Relatos do Cotidiano - Parte 3: Velhas Cicatrizes
8 Pesadelo na realidade
Eu demorei para me reconhecer, demorei muito para me aceitar. O tempo era algo tão banal, tão precioso. Eu me perdia tanto em objeções que não sabia por qual caminho seguir. Será que eu estava errado? Ou foi apenas um desvio para o destino caçoar da minha cara?
Seria um belo dia na escola, o sol reluzia de forma calorosa e amorosa, nada que me fizesse suar como um corredor, mas não deixava as temperaturas caírem tão intensamente a ponto de congelarmos em nossos lugares. Eu estava preocupado, tudo estava vazio, solitário, perdido e mal interpretado. A solidão sempre caminhou comigo, sempre cruzou os braços e me abraçou tão fortemente que jamais me sentia solitário. Era estranho? Totalmente. Não se poderia viver na realidade sem tropeçar e mergulhar em pesadelos.
Com passos mais leves que penas, sem sentir o chão, o medo me consumia por dentro, fazia meu corpo todo se revirar de uma forma que me estourava os tímpanos com os gritos silenciosos que eu não queria escutar. Era medo que eu sentia? Era o quê?! Por que não tinha resposta? Por que eu era assim? Lotado de complicações? O caminho para mais perto de onde eu não queria estar era o ponto que me fazia forte, era o lugar em que eu enraizaria e me tornaria um vencedor.
Mas será isso mesmo que eu quero? Será mesmo que eu sou um vencedor? Mais ao longe, não tanto assim, eu via corpos se escondendo atrás de um imenso painel, todo de madeira com muitos cartazes em sua frente. Eu via os pés sambando nesse ritmo desarmônico que eu não acreditava que poderia acontecer. Porém, como as surpresas caem do céu sem serem enviadas do paraíso, isso parecia um inferno subido dos quintos mais distantes das moradas de profanos demônios.
Eu vi, todos aqueles que eu acreditava serem colegas, talvez conhecidos, partindo para cima de mim. Por quê? Qual era a explicação? Eu sentia minhas pernas duras, rígidas, sem movimento algum. Como um raio que alumia tudo, corri para longe. Era inútil, eu sentia isso, minhas veias e minhas artérias me contavam isso. Tudo doía, como facas que cortavam meu corpo sem sentimentos.
Eu fugia, como um prisioneiro da minha própria mentira, eu corria o mais rápido que podia, podia me enfiar debaixo da terra, do chão áspero, contudo, nada vinha para me acudir. O que eu tinha que fazer?
Sem mais nenhuma luz, eu pulei para dentro de um banheiro, o mesmo que eu senti um temor maior que não há, onde fui aprisionado por um ser que aparentava bondade, mas um pensamento sórdido em seu olhar. Ele me tocava, ele me nutria, eu sentia todo o medo que um coração com compaixão sentia. Por que eu estava ali? Por que eu tive que acordar? Nesse meio tempo, batidas fortes e pesadas contra a porta de madeira que eu sustentava com meu corpo tremiam todo o chão por onde eu pisava. Em um canto escondido, com as trevas nutridas pelas lâmpadas sem vida com a mera função de impedir que eu me perdesse pelos curtos passos para um mundo distante.
Eram gritos de ódio, disfarçados por opinião marcada, lotada de avareza, rancor e ódio, repleto de um desejo que não sei como eu pude sentir aquilo em meu sangue sem que eu tivesse qualquer contato direto. A tranca poderia romper a qualquer instante, poderia causar o maior dilúvio sobre o meu corpo, eu seria morto, seria exterminado. Por quê? Eu era diferente. Como? Não sei, apenas sentia isso
Todos somos, todos temos alguma coisa que não nos coloca dentro de uma forma para modelar pequenas peças para nos tirar desse fundo sem fim. Mas, sem dúvida, há um caminho, mesmo que doloroso e apertado, nos esperando para nos salvar. Olhando para um espaço, bem minúsculo e sem sentido, estava ela, uma fresta para a minha liberdade. Foi preciso me prensar, foi preciso me apertar, foi preciso coragem e força, bondade e humildade para me fazer sair dali, do meu pesadelo.
Entretanto, como todas as formas de escape, tem sempre um desafio. Enquanto eu fugia, senti meu corpo dolorido novamente e caí com os joelhos nos degraus da entrada. Um choque enorme fez meu corpo inteiro dilatar, fez eu sentir um medo maior que antes. A única certeza na vida, a morte, mas eu a temia, eu estava cercado e perdido, queria proteção.
Seria preciso correr para os abraços parentais, sentir o amor dos meus pais. Porém, eu os via chorando, eu os via zangados, eu os via ainda mais perdidos do que eu, sentia o chão desaparecer.
—Pai... Mãe... Preciso falar com vocês... – Era um medo enorme, era uma sensação de desolação. Eu temia o pior. – Eu não sou assim... – Mas minha voz calou, não senti mais meu choro, nem minhas lágrimas, eu sentia sangue, o meu sangue, todo ele escorrer pela minha cabeça, ver o chão amarelado se transformando em um castigo divino, ver o chão se banhar com meu sangue, ver como estava solitário aquele momento de desespero. Era uma estátua, pequena e marrom, de madeira ou não, ela foi atirada em mim, eu via o desespero da minha mãe, a raiva do meu pai, a incompreensão no olhar deles, o medo deles por mim, o meu medo por causa deles, o meu maior desalento terminal.
Nisso, silêncio, e um grito sem fim.
—Filho, você está bem? – Era a voz grossa de meu pai. Eu estava suado, sentado na cama, sentia meu corpo todo tremer, sentia o toque dele na minha panturrilha coberta pelo edredom que me acompanhava todas as noites, mesmo nos mais calorosos dias de suor profundo e ventilador veloz para atirar vento, ou nos dias de frio que cochilava eu e o silêncio da noite em minha cama. Eu sentia meus olhos chorarem, eu sentia tudo ficar perdido e sem sentido. – João, está bem?
—Foi só um pesadelo... Eu fui morto... – Ele não me deixou terminar, apenas me abraçou. Não consegui chorar, apenas silenciei.
—Esquece isso, esquece isso. Você está bem, eu estou aqui, papai está aqui. – Ele fazia cafuné em mim enquanto me abraçava fortemente. – É o calor, você precisa de um banho. – Ele se levantou, era um fim de semana, qual eu não sei, pegou alguma coisa que foi buscar em meu quarto, me deu mais um beijo na testa. – Eu estou aqui, não precisa se preocupar. – E ele saiu.
—Eu sei que você está aqui, mas até quando ficará?
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