Relatos do Cotidiano - Parte 3: Velhas Cicatrizes
4 Desculpas para um passado
Eu não me sentia tão bem assim fazia alguns dias, dormia mal, acordava por motivos banais. Eu poderia culpar a minha crise alérgica de rinite e sinusite, mas não era isso que me retirava do equilíbrio que tão dificilmente conseguimos manter. Nessas vezes que eu precisei ficar na escola à tarde por causa de uma prova, fiquei refletindo sobre algumas lembranças que pipocavam na minha frente como um susto de um filme de terror.
Fracassadamente, eu tentava jogar isso para longe, cantando músicas um tanto alegres. Contudo, a melodia não fazia mais sentido em minha cabeça. Eu, simplesmente, queria ignorar aquilo que uma vez fiz. Por causa daquela prova, eu adentrei uma das salas para poder estudar. Não tinha nada que tirasse aquelas memórias insuportáveis da minha cabeça. Enquanto eu me divertia com as melodias calmas, quase chorosas em meus fones de ouvido, foquei no meu interior enquanto meu olhar caiu sobre um canto decorado com fios caídos como cabeleira embaraçada.
Eu não havia comunicado ninguém de que eu iria para a escola estudar, mas postei alguns stories, e devo ter mandado no privado para alguns. Quando a porta se abriu, acreditei ser alguma inspetora vindo me questionar do porquê eu estava ali na escola, porém, me deparo com Rita entrando pela porta com sua bolsa que parecia ter estampa de dálmatas ou de vaquinha, além de estar com blusa de frio. O ar condicionado não estava ligado, pois estava apenas eu na sala de aula. Eu não me importei com sua chegada, afinal, estava aéreo.
Apenas consegui quebrar o meu transe quando ela deu uma palma em minha frente, o que resultou em um susto. Ao piscar o olhar, a encarei.
—João, tudo bem com você?
—Acho que sim. Veio estudar também?
—Ah, vim sim. Eu vi sua foto quando meu pai saía de casa. Como estou com um pouco de dificuldades em matemática, achei melhor vir até aqui. Pode em ajudar?
—Claro que ajudo. – Enxuguei o que caía de lágrima dos olhos. – Só vou ao banheiro e já volto.
Saí da sala de aula e me deparo com a coordenadora. Ela pergunta se estou bem, visto que meus olhos estavam bem vermelhos. Falei que era resultado da minha alergia. Ao seguir ao banheiro, enchi a minha garrafinha com a água do bebedouro, que tinha um gosto forte e horroroso de cloro. No banheiro, lavei o rosto diversas vezes, como se aquilo de líquido que escorresse dos meus olhos era uma irritação comum.
Voltei para sala e vi Rita quebrando a cabeça em alguns exercícios da matéria de exatas. Reparei que ela seguia por um caminho errado.
—Ri, aqui você não pode simplificar os números. Teria que ser uma multiplicação, e não uma soma. – Ela parou, fez uma cara de ponto de interrogação, analisou um pouco, então aparentou entender o que falei. – Entendeu?
Ela respondeu com a cabeça que, certamente, estava focada apenas naqueles exercícios para a prova do dia seguinte. Eu, pelo contrário, tinha outros problemas, nada exatos, totalmente humanos, totalmente errados. Demorei muito para tirar minha apostila da bolsa, ficar ali na escola pareceu não ser tão boa ideia analisando o que eu sentia.
—João, você está bem mesmo? – Novamente, eu me peguei encarando uma parte do teto sem nada a observar, sem qualquer imagem que pudesse me atrair a atenção.
—Estou sim. – Sabe aqueles momentos em que você quer chorar, mas não tem motivos para isso? Você quer que o mundo acabe para que, finalmente, as lágrimas saiam por qualquer canto que seja. Eu respondi a ela, mas a resposta foi vazia. Certamente, ela não acreditou.
—Se você tem algum problema, pode contar para mim.
—Bom, eu não sei por onde começar. Com certeza não se lembra, mas sabe uma vez, há uns quatro anos? Talvez um pouco mais, pois não sei quando eu escrevi isso, muito menos quando você lerá, ou lembrará do que aconteceu?
Era um dia como qualquer outro, o sol brilhava no céu e essa era a única estrela que todos conseguiam ver naquela imensidão azul bebê. Era momento de intervalo e havia algumas crianças correndo por volta das dez horas da manhã naquele pátio totalmente apertado. Inspetores gritavam para pedir que parassem com os passos acelerados, pois poderiam trombar em algum desavisado.
Perto do pátio do lado debaixo, onde mesas ficavam para os alunos sentarem, onde crianças, pré-adolescentes e adolescentes permaneciam em um mesmo recinto, em harmonia nada sutil e nada verdadeira, duas meninas estavam em um canto enquanto outro garoto se aproximava delas. As duas, uma magricela e de pele clara e a outra de baixa estatura e com blusa de frio para se agasalhar das temperaturas mais baixas que as sombras das árvores propiciam, falavam para esse garoto ir embora.
—Oi, baixinha, anão de jardim, beleza com vocês? – E assim os insultos à pessoa continuava e nada o fazia parar. Continuou por quase todo o intervalo, até que a pessoa chorou. Seu nome? Rita. A pessoa que a insultava? João Pedro.
Sim, essa pessoa sem noção e praticante de bullying era eu. Parei quando vi que ela chorava. Minhas atitudes causaram a tristeza daquela garota e eu a fiz chorar. Como eu posso me chamar de animal racional? Eu prejudiquei essa pessoa.
"Mas foram apenas apelidos, ela tem que levar na brincadeira.". Não, não há necessidade de levar aquele ato de bullying como brincadeira, não precisa.
Hoje, enxergo que as minhas ações foram péssimas, foram tenebrosas. Eu nunca me orgulhei disso; ao contrário, me culpo até hoje. Foram quantos anos culpando um interior, mantendo-o longe da paz que temos que viver? Eu nunca me desculpei, e não cabe a mim desculpar.
—Rita, eu sei que isso aconteceu muito tempo atrás. Mas, você pode me perdoar? – Como o ser humano é engraçado? Reclamamos quando sofremos um tipo de represália e, assim que temos um poder sequer, agimos como babacas acéfalos. – Eu sei que você está pensando em como eu sou um estranho por lembrar disso depois de tanto tempo. Contudo, será que essas lembranças que vem à tona não são resquícios de um pedaço que falta do passado? Será que eu me redimir não é aquilo que me fará esquecer um pedaço da nossa história que precisamos abandonar? Nós somos amigos até hoje, creio eu, mesmo se nos distanciarmos tantos, e assim será, pois são lembranças isso que vivemos. Sei que você me perdoará, sei que deve acreditar que isso é um drama, mas as palavras marcam, como selos nas cartas e assim eu espero que essa amizade prossiga, com marcas para toda a eternidade.
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