Minha vida é comum. Eu tenho meus defeitos e minhas qualidades; afinal, sou um ser humano. Mas tem sempre uns problemas que a vida coloca em nosso encalço que ficamos em dúvida se são desafios ou se são castigos para o passado sombrio que possivelmente temos a esconder das pessoas ao nosso redor.

Para aqueles que não me conhecem, me chamo João Pedro e aqui está a minha história e o que eu tenho a contar para vocês, para mim, é muito pessoal.

Eu tinha acabado de chegar à escola e fiquei parado no portão de entrada para conversar um pouco com a inspetora dali. A escola meio que obrigava os alunos a irem de calça jeans, nem ligar o ar condicionado eles ligavam direito, e nem comento quando ele quebrava. Então, esse é um dos meus problemas, o mais leve e menos preocupante. Eu suava muito, eram duas ou três camisetas por dia se eu precisasse sair muito – eu ia a pé aos lugares, então... – Eu ia pouco de jeans, mas apenas quando o dia estava muito frio, sou muito calorento, nem blusa eu usava direito nos dias de inverso – isso quando tinha, pois minha cidade é um calor que nem Deus aguenta. A camiseta era bem pesada, um tom de branco meio amarelado, com detalhes em preto e roxo.

A conversa fluía um pouco, até que um carro subiu a rua em alta velocidade. O som estava nas alturas e era uma música eletrônica, daquelas que se assemelham a britadeiras. Nossa, que raiva! Como alguém escuta isso logo pela manhã?! Quando saiu do carro, o aluno do curso pré-vestibular estava fumando. Ele passou por nós e deixou a nuvem de fumaça.

—Olha, eu fumo também. – Disse a inspetora. – Mas logo de manhã, gente? Nem deu tempo de sair da cama.

Concordei e segui meu caminho. Não sou nenhum muso grego, mas não me vejo como feio, ou acho; não pela aparência, mas pelo todo, inteligência, boa de papo (eu acho) e... Ah, umas qualidades amais. Eu tenho esse certo obstáculo, não consigo ver muitas qualidades, ainda mais quando não há quem que te ajude a vê-las. Tinha um grupo da minha sala ali na frente. Um deles, um garoto magricela e cabelo comprido e preto, sorria e gritava como uma gralha assim que me viu.

—Perdeu! – Eu sabia o motivo daquilo. Eu torço para um time de futebol, apesar de querer abandonar isso. Não vejo mais graça no esporte, aliás, nunca vi. E esse time perdeu no dia anterior para o time que esse garoto torcia. Porém, eu me faria de sonso, algo que faço muito bem. Colocar uma máscara, nesses momentos, é o mais aconselhável se quer sobreviver ao mundo em que vivemos.

—Perdi o quê? – O sorriso desapareceu um pouco.

—Seu time perdeu ontem para meu time.

—Ah, você está falando disso. Eu achei que era uma prova ou alguma tarefa.

—Espera um pouco, você não viu o jogo?

—Se eu tivesse visto o jogo, aí eu teria perdido. O meu tempo, claro. – Assim, a reação deles não era nem alegria ou espanto ou desgosto, mas eu ria por dentro por vê-los daquele jeito. Todo sem graça, assim como essa brincadeira. – Agora, eu preciso ir. Como você disse: "Perdeu!", nesse caso, a piada.

E me distanciei do grupo. Olha, eu gosto de algumas piadas ou brincadeiras que fazem comigo, mas eu tenho que rir dela e gostar dela. Desculpa o termo, mas eu odeio que façam isso.

—E João, nem se preocupem com provas. Filhinho de professor tem seus privilégios. – E eles voltaram com essa brincadeira estúpida. Não comentei anteriormente, porque acreditei que não teria necessidade, meu pai é meu professor e o pessoal acha que sou privilegiado por tê-lo como professor, o que é uma grande mentira. Não sei quem disse para eles que ser filho de professor tem essas luxúrias; se tem, por favor, me avisem que ainda não recebi isso.

