Relatos do Cotidiano - Parte 3: Velhas Cicatrizes
5 A cisão inesperada
Nossa, que infantil eu fui. Sim, eu fiz isso. Como eu sou um enorme estúpido e ... Bom, vocês não devem estar entendendo nada do que estou contando, nem sobre qual assunto eu me refiro. Eu e uma amiga minha, Pietra, tivemos uma briga, se eu posso mesmo chamar aquilo de briga. Então, começou da seguinte maneira: eu e ela nos damos bem, mas não em todas as situações. Se colocarmos na ponta do lápis, nós não nos suportamos por uma boa parte do tempo, mas isso faz parte da amizade.
Ontem, eu estava totalmente fora de mim, totalmente irritado que qualquer coisa que você disser para mim seria sinônimo de uma raiva colossal que demoraria a passar. Tudo bem, até esse momento, tudo na mesma calma. Porém, por causa de um trabalho que eu não apareci pelo fato de eu ser aprendiz em um lugar, para não especificar que trabalho (Três vezes por semana, segunda, terça e quarta-feira, apenas), ela ficou irritada e começou a falar um monte de asneiras para mim.
Mas quando eu falei para fazermos o trabalho na sexta, minha Nossa Senhora, ela virou uma fera, falando que não poderia faltar de uma aula dela, porque tinha tal motivo, tinha sabe sei lá qual outro. Por fim, eu tinha que faltar de um compromisso meu, que eu havia me candidatado muito tempo antes de sabermos desse trabalho.
"Ah, mas por que não faz no sábado?". Então, eu propus essa ideia, mas no sábado não pode, porque é dia de não fazer nada, é dia de viajar. Não quis desgastar a minha sanidade mental, então, tive que me submeter a trocar o dia do meu trabalho para outro dia. Esse foi o motivo da briga. Em seguida, ao chegar em casa, devido à raiva, refiz um grupo nosso, mas não coloquei Pietra, nem outra garota que andava conosco. Ela já havia nos irritado, ainda mais com o certo drama que ela fazia.
Porém, quem diria que Pietra estaria do lado de um dos garotos que eu coloquei no grupo? Nós já tínhamos um grupo antes, com as duas, e ela achou um absurdo eu não a ter colocado naquele também. Então, o pessoal veio comentar comigo naquele novo grupo, mas eu falei para ignorarem, uma vez que eu não queria causar intrigas. Nisso, ela veio conversar comigo e perguntou:
—Por que não me colocou naquele grupo?
—Porque não quis. – Não menti, mas aí veio o meu erro. Eu a bloqueei sem mais nem menos. Nisso, fui para a academia descarregar aquela raiva que sentia dentro de mim. Porém, como os pensamentos pulam em nossa frente, resultado da consciência martelando em minha cabeça, ela se colocou diante de mim e começou a conversar comigo e eu, mentalmente, respondia às perguntas. Isso que eu chamo de conversar com a consciência.
—Será que esse novo grupo foi a solução correta?
—Deve ser. Não aguento mais ela na minha orelha.
—Mas bloquear a sua amiga? Não foi nada amigável. Veja como vocês dois brigaram.
—Bom, eu não fui correto, mas ela também precisa gritar toda vez comigo que eu falo que trabalho?
—Ela também prioridades.
—Sim, mas ela falta por motivos banais às aulas e, quando precisa faltar por um motivo realmente importante, faz aquele teatrinho barato e sem graça.
—Só por que você tem o poder de fazer um grupo, não significa que você manda no mundo.
—Eu sei que não mando no mundo.
Eu e minha consciência – ótima conselheira, por sinal – ficamos nesse debate pelo tempo todo que fiquei na academia. Ao voltar para casa, me deparo com uma conversa sem ícone e com mensagens avulsas. Fui excluído do grupo que eu estava antes. Nisso, a minha consciência começou a martelar ainda mais atrás da minha cabeça.
—Viu? Essa sua arrogância causou isso. Devem estar falando muito mal de você, estão fazendo a sua cruz, estão destruindo a reputação que você não tem. – Por que eu sou tão paranoico?
Eu, com muito peso na consciência, peguei o telefone de Pietra do grupo da sala, uma vez que eu havia excluído para poder bloquear o número. Simplesmente, na maior cara de pau que consegui lustrar com óleo de peroba, mandei um textão:
"Pietra, me desculpe, não sei onde estava com a cabeça. Eu agi com imaturidade, estava com raiva e não pensei em nada." – Nisso, eu saí do grupo que eu havia criado, o que resultou em ainda mais e maiores pontos de interrogação na cabeça daquele elenco que não participava da história principal. – "Depois que fez merda, não adianta pedir desculpas."
