Relatos do Cotidiano - Parte 2: Referências
7 Uma última vez
Notas iniciais
O dia estava bem claro e nossa aula seria no gramado da universidade. Na turma dessas nossas duas últimas semanas no intercâmbio, estavam eu, Amber e Jean, Wolf e Surya ficaram em outra e a aula deles seria no interior do colégio. Tudo estava acabando, nossos instantes juntos estavam chegando ao fim, era triste, mas uma ponta de felicidade brotava em nossos corações ao pensarmos que reveríamos nossos amigos antigos. Eu enrolei um pouco porque queria terminar de fazer uma postagem. Eu marquei Deise e sabia que ela se espantaria assim que visse e certamente ficará muito feliz ao ver.
—Marcos, venha logo. Como você pode demorar tanto? – Amber estava me apressando. Naquele dia, dormi no quarto delas por causa de uns problemas que aconteceu no meu. Tenho certeza de que jogaram aquela bomba de fedor lá dentro por birra do que eu e Amber fizemos semanas atrás, toda aquela manifestação e mudanças em contratos que causaram um tremendo caos para alguns pais. Os meus me apoiaram na decisão, mas somente se eu afirmasse que isso não atrapalhasse em meus estudos. – Eu estou com fome!
—Nossa, criatura, que sangria desatada!
—Se você fosse mais rápido, poderíamos chegar ao refeitório antes do café da manhã acabar.
—Isso vai acontecer. Além disso, são oito horas. As aulas hoje começarão mais tarde e o café será servido até as nove.
—Por isso, quero comer bastante.
—Mas é uma esfomeada. – Terminei de me arrumar com Amber em minhas orelhas, reclamando a todo instante. Quando me levantei com os tênis calçados, ela me puxou para fora e trancou a porta, nos puxando em seguida para as escadas. Novamente, na televisão, o assunto sobre atentado terrorista estava em alta, ainda mais com alguns incidentes que ocorreram em partes da Europa. Surya ficou entre mim e Amber enquanto Jean e Wolf se aproximavam. A garota estava muito incomodada com a situação, pois uns alunos a insultaram por causa da religião.
—Eles são uns babacas! Você não é terrorista. – Um dos garotos a incomodava cotidianamente. Ele é britânico, mas não de Londres. – Esse é o pior. Nem sei como ainda não foi expulso.
—Eles não farão isso, ainda mais que Surya é nossa amiga. Depois do que fizemos, muitos sequer olham para a gente.
—Eu tenho medo que vocês sejam prejudicados nas provas finais com tudo o que aconteceu. Fomos Jean e eu que causamos isso tudo.
—Não precisa se culpar, vocês não tiveram nada com isso.
—Mas olha o problema que causou para vocês. Amber perdeu sabe sei lá quantas aulas por causa de detenção, Surya não consegue andar sozinha porque têm uns xenofóbicos que querem ataca-la, Marcos perdeu notas por ter assumido a culpa do abaixo-assinado.
—Meus pais não se importaram com as minhas notas, pois minha escola já foi informada do que aconteceu. Eles sabem como sou e como aqui funciona. Acho que alguns professores já fizeram esse intercâmbio, também alunos.
—Mesmo você tendo esses problemas resolvidos, como elas farão? Surya ficará mais uma semana aqui em comparação a nós quatro. Vamos embora dentro de alguns dias.
—Meus pais estão vindo me buscar. – Ela falou e aquilo nos abalou. – Eu não morarei aqui depois que eles chegarem.
—E por que não nos disse?
—Não sei, muitos me chamaram de fraca por não suportar os ataques.
—Ninguém é obrigado a aguentar preconceito. Você foi forte ao contar aos seus pais do problema.
—Bom, meu pai me culpa um pouco, diferente da minha mãe.
—Nossa, por que eu não estou surpresa?
—Amber, maneira nas palavras.
—Marcos, pode deixar ela falar. Meu pai é assim, nem sei como me acostumei.