Não que eu seja chato, é insuportável e irrita muito. Parece que há essa conspiração em cima de mim de tal forma que vai me consumindo o dia todo. Muitas vezes, preciso me confortar onde não há conforto; se há prazer, eu não sei, sempre em seguida eu sinto um forte peso em meus ombros. O que será isso? É certo? É errado? Deve ser, ninguém que eu conheço aceita isso. Já faz cinco anos que isso me atormenta, mas fico calado. Quem me ajudará? Ninguém, não tem ninguém que possa me dar sequer um pequeno apoio moral, ninguém que diga "Olhe, você é inteligente, não ligue para o que eles falam".

Eu quase havia me esquecido de mencionar outro detalhe, não era primeiro dia de aula, mas haveria alguns alunos novos em minha sala. Não foi mencionado quem ou quantos seriam, teríamos que ver quem é. Minha turma era relativamente grande, quase uns quarenta alunos, sorte que a sala de aula conseguia ter espaço para todo esse pessoal. No fundo da sala, havia duas garotas, ambas lindas. Felizmente, minha carteira ficava perto da delas, não sei por qual motivo eu dizia que era "felizmente", mas eu fiquei bem feliz com pessoas novas, as antigas já estavam meio que me saturando.

Eu sempre fui uma pessoa muito difícil de fazer amizades, e eu gostava de mantê-las por perto, mesmo que muitas vezes os caminhos trilhavam para cantos opostos. Por isso, sempre me senti muito sozinho, ainda mais no colegial, que é uma época bem estressante, com professores querendo saber para qual profissão você gostaria de seguir, ou quantas horas está estudando, ou cuidar da própria vida ninguém quer? Eu sentei em meu lugar e fiquei observando o fluxo de pessoas saindo e entrando pela porta, todos lançando olhares curiosos para onde as meninas estavam; por consequência, os olhares caíam sobre mim também e sempre vinha uma risadinha em seguida. Seria paranoia minha? Ou eu era mesmo o assunto da roda de conversa?

As duas meninas novas conversavam muito, aparentemente já se conheciam bem, e nem se importaram com a minha presença. Eu sempre carregava um livro comigo, o que me aliviava e me desligava do mundo, uma vez que eles me faziam viver uma vida que eu sempre invejava, mas sabia que nunca alcançaria. Ao retirar o livro da bolsa, escutei alguém chamando o meu nome. Sem mover a cabeça, mas apenas os olhos, joguei o olhar para as meninas, mas não eram elas; joguei o olhar para meus amigos, mas nenhum havia chegado ainda; por fim, ignorei. Contudo, a voz não me ignorou. Estava com meus fones de ouvido, mesmo que fosse proibido o uso no perímetro da escola, mas alguém proibia os outros de fazerem comentários maldosos? Acho que temos um impasse.

Sou muito curioso, o que me fez fingir que espreguiçaria para olhar quem me chamava. Era um amigo daquele garoto do início da história. Ele, Viktor, e o amigo, Danilo, me encaravam com risinhos entre os dentes, como se minha cara fosse pintada de palhaço.

—Não tem educação, não?

—Somente com quem me respeita.

—Nossa, grosso. Nem sei como teus amigos te aguentam.

—Da mesma forma como não sei como os seus te aguentam. – Com a graça do bom Deus, eles se afastaram e me deixaram em paz. Nunca me esqueço do dia em que falei sabe sei lá o que errado. Minha nossa senhora, como riram de mim, mas vai eu zoar com a cara deles, mas o João Pedro é um grosso, é sem educação, não tem noção do que fala, pratica bullying. Aham, sou eu o valentão da história...

Uma história tem dois lados, o meu lado é esse, não sei o porquê de eles fazerem isso, somente senti o que se passa comigo. Se um dia quiserem falar, estou à disposição deles para ouvir as razões dessas brincadeiras de mau gosto. Retornando ao meu livro, fiquei lendo sobre aquele garoto com TDAH, que lutava com monstro, deuses e afins. Eu estava quase para terminar o livro, já havia quase a série toda e nem sei qual mais seria lançada.