Foi a resposta dela, um soco bem mais do que merecido em minha cara. O que eu fiz? Por que eu agi como uma criança sem noção? Nossa, que infantil eu fui. Sim, eu fiz isso. Como eu sou um enorme estúpido e babaca. Saí do grupo que criei e desliguei a internet até colocar o que sobrou de peças inteiras da minha cabeça em seus respectivos lugares para poder raciocinar de forma clara e lógica. Ligo um pouco de música enquanto tomo um banho longo e quente.
Depois dessa, eu tinha duas pessoas para pedir conselhos.
Uma delas era Rita, a outra, Luca. Mandei a mesma mensagem para os dois e esperei quem mais me ajudaria, ou os dois fariam isso sem ao menos conversarem entre si. Enquanto esperava a resposta deles, recebi uma mensagem de Daniele, outra amiga minha.
—João, o que aconteceu?
—Ai garota, eu fiz merda atrás de merda. Briguei com a Pietra, bloqueei a garota, depois bateu remorso, ela não me perdoou. Com razão, posso dizer.
—Estou sabendo da briga. – Ela me mandou imagem da conversa daquele grupo antigo. – Ela te tirou, falou que você não tinha mais motivos por estar lá, perguntei o motivo, ela disse que eu sabia pelo fato de estar no novo grupo. Fui ver o tal grupo, mas você já tinha saído e a administração foi para meu número antigo. Ou seja, não dá para fazer nada naquele grupo.
—Se quiserem sair, podem todos. Eu estou meio aéreo nesse instante.
—Faz outro grupo e, dessa vez, coloca apenas meu número novo e vamos nos arrumando. Todo mundo faz merda, você não foi o primeiro, nem será o último. – Eu agradeci pelo apoio, mas não me vangloriei por isso. Eu estava errado, todos podemos estar em instantes da nossa vida, só nos resta concordar.
No mesmo segundo, Rita e Luca me responderam. Começarei por Rita, pois a resposta dela foi bem curta.
—Nossa, nem sei o que fazer.
O que foi totalmente do que Luca disse.
—Olha, você já pediu desculpas. Mesmo em um curto espaço de tempo, que é o suficiente para fazer muita coisa ruim, você se arrependeu rápido. Sabemos como ela é, assim como você, difícil de perdoar. Vai melhorar com o tempo, e o convívio de vocês ainda é forte. – Agradeci as duas pela ajuda e pelo tempo gasto para me ajudar. Então, me lembrei que eu e Pietra sentamos em carteiras vizinhas na sala de aula. O que eu faria? Antes de pensar, remontei um novo grupo e mandei o texto.
—Gente, desculpa pela confusão que eu causei. Esse grupo agora é definitivo, podem sair do outro. – Em meio às mensagens de "Aleluia" ou "Ainda bem", veio como a Pietra descobriu sobre o grupo. Ela estava ao lado de Luan, amigo nosso. – Bom, acho que ficaremos sem se falar depois de certo tempo.
—Agora, só nos resta calma. – Como, finalmente, o celular quase marcava dez da noite e eu morria de sono, comecei a me preparar para dormir. Não sei como, mas eu apaguei na cama, não tive sonhos nem pesadelos, acordei até disposto.
Na escola, fiz um baile para não me encontrar com Pietra. Daniele chegou junto comigo e eu pedi para que fosse na frente, averiguando o caminho. Como eu sentava nas primeiras carteiras, me movi para as últimas da fileira, onde Larissa, Débora e mais umas meninas sentavam. Rubia, amiga delas, não foi naquele dia e elas se sentaram perto da gente.
—Nossa, o que faz aqui para trás? – Contei tudo à Larissa, que ouvi com certa calma, mas eu sabia que ela estava esperando eu terminar para falar. – É, você cagou em tudo. Mas sabemos que ela não é flor que se cheire em certos momentos, então, deixe ela para lá. – As aulas ocorreram calmamente, até o intervalo. Em nosso canto habitual, Pietra e a outra menina não sentaram conosco. Larissa e Débora, que não tinham costume, sentaram-se conosco. Junto delas, vieram mais duas garotas. Tínhamos certa amizade, mas não era aquela relação enorme. Thayla e Maria Fernanda, as duas meninas que andavam com Rubia.
—Nossa, hoje o espaço está apertado. – Por isso, pegamos um banco amais e perguntamos a uma inspetora se podíamos deixar ali. Afirmativamente, o espaço ficou bem mais confortável.
—Por que Rubia não veio? – A pergunta de Rita não aparentou ser bem recebida pelas meninas.
—Bom, ela não está bem. Mas eu creio que está bem. – Elas estavam desconfortáveis com a pergunta, nem a resposta delas deve nexo.
—Acho que podemos falar de outras coisas, que não sejam sobre o pessoal da sala.
—Mas eles é que tem a melhor fofoca. – Luan começou a falar. – A manada tem um grupo só deles e ontem teve uma briga bem feia. Tem uns dois sem se falar.
—E qual foi o motivo?
—Eu não me lembro, e acho que foi uma picuinha muito pequena.
