na próxima aula, vamos retomar o assunto.
—Mas professor, você disse que iríamos para a quadra?
—Eu disse, mas eu não consegui terminar a aula. Se quiserem ir, vocês me pesquisam sobre a história do xadrez e tragam como trabalho na próxima aula. – Eu ouvi muitos resmungos, todos parecendo velhos reclamando das dores no joelho e na coluna. – Se vocês querem ficar sem trabalho, eu posso continuar na sexta aula.
Todos começaram a reclamar ainda mais. Ele se despediu de quem ouvia e saiu da sala. Não bateu a porta, que era de vidro, mas eu reparei a irritação na face dele.
—Nossa, esse professor é muito chato. – Uma menina, amiga de Viktor, estava sentada mais na frente. Seu nome era Rubia. — Para que passar trabalho?
—Será que é por que a direção manda que ele peça trabalhos para a gente?
—Para ele é fácil falar, é ele quem faz seu trabalho. – Vou fingir que nem escutei. A próxima aula era de português também, mas com a parte de interpretação de texto. A aula do dia anterior foi de gramática. Para mim, finalmente, era sossegado, já que sempre tive muita dificuldade em português, independente da área. A terceira aula, por fim, foi de biologia, assim como a quinta será. O intervalo foi calmo e sossegado, não tinha muito o que comentar.
Ah, tem um detalhe que eu preciso fofocar para você: Viktor está passando por uma fase vegetariana, espero que dê certo, ele está empenhado muito nisso.
—Mas vocês não se odeiam? – Enquanto eu comia meu lanche, que não passava de uma bolacha integral, o assunto pipocou na rodinha e ficamos conversando sobre isso, até eu dar a minha opinião.
—Eu não digo que é ódio, mas eu o acho insuportável, pessoa difícil de se tragar.
—E por que está torcendo para que ele vire vegetariano? Eu sei que vai sobrar mais carne, mas?
—Não é nada disso, eu só espero que ele tenha sucesso nos projetos dele. O motivo de acha-lo desagradável, não tira a minha vontade de vê-lo alegre.
—Não estou te entendendo...
—Se eu desejar mal a ele, voltará para mim, portanto, fico no meu canto. Além do mais, temos a prova de que isso é possível: Augusto. – Ele era um amigo que caminhava conosco, tinha cabelo encaracolado, mas que vem raspando de uns tempos para cá. Ele tem a pele morena, e usava roupas largas. Quando disse seu nome, deixou de comer o doce de amendoim e me encarou. – Você não está na transição entre vegetariano e vegano?
—Ah, estou, mas é bem difícil. Precisa de muita força de vontade.
—Mas é tão difícil assim? – Rafael, que triturava uma coxinha de frango logo às dez horas da manhã, nos encarou assustado.
—Claro que é. Eu, por exemplo, tive condições de ir a um nutricionista, o que me permitiu fazer as trocas necessárias sem ter falta de alguns nutrientes. Além do mais, meu processo foi longo. Não foi como o Viktor, que cortou a carne da noite para o dia, cortei aos poucos, até meu corpo se adaptar a comer menos carne e mais verduras e legumes.
—Uau, eu não teria capacidade para isso.
—É só querer. – Intervi. – Também não me vejo sendo vegano, mas penso em diminuir o consumo de carne, a vermelha principalmente. Acho que um ou dois dias a menos não fará falta.
O sinal soou e voltamos para nossa sala, e foi-se uma aula de física e uma de biologia. Quando deu onze e quarenta da manhã, meu pai apareceu na sala e nos perguntou se preferiríamos o trabalho ou a aula. Ninguém respondeu, até Larissa dizer que prefere o trabalho. Por ser a única a levantar a mão, o trabalho ficou decidido.
Na quadra, para a surpresa dos novatos, mas não para a minha, apenas dez alunos participariam da aula. Talvez houvesse uns quatro amais, pois não contei de forma correta. Acabamos nos dividindo e jogamos handebol, uma vez que não foi necessário muitos.
—Eles fizeram aquele drama na sala de aula para ficarem naquele canto? É isso mesmo, produção?
—Você ainda quer mais provas de como eu fico louco?
