Com a mesma calma que a tartaruga atravessa a rua, esse foi o trajeto de algumas semanas. Ainda era terça-feira, não tivemos aula de educação física, pois os horários foram arrumados. Em vez disso, tivemos uma amais de biologia e uma de história. Depois do almoço, retornei para a escola, que estava muito calma. Os alunos do fundamental estavam em suas salas, todas em quase silêncio total, apenas as vozes das professoras que eram ouvidas do lado de fora com poucos alunos. Eu segui em direção das salas do ensino médio, havia alguns alunos das salas seguintes e somente eu da minha. Eles conversavam muito, até trocávamos alguma ideia durante o plantão. Nesse dia, não foi diferente.

—Oi, pessoal.

—Oi, João. – Disseram em uníssono. Peguei a minha apostila de exercícios e fiquei fazendo alguns mais fáceis, pois os mais complexos eu precisaria fazer com calma. Contudo, nada que eu escrevia fazia o mínimo de sentido ao ler, milhões de pensamentos passavam pela minha cabeça naquele momento: meu pai, todos os dias, chegava preocupado em casa, eram muitas reclamações, eu mesmo conhecia várias que estavam por vir, era uns dois pais indo falar dele. Não consigo entender o que se passava com todos.

—João, está bem? – Eu tinha parado o meu olhar em um canto isolado, e não movi por um longo tempo. O professor de biologia apareceu e nos chamou para a sala de aula, onde o ar condicionado estava todo potente, aliviando o calor quase insuportável do lado de fora.

—Só com pensamentos demais.

—Problemas em casa?

—Ah, até seriam, mas a fonte deles é aqui na escola.

—Está falando das reclamações sobre seu pai? – Afirmei.

—Nossa, o rádio corredor funciona bem aqui.

—Nem tanto, ficamos sabendo disso porque escolheram uns da minha sala e perguntaram o que achávamos dos professores, mas o foco caiu em seu pai. – Aqui era esperado, jogar o verde dos professores para colher maduro daqueles que realmente interessava. – Não fique preocupado com isso, vai ficar tudo bem. Daqui umas semanas, passarão o primeiro ibope. Certamente seu pai sairá bem nos comentários.

—Ah, eu duvido. Minha sala tem uma raiva dele que acaba sobrando para mim.

—Você sobre bullying?

—Eu não chamo de bullying, nunca fui violentado, nunca fui chantageado. – Erro meu ter dito isso. Uma vez, fui chantageado. Felizmente, não me recordo o porquê nem o que queriam, joguei para frente e fingi ser sonso.

—Violência não é somente a física, a violência verbal ainda é um tipo de agressão.

—Difícil não receber qualquer injúria, ainda mais com certas picuinhas que eles criam.

—Tem um historiador, ele falou uma vez que, ao dizerem algo para você, se for verdade, não se importe, pois é verdade; porém, se for mentira, não se importe também, ainda é uma mentira.

—Eu já ouvi essa palestra, sempre tentei seguir isso. Eu realmente não me importo com o que falam de mim, isso apenas me fortalece, pois enxergo que há algum sentimento deles por mim, mas eu fico muito incomodado que façam isso com meu pai. Tem semana que são todos os dias indo à diretoria para falarem dele.

—Já devem ter enxergado que é perseguição. Se você tem uma reclamação, fazem isso de uma única vez, e não parcelado. Tão achando que isso é loja?

—E vocês devem estar achando que isso é terapia para falarem tanto. – O professor parou do nosso lado, estávamos ainda fora da sala de aula. – O que está incomodando o coraçãozinho de vocês? – A garota contou tudo o que eu havia falado. – Nossa, que situação delicada. Por que não fala você para a diretora?

—Eles já acham que eu tenho privilégios por ser filho dele, imagina o que falariam se eu fosse reclamar.

—Garoto, deixa de ser bobo. Você tem todo o direito de reclamar, assim como eles têm. E quem se importa se um ou outro são mimados e filhinhos de pais ricos? Você é aluno igual a eles.

—Bom, eu sou mais inteligente.

—É isso que eu quero ver, quero ver alto-estima lá em cima, nada de choro por gente que só faz peso na Terra.

Adentramos a sala de aula e me deparo com dois da minha sala, Luca e Larissa, que faziam alguns exercícios juntos. Eu, assim que os vi, assustei, pois nunca ninguém da minha sala tinha ido para o plantão.