Finalmente, a aula estava para começar. Eles ficariam quietos, era o que imaginava. Tinha dias que sentia medo de ir à escola, mas como? Ainda não sei, medo é tão irracional; entretanto, racional é aquilo que causa o medo, ou melhor, se chama de racional. Ele se paga de bonzão, mas sempre diminui os outros para se pagar de superior. Um babaca, se quer saber.

A primeira aula era de geografia e a professora era a mesma que a do fundamental, ela já nos conhecia muito bem, menos os alunos novos. Esqueci de mencionar que havia mais uns três perdidos pela sala, além das duas que se sentavam perto de mim. Meus amigos chegaram enquanto eu estava entretido em meu livro. Como toda a manhã, foram apenas cumprimentos leves e silenciosos, pois duvido que alguém levante bem-humorado pela manhã? Ah, claro que tem, comento dele quando for o momento.

A professora fazia seus desenhos da lousa de giz enquanto eu grifava a apostila e copiava o essencial no caderno. Conversávamos pouco, ainda eram sete e trinta da manhã. Dormi muito mal da noite anterior, fazia noites que não sabia o que era ter uma noite boa de descanso. A próxima aula era de química. Não sou muito fã desse professor, mas fazer o quê? Ele é muito bom, mas desvia da aula para cada assunto besta, que 'eu meio que' desisti de prestar atenção. Ainda bem que aquele início era sossegado.

—João Pedro, está prestando atenção? – Nem que me pagasse eu prestava atenção nele. Sim, eu copiava o pouco que ele passava na lousa, mas nem prestava atenção na explicação dele, eu me perdia, além de sentir um sono enorme de dormir sentado, sem encostar em nada. Como meu livro estava bem ao lado da apostila, já com tudo copiado, grifado, com exercícios feitos e corrigidos – sempre procurei a resposta na internet com meu plano de dados, cujo limite era pouco, o mesmo tanto de tempo que eu gastava para navegar na internet de forma ordinária – eu o escondi e levantei a apostila.

Ele não disse nada, eu sentia que não gostava muito de mim. Eu não atrapalho a aula, não fico no celular – uso apenas para o necessário, mesmo sendo contra a lei; por isso, NÃO FAÇAM ISSO! – E nem converso muito, apenas falo bem baixinho, apesar da minha voz ser bem grave. De vez em quando, ele caminhava pela sala e parava atrás de mim para vigiar. Porém, como eu sempre tinha tudo feito, ele seguia caminho. Outro detalhe, a nossa carteira é universitária, e eu não gosto de ficar virado para frente por completo, sempre é uma perna para dentro e a outra para fora, ou as duas cruzadas, mas com o corpo sempre de lado. Como sentávamos perto da parede da direita e aqueles que ficavam atrás das minhas costas sempre dormiam, eu não precisava me preocupar com esses. Sempre gostei de ficar observando tudo, deve ser costume de quem é curioso.

No fim da terceira aula, que também foi de geografia, escutei certos sussurros enquanto eu e meu grupinho íamos para o intervalo. Ficávamos em uma sala no terreno mais acima, precisava apenas de uma pequena escadinha de sete degraus para irmos ao pátio.

—Eles vão de novo à diretoria falar do Rodrigo? – Esse era o professor de educação física, e meu pai. – Eles já não foram semana passada? – Eu afirmei com a cabeça enquanto comia a minha bolacha integral, que mais parecia um amontoado de raspas de lápis. – E como você aguenta esse povo falando do seu pai desse jeito?

—Espera, seu pai é seu professor? – Três dos cinco alunos novos se aproximaram. A primeira era uma menina baixinha, rosto arredondado e pele morena, a segunda tinha cabelos loiros acastanhados, pele branca e quase a mesma altura que a gente, cerca de um metro e setenta. O terceiro era relativamente alto, uns cinco centímetros acima que nós. Meu grupo era em oito pessoas e sentávamos em um canto do pátio, quase um cubículo, onde havia três bancos de madeira. Apertando um pouco, coube dois amais sentados e um sentou na cadeira.