—Nunca duvidei de você, mas ver com os próprios olhos é mais chocante ainda. – A partida começou e ficamos naquele joga bola para lá e para cá. Dificilmente gols eram feitos, jogo bem sem sal, mas era o suficiente para suarmos um pouco, e rirmos também. Claro, o pessoal do lado de fora tinha que ficar caçoando da gente, tinha que ficar falando. Larissa, como eu amo o jeito dela, não perdeu tempo e fingiu que jogou a bola de qualquer jeito. Pelo menos, não participando da aula, prestavam atenção no trajeto da bola; se não, alguém teria a marca da bola bem no meio da cara.
Não somos atletas, mas dávamos o nosso melhor. Óbvio que depois da atitude de Larissa, várias bolas começaram a cair no canto do pessoal que falava mais do que devia.
—Que moleque tonto, tem um pai que é professor e fica agindo feito uma banana na quadra.
—Ele se esforça pelo menos.
—Bom, ainda não vi esforço nenhum. – E a bola os acertou. – Ou, seus idiotas, olhem para onde jogam!
—Foi mal! – Era isso que gritávamos enquanto ríamos deles. – Nunca gostei tanto de jogar handebol.
—Se continuarmos assim, semana que vem, podemos jogar queimada. Você acha que eles não vão querer vingança?
—Então, teremos que ter muitas pessoas. Eles jogam muito bem, ainda mais que roubam sem parar.
—Mas eu armo um barraco aqui que eles nunca viram.
—Se conseguir armar uma lona de circo, eu agradeço.
—Pensando bem, é melhor. Já temos uns animais aqui para fazer parte do show.
—É proibido.
—Mas bicho homem pode, ainda mais esses que se acham mais naquilo que nada são. – Devido a nossa conversa, Larissa não reparou para onde jogava e acertou Rubia e Viktor, que tomavam água. Bom, o resultado foram várias risadas, duas pessoas molhadas e uniformes bem manchados.
—Ou, sua vaca! – Nossa, para que foram falar aquilo? Larissa disparou na direção deles e começou a gritar ainda mais. Por sorte, meu pai apareceu e questionou o que aconteceu. Os dois não tinham muito o que se defender, já que ofenderam a garota. Ela, por sua vez, piorou a situação ao continuar a briga, não houve xingamentos, mas...
—Não quero saber disso na próxima aula, entenderam? – A voz dele era calma, mas firme.
—Certeza que, se ela não estivesse aqui no meio, nós teríamos ido à diretoria. – Larissa virou uma fera, falando mais alto que o próprio alto-falante anunciando os alunos cujos pais esperavam em frente da escola. Meu pai, como já tinha voltado para a sala, pois precisava dar um recado, ficou fora do assunto. Larissa, por mão divina, não pulou nos pescoços deles.
—Tudo bem, vamos nos acalmar. – Ajudamos ela a se separar dos dois, e ficamos em nosso canto até todos subirem. – Acho que já tivemos muito agito por hoje.
—Você acha? Para mim, ainda é pouco.
—Por favor, quer suquinho de maracujá? Ou chazinho de camomila?
—Um drink com sangue das inimigas seria melhor.
—Não, muito energético e com muito veneno.
—O que estão fazendo aqui ainda? – Meu pai apareceu no portão da quadra, o que nos assustou; em um pulo, estávamos na sala. O recado era um relembre do trabalho. Ele explicou que queria em folha de almaço e escrito em caneta azul ou preta. Do resto, nada tinha obrigação. Mais uma vez, ocorreu muitas queixas; porém, não se pode agradar todos. Na saída, ficamos na esquina até meu pai sair da escola para irmos embora. Minha irmã, provavelmente, já estava em casa. Eu retornaria dentro de uma hora para o plantão de biologia. A matéria de células ainda me surpreendia, e não era pouco.
Todos foram embora e eu esperando meu pai. Na recepção, perguntei dele, me informaram que estava na diretoria. Quando saiu, senti um olhar de preocupação, além de um pouco de raiva misturado com tristeza. Será que havia levado alguma bronca? Em casa, enquanto almoçava, escutei ele conversando com minha mãe, fiz a egípcia e fingi que era surdo para não ouvir as falas. Descobri que, desde a semana passada, sucedeu-se cerca de uma reclamação por dia sobre ele para a diretora, a maioria da minha turma. Ele parecia calmo em suas palavras, revelava uma despreocupação sobre a situação.
Aquilo me aliviava muito, pois eu sabia que aquilo não o preocupava tanto. Entretanto, ele poderia ser prejudicado com essa quantidade exorbitante de contestações. Eu deveria me preocupar? Será que demoraria muito para o final disso aparecer?
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