—Esse foi seu erro, acostumar-se com o que é errado. Ignore o que ele disser e siga a sua vida. – Tomamos o nosso desjejum por quase meia hora até pegarmos nosso material e irmos para a sala de aula. Apesar de nossa aula ser no gramado, teríamos que esperar o professor na porta do prédio e ele não demorou a aparecer. Amber, eu e Jean ficamos conversando sobre como poderíamos ajudar Surya, uma vez que iriamos embora mais cedo do que ela. – Se ela soubesse o que aconteceria, certamente não ficaria por tanto mais tempo.
—E quem iria imaginar que você chegaria a um país e ser discriminado por causa da etnia e religião?
—Olha, eu esperava isso quando soube que teríamos alguns muçulmanos aqui. Os britânicos são bem conservadores.
—Nem fala nada que os franceses também são. – Amber retrucou. Ela me contou que uma prima é britânica.
—Todas as pessoas do mundo carregam um pouco de preconceito dentro de si. – Falei para encerrar aquela discussão que nem começara. – E atacar as nações não resolverá o problema.
—Marcos tem razão. – Comentou o professor que se aproximou da gente. Ele era velho, cerca de cinquenta anos, tinha corpo forte e barriga avantajada. Os cabelos eram pretos devido à tintura que usava, pois alguns dias estavam brancos em partes e, nos seguintes, desapareceram. – Apontar erros das pessoas na nação engloba aqueles que defendem esses discriminados.
Seguimos até uma área central do gramado com uma árvore frondosa. As temperaturas subiam um pouco, sinal de que a primavera estava para terminar e o verão estava se apresentando. Começamos a fazer um exercício para relaxar o corpo, para que a aula fosse mais calma. Por causa dos atentados e dos incidentes no colégio, o tema seria a pluralidade do mundo em relação às etnias e às religiões.
O professor teve a brilhante ideia de nos dividir em dois grupos: aqueles que defenderiam a pluralidade e aquele que seria contra e que singularidade é o foco principal do mundo – Ignore alguns comentários! Foi fácil, pois caímos em um grupo defensor, enquanto os demais ficaram no contrário. Ele apenas colocou que argumentos preconceituosos seriam desclassificados e penalizados com perda de nota. Nesse meio tempo, meu grupo saiu perdendo no tempo, pois eles consumiram parte para trazer "fatos" que provavam o porquê de os imigrantes serem "a escória do mundo". Quando conseguimos falar, Amber engatou a primeira e pronto, não parou de falar e destruiu todos os argumentos. No final, ela deixou que falássemos um pouco, mas bem pouco.
O pessoal do outro grupo ficou de boca aberta de raiva e surpresa, pois ela os silenciou e os deixou estagnados. Jean e eu ríamos enquanto uns tentavam trazer mais argumentos contra a ideologia de Amber e ela conseguia sobressair. Enquanto trocávamos nossas ideias, caminhões passavam pelo centro escolar para reabastecer o refeitório e afins. Todos eram bem semelhantes, todos da mesma marca da transportadora. Bom, menos um, que era diferente, mais enferrujado e mais gasto.
Amber estranhou até a existência daqueles caminhões tramitando durante o período de aula, visto que o barulho atrapalhava as aulas. Do nada, aquele estranho caminho começou a acelerar e ficou dando voltas ao redor do campus e isso nos amedrontou. O professor, temendo o pior, nos dispensou e nos guiou de volta para o prédio. No meio do caminho, o caminhão se virou em nossa direção e começou a nos perseguir.
Alguns seguiram ao prédio, outros voltaram para a árvore, pois estavam mais próximos de lá. Contudo, foi um enorme erro. O caminhão seguiu na direção deles. Além de atropelar alguns alunos que não conseguiram escapar, ele acertou a árvore, que começou a cair. Os alunos desviaram e conseguiram escapar. O motorista ainda estava lá dentro quando o caminhão tombou, liberando muito combustível para o gramado.
O professor nos obrigou a correr ao prédio enquanto ele chamava ambulâncias para socorrer os alunos.
—Cadê a Amber?! – Escutei Jean gritando. Comecei, desesperado, procurar por ela. Nisso, escuto a sua voz, que vinha da árvore caída. – Ela está lá!
