Notas iniciais
Essa capítulo não é indicado para menores de 12 anos: há cenas de tensão e conflito sentimental.

E o nosso beijo foi intenso, foi forte e foi incrível, tudo o que eu sempre esperei pelos oito anos que nos conhecemos.


Depois, uma pausa. Ele ficaria quatro meses fora, em um intercâmbio em Londres, onde conheceria um pouco do velho continente, o território da rainha, do bruxo e de sua escola, conheceria um pedaço do mundo em que vivemos. Por fim, três meses se passaram, meses de espera para eu voltar a vê-lo, a pessoa por quem eu estava apaixonada. Contudo, o quão cruel é aquele que escreve os nossos roteiros, as nossas vidas. Ele não deixa a felicidade reinar, viva a guerra, viva a discórdia. Odiada sou por uma falsa história, desmentida em seguida, mas havia céticos no caminho.

Eu o havia perdido, seu amor por mim foi mantido, conversamos pelos meses como amantes que viveram anos juntos, mas a guerra os separou. A dor era tanta, a dor de um dezembro que não passaríamos juntos, a dor que não sei como curarei. Começou naquele fim de tarde, quando a prima de Soraia teria alta do hospital, não a conhecia, por isso não fui passar o dia com o pessoal. Esse tempo foi o suficiente para reconhecer quem eram as pessoas que se importavam comigo, Carla estava nesse meio, mas de uma forma que eu não me enxergava.

—Você viu? – Foi o que ela me mandou. Eu já tinha visto, também não quis cortar a sensação dela de me mostrar uma fofoca, como ela chamou. Para mim, aquilo não era fofoca, era o sinal de pesar que eu queria carregar, mas não sabia se tinha direito. – Deise, você está bem?

Eu não estava bem, eu estava triste. Não somente triste, mas perdida em meus pensamentos. Queria chorar, queria gritar, queria sofrer, eram tantos quereres que não conseguia saber onde colocar meus pés, onde me posicionar. O que eu devia fazer? Não sabia, ou não queria saber. Meu primeiro pensamento foi visitar o pessoal, mas ninguém atendia o telefone. Claro, o amigo deles faleceu, mais deles do que meu. Um amor que não senti muito bem, que não sei como seria de ele tivesse sobrevivido.

O que eu faria com essas poucas memorias que tinha dele? Eu as atearia fogo? Faria o quê? Não sabia de nada, além do que a mãe dele postou na internet. Eu, sem me vestir direito, fui até a casa de Soraia, pois era o único lugar que eu imaginei que eles estariam. Não tinha intimidade nenhuma com ela, fomos amigas, mas nos distanciamos. Será mesmo que eu deveria?

Cheguei em frente do portão. Vestia nada belo, bem simples, calça jeans, camiseta preta e um moletom por cima do corpo, afinal, eu era um pouco friorenta. Minhas olheiras de choro se tornaram maiores do que esperava, nenhuma maquiagem cobriria aquilo. Eu não queria cobrir também, pois não acho que a tristeza deve ser tampada, muito menos louvada em um pedestal.

—Quem é? – Era a voz de um homem, voz jovem. Pude ouvir um pouco do choro do pessoal.

—Sou Deise, amiga de Soraia. – O portão se abriu e a porta estava escancarada, o que permitia ainda mais o som do choro deles me atingirem fortemente. Ao entrar no lugar, me deparo com Zé Antônio e Carlos aos prantos, Soraia tentava segurar o choro; seu irmão, Jonas, entendia nada, assim como os pais, mas que reconheciam a dor dos adolescentes. Todos me encararam com certo susto, porque não me esperavam ali. – Meus pêsames, gente. – Não consegui segurar o choro, foi mais forte do que eu. Soraia se aproximou de mim e me deu um forte abraço.


—Meus pêsames, também, Deise. – Ficamos abraçadas por um longo tempo, ato que não fazíamos há anos, tempo em que desfizemos a nossa amizade.

Ela me levou até o sofá, onde ficamos sentados por mais um longo espaço de tempo. Os pais dela traziam água para a gente. Carlos encarava o celular em busca de mais respostas. A mensagem que mandou para Marcos foi recebida, mas não respondida. Esperava que aquilo fosse mentira, fosse um pesadelo que não conseguiam esquecer.

Eu, sem reparar muito bem, fazia o mesmo. Não conseguia ver a tela por causa das lágrimas, até que me deparo com a última postagem de Marcos. Provavelmente, antes do ataque. Ao analisar perfeitamente o que ele escreveu e o tema da postagem, chorei ainda mais. Ele havia feito aquilo e eu estava triste, pois nossos sentimentos eram mútuos, eram recíprocos.