—Você acha que é só você que tem dúvidas em exercícios? – Eu me sentei do lado deles e ficamos resolvendo alguns com muita ajuda do professor. Por causa da minha leve amizade com o pessoal do segundo e do terceiro ano, eles nos ajudavam, e muito. – Nossa, que exercício chato!

—Larissa, fala baixo. Aqui não é sua casa para gritar desse jeito.

—Mas faz um século que esse exercício de célula não acaba. Detesto prova de somatória.

—Sim, são bem lentos esses.

—Bom, vou parar um pouco. Alguém quer ir beber água comigo? – Nós três fomos. Paramos para conversar com a coordenadora, que falava com alguns alunos.

—Meninos, podem vir aqui um minuto. – Antes de seguirmos ao bebedouro, fomos ao cubículo que era a sala dela. – Eu estava conversando com alguns alunos sobre os professores. O que estão achando deles, das aulas, dos métodos?

—Olha, tem uns professores que são bons, mas a apostila é bem pesada. Tem professor que eu acredito que não terminará antes das provas.

—Fala quem são para eu poder conversar.

—Larissa, a causa disso é mais a turma. Olha quantas vezes eles precisam chamar aquele montinho no canto da sala.

—Sim, tem um pessoal que não para de falar durante as aulas e atrapalha muito.

—São os alunos novos?

—Nem, os novatos são bem atenciosos e quietos, Larissa está aqui para provar. O problema é o pessoal que senta nos bancos perto dos banheiros lá no pátio de baixo.

—Ah, sei quem são, Danilo, Viktor, esse pessoal.

—Sim, os próprios.

—Próprio otários, se podemos assim dizer. – Larissa resmungou para a gente, tentamos segurar o riso enquanto a coordenadora anotava o nome deles em um papel. – Sobre os professores, ainda não temos reclamações.

—Eu fiquei sabendo que vocês têm um trabalho de educação física para entregar. É verdade?

—Sim, houve algum problema?

—Não, não foi nada, mas é que muitos contestam o tema do trabalho.

—Ele passou uma aula sobre xadrez, nada mais que correto que passar um trabalho sobre xadrez.

—Eu entendo, mas me falaram que ele não terminou a aula.

—Não tinha muito o que dizer sobre xadrez, a não ser que fosse aprofundar. Porém, não acho que fosse necessário. Além do mais, foi escolha da turma a opção pelo trabalho. Ou era isso, ou era ficar na sala tendo aula.

—Quem teve essa ideia? – Ela aparentou estar surpresa.

—Foi nossa ideia. – Adentrei na conversa. – Da sala toda, aliás. Meu, é... Ele falou que teríamos uma aula na sala e outra na quadra, mas aquele grupinho não parava de falar. Ele atrasou a aula para ficar chamando a atenção deles e, quando falou que teríamos mais uma teórica, todos reclamaram muito.

—Isso, e no final foi decidido por aqueles que votaram que teria trabalho.

—Falaram que essa votação não foi correta, já que não tinha nem 50% dos alunos.

—Ninguém se manifesta naquele lugar, o que você esperava? Que apontássemos uma lança na cara deles para levantarem a mão?

A coordenadora viu o nosso lado e tomou um pouco de notas, mesmo com cara feia com o que eu disse no final. Ela, sem dizer nada, nos dispensou. Do lado de fora, me deparo com Danilo e Viktor que, juntos, pareciam formação da nova dupla fracassada de palhaços.

—Oh cabeça de bagre, o que você falou para ela?

—Ignora, João, apenas ignora. – Luca me arrastou para a sala de aula enquanto os dois ficaram para trás, completamente aos gritos por serem ignorados.

—Cabeça de bagre?

—Ishi, história longa.

—Na época em que eu não falava palavrão, eu os xingava de cabeça de bagre. No fim, eles ficam me chamando disso.

—Nossa, que desnecessário.

—Sim, até eu quero apagar isso do meu passado.

—Aff, não isso, desnecessário eles ficarem te zoando por não falar palavrão e ainda o chamarem de cabeça de bagre.

—Eu os chamava assim, então, fico quieto.

—Erro seu, você não devia ter ficado quieto. – A menina do terceiro colegial apareceu, além de um garoto do cursinho. – Se eles estavam te atormentando, você tinha que ter falado.

—Eu ignorava algumas vezes, mas eu ligo muito para o que os outros falam.

—Novamente, outro erro seu. Você não pode ficar se importando com tudo o que os outros falam.