—Bom, eles não foram os únicos a brigarem. – E contei o que ocorreu entre eu e a Pietra.
—Nossa, a situação da sala está bem feia.
—E quando que essa turma foi unida?
—Ah, teve uma vez, lembram quando a sala quase tomou uma advertência?
—Sim, o João quase chorou nesse dia.
—Ué, por quê?
—Eu nunca tomei uma advertência na vida, e aquilo mancharia meu histórico. Além de eu acreditar que eu tive um pouco de culpa por espalhar a fofoca.
—Foi nesse dia que você ficou com fama de fofoqueiro.
—Nossa, como se ninguém nunca tivesse espalhado uma fofoca?
—Eu não. – Foi um uníssono de umas quatro vozes, que não sei de onde vieram.
—Isso não importa. Eles fizeram um drama por aquilo, falaram de trabalho, de pesquisas, de provas e da multa. No final, nada aconteceu e aquela planta já cresceu de novo.
—Talvez tirem na próxima redecoração.
—Ah, mais um motivo para eu chamar aquilo de drama.
—Tudo por causa de uma planta?
—Sim, mas ninguém contou quem foi que pulou, até a pessoa falar.
—No final, o culpado assumiu e tudo acabou bem?
—Não podemos dizer que aquilo foi "tudo acabou bem", mas podemos afirmar que acabou.
O sinal soou e retornamos à sala de aula. A quarta aula era de uma antiga professora nossa. Durante os exercícios, ela se vira para mim.
—João, o que faz aí no fundo da sala?
—Menopausa.
—Débora!
—Ah, achei que você precisaria de ajuda.
—Nossa, professora, não estou fazendo nada! – Quem falou mais alto que todos nós era João Vitor, um colega de turma. Por causa do que ele falou, tirou a atenção da professora de mim e da resposta da Débora. A risada do pessoal abafou a resposta dela e o que Larissa me contava.
—Fala que ali na frente estava muito quente e que você preferiu sentar aqui atrás por causa do ar.
—Boa desculpa, melhor que culpar a menopausa que não tenho.
—Mas que você é uma pessoa calorenta, você é. – A aula seguiu regularmente e calmamente. Não teve troca de farpas entre eu e Pietra, cujo olhar não se encontrava com o meu. Simplesmente, da noite ao dia, viramos dois estranhos na sala de aula. Da mesma forma que nós dois, alguns meninos começaram a se afastar. Não se juntaram a nós, mas ficaram separados e divididos. Os alunos novos não eram diferente, a panelinha novata se dividiu em duas. Ao término de tudo aquilo, a sala se fragmentara em vários grupinhos e quase nenhum de comunicava. Somente o grupo do RPG tinham amizade com todos os demais, uma vez que o garoto era muito inteligente e até o assunto sobre batata frita ficava interessante nas palavras dele.
Na saída, ficamos eu, Rita, Luca, Luan e Daniele a espera de nossos pais. A sexta-feira, enfim, estava terminada escolarmente; eu tinha que trabalhar à tarde, substituição daquele dia que precisei faltar.
—Vamos sair hoje à noite?
—Shopping?
—Eu estava pensando em um restaurante mexicano que abriu mês passado. Será que é bom?
—Apenas saberemos se formos. Hoje, às sete e meia da noite?
—Pode ser. – Concordamos todos. O período da tarde foi bem calmo. Levei uma bronca por corrigir um papel de forma errada, deixei passar uns três erros; ajudei muitos alunos do lugar, arrumamos a bagunça no final da tarde e, antes das seis da tarde, estávamos nos despedindo. Eu ia para aquele lugar três vezes na semana e recebia um salário bom, conseguia manter as minhas saídas com o pessoal. Minha mãe concordou em me levar para lá.
Fui o primeiro a chegar e fiquei guardando uma mesa. Enquanto eles não chegavam, fui pensando em minha vida. Temos tantos erros, será que algum é prejudicial? Eu não me achava errado em nada do que nasci, mas será que o mundo encara da mesma forma? Será que eles me aceitariam da forma como sou? Luca, Rita e Luan chegaram juntos. Daniele chegou por último.
Pedimos um combo de taco com guacamole e outros dois molhos que não identifiquei até comer. Tudo estava calmo, ríamos muito, nada poderia abalar aquele momento tão bom, nenhuma cisão estúpida poderia nos separar, a não ser o destino que estaria nos esperando ao término do nosso terceiro ano do ensino médio.
—Vamos tirar uma foto? – Tiramos nós cinco, uma selfie. Estava tudo ótimo, mesmo com uns comentários desnecessários: "Nossa, nem chama", "#xatiada", "Só os tops nessa foto #nemchamané?". – Vamos ignorar. Nossa sanidade mental agradece muito.
—Sim, muitas vezes, ser sonso é uma dádiva. – Desligamos nossos celulares, voltamos a comer nossa comida e rir como se nada tivesse acontecido nas últimas vinte e quatro horas.
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