Relatos do Cotidiano - Parte 3: Velhas Cicatrizes
7 Imaginação não é verdade
"Depois de um trabalho, mais são passados" – é isso que saltou em minha mente quando os professores passavam trabalho atrás de trabalho, mesmo que o anterior não tinha correção nem nota, nem data de prova, nem data de recessos. Meu pai, Rodrigo, professor de educação física, agia da mesma forma que os demais. Contudo, por motivo o qual não sei, minha sala tinha muita cólera dele, o que recaía sobre mim e sobre a minha família. Em muitos momentos, durante as refeições, ele não se abria, não comentava, somente devorava rapidamente a refeição que tinha no prato.
Era medo, eu sentia aquilo, era preocupação. Quantos foram os momentos de crença que adoeceria um momento ou outro pelo fato de estar criticamente aflito. Minha mãe tinha os mesmos sintomas, pois ficava junto dele sem se separar. Minha irmã entendia pouco, ainda não saiu totalmente daquela bolha da infância boa que tinha. Notas baixas eram suas únicas preocupações. Eu tinha as minhas, mas conseguia recuperá-las nas provas seguintes, ainda mais com trabalhos pipocando a todo momento.
As aulas do meu pai seriam naquele dia, e eu estava pronto para receber a nota do último trabalho que ele passou. Não foi difícil a correção, eu notei enquanto lavava a louça em um dia qualquer. Poucos foram aqueles que entregaram, e ainda menos foram aqueles que fizeram por ser trabalho, e não apenas por valer nota. Esse não era o único intuito de alguns, sendo que muitos professores passavam trabalho sem valer nota e faziam com muito gosto nas mãos.
A quarta aula era dele, mas não falou as notas, apenas informou que esperava mais esforço de todos. Quem fez o trabalho me questionou o motivo.
—Gente, não sei de nada. Nem vi o dia em que ele corrigiu o trabalho.
—Mas vocês não moram na mesma casa?
—Sim, mas não significa que eu vejo tudo o que ele faz, e assim é o mesmo da parte dele. Ele tem a sala e a mesa dele.
—Pessoal, já tiveram a resposta de vocês. Agora, caiam fora.
—Nossa, que garota grossa. – Disse alguém para Larissa, que não se importou. Ouvi que foi Pietra, mas permaneci quieto.
—Ignore, João, esse povo não sabe da sua vida.
—Obrigado. – A quinta aula passou de forma rápida, e a sexta, também de educação física, veio sem nota nenhuma. Fomos à quadra, como na aula anterior, e ficamos na queimada. Não sei se infelizmente ou felizmente, mas a sala toda participava. Alguns, cuja felicidade de estar em meu time não vivia, jogavam de qualquer jeito e quase entregavam bola na mão do time adversário. Uns poucos, mesmo detestando meu pai, jogavam corretamente. No final da aula, ele passou outro trabalho, sobre os últimos exercícios que fizemos nas aulas do mês. Muitos não entenderam o tema, nem eu para falar corretamente.
Durante a semana, uns me perguntavam como eu havia feito, além de tentar descobrir se meu pai havia ou não me ajudado. Como eu sou cara de pau, perguntei a ele se o que eu havia escrito estava correto, e ele não me respondeu, simplesmente. Isso é para aqueles que acreditaram que eu teria meu pai passando a mão em minha cabeça e fazendo o trabalho comigo – como são ingênuos. E assim, chegou novamente a quarta-feira, depois de uma semana em que trabalhei dois dias, estudei os demais, fiz natação, judô e academia, mas emagrecer que é bom? Meu corpo se esqueceu.
Quarta aula, quadra com corridas no início para aquecer, alongamento em seguida e uns exercícios de arremesso de bola no gol. Uma dúzia participou daquilo. Por causa de um exame que meu pai precisaria fazer, ele trocou com a professora de inglês e prosseguiu na quinta aula, com handebol e queimada. Ao retornamos para a sala, Rodrigo pegou os trabalhos. Sexta aula, inglês, a professora passou música para a gente, só não me lembro o nome por ser irritantemente chata, tanto a melodia como a letra. Tinha tantas melhores para ela mostrar, mas não fui eu quem escolhi, então...
Nem meia hora se passou e meu pai voltou para entregar um papel à professora de inglês.
—São as notas do trabalho? – Perguntou um garoto em minha frente. Foi ele que ajudei a arrumar o trabalho, dentre os demais que me procuraram. Pela quantidade, acreditei que teria uns vinte, mas somente cinco entregaram, talvez sete.
—Acho que são. Aquela é a letra do meu pai.
—Nem sei porque você está tão "ansioso" para ver sua nota. – Rubia estava perto da gente naquele dia, o porquê eu não sei, mas a conversa dela com a amiga dela me irritou a manhã toda. – Nem precisa falar as notas. Sabemos que ele veio com dez e, como ele passou o trabalho para os demais, também vieram com dez.
—Como você pode ter tanta certeza? – Perguntou a professora, com um sorriso sério no rosto.
—O pai dele que fez o trabalho para ele. – Mesmo tendo já ouvido aquilo, minha cara esboçou espanto, assim como a professora. Mas, depois, comecei a rir. Ela me olhava com cara de indagação, a testa franzida e as bochechas estufadas. –Por que você está rindo? Vai esfregar na nossa cara que seu pai que faz tudo para você?