—Fique aqui que eu vou socorrê-la. – Jean tentou me impedir, mas corri mais rápido que ele. Os alunos se amontoavam perto dos alunos feridos, alguns mais corretos os espantavam para que as ambulâncias chegassem e já levassem os alunos. Ela estava toda arranhada no meio daqueles galhos. Escutamos o vidro do caminhão estourando e uma mão toda ensanguentada saindo dali. Na pressa, chutava e quebrava os galhos mais fortes para salvá-la.
—Marcos, meu pé! – Ela havia torcido o pé. Eu acelerava para libertá-la daquela prisão orgânica, mas estávamos muito longe. Notei que o corpo do motorista já estava quase todo para fora.
—Amber, é ele! Ele é o motorista! – Olhei melhor, mas o sangue impedia clara dedução. – O garoto que quase socou Surya, ele é o motorista.
—Aquele estrume?! Ele fez isso?!
Olho para a mão dele e vejo um controle. Eu me desespero, pois creio ser uma bomba. Na pressa para tirar Amber, machuco meu rosto, torço meu pé e fico com as mãos presas.
—Amber, segura a minha mão! Eu vou te salvar! – Tento puxá-la para fora, mas só alcanço a sua mão.
—Vocês estão perdidos! – Ele grita e aperta o botão.
—Amber!
—Marcos!
A explosão foi enorme, fez com que tudo queimasse instantaneamente. Wolf e Surya apareceram atrás de mim, que chorava sem parar.
—Jean, cadê Amber? E Marcos? – Aponto meu dedo para o foco da explosão, onde a árvore se queimava sem parar e o caminhão, lotado de gasolina e explosivos, intensificou o atentado. – Não! – Surya começou a chorar, Wolf também. As ambulâncias e os bombeiros chegaram para socorrer os sobreviventes e, por Deus, que eles tenham sobrevivido.
As ações foram rápidas e práticas. Os atropelados eram cinco, somente dois sobreviveram, com problemas pelo corpo todo, os outros três não aguentaram chegar nem ao hospital. Os três que foram explodidos não suportaram a explosão, nem o calor, pereceram sem ao menos nos dar um último adeus. A dor era tanta que dilacerava o que sentíamos, os momentos, os conselhos, as brigas e os sorrisos. Tudo foi embora em um estalo de dedos, tudo desapareceu como se nunca tivesse acontecido.
Uma última vez eu queria ver aqueles rostos alegres e batalhadores, aqueles dentes sorrindo para a vida boa que tiveram. Quem fez isso? Por que fez isso? Terroristas foram culpados, mas nenhum levantou a mão declarando a culpa, ficamos à deriva de notícias, de respostas. Tínhamos apenas nós mesmos e nossos sentimentos, não tínhamos mais nada.
No fim, tudo foi cancelado e, apressadamente, retornamos para as nossas casas, para as nossas vidas. Ficamos com uma imensa ferida de ter presenciado um atentado de terror contra o ser humano, contra aquilo que mais protegemos: a nossa vida e nossa alegria. Era tudo um imenso vazio dentro da gente, eu consegui manter contato com Wolf e com Surya. Contudo, nos afastamos e somente as lembranças que nos afagavam, eram essas lembranças que preservavam a enorme saudade, dor e tristeza que tínhamos pelos nossos amigos.
Terrorismo: um clima de tensão que vivemos em nossas vidas. Terrorismo não é somente bomba e explosões em locais públicos, terrorismo é em casa quando coloca-se medo no próximo; na escola e no trabalho, ao desvalorizar o trabalho do outro por qualquer situação. Fui terrorista ao diminuir a mulher, ao desrespeitar o próximo, ao colocar medo e insegurança naquele que nunca fez nada para mim. Luto hoje para esquecer o passado de horror que coloquei na cabeça de outras pessoas, batalho para acabar com o terrorismo de cada dia, de cada momento que o mundo coloca em nós.
Marcos e Amber, descansam em paz, junto dos milhares de pessoas que sofreram com isso.
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