—Eu também já dei umas cartadas fora de hora. – Apontei para Luca. – Lembra naquele dia em que a professora estava explicando uma matéria, mas precisava de outra? Eu sabia por causa do curso de matemática, e respondi certo, mas a maioria caçoou por eu saber a resposta.

—Nossa, esse pessoal da sua sala tem sérios problemas.

—Todos temos problemas.

—João, desse jeito não tem como te defender. – Larissa me encarou. – Eu sei que todos temos problemas, mas eles extrapolam o que é chamado de limite.

—Tem uns que nem sabem o que é isso.

—Cala a boca, João! – Todos falaram.

—Tudo bem, acho que entendi o recado. Falei demais.

—Ah, não me diga? Achei que tinha ficado surdo. – Eu ri um pouco, precisava cortar o clima tenso. Mudamos de assunto e focamos sobre as fofocas que pairavam o colégio naquela época do ano. Eu, com meu celular, tirei muitas fotos e coloquei no stories. Tudo bem, nada de diferente no reino da adolescência. No dia seguinte, para variar – essa mudança temporal não é exagero, são os dias que são para lá de entediantes em alguns momentos – cheguei à escola, com aquele sono de não parar em pé.

Na sala de aula, me deparo com meia dúzia de moscas e três poeiras flutuando pelo ar. Ao sentar em meu lugar, peguei meu livro sobre umas desaventuranças de uns órfãos e continuei a minha leitura. Nisso, sem mais nem menos, vejo uma manada adentrando pela porta. Rubia era seguida por Danilo, Viktor e mais um elenco de apoio sem importância para essa narrativa, mas com valor para retirar oxigênio precioso do ar.

Eu estava com meus fones de ouvido – não tenho como agradecer o criador deles – apenas ignorando aquela movimentação na sala, com alguns pedaços de giz voando, com insultos a sabe sei lá quem cada um proferia ao outro, ou ao parente do outro. Nisso, um deles se aproxima de mim e faz movimentos na tentativa de me imitar jogando handebol. Para quem não sabe, sou um desastre no esporte, ainda mais com cidadãos tão bem afeiçoados jogando no meu time (cof, cof, Isaias, cof, cof – calma que eu já o apresentarei).

Isaias, o garoto em minha frente, tentava ser amigo, letras garrafais em TENTAVA, mas não tinha muito êxito com a sua peculiaridade de ser irritante com os demais, além de tentar forçar uma espécie de fama que não sei se combinava. Bom, depois de eu ter terminado o capítulo e relutado para não começar outro – ser curioso é o fim dos tempos, mas ainda vale para conquistar alguma novidade – eu o encarei e retirei um fone de ouvido.

—João, que status eram aqueles? – Eu fiz cara de interrogação, pois não havia entendido direito. Outro detalhe sobre mim, sou extremamente lento para entender algumas coisas, finjo entender na esperança de que alguém não entendeu. – Aqueles com o pessoal do cursinho? O que fazia com eles?

—Bom, estávamos no plantão e conversamos um pouco. Nada demais, ué. – Movimentei para recolocar os fones, mas ele continuou falando.

—Ah, é que eles... sabe né... – Fez uma cara de "Você tem que saber e evita-los como se fossem a morte.

—Acho que da minha vida cuido eu. – Benção que ele não voltou a falar. Coloquei o fone e, sem tirar os olhos do livro, rezei vorazmente para que alguém da minha sala chegasse. Se naquela hora Larissa e Débora não chegaram, não viriam mais.

Não entendi o que ele queria dizer, nem me esforcei para isso. Quem era ele para querer cuidar da minha vida? Para mim, apenas eu ladrão de oxigênio; para outros, certamente um amigo ou alguém de alta importância. Acreditava ser a última bolacha do pacote, mas esqueceu-se que essa é a mais amassada e esmigalhada. Por que eu teria que dar satisfações a ele com eu converso ou deixo de conversar? Viver sempre no mesmo círculo é confortável, mas muitas vezes fere mais que qualquer dor.

A porta se abriu e revelou Rita, uma amiga minha. Ao vê-la, sorri muito. Ela era muito gente boa, apesar de ter más lembranças de um passado nada esquecido. Eu era o culpado, talvez não contarei agora, talvez nem contarei, ou depois, quem sabe. Somente queria retornar ao meu livro e deixar que essa lembrança desaparecesse da minha imaginação.