Todos repararam que comecei a chorar ainda mais e mostrei a eles meu celular. O choque foi grande, por causa da tristeza, Soraia me abraçou novamente, mas não pude realizar o mesmo.

—A gente falou disso antes da viagem... Falamos quase todos os dias durante o intercâmbio... Ele queria fazer surpresa... – A postagem brilhava em meu celular, "Relacionamento Sério". Era uma surpresa, pois meu nome estava marcado e destacado na postagem. Eu diria "Sim, mil vezes sim" para ele e não me importaria com o que os demais falassem. Eu e ele felizes seria o nosso objetivo. Porém, não foi possível.

Foram duas semanas de puro desespero que passamos. Os pais de Marcos, custosamente, conseguiram ir para Londres em busca do corpo do filho. Eles preferiram cremar o corpo, pois era o processo mais fácil para trazer o filho até a cidade deles. Eu, na pior hora, conheci a minha sogra e meu sogro, pois me chamaram para ir até a casa deles antes que partissem em busca do filho. Ambos eram jovens, assim como o filho que tinham; ambos inchados de tanto chorar pela perda trágica do filho.

—Você é Deise? – Confirmei e eles se apresentaram. Conversamos por um tempo, trocamos sorrisos, mas lágrimas prevaleceram. Por meio da postagem, ainda no ar, eles souberam que Marcos me pediu em namoro e contei com tudo aconteceu antes de Londres. Como disse, não fiquei nem namorei, somente o esperei, contava os dias para vê-lo e abraçá-lo. – Minha querida, eu sinto muito por tudo.

—Obrigado, mas sinto mais por vocês. – E não tínhamos mais o que conversar.

Momentos tristes pedem apoio das pessoas que mais amamos e esse foi o instante em que Carla e Soraia ficaram juntas, por meu intermédio. Carlos e Zé Antônio acolheram nós duas no grupo, mesmo mantendo as conversas intimas entre si. A escola toda nos acolheu de forma estranha, pois nos colocou no centro das atenções que não queríamos. A morte de Marcos abalou tudo e a todos.

Ao término da segunda semana, recebemos uma mensagem. Os pais de Marcos chegaram de viagem e queria organizar uma espécie de velório para o filho. A urna das cinzas seria posta junto do túmulo dos avós, por quem o garoto sempre teve afeto e sofreu quando os avós deixaram nosso plano. Mas, antes, queria fazer uma reunião em homenagem ao filho. Tudo seria no dia seguinte, sábado, às nove da noite em um salão perto do cemitério.

Os familiares dele estavam lá, assim como nós amigos deles. Um notebook foi colocado no meio. Parece que alguns amigos dele que sobreviveram ao ataque queriam acompanhar de perto. Era estranho aquilo, mas parece que ele fez enormes amizades naquele lugar.

Os pais deles falaram sobre o filho e a quão dolorosa foi a perda. Um padre e um pastor foram a pedido dos familiares, já que parte era católica e a outra era evangélica. Os pais aceitaram, afinal, todos vão para um só lugar, perante Ele.

No final, fomos nós que falamos. O texto era grande, mas foi dividido uma parte para cada, já que o montamos juntos. Carla foi para me apoiar, não falou nada. Após terminado tudo, a mãe de Marcos me chamou e pediu para que eu ficasse ao lado dela, pois era namorada do filho dela. Chorei ainda mais, sem me conhecer, me tratou como alguém da família.

Todos passaram por nós e nos cumprimentávamos, sempre com a mesma frase "Meus pêsames". Afinal, não havia nada amais para falar. No final, era quase onze da noite e o salão começou a esvaziar e permanecemos eu, Carlos, Zé Antônio e Soraia, além dos pais dele, porém, precisaram sair para resolver uns problemas.


E assim, ficamos sozinhos, perdidos, desamparados, tristes, solitários. Carlos e Soraia foram embora, Antônio em seguia, fiquei sozinha com as cinzas do meu amado namorado, com que somente um beijo trocamos, mas mensagens de amor foram várias. Antes de tudo terminar e a urna ser colocada ao lado dos avós, me sentei em frente do altar feito a ele: uma pequena mesinha, baixa, com a urna e uma foto dele na frente, além de muitas flores.

—Marcos, nem sei como dizer tudo o que eu sinto, mas eu te amo. – E chorei ainda mais, as palavras não saiam de minha boca e eu não respirava, não me sentia confortável. Eu me sentia só e abandonada. – Assim como disse que nunca me esqueceria, eu nunca te esquecerei.