—Sim, Larissa, meu pai é o professor de educação física. – Essa era a menina loira.

—Deve ser bem difícil ter um pai como professor, ele deve ficar sabendo as notas antes de você. Bem chato não poder esconder a nota ruim.

—Nossa, tirou as palavras da minha boca. – Eu esboçava um sorriso que não cabia em mim. Virei para meus amigos e disse: – Não é fácil as pessoas entenderem isso?

—Por que você fala isso? – Quem me perguntou foi a outra garota, de nome Débora.

—Sabe aqueles dois garotos que me chamaram antes da aula? – Os três confirmaram. – Então, eles e mais uns ficam me zoando pelo fato do meu pai ser meu professor, fora os comentários de mau gosto que sou obrigado a escutar. E, Luca, como eu aguento? Não aguento, minha vontade é de xingar horrores e mandar todos a os quintos do...

—Nossa, João Pedro falando palavrão, que progresso para as pessoas deixarem de ser caretas. – Olho para trás e me deparo com Viktor, que trazia em mãos um lanche. – Ó, meninas, cuidado com ele. Vai que viram CDFs. – Outra zoação. Qual o problema de gostar de estudar? Ainda não entendo algumas pessoas.

—Espera, ele é CDF? – Eu me tremi de medo ao ouvir isso do terceiro aluno novo. Seu nome é Rafael. – Por que não me disse antes? – Ao olhar para ele, vi que piscou um olho. Nesse momento, senti que ele estava sendo irônico.

—Nossa, você entende então? – Viktor continuou. – Esses CDF não são chatos?

—Nossa, são insuportáveis, ainda mais quando eles conseguem tirar mais nota que você, não é? – Rafael olhou para ele. – Ah, garoto, vai procurar a sua turma. Ele está cuidando da vida dele, por que não faz o mesmo? – Ele fechou a cara e saiu de perto da gente. Nossa, seriam eles que me ajudariam a conviver com isso? Seriam eles que retirariam a pedra do meu sapato, mesmo eu usando tênis?

A manhã continuou bem e, por incrível que pareça, aquele povinho me deixou em paz.

As três últimas aulas foram de sociologia, de português e de química, de novo. E o ritmo permaneceu o mesmo, tudo calmo e o homeostático. Quando soou o último sinal, eu me despedi dos meus amigos e fiquei esperando meu pai na recepção, pois ele sempre passava por ali para me pegar. Enquanto vi todos meus amigos indo embora, pensei em como eu me divertia com eles, apesar de ter uns que gritavam comigo de forma bem necessária. Eu sou bem irritante quando quero ser, e quando não me situo também. Não mencionei o nome de todos, vocês saberão a causa futuramente.

—Meu pai falou alguma coisa se iria atrasar? – Perguntei para a recepcionista.

—Ele está na diretoria. – Não acredito, será que é por que o pessoal da minha sala reclamou de novo dele? Ainda não consigo compreender o ódio que sentem dele, ainda mais para reclamar dele à diretora todos os dias, mesmo em dias que não tem aula. O pessoal do bando combina, bem em minha frente, os dias que cada um irá à direção para falar do meu pai. Falou um "a" um milésimo acima da altura normal da voz? Vamos nos queixar. Ele passou um trabalho para fazer? Mas nossa, que absurdo, trabalho de educação física, ainda mais que são ordens da própria diretoria? Vamos nos queixar.

Sim, era isso que eu vivia em muitos momentos da minha vida, nessa escola que eu preciso chamar de segundo lar. Será que um dia eu acabado com esse martírio? Será que um dia eu saio desse caos que é estudar nessa toca de gente mal-amada? Será que o pessoal novo será aquele que me ajudará a retirar a barreira que existe entre mim e a paz interior?