—Não é isso. É que ainda não acredito de onde veio essa ideia de vocês de que meu pai faz meus trabalhos.
—Sempre é assim. Os filhos dos professores sempre são privilegiados.
—Que época é essa que eu preciso viver?
—Deixa de ser tonto, João Pedro.
—Eu nunca fui tonto, garota trouxa. – A raiva começou a me consumir. – Meu pai não me ajudou nesse trabalho, e nunca me ajudou em trabalho nenhum. Nem em provas ele me ajuda a estudar.
—Ah João, fala a verdade. Essas suas recuperações de português aqui, história ali, são tudo mentira e você já sabe sempre as respostas. – A professora parecia que ia ter uma síncope nervosa naquele momento. Ela conhece meu pai, é muito amiga dele, quase inseparáveis.
—Então, já que o pai dele entrega as respostas para ele, por que ele zerou o trabalho? – E mostrou o papel a todos. Meu trabalho não era o único com zero, até daqueles que eu nem vi que entregaram o trabalho tinham o pequeno círculo vermelho em frente do nome. – E vocês precisam se informar mais quando vão falar de algo ou alguém! Nenhum pai que lecione ao seu filho passa as respostas, trabalho ou qualquer coisa que seja. E, se eu souber que isso aconteceu novamente, irão à diretoria!
O sinal soou e eu fui um dos últimos a sair da sala. Larissa, que estava ao meu lado, ficou para conversar. A professora também ficou.
—João, não se preocupe com eles.
—Eu tento, mas... – Senti meus olhos marearem.
—Ninguém sabe de suas dores até senti-las. E eles nunca saberão.
—Só resta me conformar com isso.
—João, uma hora você vai rir disso e vai escrever sobre isso. Isso será parte da sua vida e não poderá apagar o que você é.
—Você é especial e sempre brilhará, não importando o que falam de você.
Consegui sorrir para elas, mas não apresentei muita felicidade. Eu queria apenas a minha cama e minha casa. Larissa precisou ir para pegar o ônibus e a professora também precisou sair. Fiquei mais um pouco, não consegui guardar todo o meu material. As palavras delas ecoavam em minha cabeça: um dia eu iria rir disso com alguém? Aliás, alguém irá saber disso e se interessará por isso? São pequenos detalhes da nossa vida que sabemos como terminarão.
Em casa, fiquei em minha cama durante toda à tarde, levantando apenas para lavar uma louça, ou ir à academia para aliviar a minha cabeça. A cena ainda marcava a minha mente como um selo, não fazia tanto tempo de narração, mas deixou uma cicatriz: "O pai dele que fez o trabalho para ele.". Conto ou não para meu pai? Não tem necessidade, ele já tem problemas demais para resolver.
Fiquei sozinho à noite, meus pais foram para uma reunião enquanto minha irmã tinha um aniversário. Para esquecer esses meus problemas, simplesmente peguei o computador e fui me aventurar. O que eu fazia era errado? Muitos afirmavam, outros negavam, e havia uns terceiros que apenas ecoavam em minha mente que eu devia cuidar de mim e não dar satisfação para mais ninguém. Fiquei mais um tempo no computador. No desespero ao ouvir o portão se abrindo, me embananei com tudo e quase deixo o computador cair no chão. Desligo rapidamente e vou ao banho, onde tomo uma chuveirada rápida e quente, mesmo com a noite bem calorenta do lado de fora. Ao sair do banho, senti uma forte brisa gelada que vinha do quarto da minha irmã.
—Enquanto fico passando calor em meu quarto, já que um dragão sambando em minha janela, minha irmã tem um ar condicionado natural.
—Pelo menos, no inverno, seu quarto é mais gostoso de dormir do que o meu. Até parece que dona Elsa está na minha janela.
—Que inverno, criatura? Nem temos três dias de frio aqui nessa cidade.
Depois dessa pequena amostra de como eu e minha irmã nos irritamos toda a noite, fui para a cozinha. Sem saber o que teríamos para jantar, ofereci a minha ajuda, a qual foi recusada pelos meus pais. Olhando para o olhar cansado deles, insisti um pouco, mas apenas a roupa para estender foi o que me pediram para fazer. Meio desanimado, ainda com a situação de manhã martelando em minha cabeça, deixei vários prendedores caírem no chão enquanto arrumava as cuecas, calcinhas, shorts, sutiãs, tops, camisetas e mais sabe sei lá o que tirava da máquina de lavar.
Depois do jantar, apenas uma salada com filé de frango, comecei a ler um gibi que eu comprara dias atrás
—Berenice, que nome diferente. – Eu lia sobre a personagem e bolava mil e uma ideias sobre qualquer história que um dia eu sonhava em acontecer. Contudo, fui atrapalhado por uma confusão que acontecia no terreno vizinho. Ele não era abandonado, era do meu avô, mas a presença de gatos, de galinhas e talvez de um teiú faziam com que minha mente fervilhasse com o motivo pelo o qual aquela algazarra ocorria.
Como era estranho a nossa mente. Simplesmente, esquecíamos a nossa realidade para viver uma criação que sonhávamos para a nossa vida. Infelizmente, nem toda imaginação era verdade.
—João, vem me ajudar a fazer bolo! – Gritou a minha mãe, me tirando de meu transe e me trazendo para o solo terrestre.
—Um dia, eu acho, viverei o que tanto sonho.
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